CONFISSÃO DA ESPERANÇA
( Alô!
Estou trazendo para este espaço, algo que considero de grande importância no que diz respeito ao desenvolvimento individual e a conseqüente transição ao mundo ocidental desde as trevas medievais. Refiro-me ao monumental trabalho da Igreja Evangélica Luterana do Brasil que publicou em 1980 o livro CONFISSÃO DA ESPERANÇA. Quem o desejar poderá adquiri-lo na Concórdia, na São Pedro, 639. Porto Alegre. E, portanto, seja enriquecido de conhecimento histórico-cristão.
Estou trazendo para este espaço, algo que considero de grande importância no que diz respeito ao desenvolvimento individual e a conseqüente transição ao mundo ocidental desde as trevas medievais. Refiro-me ao monumental trabalho da Igreja Evangélica Luterana do Brasil que publicou em 1980 o livro CONFISSÃO DA ESPERANÇA. Quem o desejar poderá adquiri-lo na Concórdia, na São Pedro, 639. Porto Alegre. E, portanto, seja enriquecido de conhecimento histórico-cristão.
Boa leitura.
Atenciosamente,
Ildo B Fernandes )
APRESENTANDO
Ano histórico - O ano de 1980 recebe um significado muito especial para as igrejas luteranas que aceitam as Sagradas Escrituras como a inspirada e infalível palavra de Deus e subscrevem as Confissões Luteranas como sendo a exposição correta das Escri¬turas.
É que em 1980, o luteranismo celebra 450 anos de Confissão de Augsburgo e 400 anos do Livro de Concórdia, o qual contém todos os documentos confessionais da igreja luterana.
0 luteranismo brasileiro tem ainda uma razão particular para agradecer a Deus neste Ano das Confissões Luteranas, pois em 1980 está sendo feito o lançamento do Li¬vro de Concórdia em língua nacional.
Atualidade das confissões - Como o Credo Apostólico, o Credo Niceno, o Cre¬do Atanasiano, a Confissão de Augsburgo, a Apologia da Confissão de Augsburgo, o Cate¬cismo Menor, o Catecismo Maior, os Artigos de Esmalcalde e a Fórmula de Concórdia são documentos que confessam e defendem a fé cristã conforme ensino das Sagradas Escri¬turas, fica evidente que os mesmos não perderam a sua importância, necessidade e atuali¬dade, especialmente nestes dias em que há tanta divisão, confusão e falsificação doutrinária dentro e fora da igreja cristã.
Confissão de Augsburgo - Dada a sua importância histórica e sua exposição doutrinária, a Confissão de Augsburgo é reconhecida como a confissão básica e funda¬mental da igreja luterana. Em seus 28 artigos, ela mostra o que ensina crê e confessa a igreja luterana. Ela expressa e define a identidade confessional da igreja luterana. Exa¬minando estas doutrinas, não será difícil concluir que a igreja luterana é a igreja cristã e apostólica, pois ela confessa, ensina e prega corretamente a palavra de Deus e administra os santos sacramentos instituídos por Cristo Jesus.
Programa nacional - Em 1979 até maio de 1980, toda a programação nacional da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) teve como destaque especial o 75º aniver¬sário de nossa igreja. Sob o lema "Cresçamos em tudo naquele que é cabeça, Cristo" (Efé¬sios 4. 15), a IELB publicou livros, revistas e folhetos; promoveu cursos, conferências e congressos; realizou estudos, cultos e concentrações. Tudo, para expressar sua gratidão a Deus pelas bênçãos recebidas e para incentivar o povo de Deus na busca de maior crescimento do reino de Deus.
Programação semelhante deverá acontecer neste Ano das Confissões Luteranas em todos os lares, congregações, paróquias e distritos da IELB. Além da conscientização sobre a independência administrativa de nossa igreja, todos os congregados são convidados a estudarem os ensinos doutrinários analisados pela Confissão de Augsburgo. Toda a pro¬gramação está sendo preparada em torno do lema que a IELB escolheu para os anos 1980/81: "Guardemos firme a confissão da esperança" (Hebreus 10.23).
Confissão da Esperança - Julgamos que este título é o que melhor poderia tra¬duzir tudo aquilo que a IELB pretende alcançar neste Ano das Confissões Luteranas. Os estudos dos 28 artigos da Confissão de Augsburgo apresentam a palavra de Deus, a verda¬de revelada, a sã doutrina, as grandezas de Deus, o ministério da reconciliação. Por isso, "guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel".
Como usar - Além da leitura particular, Confissão da Esperança quer ser comen¬tado em família, examinado em cultos públicos e cultos de leitura, estudado em estudos bíblicos, nas reuniões dos departamentos da congregação e nos encontros de congressos, conferências e conselho distrital.
Para que possa haver melhor compreensão e aproveitamento, é aconselhável fazer leitura cuidadosa da introdução e da análise do lema. E só então iniciar o estudo dos ar¬tigos. Lembramos aos pastores que não é uma necessidade absoluta seguir a ordem dos artigos. Podem iniciar os estudos nos departamentos com qualquer artigo. Também é oportuno lembrar que, antes de examinar o estudo, seja feita a leitura do texto de cada artigo da Confissão de Augsburgo.
O texto - O texto da Confissão de Augsburgo tem por base o original alemão e a tradução é do Prof. Arnaldo Schü1er, professor do Seminário Concórdia. Participaram conosco na elaboração dos estudos os seguintes colegas: Rev. Nestor L. Beck, secretário executivo do Departamento de Ensino, Rev. Horst R. Kuchenbecker, secretário executivo do Departamento de Educação Paroquial, Rev. Bruno F. Rieth, secretário executivo do Departamento de Assistência Social, Rev. Christiano J. Steyer, Diretor do Instituto Concórdia de São Leopoldo, RS.
Objetivos - Os estudos de Confissão da Esperança têm objetivos claros, entre os quais destacamos: Conhecer melhor as verdades bíblicas expressas e confessadas pelas Confissões Luteranas, especialmente pela Confissão de Augsburgo; levar o povo de Deus ao exame cada vez mais profundo das Sagradas Escrituras; incentivar os cristãos de hoje a praticarem as verdades que formaram o lema dos confessores da Confissão de Augsbur¬go: "Também falarei dos teus testemunhos na presença dos reis, e não me envergonharei" (Salmo 119. 46); conscientizar os membros e congregações da IELB de sua identidade confessional como igreja evangélica luterana; equipar os santos para que tenham condi¬ções "para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós" (1 Pedro 3.15); em suma, transmitir a palavra que "vos pode tornar sábios para a salva¬ção pela fé em Cristo Jesus" (2 Timóteo 3. 15).
Queira Deus operar em todos os corações através desta mensagem, para que o seu povo possa "crescer em tudo naquele que é a cabeça, Cristo" e sempre guardar firme a confissão da esperança.
Leopoldo Heimann Secretário Executivo - Departamento de Comunicação
São Leopoldo/Dezembro/1979
INTRODUÇÃO
Para se entender melhor quando, como e porque surgiu a Confissão de Augsburgo, um pouco de teologia e história sobre as confis¬sões luteranas, reunidas no Livro de Concór¬dia.
Quando O Rei vem libertar e governar o seu povo, tudo se passa como quando um homem manda os empregados semear boa semente na terra lavrada. Enquanto dor¬me o inimigo semeia joio no campo. As sementes germinam, crescem as plantas, e os empregados constatam que há joio no meio do trigo. Querem arrancar o joio. O patrão - não permite, para não arrancarem trigo junto com o joio. Explica: "Deixai-os crescer junto até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: Ajuntai primeiro o joio, em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro" (Mateus 13. 30).
Jesus semeou no mundo a boa semente, que são os filhos do reino. O diabo, po¬rém semeou em meio aos filhos do reino o joio, que são os filhos do mal. Ambos crescem juntos. Somente quando se completarem as épocas do mundo, "mandará o Filho do homem c¬om os seus anjos que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes. Então os jus¬tos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai" (Mateus 13.41-43).
Jesus enviou os apóstolos para anunciarem às nações a boa notícia de que Deus o fez Senhor de tudo e de todos, de modo que salvará a todo homem que lhe pedir socorro, antes que venha como juiz para julgar os vivos e os mortos. O inimigo, porém, enviou mensageiros para anunciarem outras notícias aparentemente boas. Assim aconteceu que, em meio ao povo reunido pela boa notícia de Jesus, apareceram pessoas, aos milhares, que parecem ser, mas não são filhos do reino.
O Senhor, porém, não abandonou seu povo à própria sorte. De acordo com a promessa de que "as portas do inferno não prevalecerão" contra a sua igreja (Mateus 6.18), o Senhor, de tempos em tempos, tem levantado homens que tornaram a proclam¬ar a boa notícia de que ele é o Senhor, o único que pode e quer salvar. Por meio destes porta-vozes tem reunido, sempre de novo, as suas ovelhas, que assim deixaram de seguir a lideres que pareciam ser, mas não eram pastores.
Assim continuará acontecendo, até que o Rei venha reunir todas as nações diante de si, para separar as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabri¬tos. Então dará aos seus amigos o reino do Pai, e aos amigos do diabo condenará "ao fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos" (Mateus 25.31-46).
DA IGREJA APOSTÓLICA AO SÉCULO XVI
Durante os séculos que vão do Pentecoste ao descobrimento do Brasil, o Senhor anunciou o evangelho através de milhares de bocas a inúmeras nações. No Império Roma¬no cresceu tanto o número dos cristãos, que já no século IV o imperador Constantino re¬solveu apoiar o cristianismo. O cristianismo se tornou religião aceita e, mais tarde, religião oficial do Império Romano. Assim milhares de pessoas se tornaram cristãs "por decreto".
Quando, no século V, povos chamados "bárbaros" invadiram a metade ocidental do império, acabaram adotando o cristianismo junto com a cultura e administração públi¬ca dos romanos. Mais uma vez milhares de pessoas se tornaram cristãs por decisão de che¬fes e reis, sem que o Senhor as tivesse libertado e cativado.
Do "casamento" dos bárbaros com os remanescentes do Império Romano Oci¬dental nasceu a Europa. Esta, apesar de dividida em muitas nações, manteve consciência de sua unidade. Chamava-se corpus christianum, o "corpo cristão." Em todos os países as elites falavam o mesmo latim aprendido da igreja. Os regentes europeus se consideravam todos os membros do "corpo dos cristãos" encabeçado pelo papa de Roma.
Lá pelo século XV, a Europa experimentou transformações de vulto. Cresceu a população das cidades. As manufaturas se multiplicaram. Aumentou o comércio em terra como no mar. Homens ligados à produção e ao comércio acumularam riquezas fabulosas. As lideranças intelectuais redescobriram as obras dos poetas, pensadores e artistas da an¬tiguidade grega e romana. Passaram a divulgar novos ideais de vida e sociedade.
As próprias lideranças da igreja abraçam os ideais do paganismo antigo. Papas e bispos, a exemplo dos príncipes, passam a "proteger as artes". Reúnem poetas e artistas para festejar a vida.
Enquanto isso o povo se arrasta na pobreza, ignorância e superstição. Não tem condições de ler as Escrituras; só lhe resta acreditar nos padres e monges e fazer o que mandam. Entrega filhos e filhas aos mosteiros, participa de romarias, faz doações, manda rezar missas, cumpre os jejuns, tudo para tornar-se agradável a Deus e merecer graça para conseguir o céu.
Contudo, a "volta às origens" provocada pelo renascimento faz renascer também o interesse pelas línguas sagradas. Por toda a Europa, em mosteiros, academias e cátedras ligadas ao "novo saber", centenas de homens dedicam-se ao estudo crítico do hebraico e do grego do Antigo e do Novo Testamento. Percebem falhas na Vulgata, na tradução latina oficial (a Vulgata) no ensino e na piedade tradicional. Passam a reclamar, primeiro às escondidas, depois abertamente, "uma reforma na cabeça e nos membros."
A UNIVERSIDADE DE WITTENBERG
Na luta pela renovação do saber, da fé e da piedade cristã, destaca-se a universi¬dade de Wittenberg. Frederico, o Sábio, duque da Saxônia, chefe civil dos eleitores que es¬colhiam o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, a tinha fundado em 1502, para promover o "novo saber". Tinha atraído para a "sua" universidade algumas das cabeças mais brilhantes da época.
Um dos professores era Martinho Lutero, monge da Ordem dos Agostinhos, catedrático de “leitura da Bíblia”.
Lutero tinha aprendido muito bem o hebraico e também o grego. Estava em condições de confrontar o original com a tradução do Antigo e Novo Testamento. Bem cedo constatou deficiências na tradução e erros na piedade popular e no ensino oficial da igreja.
Não guardou para si as descobertas. Passou a denunciar os erros e apontar a ver¬dades cristãs nas aulas, em sermões e em debates.
Quando em 1517 o monge dominicano Tetzel começou a vender indulgências por ordem do arcebispo de Mogúncia e concessão do próprio papa Leão X, protestou com 95 teses que enviou ao arcebispo e que pregou na porta da igreja do castelo de Wittenberg, para provocar um debate público. As teses se espelharam pela Europa como um rastilho de pólvora. A cúria procurou dobrar Lutero pela diplomacia. Mais adiante exigiu retratação. Lutero não se retratou. Foi posto fora da igreja.
A DIETA DE WORMS
Neste meio tempo Carlos I da Espanha havia sido eleito imperador em 1520. Convocou uma assembléia dos representantes do império para o ano seguinte na cidade de Wormz, às margens do Reno. Convocou também Martinho Lutero à assembléia ou die¬ta e exigiu que retirasse o que havia escrito. Lutero respondeu que só o poderia fazer se lhe demonstrassem, à base das Escrituras e de argumentos sólidos, que estava em erro. O imperador o declarou fora da lei e, juntamente com ele, proscreveu a quantos apoiassem a sua causa.
O imperador, porém, não teve condições de aplicar este "edito de Worms" a Martinho Lutero e os príncipes e cidades que apoiavam a reforma. Em 1529, a da dieta de Espira dirigida por Fernando, irmão do imperador, resolveu implementar o edito. Os príncipes e cidades "evangélicos," porém, protestaram pública e formalmen¬te contra a resolução da maioria e apelaram ao concílio geral da igreja (Daí o nome “protestantes"). Em vista disso o edito não foi aplicado, e o problema religioso continuou sem solução. Os líderes da minoria e da maioria, temendo ataques armados, começaram a discutir pactos secretos de defesa mútua.
A DIETA DE AUGSBURGO
Nesta altura o imperador Carlos julgou necessário e possível retornar à Alemanha. Convocou a dieta para a cidade imperial de Augsburgo. Na convocação exigiu que trouxessem pareceres e propostas sobre a maneira de solucionar o conflito religioso. Queria reunir todas as forças sob a bandeira de Cristo, para combater o inimigo, "os turcos” (o império otomano).
Ao receber a convocação, o eleitor João da Saxônia logo mandou Martinho Lutero¬. Philip Melanchthon, Johannes Bugenhagen, Justus Jonas e outros se reunirem para discut¬ir e elaborar o documento exigido. Teólogos e juristas se reuniram em Wittenberg e Torgau. Redigiram uma série de preposições para demonstrar que o Eleitor tinha promovi¬do ou aprovado certas reformas no culto e na piedade por motivo de consciência e, portanto, não podia ser acusado de subversivo. A doutrina da fé em Cristo como única manei¬ra de receber o perdão dos pecados exigia e justificava tais reformas.
Ao preparar o documento os autores se basearam nas Instruções dos Visitadores de 1528. Esta obra tinha sido redigida por Philip Melanchthon e editada por Martinho Lu¬tero para orientar a inspeção e reorganização das igrejas e escolas da Saxônia. (Em abril e maio de 1529 Martinho Lutero havia publicado também o Catecismo Maior e o Catecismo Menor, respectivamente, para acudir à miséria espiritual constatada nas vilas e aldeias da Saxônia).
O documento preparado pela equipe é conhecido pelo nome de "Artigos de Wit¬tenberg-Torgau" ou simplesmente "Artigos de Torgau". Philip Melanchthon serviu-se dele para compor a segunda parte da Confissão de Augsburgo, que descreve e justifica a corre¬ção de "abusos" que tinham invadido o culto e a piedade cristã.
Ao partir para a dieta, o Eleitor levou consigo toda uma caixa de documentos e um grupo considerável de assessores. Martinho Lutero que continuava fora da lei, foi deixado no Castelo de Coburgo, no extremo sul da Saxônia, a poucas horas, à cavalo, da cidade de Augsburgo.
Tendo chegado em Augsburgo, o Eleitor e sua equipe encontraram um ambiente tenso e carregado de rumores. O doutor Johannes Eck, teólogo de Ingolstadt, protegido dos duques da Bavária, havia feito publicar Quatrocentos e Quatro Artigos, que pretendia debater por ocasião da dieta. Procurava demonstrar, por meio de frases arrancadas ao con¬texto, que Martinho Lutero e seus colegas da universidade de Wittenberg eram hereges e subversivos e, portanto, deviam ser destruídos a ferro e fogo.
Philip Melanchthon e os demais assessores se convenceram de que não bastaria apresentar e defender as reformas feitas na Saxônia; era preciso demonstrar que as igrejas e escolas da Saxônia não se tinham desviado da fé cristã, mas continuavam ensinando o que sempre e em todos os lugares se tinha ensinado na igreja cristã, à base das Escrituras Sagradas.
Em vista disso Melanchthon não se contentou em reescrever os artigos discuti¬dos em Torgau. Acrescentou-lhes uma exposição sucinta, mas completa, do que se ensina¬va nas igrejas e escolas da Saxônia, em conformidade com as Escrituras, os Credos Apostó¬lico e Niceno e os escritos dos pais da igreja.
Para elaborar estes "artigos da fé e doutrina", Melanchthon serviu-se dos "Arti¬gos de Schwabach”.
Servira como fonte a "Confissão" que Lutero tinha publicado em 1528 como terceira parte da obra Da Santa Ceia de Cristo, para assinalar, para sempre, o que cria e ensinava, à base das Escrituras e em conformidade com os credos da igreja cristã. Os "Ar¬tigos de Schwabach" são assim chamados porque foram discutidos na cidade de Schwa¬bach por representantes da Saxônia Eleitoral e da Francônia como base para uma aliança política. Melanchthon também utilizou, em menor escala, os "Artigos de Marburgo", que Martinho Lutero tinha elaborado à base dos de Schwabach, para serem debatidos com Ul¬rich Zwingli e outros representantes da Suíça reformada no castelo de Felipe de Hesse na cidade de Marburgo (outubro de 1529).
Na verdade, Melanchthon a esta altura não tinha escolha. Tinha de ater-se cuida¬dosamente aos "Artigos de Schwabach", para evitar que acusassem o Eleitor de inconstante ¬que, secretamente, o Eleitor havia mandado ao imperador, na cidade austríaca de Innsbruck, uma tradução latina dos "Artigos de Schwabach" e uma copia das instruções dos visitadores. Queria convencer o imperador de que não era verdade o que estavam dizendo dele; que não era herege nem sedicioso (Em resposta, o imperador mandou proibir as pregações evangélicas na cidade de Augsburgo, e os "evangélicos" - ou "luteranos", como preferiam os adversários não tiveram escolha senão submeter-se).
Neste meio tempo o Eleitor e assessores mantiveram Martinho Lutero informado¬. Estafetas a cavalo iam e vinham entre Augsburgo e Coburgo. Foi assim que Lutero pode ¬ler e aprovar a nova redação do documento. Este deixou de ser chamado apologia (def¬esa) para chamar-se confessio (confissão).
Entrementes, o Eleitor, os príncipes e os príncipes "evangélicos" vinham discutindo se convinha apresentar cada qual um documento em separado ou submeter em nome de todos o documento que fora elaborado pela equipe de Wittenberg. Discutia-se também se era conveniente aceitar o imperador como árbitro em matéria de fé ou se con¬vinha antes apelar a um concílio geral da igreja cristã.
Quando o imperador finalmente chegou a Augsburgo em meados de junho, esta¬va decidido que o documento redigido por Philip Melanchthon seria submetido em nome de todos os "evangélicos". Decidiu-se ainda que, no prefácio, os signatários se declarariam dispostos a participar de conversações visando a solução pacífica do problema religioso, deixariam bem claro que, se as conversações fracassassem, não aceitariam a decisão do imperador como final, mas renovariam o apelo para um concilio geral da igreja. Dessa maneira o prefácio que Melanchthon tinha redigido cuidadosamente para conquistar as boas graças do imperador e defender o Eleitor, foi posto de lado e substituído por outro redigido pelo chanceler Georg Brueck, na linguagem e estilo próprios da diplomacia imperial.
Assim nasceu o documento que passou à história com o nome de Confissão de Augsburgo. No prefácio, uma declaração inequívoca dos termos em que os príncipes e ci¬dades "evangélicos" corresponderam à exigência do imperador de submeter seu "parecer e sugestão" sobre a maneira de superar a divisão religiosa na Alemanha. Na primeira parte, uma formulação clara, sucinta e completa do que se ensinava nas igrejas e escolas "evangé¬licas" (artigos da fé e doutrina). cf. C.A. VII: ad unit ecclesiae. Na segunda parte, a descri¬ção e justificativa das alterações feitas no culto e na prática da piedade cristã ("artigos so¬bre os quais há dissensão, nos quais se descrevem os abusos que foram alterados"). Na conclusão, uma reafirmação do propósito de dialogar sobre os diversos artigos e oferecer maiores explicações à base das Escrituras. Em suma, o primeiro documento oficial que de¬fine, perante o império e a igreja, a identidade de um grupo de homens do que veio a cha¬mar-se mais tarde - por imposição dos adversários, não por própria escolha - "a igreja luterana"
LEITURA PÚBLICA E "REFUTAÇÃO"
Na tarde do dia 25 de junho de 1530 o imperador convocou a assembléia impe¬rial para a sala do palácio dos bispos em que estava residindo. O chanceler da Saxônia, Christian Beyer, leu o texto alemão da confissão e defesa dos sete príncipes e duas cidades "evangélicos". Quando iniciou a leitura, os príncipes se puseram em pé diante do impera¬dor e de toda a assembléia. O chanceler leu em voz alta e clara e a multidão, reunida em torno do palácio, não perdeu palavra.
Muitos dos príncipes e bispos católicos ficaram impressionados com a confissão serena da verdade evangélica. Convenceram-se de que até então só tinham ouvido calúnias a respeito dos "luteranos". Cinco cidades aderiram à confissão antes de terminar a dieta.
Em vista da confissão pública do nome de Cristo na dieta, o título da confissão passou a ostentar este lema: "Falarei dos teus testemunhos na presença dos reis e não serei confundido "(Salmo 119. 46).
Os chanceleres luteranos entregaram ao imperador tanto o texto alemão como o texto latino da confissão. O imperador encarregou uma equipe de teólogos liderada pelo doutor Johannes Eck de elaborar a resposta católica à confissão.
A equipe de mais de vinte teólogos produziu uma "Resposta Católica" de mais de trezentas folhas. O imperador a rejeitou. O Dr. Eck então redigiu sozinho a "Refutação Pontifícia". O imperador a fez ler perante a assembléia e declarou que, com isso, a confis¬são luterana estava refutada. Ao proceder desta maneira, o imperador demonstrou que não era nem pretendia ser imparcial.
Os luteranos pediram, mas não receberam cópia da "Refutação". À base de apontamentos, Philip Melanchthon compôs, e os príncipes luteranos tentaram entregar ao imperador uma "Defesa" (Apologia) da confissão. Queriam demonstrar que a confissão de forma alguma tinha sido refutada. O imperador, porém, não a recebeu.
Conforme havia sido previsto na convocação da dieta, representantes da maioria católica e da minoria luterana se reuniram para conversações sobre a "Confissão" e a "Re¬futação". Conseguiram progredir, mas não chegaram a concordar em pontos decisivos. O fracasso das conversações decepcionou a todos, exceção feita dos que desejavam ação vio¬lenta contra os "luteranos". No documento final da dieta, publicado no mês de novem¬bro, o imperador reafirmou que a confissão tinha sido refutada e concedeu aos príncipes e cidades "luteranos" um prazo de cinco meses para acatarem a "Refutação", e retorna¬rem ao seio da igreja, caso contrário seriam sujeitos às penas do edito de Worms.
Apesar da linguagem dura, este "prazo para pensar" indicava que o imperador não podia ou não queria, de imediato, aplicar a força militar contra os luteranos.
DA CONFISSÃO DE AUGSBURGO AO LIVRO DA CONCÓRDIA
Durante o ano de 1531 Philip Melanchthon redigiu a "Apologia", uma defesa ex¬tensa e cuidadosa da "Confissão". Apesar da proibição do imperador, publicou o texto da Confissão juntamente com o da Apologia, primeiro em latim e depois em alemão. Esta primeira edição do texto da Confissão Melanchthon introduziu várias modi¬ficações para clarificar e reforçar a posição luterana. Nas edições posteriores fez novas me¬lhorias. Na edição latina de 1540 procurou fazer justiça aos acordos obtidos com repre¬sentantes de territórios e cidades do Sul da Alemanha quanto à santa ceia que não coincidia com a intenção original da Confissão. Por isso a "edição alterada" (variata) adquiriu má fama nas lutas travadas entre os luteranos depois da morte de Martinho Lutero.
Entrementes, vendo-se ameaçados pelo imperador, as forças "luteranas" se organizaram¬ numa liga de defesa mútua, a Liga de Esmalcalde. Condição para ingressar na liga era subscrever à Confissão de Augsburgo.
Quando em 1536 o papa convocou um concilio geral da igreja, os representantes dos territórios luteranos se reuniram em Esmalcalde para decidir sobre os rumos a tomar (fevereiro de 1537). Nesta ocasião reafirmaram a Confissão de Augsburgo e a Apologia. Aprovaram também um "Tratado" sobre o poder do papa e dos bispos, redigido por Philip Melanchthon. Para esse encontro, Martinho Lutero redigiu a pedido do Eleitor João Frederico, uma série de "Artigos" para definir a posição que os luteranos deveriam defender¬, se participassem do concílio. Distinguiu entre "posições inegociáveis" e "posições sobre as quais se poderia debater". Estes "Artigos" foram aprovados pelos teólogos, mas não foram debatidos oficialmente pelos representantes reunidos em Esmalcalde. Passaram à história como “Artigos de Esmalcalde’’”.
Na década de 1540 a Confissão de Augsburgo serviu de base para novos diálogos entre teólogos católicos e "luteranos", promovidos pelo imperador.
Na mesma década, o imperador sentiu-se forte para mover guerra aos "luterano¬s", a fim de forçá-los a participar do concílio. Conseguiu conquistar diversos territórios. Nestes impôs uma solução provisória (ínterim). (Concedeu aos “luteranos” certos direitos como o casamento aos pastores e a santa ceia com pão e vinho), mas exigiu que restaurassem vários dos ensinamentos práticos tradicionais.
Forçados pelas circunstâncias, muito líderes "luteranos" acataram esta "solução provisória", que deveria vigorar até o concílio aprovar uma solução final. Outros, porém, a combateram com máxima violência verbal. Esta e outras questões dividiram os "luteranos" profundamente nas três décadas que vão da morte de Lutero em 1546 à aprovação da "Fórmula de Concórdia" em 1577.
Novas alterações no cenário político, porém, favoreceram as forças "luteranas", e o imperador se viu obrigado a retroceder. Finalmente resolveu solucionar o problema sem apoio do papa e sem ligar para o concílio. Mandou a assembléia imperial reunir-se em Augsburgo, em 1555, e tanto ele como muitos dos príncipes não compareceram pessoal¬mente. Diplomatas e juristas enviados pelos príncipes negociaram a "paz de Augsburgo". Ficou acertado que príncipes ou bispos católicos e signatários da Confissão de Augsburgo passariam a respeitar-se mutuamente, sem recorrer à força armada para impor soluções re¬ligiosas. O povo adotaria a confissão do respectivo regente. As minorias teriam o direito de emigrar para territórios e cidades da confissão que lhes conviesse.
Depois da "paz de Augsburgo", a nova geração de líderes políticos e religiosos se viu obrigada a lutar pela verdade do evangelho, tanto interna como externamente. Teve de enfrentar a ofensiva desencadeada pela Ordem dos Jesuítas a partir do Concílio de Tren¬to. Precisou defender-se contra as forças calvinistas, que buscavam a proteção da Confis¬são de Augsburgo, já que a "paz de Augsburgo" valia somente para os signatários da Confissão de Augsburgo. Internamente viu-se obrigada a clarificar a posição de Lutero e Me¬lanchthon e a combater deturpações da Confissão de Augsburgo.
Na década de 1570, príncipes como teólogos ansiavam por paz interna. Vários deles começaram a promover estudos e encontros visando a superar as divergências teoló¬gicas (e políticas e pessoais). O resultado de tanto esforço e orações foi a aprovação, em maio de 1577, da "Fórmula da Concórdia ", em que se reafirma e explicita a fé confessada em Augsburgo em 1530.
Em 25 de junho de 1580, por ocasião do cinqüentenário da Confissão de Augs¬burgo, foi publicado o Livro de Concórdia. Neste livro se reuniram, para testemunho às gerações futuras, os documentos que confessam e defendem a fé cristã, conforme confes¬sada, ensinada e defendida pelas igrejas e escolas "luteranas": o Credo Apostólico, o Cre¬do Niceno, o Credo Atanasiano, a Confissão de Augsburgo, a Apologia da Confissão de Augsburgo, o Catecismo Menor e o Catecismo Maior, os Artigos de Esmalcalde, o Tratado sobre o Poder do Papa e a Fórmula da Concórdia. No prefácio, os líderes luteranos desta¬cam que todos estes últimos documentos se destinam a reafirmar a fé confessada em 1530 na dieta de Augsburgo, a fé única e verdadeira da igreja cristã e apostólica, confessada nos Credos, Apostólico, Niceno e Atanasiano, em conformidade com as Escrituras Sagradas.
A IMPORTÂNCIA DA CONFISSÃO DE AUGSBURGO
A Confissão de Augsburgo é a certidão de nascimento ou constituição do que se convencionou chamar "a igreja (evangélica) luterana".
A Confissão de Augsburgo expressa e define a identidade da igreja luterana. Quer alguém saber o que é e pretende a igreja luterana, encontrará a resposta na Confissão de Augsburgo. Aí verá que a igreja luterana é a própria igreja cristã e apostólica. É a igreja "católica", que "em todos os tempos e lugares" tem confessado, pelo poder do Espírito Santo, que Jesus Cristo é o único Senhor e Redentor, para a glória de Deus Pai. É a igreja "ortodoxa”, que tem confessado e ensinado corretamente o evangelho e distribuindo os sa¬cramentos de acordo com o mesmo evangelho de Jesus Cristo.
Seria impossível traçar aqui a influência da Confissão de Augsburgo sobre outras igrejas nascidas dos movimentos de Reforma do século XVI. Lembremos apenas que ser¬viu "de base para confissões da igreja da Inglaterra (hoje conhecida por Anglicana ou Epis¬copal) e para confissões elaboradas por reformadores do Sul da Alemanha e da Suíça ale¬mã e francesa. Através delas tem influenciado diversas igrejas conhecidas como "reforma¬das", como por exemplo a da Holanda e a da Escócia, que vieram a dar as igrejas presbite¬rianas e congregacionais.
Olhando o cenário da atualidade, lamentamos as divisões que esfacelam a igreja. Precisamos afirmar, porém, que a culpa dessas divisões não cabe aos confessores de Augs¬burgo, mas cabe à maioria que não reconheceu então, como não reconhecem hoje o tes¬temunho claro da verdade anunciada ao mundo pelos apóstolos de Jesus Cristo.
O campo do mundo, inclusive as igrejas, abriga tanto trigo como joio, filhos do reino como filhos do diabo. Caberá ao Senhor, e somente a ele, separar uns dos outros no dia da colheita. Por isso rogamos com todos os mártires e santos: "Maranatha, vem Senhor nosso!" (1 Coríntios 16.22).
Nestor Beck
Ildo B Fernandes )
APRESENTANDO
Ano histórico - O ano de 1980 recebe um significado muito especial para as igrejas luteranas que aceitam as Sagradas Escrituras como a inspirada e infalível palavra de Deus e subscrevem as Confissões Luteranas como sendo a exposição correta das Escri¬turas.
É que em 1980, o luteranismo celebra 450 anos de Confissão de Augsburgo e 400 anos do Livro de Concórdia, o qual contém todos os documentos confessionais da igreja luterana.
0 luteranismo brasileiro tem ainda uma razão particular para agradecer a Deus neste Ano das Confissões Luteranas, pois em 1980 está sendo feito o lançamento do Li¬vro de Concórdia em língua nacional.
Atualidade das confissões - Como o Credo Apostólico, o Credo Niceno, o Cre¬do Atanasiano, a Confissão de Augsburgo, a Apologia da Confissão de Augsburgo, o Cate¬cismo Menor, o Catecismo Maior, os Artigos de Esmalcalde e a Fórmula de Concórdia são documentos que confessam e defendem a fé cristã conforme ensino das Sagradas Escri¬turas, fica evidente que os mesmos não perderam a sua importância, necessidade e atuali¬dade, especialmente nestes dias em que há tanta divisão, confusão e falsificação doutrinária dentro e fora da igreja cristã.
Confissão de Augsburgo - Dada a sua importância histórica e sua exposição doutrinária, a Confissão de Augsburgo é reconhecida como a confissão básica e funda¬mental da igreja luterana. Em seus 28 artigos, ela mostra o que ensina crê e confessa a igreja luterana. Ela expressa e define a identidade confessional da igreja luterana. Exa¬minando estas doutrinas, não será difícil concluir que a igreja luterana é a igreja cristã e apostólica, pois ela confessa, ensina e prega corretamente a palavra de Deus e administra os santos sacramentos instituídos por Cristo Jesus.
Programa nacional - Em 1979 até maio de 1980, toda a programação nacional da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) teve como destaque especial o 75º aniver¬sário de nossa igreja. Sob o lema "Cresçamos em tudo naquele que é cabeça, Cristo" (Efé¬sios 4. 15), a IELB publicou livros, revistas e folhetos; promoveu cursos, conferências e congressos; realizou estudos, cultos e concentrações. Tudo, para expressar sua gratidão a Deus pelas bênçãos recebidas e para incentivar o povo de Deus na busca de maior crescimento do reino de Deus.
Programação semelhante deverá acontecer neste Ano das Confissões Luteranas em todos os lares, congregações, paróquias e distritos da IELB. Além da conscientização sobre a independência administrativa de nossa igreja, todos os congregados são convidados a estudarem os ensinos doutrinários analisados pela Confissão de Augsburgo. Toda a pro¬gramação está sendo preparada em torno do lema que a IELB escolheu para os anos 1980/81: "Guardemos firme a confissão da esperança" (Hebreus 10.23).
Confissão da Esperança - Julgamos que este título é o que melhor poderia tra¬duzir tudo aquilo que a IELB pretende alcançar neste Ano das Confissões Luteranas. Os estudos dos 28 artigos da Confissão de Augsburgo apresentam a palavra de Deus, a verda¬de revelada, a sã doutrina, as grandezas de Deus, o ministério da reconciliação. Por isso, "guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel".
Como usar - Além da leitura particular, Confissão da Esperança quer ser comen¬tado em família, examinado em cultos públicos e cultos de leitura, estudado em estudos bíblicos, nas reuniões dos departamentos da congregação e nos encontros de congressos, conferências e conselho distrital.
Para que possa haver melhor compreensão e aproveitamento, é aconselhável fazer leitura cuidadosa da introdução e da análise do lema. E só então iniciar o estudo dos ar¬tigos. Lembramos aos pastores que não é uma necessidade absoluta seguir a ordem dos artigos. Podem iniciar os estudos nos departamentos com qualquer artigo. Também é oportuno lembrar que, antes de examinar o estudo, seja feita a leitura do texto de cada artigo da Confissão de Augsburgo.
O texto - O texto da Confissão de Augsburgo tem por base o original alemão e a tradução é do Prof. Arnaldo Schü1er, professor do Seminário Concórdia. Participaram conosco na elaboração dos estudos os seguintes colegas: Rev. Nestor L. Beck, secretário executivo do Departamento de Ensino, Rev. Horst R. Kuchenbecker, secretário executivo do Departamento de Educação Paroquial, Rev. Bruno F. Rieth, secretário executivo do Departamento de Assistência Social, Rev. Christiano J. Steyer, Diretor do Instituto Concórdia de São Leopoldo, RS.
Objetivos - Os estudos de Confissão da Esperança têm objetivos claros, entre os quais destacamos: Conhecer melhor as verdades bíblicas expressas e confessadas pelas Confissões Luteranas, especialmente pela Confissão de Augsburgo; levar o povo de Deus ao exame cada vez mais profundo das Sagradas Escrituras; incentivar os cristãos de hoje a praticarem as verdades que formaram o lema dos confessores da Confissão de Augsbur¬go: "Também falarei dos teus testemunhos na presença dos reis, e não me envergonharei" (Salmo 119. 46); conscientizar os membros e congregações da IELB de sua identidade confessional como igreja evangélica luterana; equipar os santos para que tenham condi¬ções "para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós" (1 Pedro 3.15); em suma, transmitir a palavra que "vos pode tornar sábios para a salva¬ção pela fé em Cristo Jesus" (2 Timóteo 3. 15).
Queira Deus operar em todos os corações através desta mensagem, para que o seu povo possa "crescer em tudo naquele que é a cabeça, Cristo" e sempre guardar firme a confissão da esperança.
Leopoldo Heimann Secretário Executivo - Departamento de Comunicação
São Leopoldo/Dezembro/1979
INTRODUÇÃO
Para se entender melhor quando, como e porque surgiu a Confissão de Augsburgo, um pouco de teologia e história sobre as confis¬sões luteranas, reunidas no Livro de Concór¬dia.
Quando O Rei vem libertar e governar o seu povo, tudo se passa como quando um homem manda os empregados semear boa semente na terra lavrada. Enquanto dor¬me o inimigo semeia joio no campo. As sementes germinam, crescem as plantas, e os empregados constatam que há joio no meio do trigo. Querem arrancar o joio. O patrão - não permite, para não arrancarem trigo junto com o joio. Explica: "Deixai-os crescer junto até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: Ajuntai primeiro o joio, em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro" (Mateus 13. 30).
Jesus semeou no mundo a boa semente, que são os filhos do reino. O diabo, po¬rém semeou em meio aos filhos do reino o joio, que são os filhos do mal. Ambos crescem juntos. Somente quando se completarem as épocas do mundo, "mandará o Filho do homem c¬om os seus anjos que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes. Então os jus¬tos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai" (Mateus 13.41-43).
Jesus enviou os apóstolos para anunciarem às nações a boa notícia de que Deus o fez Senhor de tudo e de todos, de modo que salvará a todo homem que lhe pedir socorro, antes que venha como juiz para julgar os vivos e os mortos. O inimigo, porém, enviou mensageiros para anunciarem outras notícias aparentemente boas. Assim aconteceu que, em meio ao povo reunido pela boa notícia de Jesus, apareceram pessoas, aos milhares, que parecem ser, mas não são filhos do reino.
O Senhor, porém, não abandonou seu povo à própria sorte. De acordo com a promessa de que "as portas do inferno não prevalecerão" contra a sua igreja (Mateus 6.18), o Senhor, de tempos em tempos, tem levantado homens que tornaram a proclam¬ar a boa notícia de que ele é o Senhor, o único que pode e quer salvar. Por meio destes porta-vozes tem reunido, sempre de novo, as suas ovelhas, que assim deixaram de seguir a lideres que pareciam ser, mas não eram pastores.
Assim continuará acontecendo, até que o Rei venha reunir todas as nações diante de si, para separar as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabri¬tos. Então dará aos seus amigos o reino do Pai, e aos amigos do diabo condenará "ao fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos" (Mateus 25.31-46).
DA IGREJA APOSTÓLICA AO SÉCULO XVI
Durante os séculos que vão do Pentecoste ao descobrimento do Brasil, o Senhor anunciou o evangelho através de milhares de bocas a inúmeras nações. No Império Roma¬no cresceu tanto o número dos cristãos, que já no século IV o imperador Constantino re¬solveu apoiar o cristianismo. O cristianismo se tornou religião aceita e, mais tarde, religião oficial do Império Romano. Assim milhares de pessoas se tornaram cristãs "por decreto".
Quando, no século V, povos chamados "bárbaros" invadiram a metade ocidental do império, acabaram adotando o cristianismo junto com a cultura e administração públi¬ca dos romanos. Mais uma vez milhares de pessoas se tornaram cristãs por decisão de che¬fes e reis, sem que o Senhor as tivesse libertado e cativado.
Do "casamento" dos bárbaros com os remanescentes do Império Romano Oci¬dental nasceu a Europa. Esta, apesar de dividida em muitas nações, manteve consciência de sua unidade. Chamava-se corpus christianum, o "corpo cristão." Em todos os países as elites falavam o mesmo latim aprendido da igreja. Os regentes europeus se consideravam todos os membros do "corpo dos cristãos" encabeçado pelo papa de Roma.
Lá pelo século XV, a Europa experimentou transformações de vulto. Cresceu a população das cidades. As manufaturas se multiplicaram. Aumentou o comércio em terra como no mar. Homens ligados à produção e ao comércio acumularam riquezas fabulosas. As lideranças intelectuais redescobriram as obras dos poetas, pensadores e artistas da an¬tiguidade grega e romana. Passaram a divulgar novos ideais de vida e sociedade.
As próprias lideranças da igreja abraçam os ideais do paganismo antigo. Papas e bispos, a exemplo dos príncipes, passam a "proteger as artes". Reúnem poetas e artistas para festejar a vida.
Enquanto isso o povo se arrasta na pobreza, ignorância e superstição. Não tem condições de ler as Escrituras; só lhe resta acreditar nos padres e monges e fazer o que mandam. Entrega filhos e filhas aos mosteiros, participa de romarias, faz doações, manda rezar missas, cumpre os jejuns, tudo para tornar-se agradável a Deus e merecer graça para conseguir o céu.
Contudo, a "volta às origens" provocada pelo renascimento faz renascer também o interesse pelas línguas sagradas. Por toda a Europa, em mosteiros, academias e cátedras ligadas ao "novo saber", centenas de homens dedicam-se ao estudo crítico do hebraico e do grego do Antigo e do Novo Testamento. Percebem falhas na Vulgata, na tradução latina oficial (a Vulgata) no ensino e na piedade tradicional. Passam a reclamar, primeiro às escondidas, depois abertamente, "uma reforma na cabeça e nos membros."
A UNIVERSIDADE DE WITTENBERG
Na luta pela renovação do saber, da fé e da piedade cristã, destaca-se a universi¬dade de Wittenberg. Frederico, o Sábio, duque da Saxônia, chefe civil dos eleitores que es¬colhiam o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, a tinha fundado em 1502, para promover o "novo saber". Tinha atraído para a "sua" universidade algumas das cabeças mais brilhantes da época.
Um dos professores era Martinho Lutero, monge da Ordem dos Agostinhos, catedrático de “leitura da Bíblia”.
Lutero tinha aprendido muito bem o hebraico e também o grego. Estava em condições de confrontar o original com a tradução do Antigo e Novo Testamento. Bem cedo constatou deficiências na tradução e erros na piedade popular e no ensino oficial da igreja.
Não guardou para si as descobertas. Passou a denunciar os erros e apontar a ver¬dades cristãs nas aulas, em sermões e em debates.
Quando em 1517 o monge dominicano Tetzel começou a vender indulgências por ordem do arcebispo de Mogúncia e concessão do próprio papa Leão X, protestou com 95 teses que enviou ao arcebispo e que pregou na porta da igreja do castelo de Wittenberg, para provocar um debate público. As teses se espelharam pela Europa como um rastilho de pólvora. A cúria procurou dobrar Lutero pela diplomacia. Mais adiante exigiu retratação. Lutero não se retratou. Foi posto fora da igreja.
A DIETA DE WORMS
Neste meio tempo Carlos I da Espanha havia sido eleito imperador em 1520. Convocou uma assembléia dos representantes do império para o ano seguinte na cidade de Wormz, às margens do Reno. Convocou também Martinho Lutero à assembléia ou die¬ta e exigiu que retirasse o que havia escrito. Lutero respondeu que só o poderia fazer se lhe demonstrassem, à base das Escrituras e de argumentos sólidos, que estava em erro. O imperador o declarou fora da lei e, juntamente com ele, proscreveu a quantos apoiassem a sua causa.
O imperador, porém, não teve condições de aplicar este "edito de Worms" a Martinho Lutero e os príncipes e cidades que apoiavam a reforma. Em 1529, a da dieta de Espira dirigida por Fernando, irmão do imperador, resolveu implementar o edito. Os príncipes e cidades "evangélicos," porém, protestaram pública e formalmen¬te contra a resolução da maioria e apelaram ao concílio geral da igreja (Daí o nome “protestantes"). Em vista disso o edito não foi aplicado, e o problema religioso continuou sem solução. Os líderes da minoria e da maioria, temendo ataques armados, começaram a discutir pactos secretos de defesa mútua.
A DIETA DE AUGSBURGO
Nesta altura o imperador Carlos julgou necessário e possível retornar à Alemanha. Convocou a dieta para a cidade imperial de Augsburgo. Na convocação exigiu que trouxessem pareceres e propostas sobre a maneira de solucionar o conflito religioso. Queria reunir todas as forças sob a bandeira de Cristo, para combater o inimigo, "os turcos” (o império otomano).
Ao receber a convocação, o eleitor João da Saxônia logo mandou Martinho Lutero¬. Philip Melanchthon, Johannes Bugenhagen, Justus Jonas e outros se reunirem para discut¬ir e elaborar o documento exigido. Teólogos e juristas se reuniram em Wittenberg e Torgau. Redigiram uma série de preposições para demonstrar que o Eleitor tinha promovi¬do ou aprovado certas reformas no culto e na piedade por motivo de consciência e, portanto, não podia ser acusado de subversivo. A doutrina da fé em Cristo como única manei¬ra de receber o perdão dos pecados exigia e justificava tais reformas.
Ao preparar o documento os autores se basearam nas Instruções dos Visitadores de 1528. Esta obra tinha sido redigida por Philip Melanchthon e editada por Martinho Lu¬tero para orientar a inspeção e reorganização das igrejas e escolas da Saxônia. (Em abril e maio de 1529 Martinho Lutero havia publicado também o Catecismo Maior e o Catecismo Menor, respectivamente, para acudir à miséria espiritual constatada nas vilas e aldeias da Saxônia).
O documento preparado pela equipe é conhecido pelo nome de "Artigos de Wit¬tenberg-Torgau" ou simplesmente "Artigos de Torgau". Philip Melanchthon serviu-se dele para compor a segunda parte da Confissão de Augsburgo, que descreve e justifica a corre¬ção de "abusos" que tinham invadido o culto e a piedade cristã.
Ao partir para a dieta, o Eleitor levou consigo toda uma caixa de documentos e um grupo considerável de assessores. Martinho Lutero que continuava fora da lei, foi deixado no Castelo de Coburgo, no extremo sul da Saxônia, a poucas horas, à cavalo, da cidade de Augsburgo.
Tendo chegado em Augsburgo, o Eleitor e sua equipe encontraram um ambiente tenso e carregado de rumores. O doutor Johannes Eck, teólogo de Ingolstadt, protegido dos duques da Bavária, havia feito publicar Quatrocentos e Quatro Artigos, que pretendia debater por ocasião da dieta. Procurava demonstrar, por meio de frases arrancadas ao con¬texto, que Martinho Lutero e seus colegas da universidade de Wittenberg eram hereges e subversivos e, portanto, deviam ser destruídos a ferro e fogo.
Philip Melanchthon e os demais assessores se convenceram de que não bastaria apresentar e defender as reformas feitas na Saxônia; era preciso demonstrar que as igrejas e escolas da Saxônia não se tinham desviado da fé cristã, mas continuavam ensinando o que sempre e em todos os lugares se tinha ensinado na igreja cristã, à base das Escrituras Sagradas.
Em vista disso Melanchthon não se contentou em reescrever os artigos discuti¬dos em Torgau. Acrescentou-lhes uma exposição sucinta, mas completa, do que se ensina¬va nas igrejas e escolas da Saxônia, em conformidade com as Escrituras, os Credos Apostó¬lico e Niceno e os escritos dos pais da igreja.
Para elaborar estes "artigos da fé e doutrina", Melanchthon serviu-se dos "Arti¬gos de Schwabach”.
Servira como fonte a "Confissão" que Lutero tinha publicado em 1528 como terceira parte da obra Da Santa Ceia de Cristo, para assinalar, para sempre, o que cria e ensinava, à base das Escrituras e em conformidade com os credos da igreja cristã. Os "Ar¬tigos de Schwabach" são assim chamados porque foram discutidos na cidade de Schwa¬bach por representantes da Saxônia Eleitoral e da Francônia como base para uma aliança política. Melanchthon também utilizou, em menor escala, os "Artigos de Marburgo", que Martinho Lutero tinha elaborado à base dos de Schwabach, para serem debatidos com Ul¬rich Zwingli e outros representantes da Suíça reformada no castelo de Felipe de Hesse na cidade de Marburgo (outubro de 1529).
Na verdade, Melanchthon a esta altura não tinha escolha. Tinha de ater-se cuida¬dosamente aos "Artigos de Schwabach", para evitar que acusassem o Eleitor de inconstante ¬que, secretamente, o Eleitor havia mandado ao imperador, na cidade austríaca de Innsbruck, uma tradução latina dos "Artigos de Schwabach" e uma copia das instruções dos visitadores. Queria convencer o imperador de que não era verdade o que estavam dizendo dele; que não era herege nem sedicioso (Em resposta, o imperador mandou proibir as pregações evangélicas na cidade de Augsburgo, e os "evangélicos" - ou "luteranos", como preferiam os adversários não tiveram escolha senão submeter-se).
Neste meio tempo o Eleitor e assessores mantiveram Martinho Lutero informado¬. Estafetas a cavalo iam e vinham entre Augsburgo e Coburgo. Foi assim que Lutero pode ¬ler e aprovar a nova redação do documento. Este deixou de ser chamado apologia (def¬esa) para chamar-se confessio (confissão).
Entrementes, o Eleitor, os príncipes e os príncipes "evangélicos" vinham discutindo se convinha apresentar cada qual um documento em separado ou submeter em nome de todos o documento que fora elaborado pela equipe de Wittenberg. Discutia-se também se era conveniente aceitar o imperador como árbitro em matéria de fé ou se con¬vinha antes apelar a um concílio geral da igreja cristã.
Quando o imperador finalmente chegou a Augsburgo em meados de junho, esta¬va decidido que o documento redigido por Philip Melanchthon seria submetido em nome de todos os "evangélicos". Decidiu-se ainda que, no prefácio, os signatários se declarariam dispostos a participar de conversações visando a solução pacífica do problema religioso, deixariam bem claro que, se as conversações fracassassem, não aceitariam a decisão do imperador como final, mas renovariam o apelo para um concilio geral da igreja. Dessa maneira o prefácio que Melanchthon tinha redigido cuidadosamente para conquistar as boas graças do imperador e defender o Eleitor, foi posto de lado e substituído por outro redigido pelo chanceler Georg Brueck, na linguagem e estilo próprios da diplomacia imperial.
Assim nasceu o documento que passou à história com o nome de Confissão de Augsburgo. No prefácio, uma declaração inequívoca dos termos em que os príncipes e ci¬dades "evangélicos" corresponderam à exigência do imperador de submeter seu "parecer e sugestão" sobre a maneira de superar a divisão religiosa na Alemanha. Na primeira parte, uma formulação clara, sucinta e completa do que se ensinava nas igrejas e escolas "evangé¬licas" (artigos da fé e doutrina). cf. C.A. VII: ad unit ecclesiae. Na segunda parte, a descri¬ção e justificativa das alterações feitas no culto e na prática da piedade cristã ("artigos so¬bre os quais há dissensão, nos quais se descrevem os abusos que foram alterados"). Na conclusão, uma reafirmação do propósito de dialogar sobre os diversos artigos e oferecer maiores explicações à base das Escrituras. Em suma, o primeiro documento oficial que de¬fine, perante o império e a igreja, a identidade de um grupo de homens do que veio a cha¬mar-se mais tarde - por imposição dos adversários, não por própria escolha - "a igreja luterana"
LEITURA PÚBLICA E "REFUTAÇÃO"
Na tarde do dia 25 de junho de 1530 o imperador convocou a assembléia impe¬rial para a sala do palácio dos bispos em que estava residindo. O chanceler da Saxônia, Christian Beyer, leu o texto alemão da confissão e defesa dos sete príncipes e duas cidades "evangélicos". Quando iniciou a leitura, os príncipes se puseram em pé diante do impera¬dor e de toda a assembléia. O chanceler leu em voz alta e clara e a multidão, reunida em torno do palácio, não perdeu palavra.
Muitos dos príncipes e bispos católicos ficaram impressionados com a confissão serena da verdade evangélica. Convenceram-se de que até então só tinham ouvido calúnias a respeito dos "luteranos". Cinco cidades aderiram à confissão antes de terminar a dieta.
Em vista da confissão pública do nome de Cristo na dieta, o título da confissão passou a ostentar este lema: "Falarei dos teus testemunhos na presença dos reis e não serei confundido "(Salmo 119. 46).
Os chanceleres luteranos entregaram ao imperador tanto o texto alemão como o texto latino da confissão. O imperador encarregou uma equipe de teólogos liderada pelo doutor Johannes Eck de elaborar a resposta católica à confissão.
A equipe de mais de vinte teólogos produziu uma "Resposta Católica" de mais de trezentas folhas. O imperador a rejeitou. O Dr. Eck então redigiu sozinho a "Refutação Pontifícia". O imperador a fez ler perante a assembléia e declarou que, com isso, a confis¬são luterana estava refutada. Ao proceder desta maneira, o imperador demonstrou que não era nem pretendia ser imparcial.
Os luteranos pediram, mas não receberam cópia da "Refutação". À base de apontamentos, Philip Melanchthon compôs, e os príncipes luteranos tentaram entregar ao imperador uma "Defesa" (Apologia) da confissão. Queriam demonstrar que a confissão de forma alguma tinha sido refutada. O imperador, porém, não a recebeu.
Conforme havia sido previsto na convocação da dieta, representantes da maioria católica e da minoria luterana se reuniram para conversações sobre a "Confissão" e a "Re¬futação". Conseguiram progredir, mas não chegaram a concordar em pontos decisivos. O fracasso das conversações decepcionou a todos, exceção feita dos que desejavam ação vio¬lenta contra os "luteranos". No documento final da dieta, publicado no mês de novem¬bro, o imperador reafirmou que a confissão tinha sido refutada e concedeu aos príncipes e cidades "luteranos" um prazo de cinco meses para acatarem a "Refutação", e retorna¬rem ao seio da igreja, caso contrário seriam sujeitos às penas do edito de Worms.
Apesar da linguagem dura, este "prazo para pensar" indicava que o imperador não podia ou não queria, de imediato, aplicar a força militar contra os luteranos.
DA CONFISSÃO DE AUGSBURGO AO LIVRO DA CONCÓRDIA
Durante o ano de 1531 Philip Melanchthon redigiu a "Apologia", uma defesa ex¬tensa e cuidadosa da "Confissão". Apesar da proibição do imperador, publicou o texto da Confissão juntamente com o da Apologia, primeiro em latim e depois em alemão. Esta primeira edição do texto da Confissão Melanchthon introduziu várias modi¬ficações para clarificar e reforçar a posição luterana. Nas edições posteriores fez novas me¬lhorias. Na edição latina de 1540 procurou fazer justiça aos acordos obtidos com repre¬sentantes de territórios e cidades do Sul da Alemanha quanto à santa ceia que não coincidia com a intenção original da Confissão. Por isso a "edição alterada" (variata) adquiriu má fama nas lutas travadas entre os luteranos depois da morte de Martinho Lutero.
Entrementes, vendo-se ameaçados pelo imperador, as forças "luteranas" se organizaram¬ numa liga de defesa mútua, a Liga de Esmalcalde. Condição para ingressar na liga era subscrever à Confissão de Augsburgo.
Quando em 1536 o papa convocou um concilio geral da igreja, os representantes dos territórios luteranos se reuniram em Esmalcalde para decidir sobre os rumos a tomar (fevereiro de 1537). Nesta ocasião reafirmaram a Confissão de Augsburgo e a Apologia. Aprovaram também um "Tratado" sobre o poder do papa e dos bispos, redigido por Philip Melanchthon. Para esse encontro, Martinho Lutero redigiu a pedido do Eleitor João Frederico, uma série de "Artigos" para definir a posição que os luteranos deveriam defender¬, se participassem do concílio. Distinguiu entre "posições inegociáveis" e "posições sobre as quais se poderia debater". Estes "Artigos" foram aprovados pelos teólogos, mas não foram debatidos oficialmente pelos representantes reunidos em Esmalcalde. Passaram à história como “Artigos de Esmalcalde’’”.
Na década de 1540 a Confissão de Augsburgo serviu de base para novos diálogos entre teólogos católicos e "luteranos", promovidos pelo imperador.
Na mesma década, o imperador sentiu-se forte para mover guerra aos "luterano¬s", a fim de forçá-los a participar do concílio. Conseguiu conquistar diversos territórios. Nestes impôs uma solução provisória (ínterim). (Concedeu aos “luteranos” certos direitos como o casamento aos pastores e a santa ceia com pão e vinho), mas exigiu que restaurassem vários dos ensinamentos práticos tradicionais.
Forçados pelas circunstâncias, muito líderes "luteranos" acataram esta "solução provisória", que deveria vigorar até o concílio aprovar uma solução final. Outros, porém, a combateram com máxima violência verbal. Esta e outras questões dividiram os "luteranos" profundamente nas três décadas que vão da morte de Lutero em 1546 à aprovação da "Fórmula de Concórdia" em 1577.
Novas alterações no cenário político, porém, favoreceram as forças "luteranas", e o imperador se viu obrigado a retroceder. Finalmente resolveu solucionar o problema sem apoio do papa e sem ligar para o concílio. Mandou a assembléia imperial reunir-se em Augsburgo, em 1555, e tanto ele como muitos dos príncipes não compareceram pessoal¬mente. Diplomatas e juristas enviados pelos príncipes negociaram a "paz de Augsburgo". Ficou acertado que príncipes ou bispos católicos e signatários da Confissão de Augsburgo passariam a respeitar-se mutuamente, sem recorrer à força armada para impor soluções re¬ligiosas. O povo adotaria a confissão do respectivo regente. As minorias teriam o direito de emigrar para territórios e cidades da confissão que lhes conviesse.
Depois da "paz de Augsburgo", a nova geração de líderes políticos e religiosos se viu obrigada a lutar pela verdade do evangelho, tanto interna como externamente. Teve de enfrentar a ofensiva desencadeada pela Ordem dos Jesuítas a partir do Concílio de Tren¬to. Precisou defender-se contra as forças calvinistas, que buscavam a proteção da Confis¬são de Augsburgo, já que a "paz de Augsburgo" valia somente para os signatários da Confissão de Augsburgo. Internamente viu-se obrigada a clarificar a posição de Lutero e Me¬lanchthon e a combater deturpações da Confissão de Augsburgo.
Na década de 1570, príncipes como teólogos ansiavam por paz interna. Vários deles começaram a promover estudos e encontros visando a superar as divergências teoló¬gicas (e políticas e pessoais). O resultado de tanto esforço e orações foi a aprovação, em maio de 1577, da "Fórmula da Concórdia ", em que se reafirma e explicita a fé confessada em Augsburgo em 1530.
Em 25 de junho de 1580, por ocasião do cinqüentenário da Confissão de Augs¬burgo, foi publicado o Livro de Concórdia. Neste livro se reuniram, para testemunho às gerações futuras, os documentos que confessam e defendem a fé cristã, conforme confes¬sada, ensinada e defendida pelas igrejas e escolas "luteranas": o Credo Apostólico, o Cre¬do Niceno, o Credo Atanasiano, a Confissão de Augsburgo, a Apologia da Confissão de Augsburgo, o Catecismo Menor e o Catecismo Maior, os Artigos de Esmalcalde, o Tratado sobre o Poder do Papa e a Fórmula da Concórdia. No prefácio, os líderes luteranos desta¬cam que todos estes últimos documentos se destinam a reafirmar a fé confessada em 1530 na dieta de Augsburgo, a fé única e verdadeira da igreja cristã e apostólica, confessada nos Credos, Apostólico, Niceno e Atanasiano, em conformidade com as Escrituras Sagradas.
A IMPORTÂNCIA DA CONFISSÃO DE AUGSBURGO
A Confissão de Augsburgo é a certidão de nascimento ou constituição do que se convencionou chamar "a igreja (evangélica) luterana".
A Confissão de Augsburgo expressa e define a identidade da igreja luterana. Quer alguém saber o que é e pretende a igreja luterana, encontrará a resposta na Confissão de Augsburgo. Aí verá que a igreja luterana é a própria igreja cristã e apostólica. É a igreja "católica", que "em todos os tempos e lugares" tem confessado, pelo poder do Espírito Santo, que Jesus Cristo é o único Senhor e Redentor, para a glória de Deus Pai. É a igreja "ortodoxa”, que tem confessado e ensinado corretamente o evangelho e distribuindo os sa¬cramentos de acordo com o mesmo evangelho de Jesus Cristo.
Seria impossível traçar aqui a influência da Confissão de Augsburgo sobre outras igrejas nascidas dos movimentos de Reforma do século XVI. Lembremos apenas que ser¬viu "de base para confissões da igreja da Inglaterra (hoje conhecida por Anglicana ou Epis¬copal) e para confissões elaboradas por reformadores do Sul da Alemanha e da Suíça ale¬mã e francesa. Através delas tem influenciado diversas igrejas conhecidas como "reforma¬das", como por exemplo a da Holanda e a da Escócia, que vieram a dar as igrejas presbite¬rianas e congregacionais.
Olhando o cenário da atualidade, lamentamos as divisões que esfacelam a igreja. Precisamos afirmar, porém, que a culpa dessas divisões não cabe aos confessores de Augs¬burgo, mas cabe à maioria que não reconheceu então, como não reconhecem hoje o tes¬temunho claro da verdade anunciada ao mundo pelos apóstolos de Jesus Cristo.
O campo do mundo, inclusive as igrejas, abriga tanto trigo como joio, filhos do reino como filhos do diabo. Caberá ao Senhor, e somente a ele, separar uns dos outros no dia da colheita. Por isso rogamos com todos os mártires e santos: "Maranatha, vem Senhor nosso!" (1 Coríntios 16.22).
Nestor Beck
LEMA
A Igreja Evangélica Luterana do Brasil esco¬lheu como lema para os anos 1980 / 81 as pa¬lavras de Hebreus 10. 23: "Guardemos firme a confissão da esperança” Examinemos estas palavras.
Comemoramos em 1980 o 4° centenário do LIVRO DE CONCÓRDIA, que foi subscrito no dia 25 de junho de 1580 por 80 príncipes e magistrados. Nesta mesma data também celebramos 450 anos da Confissão de Augsburgo, aceita como a confissão básica da Igreja Luterana. São mais de quatro séculos de bênçãos. O LIVRO DE CONCÓRDIA reúne as principais confissões da igreja cristã.
Para comemorar os 450 anos da Confissão de Augsburgo e os 400 anos do LI¬VRO DE CONCÓRDIA a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) escolheu como lema para 1980-81, a palavra de Deus que encontramos em Hebreus 10.23: "Guardamos firmes a confissão da esperança”: Para que se possa compreender bem a profundi¬dade e oportunidade destas palavras, queremos analisar a Epístola aos Hebreus e os ver¬sículos que precedem e sucedem ao lema.
A Carta aos Hebreus exorta os cristãos a ficarem firmes na fé e a não se escandalizarem com a presente humildade e pobreza exterior da igreja cristã. O estilo da carta é vigoroso e flamante. Autor, destinatários, bem como a época em que a carta foi escrita nos são desconhecidos. Presume-se que a carta se destinava aos cristãos judeus em Roma, foi escrita pouco antes da destruição de Jerusalém, que se deu no ano de 70 AD.
Os cristãos em Roma viviam dias difíceis. Nero, o imperador romano, estava no auge de suas loucuras e perseguia com violência os cristãos. O apóstolo Paulo, provavelmente ¬já fora executado (66 ou 70?). Cristãos pintados com piche, amarrados em postes, queimados como tochas vivas nas ruas de Roma. Confessar a fé cristã significava ex¬por-se ao martírio. Alguns judeus, que aceitaram a fé cristã, vacilaram. Humilhação, perseguições, e morte - é isso o reino de Deus? É Cristo de fato o verdadeiro sumo-sacerdote¬? Daí a exortação para não se escandalizarem com a humilde aparência da igreja cristã, mas permaneceram fumes na fé. A exortação se divide em três temas:
- 1.14.13: por último Deus nos falou, em Jesus Cristo;
- 4.14-10.18: Jesus Cristo, o último sumo-sacerdote;
- 10.19-12.29: exortações e admoestações gerais.
PERMANECEI FIRMES NA FÉ (10.19-25).
Antes de citar as exortações, o autor da Carta aos Hebreus faz um resumo dos capítulos anteriores, mostrando a grande bênção da obra do sumo-sacerdote, Jesus. Estas bênçãos motivam os cristãos a seguirem as admoestações e exortações.
INTREPIDEZ PARA ENTRAR NO SANTO DOS SANTOS - v. 19
O significado da palavra "intrepidez" é ousadia, coragem. Não se pensa aqui na intrepidez perversa, tão característica de nossos dias, onde as pessoas afrontam a Deus e zombam das coisas sagradas. Nosso texto fala da intrepidez que brota da fé, isto é, a cora¬gem, o destemor, a audácia, a alegre confiança para entrar no Santo dos Santos, para che¬gar-se à presença de Deus, para ter comunhão com Deus.
O Santo dos Santos, ou santíssimo, era um recinto no templo judaico do Antigo Testamento. Nele estava a arca do concerto, as tábuas da lei de Deus, o efa de maná, a va¬ra de Araão; ali Deus se fazia presente pela nuvem. Só uma vez ao ano, o sumo-sacerdote devidamente purificado, tendo na mão uma vasilha com o sangue do cordeiro da reconci¬liação, abria o véu do santíssimo e aspergia ali o sangue para a reconciliação (Levítico 16) Isto era simbólico, apontando para a reconciliação que Cristo efetuaria com o seu sacrifí¬cio na cruz.
O sumo-sacerdote executava este trabalho com temor e tremor. Estava ciente da santidade de Deus, do Deus que disse: "Ninguém verá a minha face sem que morra" (Êxo¬do 33.20). O Antigo Testamento está cheio de exemplos de pessoas que foram mortas pe¬la ira de Deus, por terem ousado aproximar-se de Deus. Não fugiu o povo de Israel apavo¬rado, quando Deus lhe falou no monte Sinai (Êxodo 20. 18-21)? Não morreu Nadabe e Abiú por terem comparecido diante do Senhor com fogo estranho (Lucas 10. 1-7)? Não morreu Uzá ao colocar sua mão irreverente na arca de Deus (2 Samuel 6.7)? Como ousa¬ria uma pessoa aproximar-se de Deus, quando Deus mesmo disse: "Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las" (Gálatas 3.10)? Homem algum jamais poderia ousar comparecer diante de Deus, pois "nossos pecados fazem separação entre nós e o nosso Deus" (Isaías 59.2). O sumo-sacerdote o fazia, confiando unicamente no sangue da reconciliação, conforme o protegia da ira de Deus. Este sangue simbolizava o sangue do grande sumo-sacerdote que viria ao mundo para salvar o que estava perdido. Este sumo-sacerdote é Jesus Cristo. Por sua pai¬xão e morte ele nos abriu "um novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu". Es¬te novo caminho vivo é o próprio Jesus que disse: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida ¬ninguém vem ao Pai se não por mim" (João 14.6). Quando Jesus morreu na cruz, o véu se rasgou de alto a baixo, mostrando que os homens foram reconciliados com Deus (Mateus 27.51). Por isso o apóstolo Paulo afirma: "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo mesmo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a pa¬lavra da reconciliação" (2 Coríntios 5.19).
Baseados nesta obra de Cristo, firmados na palavra da reconciliação, temos a ousadia para nos achegar à presença de Deus. Temos a alegre confiança de, apesar de nos¬sas fraquezas e pecados, podermos achegar-nos a Deus, "sem temor e com toda a confian¬ça". Por isso a admoestação:
APROXIMEMO-NOS COM SINCERO CORAÇÃO E PLENA CERTEZA DE FÉ - V. 22
Tendo agora intrepidez, isto é, a alegre confiança em Deus pela graça de Cristo, aproximemo-nos ao Santo dos Santos, à presença de Deus, para comunhão com Deus.
O autor da carta dirige esta admoestação aos irmãos e se inclui a si mesmo. Os irmãos são os que, como ele, ouviram o evangelho da "grande salvação" (2.3), em cujos corações o Espírito Santo operou a fé. Estes devem aproximar-se cada vez mais e mais, para ¬estreitarem a comunhão com Deus, para tomarem "graça sobre graça" (4.16), pelo ca¬minho que Cristo abriu.
"Aproximemo-nos com sincero coração." Por natureza, todo o coração é falso. "Do coração procedem os maus pensamentos" (Mateus 15.19). Infelizmente muitos vêm à presença de Deus com corações não sinceros. Vêm aos cultos, mas não aceitam a pala¬vra de Deus. Confessam seus pecados, mas não querem ficar livres dos pecados. Confessam com a boca o Credo Apostólico, mas o seu Deus é outro. Falsos corações em meio aos cristãos é uma característica dos tempos do fim (2 Timóteo 3.1-5) entre outras. Só o coração que foi regenerado pela palavra de Deus é sincero. A sinceridade consiste no reconhecimento de seus pecados. Coração sincero é um coração arrependido que não tenta minimizar, nem desculpar o pecado, mas que toma a lei de Deus a sério, que se confessa culpado de toda a lei. Neste reconhecimento de seus pecados e de sua indignidade ele não desespera, mas confia na graça de Cristo que diz ao pecador: "Vinde a mim todos os que estais can¬sados e sobrecarregados e eu vos aliviarei" (Mateus 11.28).
Irmãos, firmados no amor de Cristo, não deixemos que algo nos afaste de Deus, ou impeça o crescimento da comunhão com Deus. Nem a acusação de nossa consciência, nem os argumentos de nossa razão que não quer aceitar a palavra de Deus, nem a zomba¬ria do mundo, nem as perseguições, ou a humildade da igreja (Romanos 8.33-39). Antes, com sinceros corações, em plena certeza de fé, aproximemo-nos cada vez mais e mais para estreitar a comunhão com o nosso Deus.
Esta plena certeza de fé provém especialmente de duas coisas: de ter o coração purificado de má consciência e de ter o corpo lavado com água pura. Isto não é uma no¬va admoestação, mas mostra de onde o coração sincero busca a plena certeza de fé, a sa¬ber, da palavra de Deus e dos sacramentos. Onde a palavra de Deus está sendo pregada e os sa¬cramentos administrados conforme a ordem de Deus, ali o Espírito Santo opera a fé. Ali o sangue de Cristo purifica os corações de má consciência (1 João 1.7). Onde o batis¬mo de água, o lavar regenerador e renovador, está sendo administrado conforme a ordem de Cristo, ali os corpos são lavados do pecado. Ali há consciências purificadas pelo sangue de Cristo. Ali cresce o desejo por estreitar a comunhão com o Salvador. Ali cresce o amor à palavra de Deus e a fome pelos sacramentos. Ali há crescimento na vida santificada. Ali se guarda a confissão da esperança.
GUARDEMOS FIRME A CONFISSÃO DA ESPERANÇA - V. 23
Por ocasião do batismo, os adultos confessavam sua fé. Esta confissão não era algo vago, mas uma confissão objetiva. Confessavam sua fé no Deus triúno, em Cristo co¬mo seu Salvador, na ressurreição dos mortos, na esperança da vida eterna. Com o passar do tempo, esta confissão foi adquirindo forma concisa e precisa, até se cristalizar no Cre¬do Apostólico. Na medida que falsos profetas atacavam a verdade, esta confissão foi sen¬do ampliada. Cresceu como um muro ao redor de uma cidade. Foram elaborados os credos Apostólico, Niceno (325) e Atanasiano (séc. 5/6). Em 1529 surgiu o Catecismo Me¬nor e Maior. A Confissão de Augsburgo (1530) analisa as doutrinas básicas da igreja. Os Artigos de Esmalcalde (1537) expõem especialmente a doutrina da Santa Ceia. A Fór¬mula de Concórdia (1580) comenta as doutrinas do Credo Apostólico com grande profun¬didade. Que maravilhoso tesouro. É preciso lembrar que não foi carne e sangue que nos revelaram isso. Conhecer estas verdades e confessá-las é obra do Espírito Santo. O fato ainda hoje termos estas confissões e as reconhecermos como verdade extraída da palavra de Deus, é misericórdia de Deus.
“Guardemos firmes a confissão da esperança‘': Isto é, vamos apegar-nos a estas verdades e não abrir mão delas. As tentações são muitas. Nossa própria razão se opõe à palavra de Deus. Muitos falsos profetas lutam contra a verdade. Árduas foram as lutas para manter a confissão. Basta recordar as lutas do apóstolo Paulo, as lutas desde o Credo Niceno à Fórmula de Concórdia até os dias de hoje. Muitas são também as ameaças do mundo. Quantos foram perseguidos, martirizados e mortos por causa de sua confissão! Muitos infelizmente também negaram sua fé, como rei Saul e o discípulo Judas e outros.
Para guardar esta confissão é necessário, em primeiro lugar, que a confissão se torne nossa confissão. Isto requer constante estudo e oração. Uma vez que estamos convictos de que nossas confissões são a fiel expressões da verdade bíblica, queremos guardá-la firme e confessá-la diante dos irmãos e do mundo, mesmo que isto nos custe a própria vida.
Sabemos que as promessas de Deus não falham. Deus é fiel. Por isso exorta o apóstolo João e o apóstolo Paulo: "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele" (1 João 3.2). Sim, "a nossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então nós também seremos manifestados com ele em glória" (Colossenses 3.3,4). Enquanto estamos aqui na terra, cabe-nos lutar. E para podermos ficar firmes e guardar a confissão da esperança, necessitamos da terceira admoestação.
CONSIDEREMO-NOS TAMBÉM UNS AOS OUTROS - V. 24 e 25
Uma tradução ao pé da letra seria: "espionemo-nos uns aos outros". Não no sentido mau. Isto, infelizmente, acontece muito nas comunidades: um observando, espio¬nando ao outro, para achar defeito, para criticar e condenar sem piedade. A presente exortação visa a edificação da comunidade. "Ninguém busque o seu próprio interesse; e, sim, o de outrem" (1 Coríntios 10.24). Disto a comunidade tem grande necessidade. Isto requer que conversemos com nossos irmãos na fé, para conhecer suas dificuldades. Infelizmente, a própria hora de culto não oferece mais tempo para esta conversa. Corre-se ao culto e sai-se correndo do culto. Há necessidade de reorganizar nossos cultos para que haja tempo para a comunhão. Quantos estão carregando enormes fardos de angústias, ¬lutas internas, problemas de consciência e outros problemas. Uma palavra de estímulo, um conselho, uma ajuda resolveriam a situação, O apóstolo Paulo conheceu o que significava estar sozinho. Foi por ocasião do seu primeiro julgamento (2 Timóteo 4. 16-17) todos os irmãos o abandonaram. Imaginem, dois anos Paulo anunciou o evangelho em Roma. Na hora da provação, todos o abandonaram. Paulo sabe que isto foi fraqueza e pede a Deus que "isso não lhes seja posto em conta". Consideremo-nos uns aos outros, especialmente nas grandes necessidades.
A carta os estimula ao amor e às boas obras. Estimular é atiçar. Conhecemos as técnicas do estímulo. Cada fábrica quer produzir o máximo no mínimo de tempo. Tudo deve ser aproveitado. O agricultor quer ver suas árvores, seus campos, seu gado produzir o máximo. Nós cristãos, sacerdotes reais, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, que temos acesso ao Santo dos Santos, não podemos contentar-nos com o mínimo. Cada um deve estimular o outro ao amor e às boas obras. O máximo na vida santificada, o máximo no amor ao próximo, o máximo na missão. Para que isso possa acontecer, "não abandonemos a nossa própria congregação como é costume de alguns."
Era tempo de perseguição. Freqüentar a reunião dos cristãos poderia custar a vida. Mas retrair-se das reuniões de estudo e culto, poderia custar a vida eterna. Infeliz¬mente alguns abandonaram as reuniões; com isso estavam negando o próprio Salvador, a fé cristã. Exatamente em tempos difíceis temos necessidade da comunhão com os irmãos e do estudo da palavra de Deus em conjunto. É ali que somos firmados na intrepidez pa¬ra nos aproximarmos cada vez mais do Santo dos Santos. É ali que crescemos na força pa¬ra guardar a confissão da esperança. É ali que somos estimulados a crescer no amor e nas boas obras.
Neste ANO DAS CONFISSÕES dediquemo-nos ao estudo das Confissões Lutera¬nas para que possamos dizer: Esta é a minha confissão! E “então confessá-la diante dos irmãos e do mundo, especialmente agora, quando ‘‘vedes que o dia se aproxima.”
Horst Kuchenbecker
CONFISSÃO DE AUGSBURGO
1º artigo - DE DEUS
Em primeiro lugar, ensina-se e mantém-se, unanimemente, de acordo com o decreto¬ do Concilio de Nicéia, que há uma só essência divina, que é chamada Deus e verda¬deiramente é Deus. E, todavia há três pessoas nesta única essência divina, igualmente pode¬rosas, igualmente eternas, Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, todas três uma úni¬ca essência divina, eterna, indivisa, infinita, de incomensurável poder, sabedoria e bonda¬de um só criador e conservador de todas as coisas visíveis e invisíveis. E com a palavra persona se entende não uma parte, não uma propriedade em outro, mas aquilo que subsiste por si mesmo, conforme os Pais usaram esse termo nessa questão.
Rejeitam-se, por isso, todas as heresias que são contrárias a esse artigo, como os maniqueus, que afirmaram a existência de dois deuses, um bom e um mau; também os valentinianos, arianos, eunomianos, maometanos e todas as similares; também os samosate¬nos antigos e novos, que afirmam uma só pessoa e sofismam acerca do Verbo e do Espírito ¬Santo, dizendo não serem pessoas distintas, porém que Verbo significa palavra ou voz física e que o Espírito Santo é movimento criado em criaturas.
ESTUDO
Em 1528, Martinho Lutero escreveu a obra Da Santa Ceia de Cristo. Na terceira parte confessou, ponto por ponto, a sua fé. Queria deixar bem claro o que cria e ensinava, que ninguém se atrevesse a citá-lo em favor de doutrina contrária à fé cristã.
Ao confessar a sua fé, Lutero aproveitou, com a maior naturalidade, os termos e a ordem dos credos apostólico e niceno. Também ressaltou que estava confessando "o artigo sublime da majestade divina" de acordo com o que "sempre se tinha defendido, tanto na igreja romana como na igreja cristã em todo o mundo."
Em 1529, Lutero e colegas escreveram os "Artigos de Schwabach'' à base dessa “Confissão". Com a maior naturalidade seguiram a ordem e usaram as palavras dos credos apostólico e niceno.
Por isso a Confissão de Augsburgo também apresenta e reafirma, no primeiro "artigo¬ da fé e ensino", a fé confessada nesses credos. Nunca passou pela cabeça dos "luteranos” ¬ensinar outra coisa, sem ser o que a igreja cristã vinha ensinando desde o começo.
Entendido isto, fica esclarecido que o primeiro artigo fala de Deus, não como fala a ¬filosofia, mas como o próprio Deus falou de si mesmo, através dos profetas de Israel e acima de tudo, por meio de seu próprio Filho, Jesus Cristo.
QUEM É E O QUE FAZ DEUS?
Neste primeiro artigo, as igrejas e escolas luteranas declaram que ensinam duas coisas a respeito de Deus, a saber, quem é e o que faz.
Quem é Deus? É um único ser, em três pessoas distintas, Pai, Filho e Espírito Santo. As três pessoas não são três deuses, mas um único Deus. Conforme esclarecem os antigos, as pessoas não são partes de Deus. Cada qual subsiste em si mesma, é Deus sem quaisquer descontos. Nem por isso são três deuses. É um único Deus.
Que faz Deus? Esta verdade ultrapassa nossa capacidade de entender. Por isso é importante considerar tanto mais o que Deus tem feito. .
Afirmam os confessores, com a igreja de todos os tempos e lugares, que Deus criou e mantém todas as coisas. Todas as coisas, mesmo aquelas que não vemos.
Ao juntar a voz à confissão da igreja antiga, as igrejas e escolas luteranas, por isso mesmo, rejeitam aos que ensinam coisa diferente: aos que ensinam haver dois deuses, um bom e outro mau, e aos que ensinam que o Filho e o Espírito Santo sejam apenas mani¬festações do único Deus e, portanto, inferiores ao Pai.
DEUS TRIÚNO
Esta confissão da unidade e trindade de Deus expressa, com clareza e concisão, o que os profetas do povo de Israel, Jesus e os apóstolos anunciaram ao mundo:
"Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Deuteronômio 6.4);
"Sabemos que o ídolo de si mesmo nada é no mundo, e que não há senão um só Deus" (1 Coríntios 8. 4);
"Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, ho¬mem" (1 Timóteo 2.5).
Também a confissão da trindade reflete a boa notícia do Senhor Jesus ao mun¬do. Quando enviou os apóstolos, ordenou: "Fazei discípulos de todas as nações, batizan¬do-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mateus 28. 19). Os apóstolos ensi¬naram às nações tudo o que Jesus tinha mandado ensinar. O apóstolo Paulo escreve aos coríntios, na segunda carta (13.13): "A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós." O apóstolo Pedro escreve na primei¬ra carta que os crentes dispersos foram "eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo" (1 Pe¬dro 1.2).
Não pode haver dúvida, portanto. A confissão do primeiro artigo da Confissão Augsburgo é a própria verdade dos escritos proféticos e apostólicos. Importa segurar esta verdade, com toda força, na sociedade atual, que não conhece a Deus.
ENSINOS CONTRÁRIOS
Os marxistas e ateus de todo tipos afirmam abertamente que não há Deus e só existe a matéria. Os evolucionistas, sejam ateus ou não, afirmam que a matéria tem poderes tais, que consegue produzir a variedade infinita de seres que formam o universo e fazem funcionar este vasto conjunto de seres. Com isso fazem da matéria Deus.
As filosofias e seitas que vêm do Oriente, em especial da Índia, também confundem Deus com o mundo e assim endeusam o universo.
A maçonaria e o espiritismo sustentam que Deus criou e sustenta o universo. Seu Deus, porém, não é o Pai, Filho e Espírito Santo que Jesus nos revelou.
As Testemunhas de Jeová negam que Jesus seja Filho de Deus, igual ao Pai em majestade e poder.
COMUNHÃO DO ÚNICO DEUS
Por isso convém lembrar que nós, os crentes, fomos batizados "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", conforme Jesus ordenou. “Em nossos cultos cantamos: ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, é agora e será para todo o sempre”. É o Deus uno e trino que nos abençoa ao final de cada culto. É "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” que deitamos à noite e iniciamos cada dia. Em suma, a partir do batismo toda nossa vida se desenrola na comunhão do único Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.
Portanto, digam os filósofos, cientistas e religiosos o que disserem, nós permane¬cemos fiéis à voz do Senhor, que se revelou como Pai amoroso, Filho libertador e Espírito santificador de todos nós.
REFLEXÕES
1. Podem os homens, por si mesmos, conhecer a Deus? Procure responder à base aos Romanos, capítulos 1 e 2, e Atos dos Apóstolos 17.16-34.
2. Releia a Ordem do Culto Principal no Hinário Luterano. Em que partes a igreja confessa quem Deus é e o que faz?
3. Releia com atenção, o Credo Niceno. Verifique se o primeiro artigo da Con¬fissão de Augsburgo de fato reafirma a fé confessada no Credo.
4. De que maneira Deus mantém todas as coisas? Responda à base da explicação do 1º Artigo do Credo Apostólico e da Quarta Petição do Pai Nosso no Cate¬cismo Menor.
5. Qual será a reação dos filhos de Deus em vista do que ele faz? Leia a propósito os Salmos 8 e 104."\
Nestor Beck
2º Artigo - DO PECADO ORIGINAL
Ensina-se, outrossim, entre nós que depois da queda de Adão todos os homens naturalmente nascidos são concebidos e nascidos em pecado, isto é, que desde o ventre materno todos estão plenos de concupiscência e inclinação más, e por natureza não po¬dem ter o verdadeiro temor de Deus e verdadeira fé em Deus.Também, que essa inata pestilência e ¬pecado hereditário verdadeiramente é pecado e condena à eterna ira de Deus a quantos não renascem pelo batismo e pelo Espírito Santo.
Condenam-se, além disso, os pelagianos e outros que não consideram pecado ao hereditário, com o que tornam a natureza justa por virtudes naturais, para ignomínia da paixão e do mérito de Cristo.
ESTUDO
No século XVIII, o pensador suíço-francês Jean-Jacques Rousseau defendeu uma teoria considerada revolucionária. O homem, dizia, ele nasce puro e bom; é a sociedade corrupta que o torna mau.
Esta teoria continua influenciando o pensamento e ação da época atual. Basta alterar as condições sociais, e mudará o homem. Não havendo pobreza, nem fome, nem miséria, não haverá crimes, violência.
A sociedade, começando pela família, determina a pessoa humana e seu comportamen¬to. Onde está, porém, a origem e fonte do mal? Está na sociedade ou está na pessoa?
Quando os fariseus insinuaram que os discípulos estavam se tornando impuros por estarem comendo sem lavar as mãos, Jesus esclareceu: "Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar? ... O que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos homens é que procedem os maus de¬sígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a las¬cívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem" (Marcos 7. 18-23).
No segundo artigo, os confessores de Augsburgo confessam com toda a igreja cristã qual é a situação natural da pessoa humana. Confessam isso não à base da ciência ou filosofia mas a partir da mensagem que os profetas e Jesus anunciaram ao mundo.
PECADORES E REUS
São dois os pontos que se confessam neste artigo.
Ensina-se, em primeiro lugar, que todos os homens são concebidos e nascem em pecado. Já ao nascerem, mesmo antes de poderem ''fazer'' o bem ou mal, estão cheios de maus desejos e inclinações. Portanto, não podem, por si mesmos, chegar a crer em Deus e a temer a Deus, no sentido rigoroso e exato destes termos.
Os reformadores confessam, em segundo lugar, que esta peste ou pecado com que os homens nascem é pecado no sentido exato do termo e, por conseguinte, os torna réus do juízo e condenação eternas. Dito doutra maneira, Deus, o Senhor e Juiz de todos os homens, considera pecado esta maldade inata e está disposto a condenar os homens a viverem longe dele para sempre, por causa deste pecado "de berço". Quer e vai condená-los - a não ser que ouçam e aceitem a boa mensagem de Jesus Cristo. Seus mensageiros impelidos pelo Espírito Santo, estão anunciando esta notícia a todos os homens para que saibam que Deus está disposto a perdoar e a receber como filho a todo homem que aceitar esta mensagem para se submeter ao batismo e nascer de novo pelo poder do Espírito Santo.
Notemos bem o equilíbrio. Os confessores confessam, ao mesmo tempo, que o homem não pode, por si mesmo, tornar-se agradável a Deus e ingressar na sua família. Mas confessam, ao mesmo tempo, que o próprio Deus está mostrando a todos o caminho ¬único caminho certo e infalível - para escapar às conseqüências da maldade inata. Estão confessando duas verdades: Deus é Juiz e condena o homem por ser pecador; Deus é Salvador e oferece ao homem o perdão e a vida eterna em Cristo.
VIDA ETERNA EM JESUS
Assim o segundo artigo prepara e aponta para os artigos seguintes sobre a obra de Jesus e seu fruto.
Esta confissão coincide com o testemunho dos profetas e apóstolos. Davi depõe no Salmo 51.5: "Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe". Conforme argumenta Lutero, à base do hebraico, Davi está dizendo: "Eu cresci de semente pecaminosa no ventre materno". O apóstolo Paulo diz isto sobre as conseqüências do pecado "de berço": "O aguilhão da morte é o pecado" (1 Coríntios 15.56) e "O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor" (Carta aos Romanos 6.23). No quinto capítulo da mesma carta argumenta que assim como condena todos os homens à morte por serem descendentes e imitadores de Adão, assim Deus absolve e dá vida a todos os homens por causa do que fez Jesus Cristo, Ele foi obediente até à morte e por isso Deus o ressuscitou, para que possa oferecer e dar perdão e vida a todos os filhos de Adão, para se tornarem filhos de Deus e herdarem a vi¬da eterna em vez da morte.
ENSINOS CONTRÁRIOS
Ao reafirmar o testemunho dos profetas e apóstolos, os confessores de Augs¬burgo estão excluindo e rejeitando a tese de que o pecado "de berço" não seja pecado propriamente dito, mas seja apenas uma deficiência ou fraqueza, que não impeça o ho¬mem de tornar-se justo e aceitável a Deus por suas próprias forças. Esta tese foi defendida, no passado, pelo monge Pelágio, que viveu em torno dos anos 360 a 420. Daí se chamarem "pelagianos" os que defendem tal posição. Os "outros" a que se refere o artigo podem tanto ser os reformadores da Suíça alemã (Ulrich Zwingli e colegas), como os defensores da piedade romana católica tradicional, como veremos na discussão do artigo IV. Quanto aos reformadores suíços, convém lembrar que, nos debates de Marburgo em 1529, acerta¬ram com Martinho Lutero e colegas que o pecado herdado de Adão é pecado no sentido exato do termo e separa os homens de Deus para sempre; por isso mesmo Jesus Cristo veio nos acudir com sua morte e vida.
A posição "pelagiana" é defendida, em nossos dias, por filosofias e religiões orientais, pela maçonaria e espiritismo, pela filosofia e ciência moderna em geral, por várias denominações chamadas protestantes e também, de forma sutil, pelo grosso da teolo¬gia apostólica romana.
PRECISAMOS DE CRISTO
Como se verá no artigo XVIII, a Confissão de Augsburgo concede inteiramente que o homem possa, por suas forças, tornar-se justo e agir com justiça, de acordo com os critérios da sociedade. Nega apenas que o homem possa, por si, adquirir e ter a justiça que Deus aceita e reconhece. Esta o homem não tem, nem pode ter, a não ser que aceite, pela fé o perdão e a justiça de Cristo.
Portanto, reconheçamos quão grave é o pecado e quão sério o juízo de Deus para reconhecermos o quanto precisamos de Cristo como sacrifício pelos nossos pecados e defensor da nossa causa diante do Pai.
REFLEXÕES
1. Releia a explicação do Segundo Artigo do Credo Apostólico e do Catecismo Menor. Por que se diz que sou "homem perdido e condenado"?
2. Leia o primeiro artigo da Fórmula da Concórdia e verifique se coincide com este segundo artigo da Confissão de Augsburgo.
3. Leia os primeiros dois e o quinto capítulo da Carta aos Romanos e procure descrever a situação natural do homem que não conhece a Cristo.
4. Leia os capítulos dois e três da Carta aos Efésios, descubra qual era a situação dos efésios antes de ouvirem e aceitarem a boa notícia anunciada por Paulo.
Responda mais: Teriam os efésios podido alterar sua situação de outra maneira, que não fosse esta de ouvir e aceitar a grande notícia?
5. O que pretende Jesus dizer quando afirma em João 3.5 que "quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus"?
Nestor Beck
3º Artigo - DO FILHO DE DEUS
Ensina-se, além disso, que Deus Filho se fez homem, nascido da pura Virgem Maria, que as duas naturezas, a divina e a humana, inseparavelmente unidas em uma única pessoa, são um só Cristo, que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que verdadeiramente nasceu, padeceu, foi crucificado, morreu e foi sepultado, a fim de ser oblação não só pelo pecado hereditário, mas ainda por todos os outros pecados, e para aplacar a ira de Deus. Ensina-se, outrossim, que o mesmo Cristo desceu ao inferno, no terceiro dia ressurgiu verdadeiramente dos mortos, subiu ao céu e está sentado à destra de Deus, para dominar eternamente sobre todas as criaturas e governá-las, a fim de santificar, purificar fortalecer e consolar, pelo Espírito Santo, a quantos nele crêem, dar-lhes também vida e toda sorte de dons e bens, e proteger e defendê-los contra o diabo e o pecado. Também se ensina que o mesmo Cristo Senhor, conforme o Symbolum Apostolorum, no fim virá visivelmente, para julgar os vivos e os mortos, etc.
ESTUDO
Temos dito e queremos repetir aqui: Os confessores de Augsburgo estavam repletos da fé ¬confessada nos credos da igreja primitiva. Todos os dias cantavam, recitavam e ensinavam esta fé nos cultos, nas aulas e em casa. Não sabiam e não queriam falar de Deus e Jesus Cristo a não ser nas palavras dos credos niceno e apostólico. Já o vimos antes; aqui o veremos de novo.
O terceiro artigo, assim como o primeiro, confessa, reafirma e defende a mesma fé confessada pela igreja antiga a exemplo dos apóstolos.
Quando Deus chamou Moisés, disse: "Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa" (Êxodo 3. 5). Ao chegarmos ao terceiro artigo, lembremos que este é o centro, fundamento e ápice de toda a Confissão de Augsburgo. Aqui subimos do primeiro passando pelo segundo; daqui descemos aos artigos restantes. Na confissão de Cristo, e de seu Espírito repousam todos os demais artigos da Confissão de Augsburgo. Abraçar este artigo é segurar todos os demais. Perder este, é perder todo o resto.
QUEM É E O QUE FAZ JESUS
No terceiro artigo os confessores confessam, à base dos credos antigos, não somente que ¬é e o que faz Jesus Cristo, mas também para que se tornou o que é e fez o que fez. Como Melanchton explica noutro lugar, confessam não somente a história, o acontecido, mas também finis historiae, isto é, a razão e finalidade do ocorrido. Isso também faz parte do credo. É, na verdade, o essencial.
Afirmam, em primeiro lugar, que Jesus Cristo, de fato ou verdadeiramente nasceu, sofreu, foi crucificado, morreu e foi enterrado para servir de oblação ou sacrifício, pelo pecado-herança, mas também por todos os outros pecados, e (assim) expiar a ira de Deus.
Afirmam, em segundo lugar, que Jesus Cristo ressuscitou, subiu ao céu e está sentado à direita de Deus para dominar e reger todas as criaturas para sempre, e para, pelo Espírito Santo, santificar, purificar, fortalecer e consolar a quantos nele crêem e lhes repartir todo tipo de dons e bens e os defender e proteger contra o diabo e o pecado.
Afirmam, em terceiro lugar, que, no fim, virá em público para julgar os vivos os mortos.
Cada vez os confessores definem, com toda clareza, para que Jesus Cristo fez o que fez ou tem feito e fará o que vai fazer. Isto é importante. Sem perceber a finalidade do ocorrido, não se percebe nem avalia o que aconteceu, tem acontecido e acontecera.
Os confessores ressaltam que Jesus Cristo se ofereceu e pagou não só pelo pecado-herança, mas por todos os outros pecados também. Estão excluindo e rejeitando doutrina "católica" tradicional. Esta ensina que Jesus pagou pelo pecado hereditário e o cristão precisa pagar, isto é, fazer expiação ou penitência pelos pecados que ele próprio comete. Por conseguinte, o perdão da culpa, ficaria dependendo não só do feito de Cristo, mas também das boas obras e intenções da própria pessoa. Em outras palavras ficaria Jesus como meio Salvador apenas. Os confessores, ao contrário, fazem o perdão de qualquer pecado depender única e inteiramente da vida, morte, ressurreição e intercessão de Cristo.
ATRAVÉS DO ESPÍRITO SANTO
Os confessores mostram que Jesus, depois de receber o domínio, faz tudo o que faz em relação aos crentes pelo Espírito Santo. Neste ponto a Confissão de Augsburgo reflete o pensamento de Lutero, que diz na Confissão de 1928: "Este Espírito Santo, com dom e presente vivo, eterno e divino, agracia todos os crentes com fé e outros dons espirituais e os ressuscita dos mortos, liberta do pecado e os faz alegres e tranqüilos, livres firmes na consciência". Diz mais: "O Espírito Santo nos ensina a reconhecer o beneficio que Cristo nos fez, nos ajuda a receber e segurar, usar proveitosamente e repartir, incrementar e promover o benefício que Cristo nos fez."
Por trás da confissão de Lutero e deste artigo estão os últimos capítulos dos evangelhos de Lucas, Mateus e João e os Atos dos Apóstolos. Podemos dizer que todos os demais artigos da Confissão, a começar pelo quarto, descrevem o que o Senhor Jesus tem feito através do Espírito Santo. A ação do Senhor em favor do seu povo, portanto não se esgotou com a ressurreição e ascensão, antes continua até ao fim do mundo. Não descansará enquanto não libertar por completo o seu povo e manifestar sua vitória e do¬mínio a todos os homens e criaturas.
ENSINOS CONTRÁRIOS
Ao reafirmarem, nestes termos, a confissão do Credo Apostólico referente ao Filho de Deus, os confessores estão excluindo, implicitamente, erros e desvios que surgiram na igreja antiga e tem reaparecido através dos tempos. Ao dizerem, à base do Evangelho de João 1.14 e da carta aos Gálatas 4.4, que o Filho se fez homem, estão negando contra os patripassiani, que tenha sido o Pai ou o Espírito Santo. Ao dizerem que Cristo é Deus e homem verdadeiro, estão afirmando que o Filho assumiu a natureza inteira não apenas corpo sem alma humana, como querem os focinianos contra Mateus 26.38. Quando afirmam que Deus Filho nasceu da Virgem Maria, estão dizendo com o Evangelho de Lucas 1.35 que Maria é mãe de Deus, não somente do homem Jesus. Quando afirmam que a natureza divina e humana constituem unidade indivisível, estão dizendo, inclusive, que morreu por nós não só o homem Jesus, mas o Homem-Deus Jesus Cristo conforme testificam a carta aos Romanos 8.32 e a Primeira Carta aos Coríntios 2.8
Fica bem claro que o Jesus confessado pela igreja cristã nos credos e neste artigo não é o Jesus dos hindus e islamitas, dos espíritas e Testemunhas de Jeová, dos marxistas e da teologia modernista, inclusive a chamada teologia da libertação. Todos estes encaram Jesus como exemplo moral e força ética, mas não reconhecem nele o Filho de Deus que veio morar entre os homens para dar a vida por nós (Evangelho de João 1.14 e de Marcos 10.45). O Jesus confessado pelos apóstolos e pela igreja - triste é dizê-lo - também não é o Jesus de certas igrejas "reformadas", que estaria presente num só "lugar” ¬chamado "céu" e, portanto, não poderia estar presente, na santa ceia, com o seu corpo e sangue.
Se os confessores não indicam expressamente os erros rejeitados, a razão pode estar na feliz verdade que Lutero pode expressar ainda em 1537, nos Artigos de Esmalcal¬de: Estes artigos (da Trindade e do Filho de Deus) não estão em controvérsias e discussão, por que de ambas as partes ("luteranos" e "católicos") os confessamos. Por isso não é necessário continuar tratando deles agora".
REFLEXÕES
1 - Compare a confissão de Cristo que se faz no Credo Niceno e no "Glória in Excelsis" da Ordem do Culto Principal no Hinário Luterano.
2 - Leia toda a Ordem do Culto e anote o que mais confessa e afirma a respeito de Cristo.
3 - Releia a explicação do segundo e terceiro artigos do Credo Apostólico no Ca¬tecismo Menor, veja qual é a relação entre a ação do Senhor Jesus e a ação do Espírito Santo. Compare isso com o que se diz neste terceiro artigo da Confissão de Augsburgo.
4 - Leia cuidadosamente o oitavo artigo da Fórmula de Concórdia sobre a pessoa de Cristo e verifique de que maneira está reafirmando o terceiro artigo da Confissão de Augsburgo.
5 - Leia o capítulo quinze da Primeira Carta aos Coríntios e diga por que a res¬surreição de Cristo é decisiva para a fé cristã.
Nestor Beck
4º Artigo - DA JUSTIFICAÇÃO
Ensina-se também que não podemos alcançar remissão dos pecados e justiça de Deus por mérito, obra e satisfação nossas, porém que conseguimos remissão dos pedados e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu e nos são dadas justiça e vida eterna. Pois Deus quer considerar e atribuir essa fé como justiça perante ele, conforme diz São Paulo em Romanos 3 e 4.
ESTUDO
Todo homem, por mais ateu que seja, pressente que sofrerá as conseqüências do bem ou mal que faz. A consciência lhe diz que será julgado. Pergunta a si mesmo: Como poderei escapar de sofrer as conseqüências do que faço? Ou então procura convencer-se, de maneira arrogante, de que tem condições de enfrentar o julgamento.
A história do homem é uma história de fuga da responsabilidade. O homem quer esquivar-se de responder ao juiz, que é Deus. Sabe que não tem condições de responder.
Por isso mesmo a pergunta dos homens tem sido a pergunta que atormentava Martinho Lutero: Como terei um Deus favorável? Que fazer para que o juiz me absolva e receba em seu reino?
Depois de bater em muitas portas, depois de lutar por meses e anos com o texto original do Antigo Testamento, Lutero encontrou a resposta, ou melhor, o Espírito do Senhor Jesus lhe revelou a resposta pela mensagem anunciada pelos apóstolos e profetas.
Entendeu o que Paulo tinha anunciado na Carta aos Romanos 1.16-17: "O evan¬gelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê ... visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito (no profeta Habacuque 2.4): O justo viverá por fé".
Deus se mostra favorável e dá acolhida ao homem justo. Deus, porém, considera justo o homem que possui a justiça que ele próprio, Deus, lhe oferece - a justiça de Cristo, ¬Deus a oferece pelo evangelho de Cristo, e o homem a recebe e possui pela fé, ou seja, quando toma a sério a mensagem e crê na oferta e doação que Deus está lhe fazendo.
Esta é a tremenda verdade confessada neste artigo quarto da Confissão de Augs¬burgo. Esta verdade, conforme se verá na segunda parte da confissão, provocou todas as reformas de Lutero e os "luteranos" fizeram no culto e piedade cristã.
Este artigo repousa sobre o segundo, que descreve a impotência espiritual do homem, e sobre o terceiro, que define a ação do Filho de Deus em favor dos homens. Fica implícito que o Senhor Jesus enviou seu Espírito aos apóstolos e está anunciando, por meio deles e dos cristãos, o que ele, Jesus, fez, vem fazendo e vai fazer para reconduzir ¬os homens à comunhão com Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O PERDÃO
Neste artigo os confessores afirmam, em primeiro lugar, que nós homens não podemos conseguir perdão dos pecados e justiça diante de Deus por nossos méritos, obras e satisfações ou penitências. Fica entendido, mas não expresso, que não o podemos em vista do que foi constatado sobre a condição natural dos homens no segundo artigo.
Quando Melanchthon publicou o texto alemão da confissão (editio princep), tornou explícito o que estava implícito. Escreveu: "Tendo em vista que todos os homens nascem em pecados e não conseguem cumprir a lei de Deus, nem amar a Deus de coração" ensina-se que ...
Os confessores ressaltam, em segundo lugar, como os homens podem conseguir o perdão e a justiça: "Recebemos perdão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pelo favor (de Deus) por causa de Cristo pela fé, ou seja, ao crermos que Cristo sofreu por nós e que por causa dele os pecados nos são perdoados e nos são dadas justiça e vida eter¬na".
Os confessores escolheram cuidadosamente as palavras. Recebemos perdão e nos tornamos justos diante de Deus por graça ou favor de Deus, ou seja, porque Deus nos é favorável, graças ao trabalho de Jesus Cristo, descrito no artigo terceiro.
Recebemos perdão e nos tornamos justos diante de Deus por causa de Cristo, ou seja, porque ele ofereceu a si mesmo como sacrifício e pagou pelos nossos pecados e assim nos conquistou a misericórdia ou favor e o perdão do Pai, conforme confessamos no artigo terceiro.
A FÉ
Recebemos perdão e nos tornamos justos diante de Deus pela fé, ou seja, se e quando cremos na proclamação do trabalho de Cristo, conforme o terceiro artigo.
Os confessores tinham a preocupação de afirmar e explicar que é pela fé que re¬cebemos perdão e nos tornamos justos. Esclarecemos que "pela fé" significa "ao crermos que... ," para ficar bem claro que fé consegue o perdão e justifica. Não é qualquer fé! É a fé que aceita e possui a promessa e oferta que Deus está fazendo aos homens à base do trabalho de Cristo, explanado no artigo terceiro. Em outras palavras, a fé que recebe e tem o perdão, a justiça e a vida, é a fé que crê no evangelho, na boa notícia do Senhor Jesus. É a fé que, devido à boa notícia, reconhece e invoca a Jesus como Senhor e Reden¬tor.
Restava dizer por que é pela fé que recebemos perdão e nos tornamos justos. É o que os confessores fazem no último período deste artigo. Aí testificam, à base dos capítu¬los terceiro e quarto da Carta aos Romanos: "Porque é esta fé que Deus resolveu tratar e contar como justiça diante de si mesmo."
Estas palavras ecoam o testemunho do apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: "Que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça... Ao que... crê naquele que justifica ao ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça ... Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segun¬do lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé ... não duvidou da promessa de Deus, por incredulidade; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera. Pelo ¬que isso lhe foi também imputado para justiça. E não somente por causa dele está isso escrito que lhe foi levado em conta, mas também por nossa causa, posto que a nós igualmente nos será imputado, a saber, a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus nosso Senhor, o qual foi entregue por causa de nossas transgressões, e ressuscitou por causa da nossa justificação". (Romanos 4.3; 5.18-25).
Isto pode parecer complicado, mas não é. Ocorre que Deus decidiu reconhecer e considerar como justiça unicamente a (de) Cristo (Jeremias 23.5-6 e 33.14-16; Romanos 10. 4; 1 Coríntios 1.30; 2 Coríntios 5.21 e João 17.19). Ora, é a fé que recebe, abraça e segura a Cristo com sua justiça. É por isso que Deus valoriza a fé como justiça - não por ato meritório, mas exatamente por receber, abraçar e reter a Cristo.
É, como confessa Lutero na "confissão" de 1528: Não há salvação senão "a única justiça que o nosso Salvador Jesus Cristo é e tem e nos presenteou e colocou diante de Deus como nosso propiciatório, Romanos 3.25."
Para avaliar bem a importância e clareza deste artigo quarto, é preciso ter em mente a teoria dos dois tipos de mérito e da graça que torna o homem agradável a Deus. Esta teoria dominava nas igrejas, escolas e lares da época, impedia pessoas como Matinho Lutero de entender a boa notícia de Cristo. Discutiremos a teoria na explicação do artigo quinto, para evitar repetições.
NÃO CEDER
Todas as religiões, exceção feita da fé cristã, repousam na atividade do homem e ensinam, em maior ou menor escala, que se torna agradável a Deus pelo bem que faz. O próprio humanismo vê a salvação da humanidade nos esforços e progressos do homem. Em vista disso, façamos todo empenho para entender bem este artigo, lembrados deste depoimento de Lutero nos "Artigos de Esmalcalde" (1537): "Deste artigo não se pode arredar ou ceder, mesmo que caia abaixo o céu e a terra e o que não quer ficar; pois não há outro nome, pelo qual possamos ser salvos, diz São Pedro em Atos 4.12 e por suas pisaduras fomos sarados (Isaías 53.5). Neste artigo repousa tudo o que estamos ensinan¬do e vivendo contra o papa, o diabo e o mundo. Precisamos, por isso, estar bem firmados e não duvidar. Caso contrário está tudo perdido, e o papa e o diabo e tudo ficam com a vitória e o direito contra nós".
REFLEXÕES
1. Leia atentamente os capítulos terceiro e quarto da Carta aos Romanos e ve¬rifique se confere com a mensagem de Paulo o que dissemos nesta explicação.
2. Leia os capítulos terceiro e quarto da Carta aos Gálatas e responda: De que maneira a bênção prometida a Abraão atingiu os gentios?
3. Leia a Confissão a Absolvição na Ordem do Culto Principal no Hinário Lute¬rano e responda: Quando e como o crente se acha diante do trono de Deus?
4. Leia com atenção o terceiro artigo da Fórmula da Concórdia e descubra se de fato está reafirmando o quarto artigo da Confissão de Augsburgo.
5. Aprende de cor estas passagens: Romanos 3.28 e Efésios 2.8-10.
Nestor Beck
5º Artigo - DO OFÍCIO DA PREGAÇÃO
Para conseguirmos essa fé, instituiu Deus o oficio da pregação, dando-nos o evangelho e os sacramentos, pelos quais, como por meios, dá o Espírito Santo, que ope¬ra a fé, onde e quando lhe apraz, naqueles que ouvem o evangelho, o qual ensina que temos pelos méritos de Cristo, não pelos nossos, um Deus gracioso, se o cremos.
Condenam-se os anabatistas e outros que ensinam alcançarmos o Espírito Santo mediante preparação, pensamentos e obras próprias, sem a palavra física do evangelho.
ESTUDO
Se não é qualquer (tipo de) fé que nos torna justos diante de Deus, pergunta-se: Como vão os homens conseguir esta fé que os torna justos? Esta é a pergunta que o quin¬to artigo visa responder.
Este artigo, portanto, não trata do ministério da proclamação propriamente dito. Trata dele apenas como um dos recursos que Deus criou e utiliza para produzir nos ho¬mens a fé que os justifica diante dele.
Não esqueçamos. Também este artigo repousa sobre o terceiro. Jesus, como Senhor, concedeu o Espírito Santo aos apóstolos. Estes que espalharam a boa notícia a todo o mundo. Através dela o Espírito Santo age poderosamente, conforme veremos a seguir.
A BOA NOTÍCIA
Esclarecem os confessores que, para conseguirmos a fé de que trata o artigo quarto, ¬Deus instituiu o ministério, ofício ou simplesmente serviço da proclamação, ou seja, deu (à igreja) a boa notícia do evangelho e os sacramentos. Fica entendido, pois, a função deste ministério ou serviço é anunciar a boa notícia e repartir os sacramentos.
Para que Deus instituiu o ofício da proclamação e concedeu a boa notícia e os sacramentos? Respondem os confessores: Deus faz uso deles como meios ou instrumentos para conceder o seu Espírito Santo.
Mas por que ou para que pretende dar o Espírito Santo? Respondem os confessores¬: O Espírito Santo acende a fé, onde e quando quiser, nas pessoas que ouvem a boa notícia a saber, que temos um Deus favorável por mérito de Cristo, não por mérito próprio, ao crermos exatamente isto - o que a boa notícia nos anuncia.
Em suma, conseguimos a fé de que trata o artigo quarto, não por iniciativa ou esforço próprios, mas por obra de Deus Espírito Santo, quando ouvimos a boa notícia e, pelo poder inerente à própria notícia, somos levados a aceitar o que a notícia está anun¬ciando, e, portanto, a ter certeza de que Deus nos é favorável e nos aceita como filhos por causa do trabalho de Cristo.
Notemos bem. Muito antes de sequer pensarmos em nos aproximar de Deus, já o Senhor tomou todas as providências para acender em nós aquela fé que obtém o perdão, nos torna justos e é valorizada como justiça por agarrar e prender a Cristo com seus dons.
Esta confissão se fundamenta em testemunhos claros dos apóstolos: "E se o mi¬nistério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de glória, a ponto de os filhos de Israel não poderem fitar a face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, ainda que desvaneceste, como não será de maior glória o ministério do Espírito?" (2 Coríntios 3.7-8). "Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei, ou pela pregação da fé? (Carta aos Gálatas 3.2).
"Como, porém, invocarão aquele em que não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo" (Carta aos Ro¬manos 10.14,15,17).
ENSINO CONTRÁRIO
Por isso mesmo os confessores não se constrangem em denunciar e rejeitar os anabatistas e outros, por ensinarem que se recebe o Espírito Santo sem a palavra sonora da boa notícia, por nossos próprios preparativos, reflexões e iniciativas.
Os anabatistas eram grupos pequenos e esparsos que tinham abandonado arti¬gos da fé confessada nos credos para adotarem posições extremas. Uns não davam valor aos sacramentos. Outros desprezavam a palavra do evangelho em troca de inspiração e re¬velações diretas do Espírito Santo.
Quem serão os outros? Podemos responder com segurança que eram os defen¬sores da doutrina "católica" corrente.
Segundo os mesmos, o homem podia, por própria iniciativa e força, fazer o bem, e Deus não poderia ficar indiferente. Por uma questão de coerência, acabaria recompen¬sando a bondade do homem (Chamavam a isso meritum de congruo). Citavam como exemplo o caso de Cornélio que, por suas orações e esmolas, teria merecido a visita de Pedro (Atos 10.1-5).
À base desse mérito inicial, mas movido principalmente pelos méritos de Cristo, diziam, Deus concederia ao homem a graça que o tornaria agradável (gratia gratum fa¬ciens) que muitos identificaram com o amor. À base deste novo poder, o homem passa¬ria a amar a Deus e ao próximo e assim cumprir a lei. Ora, quem cumpre a lei, merece a vida eterna. Deus, portanto, acabaria concedendo a recompensa da vida eterna ao homem, que, por ter cumprido a lei, seria digno dela (A isso chamavam de meritum de condigno).
Nesta teoria a fé tem valor para a justificação somente quando "formada", isto é, tornada ativa e cumpridora da lei pelo amor (fides charitate formata}. A fé, portanto, é entendida não como meio de apreender o perdão e justiça de Cristo, mas como virtude ou qualidade que satisfaz às exigências da lei de Deus.
Esta teoria predominava em amplos setores da igreja "católica" romana da épo¬ca. E esta teoria que os confessores de Augsburgo estão rejeitando, ao condenarem "os outros” por ensinarem que o Espírito Santo é conseguido por meios outros sem ser a boa notícia de Cristo e os sacramentos.
Na sociedade atual, muito se fala em fé e esperança. Saibamos distinguir entre a fé ou crença que as pessoas podem ter por própria iniciativa e esforço, e a fé que é produzida só pelo Espírito Santo, através da boa notícia de Cristo. Somente esta habilita ao perdão dos pecados e à comunhão com Deus. Saibamos também valorizar o ministério ou serviço da proclamação como instrumento que o próprio Senhor criou para anunciar e conferir aos homens a fé salvadora.
REFLEXÕES
1. Confira nas Escrituras as passagens citadas nesta explicação e memorize Ro¬manos 10.17.
2. Faça uma descrição do ministério do Novo Testamento à base de 2 Coríntios 2.14 - 3.11 e 5.11 - 6.3.
3. Leia o décimo capítulo da Carta aos Romanos e liste as providências que Deus tomou para levar a salvação aos homens.
4. Descreva o poder da palavra de Deus à base de Mateus 13.31-33 e Marcos 4.26-29. Confira também Isaías 55.6-13.
5. Leia o segundo capítulo dos Atos dos Apóstolos e descreva os resultados da ação do Espírito Santo enviado pelo Senhor Jesus Cristo.
6. Se não souber de cor, memorize a explicação do terceiro artigo do Credo Apostólico no Catecismo Menor.
Nestor Beck
6º Artigo - DA NOVA OBEDIÊNCIA
Ensina-se ainda que essa fé deve produzir bons frutos e boas obras, e que, por amor de Deus, se deve praticar toda sorte de boas obras por ele ordenadas, não se devendo ¬porém, confiar nessas obras, como se por elas se merecesse graça diante de Deus. Pois é fé em Cristo que recebemos perdão dos pecados e justiça, como diz o próprio Cristo: "Depois de haverdes feito tudo isso, deveis dizer: Somos servos inúteis”: Assim ensinam os Pais. Pois Ambrosio diz: ''Assim está estabelecido por Deus que aquele que crê em Cristo é salvo, e tem a remissão dos pecados não por obras, mas pela fé somente, sem mérito”.
ESTUDO
Conforme veremos no vigésimo artigo e na segunda parte da Confissão de Augs¬burgo os adversários acusavam os "luteranos" de estarem desencorajando e proibindo as boas obras. De fato, Martinho Lutero e seus colegas estavam escrevendo e ensinando que o homem se torna justo diante de Deus pela fé somente, sem as obras. Estavam dizendo, com isso, que a fé não fazia ou não precisava fazer boas obras e cumprir os mandamentos de Deus? Estavam fomentando uma vida desregrada, como alegavam os adversários?
São estas as perguntas que responde o artigo sexto.
FÉ PRODUZ BOAS OBRAS
Os confessores afirmam, em primeiro lugar, que a fé descrita nos artigos anterio¬res necessariamente (faz e) precisa fazer boas ações. Ressaltam, porém, que precisa fazer não quaisquer ações de sua própria escolha ou impostas pelos homens, e, sim aquelas ações que Deus mandou fazer.
Ao fazerem esta ressalva, os confessores estão deixando claro que não consideram necessárias e obrigatórias as ações supostamente boas que a piedade tradicional tinha inventado, como peregrinações, rosários, jejuns e coisas semelhantes, conforme esclarecem períodos do artigo vigésimo.
Os confessores não dizem expressamente quais são as ações que Deus ordenou. Entende-se, porém, que são as obras ordenadas nos dez mandamentos e exigidas pelo oficio que cada qual desempenha na sociedade. De fato, nos "Artigos de Schwabach ¬os reformadores afirmam que a fé pratica o bem em relação a Deus, louvando, agradecen¬do, orando, pregando e ensinando, em relação ao próximo com amor, pelo servir, ajudar, orientar, doar e sofrer todo mal até à morte. Na "confissão" de 1528, Martinho Lutero destaca três grandes ordens instituídas por Deus: o sacerdócio, a família e a autoridade civil (e econômica). Cada qual servirá ao Senhor segundo a ordem ou posição em que estiver colocado. Acima destas, coloca a ordem comum do amor cristão. Nesta faz o bem a todos, de acordo com a necessidade de cada um, e se sofre todo mal.
DEUS QUER BOAS OBRAS
Em segundo lugar, os confessores afirmam que a fé produz boas ações exclusivamente "por causa de Deus", ou seja, porque Deus as quer e aprova. Acrescentam, porém, que as boas ações não devem ser feitas com a intenção de se basear nelas a esperança de merecer o favor de Deus. Excluem, assim, a teoria dos méritos, segundo a qual se fazem boas obras para exatamente merecer mais e mais graça e, por fim, a vida eterna. Excluem esta teoria à base da verdade exposta nos artigos anteriores: Recebemos o perdão dos pecados e a justiça pela fé em Cristo.
Cristo, na verdade, continua sendo a nossa justiça, e a fé continua sendo o único meio de agarrar e receber os benefícios de Cristo, mesmo quando já somos filhos Deus e temos um saldo favorável de boas obras. Como Melanchthon explica noutro lugar, estas boas obras, na medida em que cumprem a lei, são justiça, mas em sentido derivado. Deus as aceita apenas porque estamos, pela fé, unidos com Cristo e recobertos por sua justiça irrepreensível.
SERVOS INÚTEIS
A fim de justificar a exclusão da confiança nas boas obras, os confessores citam Lucas 17.10. Aí Jesus nos diz que, mesmo que tenhamos feito tudo o que o Senhor nos mandou, precisamos confessar que somos servos inúteis, pois só fizemos o que nos foi ordenado. Poderíamos confiar nas boas obras para merecer o favor de Deus apenas se pudéssemos cumprir a lei com perfeição, isto é, não apenas fazer tudo o que Deus exige, mas fazer tudo com o amor e prontidão que Deus requer. Como, porém, apenas Cristo cumpriu dessa maneira a vontade do Pai, convém antes nos abrigarmos sob suas asas, para podermos enfrentar o juízo.
Os confessores citam ainda uma passagem dum comentário sobre a Primeira Carta aos Coríntios, que era atribuído, mas não foi escrito por Ambrósio, bispo de Milão, que viveu de 340 a 397. Nesta passagem o autor desconhecido afirma, com toda clareza, que salvação é apropriada pela fé em Cristo e, portanto, não depende dos méritos da pessoa.
Neste artigo sexto os confessores de Augsburgo nos mostram, com toda clareza, em que sentido podemos e precisamos fazer o bem. Não se pode alegar, portanto, que "luteranos não queiram e não saibam ensinar boas obras." Apontam também o perigo de olharmos para o bem que fazemos, em vez de concentrar somente em Cristo a esperança da vida eterna.
Portanto, façamos todo empenho para manter esta dupla verdade: Deus quer que façamos o bem, mas não quer que deixemos de recorrer a Cristo, pela fé, como nossa única justiça que reconhece e aceita. Neste sentido, é oportuno ler e meditar o que diz Paulo em Efésios 2.4-10: "Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos, e juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus: Para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus: Não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas".
REFLEXÕES
1 - Leia os capítulos cinco, seis e oito da Carta aos Romanos e procure descrever a ação de Cristo e a ação do Espírito Santo.
2 - Leia os primeiros cinco versículos do capítulo doze da Carta aos Romanos e procure caracterizar a fonte donde brota a vida cristã.
3 - Leia os primeiros três capítulos da Carta aos Efésios e caracterize a relação que existe entre a ressurreição de Cristo, a criação da fé e a nova vida em Cristo.
4 - Compare o sexto Artigo da Confissão de Augsburgo com o quarto da Fórmula da Concórdia.
5 - Procurem no Catecismo Menor a resposta à pergunta "Quais são estes" (pecados que devemos confessar)? Compare a resposta com esta explicação do sexto ar¬tigo da Confissão de Augsburgo.
6 - Responda: Por que, no Catecismo Menor, Martinho Lutero inicia a explicação de todos os conhecimentos com a frase: "Devemos temer e amar a Deus e, portanto...?
Nestor Beck
7º Artigo - DA IGREJA
Ensina-se também que sempre haverá e permanecerá uma única santa igreja cristã que é a congregação de todos os crentes entre os quais o evangelho é pregado pu¬ramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho.
Porque para a verdadeira unidade da igreja cristã é suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos administrados em conformidade com a palavra de Deus. E para a verdadeira unidade da ¬igreja cristã não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes instituída pelos homens. É como diz Paulo em Efésios 4: "Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo”.
ESTUDO
Os artigos quatro e seis da Confissão de Augsburgo formam um conjunto. Melanchthon julgou necessário explicar mais detalhadamente a questão da fé e das obras. Não quis, porém, quebrar a seqüência de artigos curtos com explicações mais longas. Preferiu acresce¬ntar, mais adiante, o artigo número vinte, para explicar melhor a questão.
Com os artigos sete e oito entramos em novo conjunto, que trata da igreja. No sétimo os confessores de Augsburgo dizem o que consideram necessário e suficiente pa¬ra a unidade da igreja. O título do artigo, portanto, deveria ser: A unidade da igreja.
A IGREJA CRISTÃ EXISTE
Podemos distinguir duas partes neste artigo.
Na primeira, se afirma que sempre haverá sobre a terra uma santa igreja cristã, evidentemente à base das promessas de Jesus no Evangelho de Mateus 16.18: ''Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão con¬tra ela" e 28.20: " ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado e eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século." Sobre isto – não haveria discussão entre ''luteranos'' e "católicos".
Havia discussão, isto sim, sobre o que seria a igreja como "a reunião de todos os crentes, entre os quais o evangelho é anunciado puramente e os santos sacramentos distribuídos de acordo com o evangelho." De propósito não incluem na definição outros elementos, além da proclamação do evangelho e da distribuição dos santos sacramentos. A razão disto aparece na segunda parte do artigo.
A UNIDADE DA IGREJA
Na segunda parte, os confessores afirmam que esclarecem o que é e o que não é necessário â unidade legítima da igreja cristã.
Para manter a unidade legítima da igreja é suficiente que nela o evangelho seja anunciado a uma voz de acordo com uma compreensão pura (do mesmo) e os sacramentos sejam distribuídos de acordo com a palavra divina.
Portanto, acrescentam os confessores, não é necessário à unidade legítima em toda parte se pratiquem cerimônias idênticas instituídas pelos homens.
Fundamentam esta tese no que Paulo escreve aos Efésios no capítulo quarto:
"Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, una só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos".
Os confessores, portanto, estão combatendo una pseudo-unidade, ou seja, visão ilegítima da unidade da igreja, aquela visão que exige que em todas as partes se acatem e pratiquem as mesmas cerimônias instituídas pelos homens, aquela visão que exclui da unidade da igreja a quantos não aceitam ou não praticam tais cerimônias.
Já estamos percebendo a onde os confessores estão querendo chegar. Estão querendo dizer, como de fato dizem na conclusão dos vinte e um "artigos da fé e do ensino”. Nós, igrejas e escolas luteranas, apesar de não aceitarmos e praticarmos todas as cerimônias humanas da igreja "católica" romana estamos e permanecemos na unidade legitima da igreja cristã". A razão é esta: Anunciamos e ensinamos a boa notícia de Cristo puramente, sem adulteração, e distribuímos os santos sacramentos de acordo com a palavra divina. Portanto, somos e queremos ser tratados como membros e integrantes da única igreja de Jesus Cristo. Ninguém tem o direito de nos excluir e tratar como hereges por não guardarmos as cerimônias humanas da igreja católica apostólica romana.
Este artigo sétimo, portanto, reproduz a plataforma dos confessores para as negociações que o imperador tinha prometido para a dieta de Augsburgo.
Que seja este o sentido deste artigo sétimo. Fica bem claro face à redação do décimo segundo artigo de Schwabach. Depois de afirmarem que existe e haverá até ao fim do mundo uma santa igreja crista, de acordo com a promessa de Jesus em Mateus, 28.19,20 - "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século" - os reformadores afirmam: "Esta igreja não é senão os crentes em Cristo, que sustentam, crêem e ensinam os artigos e partes citadas acima (a saber, os artigos precedentes da confissão de Schwabach) e por causa deles são perseguidos e martirizados no mundo. Pois onde quer que o evangelho esteja sendo pregado e os sacramentos sendo usados adequadamente, aí está a santa igreja cristã, e não está amarrada a lugares e épocas, a pessoas e gestos, através de leis e pompas exteriores".
O endereço não poderia estar mais claro. Os ''luteranos'' negam que a estrutura visível da igreja católica apostólica romana seja idêntica à única igreja de Cristo, de modo a ficarem excluídos dela todas as igrejas e crentes que não se submetem às leis e ao cerimonial do papa romano.
Como diz também Lutero na "Confissão de 1528:” "A cristandade está não apenas debaixo da igreja romana e do papa, mas em todo o mundo, conforme anunciaram os profetas que o evangelho de Cristo se espelharia no mundo inteiro (Salmo 2.7-9 e 19.5), de modo que sob o papa ... e em toda a parte está a cristandade espalhada fisicamente, mas reunida espiritualmente num só evangelho e fé sob uma única cabeça, que é Jesus Cristo".
Basta isto para esclarecer que a unidade da igreja é espiritual e invisível, e não coincide com a organização externa da igreja presidida pelo papa. O Senhor e somente ele conhece os seus, estejam onde estiverem. É ele que os reúne e mantêm unidos pela voz do evangelho e pelos sacramentos, os meios pelos quais ele chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra.
REFLEXÕES
1. Releia a explicação do terceiro artigo do Credo Apostólico no Catecismo Menor e verifique qual é a ação do Espírito Santo na igreja de Cristo.
2. Veja o que o apóstolo Paulo escreve sobre a unidade da igreja no quarto e quinto capítulos da Carta aos Efésios.
3. Para que fim o Senhor constituiu a igreja? Responda à base de Efésios 3.10 e 1 Pedro 2.9-10.
4. Quais serão as finalidades da congregação cristã? Serão as mesmas da igreja?
5. Reflita sobre isto: Estará a sua congregação cumprindo com suas finalidades?
Nestor Beck
8º Artigo - O QUE É A IGREJA?
Além disso, ainda que a igreja cristã, propriamente falando, outra coisa não é senão a congregação de todos os crentes e santos, todavia, já que nesta vida continuam entre os piedosos muitos falsos cristãos e hipócritas, também pecadores manifestos, os sacramentos nada obstante são eficazes, embora os sacerdotes que os administram não sejam piedosos. Conforme o próprio Cristo indica: "Na cadeira de Moisés estão sentados os fari¬seus, etc."
São condenados, por isso, os donatistas e todos os outros que pensam de maneira diversa.
ESTUDO
A reforma religiosa do século XVI provocou muitas situações angustiantes.
Acontecia que muitas pessoas reconheciam a verdade conforme ensinada pelos reformadores. Não tinham condições, porém, de "sair" da igreja controlada pelos bispos. Deveriam continuar recebendo os sacramentos de pastores descrentes ou de má fama?
Outras pessoas ficavam atribuladas com a pregação dos anabatistas. Perguntavam sido batizados por pastores descrentes e precisavam batizar-se de novo.
O artigo oitavo da Confissão de Augsburgo foi escrito para responder a tais perguntas
OS CRENTES
São três as declarações dos confessores.
Em primeiro lugar, reafirmam a tese do artigo sétimo: A igreja propriamente dita não é outra coisa que não seja a reunião ou congregação de todos os crentes e santos (Os crentes e santos são as pessoas que crêem no Senhor Jesus e fazem o bem conforme se disse nos artigos quatro e seis. São as mesmas que adiante são chamadas de justos).
OS HIPÓCRITAS
Em segundo lugar, esclarecem os confessores que, neste mundo, há entre os justo¬s muitos cristãos falsos, hipócritas e pecadores reconhecidos por todos.
Os confessores, portanto, distinguem entre reunião ou congregação dos crentes verdadeiros, o que é espiritual, e a reunião observável dos crentes para anunciar e ouvir a boa notícia de Cristo e distribuir os santos sacramentos. Daquela fazem parte só os crentes verdad¬eiros. Nesta se infiltram pessoas que podem parecer, mas não são crentes ou justos ou sant¬os. O próprio Jesus explicou isso na parábola do joio (Mateus 13.24-31; 36-43). O Filho do homem semeia semente boa, mas vem o diabo e semeia semente má, e aparecem filhos do diabo em meio aos filhos do Pai.
OS SACRAMENTOS
Em terceiro lugar, os confessores afirmam que os sacramentos continuam eficazes ou poderosos, apesar de distribuídos por pastores ou sacerdotes descrentes. Sustentam isso com as palavras de Jesus: "Na cadeira de Moisés se assentaram os escribas e fariseus. Fazei, pois, e guardai tudo o que vos disserem. Em suas obras, porém, não os imiteis, dizem, e não fazem."
Os sacramentos, portanto, produzem o efeito desejado não porque é justo e digno o pastor que os distribui, mas porque o próprio Senhor, que os instituiu, prometeu agir e neles atua de fato, conforme prometeu. Ou seja, o pastor distribui os sacramentos anuncia a boa notícia não em seu nome próprio, mas em nome de Cristo.
Por esta razão os sacramentos são e continuam válidos, mesmo quando administrados por pessoas descrentes. Conforme explica Martinho Lutero na "Confissão" 1528, pode ocorrer que pastores ofereçam os sacramentos não como Cristo os instituiu, mas de outra forma. Então, de fato, não estão batizando nem distribuindo a santa ceia. estão, isto sim, abusando de Cristo e o crente fugirá deles.
Ao fazerem esta confissão, os confessores de Augsburgo se associaram, mais vez, à proclamação e ensino da igreja apostólica. Por conseguinte rejeitaram e condenaram a doutrina dos donatistas e "todos os outros".
ENSINOS CONTRÁRIOS
Na igreja antiga ocorreu que bispos e pastores também fraquejaram nas perseguições e entregaram às autoridades os livros sagrados. Eram chamados, por isso, de traditori. "Traidores". Os novacianos, seguidores de Novácio, bispo de Roma no século 11, também chamados de Katharoi ou puritanos, e os donatistas, seguidores de Donato, bispo de Cartago, na África, que viveu no século IV, sustentavam que os crentes deviam recusar-se a receber os sacramentos das mãos de "traidores". Com o passar do tempo formavam congregações só de gente "santa". Os anabatistas, no século XVI, passaram a denunciar os padres como descrentes e a sustentar que os sacramentos quando oficiados por eles não eram válidos. Os confessores aqui se dissociam deles, reafirmando a posição da igreja antiga.
EFICÁCIA DOS SACRAMENTOS
A verdade confessada neste artigo nos consola. Se dependesse da dignidade de pastores a eficácia dos sacramentos, teríamos de sair à procura do pastor que nos batizou para descobrirmos se era crente e vivia como filho de Deus. Sempre estaríamos em dúvida ao recebermos a ceia do Senhor. Teria o pastor distribuído o sacramento com fé verdadeira e amor cristão?
Portanto, estejamos de sobreaviso quando alguém começa a insinuar que a igreja está cheia de pecadores e os ministros são indignos. Mais um passo e nos convidará a entrar na igreja dele, uma igreja só de "santos". “Os herdeiros dos novacianos e donatistas” andam por aí, neste Brasil, causando confusão e ferindo as consciências. Saibamos usar este artigo para lhes resistir. Ao mesmo tempo, façamos tudo para evitar que pecadores descarados se tomem pastores ou permaneçam no ministério. Quando guias espirituais não têm condições de ser modelos, isso não recomenda a igreja.
REFLEXÕES
1. Leia o capítulo vinte e três do Evangelho de Mateus e veja por que Jesus denunciou os mestres da lei e os fariseus.
2. Leia a parábola do joio com a explicação no Evangelho de Mateus 13.24-31 e 36-43.
3. Leia no Evangelho de Mateus 13.47-50 a parábola da rede e a compare com a do joio,
4. Leia a advertência de Jesus contra os falsos profetas (Mateus 7.15-23) e res¬ponde: O que significa que se apresentam "vestidos como ovelhas"?
5. Leia 1 Coríntios 11.17-34 e responda: Por que, quando se reuniam, a rigor não era a ceia do Senhor que estavam celebrando?
Nestor Beck
9º Artigo - DO BATISMO
Do batismo se ensina que é necessário e que por ele se oferece graça; que também se devem batizar as crianças, as quais, pelo batismo, são entregues à Deus e a ele se tornam agradáveis.
Por essa razão se rejeitam os anabatistas, os quais ensinam que o batismo infantil não é correto.
ESTUDO
Os pais eram luteranos. Da classe média. Seu terceiro filho tinha seis meses. Quando o pastor falou sobre a necessidade de batizar a criança, o pai respondeu: "Sim, vamos balizá-lo daqui a dois meses". Vendo a surpresa do pastor, a mãe explicou: "O senhor não acha que a festa de batismo deve ser bonita e alegre? Agora Laerte ainda é tão pequeno, mas com oito meses ele já pode sorrir para o fotógrafo e para os padrinhos. As fotos de seu álbum ficarão muito bonitas".
O BATISMO NÃO É FESTA
Os anabatistas, os batistas, os menonitas e outras tantas seitas religiosas que ainda hoje atuam no Brasil, negam a necessidade de batizar crianças. Uns afirmam que a Escritura nada ensina sobre o batismo infantil, outros dizem que as crianças não podem crer e outros ainda acreditam que as crianças não têm pecado. Rejeitando o batismo, estas seitas religiosas ainda não entenderam o que a Sagrada Escritura ensina sobre a necessidade e importância deste sacramento. Por esta razão a Confissão de Augsburgo condena ¬estes falsos ensinos e mostra o que Deus diz sobre o batismo. Pais cristãos precisam reexaminar a doutrina deste meio da graça.
O BATISMO É NECESSÁRIO
"Do batismo se ensina que é necessário". Não, o batismo não pode ser transfor¬mado em mera festa social para os pais, padrinhos, parentes e amigos. Não, o batismo não é nenhuma sábia invenção humana. Não, o batismo também não é um simples rito religioso ou uma vazia cerimônia da igreja. Mas o batismo é um santo sacramento, instituído pelo próprio Cristo.
Embora um ofício religioso tão simples, o batismo traz bênçãos muito grandes: perdão dos pecados, vida e salvação. É que a "palavra de Deus que está unida com a água e a fé que confia nesta palavra de Deus unida com a água fazem com que o batismo seja água de vida e cheia de graça, lavagem de renascimento no Espírito Santo".
E o Salvador ordenou que a sua igreja o administrasse em todos os lugares e em todos os tempos. Esta verdade está expressa nas palavras da instituição, em Mateus 28.19 e 20: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado", Logo, é necessário que a igreja cristã administre o batismo porque ele é uma graciosa ordenação do próprio Deus.
O BATISMO É MEIO DA GRAÇA
"E que por ele se oferece graça". O batismo não é um simples ato simbólico. O batismo é um meio da graça, através do qual o Espírito Santo age, transforma e regenera o pecador. O batismo é o dia do aniversário cristão, pois com este lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, o pecador recebe a fé em Cristo, libertação da morte e do diabo, nova vida espiritual e passa ser filho de Deus e herdeiro da vida eterna. O que Deus opera pelo batismo é um milagre. Muito oportuno é reconhecer, aqui, estas palavras de Lutero: "E, Deus ordenou, com seriedade, que valorizemos o batismo, sob pena de perdermos a nossa salvação. Batizar-se não é algo tão simples como vestir uma roupa nova. É preciso dedicar toda atenção ao batismo e considerá-lo de maneira reta, honrosa digna. Deveríamos apreciar sempre o santo batismo e fazer correto uso para nos fortalecer e consolar quando o nosso pecado e a nossa consciência nos acusam. Em tais momentos devemos dizer: Estou batizado, e por isso tenho a promessa de ser salvo e que meu corpo e minha alma têm a vida eterna".
Sobre esta verdade Cristo afirma em Marcos 16.61: "Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado". E Paulo diz em Tito 3.5: "Mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo". Em Gálatas 3.26 e 27 lemos: "Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes". Portanto, sendo um meio da graça, o batismo opera um renascimento espiritual no pecador, o qual recebe fé no Salvador, e, revestido de Cristo, como filho de Deus e herdeiro da vida eterna, o cristão batizado procura viver em novidade de vida.
AS CRIANÇAS DEVEM SER BATIZADAS
"Também se devem batizar crianças, as quais, pelo batismo, são entregues a Deus e a ele se tornam agradáveis" . A Escritura não específica a idade com que um pecador, deve ser batizado. Não faz diferença entre crianças e adultos. A afirmação "também devem ser batizadas crianças" foi incluída neste artigo da Confissão de Augsburgo porque existem religiões que negam o batismo às crianças. Por isso também diz a Apologia da Confissão de Augsburgo: "É manifesto que Deus aprova o batismo dos pequeninos. Logo julgam impiamente os anabatistas, que condenam o batismo dos pequeninos. Que Deus, entretanto, aprova o batismo dos pequeninos, demonstra-se com o fato de ele dar o Espírito Santo aos assim batizados. Fosse nulo esse batismo, e a nenhum seria dado o Espírito Santo, nenhum se salvaria, não haveria, enfim, igreja. Esta só razão já pode confirmar suficientemente corações bons e piedosos contra opiniões ímpias e fanáticas dos anabatistas".
Cristo ordenou que todas as nações fossem batizadas. As crianças não foram excluídas. Tanto adultos como crianças são pecadores, "carne nascido de carne" (João 3.5-7), são espiritualmente cegos e mortos em "delitos e pecados" (Efésios 2.1), e necessitam passar "pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo" (Tito 3.5). Por isso a Fórmula de Concórdia condena os ensinos que afirmam que "perante Deus infantes não batizados não são pecadores, mas justos e inocentes, os quais em sua inocência.... se salvam sem batismo"; condena falsos ensinos que dizem que as "crianças só devem ser batizadas quando tiverem alcançado o uso da razão e puderem confessar pessoalmente sua fé"; condena falsos ensinos que dizem que "os filhos dos cristãos, por isso que nasceram de pais cristãos e crentes, são santos e filhos de Deus mesmo sem o batismo e antes dele". São heresias, porque são ensinos contrários à palavra de Deus.
Também é importante lembrar que o batismo é o único meio revelado por Deus pelo qual o Espírito Santo pode operar a fé salvadora na criança. Além disso, é necessário não esquecer que Cristo sempre dedicou uma atenção muito especial às crianças (Marcos 10.14), e que o Novo Testamento registra casos em que famílias inteiras foram batizadas Atos 16.15; 16.33), o que certamente também incluía as crianças, das quais Cristo diz: “Qualquer, porém, que servir de tropeço a um destes pequeninos que crêem em mim ... " Mateus 18.6). Logo, pais cristãos que conhecem a necessidade e a importância do batismo tudo ¬farão para que, muito cedo, seus filhos sejam "entregues a Deus" no batismo, para que "se tornem agradáveis a Deus" pela fé em Cristo Jesus.
Sendo batizado, valorize e busque consolo em seu batismo. Sendo agraciado com nascimento de um filho, devolva-o ao Senhor através do lavar regenerador e renovador do santo batismo. Esta é a santa vontade de seu Deus e Salvador. Amém.
REFLEXÕES
1. Quais são os dois sacramentos?
2. Que seitas você conhece que não batizam crianças?
3. Quem pode oficiar o batismo?
4. Qual a finalidade dos padrinhos?
5. Qual o aniversário mais importante: o dia do nascimento natural (pagão) ou espiritual (cristão)?
Leopoldo Heimann
10º Artigo - DA SANTA CEIA
Da ceia do Senhor se ensina que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes na ceia sob a espécie do pão e do vinho e são nela distribuídos e recebidos. Por isso também se rejeita a doutrina contrária.
ESTUDO
Há um dado estatístico de nossa igreja sobre a participação da santa ceia que merece pro¬funda reflexão: em média, o comungante luterano está participando apenas de três celebrações por ano. Por que esta baixa participação? Lutero chegou a dizer que quem não participasse, ao menos, quatro vezes da santa ceia por ano, já nem poderia mais ser considerado cristão.
Um outro problema: há congregações que somente celebram a santa ceia de dois em dois meses. Por que o comungante recebe apenas seis oportunidades nos 52 domingos do ano? Mais uma observação que preocupa: quando inicia a liturgia da santa ceia, mui¬tos ouvintes se levantam e deixam o culto. Por que não participam do sacramento do altar ou por que não esperam receber a bênção no final do culto?
MERECE IMITAÇÃO
Um exemplo que merece imitação: certa congregação de nossa igreja, que celebrava a santa ceia uma vez por mês, resolveu administrar, durante o período da quaresma, este meio ¬da graça em todos os domingos, e durante a semana santa, todas as noites. E o pastor comenta: "No início, todos estranharam e perguntavam: por que tanta santa ceia? Mas esta experiência acabou se transformando numa das grandes bênçãos e alegrias do meu ministério. A participação da santa ceia aumentava em cada culto. Em cada culto havia mais ouvintes. Quando terminou a semana santa, todos perguntavam: e agora teremos santa ceia só uma vez por mês? Por que não, ao menos, todos os domingos? Diante desta abençoada experiência e sabendo que a nossa igreja ensina a sã doutrina da santa ceia, estamos reestudando toda a programação de nossa paróquia".
SANTA CEIA É ENSINO BÍBLICO
"Da ceia do Senhor se ensina”: Embora ser uma das doutrinas mais discutidas da igreja cristã, é preciso lembrar que a santa ceia não é um sacramento criado por homens. Diante de sua profundidade espiritual, homens procuram rejeitar ou oferecer interpretações ¬racionais sobre a ceia do Senhor. Mas o ensino da Sagrada Escritura é muito claro, e mostra que o sacramento do altar foi instituído pelo próprio Cristo. A igreja cristã, que sabe ser necessário transmitir a sã doutrina conforme revelada por Deus ( 2 Timóteo 4.1-5), guardar firme a confissão da esperança (Hebreus 10.23) e levar cativo todo o pensamento à obediência de Cristo (2 Coríntios 10.5), pois as coisas do Espírito de Deus se distinguem espiritualmente (1 Coríntios 2.14), sempre ensinou e confessou a verdade que a palavra de Deus afirma sobre a santa ceia.
CRISTO ESTÁ PRESENTE NA SANTA CEIA
"Da ceia do Senhor se ensina que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes na ceia sob a espécie do pão e do vinho". Esta verdade da presença real de Cristo, encontramos expressa nas palavras da instituição conforme diz Mateus 26.26-28: "Enquanto comiam, tomou Jesus um pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para a remissão de pecados". O apóstolo Paulo repete este mesmo ensino, dizendo em 1 Coríntios 1l.23-26: "Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha." E em 1 Coríntios 10.16, o mesmo apóstolo pergunta: "Porventura o cálice da bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo"?
CRISTO DÁ SUA VIDA NA SANTA CEIA
Para dar maior clareza, certeza e importância à doutrina do sacramento do altar a Escritura a repete quatro vezes. Na santa ceia, o Senhor Jesus dá ao comungante o máximo que é possível dar: dá-se a sim mesmo! Cristo dá o seu corpo e seu sangue, enfim, a sua própria vida, como sinal, penhor e prova da obra salvadora que consumou no alto do Calvário e assegura ao pecador arrependido: perdão, vida e salvação.
Em, com e sob o pão Cristo dá ao comungante o seu verdadeiro corpo. Em, com e sob o vinho, Cristo dá ao comungante o seu verdadeiro sangue. Com as palavras "isto é o meu corpo; isto é o meu sangue", Cristo afirma que ele está realmente presente na santa ceia, que existe uma comunhão sacramental entre pão e corpo, vinho e sangue. Toda vez que a congregação cristã celebra a ceia do Senhor, o comungante - quer seja verdadeiro cristão ou hipócrita - recebe o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo.
A presença real de Cristo na mesa do Senhor não depende da fé do comungante. Cristo sempre está presente. A diferença é que o pecador arrependido e bem preparado recebe a ceia de Cristo como bênção para a remissão de seus pecados e fortalecimento de sua fé; enquanto que o pecador impenitente e não preparado recebe a santa ceia como juízo, para sua condenação. Esta é a razão porque o apóstolo lembra aos comungantes. "Examine-se, pois o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice; pois quem come e bebe, sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si" (1 Coríntios 1l.28,29).
DOUTRINA CONTRÁRIA DEVE SER REJEITADA
"Por isso também se rejeita a doutrina contrária”: A igreja cristã, além do “ensinamos, cremos e confessamos", também precisa acrescentar o "rejeitamos e condenamos¬”. Não considerando as igrejas que desprezam o sacramento do altar, existem duas doutrinas contrárias ao ensino bíblico.
A igreja romana ensina a falsa doutrina da transubstanciação. Afirma que, pela palavra do sacerdote pão e vinho são transformados no corpo e sangue de Cristo. Logo, para a igreja romana, o pão deixa de ser pão para ser apenas corpo; o vinho deixa se ser vinho para ser apenas sangue. É diante desta falsa interpretação que a igreja romana comete ¬mais duas heresias: pratica a idolatria, adorando a hóstia; mutila o santo sacramento negando o cálice ao comungante.
Outra doutrina contrária ao ensino bíblico encontramos nas igrejas reformadas, interpretações errôneas de Zwinglio e Calvino. Dando rédeas à sua razão, assumem o outro extr¬emo da igreja romana. Afirmam que a ceia do Senhor é um simples ato comemorativo e de testemunho da congregação. O pão e vinho são apenas meros símbolos do corpo e sangue de Cristo, isto é, o pão e o vinho simplesmente significam, representam ou simbolizam o corpo e o sangue do Senhor. Logo, rejeitando o "isto é o meu corpo; isto é o meu sangue", as igrejas reformadas somente ficam com o pão e vinho e negam a presença real de Cristo neste comer e beber sobrenatural, espiritual e sacramental.
Tanto a doutrina romana da transubstanciação como a doutrina reformada da simbologia são contrárias ao ensino bíblico, e devem ser rejeitadas pela igreja cristã.
SANTA CEIA É ALIMENTO CELESTIAL
A ceia do Senhor é mais um sacramento instituído pelo Senhor da igreja, no qual Cristo se dá a si mesmo para que o comungante possa receber remissão de seus pecados, fortalecimento de sua fé e progresso em sua vida espiritual. A mesa do Senhor está posta este farto alimento espiritual: perdão, vida e salvação. Você está convidado a participar desta milagrosa ceia do Senhor.
REFLEXÕES
1. Por que a média de participação da santa ceia em nossa igreja é tão baixa?
2. Você acha que seria bom se sua congregação celebrasse a santa ceia todos os domingos? Não seria aconselhável falar com a diretoria ou os membros vo¬tantes?
3. O que é a presença real de Cristo na santa ceia?
4. Qual é o erro da doutrina da transubstanciação?
5. Qual o erro que as igrejas reformadas ensinam sobre a santa ceia?
Leopoldo Heimann (L.)
11º Artigo - DA CONFISSÃO
Da Confissão se ensina que se deve conservar a privata absolutio, não a deixando cair em desuso na igreja, ainda que na confissão é desnecessário enumerar todos os maus feitos e pecados, porque tal nem é possível. Salmo 19: "Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas”.
ESTUDO
Além dos hinos, das orações, das leituras bíblicas e do sermão, a ordem de nossas Liturgia Luterana apresenta duas partes que recebem destaque muito especial em todos os cultos públicos de nossa igreja: a confissão dos pecados e a absolvição dos pecados.
DIFERENÇA ENTRE CONFISSÃO E ABSOLVIÇÃO PÚBLICAS
Na confissão pública, a comunidade apresenta ao onipotente e misericordioso Deus todos os seus pecados, transgressões e iniqüidades. Na absolvição pública, o ministro, da palavra, da parte e por ordem de Jesus Cristo, perdoa todos os pecados, transgressões e iniqüidades da comunidade. A confissão e absolvição públicas acontecem em todo os cul¬tos que a igreja luterana realiza em qualquer parte do mundo.
Na exposição das partes principais da doutrina cristã, o Catecismo Menor per¬gunta: “É necessário o cristão confessar-se ao ministro"? E a primeira parte da resposta diz: “Na verdade, não se deve obrigar ninguém à confissão particular; mas por meio dela recebe o cristão o consolo de lhe ser a absolvição anunciada de um modo especial". Todos os membros da igreja luterana sabem - como já o aprenderam na instrução de confirmandos - que eles têm plena liberdade de fazer ou não a confissão particular ao ministro, e que podem valer-se ou não do privilégio de receber a absolvição particular do ministro de Cristo.
A Confissão de Augsburgo apresenta dois artigos sobre a confissão (artigos 11 e 25) por duas razões principais: a primeira, para combater os abusos que a igreja romana praticava com a confissão; segunda, para mostrar que os reformadores não haviam abolido a confissão, como afirmava a igreja romana. Vejamos, pois, mais de perto, o que a igreja luterana ensina sobre a confissão e a absolvição.
A CONFISSÃO PARTICULAR NÃO DEVE CAIR EM DESUSO
"Da confissão se ensina que... é desnecessário enumerar todos os maus feitos e pecados”. Não há dúvidas ou divergências quanto à confissão geral e pública que a congregação ¬faz a Deus nos cultos públicos. Fica compreendido que, na casa de Deus, o povo de Deus confessa ao Senhor seu Deus todos os seus pecados, transgressões e iniqüidades.
Mas que dizer sobre a confissão individual e particular junto ao pastor? É desta confissão que trata o presente artigo. A Sagrada Escritura a ordena, recomenda ou condena? Qual a sua finalidade? Qual é seu proveito? Quem deve ou não fazer tal confissão? Que pecados devem ou não ser confessados? Ora, a igreja romana tem a confissão particular como uma lei eclesiástica, isto é, todo católico deve confessar-se ao padre como também deve enumerar todos os "seus maus feitos e pecados" para receber o perdão. Outro, porém, é o ensino da igreja luterana. Ela ensina que a confissão não deve "cair em desuso na igreja" como lembram os pais. "Não se deve obrigar ninguém à confissão particular”, afirma Schwan. "A confissão particular para o cristão não é nem mandamento divino nem imposição eclesiástica; é antes uma permissão e um bem-aventurado direito”: conclui Loehe. Logo a confissão particular não é obrigatória na igreja luterana; mas todo cristão luterano tem liberdade de fazê-la ou não.
A confissão particular é uma prática pastoral salutar. É mais uma maneira de o pastor assistir, orientar e aconselhar seus congregados. É uma entrevista entre o ministro de Cristo e o pecador arrependido que busca perdão dos pecados que "lhe pesam na consciência e lhe oprimem o coração". E o embaixador de Cristo, em nome e por ordem do Senhor da igreja, concede a absolvição dos pecados. O pastor que exerce com eficiência e fidelidade seu ministério e que conquistou a confiança de seus fiéis, será procurado por cristãos atribulados que confessam seus pecados com o desejo de receber a absolvição de seus pecados.
"Da confissão se ensina que se deve conservar a absolvição particular". Ela não é uma lei eclesiástica. Não é uma obrigação. Mas é a aplicação correta do evangelho. É Jesus quem diz: "Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio... Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos" (João 20 21-23). Numa outra oportunidade Jesus disse: "Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra, terá sido ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra, terá sido desligado no céu" (Mateus 18.18).
DEUS PERDOA ATRAVÉS DE SEUS MINISTROS
Este poder de perdoar pecados foi entregue à igreja cristã, e não apenas aos apóstolos. Esta é a correta compreensão do evangelho de Cristo. O pastor não tem este poder em si e por si: o perdão dos pecados vem através dos meios da graça - palavra e sacramentos - que o pastor administra. Quando o pastor pronuncia a absolvição, ele está usando a palavra de Deus, através da qual Deus concede o perdão. Quando o pastor concede a absolvição dos pecados ao comungante, ele está administrando os santos sacramentos, através dos quais Deus concede o perdão.
O pastor não tem poderes próprios para oferecer o perdão. Deus não concede o perdão diretamente. O pastor perdoa os pecados enquanto administra corretamente os meios da graça. Deus concede o perdão dos pecados através dos meios da graça que o pastor administra. Esta doutrina está claramente ensinada pela Sagrada Escritura. Cristo o afirma assim: "Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim; e, quem vos rejeitar, a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar, rejeita àquele que me enviou" (Lucas 10.16). Paulo mostra o poder da palavra de Deus com estas palavras: "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê" (Romanos 1.16). Na oração sacerdotal, Cristo expressa esta doutrina nas palavras: "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim por intermédio da palavra" (João 17.17-20). Paulo mostra esta verdade com as perguntas: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados? E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo" (Romanos 10. 14,15,17).
O CRISTÃO TEM SAUDADE DA CONFISSÃO E ABSOLVIÇÃO
A doutrina da confissão - geral e pública ou individual e particular - e a doutrina da ¬absolvição - geral e pública ou individual e particular - são doutrinas com fundamentação ¬bíblica, que foram defendidas e praticadas pelos reformadores de ontem, e que são defendidas e praticadas na igreja luterana de hoje. Todo pecador arrependido fará confissão de ¬seus pecados. Todo pecador arrependido receberá absolvição de seus pecados. O cristão que confessa e recebe o perdão de seus pecados, é um cristão que tem paz de consciência, ¬consolo, esperança e alegria em sua vida de filho de Deus. Por isso diz Lutero: “Quem sentir sua miséria e angústia, ficará com tal saudade da confissão que a procurará com alegria... pois quando conclamo à confissão, nada mais faço a não ser clamar para sermos cristãos". Quanto consolo o cristão encontra nestas palavras de 1 João 1.8: "Se confessarmos, os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados". Amém.
Leopoldo Heimann (L)
REFLEXÕES
1. Qual é a diferença entre a confissão e a absolvição? Pode existir absolvição sem confissão?
2. Qual é a diferença entre a confissão pública e a confissão particular?
3. Que pecados devemos confessar diante de Deus e que pecados podemos con¬fessar diante do pastor?
4. O pastor pode perdoar pecados? Como?
5. Por que o cristão tem saudade da confissão e absolvição?
12º Artigo – DO ARREPENDIMENTO
Do arrependimento se ensina que os que pecaram depois do batismo, recebem perdão dos pecados a qualquer tempo em que cheguem ao arrependimento, não lhes devendo a ¬igreja negar a absolvição. Agora, arrependimento verdadeiro, autêntico, propriamente outra coisa não é que sentir contrição e pesar ou terror por causa do pecado e, todavia ¬crer ao mesmo tempo no evangelho e na absolvição, isto é, crer que o pecado foi perdoado e que por Cristo foi obtida a graça, fé essa que volta a consolar e serenar o coração. Deve ¬seguir-se a melhora de vida e o abandono do pecado; pois esses devem ser os frutos do arrependimento, como diz João Mt 3: "Produzi, pois, fruto digno do arrependimento”.
Aqui se rejeitam os que ensinam não poderem voltar a cair aqueles que já uma vez se tornaram piedosos.
Condenam-se também os novacianos, que negavam a absolvição aos que haviam pecado depois do batismo.
Rejeitam-se, outrossim, os que não ensinam alcançar-se perdão dos pecados mediante a ¬fé, e sim por nosso satisfazer.
ESTUDO
Não é tarefa agradável apontar os erros de alguém. Mas é uma necessidade cristã. Os profetas, evangelistas e apóstolos o fizeram. Cristo o fez. Erro é o oposto de verdade. Em que, porém, a igreja cristã se fundamenta para afirmar que certo ensino é falso ou ver¬dadeiro? Não em argumentos ou conclusões de homens, mas na revelação da Sagrada Escritura, ¬a qual não pode falhar (João 10. 35). Por esta razão Cristo responde aos saduceus, que negavam a existência de anjos e a doutrina da ressurreição: "Errais, não conhecendo a Escritura nem o poder de Deus" (Mateus22. 29). Todos os erros doutrinários, que tantas igrejas ensinam, têm a mesma origem: erram porque não conhecem ou não aceitam o que revela em seu livro. E Cristo cita o nome das pessoas ou entidades que estão no erro. Mostrar o erro. Ensinar a verdade. Não é tarefa fácil, mas é necessária.
É PRECISO REJEITAR ENSINOS ERRONEOS
A Confissão de Augsburgo segue o mesmo princípio: aponta os erros doutriná¬rios cita os nomes dos que propagam ensinos falsos, mostra a verdade, fundamentada na revelação da Sagrada Escritura. É o que Deus espera de sua igreja. Sobre a doutrina bíblica do arrependimento havia diversos ensinamentos contrários à revelação de Deus.
Erradamente, os anabatistas ensinavam que uma pessoa convertida nunca mais poderia perder a fé, cair de graça ou resistir ao Espírito Santo. Diziam: uma vez cristão, sempre cristão. Erro semelhante ainda cometem os reformados, presbiterianos, batistas, e metodistas com orientação calvinista. Dizem: os verdadeiramente regenerados pelo Espíri¬to Santos apenas podem perder o sentimento da graça, mas jamais podem cair da graça e perder-se, Erradamente, os novacianos ensinam exatamente o outro extremo: o cristão que, após o seu batismo, cometer pecado, ainda que se arrependa, não pode mais receber o perdão de seus pecados e ser aceito como membro da igreja. Tendo Novatus como fun¬dador - um bispo romano do terceiro século - os novacianos pretendiam formar uma igreja de separados, santos, puros e perfeitos. Este falso ensino ainda tem muitos defen¬sores e seguidores em nossos dias. Erradamente, a igreja romana ensina que o arrependimento compreende três partes: a contrição do coração, a confissão oral dos pecados e a satisfação - através de boas obras, orações, jejuns, esmolas. Sobre estas falsas doutrinas – “errais ¬não conhecendo a Escritura" - diz a Confissão de Augsburgo: Rejeitam-se e condenam-se ¬os que assim ensinam.
O CRISTÃO PODE PERDER A FÉ
"Do arrependimento se ensina que os que pecaram depois do batismo, recebem perdão dos pecados a qualquer tempo em que cheguem ao arrependimento, não lhes devendo a igreja negar a absolvição". A graça de Deus não é irresistível. A Escritura mostra que uma pessoa convertida, verdadeiramente renascida "pela água e pelo Espírito", pode cair da fé e da graça de Deus. Paulo diz aos gálatas que por eles "de novo sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós" e acrescenta "de Cristo vos desligastes vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes" (Gálatas 4.19; 5.4). A Timóteo Paulo lembra que deve combater o bom combate, "mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência vieram a naufragar na fé", entre os quais cita Himeneu e Alexandre (I Timóteo 1. 19,20). O mesmo ensino Cristo transmite na Parábola do semeador, quando diz: "A que caiu sobre a pedra são os que ouvindo a palavra, a recebem com alegria; estes não têm raiz, crêem apenas por algum tempo, e na hora da provação se desviam" (Lucas 8.13). O lembrete de Paulo é muito oportuno: "Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia" (I Coríntios 10.12).
O CRISTÃO ARREPENDIDO DEVE RECEBER O PERDÃO
Claro, a igreja cristã tem o dever e a responsabilidade de disciplinar os membros pecadores, e se necessário, excomungar da congregação os pecadores impenitentes, como recomenda 1 Coríntios 3.13: "Expulsai, pois, dentre vós o malfeitor"; como diz Cristo em Mateus 18.17: se ele recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano". Mas se o pecador se arrepender de seu pecado, pedir perdão e quiser pertencer novamente à comunidade cristã, esta deverá conceder-lhe a absolvição e reintegrá-to na grande família do povo de Deus. Por maior que seja o pecado, havendo arrependimento, sempre há perdão. Cristo perdoou o próprio malfeitor na cruz, dizendo: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Lucas 23.43). Cristo ainda hoje chama pecadores com o convite: "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei' (Mateus 11.28). Graças a Deus, há perdão ao pecador arrependido.
ARREPENDIMENTO REQUER CONTRIÇÃO E FÉ
"Agora, arrependimento verdadeiro, autêntico, propriamente outra coisa não é que sentir contrição e pesar ou terror por causa do pecado e, todavia crer ao mesmo tempo no evangelho e na absolvição". É nisto que consiste o verdadeiro arrependimento: Contrição e fé; e não contrição, fé e obras de satisfação. Que é contrição? Não é mero remorso. É sentir pesar, é sentir, angústia, é sentir consciência aterrorizada, e saber que transgrediu a palavra de Deus, e reconhecer que a justa lei de Deus o condena e que merece a ira Deus pelo pecado cometido. É reconhecer-se um pobre e miserável pecador. Este reconhecimento do pecado só vem pela pregação da lei de Deus (Romanos 3.20; 7.7).
Mas a "contrição e pesar ou terror por causa do pecado" ainda não é verdadeiro arrependimento. A contrição leva ao desespero e à morte. O arrependimento leva à absolvição, vida e salvação. Por isso, além da contrição, é preciso "crer no evangelho e na absolvição, isto é, crer que o pecado foi perdoado e que por Cristo foi obtida a graça, fé que volta a consolar e serenar o coração". Este verdadeiro arrependimento - contrição e fé é obra do Espírito Santo que atua através da pregação clara da lei e evangelho.
Assim arrependido, o pecador encontra consolo, paz e serenidade em seu coração em palavras como estas: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna" (João 3.16); "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1.29); "O que vem a mim de modo nenhum o lançarei fora" (João 6.37); "Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que Cristo Jesus" (Romanos 3.23,24). Importa não esquecer que viver em arrependimento ¬significa morrer e ressuscitar diariamente com Cristo. E este arrependimento perdura at¬é a morte, dia em que o cristão passará a viver com Deus em glória eterna. "Deve seguir-se a melhora de vida e o abandono do pecado."
O CRISTÃO ARREPENDIDO VIVE UMA VIDA NOVA
O pecador arrependido e absolvido quer viver uma nova vida, uma vida em santificação¬, pois "esta é a vontade de Deus, a vossa santificação" (1 Tessalonicenses 4.3). Como filho de Deus, o cristão agora procura "despojar-se do velho homem, que se corrompem ¬segundo a concupiscência do engano e procura se revestir do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade" (Efésios 4.22-24). O cristão agora também procura produzir frutos de seu arrependimento, pois ele sabe que "é feitura de ¬Deus, criado em Cristo Jesus para boas obras". O cristão sabe que é salvo pela fé em Cristo, mas que "a fé, se não tiver obras, por si só está morta" (Tiago 2.14-22). Como nova criatura em Cristo Jesus, o cristão procura viver o que disse Cristo Jesus: "Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem ¬o vosso Pai que está nos céus" (Mateus 5.16). Amém.
REFLEXÕES
1. Você acha correto apontar os erros doutrinários de outras igrejas? Por quê?
2. Quais eram as heresias dos anabatistas, dos reformados, dos novacianos e da igreja romana sobre o arrependimento?
3. Qual é a finalidade da disciplina eclesiástica que a congregação cristã aplica a um pecador não arrependido?
4. Que histórias bíblicas você lembra que mostram como Jesus perdoou pecado¬res arrependidos?
5. Qual é a diferença entre o "velho homem" e o "novo homem"?
Leopoldo Heimann (L)
13º Artigo – DOS USO DOS SACRAMENTOS
Com respeito ao uso dos sacramentos se ensina que foram instituídos não somente para serem sinais por que se possam conhecer exteriormente os cristãos, mas para serem sinais e testemunhos da vontade divina para conosco, com o fim de que por eles se desperte e fortaleça a nossa fé. Essa também a razão por que exigem fé, sendo usados corretamente quando a gente os recebe em fé e com isso fortalece a fé.
ESTUDO
Em sua exposição do Catecismo Menor, Lutero afirma que sacramento é "um ato sagrado, instituído por Deus, no qual ele oferece, dá e sela aos homens a graça adquirida ¬por Cristo, mediante certos meios externos unidos com a sua palavra". Conforme esta definição, o Novo Testamento nos apresenta apenas dois sacramentos: batismo e santa ceia.
A igreja romana, porém, ensina a existência de sete sacramentos: batismo, crisma, eucaristia (santa ceia), extrema unção, penitência, ordenação e matrimônio. O artigo 13 Confissão da Augsburgo está falando apenas dos dois sacramentos que a igreja luterana aceita e administra: batismo e santa ceia.
OS SACRAMENTOS SÃO SINAIS E TESTEMUNHOS DE DEUS
"Com respeito ao uso dos sacramentos se ensina que foram instituídos ... para serem sinais e testemunho da vontade divina para conosco". Somente a igreja cristã administra ¬o batismo e a ceia do Senhor. Por isso, os dois sacramentos também servem como sinais por que se possam conhecer exteriormente os cristãos", isto é, todo aquele que faz uso do batismo e da santa ceia se identifica e pode ser reconhecido como sendo um cristão. Por esta razão a congregação cristã não pode administrar estes sacramentos a incrédulos ¬ou pecadores impenitentes. Esta ainda é a razão porque a igreja cristã não pode ter comunhão de púlpito e altar com igrejas que negam, rejeitam ou transmitem ensinamentos contrários a Escritura sobre batismo e santa ceia.
PALAVRA E SACRAMENTO SÃO MEIOS DA GRAÇA
Ainda que os sacramentos possam servir como sinais exteriores pelos quais se reconhece os cristãos, a igreja luterana os considera muito mais que meros sinais. Para a igreja luterana, os dois sacramentos são "sinais e testemunhos da vontade divina para conosco, com o fim de que por eles se desperte e fortaleça a nossa fé". Os dois sacramentos são meios da graça, juntamente com a palavra de Deus. É através dos meios da graça – palavra e sacramentos - que o Espírito Santo regenera e converte o pecador, "desperta e fortalece a nossa fé" no Salvador, e oferece, dá e sela a graça, o perdão, a vida, a salvação.
Através do sacramento do batismo - água e palavra de Deus - Deus opera no batizado a remissão dos pecados, livra da morte e do diabo e dá a eterna salvação a todos os que crêem conforme dizem as palavras e promessas de Deus: "Quem crer e for batizado será salvo" (Marcos 16.16). Falando do batismo, Paulo afirma que Deus "segundo a sua misericórdia nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tito 2.5). Através do sacramento da santa ceia - pão e vinho e palavra de Deus – Deus ¬oferece, dá e sela aos•comungantes as mesmas bênçãos espirituais: remissão dos pecados (Mateus26.28). Através do santo evangelho, Deus também oferece, dá e sela ao ouvinte ou leitor as bênçãos dos céus: renascimento, perdão, vida e salvação. É o que Paulo confirma nas palavras: "Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê" (Romanos 1.16); "e assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Deus" (Romanos 10.17). Tiago ensina a mesma verdade: "Acolhei com mansidão a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar as vossas almas ... Ele vos gerou pela palavra da verdade" (Tiago 1.18.21). Fica, pois, evidente que Deus concede as bênçãos espirituais aos pecadores somente através dos meios da palavra e os sacramentos do batismo e da ceia do Senhor.
DEUS AGE DE DUAS MANEIRAS COM O PECADOR
Sobre esta maneira graciosa de Deus agir conosco, Lutero tem esta palavra a apropriada: "como Deus nos enviou o seu santo evangelho, ele age conosco de duas maneiras: uma vez, externamente; outra vez, internamente. Externamente, Deus age conosco pela palavra do evangelho e através de sinais visíveis, como é o caso do batismo e do sacramento do altar. Internamente, Deus age conosco através do Espírito Santo e através da fé e suas dádivas. Tudo isso, porém, acontece de tal maneira que os sinais externos necessariamente precedem os sinais internos. As operações internas são conseqüência dos sinais externos, e Deus resolveu conceder os sinais internos exclusivamente através dos externos”.
Quando se afirma que os sacramentos são "sinais e testemunhas da vontade divina para conosco" está-se dizendo que estes são meios pelos quais Deus está transmitindo, comunicando e concedendo à pessoa batizada e ao comungante as bênçãos espirituais prometidas nas palavras da instituição: perdão, vida e salvação. Os sacramentos são necessários, e não são meros sinais, cerimônias ou ritos vazios. As igrejas reformadas ou seitas que negam o poder e eficácia dos sacramentos, que desprezam e rejeitam as palavras da instituição ou que afirmam que Deus age com o pecador através de outras maneiras, fora dos sacramentos e palavra, estes desconhecem a necessidade e importância da ordem e promessa de Deus, e estão pecando contra o ensino da Sagrada Escritura. Querendo permanecer no que Deus ensina, é preciso saber que Deus só age e concede suas bênçãos, celestiais através dos meios da graça - a palavra e os sacramentos do batismo e santa ceia.
OS SACRAMENTOS DESPERTAM E FORTALECEM A FÉ
"Essa também a razão porque exigem fé, sendo usados corretamente quando a gente os recebe em fé e com isso fortalece a fé". Aqui estão expressos os objetivos fundamentais dos sacramentos: "a fim de que por eles se desperte a fé e fortaleça a nossa fé a gente os recebe em fé e com isso fortalece a fé"'. Não, o poder, a eficácia ou a sacramentalidade do batismo e ceia do Senhor não dependem da fé de quem os administra ou de quem os recebe. Não são fórmulas mágicas. A nossa fé ou nossa incredulidade não afetam não alteram nem anulam a divindade dos sacramentos. É o que lembra Paulo: "E daí? Se alguns não creram, a incredulidade deles virá desfazer a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma: Seja Deus verdadeiro, e mentiroso todo homem" (Romanos 3.3,4). É verdade, a nossa fé ou incredulidade não anulam a eficácia dos sacramentos de Deus, mas a fé é necessária para se receber as bênçãos e o proveito dos sacramentos. Os incrédulos, ou pecadores impenitentes sempre são despedidos vazios, pois ninguém pode receber sem fé, bênçãos que Deus promete. Mas também nenhum pecador pode receber a verdadeira fé ou fora dos meios da graça. Por isso, é dupla a ação milagrosa dos sacramentos: despertam ou criam a fé; fortalecem e alimentam a fé.
A VONTADE DIVINA PARA CONOSCO
É, a "fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo" (Romanos 10.17). É, o "evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê" (Romanos 1.16). É, o batismo opera a remissão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá a eterna salvação, pois "todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes" (Gálatas 3.26,27). É, a santa ceia é o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, "dado e derramado para remissão dos pecados" (Mateus 26.26-28). A palavra de Deus e os sacramentos de Deus os meios da graça de Deus, são "os sinais e testemunhos da vontade divina para conosco”, que despertam e fortalecem a nossa fé na obra redentora de Jesus Cristo. Isto é certamente verdade. Amém.
REFLEXÕES
1. Que é um sacramento? Quantos existem? Quais são?
2. Que são meios da graça? Quais são eles?
3. Que quer dizer que Deus age conosco "externamente e internamente"?
4. Quais são as bênçãos que Deus concede ao pecador através dos meios da graça?
6. Por que o batismo é chamado de "lavar regenerador e renovador do Espírito Santo"?
Leopoldo Heimann (L)
14º Artigo - DA ORDEM ECLESIÁSTICA
Da ordem eclesiástica se ensina que sem chamado regular ninguém deve publicamente ensinar ou pregar ou administrar os sacramentos na igreja.
ESTUDO
O santo ministério é um precioso dom que Deus concedeu à sua igreja. Freqüentemente Satanás investiu contra a doutrina do ministério. Qualquer distorção ou incompreensão do ensino sobre o santo ministério trazem grandes prejuízos para a vida da igreja. É importante compreendermos bem os deveres do sacerdócio e a diferença entre o sacerdócio universal de todos os crentes e o ministério público.
TODO O CRISTÃO É UM SACERDOTE
A Escritura ensina que todos os cristãos, mas somente os cristãos, são sacerdotes de Deus. Tornamo-nos sacerdotes pelo batismo, pelo renascer por água e Espírito, pela fé em Cristo. E enquanto permanecemos na fé batismal, somos sacerdotes de Deus.
Ser sacerdote de Deus é ter acesso direto a Deus, sem necessitar de um intermediário. É o privilégio de ter comunhão com Deus; o privilégio e o dever de manejar a palavra de Deus; de julgar a pregação, de anunciar a palavra de Deus e difundi-la; o privilégio de orar por si e interceder pelos outros. Onde os cristãos relaxam estes seus deveres e privilégios, a palavra de Deus, sem dúvida, não permanecerá por muito tempo, pois ali erros doutrinários e vida ímpia sufocarão a sã palavra.
A igreja cristã, como comunhão dos santos, é uma geração de sacerdotes reais. Pedro escreve: "Vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas, para a sua maravilhosa luz" (1 Pedro 2.9).Sendo todos os cristãos iguais em direitos, poderes e honras, independente do grau de fé ou de dons, não há entre eles superiores, nem inferiores. Paulo adverte: "Digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convêm" (Romanos 12.3). Ora, se este é o espírito reinante entre os sacerdotes, nem é possível constituir ali um sobre o outro, constituir ali uma autoridade, visto que cada qual quer ser submisso ao outro para servir.
NEM TODO O SACERDOTE É UM MINISTRO
Para que a edificação da igreja cristã se processe com ordem, Cristo instituiu o santo ministério (Efésios 4.11; Atos 20.28; Tito 1.5). O santo ministério não é um cargo facultativo que a igreja pode instituir ou abolir a seu bel prazer. Não! Cristo amarrou sua igreja a este ministério até o juízo final. E onde estiver a verdadeira igreja, ali está a ordem de pregar o evangelho, ali a igreja mantém o poder de chamar, eleger e ordenar ministros (Artigos de Esmalcalde). Isto é, o direito de a congregação, por seus membros votantes escolher alguém para ser servo dos servos. O ministério não é um cargo de mando, mas de serviço. Como tal o ministro deve pregar publicamente a palavra de Deus e administrar os sacramentos. Este ofício é o ofício supremo na igreja, do qual decorrem todos os demais ofícios. Cabe respeito integral ao ministro, enquanto ele maneja corretamente a palavra de Deus, pois é ministro de Deus. Apesar de a comunidade o ter eleito, e ele atuar em nome da comunidade, ele é servo de Cristo. A comunidade, por exemplo, não pode restringir a pregação da palavra, pois Jesus ordenou pregar todo o desígnio de Deus Mateus 28.30; Atos 20.27). Mas a comunidade deve julgar o ensino e a pregação, não criticando levianamente a forma ou a arte exterior da pregação, mas julgá-la quanto sua fidelidade à palavra de Deus. Cabe-lhe advertir os pregadores que se desviarem da sã doutrina e, se persistirem no erro, depô-los. Por outro, o ministro não tem domínio sobre a comunidade. Não pode, sozinho, impor a excomunhão, sem o devido consentimento de toda a comunidade.
Onde o ministério está instituído, naquela comunidade nenhum membro deve exercer o ministério publicamente a não ser o(s) ministro(s) incumbido(s) pela congregação. O ministro chamado pela comunidade fica incumbido de dirigir a comunidade na adoração, para que a mesma cresça em conhecimento e na aptidão de desempenhar os seus serviços.
A palavra de Deus também nos diz quem deve ser chamado para o cargo. Freqüentemente ouvimos alguém dizer: Basta uma pessoa sincera e bem intencionada. Imaginem, se num domingo faltar o organista e o presidente da comunidade pedir: "Por favor uma pessoa sincera e de boa vontade para tocar o órgão!" Que tons sairiam do órgão? Sinceridade e boa vontade são necessários, mas não bastam. A Bíblia destaca com ênfase de o ministro ser uma pessoa de fé, cheia do Espírito Santo e de boas qualidades morais (Atos 6.3-5; 1 Timóteo 3.2-4; 2 Timóteo 2.15), mas destaca também duas outras qualidades importantes: apto para ensinar e que saiba manejar bem a palavra (Tito) 1.7-9). Há necessidade de estudo e preparação. Por isso a igreja constrói e mantém seminários, para boa formação de ministros.
Por outro, a palavra de Deus acentua o chamado por parte de uma comunidade. Não basta alguém ter formação para exercer o ministério, também não basta alguém sentir um chamado interior - muitas vezes tal chamado é imaginação própria. É necessário um chamado por parte de uma congregação. Por este chamado, através de uma congregação, Deus diz a uma pessoa se quer que ela sirva no ministério, quando e onde. (Atos 13.3; 1 Timóteo 4.14; 2Timóteo 1.6; 2 Coríntios 8.19).
O MINISTÉRIO NÃO DISPENSA NINGUÉM DE SEUS DONS SACERDOTAIS
O fato de numa comunidade os sacerdotes reais incubirem, por ordem de Cristo, uma pessoa para ser o seu servo e cumprir suas funções de sacerdote publicamente, não significa que, com isso, os cristãos abriram mão dos seus deveres de sacerdotes. Ninguém poderá dizer: "Que bom, agora não preciso testemunhar, para isso estou pagando o meu pastor". Não, não! O ministério foi instituído para que um dos sacerdotes dirigisse o culto público e administrasse publicamente os sacramentos e publicamente nenhum o outro deve fazê-lo a não ser em casos de necessidade, por exemplo, batismo de emergência. Este servo se dedica ao estudo da palavra e ao ensino da palavra para aperfeiçoar todos os sacerdotes no desempenho de suas funções como sacerdotes e membros do corpo de Cristo, para que cada um possa cumprir, em particular, suas funções de sacerdote na família junto a seus parentes, vizinhos e amigos e no lugar de seu trabalho. Portanto, quanto à essência não há diferença entre o trabalho do ministro e o trabalho do sacerdócio universal ¬de todos os crentes. A única diferença é que o ministro exerce estas funções publicamen¬te e o cristão as exerce em particular.
UM BOM EQUILÍBRIO
A Bíblia nos ensina que é necessário manter um bom equilíbrio entre o sacerdote universal de todos os crentes e o ministério público. Qualquer desequilíbrio é prejudi¬cial. Toda a tentativa de criar classes na igreja cristã é antibiblico, como é antibiblico que os pastores dominem sobre as comunidades ou as comunidades sobre os pastores. Todos são
sacerdotes de Deus, mas nem todos os sacerdotes são ministros de Deus. Esses exercem ¬publicamente suas funções; aqueles, em particular. Assim cumprem sua missão na edificação do reino de Deus. Nem um nem outro deve relaxar seu ministério. Nossa cons¬tante oração é: Senhor! Concede-nos um ministério fiel e faze com que todos os membros batizados sejam bons sacerdotes.
REFLEXÕES
1. Os sacerdotes do Antigo Testamento exerciam o sacerdócio por nascimento ou por escolha? No Novo Testamento somos sacerdotes por escolha ou nascimento (renascimento)? .
2. Reestude a pergunta de nosso Catecismo Menor: Por que cremos que Cristo é o nosso Sumo Sacerdote? E medite sobre os versículos.
3. É correto fazer na igreja distinção entre pastore e não pastores?
Horst Kuchenbecker
15º Artigo - DAS ORDENAÇÕES ECLESIÁSTICAS
Das ordenações eclesiásticas estabelecidas por homens se ensina observar aquelas que possam ser observadas sem pecado e contribuam para a paz e a boa ordem na igreja, como por exemplo, certos dias santos, festas e coisas semelhantes. Esclarecemos, porém, que não se devem onerar as consciências com essas coisas, como se fossem necessárias para a salvação. Ensina-se, ademais, que todas as ordenanças e tradições feitas pelo homem com o propósito de por elas reconciliar-se a Deus e merecer graça são contrárias ao evangelho à doutrina da fé em Cristo. Razão por que votos monásticos e outras tradições concernentes a distinção de alimentos, dias, etc., pelas quais se pensa merecer graça e satisfazer por pecados, são inúteis e contrários ao evangelho.
ESTUDO
SEM PECADO E... PARA A PAZ E A BOA ORDEM NA IGREJA
Quem freqüenta nossos cultos sabe que num certo momento o oficiante vai dizer¬, por exemplo: "A Epístola para o 16º Domingo de Trindade está escrita na carta do apóstolo Paulo aos Efésios, capítulo 3, desde o versículo 13." Os membros da igreja sa¬bem que este mesmo trecho está sendo lido no mesmo domingo em milhares de igrejas, diversos em diversos países. Como pode ser isto?
Um dia nossos pais sentaram e estudaram profundamente a doutrina bíblica e as necessidades da igreja e do povo e escolheram séries de textos bíblicos para cada domingo de festa do ano eclesiástico. O ano eclesiástico é determinado pelos principais fatos históricos relacionados com o plano de Deus para nossa salvação, especialmente a vida, morte e ressurreição de Cristo.
Isto tem grande vantagem de permitir que a igreja trate todos os anos dos assuntos ¬mais importantes e necessários para produzir e fazer crescer a fé no coração dos ouvintes. ¬Também ajuda a visualizar e fortalecer a unidade dos cristãos e traz ordem aos cultos públicos.
MAS NÃO ESTÁ NA BÍBLIA...
É verdade. Estas séries, a forma litúrgica, os nomes: ano eclesiástico, liturgia, domingo de Trindade, não encontramos expressos na Escritura. Mas estão de acordo com o que o Senhor recomenda:
"Vocês todos podem anunciar a mensagem de Deus, um de cada vez, para que todos aprendam e fiquem animados. Quem fala deve controlar o dom de anunciar a mensagem ¬de Deus. Pois Deus não nos chamou para fazer-mos confusão, e sim para termos ordem. ¬( ... ) Portanto, façam tudo com decência e ordem" (1 Coríntios 14.31-33 3 40,) NTLH
O Senhor ordenou que o adorássemos na companhia dos irmãos e que a sua palavra fosse estudada e pregada e os sacramentos ministrados. Alguma forma e ordem deve haver para tanto. Deve ser escolhida de acordo com a palavra do Senhor e servir para o cumprimento da sua vontade.
São as ordenações eclesiásticas: resoluções, costumes, práticas que livremente são estabelecidas e aceitas. Não devem ser impostas como leis, nem serem condenados como hereges os que as descumprem, mas os membros ou congregações individualmente também não devem rejeitá-los, mesmo que tenham opinião diversa da maioria. Nossa liberdade de sempre está limitada pelo evangelho.
QUANDO ESTAS ORDENAÇÕES HUMANAS SE TORNAM PECADO
1º Quando são dadas como se fossem divinas e se tornam um peso que as consciências não podem suportar. No campo espiritual ninguém tem o direito de ordenar seu próximo o que o Senhor não ordenou. Tais imposições destronam a Cristo, substituindo-o por homens.
"Assim também, o homem livre que foi chamado por Cristo é escravo de Cristo. Deus os comprou por um preço; portanto, não se tornem escravos dos homens" (1 Coríntios 7.22 e 23, NTLH).
2º Quando são obedecidas pensando que assim se vai merecer graça de Deus. Isto contraria frontalmente o artigo fundamental da fé bíblica e cristã. Unicamente o mérito de Cristo nos traz perdão.
A Igreja Católica Romana ensinava e ensina este erro. Criam tais ordenações nos seus concílios e através do papa, dizem que são divinas, e afirmam que os que lhes desobedecem vão perder a salvação da sua alma. Exemplos: votos monásticos, jejuns, penitências, indulgências, peregrinações e rezas de terços e rosários.
Também os episcopais, presbiterianos e metodistas prescrevem tais ordenações eclesiásticas como se fossem mandamentos divinos. Outras seitas proíbem e exigem muitas coisas da vida exterior do homem que Deus deixou livre.
Estaríamos cometendo o mesmo erro se exigíssemos que todos os nossos membros contribuíssem com uma certa percentagem, num determinado dia e com um envelope oficializado e considerássemos menos cristão quem não fizesse exatamente assim.
O Mestre condenou isto nos fariseus. Paulo o condenou nos que queriam que os convertidos entre os gentios cumprissem os ritos cerimoniais do Antigo Testamento, como a circuncisão:
"Assim, que ninguém julgue vocês pelo que comem ou bebem, ou por causa dos dias santos, ou das festas de lua nova, ou dos sábados. Tudo isto é apenas sombra do que devia vir. A realidade é Cristo. Não deixem que ninguém os condene afirmando que é superior porque tem visões especiais, e insistindo na falsa humildade e na adoração de anjos" (Colossenses 2. 16-18, NTLH).
EXISTE TAMBÉM UM OUTRO PERIGO
Havia e há aqueles que dizem que devemos abandonar todas as tradições cristãs que não estão diretamente ordenadas na Bíblia. Zwinglio e Calvino estavam entre estes. Havia até os exagerados que queriam tirar todos os quadros, símbolos, pinturas, imagem das igrejas. Foram denominados de iconoclastas (os que quebram imagens ou ídolos).
Hoje isto equivaleria a eliminar em nossa igreja, por exemplo: a liturgia antiga, vestes litúrgicas ou talares, a cruz, velas, quadros que representam o Salvador. É uma tendência que de tempos em tempos retoma à igreja.
O Reformador rebateu este exagero, concordando com a Escritura, quando Paulo escreveu: "Estejam sempre alegres, orem sempre, e sejam agradecidos a Deus em todas as ocasiões, Isto é o que Deus quer de vocês, em sua vida em união com Jesus Cristo. ¬Não atrapalhem a ação do Espírito Santo. Não desprezem as mensagens inspiradas. Examinem tudo, fiquem com o que é bom, e evitem todo o tipo de mal" (1 Tessalonicenses 5.16-22, NTLH). No artigo 26 voltaremos a este assunto com outros detalhes.
CADA CULTO "NOVA LITURGIA", CADA REUNIÃO "NOVOS CORINHOS"
Recebemos de nossos pais na fé um tesouro muito precioso: a doutrina pura exposta ¬com clareza nas Confissões e uma lindíssima tradição litúrgica e musical, Decerto muitas igrejas gostariam de ter no seu hinário hinos de Bach e Paul Gerhardt como nós, para citar apenas dois exemplos. Nossa liturgia, com suas variações para diferentes ocasiões¬, é uma monumental mensagem evangélica que uma vez explicada e aprendida satisfaz plenamente o gosto dos crentes de todas as partes, também dos brasileiros.
Ultimamente temos sido pródigos em criar "novas liturgias" e compor ou co¬piar novos corinhos". Há congregações em que quase a cada domingo se usa outra ordem litúrgica e há congressos ou cursos de escola dominical que são considerados fracassos se não apareceram muitos "novos corinhos".
O que é que você acha disso? Há um lado positivo: desenvolver a criatividade poética e musical; criar novas formas, mais condizentes com a nossa cultura, nossa época e com o homem moderno, variar, enriquecer. Há um lado negativo: muitas ordem de culto e orações responsivas não são feitas com o necessário cuidado na forma e no conteúdo. A variação exagerada dificulta a unidade, a identificação e o aprendizado, tanto dos membros como de visitantes. Há corinhos, especialmente os de origem de seitas calvinistas que contêm erros doutrinários graves e letra e música de muito mau gosto. Além de trocar¬mos por pior, nossas crianças e jovens não aprendem a cantar nossos hinos na fase da vida mais apropriada.
REFLEXÕES
1. Convide o departamento de sua congregação a estudar este assunto: compa¬rem a liturgia tradicional e suas variações com novas ordens de cultos que são usadas.
2 Comparem nossos hinos (também os "novos" - alguns de 1500) com os cori¬nhos.
3 Analisar: "Examinem tudo, fiquem com o que é bom, e evitem todo tipo de mal".
Bruno F Rieth
16º Artigo - DA ORDEM POLÍTICA E DO GOVERNO CIVIL
Da ordem política e do governo civil se ensina que toda autoridade no mundo e todos os governos e leis ordenados são ordenações boas, criadas e instituídas por Deus, e cristãos podem, sem pecado, ocupar o cargo de autoridade, de príncipe e de juiz, proferir sentença e julgar segundo as leis imperiais e outras leis em vigor, punir malfeitores a espada, fazer guerras justas, combater, comprar e vender, fazer juramentos requeridos, possuir propriedade, casar, etc.
Aqui são condenados os anabatistas, os quais ensinam que nenhuma das coisas supramencionadas é cristã.
Condenam-se, outrossim, aqueles que ensinam ser perfeição cristã abandonar fisicamente casa e lar, mulher e filhos, e renunciar as coisas citadas, quando o fato é que apenas verdadeiro temor de Deus e verdadeira fé constituem a perfeição autêntica. Pois o evangelho não ensina uma forma de vida e justiça exteriores, temporais, senão uma inte¬rior e eterna vida e justiça do coração, e não abole o governo civil, a ordem política e o casamento, querendo, ao contrário, que se guarde tudo isso como genuína ordem e que cada qual, de acordo com sua vocação, mostre, em tais ordenações, amor cristão e obras verdadeiramente boas. Por isso os cristãos têm o dever de estar sujeitos à autoridade e de obedecer aos mandamentos e leis em tudo o que não envolva pecado. Porque se não é possível obedecer à ordem da autoridade sem pecar, mais importa obedecer a Deus do que aos homens (Atos 5).
ESTUDO
Os dias são difíceis. Por toda a parte há rumores de greves e rebeliões, Ricos temem ¬a revolta dos pobres e os pobres protestam contra a opressão dos ricos. Ouvem-se clamores por mais justiça e por maior liberdade. Violência e brutalidade espalham temor e medo por toda a parte.
Qual a posição do cristão em meio a este mundo conturbado? Tem o cristianismo uma solução para estes problemas de autoridade que afligem o mundo?
TODA A AUTORIDADE É INSTITUÍDA POR DEUS
Para tornar possível a vida em sociedade, Deus criou o princípio de autoridade. A autoridade não procede da vontade dos homens, mas de Deus. Por isso o apóstolo Paulo afirma: "Toda a autoridade é ministro de Deus" (Romanos 13.1-10; I Pedro 2.13-17).Não importa a forma de governo, se monarquia (um governa a todos), se oligarquia (um grupo pequeno governa), se democracia (governo eleito pelo povo). Nenhuma forma de governo pode ser considerada mais ou menos legítima. Também não vem ao caso como alguém adquiriu o poder, se de forma legítima ou de forma ilegítima, por rebelião. Uma vez que tenha o poder na mão, deve ser respeitado, como detentor do poder, como ministro ¬de Deus. Quem se rebela contra a autoridade, rebela-se contra Deus, não importam razões que impelem à revolta. Devemos entender bem a palavra rebelião, isto é, ir contra a ¬lei estabelecida. Se a lei de um país, por exemplo, faculta greves, é evidente que podemos usar este expediente para fazer nossas reivindicações.
AUTORIDADE
Para tornar a vida em sociedade possível é necessária a elaboração de certas leis. Leis restringem a liberdade das pessoas. Quanto mais as pessoas se aglomeram, mais sua liberdade é restringida para tornar a vida, lado a lado, possível. Como vivemos num mundo ¬pecador, onde nem todos obedecem por motivos de consciência ou de boa vontade, Deus entregou à autoridade a espada, para que seja temida e se obedeça por temor (Ro- 13.4).
AUTORIDADES INJUSTAS
Os que exercem a autoridade são pessoas humanas e com isso pecadores como os demais. Caem freqüentemente em erro. Muitos governam, visando seus próprios interesses e abusam do poder. Isto, no entanto, não invalida sua autoridade. São membros do reino das trevas, mas mesmo assim Deus os usa em combate a Satanás. Terão que prestar contas do seu governo a Deus, de quem receberam a autoridade (João 19.11), e Deus os julgará a seu tempo com justiça. Um bom governo é uma bênção para uma nação. Um mau governo é castigo divino. Cabe à igreja o papel de ser a consciência do governo, isto é, dizer ao povo e às autoridades quais os seus deveres. Assim os profetas, Jesus e os apóstolos o fizeram. Cabe-nos orar sempre por bons governos e pelas autoridades constituídas.
OBEDIÊNCIA CONDICIONAL
Nossa obediência ao governo não é absoluta. Se o governo nos ordena fazer algo contra a lei de Deus ou contra nossa fé, cabe-nos responder com Pedro: "Antes importa obedecer a Deus do que aos homens." (Atos 5.29), mesmo se isto nos levar à prisão, sofrimentos ou à morte.
PARTICIPANDO DO GOVERNO
Sendo o governo uma instituição divina que visa o bem da sociedade, cabe ao cristão participar. Exercer autoridade exige fé forte. As tentações são muitas e frequentemente os pecados também. Nesta situação o cristão deve buscar, como o rei Davi e Salomão e outros, toda a sabedoria e força de Deus. Quanto mais pessoas cristãs participarem no governo, maior bênção terá o povo. Por terem que lidar com muitas pessoas ímpias ¬não será fácil governar. Freqüentemente terão de usar a força para impor a ordem. Os próprios cristãos nem sempre acertam. Por falta do conhecimento melhor e possibilidade de melhor juízo, também incorrem em erros e injustiças.
DIFICULDADES
Governantes e governados cristãos enfrentam momentos difíceis no cumprimento do seu dever patriótico. Por exemplo, em casos de guerra. O que cabe ao cristão fazer? Pode o cristão participar de uma guerra em defesa de sua pátria? Supondo que a guerra seja justa, em legítima defesa, temos o dever de participar. É muito difícil julgar se uma guerra é justa ou não. Não conhecemos o que se passa nos bastidores. Cabe-nos julgar por aquilo que conhecemos. Se alguém está convencido de que a guerra de sua pátria é injusta, não deve participar da guerra e acarretar com as conseqüências, que pode ser prisão ou morte.
Teremos quadros tristes em tempo de guerra. Em ambas as fronteiras, cristãos se digladiando e matando, como o foi durante a segunda guerra mundial. Guerras é um açoite divino para a humanidade incrédula; para os cristãos, uma pesada cruz, mas época propícia para semear a palavra de Deus.
NO CUMPRIMENTO DO DEVER
A fé cristã não afasta ninguém dos seus deveres para com a famí1ia, a sociedade, seu trabalho e sua pátria. Pelo contrário, ensina a todos cumprirem fielmente seus deveres, lembrando, sobretudo que o reino de Deus não consiste no mero cumprimento de um conjunto de leis, mas na justiça do coração. Esta justiça válida diante de Deus, não provém do esforço humano, mas a recebemos de Cristo, pela fé. O Espírito Santo abre-nos os olhos para a grande esperança, a vida eterna. "Não tendes aqui morada permanente" (Hebreus 13.14). "Salvai-nos desta geração perversa" (Atos 2.40). Mas enquanto peregrinamos nesta terra¬, vale-nos a recomendação de Jeremias: "Buscai a paz da cidade" (Jeremias 29.7)
CONDENAÇOES
O artigo condena algumas opiniões erradas sobre a autoridade. Apesar de o artigo ser bem recebido pelos católicos, condena alguns erros dos mesmos. Vejamos os principais erros ainda hoje em voga:
Católicos: ensinam que a igreja é detentora tanto do poder eclesiástico como do poder civil. O estado é um instrumento da igreja;
Calvinistas: ensinam uma teocracia, na qual Deus governa por seus magistrados, os pastores, os quais devem se esforçar ao máximo para defender a Deus e exigir o cumprimento da lei de Deus;
Anabatistas: ensinam que o estado é inimigo do povo e instrumento de Satanás. O cristão não deve participar do governo. Toleram o estado como um mal neces¬sário.
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O ensino bíblico exposto neste artigo, resumimos aqui: A autoridade é instituída por Deus, com tarefas determinadas independente da igreja como instituição eclesiástica.
REFLEXÕES
1. Reveja no Catecismo Menor, na Tábua dos Deveres, os títulos: Do Governo, aos Cidadãos.
2. Analise o comportamento de Daniel na corte (Daniel),
3. Analise as seguintes passagens bíblicas: João 19.10-11; Atos 5.28-32 e veja o que dizem sobre a autoridade civil.
Horst Kuchenbecker
17° Artigo – DA VOLTA DE CRISTO PARA O JUÍZO
Também se ensina que nosso Senhor Jesus Cristo voltará no último dia para julgar, e que ressuscitará todos os mortos, dará aos crentes e eleitos vida e alegria eternas, porém condenará os homens ímpios e os demônios ao inferno e castigo eterno.
Rejeitam-se, por isso, os anabatistas, os quais ensinam que os diabos e os homens condenados não sofrerão dor e tormento eternos.
Aqui se rejeitam, outrossim, algumas doutrinas judaicas que também ao presente se manifestam e segundo as quais antes da ressurreição dos mortos um grupo constituído integralmente de santos e piedosos terá um reino terrestre e aniquilará todos os ímpios.
ESTUDO
Pelo fato de Satanás e o velho homem, através do pecado, exercerem ainda tanto domínio sobre a humanidade, não parece ser Cristo o SENHOR a quem "foi dado todo o poder no céu e na terra". Essa imagem, porém, irá modificar-se por ocasião da volta de Jesus quando ficará manifesto a todos o que ele realmente é.
SÚMULA HISTÓRICA
Entre os luteranos e católicos não havia polêmica a respeito do conteúdo do presente artigo. Como, no entanto, os luteranos haviam sido igualados a grupos que ensinavam doutrinas não bíblicas a respeito das questões em foco, impunha-se que a posição bíblica dos luteranos fosse proclamada publicamente.
JESUS VOLTARÁ NO ÚLTIMO DIA
De modo conciso e claro é colocada a posição bíblica dos luteranos. Jesus havia falado sobre a sua segunda vinda (Mateus 24.30-31; Apoca1ipse 1.7). Os anjos disseram aos discípulos no dia da ascensão: “Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu, assim virá do modo como o vistes subir (Atos 1.11)”. Jesus, porém, estaria sempre presente com os seus de modo invisível. Ao se despedir dos discípulos, suas palavras foram: "Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século" (Mateus 28.20). Leia também Mateus 18.20.
TODOS OS MORTOS RESSUSCITARÃO
É uma verdade bíblica que não conseguimos compreender com nossa razão. Aceitamo-la como verdadeira por ser bíblica: "para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas” (Lucas 1.37, cf Gênesis 18.14). O próprio Senhor Jesus assegura o fato ao dizer “Vem a hora em todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão” (João 5.28). Examinem também 1 Coríntios 15.12 e Filipenses 3. 20-21.
POR OCASIÃO DA VINDA DE JESUS HAVERÁ O JULGAMENTO
Disse o apóstolo Paulo, em seu discurso no Areópago em Atenas: “Portanto Deus estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos" (Atos 17.31). O próprio Salvador Jesus anunciou o julgamento a ser realizado por ocasião de seu retorno visível a este mundo, dizendo: "Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos, as ovelhas" (Mateus 25.31.32). Leia também João 5.22 e 1 Coríntios 5.10.
DESTINOS DIFERENTES
Os crentes irão com Cristo para a vida e alegria eterna. Será a consumação do plano que Deus tem com os fiéis, estar com eles no céu. Jesus há de convidar os crentes: ''Vinde, benditos de meu Pai; entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo" (Mateus 25.34). Confira também 1 Pedro 1.3-5; João 3.1-2; Daniel 12. 2.
Oposta será a sorte dos ímpios e dos demônios. Aguarda-os o castigo perene no inferno. A sentença será pronunciada por Jesus no julgamento: "Apartai-vos de mim, malditos para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos" (Mateus 25.41). Que o castigo dos ímpios é eterno, torna-se evidente também em passagens como: Mateus 25.46; Marcos 9.43; Isaías 66.24; 1 Tessalonicenses 1.8,9; Apocalipse 14.11; Apocalipse 20.10.
ENSINAMENTOS CONTRÁRIOS ÀS ESCRITURAS
Ensinavam os anabatistas que o castigo reservado aos diabos e aos descrentes não é eterno. Os anabatistas já foram identificados no estudo dos artigos 5, 9 e 16. Alegavam sob o argumento de que um Deus de amor e cheio de misericórdia, não poderia castigar a ninguém por um espaço de tempo infindável. É esse um pensamento muito humano, contudo não é bíblico.
A outra doutrina falsa rejeitada é aquela segundo a qual antes da ressurreição dos mortos haveria um aniquilamento dos ímpios, permanecendo no mundo apenas um grupo de piedosos. Em nossos dias essa doutrina é defendida pelos milenistas ou quiliastes. Antes do fim, dizem, haverá no mundo um período de paz pelo espaço de 1000 anos. Segundo eles, Cristo viria à terra ou no começo ou no fim dos mil anos.
A Escritura, no entanto, ensina que a igreja não deixará de sofrer, até a volta de Jesus para o juízo. Até mesmo isso a Escritura afirma que quanto mais perto estiver o dia de sua vinda, tanto mais pesada seria a cruz a ser suportada pelos fiéis. Diz Jesus: "Então sereis atribulados, e vos matarão. Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome" (Mateus 24.9). É aconselhável ler os versículos precedentes e os que seguem ao versículo 9. Leia no mesmo capítulo 24 de Mateus os versículos 37 a 44, igualmente Lucas 18.8 e Mateus 13.24-30.
Em Apocalipse 20, onde é mencionado um período de mil anos, é descrita em linguagem figurada a condição e natureza da igreja no Novo Testamento e não a de um reino visível de Cristo no aquém.
VALE ESTE ARTIGO PARA OS CRISTÃOS DA DÉCADA DE 80?
Você deve ter notado, amigo leitor, o quanto a doutrina bíblica deste artigo é desconhecida, ou, se conhecida, não aceita. Se por um lado milhões ou bilhões de gentios nada sabem da segunda vinda de Jesus, da ressurreição de todos os mortos, da salvação e da condenação eternas, de outra parte milhões de cristãos vivem como se Jesus nunca mais voltasse, como se não houvesse ressurreição, como se não houvesse salvação nem condenação eternas.
CUIDADO!
Muito cuidado com opiniões humanas tais como: "Deus, que é um Deus misericordioso, não vai condenar a ninguém eternamente"; "É preciso estabelecer um reinado material de Cristo neste mundo, aniquilando os infiéis, e isto à força, se for preciso." Tais posicionamentos podem conduzir ou a uma completa indiferença religiosa, ou a fanatismos que terminam em tragédias como a que Jim Jones causou na Guiana.
REFLEXÕES
Faça um estudo sobre a ressurreição, usando como texto 1 Coríntios 15. De acordo com Lucas 16.19-31, quantos lugares haverá após a morte? Medite sobre a nova Jerusalém descrita em Apocalipse 21.9 a 22.5. A situação mundial de hoje pode ser tomada como um sinal da segunda vinda de Jesus? Como o crente encara os sinais da volta de Cristo - com medo ou com júbilo?
Christiano J. Steyer
18° Artigo - DO LIVRE ARBÍTRIO
Quanto ao livre arbítrio se ensina que o homem tem até certo ponto livre arbítrio para viver exteriormente de maneira honesta e escolher entre aquelas coisas que a razão compreende. Todavia, sem a graça, o auxilio e a operação do Espírito Santo o homem é incapaz de ser agradável a Deus, temê-lo de coração, ou crer, ou expulsar do coração as concupiscências inatas. Isso, ao contrário, é feito pelo Espírito Santo, que é dado pela palavra de Deus. Pois Paulo diz em 1 Coríntios 2: "O homem natural nada entende do Espírito de Deus”.
E para que se possa reconhecer que nisso não se ensina novidade, eis ai as claras palavras de Agostinho a respeito do livre arbítrio, aqui citadas do livro III do Hypognosticon: "Confessamos que em todos os homens há um livre arbítrio pois todos têm entendimento e razão naturais, inatos. Não no sentido de que sejam capazes de algo no que concerne a Deus, como, por exemplo, amar e temer a Deus de coração. Somente em obras externas desta vida têm liberdade para escolher coisas boas ou más. Por obras boas entendo as de que é capaz a natureza, tais como trabalhar ou não no campo, comer, beber, visitar ou não um amigo, vestir-se ou despir-se, edificar, tomar esposa, dedicar-se a um oficio ou fazer alguma outra coisa proveitosa e boa. Tudo isso, entretanto, não é nem subsiste sem Deus; ao contrário: dele e por ele são todas as coisas. Por outro lado pode o homem também praticar por escolha própria o mal, como, por exemplo, ajoelhar-se diante de um ídolo , cometer homicídio, etc."
ESTUDO
Por que algumas pessoas crêem em Cristo e outras não? Você, por certo, já deve ter-se questionado sobre isso. Uma é a solução que a própria razão humana oferece. A resposta ¬da Escritura é outra. Não é uma resposta que harmoniza com a lógica humana, não podemos compreendê-la, contudo, é a resposta de Deus, e essa aceitamos pela fé. Qual é a resposta de Deus? Ela está muito ligada à resposta sobre o livre arbítrio, assunto de que trata o artigo 18.
SÚMULAHISTÓRICA
Este artigo recebeu lugar na Confissão de Augsburgo para que ficasse bem claro que a salvação do pecador não pode ser atribuída ao próprio homem, mas exclusivamente é graça de Deus. Tanto é que na resposta dos católicos à Confissão de Augsburgo, não foi feito nenhum ataque à posição dos luteranos; pelo contrário, disseram expressamente que concordavam com essa posição. Contudo, certas expressões e afirmações na resposta dos teólogos católicos demonstrou que não possuíam identidade de pensamento com os lute¬ranos.
O QUE É LIVRE ARBITRIO?
Livre arbítrio é a faculdade que o homem tem de querer livremente alguma coi¬sa. O homem possuía livre arbítrio pleno antes da queda no pecado. Era-lhe possível decidir tanto em coisas materiais quanto em espirituais. Com a queda no pecado, porém, foi afetada a liberdade do homem, e, com isso, o seu livre arbítrio.
O HOMEM AINDA PODE DECIDIR LIVREMENTE
Diz-se que é a razão que distingue o homem dos animais. Em coisas sujeitas à razão, o homem conservou a liberdade. É por isso que pode ser responsabilizado pelo que faz. O mesmo não sucede com os animais.
A liberdade do homem pode estender-se a uma justiça civil, isto é, pelo seu livre arbítrio o homem pode querer ser um cumpridor das leis da sociedade em que vive e até mesmo os dez mandamentos. Nesse caso, os motivos que o levam a praticar estes atos são motivos humanos, isto é, provém ou de sua razão ou de seu sentimento. Por ter sido motivada por propósitos humanos e não divinos, não é essa a conduta justa que Deus requer. É isso o que o artigo 18 ensina quando diz: "o homem tem até certo ponto livre arbítrio para viver exteriormente de maneira honesta e escolher entre aquelas coisas que a razão compreende".
É preciso lembrar ainda que mesmo esta liberdade do homem encontra limites no poder de Deus. Muitas vezes os maus intentos do homem não se traduzem em ações porque Deus conserva as rédeas do mundo em suas mãos, impedindo que tais atos sejam consumados. O povo expressa isso dizendo: o homem põe e Deus dispõe.
O HOMEM NÃO PODE DECIDIR LIVREMENTE
O homem não possui vontade própria em assuntos espirituais, como: "desejar o que é espiritualmente bom, preparar-se para a graça divina, cumprir a lei divina em verdadeiro amor de Deus, aceitar e crer o evangelho e além disso, converter-se inteiramente, ou pelo menos cooperar na sua conversão". Este é o ensino da palavra de Deus: o homem, de si mesmo, não possui vontade nem poder para as coisas de Deus. Paulo escreve aos coríntios dizendo: "O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente" (1 Coríntios 2.14). Verifique também Salmo 14.3; Gênesis 8.21. A Escritura afirma que o homem está morto em pecados (Efésios 2.1 ; Colossenses 2.13).
Se, portanto, alguém ouve o que diz a palavra de Deus e experimenta a conversão crendo em Jesus, respeita e ama a Deus, isso se constitui uma obra de Deus e não do homem. O Espírito Santo agiu nessa pessoa por intermédio da palavra. Paulo assim se expressa aos filipenses: "Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua vontade" (Filipenses 2.13). Conferir também 1 Coríntios 12.3 e Efésios 2.8.9.
Quando se deixa ao homem a faísca inicial da conversão, como se dependesse dele a boa vontade de se inclinar para Deus, e criar condições para que Deus opere fé, tira-se de Deus o mérito da salvação do pecador. A salvação já não seria mais inteiramente obra da graça de Deus.
Em assuntos espirituais, portanto, o homem não tem livre arbítrio. É o Espírito Santo quem faz o homem decidir crer em Jesus e viver uma vida santificada.
Portanto, a Escritura ensina que quem se salva se salva pela graça de Deus. Por que, então, alguns se perdem? É por culpa própria. As palavras de Jesus aos judeus são muito graves, mas claras: "Jerusalém, Jerusalém! Que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! (Mateus 23.37). Leia também Atos 7.51; Oséias 13.9.
HERESIAS CONDENADAS
As heresias quanto ao livre arbítrio podem ser identificadas no pelagianismo. O pelagianismo teve início no Século V e proclamava que a vontade do homem não foi corrompida com a queda no pecado e que, portanto, o homem é capaz de resolver sozinho seu problema espiritual, não havendo necessidade da operação da graça de Deus. Propugnavam que para cumprir os mandamentos e obter a salvação o homem precisaria somente de uma boa educação.
Também se condena os semipelagianos. Estes advogam a posição segundo a qual a vontade do homem após a queda é só parcialmente corrompida. Basta ao homem o auxílio ¬da graça de Deus. Desta forma a salvação dependeria, além da graça de Deus, do uso correto que o homem deveria fazer de suas capacidades naturais. É a posição católica.
Condena-se, outrossim, os sinergistas. Há muitas gradações no sinergismo. Em resumo, porém, designa toda a posição que ensina poder o homem com suas forças naturais cooperar com o Espírito Santo para a sua salvação. É a posição assumida pelas igrejas reformadas calvinistas e pentecostais.
LIVRE ARBÍTRIO - CUIDADO!
Afirmar que o homem possui vontade própria em assuntos espirituais é abrir uma brecha para desmoronar a fortaleza da graça de Deus. O próprio Melanchton, amigo de Lutero e autor da Confissão de Augsburgo, pôs em perigo a obra da Reforma, sustentando que há três causas que cooperam para a conversão do pecador: a palavra de Deus, o Espí¬rito Santo e a vontade do homem que não resiste à graça de Deus.
Em quase todas as igrejas, infelizmente, é deixada ao homem uma parte no trabalho ¬da salvação - ou são as boas obras com as quais será necessário pagar os pecados e merecer o céu, ou é, pelo menos, a boa vontade com a qual o homem vai ao encontro da graça de Deus.
O que o homem não quer é destronar a si mesmo e deixar a Deus todos os méritos ¬da salvação. No entanto o plano divino é salvar o homem sem nenhuma cooperação. Diz o apóstolo Paulo: "pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras para que ninguém se glorie" (Efésios 2.8,9).
REFLEXÕES
Em que sentido o homem possui vontade própria e em que sentido não a possui? Apesar de o evangelho ser proclamado a tantas pessoas por que muitos não crêem?
Christiano J. Steyer
19° Artigo - DA CAUSA DO PECADO
Com respeito à causa do pecado ensina-se entre nós que, embora o Deus onipo¬tente haja criado a natureza toda e a conserve, todavia é a vontade pervertida que opera o pecado em todos os maus e desprezadores de Deus. Pois esta é a vontade do diabo e de todos os ímpios, a qual, tão logo Deus retraiu a mão, desviou-se de Deus para o mal, conforme diz Cristo, João 8: "Quando o diabo profere a mentira, fala do que lhe é próprio”
ESTUDO
Se Deus sabe tudo de antemão, deve ter tido conhecimento de que o homem, que ele iria criar, não deixaria de transgredir sua vontade. Por que, mesmo assim, o criou?
Se Deus governa este mundo, por que se pratica tanta maldade?
Você já deve ter ouvido alguém fazer tais perguntas, ou você mesmo já as fez! Alguns esclarecimentos sobre tais questões nos são dados por Deus em sua palavra. No entanto, muitas perguntas permanecem sem respostas.
Com relação a algumas questões podemos consultar a palavra de Deus e apreciar a réstia de luz que ela deixa brilhar. Se não conseguirmos abrir a porta e desvendar todo o mistério, contentemo-nos com a pequena espiada permitida pela porta entreaberta.
Enfoquemos dessa maneira o assunto do presente artigo.
SÚMULA HISTÓRICA
O que deu motivo à formulação deste artigo da Confissão de Augsburgo foi a acusação dos anabatistas que diziam que os luteranos culpavam a Deus como sendo ele a causa do pecado. Os católicos compartilhavam dessa acusação. Dizia o Dr. João Eck, que representa a igreja de Roma, que Lutero em seu livro "De servo arbítrio", escrito contra Erasmo¬, transformava Deus em autor do pecado. O presente artigo responde a certas acusações ¬feitas aos luteranos.
O artigo 19 está dividido em duas partes. Primeiramente apresenta a parte negativa¬ declarando que
DEUS NÃO É A CAUSA DO PECADO
Não é possível negar que o homem, após a queda em pecado, não pode deixar de pecar contra Deus. Essa constatação afirma a palavra de Deus em Gênesis 8.21: "e mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade". O mesmo fato expressa o Salmo 51.5: “Eu nasci na iniqüidade e em pecado me concebeu minha mãe."
Se o homem é pecador desde a sua concepção, não foi, contudo, assim que Deus o criou, No princípio, tanto o homem como os anjos, eram bons. Ao concluir, no sexto dia, a obra da criação de todas as coisas, "viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom" (Gênesis 1.31).
Um mundo perfeito e muito bom está de acordo com o Criador: Deus perfeito, justo e santo. A criação trazia a marca do Criador.
A queda do homem veio trazer o sofrimento, a dor, o suor, a imperfeição, o pecado, a morte.
Deus tem aversão ao pecado, tanto assim que, para livrar o homem da condenação, não deixou de poupar o seu próprio Filho amado, permitindo que sofresse na cruz o castigo que todos mereciam sofrer no inferno.
Foi a solução que o misericordioso Deus encontrou para que o homem, a coroa da criação, pudesse estar com ele para todo o sempre.
Esta é a parte negativa do artigo, isto é, Deus não é a causa do pecado. Na positiva, afirma-se qual é
A CAUSA DO PECADO
A causa do pecado é a vontade desordenada dos maus; isto é, do diabo e dos ímpios.
Certo número de anjos, entre os quais se inclui Satanás, afastou-se livremente de Deus, tornando-se seu inimigo, como mostra Judas 6:" e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande dia". Foi a tentação de Satanás que levou o homem a cair em pecado (Gênesis 3.1-14). Daí por diante, tanto Satanás como a vontade corrompida do homem, continuam sendo a causa do pecado, como lemos em João 13.2: "Durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que traísse a Jesus"; Tiago 1.13-15: "Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado gera a morte": 2 Timóteo 2.26: "Mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade".
Como o diabo, tendo sido criado um anjo bom, pôde conceber o orgulho, a desobediência e a revolta contra Deus, permanece um mistério. O artigo 19 não quer decifrar este enigma. Constata dois fatos bíblicos: Deus não é o autor do pecado, e, a causa do pecado é Satanás e a vontade desordenada do homem. Por isso lembra Pedro: "Humilhai-vos, portando, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar; resisti-lhe fumes na fé, certos de que sofrimentos iguais aos vossos estão-se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo".
REFLEXÕES
Você já experimentou seriamente, não pecar mais? Conseguiu? Alguma vez você já resolveu não repetir um determinado pecado, que se tornou mais freqüente?
Imagine como seria o mundo se os primeiros homens não tivessem obedecido à satanás?
Pense em um pecado terrível que você nunca cometeu, por hipótese, de raiva matar alguém. De repente você passaria a ser um assassino. Transporte esse pensamento em relação a Jesus. Ele nunca cometeu pecado, mas no Getsêmane e no Gólgota sofreu como tendo cometido toda a sorte de maldade e perversidades.
O cristão peca menos que o descrente?
O cristão passa a vida em constante luta contra o pecado. Nem a metade das pessoas que vivem se dizem cristãs. O que você está fazendo para que pelo menos uma pessoa além de você se torne um cristão e desta forma passe também a lutar contra o pecado¬?
Christiano J. Steyer
A Igreja Evangélica Luterana do Brasil esco¬lheu como lema para os anos 1980 / 81 as pa¬lavras de Hebreus 10. 23: "Guardemos firme a confissão da esperança” Examinemos estas palavras.
Comemoramos em 1980 o 4° centenário do LIVRO DE CONCÓRDIA, que foi subscrito no dia 25 de junho de 1580 por 80 príncipes e magistrados. Nesta mesma data também celebramos 450 anos da Confissão de Augsburgo, aceita como a confissão básica da Igreja Luterana. São mais de quatro séculos de bênçãos. O LIVRO DE CONCÓRDIA reúne as principais confissões da igreja cristã.
Para comemorar os 450 anos da Confissão de Augsburgo e os 400 anos do LI¬VRO DE CONCÓRDIA a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) escolheu como lema para 1980-81, a palavra de Deus que encontramos em Hebreus 10.23: "Guardamos firmes a confissão da esperança”: Para que se possa compreender bem a profundi¬dade e oportunidade destas palavras, queremos analisar a Epístola aos Hebreus e os ver¬sículos que precedem e sucedem ao lema.
A Carta aos Hebreus exorta os cristãos a ficarem firmes na fé e a não se escandalizarem com a presente humildade e pobreza exterior da igreja cristã. O estilo da carta é vigoroso e flamante. Autor, destinatários, bem como a época em que a carta foi escrita nos são desconhecidos. Presume-se que a carta se destinava aos cristãos judeus em Roma, foi escrita pouco antes da destruição de Jerusalém, que se deu no ano de 70 AD.
Os cristãos em Roma viviam dias difíceis. Nero, o imperador romano, estava no auge de suas loucuras e perseguia com violência os cristãos. O apóstolo Paulo, provavelmente ¬já fora executado (66 ou 70?). Cristãos pintados com piche, amarrados em postes, queimados como tochas vivas nas ruas de Roma. Confessar a fé cristã significava ex¬por-se ao martírio. Alguns judeus, que aceitaram a fé cristã, vacilaram. Humilhação, perseguições, e morte - é isso o reino de Deus? É Cristo de fato o verdadeiro sumo-sacerdote¬? Daí a exortação para não se escandalizarem com a humilde aparência da igreja cristã, mas permaneceram fumes na fé. A exortação se divide em três temas:
- 1.14.13: por último Deus nos falou, em Jesus Cristo;
- 4.14-10.18: Jesus Cristo, o último sumo-sacerdote;
- 10.19-12.29: exortações e admoestações gerais.
PERMANECEI FIRMES NA FÉ (10.19-25).
Antes de citar as exortações, o autor da Carta aos Hebreus faz um resumo dos capítulos anteriores, mostrando a grande bênção da obra do sumo-sacerdote, Jesus. Estas bênçãos motivam os cristãos a seguirem as admoestações e exortações.
INTREPIDEZ PARA ENTRAR NO SANTO DOS SANTOS - v. 19
O significado da palavra "intrepidez" é ousadia, coragem. Não se pensa aqui na intrepidez perversa, tão característica de nossos dias, onde as pessoas afrontam a Deus e zombam das coisas sagradas. Nosso texto fala da intrepidez que brota da fé, isto é, a cora¬gem, o destemor, a audácia, a alegre confiança para entrar no Santo dos Santos, para che¬gar-se à presença de Deus, para ter comunhão com Deus.
O Santo dos Santos, ou santíssimo, era um recinto no templo judaico do Antigo Testamento. Nele estava a arca do concerto, as tábuas da lei de Deus, o efa de maná, a va¬ra de Araão; ali Deus se fazia presente pela nuvem. Só uma vez ao ano, o sumo-sacerdote devidamente purificado, tendo na mão uma vasilha com o sangue do cordeiro da reconci¬liação, abria o véu do santíssimo e aspergia ali o sangue para a reconciliação (Levítico 16) Isto era simbólico, apontando para a reconciliação que Cristo efetuaria com o seu sacrifí¬cio na cruz.
O sumo-sacerdote executava este trabalho com temor e tremor. Estava ciente da santidade de Deus, do Deus que disse: "Ninguém verá a minha face sem que morra" (Êxo¬do 33.20). O Antigo Testamento está cheio de exemplos de pessoas que foram mortas pe¬la ira de Deus, por terem ousado aproximar-se de Deus. Não fugiu o povo de Israel apavo¬rado, quando Deus lhe falou no monte Sinai (Êxodo 20. 18-21)? Não morreu Nadabe e Abiú por terem comparecido diante do Senhor com fogo estranho (Lucas 10. 1-7)? Não morreu Uzá ao colocar sua mão irreverente na arca de Deus (2 Samuel 6.7)? Como ousa¬ria uma pessoa aproximar-se de Deus, quando Deus mesmo disse: "Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las" (Gálatas 3.10)? Homem algum jamais poderia ousar comparecer diante de Deus, pois "nossos pecados fazem separação entre nós e o nosso Deus" (Isaías 59.2). O sumo-sacerdote o fazia, confiando unicamente no sangue da reconciliação, conforme o protegia da ira de Deus. Este sangue simbolizava o sangue do grande sumo-sacerdote que viria ao mundo para salvar o que estava perdido. Este sumo-sacerdote é Jesus Cristo. Por sua pai¬xão e morte ele nos abriu "um novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu". Es¬te novo caminho vivo é o próprio Jesus que disse: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida ¬ninguém vem ao Pai se não por mim" (João 14.6). Quando Jesus morreu na cruz, o véu se rasgou de alto a baixo, mostrando que os homens foram reconciliados com Deus (Mateus 27.51). Por isso o apóstolo Paulo afirma: "Deus estava em Cristo, reconciliando consigo mesmo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a pa¬lavra da reconciliação" (2 Coríntios 5.19).
Baseados nesta obra de Cristo, firmados na palavra da reconciliação, temos a ousadia para nos achegar à presença de Deus. Temos a alegre confiança de, apesar de nos¬sas fraquezas e pecados, podermos achegar-nos a Deus, "sem temor e com toda a confian¬ça". Por isso a admoestação:
APROXIMEMO-NOS COM SINCERO CORAÇÃO E PLENA CERTEZA DE FÉ - V. 22
Tendo agora intrepidez, isto é, a alegre confiança em Deus pela graça de Cristo, aproximemo-nos ao Santo dos Santos, à presença de Deus, para comunhão com Deus.
O autor da carta dirige esta admoestação aos irmãos e se inclui a si mesmo. Os irmãos são os que, como ele, ouviram o evangelho da "grande salvação" (2.3), em cujos corações o Espírito Santo operou a fé. Estes devem aproximar-se cada vez mais e mais, para ¬estreitarem a comunhão com Deus, para tomarem "graça sobre graça" (4.16), pelo ca¬minho que Cristo abriu.
"Aproximemo-nos com sincero coração." Por natureza, todo o coração é falso. "Do coração procedem os maus pensamentos" (Mateus 15.19). Infelizmente muitos vêm à presença de Deus com corações não sinceros. Vêm aos cultos, mas não aceitam a pala¬vra de Deus. Confessam seus pecados, mas não querem ficar livres dos pecados. Confessam com a boca o Credo Apostólico, mas o seu Deus é outro. Falsos corações em meio aos cristãos é uma característica dos tempos do fim (2 Timóteo 3.1-5) entre outras. Só o coração que foi regenerado pela palavra de Deus é sincero. A sinceridade consiste no reconhecimento de seus pecados. Coração sincero é um coração arrependido que não tenta minimizar, nem desculpar o pecado, mas que toma a lei de Deus a sério, que se confessa culpado de toda a lei. Neste reconhecimento de seus pecados e de sua indignidade ele não desespera, mas confia na graça de Cristo que diz ao pecador: "Vinde a mim todos os que estais can¬sados e sobrecarregados e eu vos aliviarei" (Mateus 11.28).
Irmãos, firmados no amor de Cristo, não deixemos que algo nos afaste de Deus, ou impeça o crescimento da comunhão com Deus. Nem a acusação de nossa consciência, nem os argumentos de nossa razão que não quer aceitar a palavra de Deus, nem a zomba¬ria do mundo, nem as perseguições, ou a humildade da igreja (Romanos 8.33-39). Antes, com sinceros corações, em plena certeza de fé, aproximemo-nos cada vez mais e mais para estreitar a comunhão com o nosso Deus.
Esta plena certeza de fé provém especialmente de duas coisas: de ter o coração purificado de má consciência e de ter o corpo lavado com água pura. Isto não é uma no¬va admoestação, mas mostra de onde o coração sincero busca a plena certeza de fé, a sa¬ber, da palavra de Deus e dos sacramentos. Onde a palavra de Deus está sendo pregada e os sa¬cramentos administrados conforme a ordem de Deus, ali o Espírito Santo opera a fé. Ali o sangue de Cristo purifica os corações de má consciência (1 João 1.7). Onde o batis¬mo de água, o lavar regenerador e renovador, está sendo administrado conforme a ordem de Cristo, ali os corpos são lavados do pecado. Ali há consciências purificadas pelo sangue de Cristo. Ali cresce o desejo por estreitar a comunhão com o Salvador. Ali cresce o amor à palavra de Deus e a fome pelos sacramentos. Ali há crescimento na vida santificada. Ali se guarda a confissão da esperança.
GUARDEMOS FIRME A CONFISSÃO DA ESPERANÇA - V. 23
Por ocasião do batismo, os adultos confessavam sua fé. Esta confissão não era algo vago, mas uma confissão objetiva. Confessavam sua fé no Deus triúno, em Cristo co¬mo seu Salvador, na ressurreição dos mortos, na esperança da vida eterna. Com o passar do tempo, esta confissão foi adquirindo forma concisa e precisa, até se cristalizar no Cre¬do Apostólico. Na medida que falsos profetas atacavam a verdade, esta confissão foi sen¬do ampliada. Cresceu como um muro ao redor de uma cidade. Foram elaborados os credos Apostólico, Niceno (325) e Atanasiano (séc. 5/6). Em 1529 surgiu o Catecismo Me¬nor e Maior. A Confissão de Augsburgo (1530) analisa as doutrinas básicas da igreja. Os Artigos de Esmalcalde (1537) expõem especialmente a doutrina da Santa Ceia. A Fór¬mula de Concórdia (1580) comenta as doutrinas do Credo Apostólico com grande profun¬didade. Que maravilhoso tesouro. É preciso lembrar que não foi carne e sangue que nos revelaram isso. Conhecer estas verdades e confessá-las é obra do Espírito Santo. O fato ainda hoje termos estas confissões e as reconhecermos como verdade extraída da palavra de Deus, é misericórdia de Deus.
“Guardemos firmes a confissão da esperança‘': Isto é, vamos apegar-nos a estas verdades e não abrir mão delas. As tentações são muitas. Nossa própria razão se opõe à palavra de Deus. Muitos falsos profetas lutam contra a verdade. Árduas foram as lutas para manter a confissão. Basta recordar as lutas do apóstolo Paulo, as lutas desde o Credo Niceno à Fórmula de Concórdia até os dias de hoje. Muitas são também as ameaças do mundo. Quantos foram perseguidos, martirizados e mortos por causa de sua confissão! Muitos infelizmente também negaram sua fé, como rei Saul e o discípulo Judas e outros.
Para guardar esta confissão é necessário, em primeiro lugar, que a confissão se torne nossa confissão. Isto requer constante estudo e oração. Uma vez que estamos convictos de que nossas confissões são a fiel expressões da verdade bíblica, queremos guardá-la firme e confessá-la diante dos irmãos e do mundo, mesmo que isto nos custe a própria vida.
Sabemos que as promessas de Deus não falham. Deus é fiel. Por isso exorta o apóstolo João e o apóstolo Paulo: "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele" (1 João 3.2). Sim, "a nossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então nós também seremos manifestados com ele em glória" (Colossenses 3.3,4). Enquanto estamos aqui na terra, cabe-nos lutar. E para podermos ficar firmes e guardar a confissão da esperança, necessitamos da terceira admoestação.
CONSIDEREMO-NOS TAMBÉM UNS AOS OUTROS - V. 24 e 25
Uma tradução ao pé da letra seria: "espionemo-nos uns aos outros". Não no sentido mau. Isto, infelizmente, acontece muito nas comunidades: um observando, espio¬nando ao outro, para achar defeito, para criticar e condenar sem piedade. A presente exortação visa a edificação da comunidade. "Ninguém busque o seu próprio interesse; e, sim, o de outrem" (1 Coríntios 10.24). Disto a comunidade tem grande necessidade. Isto requer que conversemos com nossos irmãos na fé, para conhecer suas dificuldades. Infelizmente, a própria hora de culto não oferece mais tempo para esta conversa. Corre-se ao culto e sai-se correndo do culto. Há necessidade de reorganizar nossos cultos para que haja tempo para a comunhão. Quantos estão carregando enormes fardos de angústias, ¬lutas internas, problemas de consciência e outros problemas. Uma palavra de estímulo, um conselho, uma ajuda resolveriam a situação, O apóstolo Paulo conheceu o que significava estar sozinho. Foi por ocasião do seu primeiro julgamento (2 Timóteo 4. 16-17) todos os irmãos o abandonaram. Imaginem, dois anos Paulo anunciou o evangelho em Roma. Na hora da provação, todos o abandonaram. Paulo sabe que isto foi fraqueza e pede a Deus que "isso não lhes seja posto em conta". Consideremo-nos uns aos outros, especialmente nas grandes necessidades.
A carta os estimula ao amor e às boas obras. Estimular é atiçar. Conhecemos as técnicas do estímulo. Cada fábrica quer produzir o máximo no mínimo de tempo. Tudo deve ser aproveitado. O agricultor quer ver suas árvores, seus campos, seu gado produzir o máximo. Nós cristãos, sacerdotes reais, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, que temos acesso ao Santo dos Santos, não podemos contentar-nos com o mínimo. Cada um deve estimular o outro ao amor e às boas obras. O máximo na vida santificada, o máximo no amor ao próximo, o máximo na missão. Para que isso possa acontecer, "não abandonemos a nossa própria congregação como é costume de alguns."
Era tempo de perseguição. Freqüentar a reunião dos cristãos poderia custar a vida. Mas retrair-se das reuniões de estudo e culto, poderia custar a vida eterna. Infeliz¬mente alguns abandonaram as reuniões; com isso estavam negando o próprio Salvador, a fé cristã. Exatamente em tempos difíceis temos necessidade da comunhão com os irmãos e do estudo da palavra de Deus em conjunto. É ali que somos firmados na intrepidez pa¬ra nos aproximarmos cada vez mais do Santo dos Santos. É ali que crescemos na força pa¬ra guardar a confissão da esperança. É ali que somos estimulados a crescer no amor e nas boas obras.
Neste ANO DAS CONFISSÕES dediquemo-nos ao estudo das Confissões Lutera¬nas para que possamos dizer: Esta é a minha confissão! E “então confessá-la diante dos irmãos e do mundo, especialmente agora, quando ‘‘vedes que o dia se aproxima.”
Horst Kuchenbecker
CONFISSÃO DE AUGSBURGO
1º artigo - DE DEUS
Em primeiro lugar, ensina-se e mantém-se, unanimemente, de acordo com o decreto¬ do Concilio de Nicéia, que há uma só essência divina, que é chamada Deus e verda¬deiramente é Deus. E, todavia há três pessoas nesta única essência divina, igualmente pode¬rosas, igualmente eternas, Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, todas três uma úni¬ca essência divina, eterna, indivisa, infinita, de incomensurável poder, sabedoria e bonda¬de um só criador e conservador de todas as coisas visíveis e invisíveis. E com a palavra persona se entende não uma parte, não uma propriedade em outro, mas aquilo que subsiste por si mesmo, conforme os Pais usaram esse termo nessa questão.
Rejeitam-se, por isso, todas as heresias que são contrárias a esse artigo, como os maniqueus, que afirmaram a existência de dois deuses, um bom e um mau; também os valentinianos, arianos, eunomianos, maometanos e todas as similares; também os samosate¬nos antigos e novos, que afirmam uma só pessoa e sofismam acerca do Verbo e do Espírito ¬Santo, dizendo não serem pessoas distintas, porém que Verbo significa palavra ou voz física e que o Espírito Santo é movimento criado em criaturas.
ESTUDO
Em 1528, Martinho Lutero escreveu a obra Da Santa Ceia de Cristo. Na terceira parte confessou, ponto por ponto, a sua fé. Queria deixar bem claro o que cria e ensinava, que ninguém se atrevesse a citá-lo em favor de doutrina contrária à fé cristã.
Ao confessar a sua fé, Lutero aproveitou, com a maior naturalidade, os termos e a ordem dos credos apostólico e niceno. Também ressaltou que estava confessando "o artigo sublime da majestade divina" de acordo com o que "sempre se tinha defendido, tanto na igreja romana como na igreja cristã em todo o mundo."
Em 1529, Lutero e colegas escreveram os "Artigos de Schwabach'' à base dessa “Confissão". Com a maior naturalidade seguiram a ordem e usaram as palavras dos credos apostólico e niceno.
Por isso a Confissão de Augsburgo também apresenta e reafirma, no primeiro "artigo¬ da fé e ensino", a fé confessada nesses credos. Nunca passou pela cabeça dos "luteranos” ¬ensinar outra coisa, sem ser o que a igreja cristã vinha ensinando desde o começo.
Entendido isto, fica esclarecido que o primeiro artigo fala de Deus, não como fala a ¬filosofia, mas como o próprio Deus falou de si mesmo, através dos profetas de Israel e acima de tudo, por meio de seu próprio Filho, Jesus Cristo.
QUEM É E O QUE FAZ DEUS?
Neste primeiro artigo, as igrejas e escolas luteranas declaram que ensinam duas coisas a respeito de Deus, a saber, quem é e o que faz.
Quem é Deus? É um único ser, em três pessoas distintas, Pai, Filho e Espírito Santo. As três pessoas não são três deuses, mas um único Deus. Conforme esclarecem os antigos, as pessoas não são partes de Deus. Cada qual subsiste em si mesma, é Deus sem quaisquer descontos. Nem por isso são três deuses. É um único Deus.
Que faz Deus? Esta verdade ultrapassa nossa capacidade de entender. Por isso é importante considerar tanto mais o que Deus tem feito. .
Afirmam os confessores, com a igreja de todos os tempos e lugares, que Deus criou e mantém todas as coisas. Todas as coisas, mesmo aquelas que não vemos.
Ao juntar a voz à confissão da igreja antiga, as igrejas e escolas luteranas, por isso mesmo, rejeitam aos que ensinam coisa diferente: aos que ensinam haver dois deuses, um bom e outro mau, e aos que ensinam que o Filho e o Espírito Santo sejam apenas mani¬festações do único Deus e, portanto, inferiores ao Pai.
DEUS TRIÚNO
Esta confissão da unidade e trindade de Deus expressa, com clareza e concisão, o que os profetas do povo de Israel, Jesus e os apóstolos anunciaram ao mundo:
"Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Deuteronômio 6.4);
"Sabemos que o ídolo de si mesmo nada é no mundo, e que não há senão um só Deus" (1 Coríntios 8. 4);
"Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, ho¬mem" (1 Timóteo 2.5).
Também a confissão da trindade reflete a boa notícia do Senhor Jesus ao mun¬do. Quando enviou os apóstolos, ordenou: "Fazei discípulos de todas as nações, batizan¬do-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mateus 28. 19). Os apóstolos ensi¬naram às nações tudo o que Jesus tinha mandado ensinar. O apóstolo Paulo escreve aos coríntios, na segunda carta (13.13): "A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós." O apóstolo Pedro escreve na primei¬ra carta que os crentes dispersos foram "eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo" (1 Pe¬dro 1.2).
Não pode haver dúvida, portanto. A confissão do primeiro artigo da Confissão Augsburgo é a própria verdade dos escritos proféticos e apostólicos. Importa segurar esta verdade, com toda força, na sociedade atual, que não conhece a Deus.
ENSINOS CONTRÁRIOS
Os marxistas e ateus de todo tipos afirmam abertamente que não há Deus e só existe a matéria. Os evolucionistas, sejam ateus ou não, afirmam que a matéria tem poderes tais, que consegue produzir a variedade infinita de seres que formam o universo e fazem funcionar este vasto conjunto de seres. Com isso fazem da matéria Deus.
As filosofias e seitas que vêm do Oriente, em especial da Índia, também confundem Deus com o mundo e assim endeusam o universo.
A maçonaria e o espiritismo sustentam que Deus criou e sustenta o universo. Seu Deus, porém, não é o Pai, Filho e Espírito Santo que Jesus nos revelou.
As Testemunhas de Jeová negam que Jesus seja Filho de Deus, igual ao Pai em majestade e poder.
COMUNHÃO DO ÚNICO DEUS
Por isso convém lembrar que nós, os crentes, fomos batizados "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", conforme Jesus ordenou. “Em nossos cultos cantamos: ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, é agora e será para todo o sempre”. É o Deus uno e trino que nos abençoa ao final de cada culto. É "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” que deitamos à noite e iniciamos cada dia. Em suma, a partir do batismo toda nossa vida se desenrola na comunhão do único Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.
Portanto, digam os filósofos, cientistas e religiosos o que disserem, nós permane¬cemos fiéis à voz do Senhor, que se revelou como Pai amoroso, Filho libertador e Espírito santificador de todos nós.
REFLEXÕES
1. Podem os homens, por si mesmos, conhecer a Deus? Procure responder à base aos Romanos, capítulos 1 e 2, e Atos dos Apóstolos 17.16-34.
2. Releia a Ordem do Culto Principal no Hinário Luterano. Em que partes a igreja confessa quem Deus é e o que faz?
3. Releia com atenção, o Credo Niceno. Verifique se o primeiro artigo da Con¬fissão de Augsburgo de fato reafirma a fé confessada no Credo.
4. De que maneira Deus mantém todas as coisas? Responda à base da explicação do 1º Artigo do Credo Apostólico e da Quarta Petição do Pai Nosso no Cate¬cismo Menor.
5. Qual será a reação dos filhos de Deus em vista do que ele faz? Leia a propósito os Salmos 8 e 104."\
Nestor Beck
2º Artigo - DO PECADO ORIGINAL
Ensina-se, outrossim, entre nós que depois da queda de Adão todos os homens naturalmente nascidos são concebidos e nascidos em pecado, isto é, que desde o ventre materno todos estão plenos de concupiscência e inclinação más, e por natureza não po¬dem ter o verdadeiro temor de Deus e verdadeira fé em Deus.Também, que essa inata pestilência e ¬pecado hereditário verdadeiramente é pecado e condena à eterna ira de Deus a quantos não renascem pelo batismo e pelo Espírito Santo.
Condenam-se, além disso, os pelagianos e outros que não consideram pecado ao hereditário, com o que tornam a natureza justa por virtudes naturais, para ignomínia da paixão e do mérito de Cristo.
ESTUDO
No século XVIII, o pensador suíço-francês Jean-Jacques Rousseau defendeu uma teoria considerada revolucionária. O homem, dizia, ele nasce puro e bom; é a sociedade corrupta que o torna mau.
Esta teoria continua influenciando o pensamento e ação da época atual. Basta alterar as condições sociais, e mudará o homem. Não havendo pobreza, nem fome, nem miséria, não haverá crimes, violência.
A sociedade, começando pela família, determina a pessoa humana e seu comportamen¬to. Onde está, porém, a origem e fonte do mal? Está na sociedade ou está na pessoa?
Quando os fariseus insinuaram que os discípulos estavam se tornando impuros por estarem comendo sem lavar as mãos, Jesus esclareceu: "Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar? ... O que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos homens é que procedem os maus de¬sígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a las¬cívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem" (Marcos 7. 18-23).
No segundo artigo, os confessores de Augsburgo confessam com toda a igreja cristã qual é a situação natural da pessoa humana. Confessam isso não à base da ciência ou filosofia mas a partir da mensagem que os profetas e Jesus anunciaram ao mundo.
PECADORES E REUS
São dois os pontos que se confessam neste artigo.
Ensina-se, em primeiro lugar, que todos os homens são concebidos e nascem em pecado. Já ao nascerem, mesmo antes de poderem ''fazer'' o bem ou mal, estão cheios de maus desejos e inclinações. Portanto, não podem, por si mesmos, chegar a crer em Deus e a temer a Deus, no sentido rigoroso e exato destes termos.
Os reformadores confessam, em segundo lugar, que esta peste ou pecado com que os homens nascem é pecado no sentido exato do termo e, por conseguinte, os torna réus do juízo e condenação eternas. Dito doutra maneira, Deus, o Senhor e Juiz de todos os homens, considera pecado esta maldade inata e está disposto a condenar os homens a viverem longe dele para sempre, por causa deste pecado "de berço". Quer e vai condená-los - a não ser que ouçam e aceitem a boa mensagem de Jesus Cristo. Seus mensageiros impelidos pelo Espírito Santo, estão anunciando esta notícia a todos os homens para que saibam que Deus está disposto a perdoar e a receber como filho a todo homem que aceitar esta mensagem para se submeter ao batismo e nascer de novo pelo poder do Espírito Santo.
Notemos bem o equilíbrio. Os confessores confessam, ao mesmo tempo, que o homem não pode, por si mesmo, tornar-se agradável a Deus e ingressar na sua família. Mas confessam, ao mesmo tempo, que o próprio Deus está mostrando a todos o caminho ¬único caminho certo e infalível - para escapar às conseqüências da maldade inata. Estão confessando duas verdades: Deus é Juiz e condena o homem por ser pecador; Deus é Salvador e oferece ao homem o perdão e a vida eterna em Cristo.
VIDA ETERNA EM JESUS
Assim o segundo artigo prepara e aponta para os artigos seguintes sobre a obra de Jesus e seu fruto.
Esta confissão coincide com o testemunho dos profetas e apóstolos. Davi depõe no Salmo 51.5: "Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe". Conforme argumenta Lutero, à base do hebraico, Davi está dizendo: "Eu cresci de semente pecaminosa no ventre materno". O apóstolo Paulo diz isto sobre as conseqüências do pecado "de berço": "O aguilhão da morte é o pecado" (1 Coríntios 15.56) e "O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor" (Carta aos Romanos 6.23). No quinto capítulo da mesma carta argumenta que assim como condena todos os homens à morte por serem descendentes e imitadores de Adão, assim Deus absolve e dá vida a todos os homens por causa do que fez Jesus Cristo, Ele foi obediente até à morte e por isso Deus o ressuscitou, para que possa oferecer e dar perdão e vida a todos os filhos de Adão, para se tornarem filhos de Deus e herdarem a vi¬da eterna em vez da morte.
ENSINOS CONTRÁRIOS
Ao reafirmar o testemunho dos profetas e apóstolos, os confessores de Augs¬burgo estão excluindo e rejeitando a tese de que o pecado "de berço" não seja pecado propriamente dito, mas seja apenas uma deficiência ou fraqueza, que não impeça o ho¬mem de tornar-se justo e aceitável a Deus por suas próprias forças. Esta tese foi defendida, no passado, pelo monge Pelágio, que viveu em torno dos anos 360 a 420. Daí se chamarem "pelagianos" os que defendem tal posição. Os "outros" a que se refere o artigo podem tanto ser os reformadores da Suíça alemã (Ulrich Zwingli e colegas), como os defensores da piedade romana católica tradicional, como veremos na discussão do artigo IV. Quanto aos reformadores suíços, convém lembrar que, nos debates de Marburgo em 1529, acerta¬ram com Martinho Lutero e colegas que o pecado herdado de Adão é pecado no sentido exato do termo e separa os homens de Deus para sempre; por isso mesmo Jesus Cristo veio nos acudir com sua morte e vida.
A posição "pelagiana" é defendida, em nossos dias, por filosofias e religiões orientais, pela maçonaria e espiritismo, pela filosofia e ciência moderna em geral, por várias denominações chamadas protestantes e também, de forma sutil, pelo grosso da teolo¬gia apostólica romana.
PRECISAMOS DE CRISTO
Como se verá no artigo XVIII, a Confissão de Augsburgo concede inteiramente que o homem possa, por suas forças, tornar-se justo e agir com justiça, de acordo com os critérios da sociedade. Nega apenas que o homem possa, por si, adquirir e ter a justiça que Deus aceita e reconhece. Esta o homem não tem, nem pode ter, a não ser que aceite, pela fé o perdão e a justiça de Cristo.
Portanto, reconheçamos quão grave é o pecado e quão sério o juízo de Deus para reconhecermos o quanto precisamos de Cristo como sacrifício pelos nossos pecados e defensor da nossa causa diante do Pai.
REFLEXÕES
1. Releia a explicação do Segundo Artigo do Credo Apostólico e do Catecismo Menor. Por que se diz que sou "homem perdido e condenado"?
2. Leia o primeiro artigo da Fórmula da Concórdia e verifique se coincide com este segundo artigo da Confissão de Augsburgo.
3. Leia os primeiros dois e o quinto capítulo da Carta aos Romanos e procure descrever a situação natural do homem que não conhece a Cristo.
4. Leia os capítulos dois e três da Carta aos Efésios, descubra qual era a situação dos efésios antes de ouvirem e aceitarem a boa notícia anunciada por Paulo.
Responda mais: Teriam os efésios podido alterar sua situação de outra maneira, que não fosse esta de ouvir e aceitar a grande notícia?
5. O que pretende Jesus dizer quando afirma em João 3.5 que "quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus"?
Nestor Beck
3º Artigo - DO FILHO DE DEUS
Ensina-se, além disso, que Deus Filho se fez homem, nascido da pura Virgem Maria, que as duas naturezas, a divina e a humana, inseparavelmente unidas em uma única pessoa, são um só Cristo, que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que verdadeiramente nasceu, padeceu, foi crucificado, morreu e foi sepultado, a fim de ser oblação não só pelo pecado hereditário, mas ainda por todos os outros pecados, e para aplacar a ira de Deus. Ensina-se, outrossim, que o mesmo Cristo desceu ao inferno, no terceiro dia ressurgiu verdadeiramente dos mortos, subiu ao céu e está sentado à destra de Deus, para dominar eternamente sobre todas as criaturas e governá-las, a fim de santificar, purificar fortalecer e consolar, pelo Espírito Santo, a quantos nele crêem, dar-lhes também vida e toda sorte de dons e bens, e proteger e defendê-los contra o diabo e o pecado. Também se ensina que o mesmo Cristo Senhor, conforme o Symbolum Apostolorum, no fim virá visivelmente, para julgar os vivos e os mortos, etc.
ESTUDO
Temos dito e queremos repetir aqui: Os confessores de Augsburgo estavam repletos da fé ¬confessada nos credos da igreja primitiva. Todos os dias cantavam, recitavam e ensinavam esta fé nos cultos, nas aulas e em casa. Não sabiam e não queriam falar de Deus e Jesus Cristo a não ser nas palavras dos credos niceno e apostólico. Já o vimos antes; aqui o veremos de novo.
O terceiro artigo, assim como o primeiro, confessa, reafirma e defende a mesma fé confessada pela igreja antiga a exemplo dos apóstolos.
Quando Deus chamou Moisés, disse: "Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa" (Êxodo 3. 5). Ao chegarmos ao terceiro artigo, lembremos que este é o centro, fundamento e ápice de toda a Confissão de Augsburgo. Aqui subimos do primeiro passando pelo segundo; daqui descemos aos artigos restantes. Na confissão de Cristo, e de seu Espírito repousam todos os demais artigos da Confissão de Augsburgo. Abraçar este artigo é segurar todos os demais. Perder este, é perder todo o resto.
QUEM É E O QUE FAZ JESUS
No terceiro artigo os confessores confessam, à base dos credos antigos, não somente que ¬é e o que faz Jesus Cristo, mas também para que se tornou o que é e fez o que fez. Como Melanchton explica noutro lugar, confessam não somente a história, o acontecido, mas também finis historiae, isto é, a razão e finalidade do ocorrido. Isso também faz parte do credo. É, na verdade, o essencial.
Afirmam, em primeiro lugar, que Jesus Cristo, de fato ou verdadeiramente nasceu, sofreu, foi crucificado, morreu e foi enterrado para servir de oblação ou sacrifício, pelo pecado-herança, mas também por todos os outros pecados, e (assim) expiar a ira de Deus.
Afirmam, em segundo lugar, que Jesus Cristo ressuscitou, subiu ao céu e está sentado à direita de Deus para dominar e reger todas as criaturas para sempre, e para, pelo Espírito Santo, santificar, purificar, fortalecer e consolar a quantos nele crêem e lhes repartir todo tipo de dons e bens e os defender e proteger contra o diabo e o pecado.
Afirmam, em terceiro lugar, que, no fim, virá em público para julgar os vivos os mortos.
Cada vez os confessores definem, com toda clareza, para que Jesus Cristo fez o que fez ou tem feito e fará o que vai fazer. Isto é importante. Sem perceber a finalidade do ocorrido, não se percebe nem avalia o que aconteceu, tem acontecido e acontecera.
Os confessores ressaltam que Jesus Cristo se ofereceu e pagou não só pelo pecado-herança, mas por todos os outros pecados também. Estão excluindo e rejeitando doutrina "católica" tradicional. Esta ensina que Jesus pagou pelo pecado hereditário e o cristão precisa pagar, isto é, fazer expiação ou penitência pelos pecados que ele próprio comete. Por conseguinte, o perdão da culpa, ficaria dependendo não só do feito de Cristo, mas também das boas obras e intenções da própria pessoa. Em outras palavras ficaria Jesus como meio Salvador apenas. Os confessores, ao contrário, fazem o perdão de qualquer pecado depender única e inteiramente da vida, morte, ressurreição e intercessão de Cristo.
ATRAVÉS DO ESPÍRITO SANTO
Os confessores mostram que Jesus, depois de receber o domínio, faz tudo o que faz em relação aos crentes pelo Espírito Santo. Neste ponto a Confissão de Augsburgo reflete o pensamento de Lutero, que diz na Confissão de 1928: "Este Espírito Santo, com dom e presente vivo, eterno e divino, agracia todos os crentes com fé e outros dons espirituais e os ressuscita dos mortos, liberta do pecado e os faz alegres e tranqüilos, livres firmes na consciência". Diz mais: "O Espírito Santo nos ensina a reconhecer o beneficio que Cristo nos fez, nos ajuda a receber e segurar, usar proveitosamente e repartir, incrementar e promover o benefício que Cristo nos fez."
Por trás da confissão de Lutero e deste artigo estão os últimos capítulos dos evangelhos de Lucas, Mateus e João e os Atos dos Apóstolos. Podemos dizer que todos os demais artigos da Confissão, a começar pelo quarto, descrevem o que o Senhor Jesus tem feito através do Espírito Santo. A ação do Senhor em favor do seu povo, portanto não se esgotou com a ressurreição e ascensão, antes continua até ao fim do mundo. Não descansará enquanto não libertar por completo o seu povo e manifestar sua vitória e do¬mínio a todos os homens e criaturas.
ENSINOS CONTRÁRIOS
Ao reafirmarem, nestes termos, a confissão do Credo Apostólico referente ao Filho de Deus, os confessores estão excluindo, implicitamente, erros e desvios que surgiram na igreja antiga e tem reaparecido através dos tempos. Ao dizerem, à base do Evangelho de João 1.14 e da carta aos Gálatas 4.4, que o Filho se fez homem, estão negando contra os patripassiani, que tenha sido o Pai ou o Espírito Santo. Ao dizerem que Cristo é Deus e homem verdadeiro, estão afirmando que o Filho assumiu a natureza inteira não apenas corpo sem alma humana, como querem os focinianos contra Mateus 26.38. Quando afirmam que Deus Filho nasceu da Virgem Maria, estão dizendo com o Evangelho de Lucas 1.35 que Maria é mãe de Deus, não somente do homem Jesus. Quando afirmam que a natureza divina e humana constituem unidade indivisível, estão dizendo, inclusive, que morreu por nós não só o homem Jesus, mas o Homem-Deus Jesus Cristo conforme testificam a carta aos Romanos 8.32 e a Primeira Carta aos Coríntios 2.8
Fica bem claro que o Jesus confessado pela igreja cristã nos credos e neste artigo não é o Jesus dos hindus e islamitas, dos espíritas e Testemunhas de Jeová, dos marxistas e da teologia modernista, inclusive a chamada teologia da libertação. Todos estes encaram Jesus como exemplo moral e força ética, mas não reconhecem nele o Filho de Deus que veio morar entre os homens para dar a vida por nós (Evangelho de João 1.14 e de Marcos 10.45). O Jesus confessado pelos apóstolos e pela igreja - triste é dizê-lo - também não é o Jesus de certas igrejas "reformadas", que estaria presente num só "lugar” ¬chamado "céu" e, portanto, não poderia estar presente, na santa ceia, com o seu corpo e sangue.
Se os confessores não indicam expressamente os erros rejeitados, a razão pode estar na feliz verdade que Lutero pode expressar ainda em 1537, nos Artigos de Esmalcal¬de: Estes artigos (da Trindade e do Filho de Deus) não estão em controvérsias e discussão, por que de ambas as partes ("luteranos" e "católicos") os confessamos. Por isso não é necessário continuar tratando deles agora".
REFLEXÕES
1 - Compare a confissão de Cristo que se faz no Credo Niceno e no "Glória in Excelsis" da Ordem do Culto Principal no Hinário Luterano.
2 - Leia toda a Ordem do Culto e anote o que mais confessa e afirma a respeito de Cristo.
3 - Releia a explicação do segundo e terceiro artigos do Credo Apostólico no Ca¬tecismo Menor, veja qual é a relação entre a ação do Senhor Jesus e a ação do Espírito Santo. Compare isso com o que se diz neste terceiro artigo da Confissão de Augsburgo.
4 - Leia cuidadosamente o oitavo artigo da Fórmula de Concórdia sobre a pessoa de Cristo e verifique de que maneira está reafirmando o terceiro artigo da Confissão de Augsburgo.
5 - Leia o capítulo quinze da Primeira Carta aos Coríntios e diga por que a res¬surreição de Cristo é decisiva para a fé cristã.
Nestor Beck
4º Artigo - DA JUSTIFICAÇÃO
Ensina-se também que não podemos alcançar remissão dos pecados e justiça de Deus por mérito, obra e satisfação nossas, porém que conseguimos remissão dos pedados e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu e nos são dadas justiça e vida eterna. Pois Deus quer considerar e atribuir essa fé como justiça perante ele, conforme diz São Paulo em Romanos 3 e 4.
ESTUDO
Todo homem, por mais ateu que seja, pressente que sofrerá as conseqüências do bem ou mal que faz. A consciência lhe diz que será julgado. Pergunta a si mesmo: Como poderei escapar de sofrer as conseqüências do que faço? Ou então procura convencer-se, de maneira arrogante, de que tem condições de enfrentar o julgamento.
A história do homem é uma história de fuga da responsabilidade. O homem quer esquivar-se de responder ao juiz, que é Deus. Sabe que não tem condições de responder.
Por isso mesmo a pergunta dos homens tem sido a pergunta que atormentava Martinho Lutero: Como terei um Deus favorável? Que fazer para que o juiz me absolva e receba em seu reino?
Depois de bater em muitas portas, depois de lutar por meses e anos com o texto original do Antigo Testamento, Lutero encontrou a resposta, ou melhor, o Espírito do Senhor Jesus lhe revelou a resposta pela mensagem anunciada pelos apóstolos e profetas.
Entendeu o que Paulo tinha anunciado na Carta aos Romanos 1.16-17: "O evan¬gelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê ... visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito (no profeta Habacuque 2.4): O justo viverá por fé".
Deus se mostra favorável e dá acolhida ao homem justo. Deus, porém, considera justo o homem que possui a justiça que ele próprio, Deus, lhe oferece - a justiça de Cristo, ¬Deus a oferece pelo evangelho de Cristo, e o homem a recebe e possui pela fé, ou seja, quando toma a sério a mensagem e crê na oferta e doação que Deus está lhe fazendo.
Esta é a tremenda verdade confessada neste artigo quarto da Confissão de Augs¬burgo. Esta verdade, conforme se verá na segunda parte da confissão, provocou todas as reformas de Lutero e os "luteranos" fizeram no culto e piedade cristã.
Este artigo repousa sobre o segundo, que descreve a impotência espiritual do homem, e sobre o terceiro, que define a ação do Filho de Deus em favor dos homens. Fica implícito que o Senhor Jesus enviou seu Espírito aos apóstolos e está anunciando, por meio deles e dos cristãos, o que ele, Jesus, fez, vem fazendo e vai fazer para reconduzir ¬os homens à comunhão com Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O PERDÃO
Neste artigo os confessores afirmam, em primeiro lugar, que nós homens não podemos conseguir perdão dos pecados e justiça diante de Deus por nossos méritos, obras e satisfações ou penitências. Fica entendido, mas não expresso, que não o podemos em vista do que foi constatado sobre a condição natural dos homens no segundo artigo.
Quando Melanchthon publicou o texto alemão da confissão (editio princep), tornou explícito o que estava implícito. Escreveu: "Tendo em vista que todos os homens nascem em pecados e não conseguem cumprir a lei de Deus, nem amar a Deus de coração" ensina-se que ...
Os confessores ressaltam, em segundo lugar, como os homens podem conseguir o perdão e a justiça: "Recebemos perdão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pelo favor (de Deus) por causa de Cristo pela fé, ou seja, ao crermos que Cristo sofreu por nós e que por causa dele os pecados nos são perdoados e nos são dadas justiça e vida eter¬na".
Os confessores escolheram cuidadosamente as palavras. Recebemos perdão e nos tornamos justos diante de Deus por graça ou favor de Deus, ou seja, porque Deus nos é favorável, graças ao trabalho de Jesus Cristo, descrito no artigo terceiro.
Recebemos perdão e nos tornamos justos diante de Deus por causa de Cristo, ou seja, porque ele ofereceu a si mesmo como sacrifício e pagou pelos nossos pecados e assim nos conquistou a misericórdia ou favor e o perdão do Pai, conforme confessamos no artigo terceiro.
A FÉ
Recebemos perdão e nos tornamos justos diante de Deus pela fé, ou seja, se e quando cremos na proclamação do trabalho de Cristo, conforme o terceiro artigo.
Os confessores tinham a preocupação de afirmar e explicar que é pela fé que re¬cebemos perdão e nos tornamos justos. Esclarecemos que "pela fé" significa "ao crermos que... ," para ficar bem claro que fé consegue o perdão e justifica. Não é qualquer fé! É a fé que aceita e possui a promessa e oferta que Deus está fazendo aos homens à base do trabalho de Cristo, explanado no artigo terceiro. Em outras palavras, a fé que recebe e tem o perdão, a justiça e a vida, é a fé que crê no evangelho, na boa notícia do Senhor Jesus. É a fé que, devido à boa notícia, reconhece e invoca a Jesus como Senhor e Reden¬tor.
Restava dizer por que é pela fé que recebemos perdão e nos tornamos justos. É o que os confessores fazem no último período deste artigo. Aí testificam, à base dos capítu¬los terceiro e quarto da Carta aos Romanos: "Porque é esta fé que Deus resolveu tratar e contar como justiça diante de si mesmo."
Estas palavras ecoam o testemunho do apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: "Que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça... Ao que... crê naquele que justifica ao ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça ... Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segun¬do lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé ... não duvidou da promessa de Deus, por incredulidade; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera. Pelo ¬que isso lhe foi também imputado para justiça. E não somente por causa dele está isso escrito que lhe foi levado em conta, mas também por nossa causa, posto que a nós igualmente nos será imputado, a saber, a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus nosso Senhor, o qual foi entregue por causa de nossas transgressões, e ressuscitou por causa da nossa justificação". (Romanos 4.3; 5.18-25).
Isto pode parecer complicado, mas não é. Ocorre que Deus decidiu reconhecer e considerar como justiça unicamente a (de) Cristo (Jeremias 23.5-6 e 33.14-16; Romanos 10. 4; 1 Coríntios 1.30; 2 Coríntios 5.21 e João 17.19). Ora, é a fé que recebe, abraça e segura a Cristo com sua justiça. É por isso que Deus valoriza a fé como justiça - não por ato meritório, mas exatamente por receber, abraçar e reter a Cristo.
É, como confessa Lutero na "confissão" de 1528: Não há salvação senão "a única justiça que o nosso Salvador Jesus Cristo é e tem e nos presenteou e colocou diante de Deus como nosso propiciatório, Romanos 3.25."
Para avaliar bem a importância e clareza deste artigo quarto, é preciso ter em mente a teoria dos dois tipos de mérito e da graça que torna o homem agradável a Deus. Esta teoria dominava nas igrejas, escolas e lares da época, impedia pessoas como Matinho Lutero de entender a boa notícia de Cristo. Discutiremos a teoria na explicação do artigo quinto, para evitar repetições.
NÃO CEDER
Todas as religiões, exceção feita da fé cristã, repousam na atividade do homem e ensinam, em maior ou menor escala, que se torna agradável a Deus pelo bem que faz. O próprio humanismo vê a salvação da humanidade nos esforços e progressos do homem. Em vista disso, façamos todo empenho para entender bem este artigo, lembrados deste depoimento de Lutero nos "Artigos de Esmalcalde" (1537): "Deste artigo não se pode arredar ou ceder, mesmo que caia abaixo o céu e a terra e o que não quer ficar; pois não há outro nome, pelo qual possamos ser salvos, diz São Pedro em Atos 4.12 e por suas pisaduras fomos sarados (Isaías 53.5). Neste artigo repousa tudo o que estamos ensinan¬do e vivendo contra o papa, o diabo e o mundo. Precisamos, por isso, estar bem firmados e não duvidar. Caso contrário está tudo perdido, e o papa e o diabo e tudo ficam com a vitória e o direito contra nós".
REFLEXÕES
1. Leia atentamente os capítulos terceiro e quarto da Carta aos Romanos e ve¬rifique se confere com a mensagem de Paulo o que dissemos nesta explicação.
2. Leia os capítulos terceiro e quarto da Carta aos Gálatas e responda: De que maneira a bênção prometida a Abraão atingiu os gentios?
3. Leia a Confissão a Absolvição na Ordem do Culto Principal no Hinário Lute¬rano e responda: Quando e como o crente se acha diante do trono de Deus?
4. Leia com atenção o terceiro artigo da Fórmula da Concórdia e descubra se de fato está reafirmando o quarto artigo da Confissão de Augsburgo.
5. Aprende de cor estas passagens: Romanos 3.28 e Efésios 2.8-10.
Nestor Beck
5º Artigo - DO OFÍCIO DA PREGAÇÃO
Para conseguirmos essa fé, instituiu Deus o oficio da pregação, dando-nos o evangelho e os sacramentos, pelos quais, como por meios, dá o Espírito Santo, que ope¬ra a fé, onde e quando lhe apraz, naqueles que ouvem o evangelho, o qual ensina que temos pelos méritos de Cristo, não pelos nossos, um Deus gracioso, se o cremos.
Condenam-se os anabatistas e outros que ensinam alcançarmos o Espírito Santo mediante preparação, pensamentos e obras próprias, sem a palavra física do evangelho.
ESTUDO
Se não é qualquer (tipo de) fé que nos torna justos diante de Deus, pergunta-se: Como vão os homens conseguir esta fé que os torna justos? Esta é a pergunta que o quin¬to artigo visa responder.
Este artigo, portanto, não trata do ministério da proclamação propriamente dito. Trata dele apenas como um dos recursos que Deus criou e utiliza para produzir nos ho¬mens a fé que os justifica diante dele.
Não esqueçamos. Também este artigo repousa sobre o terceiro. Jesus, como Senhor, concedeu o Espírito Santo aos apóstolos. Estes que espalharam a boa notícia a todo o mundo. Através dela o Espírito Santo age poderosamente, conforme veremos a seguir.
A BOA NOTÍCIA
Esclarecem os confessores que, para conseguirmos a fé de que trata o artigo quarto, ¬Deus instituiu o ministério, ofício ou simplesmente serviço da proclamação, ou seja, deu (à igreja) a boa notícia do evangelho e os sacramentos. Fica entendido, pois, a função deste ministério ou serviço é anunciar a boa notícia e repartir os sacramentos.
Para que Deus instituiu o ofício da proclamação e concedeu a boa notícia e os sacramentos? Respondem os confessores: Deus faz uso deles como meios ou instrumentos para conceder o seu Espírito Santo.
Mas por que ou para que pretende dar o Espírito Santo? Respondem os confessores¬: O Espírito Santo acende a fé, onde e quando quiser, nas pessoas que ouvem a boa notícia a saber, que temos um Deus favorável por mérito de Cristo, não por mérito próprio, ao crermos exatamente isto - o que a boa notícia nos anuncia.
Em suma, conseguimos a fé de que trata o artigo quarto, não por iniciativa ou esforço próprios, mas por obra de Deus Espírito Santo, quando ouvimos a boa notícia e, pelo poder inerente à própria notícia, somos levados a aceitar o que a notícia está anun¬ciando, e, portanto, a ter certeza de que Deus nos é favorável e nos aceita como filhos por causa do trabalho de Cristo.
Notemos bem. Muito antes de sequer pensarmos em nos aproximar de Deus, já o Senhor tomou todas as providências para acender em nós aquela fé que obtém o perdão, nos torna justos e é valorizada como justiça por agarrar e prender a Cristo com seus dons.
Esta confissão se fundamenta em testemunhos claros dos apóstolos: "E se o mi¬nistério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de glória, a ponto de os filhos de Israel não poderem fitar a face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, ainda que desvaneceste, como não será de maior glória o ministério do Espírito?" (2 Coríntios 3.7-8). "Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei, ou pela pregação da fé? (Carta aos Gálatas 3.2).
"Como, porém, invocarão aquele em que não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo" (Carta aos Ro¬manos 10.14,15,17).
ENSINO CONTRÁRIO
Por isso mesmo os confessores não se constrangem em denunciar e rejeitar os anabatistas e outros, por ensinarem que se recebe o Espírito Santo sem a palavra sonora da boa notícia, por nossos próprios preparativos, reflexões e iniciativas.
Os anabatistas eram grupos pequenos e esparsos que tinham abandonado arti¬gos da fé confessada nos credos para adotarem posições extremas. Uns não davam valor aos sacramentos. Outros desprezavam a palavra do evangelho em troca de inspiração e re¬velações diretas do Espírito Santo.
Quem serão os outros? Podemos responder com segurança que eram os defen¬sores da doutrina "católica" corrente.
Segundo os mesmos, o homem podia, por própria iniciativa e força, fazer o bem, e Deus não poderia ficar indiferente. Por uma questão de coerência, acabaria recompen¬sando a bondade do homem (Chamavam a isso meritum de congruo). Citavam como exemplo o caso de Cornélio que, por suas orações e esmolas, teria merecido a visita de Pedro (Atos 10.1-5).
À base desse mérito inicial, mas movido principalmente pelos méritos de Cristo, diziam, Deus concederia ao homem a graça que o tornaria agradável (gratia gratum fa¬ciens) que muitos identificaram com o amor. À base deste novo poder, o homem passa¬ria a amar a Deus e ao próximo e assim cumprir a lei. Ora, quem cumpre a lei, merece a vida eterna. Deus, portanto, acabaria concedendo a recompensa da vida eterna ao homem, que, por ter cumprido a lei, seria digno dela (A isso chamavam de meritum de condigno).
Nesta teoria a fé tem valor para a justificação somente quando "formada", isto é, tornada ativa e cumpridora da lei pelo amor (fides charitate formata}. A fé, portanto, é entendida não como meio de apreender o perdão e justiça de Cristo, mas como virtude ou qualidade que satisfaz às exigências da lei de Deus.
Esta teoria predominava em amplos setores da igreja "católica" romana da épo¬ca. E esta teoria que os confessores de Augsburgo estão rejeitando, ao condenarem "os outros” por ensinarem que o Espírito Santo é conseguido por meios outros sem ser a boa notícia de Cristo e os sacramentos.
Na sociedade atual, muito se fala em fé e esperança. Saibamos distinguir entre a fé ou crença que as pessoas podem ter por própria iniciativa e esforço, e a fé que é produzida só pelo Espírito Santo, através da boa notícia de Cristo. Somente esta habilita ao perdão dos pecados e à comunhão com Deus. Saibamos também valorizar o ministério ou serviço da proclamação como instrumento que o próprio Senhor criou para anunciar e conferir aos homens a fé salvadora.
REFLEXÕES
1. Confira nas Escrituras as passagens citadas nesta explicação e memorize Ro¬manos 10.17.
2. Faça uma descrição do ministério do Novo Testamento à base de 2 Coríntios 2.14 - 3.11 e 5.11 - 6.3.
3. Leia o décimo capítulo da Carta aos Romanos e liste as providências que Deus tomou para levar a salvação aos homens.
4. Descreva o poder da palavra de Deus à base de Mateus 13.31-33 e Marcos 4.26-29. Confira também Isaías 55.6-13.
5. Leia o segundo capítulo dos Atos dos Apóstolos e descreva os resultados da ação do Espírito Santo enviado pelo Senhor Jesus Cristo.
6. Se não souber de cor, memorize a explicação do terceiro artigo do Credo Apostólico no Catecismo Menor.
Nestor Beck
6º Artigo - DA NOVA OBEDIÊNCIA
Ensina-se ainda que essa fé deve produzir bons frutos e boas obras, e que, por amor de Deus, se deve praticar toda sorte de boas obras por ele ordenadas, não se devendo ¬porém, confiar nessas obras, como se por elas se merecesse graça diante de Deus. Pois é fé em Cristo que recebemos perdão dos pecados e justiça, como diz o próprio Cristo: "Depois de haverdes feito tudo isso, deveis dizer: Somos servos inúteis”: Assim ensinam os Pais. Pois Ambrosio diz: ''Assim está estabelecido por Deus que aquele que crê em Cristo é salvo, e tem a remissão dos pecados não por obras, mas pela fé somente, sem mérito”.
ESTUDO
Conforme veremos no vigésimo artigo e na segunda parte da Confissão de Augs¬burgo os adversários acusavam os "luteranos" de estarem desencorajando e proibindo as boas obras. De fato, Martinho Lutero e seus colegas estavam escrevendo e ensinando que o homem se torna justo diante de Deus pela fé somente, sem as obras. Estavam dizendo, com isso, que a fé não fazia ou não precisava fazer boas obras e cumprir os mandamentos de Deus? Estavam fomentando uma vida desregrada, como alegavam os adversários?
São estas as perguntas que responde o artigo sexto.
FÉ PRODUZ BOAS OBRAS
Os confessores afirmam, em primeiro lugar, que a fé descrita nos artigos anterio¬res necessariamente (faz e) precisa fazer boas ações. Ressaltam, porém, que precisa fazer não quaisquer ações de sua própria escolha ou impostas pelos homens, e, sim aquelas ações que Deus mandou fazer.
Ao fazerem esta ressalva, os confessores estão deixando claro que não consideram necessárias e obrigatórias as ações supostamente boas que a piedade tradicional tinha inventado, como peregrinações, rosários, jejuns e coisas semelhantes, conforme esclarecem períodos do artigo vigésimo.
Os confessores não dizem expressamente quais são as ações que Deus ordenou. Entende-se, porém, que são as obras ordenadas nos dez mandamentos e exigidas pelo oficio que cada qual desempenha na sociedade. De fato, nos "Artigos de Schwabach ¬os reformadores afirmam que a fé pratica o bem em relação a Deus, louvando, agradecen¬do, orando, pregando e ensinando, em relação ao próximo com amor, pelo servir, ajudar, orientar, doar e sofrer todo mal até à morte. Na "confissão" de 1528, Martinho Lutero destaca três grandes ordens instituídas por Deus: o sacerdócio, a família e a autoridade civil (e econômica). Cada qual servirá ao Senhor segundo a ordem ou posição em que estiver colocado. Acima destas, coloca a ordem comum do amor cristão. Nesta faz o bem a todos, de acordo com a necessidade de cada um, e se sofre todo mal.
DEUS QUER BOAS OBRAS
Em segundo lugar, os confessores afirmam que a fé produz boas ações exclusivamente "por causa de Deus", ou seja, porque Deus as quer e aprova. Acrescentam, porém, que as boas ações não devem ser feitas com a intenção de se basear nelas a esperança de merecer o favor de Deus. Excluem, assim, a teoria dos méritos, segundo a qual se fazem boas obras para exatamente merecer mais e mais graça e, por fim, a vida eterna. Excluem esta teoria à base da verdade exposta nos artigos anteriores: Recebemos o perdão dos pecados e a justiça pela fé em Cristo.
Cristo, na verdade, continua sendo a nossa justiça, e a fé continua sendo o único meio de agarrar e receber os benefícios de Cristo, mesmo quando já somos filhos Deus e temos um saldo favorável de boas obras. Como Melanchthon explica noutro lugar, estas boas obras, na medida em que cumprem a lei, são justiça, mas em sentido derivado. Deus as aceita apenas porque estamos, pela fé, unidos com Cristo e recobertos por sua justiça irrepreensível.
SERVOS INÚTEIS
A fim de justificar a exclusão da confiança nas boas obras, os confessores citam Lucas 17.10. Aí Jesus nos diz que, mesmo que tenhamos feito tudo o que o Senhor nos mandou, precisamos confessar que somos servos inúteis, pois só fizemos o que nos foi ordenado. Poderíamos confiar nas boas obras para merecer o favor de Deus apenas se pudéssemos cumprir a lei com perfeição, isto é, não apenas fazer tudo o que Deus exige, mas fazer tudo com o amor e prontidão que Deus requer. Como, porém, apenas Cristo cumpriu dessa maneira a vontade do Pai, convém antes nos abrigarmos sob suas asas, para podermos enfrentar o juízo.
Os confessores citam ainda uma passagem dum comentário sobre a Primeira Carta aos Coríntios, que era atribuído, mas não foi escrito por Ambrósio, bispo de Milão, que viveu de 340 a 397. Nesta passagem o autor desconhecido afirma, com toda clareza, que salvação é apropriada pela fé em Cristo e, portanto, não depende dos méritos da pessoa.
Neste artigo sexto os confessores de Augsburgo nos mostram, com toda clareza, em que sentido podemos e precisamos fazer o bem. Não se pode alegar, portanto, que "luteranos não queiram e não saibam ensinar boas obras." Apontam também o perigo de olharmos para o bem que fazemos, em vez de concentrar somente em Cristo a esperança da vida eterna.
Portanto, façamos todo empenho para manter esta dupla verdade: Deus quer que façamos o bem, mas não quer que deixemos de recorrer a Cristo, pela fé, como nossa única justiça que reconhece e aceita. Neste sentido, é oportuno ler e meditar o que diz Paulo em Efésios 2.4-10: "Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos, e juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus: Para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus: Não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas".
REFLEXÕES
1 - Leia os capítulos cinco, seis e oito da Carta aos Romanos e procure descrever a ação de Cristo e a ação do Espírito Santo.
2 - Leia os primeiros cinco versículos do capítulo doze da Carta aos Romanos e procure caracterizar a fonte donde brota a vida cristã.
3 - Leia os primeiros três capítulos da Carta aos Efésios e caracterize a relação que existe entre a ressurreição de Cristo, a criação da fé e a nova vida em Cristo.
4 - Compare o sexto Artigo da Confissão de Augsburgo com o quarto da Fórmula da Concórdia.
5 - Procurem no Catecismo Menor a resposta à pergunta "Quais são estes" (pecados que devemos confessar)? Compare a resposta com esta explicação do sexto ar¬tigo da Confissão de Augsburgo.
6 - Responda: Por que, no Catecismo Menor, Martinho Lutero inicia a explicação de todos os conhecimentos com a frase: "Devemos temer e amar a Deus e, portanto...?
Nestor Beck
7º Artigo - DA IGREJA
Ensina-se também que sempre haverá e permanecerá uma única santa igreja cristã que é a congregação de todos os crentes entre os quais o evangelho é pregado pu¬ramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho.
Porque para a verdadeira unidade da igreja cristã é suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos administrados em conformidade com a palavra de Deus. E para a verdadeira unidade da ¬igreja cristã não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes instituída pelos homens. É como diz Paulo em Efésios 4: "Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo”.
ESTUDO
Os artigos quatro e seis da Confissão de Augsburgo formam um conjunto. Melanchthon julgou necessário explicar mais detalhadamente a questão da fé e das obras. Não quis, porém, quebrar a seqüência de artigos curtos com explicações mais longas. Preferiu acresce¬ntar, mais adiante, o artigo número vinte, para explicar melhor a questão.
Com os artigos sete e oito entramos em novo conjunto, que trata da igreja. No sétimo os confessores de Augsburgo dizem o que consideram necessário e suficiente pa¬ra a unidade da igreja. O título do artigo, portanto, deveria ser: A unidade da igreja.
A IGREJA CRISTÃ EXISTE
Podemos distinguir duas partes neste artigo.
Na primeira, se afirma que sempre haverá sobre a terra uma santa igreja cristã, evidentemente à base das promessas de Jesus no Evangelho de Mateus 16.18: ''Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão con¬tra ela" e 28.20: " ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado e eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século." Sobre isto – não haveria discussão entre ''luteranos'' e "católicos".
Havia discussão, isto sim, sobre o que seria a igreja como "a reunião de todos os crentes, entre os quais o evangelho é anunciado puramente e os santos sacramentos distribuídos de acordo com o evangelho." De propósito não incluem na definição outros elementos, além da proclamação do evangelho e da distribuição dos santos sacramentos. A razão disto aparece na segunda parte do artigo.
A UNIDADE DA IGREJA
Na segunda parte, os confessores afirmam que esclarecem o que é e o que não é necessário â unidade legítima da igreja cristã.
Para manter a unidade legítima da igreja é suficiente que nela o evangelho seja anunciado a uma voz de acordo com uma compreensão pura (do mesmo) e os sacramentos sejam distribuídos de acordo com a palavra divina.
Portanto, acrescentam os confessores, não é necessário à unidade legítima em toda parte se pratiquem cerimônias idênticas instituídas pelos homens.
Fundamentam esta tese no que Paulo escreve aos Efésios no capítulo quarto:
"Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, una só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos".
Os confessores, portanto, estão combatendo una pseudo-unidade, ou seja, visão ilegítima da unidade da igreja, aquela visão que exige que em todas as partes se acatem e pratiquem as mesmas cerimônias instituídas pelos homens, aquela visão que exclui da unidade da igreja a quantos não aceitam ou não praticam tais cerimônias.
Já estamos percebendo a onde os confessores estão querendo chegar. Estão querendo dizer, como de fato dizem na conclusão dos vinte e um "artigos da fé e do ensino”. Nós, igrejas e escolas luteranas, apesar de não aceitarmos e praticarmos todas as cerimônias humanas da igreja "católica" romana estamos e permanecemos na unidade legitima da igreja cristã". A razão é esta: Anunciamos e ensinamos a boa notícia de Cristo puramente, sem adulteração, e distribuímos os santos sacramentos de acordo com a palavra divina. Portanto, somos e queremos ser tratados como membros e integrantes da única igreja de Jesus Cristo. Ninguém tem o direito de nos excluir e tratar como hereges por não guardarmos as cerimônias humanas da igreja católica apostólica romana.
Este artigo sétimo, portanto, reproduz a plataforma dos confessores para as negociações que o imperador tinha prometido para a dieta de Augsburgo.
Que seja este o sentido deste artigo sétimo. Fica bem claro face à redação do décimo segundo artigo de Schwabach. Depois de afirmarem que existe e haverá até ao fim do mundo uma santa igreja crista, de acordo com a promessa de Jesus em Mateus, 28.19,20 - "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século" - os reformadores afirmam: "Esta igreja não é senão os crentes em Cristo, que sustentam, crêem e ensinam os artigos e partes citadas acima (a saber, os artigos precedentes da confissão de Schwabach) e por causa deles são perseguidos e martirizados no mundo. Pois onde quer que o evangelho esteja sendo pregado e os sacramentos sendo usados adequadamente, aí está a santa igreja cristã, e não está amarrada a lugares e épocas, a pessoas e gestos, através de leis e pompas exteriores".
O endereço não poderia estar mais claro. Os ''luteranos'' negam que a estrutura visível da igreja católica apostólica romana seja idêntica à única igreja de Cristo, de modo a ficarem excluídos dela todas as igrejas e crentes que não se submetem às leis e ao cerimonial do papa romano.
Como diz também Lutero na "Confissão de 1528:” "A cristandade está não apenas debaixo da igreja romana e do papa, mas em todo o mundo, conforme anunciaram os profetas que o evangelho de Cristo se espelharia no mundo inteiro (Salmo 2.7-9 e 19.5), de modo que sob o papa ... e em toda a parte está a cristandade espalhada fisicamente, mas reunida espiritualmente num só evangelho e fé sob uma única cabeça, que é Jesus Cristo".
Basta isto para esclarecer que a unidade da igreja é espiritual e invisível, e não coincide com a organização externa da igreja presidida pelo papa. O Senhor e somente ele conhece os seus, estejam onde estiverem. É ele que os reúne e mantêm unidos pela voz do evangelho e pelos sacramentos, os meios pelos quais ele chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra.
REFLEXÕES
1. Releia a explicação do terceiro artigo do Credo Apostólico no Catecismo Menor e verifique qual é a ação do Espírito Santo na igreja de Cristo.
2. Veja o que o apóstolo Paulo escreve sobre a unidade da igreja no quarto e quinto capítulos da Carta aos Efésios.
3. Para que fim o Senhor constituiu a igreja? Responda à base de Efésios 3.10 e 1 Pedro 2.9-10.
4. Quais serão as finalidades da congregação cristã? Serão as mesmas da igreja?
5. Reflita sobre isto: Estará a sua congregação cumprindo com suas finalidades?
Nestor Beck
8º Artigo - O QUE É A IGREJA?
Além disso, ainda que a igreja cristã, propriamente falando, outra coisa não é senão a congregação de todos os crentes e santos, todavia, já que nesta vida continuam entre os piedosos muitos falsos cristãos e hipócritas, também pecadores manifestos, os sacramentos nada obstante são eficazes, embora os sacerdotes que os administram não sejam piedosos. Conforme o próprio Cristo indica: "Na cadeira de Moisés estão sentados os fari¬seus, etc."
São condenados, por isso, os donatistas e todos os outros que pensam de maneira diversa.
ESTUDO
A reforma religiosa do século XVI provocou muitas situações angustiantes.
Acontecia que muitas pessoas reconheciam a verdade conforme ensinada pelos reformadores. Não tinham condições, porém, de "sair" da igreja controlada pelos bispos. Deveriam continuar recebendo os sacramentos de pastores descrentes ou de má fama?
Outras pessoas ficavam atribuladas com a pregação dos anabatistas. Perguntavam sido batizados por pastores descrentes e precisavam batizar-se de novo.
O artigo oitavo da Confissão de Augsburgo foi escrito para responder a tais perguntas
OS CRENTES
São três as declarações dos confessores.
Em primeiro lugar, reafirmam a tese do artigo sétimo: A igreja propriamente dita não é outra coisa que não seja a reunião ou congregação de todos os crentes e santos (Os crentes e santos são as pessoas que crêem no Senhor Jesus e fazem o bem conforme se disse nos artigos quatro e seis. São as mesmas que adiante são chamadas de justos).
OS HIPÓCRITAS
Em segundo lugar, esclarecem os confessores que, neste mundo, há entre os justo¬s muitos cristãos falsos, hipócritas e pecadores reconhecidos por todos.
Os confessores, portanto, distinguem entre reunião ou congregação dos crentes verdadeiros, o que é espiritual, e a reunião observável dos crentes para anunciar e ouvir a boa notícia de Cristo e distribuir os santos sacramentos. Daquela fazem parte só os crentes verdad¬eiros. Nesta se infiltram pessoas que podem parecer, mas não são crentes ou justos ou sant¬os. O próprio Jesus explicou isso na parábola do joio (Mateus 13.24-31; 36-43). O Filho do homem semeia semente boa, mas vem o diabo e semeia semente má, e aparecem filhos do diabo em meio aos filhos do Pai.
OS SACRAMENTOS
Em terceiro lugar, os confessores afirmam que os sacramentos continuam eficazes ou poderosos, apesar de distribuídos por pastores ou sacerdotes descrentes. Sustentam isso com as palavras de Jesus: "Na cadeira de Moisés se assentaram os escribas e fariseus. Fazei, pois, e guardai tudo o que vos disserem. Em suas obras, porém, não os imiteis, dizem, e não fazem."
Os sacramentos, portanto, produzem o efeito desejado não porque é justo e digno o pastor que os distribui, mas porque o próprio Senhor, que os instituiu, prometeu agir e neles atua de fato, conforme prometeu. Ou seja, o pastor distribui os sacramentos anuncia a boa notícia não em seu nome próprio, mas em nome de Cristo.
Por esta razão os sacramentos são e continuam válidos, mesmo quando administrados por pessoas descrentes. Conforme explica Martinho Lutero na "Confissão" 1528, pode ocorrer que pastores ofereçam os sacramentos não como Cristo os instituiu, mas de outra forma. Então, de fato, não estão batizando nem distribuindo a santa ceia. estão, isto sim, abusando de Cristo e o crente fugirá deles.
Ao fazerem esta confissão, os confessores de Augsburgo se associaram, mais vez, à proclamação e ensino da igreja apostólica. Por conseguinte rejeitaram e condenaram a doutrina dos donatistas e "todos os outros".
ENSINOS CONTRÁRIOS
Na igreja antiga ocorreu que bispos e pastores também fraquejaram nas perseguições e entregaram às autoridades os livros sagrados. Eram chamados, por isso, de traditori. "Traidores". Os novacianos, seguidores de Novácio, bispo de Roma no século 11, também chamados de Katharoi ou puritanos, e os donatistas, seguidores de Donato, bispo de Cartago, na África, que viveu no século IV, sustentavam que os crentes deviam recusar-se a receber os sacramentos das mãos de "traidores". Com o passar do tempo formavam congregações só de gente "santa". Os anabatistas, no século XVI, passaram a denunciar os padres como descrentes e a sustentar que os sacramentos quando oficiados por eles não eram válidos. Os confessores aqui se dissociam deles, reafirmando a posição da igreja antiga.
EFICÁCIA DOS SACRAMENTOS
A verdade confessada neste artigo nos consola. Se dependesse da dignidade de pastores a eficácia dos sacramentos, teríamos de sair à procura do pastor que nos batizou para descobrirmos se era crente e vivia como filho de Deus. Sempre estaríamos em dúvida ao recebermos a ceia do Senhor. Teria o pastor distribuído o sacramento com fé verdadeira e amor cristão?
Portanto, estejamos de sobreaviso quando alguém começa a insinuar que a igreja está cheia de pecadores e os ministros são indignos. Mais um passo e nos convidará a entrar na igreja dele, uma igreja só de "santos". “Os herdeiros dos novacianos e donatistas” andam por aí, neste Brasil, causando confusão e ferindo as consciências. Saibamos usar este artigo para lhes resistir. Ao mesmo tempo, façamos tudo para evitar que pecadores descarados se tomem pastores ou permaneçam no ministério. Quando guias espirituais não têm condições de ser modelos, isso não recomenda a igreja.
REFLEXÕES
1. Leia o capítulo vinte e três do Evangelho de Mateus e veja por que Jesus denunciou os mestres da lei e os fariseus.
2. Leia a parábola do joio com a explicação no Evangelho de Mateus 13.24-31 e 36-43.
3. Leia no Evangelho de Mateus 13.47-50 a parábola da rede e a compare com a do joio,
4. Leia a advertência de Jesus contra os falsos profetas (Mateus 7.15-23) e res¬ponde: O que significa que se apresentam "vestidos como ovelhas"?
5. Leia 1 Coríntios 11.17-34 e responda: Por que, quando se reuniam, a rigor não era a ceia do Senhor que estavam celebrando?
Nestor Beck
9º Artigo - DO BATISMO
Do batismo se ensina que é necessário e que por ele se oferece graça; que também se devem batizar as crianças, as quais, pelo batismo, são entregues à Deus e a ele se tornam agradáveis.
Por essa razão se rejeitam os anabatistas, os quais ensinam que o batismo infantil não é correto.
ESTUDO
Os pais eram luteranos. Da classe média. Seu terceiro filho tinha seis meses. Quando o pastor falou sobre a necessidade de batizar a criança, o pai respondeu: "Sim, vamos balizá-lo daqui a dois meses". Vendo a surpresa do pastor, a mãe explicou: "O senhor não acha que a festa de batismo deve ser bonita e alegre? Agora Laerte ainda é tão pequeno, mas com oito meses ele já pode sorrir para o fotógrafo e para os padrinhos. As fotos de seu álbum ficarão muito bonitas".
O BATISMO NÃO É FESTA
Os anabatistas, os batistas, os menonitas e outras tantas seitas religiosas que ainda hoje atuam no Brasil, negam a necessidade de batizar crianças. Uns afirmam que a Escritura nada ensina sobre o batismo infantil, outros dizem que as crianças não podem crer e outros ainda acreditam que as crianças não têm pecado. Rejeitando o batismo, estas seitas religiosas ainda não entenderam o que a Sagrada Escritura ensina sobre a necessidade e importância deste sacramento. Por esta razão a Confissão de Augsburgo condena ¬estes falsos ensinos e mostra o que Deus diz sobre o batismo. Pais cristãos precisam reexaminar a doutrina deste meio da graça.
O BATISMO É NECESSÁRIO
"Do batismo se ensina que é necessário". Não, o batismo não pode ser transfor¬mado em mera festa social para os pais, padrinhos, parentes e amigos. Não, o batismo não é nenhuma sábia invenção humana. Não, o batismo também não é um simples rito religioso ou uma vazia cerimônia da igreja. Mas o batismo é um santo sacramento, instituído pelo próprio Cristo.
Embora um ofício religioso tão simples, o batismo traz bênçãos muito grandes: perdão dos pecados, vida e salvação. É que a "palavra de Deus que está unida com a água e a fé que confia nesta palavra de Deus unida com a água fazem com que o batismo seja água de vida e cheia de graça, lavagem de renascimento no Espírito Santo".
E o Salvador ordenou que a sua igreja o administrasse em todos os lugares e em todos os tempos. Esta verdade está expressa nas palavras da instituição, em Mateus 28.19 e 20: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado", Logo, é necessário que a igreja cristã administre o batismo porque ele é uma graciosa ordenação do próprio Deus.
O BATISMO É MEIO DA GRAÇA
"E que por ele se oferece graça". O batismo não é um simples ato simbólico. O batismo é um meio da graça, através do qual o Espírito Santo age, transforma e regenera o pecador. O batismo é o dia do aniversário cristão, pois com este lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, o pecador recebe a fé em Cristo, libertação da morte e do diabo, nova vida espiritual e passa ser filho de Deus e herdeiro da vida eterna. O que Deus opera pelo batismo é um milagre. Muito oportuno é reconhecer, aqui, estas palavras de Lutero: "E, Deus ordenou, com seriedade, que valorizemos o batismo, sob pena de perdermos a nossa salvação. Batizar-se não é algo tão simples como vestir uma roupa nova. É preciso dedicar toda atenção ao batismo e considerá-lo de maneira reta, honrosa digna. Deveríamos apreciar sempre o santo batismo e fazer correto uso para nos fortalecer e consolar quando o nosso pecado e a nossa consciência nos acusam. Em tais momentos devemos dizer: Estou batizado, e por isso tenho a promessa de ser salvo e que meu corpo e minha alma têm a vida eterna".
Sobre esta verdade Cristo afirma em Marcos 16.61: "Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado". E Paulo diz em Tito 3.5: "Mas segundo a sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo". Em Gálatas 3.26 e 27 lemos: "Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes". Portanto, sendo um meio da graça, o batismo opera um renascimento espiritual no pecador, o qual recebe fé no Salvador, e, revestido de Cristo, como filho de Deus e herdeiro da vida eterna, o cristão batizado procura viver em novidade de vida.
AS CRIANÇAS DEVEM SER BATIZADAS
"Também se devem batizar crianças, as quais, pelo batismo, são entregues a Deus e a ele se tornam agradáveis" . A Escritura não específica a idade com que um pecador, deve ser batizado. Não faz diferença entre crianças e adultos. A afirmação "também devem ser batizadas crianças" foi incluída neste artigo da Confissão de Augsburgo porque existem religiões que negam o batismo às crianças. Por isso também diz a Apologia da Confissão de Augsburgo: "É manifesto que Deus aprova o batismo dos pequeninos. Logo julgam impiamente os anabatistas, que condenam o batismo dos pequeninos. Que Deus, entretanto, aprova o batismo dos pequeninos, demonstra-se com o fato de ele dar o Espírito Santo aos assim batizados. Fosse nulo esse batismo, e a nenhum seria dado o Espírito Santo, nenhum se salvaria, não haveria, enfim, igreja. Esta só razão já pode confirmar suficientemente corações bons e piedosos contra opiniões ímpias e fanáticas dos anabatistas".
Cristo ordenou que todas as nações fossem batizadas. As crianças não foram excluídas. Tanto adultos como crianças são pecadores, "carne nascido de carne" (João 3.5-7), são espiritualmente cegos e mortos em "delitos e pecados" (Efésios 2.1), e necessitam passar "pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo" (Tito 3.5). Por isso a Fórmula de Concórdia condena os ensinos que afirmam que "perante Deus infantes não batizados não são pecadores, mas justos e inocentes, os quais em sua inocência.... se salvam sem batismo"; condena falsos ensinos que dizem que as "crianças só devem ser batizadas quando tiverem alcançado o uso da razão e puderem confessar pessoalmente sua fé"; condena falsos ensinos que dizem que "os filhos dos cristãos, por isso que nasceram de pais cristãos e crentes, são santos e filhos de Deus mesmo sem o batismo e antes dele". São heresias, porque são ensinos contrários à palavra de Deus.
Também é importante lembrar que o batismo é o único meio revelado por Deus pelo qual o Espírito Santo pode operar a fé salvadora na criança. Além disso, é necessário não esquecer que Cristo sempre dedicou uma atenção muito especial às crianças (Marcos 10.14), e que o Novo Testamento registra casos em que famílias inteiras foram batizadas Atos 16.15; 16.33), o que certamente também incluía as crianças, das quais Cristo diz: “Qualquer, porém, que servir de tropeço a um destes pequeninos que crêem em mim ... " Mateus 18.6). Logo, pais cristãos que conhecem a necessidade e a importância do batismo tudo ¬farão para que, muito cedo, seus filhos sejam "entregues a Deus" no batismo, para que "se tornem agradáveis a Deus" pela fé em Cristo Jesus.
Sendo batizado, valorize e busque consolo em seu batismo. Sendo agraciado com nascimento de um filho, devolva-o ao Senhor através do lavar regenerador e renovador do santo batismo. Esta é a santa vontade de seu Deus e Salvador. Amém.
REFLEXÕES
1. Quais são os dois sacramentos?
2. Que seitas você conhece que não batizam crianças?
3. Quem pode oficiar o batismo?
4. Qual a finalidade dos padrinhos?
5. Qual o aniversário mais importante: o dia do nascimento natural (pagão) ou espiritual (cristão)?
Leopoldo Heimann
10º Artigo - DA SANTA CEIA
Da ceia do Senhor se ensina que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes na ceia sob a espécie do pão e do vinho e são nela distribuídos e recebidos. Por isso também se rejeita a doutrina contrária.
ESTUDO
Há um dado estatístico de nossa igreja sobre a participação da santa ceia que merece pro¬funda reflexão: em média, o comungante luterano está participando apenas de três celebrações por ano. Por que esta baixa participação? Lutero chegou a dizer que quem não participasse, ao menos, quatro vezes da santa ceia por ano, já nem poderia mais ser considerado cristão.
Um outro problema: há congregações que somente celebram a santa ceia de dois em dois meses. Por que o comungante recebe apenas seis oportunidades nos 52 domingos do ano? Mais uma observação que preocupa: quando inicia a liturgia da santa ceia, mui¬tos ouvintes se levantam e deixam o culto. Por que não participam do sacramento do altar ou por que não esperam receber a bênção no final do culto?
MERECE IMITAÇÃO
Um exemplo que merece imitação: certa congregação de nossa igreja, que celebrava a santa ceia uma vez por mês, resolveu administrar, durante o período da quaresma, este meio ¬da graça em todos os domingos, e durante a semana santa, todas as noites. E o pastor comenta: "No início, todos estranharam e perguntavam: por que tanta santa ceia? Mas esta experiência acabou se transformando numa das grandes bênçãos e alegrias do meu ministério. A participação da santa ceia aumentava em cada culto. Em cada culto havia mais ouvintes. Quando terminou a semana santa, todos perguntavam: e agora teremos santa ceia só uma vez por mês? Por que não, ao menos, todos os domingos? Diante desta abençoada experiência e sabendo que a nossa igreja ensina a sã doutrina da santa ceia, estamos reestudando toda a programação de nossa paróquia".
SANTA CEIA É ENSINO BÍBLICO
"Da ceia do Senhor se ensina”: Embora ser uma das doutrinas mais discutidas da igreja cristã, é preciso lembrar que a santa ceia não é um sacramento criado por homens. Diante de sua profundidade espiritual, homens procuram rejeitar ou oferecer interpretações ¬racionais sobre a ceia do Senhor. Mas o ensino da Sagrada Escritura é muito claro, e mostra que o sacramento do altar foi instituído pelo próprio Cristo. A igreja cristã, que sabe ser necessário transmitir a sã doutrina conforme revelada por Deus ( 2 Timóteo 4.1-5), guardar firme a confissão da esperança (Hebreus 10.23) e levar cativo todo o pensamento à obediência de Cristo (2 Coríntios 10.5), pois as coisas do Espírito de Deus se distinguem espiritualmente (1 Coríntios 2.14), sempre ensinou e confessou a verdade que a palavra de Deus afirma sobre a santa ceia.
CRISTO ESTÁ PRESENTE NA SANTA CEIA
"Da ceia do Senhor se ensina que o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes na ceia sob a espécie do pão e do vinho". Esta verdade da presença real de Cristo, encontramos expressa nas palavras da instituição conforme diz Mateus 26.26-28: "Enquanto comiam, tomou Jesus um pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para a remissão de pecados". O apóstolo Paulo repete este mesmo ensino, dizendo em 1 Coríntios 1l.23-26: "Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha." E em 1 Coríntios 10.16, o mesmo apóstolo pergunta: "Porventura o cálice da bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo"?
CRISTO DÁ SUA VIDA NA SANTA CEIA
Para dar maior clareza, certeza e importância à doutrina do sacramento do altar a Escritura a repete quatro vezes. Na santa ceia, o Senhor Jesus dá ao comungante o máximo que é possível dar: dá-se a sim mesmo! Cristo dá o seu corpo e seu sangue, enfim, a sua própria vida, como sinal, penhor e prova da obra salvadora que consumou no alto do Calvário e assegura ao pecador arrependido: perdão, vida e salvação.
Em, com e sob o pão Cristo dá ao comungante o seu verdadeiro corpo. Em, com e sob o vinho, Cristo dá ao comungante o seu verdadeiro sangue. Com as palavras "isto é o meu corpo; isto é o meu sangue", Cristo afirma que ele está realmente presente na santa ceia, que existe uma comunhão sacramental entre pão e corpo, vinho e sangue. Toda vez que a congregação cristã celebra a ceia do Senhor, o comungante - quer seja verdadeiro cristão ou hipócrita - recebe o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo.
A presença real de Cristo na mesa do Senhor não depende da fé do comungante. Cristo sempre está presente. A diferença é que o pecador arrependido e bem preparado recebe a ceia de Cristo como bênção para a remissão de seus pecados e fortalecimento de sua fé; enquanto que o pecador impenitente e não preparado recebe a santa ceia como juízo, para sua condenação. Esta é a razão porque o apóstolo lembra aos comungantes. "Examine-se, pois o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice; pois quem come e bebe, sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si" (1 Coríntios 1l.28,29).
DOUTRINA CONTRÁRIA DEVE SER REJEITADA
"Por isso também se rejeita a doutrina contrária”: A igreja cristã, além do “ensinamos, cremos e confessamos", também precisa acrescentar o "rejeitamos e condenamos¬”. Não considerando as igrejas que desprezam o sacramento do altar, existem duas doutrinas contrárias ao ensino bíblico.
A igreja romana ensina a falsa doutrina da transubstanciação. Afirma que, pela palavra do sacerdote pão e vinho são transformados no corpo e sangue de Cristo. Logo, para a igreja romana, o pão deixa de ser pão para ser apenas corpo; o vinho deixa se ser vinho para ser apenas sangue. É diante desta falsa interpretação que a igreja romana comete ¬mais duas heresias: pratica a idolatria, adorando a hóstia; mutila o santo sacramento negando o cálice ao comungante.
Outra doutrina contrária ao ensino bíblico encontramos nas igrejas reformadas, interpretações errôneas de Zwinglio e Calvino. Dando rédeas à sua razão, assumem o outro extr¬emo da igreja romana. Afirmam que a ceia do Senhor é um simples ato comemorativo e de testemunho da congregação. O pão e vinho são apenas meros símbolos do corpo e sangue de Cristo, isto é, o pão e o vinho simplesmente significam, representam ou simbolizam o corpo e o sangue do Senhor. Logo, rejeitando o "isto é o meu corpo; isto é o meu sangue", as igrejas reformadas somente ficam com o pão e vinho e negam a presença real de Cristo neste comer e beber sobrenatural, espiritual e sacramental.
Tanto a doutrina romana da transubstanciação como a doutrina reformada da simbologia são contrárias ao ensino bíblico, e devem ser rejeitadas pela igreja cristã.
SANTA CEIA É ALIMENTO CELESTIAL
A ceia do Senhor é mais um sacramento instituído pelo Senhor da igreja, no qual Cristo se dá a si mesmo para que o comungante possa receber remissão de seus pecados, fortalecimento de sua fé e progresso em sua vida espiritual. A mesa do Senhor está posta este farto alimento espiritual: perdão, vida e salvação. Você está convidado a participar desta milagrosa ceia do Senhor.
REFLEXÕES
1. Por que a média de participação da santa ceia em nossa igreja é tão baixa?
2. Você acha que seria bom se sua congregação celebrasse a santa ceia todos os domingos? Não seria aconselhável falar com a diretoria ou os membros vo¬tantes?
3. O que é a presença real de Cristo na santa ceia?
4. Qual é o erro da doutrina da transubstanciação?
5. Qual o erro que as igrejas reformadas ensinam sobre a santa ceia?
Leopoldo Heimann (L.)
11º Artigo - DA CONFISSÃO
Da Confissão se ensina que se deve conservar a privata absolutio, não a deixando cair em desuso na igreja, ainda que na confissão é desnecessário enumerar todos os maus feitos e pecados, porque tal nem é possível. Salmo 19: "Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas”.
ESTUDO
Além dos hinos, das orações, das leituras bíblicas e do sermão, a ordem de nossas Liturgia Luterana apresenta duas partes que recebem destaque muito especial em todos os cultos públicos de nossa igreja: a confissão dos pecados e a absolvição dos pecados.
DIFERENÇA ENTRE CONFISSÃO E ABSOLVIÇÃO PÚBLICAS
Na confissão pública, a comunidade apresenta ao onipotente e misericordioso Deus todos os seus pecados, transgressões e iniqüidades. Na absolvição pública, o ministro, da palavra, da parte e por ordem de Jesus Cristo, perdoa todos os pecados, transgressões e iniqüidades da comunidade. A confissão e absolvição públicas acontecem em todo os cul¬tos que a igreja luterana realiza em qualquer parte do mundo.
Na exposição das partes principais da doutrina cristã, o Catecismo Menor per¬gunta: “É necessário o cristão confessar-se ao ministro"? E a primeira parte da resposta diz: “Na verdade, não se deve obrigar ninguém à confissão particular; mas por meio dela recebe o cristão o consolo de lhe ser a absolvição anunciada de um modo especial". Todos os membros da igreja luterana sabem - como já o aprenderam na instrução de confirmandos - que eles têm plena liberdade de fazer ou não a confissão particular ao ministro, e que podem valer-se ou não do privilégio de receber a absolvição particular do ministro de Cristo.
A Confissão de Augsburgo apresenta dois artigos sobre a confissão (artigos 11 e 25) por duas razões principais: a primeira, para combater os abusos que a igreja romana praticava com a confissão; segunda, para mostrar que os reformadores não haviam abolido a confissão, como afirmava a igreja romana. Vejamos, pois, mais de perto, o que a igreja luterana ensina sobre a confissão e a absolvição.
A CONFISSÃO PARTICULAR NÃO DEVE CAIR EM DESUSO
"Da confissão se ensina que... é desnecessário enumerar todos os maus feitos e pecados”. Não há dúvidas ou divergências quanto à confissão geral e pública que a congregação ¬faz a Deus nos cultos públicos. Fica compreendido que, na casa de Deus, o povo de Deus confessa ao Senhor seu Deus todos os seus pecados, transgressões e iniqüidades.
Mas que dizer sobre a confissão individual e particular junto ao pastor? É desta confissão que trata o presente artigo. A Sagrada Escritura a ordena, recomenda ou condena? Qual a sua finalidade? Qual é seu proveito? Quem deve ou não fazer tal confissão? Que pecados devem ou não ser confessados? Ora, a igreja romana tem a confissão particular como uma lei eclesiástica, isto é, todo católico deve confessar-se ao padre como também deve enumerar todos os "seus maus feitos e pecados" para receber o perdão. Outro, porém, é o ensino da igreja luterana. Ela ensina que a confissão não deve "cair em desuso na igreja" como lembram os pais. "Não se deve obrigar ninguém à confissão particular”, afirma Schwan. "A confissão particular para o cristão não é nem mandamento divino nem imposição eclesiástica; é antes uma permissão e um bem-aventurado direito”: conclui Loehe. Logo a confissão particular não é obrigatória na igreja luterana; mas todo cristão luterano tem liberdade de fazê-la ou não.
A confissão particular é uma prática pastoral salutar. É mais uma maneira de o pastor assistir, orientar e aconselhar seus congregados. É uma entrevista entre o ministro de Cristo e o pecador arrependido que busca perdão dos pecados que "lhe pesam na consciência e lhe oprimem o coração". E o embaixador de Cristo, em nome e por ordem do Senhor da igreja, concede a absolvição dos pecados. O pastor que exerce com eficiência e fidelidade seu ministério e que conquistou a confiança de seus fiéis, será procurado por cristãos atribulados que confessam seus pecados com o desejo de receber a absolvição de seus pecados.
"Da confissão se ensina que se deve conservar a absolvição particular". Ela não é uma lei eclesiástica. Não é uma obrigação. Mas é a aplicação correta do evangelho. É Jesus quem diz: "Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio... Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos" (João 20 21-23). Numa outra oportunidade Jesus disse: "Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra, terá sido ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra, terá sido desligado no céu" (Mateus 18.18).
DEUS PERDOA ATRAVÉS DE SEUS MINISTROS
Este poder de perdoar pecados foi entregue à igreja cristã, e não apenas aos apóstolos. Esta é a correta compreensão do evangelho de Cristo. O pastor não tem este poder em si e por si: o perdão dos pecados vem através dos meios da graça - palavra e sacramentos - que o pastor administra. Quando o pastor pronuncia a absolvição, ele está usando a palavra de Deus, através da qual Deus concede o perdão. Quando o pastor concede a absolvição dos pecados ao comungante, ele está administrando os santos sacramentos, através dos quais Deus concede o perdão.
O pastor não tem poderes próprios para oferecer o perdão. Deus não concede o perdão diretamente. O pastor perdoa os pecados enquanto administra corretamente os meios da graça. Deus concede o perdão dos pecados através dos meios da graça que o pastor administra. Esta doutrina está claramente ensinada pela Sagrada Escritura. Cristo o afirma assim: "Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim; e, quem vos rejeitar, a mim me rejeita; quem, porém, me rejeitar, rejeita àquele que me enviou" (Lucas 10.16). Paulo mostra o poder da palavra de Deus com estas palavras: "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê" (Romanos 1.16). Na oração sacerdotal, Cristo expressa esta doutrina nas palavras: "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim por intermédio da palavra" (João 17.17-20). Paulo mostra esta verdade com as perguntas: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados? E assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo" (Romanos 10. 14,15,17).
O CRISTÃO TEM SAUDADE DA CONFISSÃO E ABSOLVIÇÃO
A doutrina da confissão - geral e pública ou individual e particular - e a doutrina da ¬absolvição - geral e pública ou individual e particular - são doutrinas com fundamentação ¬bíblica, que foram defendidas e praticadas pelos reformadores de ontem, e que são defendidas e praticadas na igreja luterana de hoje. Todo pecador arrependido fará confissão de ¬seus pecados. Todo pecador arrependido receberá absolvição de seus pecados. O cristão que confessa e recebe o perdão de seus pecados, é um cristão que tem paz de consciência, ¬consolo, esperança e alegria em sua vida de filho de Deus. Por isso diz Lutero: “Quem sentir sua miséria e angústia, ficará com tal saudade da confissão que a procurará com alegria... pois quando conclamo à confissão, nada mais faço a não ser clamar para sermos cristãos". Quanto consolo o cristão encontra nestas palavras de 1 João 1.8: "Se confessarmos, os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados". Amém.
Leopoldo Heimann (L)
REFLEXÕES
1. Qual é a diferença entre a confissão e a absolvição? Pode existir absolvição sem confissão?
2. Qual é a diferença entre a confissão pública e a confissão particular?
3. Que pecados devemos confessar diante de Deus e que pecados podemos con¬fessar diante do pastor?
4. O pastor pode perdoar pecados? Como?
5. Por que o cristão tem saudade da confissão e absolvição?
12º Artigo – DO ARREPENDIMENTO
Do arrependimento se ensina que os que pecaram depois do batismo, recebem perdão dos pecados a qualquer tempo em que cheguem ao arrependimento, não lhes devendo a ¬igreja negar a absolvição. Agora, arrependimento verdadeiro, autêntico, propriamente outra coisa não é que sentir contrição e pesar ou terror por causa do pecado e, todavia ¬crer ao mesmo tempo no evangelho e na absolvição, isto é, crer que o pecado foi perdoado e que por Cristo foi obtida a graça, fé essa que volta a consolar e serenar o coração. Deve ¬seguir-se a melhora de vida e o abandono do pecado; pois esses devem ser os frutos do arrependimento, como diz João Mt 3: "Produzi, pois, fruto digno do arrependimento”.
Aqui se rejeitam os que ensinam não poderem voltar a cair aqueles que já uma vez se tornaram piedosos.
Condenam-se também os novacianos, que negavam a absolvição aos que haviam pecado depois do batismo.
Rejeitam-se, outrossim, os que não ensinam alcançar-se perdão dos pecados mediante a ¬fé, e sim por nosso satisfazer.
ESTUDO
Não é tarefa agradável apontar os erros de alguém. Mas é uma necessidade cristã. Os profetas, evangelistas e apóstolos o fizeram. Cristo o fez. Erro é o oposto de verdade. Em que, porém, a igreja cristã se fundamenta para afirmar que certo ensino é falso ou ver¬dadeiro? Não em argumentos ou conclusões de homens, mas na revelação da Sagrada Escritura, ¬a qual não pode falhar (João 10. 35). Por esta razão Cristo responde aos saduceus, que negavam a existência de anjos e a doutrina da ressurreição: "Errais, não conhecendo a Escritura nem o poder de Deus" (Mateus22. 29). Todos os erros doutrinários, que tantas igrejas ensinam, têm a mesma origem: erram porque não conhecem ou não aceitam o que revela em seu livro. E Cristo cita o nome das pessoas ou entidades que estão no erro. Mostrar o erro. Ensinar a verdade. Não é tarefa fácil, mas é necessária.
É PRECISO REJEITAR ENSINOS ERRONEOS
A Confissão de Augsburgo segue o mesmo princípio: aponta os erros doutriná¬rios cita os nomes dos que propagam ensinos falsos, mostra a verdade, fundamentada na revelação da Sagrada Escritura. É o que Deus espera de sua igreja. Sobre a doutrina bíblica do arrependimento havia diversos ensinamentos contrários à revelação de Deus.
Erradamente, os anabatistas ensinavam que uma pessoa convertida nunca mais poderia perder a fé, cair de graça ou resistir ao Espírito Santo. Diziam: uma vez cristão, sempre cristão. Erro semelhante ainda cometem os reformados, presbiterianos, batistas, e metodistas com orientação calvinista. Dizem: os verdadeiramente regenerados pelo Espíri¬to Santos apenas podem perder o sentimento da graça, mas jamais podem cair da graça e perder-se, Erradamente, os novacianos ensinam exatamente o outro extremo: o cristão que, após o seu batismo, cometer pecado, ainda que se arrependa, não pode mais receber o perdão de seus pecados e ser aceito como membro da igreja. Tendo Novatus como fun¬dador - um bispo romano do terceiro século - os novacianos pretendiam formar uma igreja de separados, santos, puros e perfeitos. Este falso ensino ainda tem muitos defen¬sores e seguidores em nossos dias. Erradamente, a igreja romana ensina que o arrependimento compreende três partes: a contrição do coração, a confissão oral dos pecados e a satisfação - através de boas obras, orações, jejuns, esmolas. Sobre estas falsas doutrinas – “errais ¬não conhecendo a Escritura" - diz a Confissão de Augsburgo: Rejeitam-se e condenam-se ¬os que assim ensinam.
O CRISTÃO PODE PERDER A FÉ
"Do arrependimento se ensina que os que pecaram depois do batismo, recebem perdão dos pecados a qualquer tempo em que cheguem ao arrependimento, não lhes devendo a igreja negar a absolvição". A graça de Deus não é irresistível. A Escritura mostra que uma pessoa convertida, verdadeiramente renascida "pela água e pelo Espírito", pode cair da fé e da graça de Deus. Paulo diz aos gálatas que por eles "de novo sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós" e acrescenta "de Cristo vos desligastes vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes" (Gálatas 4.19; 5.4). A Timóteo Paulo lembra que deve combater o bom combate, "mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência vieram a naufragar na fé", entre os quais cita Himeneu e Alexandre (I Timóteo 1. 19,20). O mesmo ensino Cristo transmite na Parábola do semeador, quando diz: "A que caiu sobre a pedra são os que ouvindo a palavra, a recebem com alegria; estes não têm raiz, crêem apenas por algum tempo, e na hora da provação se desviam" (Lucas 8.13). O lembrete de Paulo é muito oportuno: "Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia" (I Coríntios 10.12).
O CRISTÃO ARREPENDIDO DEVE RECEBER O PERDÃO
Claro, a igreja cristã tem o dever e a responsabilidade de disciplinar os membros pecadores, e se necessário, excomungar da congregação os pecadores impenitentes, como recomenda 1 Coríntios 3.13: "Expulsai, pois, dentre vós o malfeitor"; como diz Cristo em Mateus 18.17: se ele recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano". Mas se o pecador se arrepender de seu pecado, pedir perdão e quiser pertencer novamente à comunidade cristã, esta deverá conceder-lhe a absolvição e reintegrá-to na grande família do povo de Deus. Por maior que seja o pecado, havendo arrependimento, sempre há perdão. Cristo perdoou o próprio malfeitor na cruz, dizendo: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" (Lucas 23.43). Cristo ainda hoje chama pecadores com o convite: "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei' (Mateus 11.28). Graças a Deus, há perdão ao pecador arrependido.
ARREPENDIMENTO REQUER CONTRIÇÃO E FÉ
"Agora, arrependimento verdadeiro, autêntico, propriamente outra coisa não é que sentir contrição e pesar ou terror por causa do pecado e, todavia crer ao mesmo tempo no evangelho e na absolvição". É nisto que consiste o verdadeiro arrependimento: Contrição e fé; e não contrição, fé e obras de satisfação. Que é contrição? Não é mero remorso. É sentir pesar, é sentir, angústia, é sentir consciência aterrorizada, e saber que transgrediu a palavra de Deus, e reconhecer que a justa lei de Deus o condena e que merece a ira Deus pelo pecado cometido. É reconhecer-se um pobre e miserável pecador. Este reconhecimento do pecado só vem pela pregação da lei de Deus (Romanos 3.20; 7.7).
Mas a "contrição e pesar ou terror por causa do pecado" ainda não é verdadeiro arrependimento. A contrição leva ao desespero e à morte. O arrependimento leva à absolvição, vida e salvação. Por isso, além da contrição, é preciso "crer no evangelho e na absolvição, isto é, crer que o pecado foi perdoado e que por Cristo foi obtida a graça, fé que volta a consolar e serenar o coração". Este verdadeiro arrependimento - contrição e fé é obra do Espírito Santo que atua através da pregação clara da lei e evangelho.
Assim arrependido, o pecador encontra consolo, paz e serenidade em seu coração em palavras como estas: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna" (João 3.16); "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1.29); "O que vem a mim de modo nenhum o lançarei fora" (João 6.37); "Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que Cristo Jesus" (Romanos 3.23,24). Importa não esquecer que viver em arrependimento ¬significa morrer e ressuscitar diariamente com Cristo. E este arrependimento perdura at¬é a morte, dia em que o cristão passará a viver com Deus em glória eterna. "Deve seguir-se a melhora de vida e o abandono do pecado."
O CRISTÃO ARREPENDIDO VIVE UMA VIDA NOVA
O pecador arrependido e absolvido quer viver uma nova vida, uma vida em santificação¬, pois "esta é a vontade de Deus, a vossa santificação" (1 Tessalonicenses 4.3). Como filho de Deus, o cristão agora procura "despojar-se do velho homem, que se corrompem ¬segundo a concupiscência do engano e procura se revestir do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade" (Efésios 4.22-24). O cristão agora também procura produzir frutos de seu arrependimento, pois ele sabe que "é feitura de ¬Deus, criado em Cristo Jesus para boas obras". O cristão sabe que é salvo pela fé em Cristo, mas que "a fé, se não tiver obras, por si só está morta" (Tiago 2.14-22). Como nova criatura em Cristo Jesus, o cristão procura viver o que disse Cristo Jesus: "Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem ¬o vosso Pai que está nos céus" (Mateus 5.16). Amém.
REFLEXÕES
1. Você acha correto apontar os erros doutrinários de outras igrejas? Por quê?
2. Quais eram as heresias dos anabatistas, dos reformados, dos novacianos e da igreja romana sobre o arrependimento?
3. Qual é a finalidade da disciplina eclesiástica que a congregação cristã aplica a um pecador não arrependido?
4. Que histórias bíblicas você lembra que mostram como Jesus perdoou pecado¬res arrependidos?
5. Qual é a diferença entre o "velho homem" e o "novo homem"?
Leopoldo Heimann (L)
13º Artigo – DOS USO DOS SACRAMENTOS
Com respeito ao uso dos sacramentos se ensina que foram instituídos não somente para serem sinais por que se possam conhecer exteriormente os cristãos, mas para serem sinais e testemunhos da vontade divina para conosco, com o fim de que por eles se desperte e fortaleça a nossa fé. Essa também a razão por que exigem fé, sendo usados corretamente quando a gente os recebe em fé e com isso fortalece a fé.
ESTUDO
Em sua exposição do Catecismo Menor, Lutero afirma que sacramento é "um ato sagrado, instituído por Deus, no qual ele oferece, dá e sela aos homens a graça adquirida ¬por Cristo, mediante certos meios externos unidos com a sua palavra". Conforme esta definição, o Novo Testamento nos apresenta apenas dois sacramentos: batismo e santa ceia.
A igreja romana, porém, ensina a existência de sete sacramentos: batismo, crisma, eucaristia (santa ceia), extrema unção, penitência, ordenação e matrimônio. O artigo 13 Confissão da Augsburgo está falando apenas dos dois sacramentos que a igreja luterana aceita e administra: batismo e santa ceia.
OS SACRAMENTOS SÃO SINAIS E TESTEMUNHOS DE DEUS
"Com respeito ao uso dos sacramentos se ensina que foram instituídos ... para serem sinais e testemunho da vontade divina para conosco". Somente a igreja cristã administra ¬o batismo e a ceia do Senhor. Por isso, os dois sacramentos também servem como sinais por que se possam conhecer exteriormente os cristãos", isto é, todo aquele que faz uso do batismo e da santa ceia se identifica e pode ser reconhecido como sendo um cristão. Por esta razão a congregação cristã não pode administrar estes sacramentos a incrédulos ¬ou pecadores impenitentes. Esta ainda é a razão porque a igreja cristã não pode ter comunhão de púlpito e altar com igrejas que negam, rejeitam ou transmitem ensinamentos contrários a Escritura sobre batismo e santa ceia.
PALAVRA E SACRAMENTO SÃO MEIOS DA GRAÇA
Ainda que os sacramentos possam servir como sinais exteriores pelos quais se reconhece os cristãos, a igreja luterana os considera muito mais que meros sinais. Para a igreja luterana, os dois sacramentos são "sinais e testemunhos da vontade divina para conosco, com o fim de que por eles se desperte e fortaleça a nossa fé". Os dois sacramentos são meios da graça, juntamente com a palavra de Deus. É através dos meios da graça – palavra e sacramentos - que o Espírito Santo regenera e converte o pecador, "desperta e fortalece a nossa fé" no Salvador, e oferece, dá e sela a graça, o perdão, a vida, a salvação.
Através do sacramento do batismo - água e palavra de Deus - Deus opera no batizado a remissão dos pecados, livra da morte e do diabo e dá a eterna salvação a todos os que crêem conforme dizem as palavras e promessas de Deus: "Quem crer e for batizado será salvo" (Marcos 16.16). Falando do batismo, Paulo afirma que Deus "segundo a sua misericórdia nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tito 2.5). Através do sacramento da santa ceia - pão e vinho e palavra de Deus – Deus ¬oferece, dá e sela aos•comungantes as mesmas bênçãos espirituais: remissão dos pecados (Mateus26.28). Através do santo evangelho, Deus também oferece, dá e sela ao ouvinte ou leitor as bênçãos dos céus: renascimento, perdão, vida e salvação. É o que Paulo confirma nas palavras: "Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê" (Romanos 1.16); "e assim, a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Deus" (Romanos 10.17). Tiago ensina a mesma verdade: "Acolhei com mansidão a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar as vossas almas ... Ele vos gerou pela palavra da verdade" (Tiago 1.18.21). Fica, pois, evidente que Deus concede as bênçãos espirituais aos pecadores somente através dos meios da palavra e os sacramentos do batismo e da ceia do Senhor.
DEUS AGE DE DUAS MANEIRAS COM O PECADOR
Sobre esta maneira graciosa de Deus agir conosco, Lutero tem esta palavra a apropriada: "como Deus nos enviou o seu santo evangelho, ele age conosco de duas maneiras: uma vez, externamente; outra vez, internamente. Externamente, Deus age conosco pela palavra do evangelho e através de sinais visíveis, como é o caso do batismo e do sacramento do altar. Internamente, Deus age conosco através do Espírito Santo e através da fé e suas dádivas. Tudo isso, porém, acontece de tal maneira que os sinais externos necessariamente precedem os sinais internos. As operações internas são conseqüência dos sinais externos, e Deus resolveu conceder os sinais internos exclusivamente através dos externos”.
Quando se afirma que os sacramentos são "sinais e testemunhas da vontade divina para conosco" está-se dizendo que estes são meios pelos quais Deus está transmitindo, comunicando e concedendo à pessoa batizada e ao comungante as bênçãos espirituais prometidas nas palavras da instituição: perdão, vida e salvação. Os sacramentos são necessários, e não são meros sinais, cerimônias ou ritos vazios. As igrejas reformadas ou seitas que negam o poder e eficácia dos sacramentos, que desprezam e rejeitam as palavras da instituição ou que afirmam que Deus age com o pecador através de outras maneiras, fora dos sacramentos e palavra, estes desconhecem a necessidade e importância da ordem e promessa de Deus, e estão pecando contra o ensino da Sagrada Escritura. Querendo permanecer no que Deus ensina, é preciso saber que Deus só age e concede suas bênçãos, celestiais através dos meios da graça - a palavra e os sacramentos do batismo e santa ceia.
OS SACRAMENTOS DESPERTAM E FORTALECEM A FÉ
"Essa também a razão porque exigem fé, sendo usados corretamente quando a gente os recebe em fé e com isso fortalece a fé". Aqui estão expressos os objetivos fundamentais dos sacramentos: "a fim de que por eles se desperte a fé e fortaleça a nossa fé a gente os recebe em fé e com isso fortalece a fé"'. Não, o poder, a eficácia ou a sacramentalidade do batismo e ceia do Senhor não dependem da fé de quem os administra ou de quem os recebe. Não são fórmulas mágicas. A nossa fé ou nossa incredulidade não afetam não alteram nem anulam a divindade dos sacramentos. É o que lembra Paulo: "E daí? Se alguns não creram, a incredulidade deles virá desfazer a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma: Seja Deus verdadeiro, e mentiroso todo homem" (Romanos 3.3,4). É verdade, a nossa fé ou incredulidade não anulam a eficácia dos sacramentos de Deus, mas a fé é necessária para se receber as bênçãos e o proveito dos sacramentos. Os incrédulos, ou pecadores impenitentes sempre são despedidos vazios, pois ninguém pode receber sem fé, bênçãos que Deus promete. Mas também nenhum pecador pode receber a verdadeira fé ou fora dos meios da graça. Por isso, é dupla a ação milagrosa dos sacramentos: despertam ou criam a fé; fortalecem e alimentam a fé.
A VONTADE DIVINA PARA CONOSCO
É, a "fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo" (Romanos 10.17). É, o "evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê" (Romanos 1.16). É, o batismo opera a remissão dos pecados, livra da morte e do diabo, e dá a eterna salvação, pois "todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes" (Gálatas 3.26,27). É, a santa ceia é o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, "dado e derramado para remissão dos pecados" (Mateus 26.26-28). A palavra de Deus e os sacramentos de Deus os meios da graça de Deus, são "os sinais e testemunhos da vontade divina para conosco”, que despertam e fortalecem a nossa fé na obra redentora de Jesus Cristo. Isto é certamente verdade. Amém.
REFLEXÕES
1. Que é um sacramento? Quantos existem? Quais são?
2. Que são meios da graça? Quais são eles?
3. Que quer dizer que Deus age conosco "externamente e internamente"?
4. Quais são as bênçãos que Deus concede ao pecador através dos meios da graça?
6. Por que o batismo é chamado de "lavar regenerador e renovador do Espírito Santo"?
Leopoldo Heimann (L)
14º Artigo - DA ORDEM ECLESIÁSTICA
Da ordem eclesiástica se ensina que sem chamado regular ninguém deve publicamente ensinar ou pregar ou administrar os sacramentos na igreja.
ESTUDO
O santo ministério é um precioso dom que Deus concedeu à sua igreja. Freqüentemente Satanás investiu contra a doutrina do ministério. Qualquer distorção ou incompreensão do ensino sobre o santo ministério trazem grandes prejuízos para a vida da igreja. É importante compreendermos bem os deveres do sacerdócio e a diferença entre o sacerdócio universal de todos os crentes e o ministério público.
TODO O CRISTÃO É UM SACERDOTE
A Escritura ensina que todos os cristãos, mas somente os cristãos, são sacerdotes de Deus. Tornamo-nos sacerdotes pelo batismo, pelo renascer por água e Espírito, pela fé em Cristo. E enquanto permanecemos na fé batismal, somos sacerdotes de Deus.
Ser sacerdote de Deus é ter acesso direto a Deus, sem necessitar de um intermediário. É o privilégio de ter comunhão com Deus; o privilégio e o dever de manejar a palavra de Deus; de julgar a pregação, de anunciar a palavra de Deus e difundi-la; o privilégio de orar por si e interceder pelos outros. Onde os cristãos relaxam estes seus deveres e privilégios, a palavra de Deus, sem dúvida, não permanecerá por muito tempo, pois ali erros doutrinários e vida ímpia sufocarão a sã palavra.
A igreja cristã, como comunhão dos santos, é uma geração de sacerdotes reais. Pedro escreve: "Vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas, para a sua maravilhosa luz" (1 Pedro 2.9).Sendo todos os cristãos iguais em direitos, poderes e honras, independente do grau de fé ou de dons, não há entre eles superiores, nem inferiores. Paulo adverte: "Digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convêm" (Romanos 12.3). Ora, se este é o espírito reinante entre os sacerdotes, nem é possível constituir ali um sobre o outro, constituir ali uma autoridade, visto que cada qual quer ser submisso ao outro para servir.
NEM TODO O SACERDOTE É UM MINISTRO
Para que a edificação da igreja cristã se processe com ordem, Cristo instituiu o santo ministério (Efésios 4.11; Atos 20.28; Tito 1.5). O santo ministério não é um cargo facultativo que a igreja pode instituir ou abolir a seu bel prazer. Não! Cristo amarrou sua igreja a este ministério até o juízo final. E onde estiver a verdadeira igreja, ali está a ordem de pregar o evangelho, ali a igreja mantém o poder de chamar, eleger e ordenar ministros (Artigos de Esmalcalde). Isto é, o direito de a congregação, por seus membros votantes escolher alguém para ser servo dos servos. O ministério não é um cargo de mando, mas de serviço. Como tal o ministro deve pregar publicamente a palavra de Deus e administrar os sacramentos. Este ofício é o ofício supremo na igreja, do qual decorrem todos os demais ofícios. Cabe respeito integral ao ministro, enquanto ele maneja corretamente a palavra de Deus, pois é ministro de Deus. Apesar de a comunidade o ter eleito, e ele atuar em nome da comunidade, ele é servo de Cristo. A comunidade, por exemplo, não pode restringir a pregação da palavra, pois Jesus ordenou pregar todo o desígnio de Deus Mateus 28.30; Atos 20.27). Mas a comunidade deve julgar o ensino e a pregação, não criticando levianamente a forma ou a arte exterior da pregação, mas julgá-la quanto sua fidelidade à palavra de Deus. Cabe-lhe advertir os pregadores que se desviarem da sã doutrina e, se persistirem no erro, depô-los. Por outro, o ministro não tem domínio sobre a comunidade. Não pode, sozinho, impor a excomunhão, sem o devido consentimento de toda a comunidade.
Onde o ministério está instituído, naquela comunidade nenhum membro deve exercer o ministério publicamente a não ser o(s) ministro(s) incumbido(s) pela congregação. O ministro chamado pela comunidade fica incumbido de dirigir a comunidade na adoração, para que a mesma cresça em conhecimento e na aptidão de desempenhar os seus serviços.
A palavra de Deus também nos diz quem deve ser chamado para o cargo. Freqüentemente ouvimos alguém dizer: Basta uma pessoa sincera e bem intencionada. Imaginem, se num domingo faltar o organista e o presidente da comunidade pedir: "Por favor uma pessoa sincera e de boa vontade para tocar o órgão!" Que tons sairiam do órgão? Sinceridade e boa vontade são necessários, mas não bastam. A Bíblia destaca com ênfase de o ministro ser uma pessoa de fé, cheia do Espírito Santo e de boas qualidades morais (Atos 6.3-5; 1 Timóteo 3.2-4; 2 Timóteo 2.15), mas destaca também duas outras qualidades importantes: apto para ensinar e que saiba manejar bem a palavra (Tito) 1.7-9). Há necessidade de estudo e preparação. Por isso a igreja constrói e mantém seminários, para boa formação de ministros.
Por outro, a palavra de Deus acentua o chamado por parte de uma comunidade. Não basta alguém ter formação para exercer o ministério, também não basta alguém sentir um chamado interior - muitas vezes tal chamado é imaginação própria. É necessário um chamado por parte de uma congregação. Por este chamado, através de uma congregação, Deus diz a uma pessoa se quer que ela sirva no ministério, quando e onde. (Atos 13.3; 1 Timóteo 4.14; 2Timóteo 1.6; 2 Coríntios 8.19).
O MINISTÉRIO NÃO DISPENSA NINGUÉM DE SEUS DONS SACERDOTAIS
O fato de numa comunidade os sacerdotes reais incubirem, por ordem de Cristo, uma pessoa para ser o seu servo e cumprir suas funções de sacerdote publicamente, não significa que, com isso, os cristãos abriram mão dos seus deveres de sacerdotes. Ninguém poderá dizer: "Que bom, agora não preciso testemunhar, para isso estou pagando o meu pastor". Não, não! O ministério foi instituído para que um dos sacerdotes dirigisse o culto público e administrasse publicamente os sacramentos e publicamente nenhum o outro deve fazê-lo a não ser em casos de necessidade, por exemplo, batismo de emergência. Este servo se dedica ao estudo da palavra e ao ensino da palavra para aperfeiçoar todos os sacerdotes no desempenho de suas funções como sacerdotes e membros do corpo de Cristo, para que cada um possa cumprir, em particular, suas funções de sacerdote na família junto a seus parentes, vizinhos e amigos e no lugar de seu trabalho. Portanto, quanto à essência não há diferença entre o trabalho do ministro e o trabalho do sacerdócio universal ¬de todos os crentes. A única diferença é que o ministro exerce estas funções publicamen¬te e o cristão as exerce em particular.
UM BOM EQUILÍBRIO
A Bíblia nos ensina que é necessário manter um bom equilíbrio entre o sacerdote universal de todos os crentes e o ministério público. Qualquer desequilíbrio é prejudi¬cial. Toda a tentativa de criar classes na igreja cristã é antibiblico, como é antibiblico que os pastores dominem sobre as comunidades ou as comunidades sobre os pastores. Todos são
sacerdotes de Deus, mas nem todos os sacerdotes são ministros de Deus. Esses exercem ¬publicamente suas funções; aqueles, em particular. Assim cumprem sua missão na edificação do reino de Deus. Nem um nem outro deve relaxar seu ministério. Nossa cons¬tante oração é: Senhor! Concede-nos um ministério fiel e faze com que todos os membros batizados sejam bons sacerdotes.
REFLEXÕES
1. Os sacerdotes do Antigo Testamento exerciam o sacerdócio por nascimento ou por escolha? No Novo Testamento somos sacerdotes por escolha ou nascimento (renascimento)? .
2. Reestude a pergunta de nosso Catecismo Menor: Por que cremos que Cristo é o nosso Sumo Sacerdote? E medite sobre os versículos.
3. É correto fazer na igreja distinção entre pastore e não pastores?
Horst Kuchenbecker
15º Artigo - DAS ORDENAÇÕES ECLESIÁSTICAS
Das ordenações eclesiásticas estabelecidas por homens se ensina observar aquelas que possam ser observadas sem pecado e contribuam para a paz e a boa ordem na igreja, como por exemplo, certos dias santos, festas e coisas semelhantes. Esclarecemos, porém, que não se devem onerar as consciências com essas coisas, como se fossem necessárias para a salvação. Ensina-se, ademais, que todas as ordenanças e tradições feitas pelo homem com o propósito de por elas reconciliar-se a Deus e merecer graça são contrárias ao evangelho à doutrina da fé em Cristo. Razão por que votos monásticos e outras tradições concernentes a distinção de alimentos, dias, etc., pelas quais se pensa merecer graça e satisfazer por pecados, são inúteis e contrários ao evangelho.
ESTUDO
SEM PECADO E... PARA A PAZ E A BOA ORDEM NA IGREJA
Quem freqüenta nossos cultos sabe que num certo momento o oficiante vai dizer¬, por exemplo: "A Epístola para o 16º Domingo de Trindade está escrita na carta do apóstolo Paulo aos Efésios, capítulo 3, desde o versículo 13." Os membros da igreja sa¬bem que este mesmo trecho está sendo lido no mesmo domingo em milhares de igrejas, diversos em diversos países. Como pode ser isto?
Um dia nossos pais sentaram e estudaram profundamente a doutrina bíblica e as necessidades da igreja e do povo e escolheram séries de textos bíblicos para cada domingo de festa do ano eclesiástico. O ano eclesiástico é determinado pelos principais fatos históricos relacionados com o plano de Deus para nossa salvação, especialmente a vida, morte e ressurreição de Cristo.
Isto tem grande vantagem de permitir que a igreja trate todos os anos dos assuntos ¬mais importantes e necessários para produzir e fazer crescer a fé no coração dos ouvintes. ¬Também ajuda a visualizar e fortalecer a unidade dos cristãos e traz ordem aos cultos públicos.
MAS NÃO ESTÁ NA BÍBLIA...
É verdade. Estas séries, a forma litúrgica, os nomes: ano eclesiástico, liturgia, domingo de Trindade, não encontramos expressos na Escritura. Mas estão de acordo com o que o Senhor recomenda:
"Vocês todos podem anunciar a mensagem de Deus, um de cada vez, para que todos aprendam e fiquem animados. Quem fala deve controlar o dom de anunciar a mensagem ¬de Deus. Pois Deus não nos chamou para fazer-mos confusão, e sim para termos ordem. ¬( ... ) Portanto, façam tudo com decência e ordem" (1 Coríntios 14.31-33 3 40,) NTLH
O Senhor ordenou que o adorássemos na companhia dos irmãos e que a sua palavra fosse estudada e pregada e os sacramentos ministrados. Alguma forma e ordem deve haver para tanto. Deve ser escolhida de acordo com a palavra do Senhor e servir para o cumprimento da sua vontade.
São as ordenações eclesiásticas: resoluções, costumes, práticas que livremente são estabelecidas e aceitas. Não devem ser impostas como leis, nem serem condenados como hereges os que as descumprem, mas os membros ou congregações individualmente também não devem rejeitá-los, mesmo que tenham opinião diversa da maioria. Nossa liberdade de sempre está limitada pelo evangelho.
QUANDO ESTAS ORDENAÇÕES HUMANAS SE TORNAM PECADO
1º Quando são dadas como se fossem divinas e se tornam um peso que as consciências não podem suportar. No campo espiritual ninguém tem o direito de ordenar seu próximo o que o Senhor não ordenou. Tais imposições destronam a Cristo, substituindo-o por homens.
"Assim também, o homem livre que foi chamado por Cristo é escravo de Cristo. Deus os comprou por um preço; portanto, não se tornem escravos dos homens" (1 Coríntios 7.22 e 23, NTLH).
2º Quando são obedecidas pensando que assim se vai merecer graça de Deus. Isto contraria frontalmente o artigo fundamental da fé bíblica e cristã. Unicamente o mérito de Cristo nos traz perdão.
A Igreja Católica Romana ensinava e ensina este erro. Criam tais ordenações nos seus concílios e através do papa, dizem que são divinas, e afirmam que os que lhes desobedecem vão perder a salvação da sua alma. Exemplos: votos monásticos, jejuns, penitências, indulgências, peregrinações e rezas de terços e rosários.
Também os episcopais, presbiterianos e metodistas prescrevem tais ordenações eclesiásticas como se fossem mandamentos divinos. Outras seitas proíbem e exigem muitas coisas da vida exterior do homem que Deus deixou livre.
Estaríamos cometendo o mesmo erro se exigíssemos que todos os nossos membros contribuíssem com uma certa percentagem, num determinado dia e com um envelope oficializado e considerássemos menos cristão quem não fizesse exatamente assim.
O Mestre condenou isto nos fariseus. Paulo o condenou nos que queriam que os convertidos entre os gentios cumprissem os ritos cerimoniais do Antigo Testamento, como a circuncisão:
"Assim, que ninguém julgue vocês pelo que comem ou bebem, ou por causa dos dias santos, ou das festas de lua nova, ou dos sábados. Tudo isto é apenas sombra do que devia vir. A realidade é Cristo. Não deixem que ninguém os condene afirmando que é superior porque tem visões especiais, e insistindo na falsa humildade e na adoração de anjos" (Colossenses 2. 16-18, NTLH).
EXISTE TAMBÉM UM OUTRO PERIGO
Havia e há aqueles que dizem que devemos abandonar todas as tradições cristãs que não estão diretamente ordenadas na Bíblia. Zwinglio e Calvino estavam entre estes. Havia até os exagerados que queriam tirar todos os quadros, símbolos, pinturas, imagem das igrejas. Foram denominados de iconoclastas (os que quebram imagens ou ídolos).
Hoje isto equivaleria a eliminar em nossa igreja, por exemplo: a liturgia antiga, vestes litúrgicas ou talares, a cruz, velas, quadros que representam o Salvador. É uma tendência que de tempos em tempos retoma à igreja.
O Reformador rebateu este exagero, concordando com a Escritura, quando Paulo escreveu: "Estejam sempre alegres, orem sempre, e sejam agradecidos a Deus em todas as ocasiões, Isto é o que Deus quer de vocês, em sua vida em união com Jesus Cristo. ¬Não atrapalhem a ação do Espírito Santo. Não desprezem as mensagens inspiradas. Examinem tudo, fiquem com o que é bom, e evitem todo o tipo de mal" (1 Tessalonicenses 5.16-22, NTLH). No artigo 26 voltaremos a este assunto com outros detalhes.
CADA CULTO "NOVA LITURGIA", CADA REUNIÃO "NOVOS CORINHOS"
Recebemos de nossos pais na fé um tesouro muito precioso: a doutrina pura exposta ¬com clareza nas Confissões e uma lindíssima tradição litúrgica e musical, Decerto muitas igrejas gostariam de ter no seu hinário hinos de Bach e Paul Gerhardt como nós, para citar apenas dois exemplos. Nossa liturgia, com suas variações para diferentes ocasiões¬, é uma monumental mensagem evangélica que uma vez explicada e aprendida satisfaz plenamente o gosto dos crentes de todas as partes, também dos brasileiros.
Ultimamente temos sido pródigos em criar "novas liturgias" e compor ou co¬piar novos corinhos". Há congregações em que quase a cada domingo se usa outra ordem litúrgica e há congressos ou cursos de escola dominical que são considerados fracassos se não apareceram muitos "novos corinhos".
O que é que você acha disso? Há um lado positivo: desenvolver a criatividade poética e musical; criar novas formas, mais condizentes com a nossa cultura, nossa época e com o homem moderno, variar, enriquecer. Há um lado negativo: muitas ordem de culto e orações responsivas não são feitas com o necessário cuidado na forma e no conteúdo. A variação exagerada dificulta a unidade, a identificação e o aprendizado, tanto dos membros como de visitantes. Há corinhos, especialmente os de origem de seitas calvinistas que contêm erros doutrinários graves e letra e música de muito mau gosto. Além de trocar¬mos por pior, nossas crianças e jovens não aprendem a cantar nossos hinos na fase da vida mais apropriada.
REFLEXÕES
1. Convide o departamento de sua congregação a estudar este assunto: compa¬rem a liturgia tradicional e suas variações com novas ordens de cultos que são usadas.
2 Comparem nossos hinos (também os "novos" - alguns de 1500) com os cori¬nhos.
3 Analisar: "Examinem tudo, fiquem com o que é bom, e evitem todo tipo de mal".
Bruno F Rieth
16º Artigo - DA ORDEM POLÍTICA E DO GOVERNO CIVIL
Da ordem política e do governo civil se ensina que toda autoridade no mundo e todos os governos e leis ordenados são ordenações boas, criadas e instituídas por Deus, e cristãos podem, sem pecado, ocupar o cargo de autoridade, de príncipe e de juiz, proferir sentença e julgar segundo as leis imperiais e outras leis em vigor, punir malfeitores a espada, fazer guerras justas, combater, comprar e vender, fazer juramentos requeridos, possuir propriedade, casar, etc.
Aqui são condenados os anabatistas, os quais ensinam que nenhuma das coisas supramencionadas é cristã.
Condenam-se, outrossim, aqueles que ensinam ser perfeição cristã abandonar fisicamente casa e lar, mulher e filhos, e renunciar as coisas citadas, quando o fato é que apenas verdadeiro temor de Deus e verdadeira fé constituem a perfeição autêntica. Pois o evangelho não ensina uma forma de vida e justiça exteriores, temporais, senão uma inte¬rior e eterna vida e justiça do coração, e não abole o governo civil, a ordem política e o casamento, querendo, ao contrário, que se guarde tudo isso como genuína ordem e que cada qual, de acordo com sua vocação, mostre, em tais ordenações, amor cristão e obras verdadeiramente boas. Por isso os cristãos têm o dever de estar sujeitos à autoridade e de obedecer aos mandamentos e leis em tudo o que não envolva pecado. Porque se não é possível obedecer à ordem da autoridade sem pecar, mais importa obedecer a Deus do que aos homens (Atos 5).
ESTUDO
Os dias são difíceis. Por toda a parte há rumores de greves e rebeliões, Ricos temem ¬a revolta dos pobres e os pobres protestam contra a opressão dos ricos. Ouvem-se clamores por mais justiça e por maior liberdade. Violência e brutalidade espalham temor e medo por toda a parte.
Qual a posição do cristão em meio a este mundo conturbado? Tem o cristianismo uma solução para estes problemas de autoridade que afligem o mundo?
TODA A AUTORIDADE É INSTITUÍDA POR DEUS
Para tornar possível a vida em sociedade, Deus criou o princípio de autoridade. A autoridade não procede da vontade dos homens, mas de Deus. Por isso o apóstolo Paulo afirma: "Toda a autoridade é ministro de Deus" (Romanos 13.1-10; I Pedro 2.13-17).Não importa a forma de governo, se monarquia (um governa a todos), se oligarquia (um grupo pequeno governa), se democracia (governo eleito pelo povo). Nenhuma forma de governo pode ser considerada mais ou menos legítima. Também não vem ao caso como alguém adquiriu o poder, se de forma legítima ou de forma ilegítima, por rebelião. Uma vez que tenha o poder na mão, deve ser respeitado, como detentor do poder, como ministro ¬de Deus. Quem se rebela contra a autoridade, rebela-se contra Deus, não importam razões que impelem à revolta. Devemos entender bem a palavra rebelião, isto é, ir contra a ¬lei estabelecida. Se a lei de um país, por exemplo, faculta greves, é evidente que podemos usar este expediente para fazer nossas reivindicações.
AUTORIDADE
Para tornar a vida em sociedade possível é necessária a elaboração de certas leis. Leis restringem a liberdade das pessoas. Quanto mais as pessoas se aglomeram, mais sua liberdade é restringida para tornar a vida, lado a lado, possível. Como vivemos num mundo ¬pecador, onde nem todos obedecem por motivos de consciência ou de boa vontade, Deus entregou à autoridade a espada, para que seja temida e se obedeça por temor (Ro- 13.4).
AUTORIDADES INJUSTAS
Os que exercem a autoridade são pessoas humanas e com isso pecadores como os demais. Caem freqüentemente em erro. Muitos governam, visando seus próprios interesses e abusam do poder. Isto, no entanto, não invalida sua autoridade. São membros do reino das trevas, mas mesmo assim Deus os usa em combate a Satanás. Terão que prestar contas do seu governo a Deus, de quem receberam a autoridade (João 19.11), e Deus os julgará a seu tempo com justiça. Um bom governo é uma bênção para uma nação. Um mau governo é castigo divino. Cabe à igreja o papel de ser a consciência do governo, isto é, dizer ao povo e às autoridades quais os seus deveres. Assim os profetas, Jesus e os apóstolos o fizeram. Cabe-nos orar sempre por bons governos e pelas autoridades constituídas.
OBEDIÊNCIA CONDICIONAL
Nossa obediência ao governo não é absoluta. Se o governo nos ordena fazer algo contra a lei de Deus ou contra nossa fé, cabe-nos responder com Pedro: "Antes importa obedecer a Deus do que aos homens." (Atos 5.29), mesmo se isto nos levar à prisão, sofrimentos ou à morte.
PARTICIPANDO DO GOVERNO
Sendo o governo uma instituição divina que visa o bem da sociedade, cabe ao cristão participar. Exercer autoridade exige fé forte. As tentações são muitas e frequentemente os pecados também. Nesta situação o cristão deve buscar, como o rei Davi e Salomão e outros, toda a sabedoria e força de Deus. Quanto mais pessoas cristãs participarem no governo, maior bênção terá o povo. Por terem que lidar com muitas pessoas ímpias ¬não será fácil governar. Freqüentemente terão de usar a força para impor a ordem. Os próprios cristãos nem sempre acertam. Por falta do conhecimento melhor e possibilidade de melhor juízo, também incorrem em erros e injustiças.
DIFICULDADES
Governantes e governados cristãos enfrentam momentos difíceis no cumprimento do seu dever patriótico. Por exemplo, em casos de guerra. O que cabe ao cristão fazer? Pode o cristão participar de uma guerra em defesa de sua pátria? Supondo que a guerra seja justa, em legítima defesa, temos o dever de participar. É muito difícil julgar se uma guerra é justa ou não. Não conhecemos o que se passa nos bastidores. Cabe-nos julgar por aquilo que conhecemos. Se alguém está convencido de que a guerra de sua pátria é injusta, não deve participar da guerra e acarretar com as conseqüências, que pode ser prisão ou morte.
Teremos quadros tristes em tempo de guerra. Em ambas as fronteiras, cristãos se digladiando e matando, como o foi durante a segunda guerra mundial. Guerras é um açoite divino para a humanidade incrédula; para os cristãos, uma pesada cruz, mas época propícia para semear a palavra de Deus.
NO CUMPRIMENTO DO DEVER
A fé cristã não afasta ninguém dos seus deveres para com a famí1ia, a sociedade, seu trabalho e sua pátria. Pelo contrário, ensina a todos cumprirem fielmente seus deveres, lembrando, sobretudo que o reino de Deus não consiste no mero cumprimento de um conjunto de leis, mas na justiça do coração. Esta justiça válida diante de Deus, não provém do esforço humano, mas a recebemos de Cristo, pela fé. O Espírito Santo abre-nos os olhos para a grande esperança, a vida eterna. "Não tendes aqui morada permanente" (Hebreus 13.14). "Salvai-nos desta geração perversa" (Atos 2.40). Mas enquanto peregrinamos nesta terra¬, vale-nos a recomendação de Jeremias: "Buscai a paz da cidade" (Jeremias 29.7)
CONDENAÇOES
O artigo condena algumas opiniões erradas sobre a autoridade. Apesar de o artigo ser bem recebido pelos católicos, condena alguns erros dos mesmos. Vejamos os principais erros ainda hoje em voga:
Católicos: ensinam que a igreja é detentora tanto do poder eclesiástico como do poder civil. O estado é um instrumento da igreja;
Calvinistas: ensinam uma teocracia, na qual Deus governa por seus magistrados, os pastores, os quais devem se esforçar ao máximo para defender a Deus e exigir o cumprimento da lei de Deus;
Anabatistas: ensinam que o estado é inimigo do povo e instrumento de Satanás. O cristão não deve participar do governo. Toleram o estado como um mal neces¬sário.
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O ensino bíblico exposto neste artigo, resumimos aqui: A autoridade é instituída por Deus, com tarefas determinadas independente da igreja como instituição eclesiástica.
REFLEXÕES
1. Reveja no Catecismo Menor, na Tábua dos Deveres, os títulos: Do Governo, aos Cidadãos.
2. Analise o comportamento de Daniel na corte (Daniel),
3. Analise as seguintes passagens bíblicas: João 19.10-11; Atos 5.28-32 e veja o que dizem sobre a autoridade civil.
Horst Kuchenbecker
17° Artigo – DA VOLTA DE CRISTO PARA O JUÍZO
Também se ensina que nosso Senhor Jesus Cristo voltará no último dia para julgar, e que ressuscitará todos os mortos, dará aos crentes e eleitos vida e alegria eternas, porém condenará os homens ímpios e os demônios ao inferno e castigo eterno.
Rejeitam-se, por isso, os anabatistas, os quais ensinam que os diabos e os homens condenados não sofrerão dor e tormento eternos.
Aqui se rejeitam, outrossim, algumas doutrinas judaicas que também ao presente se manifestam e segundo as quais antes da ressurreição dos mortos um grupo constituído integralmente de santos e piedosos terá um reino terrestre e aniquilará todos os ímpios.
ESTUDO
Pelo fato de Satanás e o velho homem, através do pecado, exercerem ainda tanto domínio sobre a humanidade, não parece ser Cristo o SENHOR a quem "foi dado todo o poder no céu e na terra". Essa imagem, porém, irá modificar-se por ocasião da volta de Jesus quando ficará manifesto a todos o que ele realmente é.
SÚMULA HISTÓRICA
Entre os luteranos e católicos não havia polêmica a respeito do conteúdo do presente artigo. Como, no entanto, os luteranos haviam sido igualados a grupos que ensinavam doutrinas não bíblicas a respeito das questões em foco, impunha-se que a posição bíblica dos luteranos fosse proclamada publicamente.
JESUS VOLTARÁ NO ÚLTIMO DIA
De modo conciso e claro é colocada a posição bíblica dos luteranos. Jesus havia falado sobre a sua segunda vinda (Mateus 24.30-31; Apoca1ipse 1.7). Os anjos disseram aos discípulos no dia da ascensão: “Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu, assim virá do modo como o vistes subir (Atos 1.11)”. Jesus, porém, estaria sempre presente com os seus de modo invisível. Ao se despedir dos discípulos, suas palavras foram: "Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século" (Mateus 28.20). Leia também Mateus 18.20.
TODOS OS MORTOS RESSUSCITARÃO
É uma verdade bíblica que não conseguimos compreender com nossa razão. Aceitamo-la como verdadeira por ser bíblica: "para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas” (Lucas 1.37, cf Gênesis 18.14). O próprio Senhor Jesus assegura o fato ao dizer “Vem a hora em todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão” (João 5.28). Examinem também 1 Coríntios 15.12 e Filipenses 3. 20-21.
POR OCASIÃO DA VINDA DE JESUS HAVERÁ O JULGAMENTO
Disse o apóstolo Paulo, em seu discurso no Areópago em Atenas: “Portanto Deus estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos" (Atos 17.31). O próprio Salvador Jesus anunciou o julgamento a ser realizado por ocasião de seu retorno visível a este mundo, dizendo: "Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos, as ovelhas" (Mateus 25.31.32). Leia também João 5.22 e 1 Coríntios 5.10.
DESTINOS DIFERENTES
Os crentes irão com Cristo para a vida e alegria eterna. Será a consumação do plano que Deus tem com os fiéis, estar com eles no céu. Jesus há de convidar os crentes: ''Vinde, benditos de meu Pai; entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo" (Mateus 25.34). Confira também 1 Pedro 1.3-5; João 3.1-2; Daniel 12. 2.
Oposta será a sorte dos ímpios e dos demônios. Aguarda-os o castigo perene no inferno. A sentença será pronunciada por Jesus no julgamento: "Apartai-vos de mim, malditos para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos" (Mateus 25.41). Que o castigo dos ímpios é eterno, torna-se evidente também em passagens como: Mateus 25.46; Marcos 9.43; Isaías 66.24; 1 Tessalonicenses 1.8,9; Apocalipse 14.11; Apocalipse 20.10.
ENSINAMENTOS CONTRÁRIOS ÀS ESCRITURAS
Ensinavam os anabatistas que o castigo reservado aos diabos e aos descrentes não é eterno. Os anabatistas já foram identificados no estudo dos artigos 5, 9 e 16. Alegavam sob o argumento de que um Deus de amor e cheio de misericórdia, não poderia castigar a ninguém por um espaço de tempo infindável. É esse um pensamento muito humano, contudo não é bíblico.
A outra doutrina falsa rejeitada é aquela segundo a qual antes da ressurreição dos mortos haveria um aniquilamento dos ímpios, permanecendo no mundo apenas um grupo de piedosos. Em nossos dias essa doutrina é defendida pelos milenistas ou quiliastes. Antes do fim, dizem, haverá no mundo um período de paz pelo espaço de 1000 anos. Segundo eles, Cristo viria à terra ou no começo ou no fim dos mil anos.
A Escritura, no entanto, ensina que a igreja não deixará de sofrer, até a volta de Jesus para o juízo. Até mesmo isso a Escritura afirma que quanto mais perto estiver o dia de sua vinda, tanto mais pesada seria a cruz a ser suportada pelos fiéis. Diz Jesus: "Então sereis atribulados, e vos matarão. Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome" (Mateus 24.9). É aconselhável ler os versículos precedentes e os que seguem ao versículo 9. Leia no mesmo capítulo 24 de Mateus os versículos 37 a 44, igualmente Lucas 18.8 e Mateus 13.24-30.
Em Apocalipse 20, onde é mencionado um período de mil anos, é descrita em linguagem figurada a condição e natureza da igreja no Novo Testamento e não a de um reino visível de Cristo no aquém.
VALE ESTE ARTIGO PARA OS CRISTÃOS DA DÉCADA DE 80?
Você deve ter notado, amigo leitor, o quanto a doutrina bíblica deste artigo é desconhecida, ou, se conhecida, não aceita. Se por um lado milhões ou bilhões de gentios nada sabem da segunda vinda de Jesus, da ressurreição de todos os mortos, da salvação e da condenação eternas, de outra parte milhões de cristãos vivem como se Jesus nunca mais voltasse, como se não houvesse ressurreição, como se não houvesse salvação nem condenação eternas.
CUIDADO!
Muito cuidado com opiniões humanas tais como: "Deus, que é um Deus misericordioso, não vai condenar a ninguém eternamente"; "É preciso estabelecer um reinado material de Cristo neste mundo, aniquilando os infiéis, e isto à força, se for preciso." Tais posicionamentos podem conduzir ou a uma completa indiferença religiosa, ou a fanatismos que terminam em tragédias como a que Jim Jones causou na Guiana.
REFLEXÕES
Faça um estudo sobre a ressurreição, usando como texto 1 Coríntios 15. De acordo com Lucas 16.19-31, quantos lugares haverá após a morte? Medite sobre a nova Jerusalém descrita em Apocalipse 21.9 a 22.5. A situação mundial de hoje pode ser tomada como um sinal da segunda vinda de Jesus? Como o crente encara os sinais da volta de Cristo - com medo ou com júbilo?
Christiano J. Steyer
18° Artigo - DO LIVRE ARBÍTRIO
Quanto ao livre arbítrio se ensina que o homem tem até certo ponto livre arbítrio para viver exteriormente de maneira honesta e escolher entre aquelas coisas que a razão compreende. Todavia, sem a graça, o auxilio e a operação do Espírito Santo o homem é incapaz de ser agradável a Deus, temê-lo de coração, ou crer, ou expulsar do coração as concupiscências inatas. Isso, ao contrário, é feito pelo Espírito Santo, que é dado pela palavra de Deus. Pois Paulo diz em 1 Coríntios 2: "O homem natural nada entende do Espírito de Deus”.
E para que se possa reconhecer que nisso não se ensina novidade, eis ai as claras palavras de Agostinho a respeito do livre arbítrio, aqui citadas do livro III do Hypognosticon: "Confessamos que em todos os homens há um livre arbítrio pois todos têm entendimento e razão naturais, inatos. Não no sentido de que sejam capazes de algo no que concerne a Deus, como, por exemplo, amar e temer a Deus de coração. Somente em obras externas desta vida têm liberdade para escolher coisas boas ou más. Por obras boas entendo as de que é capaz a natureza, tais como trabalhar ou não no campo, comer, beber, visitar ou não um amigo, vestir-se ou despir-se, edificar, tomar esposa, dedicar-se a um oficio ou fazer alguma outra coisa proveitosa e boa. Tudo isso, entretanto, não é nem subsiste sem Deus; ao contrário: dele e por ele são todas as coisas. Por outro lado pode o homem também praticar por escolha própria o mal, como, por exemplo, ajoelhar-se diante de um ídolo , cometer homicídio, etc."
ESTUDO
Por que algumas pessoas crêem em Cristo e outras não? Você, por certo, já deve ter-se questionado sobre isso. Uma é a solução que a própria razão humana oferece. A resposta ¬da Escritura é outra. Não é uma resposta que harmoniza com a lógica humana, não podemos compreendê-la, contudo, é a resposta de Deus, e essa aceitamos pela fé. Qual é a resposta de Deus? Ela está muito ligada à resposta sobre o livre arbítrio, assunto de que trata o artigo 18.
SÚMULAHISTÓRICA
Este artigo recebeu lugar na Confissão de Augsburgo para que ficasse bem claro que a salvação do pecador não pode ser atribuída ao próprio homem, mas exclusivamente é graça de Deus. Tanto é que na resposta dos católicos à Confissão de Augsburgo, não foi feito nenhum ataque à posição dos luteranos; pelo contrário, disseram expressamente que concordavam com essa posição. Contudo, certas expressões e afirmações na resposta dos teólogos católicos demonstrou que não possuíam identidade de pensamento com os lute¬ranos.
O QUE É LIVRE ARBITRIO?
Livre arbítrio é a faculdade que o homem tem de querer livremente alguma coi¬sa. O homem possuía livre arbítrio pleno antes da queda no pecado. Era-lhe possível decidir tanto em coisas materiais quanto em espirituais. Com a queda no pecado, porém, foi afetada a liberdade do homem, e, com isso, o seu livre arbítrio.
O HOMEM AINDA PODE DECIDIR LIVREMENTE
Diz-se que é a razão que distingue o homem dos animais. Em coisas sujeitas à razão, o homem conservou a liberdade. É por isso que pode ser responsabilizado pelo que faz. O mesmo não sucede com os animais.
A liberdade do homem pode estender-se a uma justiça civil, isto é, pelo seu livre arbítrio o homem pode querer ser um cumpridor das leis da sociedade em que vive e até mesmo os dez mandamentos. Nesse caso, os motivos que o levam a praticar estes atos são motivos humanos, isto é, provém ou de sua razão ou de seu sentimento. Por ter sido motivada por propósitos humanos e não divinos, não é essa a conduta justa que Deus requer. É isso o que o artigo 18 ensina quando diz: "o homem tem até certo ponto livre arbítrio para viver exteriormente de maneira honesta e escolher entre aquelas coisas que a razão compreende".
É preciso lembrar ainda que mesmo esta liberdade do homem encontra limites no poder de Deus. Muitas vezes os maus intentos do homem não se traduzem em ações porque Deus conserva as rédeas do mundo em suas mãos, impedindo que tais atos sejam consumados. O povo expressa isso dizendo: o homem põe e Deus dispõe.
O HOMEM NÃO PODE DECIDIR LIVREMENTE
O homem não possui vontade própria em assuntos espirituais, como: "desejar o que é espiritualmente bom, preparar-se para a graça divina, cumprir a lei divina em verdadeiro amor de Deus, aceitar e crer o evangelho e além disso, converter-se inteiramente, ou pelo menos cooperar na sua conversão". Este é o ensino da palavra de Deus: o homem, de si mesmo, não possui vontade nem poder para as coisas de Deus. Paulo escreve aos coríntios dizendo: "O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente" (1 Coríntios 2.14). Verifique também Salmo 14.3; Gênesis 8.21. A Escritura afirma que o homem está morto em pecados (Efésios 2.1 ; Colossenses 2.13).
Se, portanto, alguém ouve o que diz a palavra de Deus e experimenta a conversão crendo em Jesus, respeita e ama a Deus, isso se constitui uma obra de Deus e não do homem. O Espírito Santo agiu nessa pessoa por intermédio da palavra. Paulo assim se expressa aos filipenses: "Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua vontade" (Filipenses 2.13). Conferir também 1 Coríntios 12.3 e Efésios 2.8.9.
Quando se deixa ao homem a faísca inicial da conversão, como se dependesse dele a boa vontade de se inclinar para Deus, e criar condições para que Deus opere fé, tira-se de Deus o mérito da salvação do pecador. A salvação já não seria mais inteiramente obra da graça de Deus.
Em assuntos espirituais, portanto, o homem não tem livre arbítrio. É o Espírito Santo quem faz o homem decidir crer em Jesus e viver uma vida santificada.
Portanto, a Escritura ensina que quem se salva se salva pela graça de Deus. Por que, então, alguns se perdem? É por culpa própria. As palavras de Jesus aos judeus são muito graves, mas claras: "Jerusalém, Jerusalém! Que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! (Mateus 23.37). Leia também Atos 7.51; Oséias 13.9.
HERESIAS CONDENADAS
As heresias quanto ao livre arbítrio podem ser identificadas no pelagianismo. O pelagianismo teve início no Século V e proclamava que a vontade do homem não foi corrompida com a queda no pecado e que, portanto, o homem é capaz de resolver sozinho seu problema espiritual, não havendo necessidade da operação da graça de Deus. Propugnavam que para cumprir os mandamentos e obter a salvação o homem precisaria somente de uma boa educação.
Também se condena os semipelagianos. Estes advogam a posição segundo a qual a vontade do homem após a queda é só parcialmente corrompida. Basta ao homem o auxílio ¬da graça de Deus. Desta forma a salvação dependeria, além da graça de Deus, do uso correto que o homem deveria fazer de suas capacidades naturais. É a posição católica.
Condena-se, outrossim, os sinergistas. Há muitas gradações no sinergismo. Em resumo, porém, designa toda a posição que ensina poder o homem com suas forças naturais cooperar com o Espírito Santo para a sua salvação. É a posição assumida pelas igrejas reformadas calvinistas e pentecostais.
LIVRE ARBÍTRIO - CUIDADO!
Afirmar que o homem possui vontade própria em assuntos espirituais é abrir uma brecha para desmoronar a fortaleza da graça de Deus. O próprio Melanchton, amigo de Lutero e autor da Confissão de Augsburgo, pôs em perigo a obra da Reforma, sustentando que há três causas que cooperam para a conversão do pecador: a palavra de Deus, o Espí¬rito Santo e a vontade do homem que não resiste à graça de Deus.
Em quase todas as igrejas, infelizmente, é deixada ao homem uma parte no trabalho ¬da salvação - ou são as boas obras com as quais será necessário pagar os pecados e merecer o céu, ou é, pelo menos, a boa vontade com a qual o homem vai ao encontro da graça de Deus.
O que o homem não quer é destronar a si mesmo e deixar a Deus todos os méritos ¬da salvação. No entanto o plano divino é salvar o homem sem nenhuma cooperação. Diz o apóstolo Paulo: "pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras para que ninguém se glorie" (Efésios 2.8,9).
REFLEXÕES
Em que sentido o homem possui vontade própria e em que sentido não a possui? Apesar de o evangelho ser proclamado a tantas pessoas por que muitos não crêem?
Christiano J. Steyer
19° Artigo - DA CAUSA DO PECADO
Com respeito à causa do pecado ensina-se entre nós que, embora o Deus onipo¬tente haja criado a natureza toda e a conserve, todavia é a vontade pervertida que opera o pecado em todos os maus e desprezadores de Deus. Pois esta é a vontade do diabo e de todos os ímpios, a qual, tão logo Deus retraiu a mão, desviou-se de Deus para o mal, conforme diz Cristo, João 8: "Quando o diabo profere a mentira, fala do que lhe é próprio”
ESTUDO
Se Deus sabe tudo de antemão, deve ter tido conhecimento de que o homem, que ele iria criar, não deixaria de transgredir sua vontade. Por que, mesmo assim, o criou?
Se Deus governa este mundo, por que se pratica tanta maldade?
Você já deve ter ouvido alguém fazer tais perguntas, ou você mesmo já as fez! Alguns esclarecimentos sobre tais questões nos são dados por Deus em sua palavra. No entanto, muitas perguntas permanecem sem respostas.
Com relação a algumas questões podemos consultar a palavra de Deus e apreciar a réstia de luz que ela deixa brilhar. Se não conseguirmos abrir a porta e desvendar todo o mistério, contentemo-nos com a pequena espiada permitida pela porta entreaberta.
Enfoquemos dessa maneira o assunto do presente artigo.
SÚMULA HISTÓRICA
O que deu motivo à formulação deste artigo da Confissão de Augsburgo foi a acusação dos anabatistas que diziam que os luteranos culpavam a Deus como sendo ele a causa do pecado. Os católicos compartilhavam dessa acusação. Dizia o Dr. João Eck, que representa a igreja de Roma, que Lutero em seu livro "De servo arbítrio", escrito contra Erasmo¬, transformava Deus em autor do pecado. O presente artigo responde a certas acusações ¬feitas aos luteranos.
O artigo 19 está dividido em duas partes. Primeiramente apresenta a parte negativa¬ declarando que
DEUS NÃO É A CAUSA DO PECADO
Não é possível negar que o homem, após a queda em pecado, não pode deixar de pecar contra Deus. Essa constatação afirma a palavra de Deus em Gênesis 8.21: "e mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade". O mesmo fato expressa o Salmo 51.5: “Eu nasci na iniqüidade e em pecado me concebeu minha mãe."
Se o homem é pecador desde a sua concepção, não foi, contudo, assim que Deus o criou, No princípio, tanto o homem como os anjos, eram bons. Ao concluir, no sexto dia, a obra da criação de todas as coisas, "viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom" (Gênesis 1.31).
Um mundo perfeito e muito bom está de acordo com o Criador: Deus perfeito, justo e santo. A criação trazia a marca do Criador.
A queda do homem veio trazer o sofrimento, a dor, o suor, a imperfeição, o pecado, a morte.
Deus tem aversão ao pecado, tanto assim que, para livrar o homem da condenação, não deixou de poupar o seu próprio Filho amado, permitindo que sofresse na cruz o castigo que todos mereciam sofrer no inferno.
Foi a solução que o misericordioso Deus encontrou para que o homem, a coroa da criação, pudesse estar com ele para todo o sempre.
Esta é a parte negativa do artigo, isto é, Deus não é a causa do pecado. Na positiva, afirma-se qual é
A CAUSA DO PECADO
A causa do pecado é a vontade desordenada dos maus; isto é, do diabo e dos ímpios.
Certo número de anjos, entre os quais se inclui Satanás, afastou-se livremente de Deus, tornando-se seu inimigo, como mostra Judas 6:" e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande dia". Foi a tentação de Satanás que levou o homem a cair em pecado (Gênesis 3.1-14). Daí por diante, tanto Satanás como a vontade corrompida do homem, continuam sendo a causa do pecado, como lemos em João 13.2: "Durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que traísse a Jesus"; Tiago 1.13-15: "Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado gera a morte": 2 Timóteo 2.26: "Mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade".
Como o diabo, tendo sido criado um anjo bom, pôde conceber o orgulho, a desobediência e a revolta contra Deus, permanece um mistério. O artigo 19 não quer decifrar este enigma. Constata dois fatos bíblicos: Deus não é o autor do pecado, e, a causa do pecado é Satanás e a vontade desordenada do homem. Por isso lembra Pedro: "Humilhai-vos, portando, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar; resisti-lhe fumes na fé, certos de que sofrimentos iguais aos vossos estão-se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo".
REFLEXÕES
Você já experimentou seriamente, não pecar mais? Conseguiu? Alguma vez você já resolveu não repetir um determinado pecado, que se tornou mais freqüente?
Imagine como seria o mundo se os primeiros homens não tivessem obedecido à satanás?
Pense em um pecado terrível que você nunca cometeu, por hipótese, de raiva matar alguém. De repente você passaria a ser um assassino. Transporte esse pensamento em relação a Jesus. Ele nunca cometeu pecado, mas no Getsêmane e no Gólgota sofreu como tendo cometido toda a sorte de maldade e perversidades.
O cristão peca menos que o descrente?
O cristão passa a vida em constante luta contra o pecado. Nem a metade das pessoas que vivem se dizem cristãs. O que você está fazendo para que pelo menos uma pessoa além de você se torne um cristão e desta forma passe também a lutar contra o pecado¬?
Christiano J. Steyer
Artigo 20 - DA FÉ E DAS BOAS OBRAS
Os nossos são acusados falsamente de proibirem boas obras. Pois os seus escritos sobre os Dez Mandamentos bem como outros escritos provam que deram bom e útil ensino ¬e admoestação a respeito de estados e obras cristãos verdadeiros, de que pouco se ensinou ¬antes de nosso tempo. Insistia-se, ao contrário, em todos os sermões principalmente em obras pueris e desnecessárias, tais como rosários, culto de santos, vida monástica, rosários, jejuns e dias santos prescritos, confrarias, etc. Também o nosso oponente já não exalta essas obras desnecessárias tanto quanto antigamente. Além disso, também aprenderam ¬a falar agora da fé, sobre a qual nada pregaram em tempos anteriores. Agora, contu¬do ensinam que não nos tornamos justos diante de Deus unicamente por obras, mas acrescentaram a fé em Cristo, e dizem que a fé e as obras nos tornam justos diante de Deus. Essa doutrina pode trazer um pouco mais consolo do que quando apenas se ensina confiar em obras.
Visto, pois, que a doutrina da fé, que é o artigo principal no cristianismo, foi negligenciada por tempo tão longo, como é forçoso confessar, havendo-se pregado apenas doutrinas de obras por toda a parte, os nossos deram a seguinte instrução a respeito:
Em primeiro lugar, que nossas obras não nos podem reconciliar com Deus e obter graça; isso, ao contrário, sucede apenas pela fé, quando cremos que os pecados nos são perdoados por amor de Cristo, o qual, ele só, é o mediador que pode reconciliar o Pai. Agora, quem pensa realizar isso mediante obras e imagina merecer a graça, esse despreza a Cristo e procura seu próprio caminho a Deus, contrariamente ao evangelho.
Essa doutrina respeito à fé é tratada aberta e claramente por Paulo em muitas passagens, de modo especial em Efésios 2: "Pela graça fostes salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, porém é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie, etc".
E que aqui não se introduziu interpretação nova é coisa que se pode provar com Agostinho, que trata essa questão diligentemente e também ensina assim, a saber, que alcançamos ¬ a graça e nos tornamos justos diante de Deus por intermédio da fé em Cristo e não por obras, conforme mostra todo o seu livro De spiritu et litera.
Conquanto essa doutrina seja muito desprezada entre pessoas não experimenta¬das verifica-se, todavia, que é muito consoladora e salutar para as consciências tímidas e apavoradas. Porque a consciência não pode alcançar descanso e paz mediante obras, porém somente pela fé, quando chega à segura conclusão pessoal de que por amor de Cristo possui um Deus gracioso, conforme também diz Paulo Romanos 5: "Justificados mediante a fé, temos o descanso e paz com Deus."
Em sermões de outrora não se promoveu esse consolo, porém se impeliram as pobres consciências para as próprias obras, e se empreenderam diversas espécies de obras A alguns a consciência impeliu para os mosteiros, na esperança de que lá poderiam granjear graça mediante vida monástica. Alguns excogitaram outras obras com o propósito de, merecer graça e satisfazer por pecados. A experiência de muitos deles foi não haverem alcançado a paz mediante essas coisas. Razão por que foi necessário pregar essa doutrina da fé em Cristo e dela tratarem diligentemente, a fim de que se soubesse que é somente pela fé, sem mérito, que se apreende a graça de Deus.
Dá-se, outrossim, instrução para mostrar que aqui não se fala da fé possuída também pelos demônios e os ímpios, os quais também crêem os relatos que contam haver Cristo padecido e que ressuscitou de entre os mortos; fala-se, ao contrário, da fé verdadeira, que crê alcançarmos por Cristo a graça e a remissão dos pecados.
Aquele que sabe que por Cristo possui um Deus gracioso, esse conhece a Deus, o invoca, e não está sem Deus, como os gentios. Porque demônios e ímpios não crêem nesse artigo da remissão dos pecados. Por isso é que são inimigos de Deus, não o podem invocar, e nada de bom podem esperar dele. A Escritura fala sobre a fé no sentido que acabamos de indicar, e não entende por fé um conhecimento que demônios e homens ímpios têm. Pois em Hebreus 11 ensina-se, com respeito à fé, que crer não é apenas conhecer a história mas ter confiança em Deus e receber sua promessa. E Agostinho também nos lembra devemos entender a palavra “fé’: na Escritura, como significando confiança em Deus de que nos é clemente, não apenas conhecer tais noticia históricas que também os demônios conhecem”.
Ensina-se, ademais, que boas obras devem e têm de ser feitas, não para que nelas se confie a fim de merecer graça, mas por amor de Deus e em seu louvor. Sempre é a fé somente que apreende a graça e o perdão dos pecados. E visto que pela fé é dado o Espírito Santo, o coração também se torna apto para praticar boas obras. Porque antes, enquanto está sem o Espírito Santo, é demasiadamente fraco. Além disso, está no poder do diabo, que impele a pobre natureza humana a muitos pecados, como vemos nos filósofos que se lançaram à empresa de viver vida honesta e irrepreensível e, contudo não conseguiram realizá-lo, porém caíram em muitos pecados graves e manifestos. É o que acontece ao homem quando está sem a fé verdadeira e sem o Espírito Santo e se governa apenas pela própria força humana.
Por isso não se deve fazer essa doutrina concernente à fé a censura de que proíbe boas obras; antes deve ser louvada por ensinar que se façam boas obras e oferecer auxílio quanto a como se possa chegar a praticá-las. Pois que sem a fé e sem Cristo a natureza e capacidade humanas são por demais frágeis para praticar boas obras, invocar a Deus, ter paciência no sofrimento, amar o próximo, exercer com diligência ofícios ordenados, ser obediente, evitar maus desejos, etc. Tais obras elevadas e autênticas não podem ser feitas sem o auxílio de Cristo, conforme ele mesmo diz em João 15: "Sem mim nada podeis fazer."
ESTUDO
O que preciso fazer para merecer o céu? Se alguém fizesse essa pergunta a você, qual seria sua resposta?
Você já deve ter ouvido pessoas falarem sobre essa questão de tanta importância. Costumeiramente dizem que o homem deve deixar de fazer o mal e fazer o bem; deve cumprir os mandamentos; deve fazer boas obras! Em resumo, o homem deve fazer alguma coisa.
Está certo isso? Há relação entre as boas obras e a salvação? Essas questões nos introduzem ao estudo do artigo 20.
SÚMULA HISTÓRICA
Dizia-se que a doutrina da justificação do pecador somente pela fé, ensinada pelos luteranos, proibia a prática de boas obras. Reiteradas vezes, o Dr. Eck referia-se a Lutero ¬como a quem estava ensinando uma liberdade que conduzia à libertinagem. Essa teria sido a causa pela qual granjeara tantos adeptos entre o povo. Remover esses equívocos e proclamar a verdade da Escritura era o que se pretendia com a inclusão do presente artigo na Confissão de Augsburgo.
O PAPEL DAS BOAS OBRAS NA SALVAÇÃO
As boas obras não nos podem reconciliar com Deus. A reconciliação já teve lugar por ocasião do sofrimento de Jesus sobre a cruz. "Está consumado" exclamou ele antes de entregar o seu espírito. O perdão está agora à disposição de todos. Aquele que confia nos méritos de Cristo possui a fé salvadora, e com isso entra na posse do perdão, está reconciliado com Deus. “Não há mais possibilidade de que as boas obras consigam adquirir o que já foi conquistado.”
A Escritura fala a respeito disso com muita clareza. Paulo diz a Timóteo: "Deus nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos (1 Timóteo 1.9). Conferir também Gálatas 2.16; Efésios 2.8,9; Isaias 53.4,5; Tito 3. 4-5.
Aquele que de alguma forma crê poder alcançar a salvação, inteiramente ou parcialmente, por intermédio de boas obras, está com isso desprezando a obra da salvação efetuada por Jesus - ou por rejeitá-la totalmente ou por considerá-la insuficiente. Esse caminho não leva a Deus. Jesus falou a seus discípulos: "Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim" (João 14.6).
A CONSCIÊNCIA E A DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ SEM AS OBRAS
Uma consciência atemorizada que crê alcançar perdão por intermédio de obras não consegue paz e descanso. O reformador Martinho Lutero não chegou à paz por semelhante caminho por mais que a procurasse através de obras consideradas meritórias: ingressando no mosteiro, vivendo como mendigo, fazendo trabalhos humildes, açoitando-se a si mesmo, jejuando, dormindo pouco, e por muitas outras.
Paz íntima, a consciência somente pode obter quando chega à conclusão segura de que pelos méritos de Cristo possui um Deus gracioso. Aos romanos, o apóstolo Paulo escreve: "Justificados, pois, mediante a fé, tenhamos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes" (Romanos 5.1,2).
A JUSTIFICAÇÃO É ENSINO DA IGREJA APOSTÓLICA
A Confissão de Augsburgo argumenta que a doutrina da justificação do pecador pela fé, sem as obras, além de ser bíblica, foi a doutrina ensinada na igreja, nos primeiros séculos do cristianismo.
Agostinho, um dos grandes líderes do passado (354-403), muito considerado, pelos católicos, escreveu que alcançamos a graça e nos tornamos justos diante de Deus por intermédio da fé em Cristo e não por obras.
A NECESSIDADE DAS BOAS OBRAS
A necessidade de fazer boas obras está muito ligada à essência das boas obras. Conforme a Escritura, boa obra é um fruto da fé justificadora. Pelo fato de recebermos a fé pelo Espírito Santo, o coração é habilitado para praticar boas obras. É Deus que opera boas obras no crente. Paulo escreve aos filipenses: "Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade" (Filipenses 2.13). Aos seus discípulos disse Jesus: "Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer" (João 15.5). Escrevendo também aos gálatas, Paulo atribui todas as boas obras dos crentes à atuação do Espírito Santo neles: "o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longaminidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio" (Gálatas 5.22,23). Conferir Filipenses 1.11.
Boas obras devem ser feitas, não para se confiar nelas, como se por seu intermédio pudéssemos obter a graça de Deus, mas, por amor a Deus e em seu louvor.
A gratidão pelo perdão dos pecados adquiridos por Jesus, atribuído em nosso favor gratuitamente, move nosso íntimo para a prática de boas obras. Foi o que o apóstolo Paulo disse aos Coríntios ao escrever: "Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos, logo todos morreram, e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou ¬(2 Coríntios 5.14,15). Consultar também Gálatas 2.20 e Salmo 1 16.12.
REFLEXÕES
Estamos sendo gratos a Deus pela doutrina bíblica da justificação pela fé, sem as obras, doutrina que nos foi reconquistada através da Reforma?
Estamos convictos de que somos justos perante Deus pelos méritos de Cristo e que não conseguimos merecer o perdão dos pecados por qualquer obra que nós realizamos?
Estamos fazendo boas obras?
O que nos leva a fazer boas obras?
Escreva uma relação daquilo que você faz por gratidão a Deus pelo perdão dos seus pecados obtidos pelos sofrimentos de Jesus.
Christiano J. Steyer
21° Artigo - DO CULTO AOS SANTOS
ARTIGOS SOBRE OS QUAIS HÁ DIVERGÊNCIA E EM QUE SE RECENSEIAM OS ABUSOS QUE FORAM CORRIGIDOS
Visto, pois, que em nossas igrejas nada se ensina sobre os artigos da fé que seja contrário à Sagrada Escritura ou à igreja cristã universal, havendo-se apenas corrigido alguns abusos, que, em parte, se introduziram por si mesmos com o correr do tempo, e em parte foram estabelecidos à força, vemo-nos obrigados a recenseá-los e a indicar a razão por que nestes casos se admitiu modificação, a fim de que a Majestade Imperial possa ver que não se procedeu aqui de maneira não-cristã ou petulante, porém que fomos compelidos ¬a permitir tal modificação pelo mandamento de Deus, que com justiça se há de respeitar ¬mais do que qualquer costume.
Do culto aos santos os nossos ensinam que devemos lembrar-nos deles, para for¬talecer a nossa fé ao vermos como receberam graça e foram ajudados pela fé; e, além disso, a fim de que tomemos exemplo de suas boas obras, cada qual de acordo com sua vocação assim como Sua Majestade Imperial pode seguir, salutar e piedosamente, o exemplo de Davi, fazendo guerra ao turco; pois ambos estão investidos em ofício real, que exige protejam e defendam os seus súditos. Entretanto, não se pode provar pela Escritura que se devem invocar os santos ou procurar auxilio junto a eles. "Porquanto há um só reconciliador e mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo” 1 Timóteo 2, o qual é o único Salvador, o único Sumo Sacerdote, Propiciatório e Advogado diante de Deus, Romanos 8. E somente ele prometeu que quer atender a nossa prece. E buscar de coração a esse Jesus Cristo em todas as necessidades e preocupações também é o culto divino mais elevado ¬segundo a Escritura: "Se alguém pecar, temos Advogado junto do Pai, Jesus Cristo, o justo, etc."
Esta é, aproximadamente, a suma da doutrina que é pregada e ensinada em nossas igrejas, para correta instrução cristã e consolo das consciências, e para melhora dos crentes. Pois que de modo nenhum vamos querer pôr as nossas próprias almas e consciências¬ diante de Deus no mais sério, no maior dos perigos, mediante abuso do nome ou da palavra de Deus, nem deixar ou herdar aos nossos filhos e descendentes doutrina diversa da que concorda com a palavra pura, divina, e com a verdade cristã. Visto, pois, que essa doutrina se fundamenta claramente na Sagrada Escritura, e, além disso, não é contrária nem se opõe à igreja cristã universal, e, na verdade, tampouco à Igreja Romana, quanto se pode coligir dos escritos dos Pais, pensamos também que os nossos oponentes não podem estar em desacordo conosco nos artigos acima indicados. Age, por isso, de maneira totalmente inamistosa, precipitada e contrariamente a toda unidade e amor cristãos aqueles que por essa razão empreendem, sem qualquer fundamento sólido em preceito ou Escritura divina, separar, rejeitar e evitar os nossos como hereges. Porque o distúrbio e a dissensão dizem respeito precipuamente a algumas tradições e abusos. Portanto, já que nos artigos principais não há ausência de fundamento ou defeito perceptível, e sendo essa nossa confissão divina e cristã, deveriam os bispos, justiçosamente, mostrar-se mais brandos, ainda que falha houvesse entre nós com respeito à tradição, muito embora esperamos apresentar sólido fundamento e causa quanto à razão por que entre nós houve mudança relativamente a algumas tradições e abusos.
ESTUDO
Estamos sendo embalados atualmente por uma imensa onda ecumenista. Há uma de grande tendência para esquecer e minimizar as diferenças entre as denominações religiosas. Até ser cristão e pertencer a uma seita ou "filosofia" oriental ao mesmo tempo é já possível.
Infelizmente este não é o autêntico ecumenismo bíblico que quer todos os cristãos unidos em "espírito e em verdade". Mas nesta onda vão sendo levados muitos descuidados e mal orientados. Há, por exemplo, os que afirmam que a Igreja Católica Romana mudou muito e está ensinando muitas coisas que a Reforma Luterana pregou. O presente estudo da Confissão de Augsburgo, comparado com o que ensina e pratica aquela igreja ainda hoje, seguramente vai decepcionar os que assim pensam. Nosso artigo ilustra muito bem o que afumamos.
IDOLATRIA GROSSEIRA
Apesar do Cristo do Corcovado, nosso Senhor não é o Padroeiro do Brasil. É a Virgem Maria. Apesar de esta igreja se denominar de cristã, os seus maiores monumentos ¬não são dedicados a Cristo, mas à Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora Medianeir¬a o Sagrado Coração de Maria. As grandes procissões e romarias não são cristocêntricas como não o é a sua doutrina. As estátuas são de Maria, as promessas, as preces, as velas, os cânticos são para Maria.
Aqui em São Leopoldo, RS, onde está o nosso Centro Administrativo, existe o maior santuário católico da região. É dedicado ao Pe. Réus e fatura mais no fim de semana ¬do que as casas comerciais conseguiram durante dias úteis. Aqui se ora ao Pe. Réus, aqui os jornais estampam o seu retrato com "as graças alcançadas" e o seu quadro pode ser admirado até em casas de evangélicos.
Tudo isto ganha proporções inacreditáveis quando a televisão transmite para todo ¬o país a imagem de imensas massas humanas, exploradas na sua crendice natural, acompanhando famosas imagens ou estátuas, de uma pecadora como nós, liderados pelos bispos e cardeais e pelos nossos governantes, crentes ou oportunistas. É a mais grosseira das idolatrias. É o desprezo completo do primeiro mandamento e de todos os outros.
A BÍBLIA NÃO DEIXA DÚVIDAS
"Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem" (1 Timóteo 2.5).
"Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro" (1 João 2. 1 e 2).
"Eu, João, sou quem ouviu e viu estas coisas. E, quando as ouvi e vi, prostei-me ante os pés do anjo que me mostrou essas coisas, para adorá-lo. Então ele me disse: Vê, não faças isso; eu sou conservo teu, dos teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus" (Apocalipse 22.8 e 9).
"Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto" (Mateus 4.10).
Não há necessidade de comentários. A evidência dos fatos colocada diante destas expressas e claras palavras de Deus nos mostra que a prática de adorar a mãe de Jesus e outros santos é totalmente condenada por Deus.
Um dos nossos teólogos escreveu: "A negação de Cristo é exatamente a essência de todo o papismo. Isto fica demonstrado também na "invocação dos santos" ordenada pela igreja papal."
QUEM SÃO OS SANTOS
Chamamos de santos, de acordo com a Escritura, os que foram santificados, pelo Espírito Santo e lavados dos seus pecados pelo sangue do Filho de Deus. São pecadores como todos os homens e, portanto, não têm mérito nenhum diante do santo e justo Deus. Foram declarados justos e santos unicamente por amor do sacrifício redentor de Cristo. E tudo o que realizaram de bom e útil foi operado neles pela graça de Deus. Por isso dizemos com o escritor sagrado:
"E quanto a nós, temos esta grande multidão de testemunhas ao nosso redor. Deixamos de lado tudo o que nos atrapalha, e o pecado que se agarra firmemente em nós, e corramos com coragem a carreira que está à nossa frente. Continuemos com os nossos, olhos fixos em Jesus, pois é dele que depende a nossa fé, desde o começo até o fim" (Hebreus 12. 1 e 2, NTLH).
NÓS VENERAMOS OS SANTOS
Os cristãos luteranos cultivam a verdadeira veneração dos grandes homens de fé, patriarcas, profetas, apóstolos e pais da igreja. De acordo com este artigo nos lembramos deles para: .
1. fortalecer nossa fé ao vermos como receberam graça e foram abençoados pelo Senhor;
1. tomar exemplo de suas boas obras e imitá-los na sua fidelidade e dedicação.
TERMINA A PRIMEIRA PARTE DA AUGUSTA
Este é o último dos artigos propriamente doutrinários da Confissão. Os outros tratam de abusos praticados na igreja e sobre os quais há divergências. Até aqui não devia haver divergência, diz Melanchton, redator da Confissão, pois "essa doutrina se fundamenta claramente na Sagrada Escritura, e, além disso, não é contrária nem se opõe à igreja cristã universal, e, na verdade, tampouco à Igreja Romana, quanto se pode coligir dos escritos dos pais".
Os "protestantes" queixam-se do fato de terem sido rejeitados e evitados como hereges, "sem qualquer fundamento sólido". Por isso reclamam maior brandura dos bispos.
Esta maneira da falar atesta que Lutero e seus companheiros de fato não queriam separar-se da igreja e fundar uma nova. Queriam restaurar a verdadeira igreja católica ou universal. Os que dominavam sobre a igreja e a conduziam ao erro, eles é que deviam ter saído, pois eram os verdadeiros hereges.
LEMBRAI-VOS DOS VOSSOS GUIAS
Dizem os sociólogos que estamos vivendo uma época de rompimento com o passado, com a tradição, com a história. No campo ideológico, político e religioso. É evidente que nós luteranos que cremos e permanecemos fiéis à eterna palavra de Deus e celebramos jubileus de quatrocentos e cinqüenta anos de Confissões que continuamos a aceitar na sua íntegra, pela graça de Deus - é evidente que de nenhuma maneira queremos romper com o passado. Rompemos com o nosso passado de erros e pecados. Mas queremos nos integrar cada vez mais ao imenso tesouro que a graça do Senhor nos legou através da vida santificada de tantos heróis da fé que nos precederam.
Nestes dias em que nos lembramos dos anos de bênçãos das Confissões, da IELB, do Seminário Concórdia, vos convidamos a refletir sobre as edificantes lições que os santos do passado nos legaram e também sobre a importância de ouvirmos a voz da experiência cristã dos pais, mestres e líderes já embranquecidos que ainda estão entre nós.
REFLEXÕES
1. Você já perguntou aos fundadores de sua congregação por que escolheram o nome que ela tem? Para que tem servido este nome? Apenas para identificá-la entre as demais?
Que tal convidar seus irmãos e estudar a fundo a vida, obra e escritos de seu patrono: São Paulo, São João, São Lucas, São Mateus, Santo Estevão (se as novas congregaçõe¬s que estão nascendo forem mais criativas e escolherem novos nomes, com o tempo seremos especialistas na história e na imitação de todas as figuras de renome da bíblica e eclesiástica).
2. Num país de jovens, numa igreja com um ministério jovem, ao passarmos da condição de "filha" para "irmã", vemos uma grande necessidade de um reaprendizado do quarto mandamento (o primeiro da segunda Tábua) e uma urgente conscientização dos mais experientes e maduros para o difícil e indispensável papel que o Senhor lhes atribuiu no lar, na igreja, na escola e na sociedade.
"Lembrai-vos dos vossos guias" é um excelente e atual tema para uma série de reuniões de pais e filhos nas congregações.
Bruno F. Rieth
Artigo 22 - DAS DUAS ESPÉCIES DOS ACRAMENTO
Aos cristãos em geral, são dadas entre nós ambas as espécies do sacramento, porque é clara ordem e mandamento de Cristo Mt 5.26: "Bebei dele todos." Cristo aí ordena com palavras claras, a respeito do cálice, que todos bebam dele.
E para que ninguém pudesse questionar essas palavras e glosá-las como se pertencesse apenas aos sacerdotes, Paulo mostra, em 1 Co 11, que toda a assembléia da igreja corintiana usou de ambas as espécies. E esse uso continuou por longo tempo na igreja, conforme se pode provar com a história e os escritos dos Pais. Cipriano menciona em muitos lugares que naquele tempo se dava o cálice a todos. E São Jerônimo diz que os sacerdo¬tes que administram o sacramento distribuem ao povo o sangue de Cristo. O próprio Papa Gelásio ordena que não se divida o sacramento Distinct. 2. De consecratione cap. Compe¬rimus. Também não se encontra em parte nenhuma um cânone que ordene se receba apenas uma das espécies. E ninguém pode saber quando ou por quem foi introduzido esse costume de receber uma só espécie, ainda que o Cardeal Cusano menciona o tempo em que esse uso teria sido aprovado. Agora, é manifesto que tal costume, introduzido contrariamente ao preceito de Deus, bem como contrariamente aos cânones antigos, é incorreto. Razão por que foi impróprio onerar as consciências daqueles que desejaram fazer uso do santo sacramento de acordo com a instituição de Cristo, e coagi-los a procederem contrariamente à ordenação de Cristo Senhor nosso. E visto ser a divisão do sacramento contrária à instituição de Cristo, omite-se também entre nós a costumeira procissão com o sacra¬mento.
ESTUDO
Cristo afirma que a Sagrada Escritura não pode falhar (João 10.35). É que toda ela é inspirada por Deus, pois seus escritores falaram da parte de Deus movidos pelo Espí¬rito Santo (2 Timóteo 3.16; 1 Pe 1.21). Pedro lembra que, se alguém fala, prega ou ensi¬na, deve fazê-lo sempre de acordo com os oráculos de Deus (1 Pedro 4.11). João afirma que ninguém tem o direito de tirar, acrescentar ou modificar qualquer verdade da Escritura (Apocalipse 22.18.19). Cristo e os apóstolos, porém advertem que nos últimos tempos surgiriam falsos cristos e falsos profetas, homens que adulterariam a palavra de Deus, que transmitiriam ensinos opostos à sã doutrina, que pregariam mentiras humanas dizendo que são verdades de Deus (Mateus 24.5-24; 1 Timóteo 1.10; 2 Timóteo 4.3,4). Cabe ao povo de Deus permanecer naquilo que aprendeu na palavra de Deus e rejeitar doutrinas contrárias ao ensino da Sagrada Escritura.
A IGREJA ROMANA ENSINA DOUTRINAS ERRONEAS
A igreja romana, embora ser considerada uma das igrejas cristãs, ensina várias doutrinas contrárias à revelação de Deus, entre as quais está o sacramento do altar. Igno¬rando, rejeitando ou adulterando intencionalmente as verdades de Deus sobre a santa ceia, a igreja romana comete dois erros: primeiro, ensina a falsa doutrina da transubstanciação. isto é, pelas palavras do sacerdote, o pão e vinho da santa ceia deixam de ser pão e vinho e se transformam em corpo e sangue; segundo, o comungante comum não recebe o vinho na ceia do Senhor, o qual é tomado somente pelo sacerdote.
Que dizer sobre este ensino romano? Haverá alguma fundamentação bíblica ou será invenção humana? Seria prudente silenciar sobre esta doutrina para não criar choque ou é necessário mostrar e condenar a heresia? Ou será um mero detalhe secundário que não altera a essência e eficácia da santa ceia? Ora, por amor à verdade bíblica, a Confissão de Augsburgo inclui o presente artigo exatamente para mostrar que a santa ceia apenas es¬tará sendo administrada conforme as palavras da instituição quando o comungante recebe os dois elementos exteriores, isto é, o pão e o vinho, sabendo que, em, com e sob o pão recebe o verdadeiro corpo de Cristo, e que, em, com e sob o vinho recebe o verdadeiro sangue de Cristo.
O COMUNGANTE DEVE RECEBER PÃO E VINHO
"Aos não clérigos são dadas entre nós ambas as espécies do sacramento, porque é clara ordem e mandamento de Cristo". As ordens, mandamentos e promessas de Deus são fiéis e verdadeiras. Ninguém recebeu autorização para alterar a palavra do Senhor. Fazê-lo, é transgressão da lei de Deus. Cristo não usou meias palavras ao instituir o sacramento do altar. Não deixou dúvidas. Não deu opções. Os três evangelistas falam claramente nas duas espécies: "Tomou Jesus um pão... dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo; a seguir tomou o cálice... dizendo: Bebei dele todos" (Mateus 26.26-30; Marcos 14.22-24; Lucas 22.19-23). E para desfazer qualquer dúvida sobre a questão, Marcos acrescenta: "E todos, beberam dele".
"E para que ninguém pudesse questionar essas palavras - lembram os confessores luteranos - e glosá-las como se pertencesse apenas aos sacerdotes, Paulo mostra, em 1 Coríntios 11, que toda a assembléia da igreja corintiana usou de ambas as espécies. " Paulo diz expressamente que Cristo "tomou o pão" e que "tomou também o cálice", e mostra que a ceia do Senhor foi celebrada assim: "Porque todas as vezes que comerdes este pão e ¬beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha". Logo, nenhum sacerdote ou papa pode modificar a ordem e o mandamento de Cristo. Para que a santa ceia possa ser o sacramento instituído por Cristo, deve ser celebrada sob duas espécies, e todo o comungante, presente, deve receber pão e vinho.
A IGREJA CRISTÃ ADMINISTRA A SANTA CEIA SOB DUAS ESPÉCIES
"E esse uso continuou por longo tempo na igreja, conforme se pode provar com a história e os escritos dos Pais". Este argumento, embora secundário, é válido, pois mostra que a igreja cristã permanecia fiel ao ensino bíblico, também sobre a doutrina da santa ceia, dando ao comungante os dois elementos: pão e vinho. Cipriano, que foi bispo de Cartago, no norte da África, e que faleceu no ano 258, testemunha que todos os crentes recebiam pão e vinho ao participar da mesa do Senhor. Jerônimo, que traduziu a Bíblia para o latim, e que morreu em Belém no ano de 420, lembra que os sacerdotes de seu tempo administravam a santa ceia sob duas espécies. O papa Gelásio (492-496) condena a intenção de celebrar a ceia do Senhor sob uma forma apenas, mostrando que é uma heresia dos maniqueus. Apenas no Concilio de Constança, em 1415, a igreja romana aprova, definitivamente como lei eclesiástica a heresia sobre a santa ceia.
IMPORTA OBEDECER A DEUS E NÃO AOS HOMENS
Administrando o sacramento do altar apenas com o pão, negando o vinho aos demais (o qual o sacerdote toma), a igreja romana, além de transgredir a ordem e mandamento, de Cristo, introduz preceitos humanos, e faz uma grande diferença entre o sacerdote e outros cristãos, colocando estes numa segunda categoria religiosa. Isto não é permanecer na palavra de Deus.
"Agora, é manifesto que tal costume, introduzido contrariamente ao preceito de Deus, bem como contrariamente aos cânones antigos, é incorreto". A palavra de Deus é verdade, é infalível, é eterna. Nenhuma igreja, nenhuma assembléia, nenhum homem por maior que seja sua posição social, política ou religiosa, pode mercadejar ou adulterar a palavra de Deus. Cristo foi muito claro: "Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (João 8.31.32). O apóstolo também foi muito claro: ''Mas, ainda que nós, ou mesmo um anjo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema" (Gálatas 1-8). João foi muito claro: "Todo aquele que ultrapasse a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus" (2 João 9)_ Como nós também "não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos" (Atos 4.20), precisamos responder à igreja romana o que Pedro e os demais apóstolos afirmaram aos sacerdotes e todos os integrantes do sinédrio: "Antes importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5.29).
É PRECISO ENSINAR E REJEITAR
Nós precisamos repetir ainda hoje o "cremos, ensinamos e confessamos" de nos¬sos pais, e por amor à fidelidade doutrinária, também não omitir o "rejeitamos e conde¬namos" a todos os ensinos contrários à Escritura. Devemos agradecer, louvar e glorificar ao Senhor da igreja por ter preservado em nossa igreja a sã palavra da verdade. Sejamos cristãos agradecidos a Deus. Sejamos testemunhas de Cristo, testemunhas que proclamam a clara mensagem da salvação e combatem toda doutrina que está em desconformidade com a Sagrada Escritura. Deus nos concedeu a graça de conhecermos e administrarmos o santo sacramento do altar conforme instituído por Cristo. Querendo sempre a remissão dos pecados, querendo crescer em nossa fé, querendo "correr com perseverança a carreira que nos está proposta", procuremos participar sempre da santa ceia, sendo fiéis até a morte. Amém.
REFLEXÕES
1. A Sagrada Escritura pode falhar? Por que não?
2. Porque a igreja romana não dá o vinho a todos?
3. Quando a igreja romana aprovou sua falsa doutrina da santa ceia?
4. Quem é discípulo de Jesus e conhecerá a verdade?
5. Está certo quando a igreja diz "cremos, ensinamos e confessamos" e "rejeita¬mos e
condenamos" ?
Leopoldo Heimann (L)
23º Artigo - DO MATRIMÔNIO DOS SACERDOTES
Houve no mundo entre todos, quer de alto, quer de baixo estado, magna e poderosa queixa a respeito de grande incontinência e procedimento e vida dissolutos dos sacerdotes que não foram capazes de se manterem continentes, e, na verdade, se alcançara o auge com tais vícios terríveis.
Para evitar tanto escândalo feio e grande, adultério e outra impudicícia, alguns sacerdotes entre nós entraram no estado matrimonial. Como razão indicam que a isso foram impelidos e movidos por grande aflição de suas consciências, à vista do fato de a Escritura testemunhar claramente que o estado matrimonial foi instituído pelo Senhor Deus para evitar impureza, como diz Paulo: "Por causa da impureza, cada um tenha a sua própria esposa." Também: "É melhor casar do que viver abrasado. " E Cristo, ao dizer, em Mateus 19: "Nem todos captam essa palavra", indica, ele que bem sabia qual a situação do homem, que poucas pessoas têm o dom da castidade. "Pois Deus criou o ser humano como homem e mulher" Gênesis 1. Se está ou não no poder ou capacidade do homem melhorar ou modificar, sem especial dom e graça de Deus, por resolução ou voto próprios, a criação de Deus, a excelsa Majestade, decidiu-o muito claramente a experiência. Qual o bem, que vida honrosa e casta, que conduta cristã, honesta ou integra dai resultou no caso de muitos, quão terrível e pavoroso desassossego e tormento de consciência muitos tiveram no fim da vida por causa disso, é coisa manifesta, e muitos dentre eles o confessaram ¬pessoalmente. Como, pois, a palavra e o mandamento de Deus não podem ser alterados por nenhum voto ou lei humanos, por essas e outras razões e causas os sacerdotes e outros clérigos casaram.
Também se pode provar com a história e os escritos dos Pais que na igreja cristã antiga houve o costume de os sacerdotes e diáconos casarem. Diz Paulo, em vista disso:1 Timóteo 3: ''É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher." E faz apenas quatrocentos anos que na Alemanha os sacerdotes foram compelidos à força a deixarem o matrimônio e fazerem voto de castidade. Todos se opuseram a isso com tamanha seriedade e rijeza, que um arcebispo de Mogúncia, o qual publicara o novo edito papal a respeito, quase foi morto no tumulto de uma revolta de todo o copo sacerdotal. E aquela proibição logo no começo foi efetivada com tanta rapidez e impropriedade, que o papa, ao tempo, não só proibiu o matrimônio de sacerdotes para o futuro, mas ainda rompeu o casamento daqueles que havia muito já estavam nesse estado, o que não é apenas contrário a todo direito, divino, natural e civil, mas também inteiramente oposto e contrário aos cânones estabelecidos pelos próprios papas, bem como aos mais renomados concílios.
Também se tem ouvido freqüentes vezes muitas pessoas eminentes, devotas e sensatas expressarem opiniões e receios similares: que tal celibato obrigatório e privação do matrimônio, que o próprio Deus instituiu e deixou livre ao homem, nunca produziu qualquer bem, mas introduziu muitos vícios grandes e malignos e muitas maldades. Até um dos papas, Pio II, conforme mostra sua biografia, muitas vezes disse - e permitiu que fossem atribuídas - essas palavras: que pode haver algumas razões por que seja o matrimônio proibido aos clérigos; mas que havia razões muito mais elevadas, muito maiores e muito mais importantes por que novamente se lhes devia deixar livre o matrimônio. Sem dúvida nenhuma, o Papa Pio, como homem ajuizado e sábio, falou essa palavra por causa de grave receio.
Queremos, por isso, em submissão à Majestade Imperial, confiar que Sua Majestade, como imperador cristão, digno de alto louvor, graciosamente levará em conta que ao presente, nesses últimos tempos e dias, de que faz menção a Escritura, o mundo se tornará cada vez pior e os homens sempre mais infirmes e frágeis.
Por isso é muito necessário, útil e cristão fazer esse exame cuidadoso, a de não suceder que, proibido o casamento, se alastrem piores e mais vergonhosas impudicícias e vícios nas terras germânicas. Pois que sem dúvida ninguém será capaz de alterar ou fazer essas coisas mais sabiamente, ou melhor, que o próprio Deus, que instituiu o matrimônio, para socorrer a fragilidade humana e prevenir a impureza.
Assim também os antigos cânones dizem que de vez em quando se deve abrandar e relaxar a severidade e o rigor, por causa da fragilidade humana e a fim de acautelar e atalhar coisas piores.
Ora, tal sem dúvida seria cristão e mui necessário também no caso presente. E que prejuízo poderia trazer para a igreja cristã universal o matrimônio dos sacerdotes e do clero, especialmente o dos pastores e de outros que devem servir a igreja? A continuar por mais tempo essa dura proibição do matrimônio, provavelmente haverá falta de sacerdotes e pastores no futuro.
Estando, pois, fundamentado na palavra e no mandamento de Deus isso de os sacerdotes e clérigos poderem casar, e provando a história, além disso, que os sacerdotes casavam, e havendo o voto de castidade produzido número tão elevado de feios e incristãos escândalos, tanto adultério, tão horrível e inaudita imoralidade e vicios hediondos que até alguns honestos de entre os cônegos, bem como alguns cortesãos de Roma, muitas vezes reconheceram o fato e lastimosamente alegaram que tais vícios in clero, por horrendos e desmedidos, haveriam de suscitar a ira de Deus, é deplorável que o matrimonio cristão não só tenha sido proibido, mas que em alguns lugares se haja tido o atrevimento de castiga-lo sem demora, como se fosse grande maldade, não obstante haver Deus ordenado na Sagrada Escritura que se tenha em toda a honra o estado matrimonial. Da mesma forma é o matrimônio grandemente exaltado no direito imperial e em todas as monarquias em que houve leis e direito. Só em nosso tempo é que se começa a martirizar as pessoas, apesar de inocentes, apenas por causa de casamento, e acresce que se faz isso com sacerdotes, que deveriam ser poupados acima de outros. E isto sucede não só contrariamente ao direito divino, mas ainda em oposição aos cânones. Paulo apóstolo 1 Timóteo 4 chama às doutrinas que proíbem o casamento ensino de demônios. Assim o mesmo Cristo diz João 8 que o diabo é homicida desde o princípio. Bem concordam as duas sentenças, por forma que realmente devem ser ensinos de demônios proibir o casamento e atrever-se a manter semelhante doutrina com derramamento de sangue.
Todavia, assim como nenhuma lei humana pode abolir ou modificar o mandamento de Deus, da mesma forma também nenhum voto pode alterar o preceito divino. Essa também a razão de São Cipriano aconselhar deverem casar as mulheres que não guardam castidade jurada, e diz epist. 11 assim: "Se, porém, não querem ou não podem guardar a castidade, é melhor que casem do que caírem, no fogo por sua volúpia. E devem acautelar-se bem para não causarem nenhum escândalo aos irmãos e irmãs."
Ademais, todos os cânones mostram grande clemência e eqüidade para com aqueles que fizeram voto quando jovens. E foi na mocidade que a maioria dos sacerdotes monges acabou nesse estado, por ignorância.
ESTUDO
Durante o papado, o matrimônio foi considerado um estado menos digno, ao passo que o celibato foi louvado como algo especialmente sagrado e merecedor da salva¬ção. A descoberta do evangelho levou os reformadores também à correta compreensão do matrimônio, reconhecendo-o como um estado santo e agradável a Deus, e, portanto, o abriu também de novo ao clero.
FONTE DE PROBLEMAS
Pela queda dos homens em pecado, o sexo se tornou uma fonte de muitos peca¬dos e problemas.
Muitas coisas agem com forte pressão perturbadora sobre o comportamento se¬xual e o matrimônio, como por exemplo: a vida aglomerada em sociedade, os meios de comunicação, a perda do pudor, os problemas econômicos que barram aos jovens o acess¬o ao matrimônio em tempo propício. Toda a pessoa, também o cristão, enfrenta a partir da adolescência muitos problemas, angústias, pecados e desespero. Mesmo na vida matrimo¬nial mais harmoniosa, há problemas a enfrentar e a carregar com paciência na força que Cristo supre.
Não é de estranhar que, já de muito cedo, houve aqueles que consideraram o se¬xo algo repugnante, por ser fonte de inúmeros pecados. Assim houve em toda a história direções opostas: aqueles que degradavam a mulher, a serva, a um ser sem alma e outros que fizeram do adultério um ato de culto; aqueles que atribuíam ao celibato um grau su¬perior de santidade e aqueles que exaltavam o homem que consegue sustentar o maior nú¬mero de mulheres. Esta corrupção em ambas as direções continua até nossos dias.
O CELIBATO
Por influência judaica (essênios) e pagã, o espírito que considerava o celibato um estado mais perfeito, se manifestou cedo na igreja cristã. Na medida em que penetrava nas comunidades a idéia da justificação pelas obras, também crescia a idéia do celibato. No concílio de Nicéia (325) foi solicitado a proibição do matrimônio para os pastores, pois já havia muitas comunidades que preferiam pastores celibatários. O pedido retornou em quase todos os sínodos. O papa Sirius (396) proibiu o casamento aos pastores, e houve fortes pressões contra pastores casados. A questão, no entanto, permaneceu em discussão até o ano de 1074, quando o papa Gregório VII proibiu o matrimônio aos sacerdotes. O celibato foi introduzido à força e encontrou forte resistência, causou terríveis aflições mulheres e filhos de padres foram postos na rua. Todos que se negavam a aceitar a ordem foram encarcerados ou depostos do ministério.
Com razão o apóstolo Paulo chama tal doutrina de "ensino de demônios" (1 Timóteo 4.1). Os argumentos bíblicos buscados para defender o celibato são forjados. Argumenta-se que os sacerdotes no Antigo Testamento realizavam seus serviços no templo afastados de seus lares (Lucas 1.23). Um turno, normalmente compreendia uma semana (1 Crônicas 5.22-25). Concluem, dizendo: como os sacerdotes do Novo Testamento servem com tempo integral, por isso não devem casar. Citam também a passagem de 1Coríntios 7.5, onde Paulo fala da oração e concluem: como o sacerdote deve orar sempre, não deve casar. Estes argumentos distorcem a palavra de Deus.
O SANTO ESTADO MATRIMONIAL
O santo estado matrimonial foi instituído por Deus no jardim do Éden e abençoado por Deus. A queda dos homens em pecados trouxe ao matrimônio muita dor e aflição, mesmo assim não deixa de ser um estado ordenado e abençoado por Deus. Deus deseja que o homem deixe o seu pai e sua mãe e se una à sua mulher. Deus tem agrado e prazer no matrimônio de seus filhos, por isso o matrimônio é exaltado nos salmos (128). Jesus fez seu primeiro milagre numa festa de casamento, para honrar este estado. Ao mesmo tempo o matrimônio serve para evitar tentações e quedas em pecado (1 Coríntios 7.9).
Na verdade traz também a cruz. Não é fácil dois seres pecadores viverem em comunhão. Diariamente precisam aprender a renunciar aos seus interesses e crescer no amor. Precisam aprender a viver mutuamente do perdão. Além disto, a cruz pesa sobre o lar, como a doença, a preocupação com o sustento, etc. Em tudo isso são educados a confiarem em Deus.
Tudo isso é altamente proveitoso para o ministro, que saberá aconselhar muito melhor, conhecendo a vida familiar.
Toda a má compreensão do matrimônio provém da má compreensão do evan¬gelho. Onde compreendemos que somos salvos pela graça de Cristo e de que por esta gra¬ça somos filhos de Deus, compreenderemos a não exaltar uma obra sobre a outra obra, mas compreenderemos que a vida santa e agradável a Deus é cada um ser encontrado fiel ali onde Deus o colocou. Assim o evangelho não somente coloca o matrimônio no seu devido lugar de estado santo, mas também concede forças, consolo e perdão.
REFLEXÕES
1. Releia a definição do Catecismo Menor sobre o matrimônio, no sexto manda¬mento.
2. A igreja tem certos trabalhos, como por exemplo, em pontos avançados na missão, ou em hospitais, lares para menores abandonados ou idosos, onde necessita de pessoas com o dom da castidade. Deve a igreja orar por estes dons e estimular pessoas a buscarem estes dons?
24° Artigo - DA MISSA
Injustamente são os nossos acusados de haverem abolido a missa. Pois é manifesto, sem jactância, que a missa entre nós é celebrada com maior devoção e seriedade que entre os adversários. E as pessoas também são instruídas muitas vezes e com o máximo zelo sobre o santo sacramento, para que foi instituído e como deve ser usado, a saber, a fim de com ele consolar as consciências atemorizadas, através do que o povo é atraído para a comunhão e missa. Ao mesmo tempo também se dá instrução contra outras, errôneas doutrinas concernentes ao sacramento. Não houve, igualmente, modificação notável nas cerimônias públicas da missa, à exceção do fato de em alguns lugares se cantarem hinos alemães além dos latinos, para instruir e exercitar o povo, já que a finalidade principal de todas as cerimônias é que o povo delas aprenda o que lhe é necessário saber de Cristo.
Antes de nosso tempo, entretanto, a missa foi mal-usada de diversas maneiras, como é notório, de tal sorte, que foi transformada em feira, havendo sido comprada e vendida, e, na maior parte, celebrada em todas as igrejas por causa de dinheiro. Homens eruditos e piedosos censuraram esse abuso, repetidas vezes, mesmo antes de nosso tempo. Depois que os pregadores entre nós pronunciaram sermões a esse respeito e os sacerdotes foram advertidos da terrível ameaça que deve com justiça mover a todo cristão, a saber, que é réu do corpo e do sangue de Cristo quem usar do sacramento indignamente, depois disso essas missas comerciais e missas particulares que até aqui haviam sido celebradas compulsoriamente por causa do dinheiro e das prebendas, foram abolidas em nossas igrejas.
Ao mesmo tempo foi censurado o terrível erro de se haver ensinado que Cristo, Senhor nosso, mediante a sua morte satisfez apenas pelo pecado original e que instituiu a missa como sacrifício pelos outros pecados, tendo-se, assim, transformado a missa em sacrifício pelos vivos e pelos mortos, sacrifício pelo qual se tirem pecados e se reconcilie a Deus. Disso, ademais, resultou haver-se discutido se uma missa rezada por muitos merecia tanto como dizer missas especiais para indivíduos. Dai é que veio a grande, inumerável multiplicidade de missas, de forma tal, que se quis com essa obra alcançar junto a Deus tudo quanto se precisava. Entrementes, a fé em Cristo e o culto verdadeiro ficaram esquecidos.
Houve, por isso, instrução a respeito, como sem dúvida o exigia a necessidade, para que se soubesse qual a maneira acertada de usar o sacramento. Em primeiro lugar, a Escritura mostra, em muitos lugares, que pelo pecado original e por outros pecados nenhum sacrifício há senão a só morte de Cristo. Pois está escrito ad Hebraeos que Cristo se ofereceu uma única vez, satisfazendo com esse sacrifício por todos os pecados. É novidade de todo inaudita na doutrina eclesiástica isso de que a morte de Cristo haja satisfeito somente pelo pecado hereditário e não também por outros pecados. É de se esperar, isso, compreendam todos que esse erro não foi censurado injustamente.
Em segundo lugar, São Paulo ensina que alcançamos graça diante de Deus pela fé, não por obras. Manifestamente contrário a isso é o abuso da missa de pensar que se obtém graça mediante essa obra. E é sabido que se usa a missa a fim de por ela remover pecados, bem como para conseguir de Deus graça e toda sorte de bens, não apenas o sacerdote para si mesmo, porém ainda pelo mundo inteiro e por outros, vivos e mortos.
Em terceiro lugar, o santo sacramento foi instituto não para com ele estabelecer, um sacrifício pelo pecado - pois o sacrifício já sucedeu anteriormente, - mas a fim de que por ele se nos desperte a fé e se consolem as consciências, as quais pelo sacramento percebem que Cristo lhes promete a graça e a remissão dos pecados. Razão por que sacramento requer fé, sendo em vão seu uso sem fé.
Visto, pois, que a missa não é sacrifício para tirar os pecados de outros, vivos ou mortos, devendo, ao contrário, ser comunhão em que o sacerdote e outros recebem o sacramento para si mesmos, observa-se entre nós o costume de celebrar missa em dias santos, e, havendo comungantes, em outros dias; e aqueles que o desejam são comungados. De sorte que entre nós a missa é preservada em seu uso correto, tal como foi observada na igreja em outros tempos, conforme se pode provar com São Paulo 1 Co 11, e além disso pelos escritos de muitos Pais. Crisóstomo informa como o sacerdote, diariamente, fica em pé e convida uns à comunhão e a outros proíbe que se aproximem. Também indicam os cânones antigos que um oficiava e comungava os outros sacerdotes e diáconos. Pois assim rezam as palavras no cânone niceno: Os diáconos, de acordo com sua ordem, devem receber o sacramento depois dos sacerdotes, das mãos do bispo ou do sacerdote.
Já que nisso não se introduziu, por conseguinte, nenhuma coisa nova, que não haja existido na igreja desde tempos antigos, e visto que também não houve modificação notável nas cerimônias públicas da missa, excetuado o fato de as outras missas, desnecessárias, rezadas, talvez por abuso, ademais, da missa paroquial, foram eliminadas, não se deve, por justiça, condenar como herética e não-cristã essa maneira de celebrar missa. Pois em tempos passados, também nas igrejas grandes, onde havia muita gente, não se rezava missa diariamente, nem mesmo nos dias em que o povo se reunia. Conforme indica a Tripartita Historia lib. 9, em Alexandria, às quartas e sextas-feiras, a Escritura era lida e interpretada e realizavam-se os demais atos de culto sem a celebração da missa.
ESTUDO
O sacramento do altar recebe diversos nomes: mesa do Senhor, partir do pão, santa ceia, ceia do Senhor, comunhão, eucaristia e missa. A igreja cristã dos primeiros sé¬culos usava as duas últimas designações - eucaristia e missa - como sinônimos de santa ceia. Hoje, estes dois nomes são empregados especialmente na igreja romana. Nada, po¬rém, impede que a igreja luterana também use os mesmos nomes, uma vez que não seja alterada a correta doutrina bíblica da santa ceia. Logo, quando o artigo da Confissão de Augsburgo trata "da missa", ele não está falando das missas católicas, dos ofícios reli¬giosos ou cultos, dos rosários ou novenas, mas do correto uso da santa ceia. Para desfa¬zer qualquer dúvida, repetimos que a Confissão de Augsburgo está empregando o termo missa como sinônimo de ceia do Senhor.
LÍNGUA QUE O POVO NÃO ENTENDE
A igreja romana afirma que a missa apenas podia ser celebrada em língua latina, acusando a igreja da reforma de haver abolido este costume. Argumentando em favor do emprego da língua latina, os romanos diziam: "Sendo que o sacerdote é pessoa que per¬tence à toda igreja e não somente a seu ambiente particular, não se deve estranhar que ele administre a missa no idioma latino dentro da igreja latina ...Tudo que se exige ao inculto (que não entende o latim) é que diga amém ao fato; os cânones mesmos exigem isso ... Os católicos devem familiarizar-se com os modos e costumes da igreja". Embora o Concí¬lio Vaticano II tenha efetuado algumas alterações nos costumes e tradições, a língua latina ainda continua sendo a língua oficial da igreja romana.
Ora, não foi assim que pensou e ensinou o apóstolo Paulo, pois ele afirma: "As¬sim vós, se, com a língua, não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? porque estareis como se falásseis ao ar" (1 Coríntios 14.9).
PREGAR NA LÍNGUA DO POVO
A mensagem da salvação em Cristo Jesus deve ser anunciada na língua que o povo entende. Diz um princípio da comunicação que "a mensagem deve ser levada ao homem, lá onde ele está e como ele é, para que a compreenda". Foi o que Lutero fez ao traduzir a Bíblia na língua do povo, ao escrever livros para o povo, ao pregar Cristo ao povo. A re¬forma não foi iconoclasta. Conservou tudo que era possível conservar da doutrina e das tradições, mas alterou tudo que era necessário alterar dentro da igreja. Por isso diz o artigo 24: "Não houve modificação notável nas cerimônias públicas da missa, à exceção do fato de em alguns lugares se cantarem hinos alemães além dos latinos", e esta alteração é feita "para instruir e exercitar o povo, já que a finalidade principal de todas as cerimônias é que o povo delas aprenda o que lhe é necessário saber de Cristo". Esta continua sendo a mesma razão porque a igreja luterana procura pregar o evangelho e administrar os santos sacramentos na língua que o povo compreende.
OS LUTERANOS CELEBRAVAM O SACRAMENTO COM MAIOR DEVOÇÃO E SERIEDADE
"Injustamente são os nossos acusados de haverem abolido a missa". Esta era a falsa acusação da igreja romana. O sacramento do altar continuava sendo administrado. Mas sem os erros doutrinários, sem os abusos do clero. Por isso os luteranos refutam esta acusação e até mostram que "a missa entre nós é celebrada com maior devoção e serie¬dade", pois "as pessoas são instruídas muitas vezes e com o máximo zelo sobre o santo sacramento, para que foi instituído e como deve ser usado, a saber, a fim de com ele consolar as consciências atemorizadas, através do que o povo é atraído para a comunhão e missa". Além desta orientação sobre a importância e consolo que a ceia do Senhor oferece, o povo recebia instrução sobre as doutrinas errôneas que eram ensinadas pela igreja romana, tais como a falsa doutrina da transubstanciação, a negação do vinho ao comungante não clérigo, a adoração da hóstia, e o sacrifício da missa. Os luteranos tratavam com tamanha devoção e seriedade a celebração da santa ceia que a mesma só era concedida aos comungantes que "foram previamente examinados e absolvidos". É o que ainda acontece hoje na igreja luterana quando é feita a inscrição da santa ceia, o exame de consciência, alocução confessional, a confissão e a absolvição nos cultos públicos.
OS LUTERANOS ABOLIRAM AS MISSAS COMERCIAIS E PARTICULARES
"Essas missas comerciais e missas particulares... foram abolidas em nossas igrejas". Não, a missa nos cultos públicos, isto é, a celebração da santa ceia, não foi abolida, mas era cada vez mais incentivada e "celebrada com maior devoção e seriedade". O que as igrejas luteranas, porém, aboliram foi o abuso, a superstição e a comercialização que existiam na igreja romana. Em sua infidelidade doutrinária, influenciada por homens com interesses sociais e econômicos, vencida pela ganância do dinheiro, os sacerdotes romanos administraram a santa ceia a pessoas particulares, sem permissão das congregações, visando lucros financeiros. Eram missas mercantis. Assim, a ceia do Senhor foi "transformada em feira, havendo sido comprada e vendida, e, na maior parte, celebrada em todas as igrejas por causa do dinheiro". É contra estes abusos e erros que os pregadores luteranos pronunciaram sermões, advertindo a todos "que é réu do corpo e do sangue de Cristo quem usar do sacramento indignamente". Pois essas missas comerciais e missas particulares, celebradas por causa do dinheiro, foram abolidas nas igrejas luteranas.
O POVO RECEBIA INSTRUÇÃO BÍBLICA
"Houve, por isso, instrução a respeito, como sem dúvida o exigia a necessidade, para que se soubesse qual a maneira certa de usar o sacramento". Além dos abusos com missas comerciais e missas particulares, os sacerdotes romanos ampliavam os erros doutrinários sobre a ceia do Senhor. Ensinavam, erroneamente que "Cristo, Senhor nosso, mediante a sua morte satisfez apenas pelo pecado original e que instituiu a missa como sacrifício pelos¬ outros pecados, tendo, assim, transformado a missa em sacrifício pelos vivos e pelos mortos". E é assim que a "fé em Cristo e o culto verdadeiro ficaram esquecidos" na igreja romana.
Por isso, a necessidade de uma instrução bíblica sobre a maneira acertada de usar o sacramento do altar. A Sagrada Escritura mostra que o único sacrifício pelo pecado original e qualquer outro pecado é a morte de Cristo. Hebreus confirma esta verdade ao mostrar que ¬Cristo, como "sumo sacerdote, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pe¬cadores e feito mais alto que os céus", pagou todos os pecados, fazendo "isto uma vez por todas, quando a si mesmo se ofereceu ... tendo obtido eterna redenção" (Hebreus 7. 26,27; 9.12). João também lembra que "o sangue de Jesus, seu Filho, nos purificou de todo o pecado" (1 João 1.7).
CONSOLO ÀS CONSCIENCIAS ATERRORIZADAS
Logo, Jesus expiou todos os pecados. Por outro, ensina o apóstolo Paulo, contrariame¬nte ao que afirma Roma, que "alcançamos graça diante de Deus pela fé, não por obras”, quando diz claramente: "Porque pela graça sais salvos, mediante a fé: e isto não vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie" (Efésios 2.8,9; Romanos 3.20; 6.22,23). A santa ceia também não foi instituída "para estabelecer um sacrifício ¬pelo pecado", pois isto Cristo já fez "quando a si mesmo se ofereceu, uma vez por todas, tendo obtido eterna salvação" (Hebreus 7.27; 9.12), mas para "que por ele se nos desperte a fé e se consolem as consciências". Por isso, o sacramento do altar, além de criar a fé, fortalece a fé na obra redentora de Cristo.
A igreja luterana, pois, não aboliu a missa. Aboliu, isto sim, os abusos, as supers¬tições e as outras doutrinas falsas que a igreja romana praticava. A nossa igreja procura instruir o povo na língua do povo sobre o correto uso da santa ceia, administrando-a nos cultos públicos conforme as palavras da instituição, com decência e ordem, com devoção e seriedade, para que o comungante possa receber o que Deus promete: perdão, vida e salvação. Amém.
REFLEXÕES
1. Que outros nomes recebe a santa ceia?
2. A santa ceia ou os cultos públicos devem ser celebrados em língua latina?
3. Que são as missas comerciais e missas particulares? Qual o seu erro?
4. Cristo morreu só pelo pecado original ou por todos os pecados?
5. Ler e analisar Efésios 2.8,9 e Romanos 3.20; 6.22,23.
Leopoldo Heimann (L)
25º Artigo - DA CONFISSÃO
Os nossos pregadores não aboliram a confissão. Pois se conserva entre nós o costume de não dar o sacramento àqueles que não foram previamente examinados e absolvidos. Ao mesmo tempo se instrui diligentemente o povo sobre o quanto é consoladora a palavra da absolvição e em quão elevada estima se deve ter a absolvição. Pois que não é voz ou palavra do homem que a pronuncia, senão palavra de Deus, o qual perdoa os pecadores. Porque é pronunciada em lugar de Deus e por ordem de Deus. No tocante a essa ordem e poder das chaves ensina-se, com grande diligência, quanto é consoladora e necessá¬ria para as consciências aterrorizadas. Ensina-se, além disso, como Deus exige que creiamos nessa absolvição, não menos do que se a voz de Deus soasse do céu, e que alegremente nos devemos consolar da absolvição e saber que por essa fé alcançamos a remissão dos pecados. Em tempos passados os pregadores, que ensinavam muito a respeito da confissão, não mencionaram sequer uma palavrinha concernente a esses pontos necessários, porém apenas martirizaram as consciências com longa enumeração de pecados, com satisfações, indulgências, romarias e coisas semelhantes. E muitos de nossos oponentes confessam eles mesmos que escrevemos e tratamos do verdadeiro arrependimento cristão mais apropriadamente do que se fez anteriormente, por longo tempo.
E da confissão se ensina: que ninguém deve ser constrangido a contar os pecados designadamente. Porque isso é impossível, conforme diz o Salmo: "Quem conhece os delitos?" E Jeremias diz: "Tão maligno é o coração do homem, que não há como penetrar-lhe os segredos. A misera natureza humana está engolfada tão profundamente em pecados, que é incapaz de ver ou conhecer a todos, e se fôssemos absolvidos apenas daqueles que podemos enumerar, pouco nos ajudaria isso. Razão por que é desnecessário constranger as pessoas a contarem os pecados nomeando-os expressamente. Assim também pensaram os Pais, como se vê em Dist. I de poenitentia, onde são citadas estas palavras de Crisóstomo: "Não digo que te exponhas publicamente, nem que a ti mesmo denuncies ou declares culpado junto a outrem, mas obedece ao profeta, que diz: "Revela ao Senhor os teus caminhos." Por isso, além de tua oração, confessa-te ao Senhor Deus, o verdadeiro juiz; não digas os teus pecados com a língua, mas em tua consciência. "Aqui se vê claramente que Crisóstomo não obriga a uma enumeração especificada dos pecados. Também a Glossa in Decretis, de poenitentia, Dist. 5 ensina que a confissão não é ordenada pela Escritura, porém que foi instituída pela igreja. Os nossos pregadores, todavia, ensinam diligentemente que a confissão deve ser conservada por causa da absolvição - que é sua parte principal e mais importante, - para consolo das consciências aterrorizadas, e ainda por algumas outras razões.
ESTUDO
A Sagrada Escritura afirma que não há homem justo sobre a terra que faça o bem e nunca peque. Todas as pessoas pecaram e pecam. Também o cristão. Mesmo regenerado e filho de Deus, o cristão ainda peca constantemente por palavras, pensamentos e ações. Mas o cristão não quer pecar e não quer viver em pecado, porque sabe que o pecado o separa de Deus e tranca a porta da vida eterna. O cristão quer viver em comunhão com o seu Deus nesta vida e na presença de seu Deus na glória dos céus.
O CRISTÃO FAZ CONFISSÃO E DESEJA A ABSOLVIÇÃO
Sabendo-se pecador, o verdadeiro filho de Deus faz constante confissão de seus pecados, transgressões e iniqüidades e deseja receber a absolvição de seus pecados, trans¬gressões e iniqüidades. O cristão sabe que o perdão é uma necessidade absoluta para viver uma vida abençoada aqui e uma vida gloriosa no além. O cristão também sabe que não existe perdão dos pecados se não há confissão dos pecados.
Por isso o cristão medita em verdades bíblicas como estas: "Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniqüidade do meu pecado" (Salmo 32.5). "O que encobre as suas transgressões, jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia" (Provérbios 28.13). "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça" (1 João 1.9). "Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocul¬tas" (Salmo 19.12). Fica, pois, claro que o cristão faz confissão de seus pecados com a finalidade de receber a absolvição de seus pecados.
Os sete últimos artigos (de 22 a 28) da Confissão de Augsburgo repetem, em par¬te, algumas doutrinas já expostas em artigos anteriores. Por que esta repetição? Para des¬fazer divergências e abusos que surgiram na igreja romana. A doutrina da confissão, já ana¬lisado no artigo 11, é retomada neste artigo 25 exatamente para, numa exposição mais detalhada e extensa, desfazer divergências e abusos, e mostrar o claro posicionamento da igreja luterana sobre a confissão e absolvição.
A VERDADEIRA CONFISSÃO NÃO É ABOLIDA
"Os nossos pregadores não aboliram a confissão". É uma resposta à acusação da igreja romana, a qual dizia que os luteranos haviam desprezado a doutrina da confissão e absolvição. Não era verdade, pois "conserva-se entre nós o costume de não dar o sacra¬mento àqueles que não foram previamente examinados e absolvidos". É o que ainda acon¬tece hoje na igreja luterana: além de existir a confissão e absolvição em todos os cultos públicos, todos os comungantes são levados à confissão de seus pecados e recebem a ab¬solvição de uma maneira bem especial nos cultos em que é celebrada a ceia do Senhor. O povo de Deus é instruído sobre a importância, as bênçãos e o consolo que encontra na ab¬solvição. O pastor sempre está atuando como servo do Senhor, como embaixador de Cristo, como sacerdote de Deus. Os pecados que o cristão confessa ao pastor, na realida¬de, são confessados a Deus. A absolvição que o filho de Deus recebe do pastor, na reali¬dade, está recebendo de Deus. O pastor não está pronunciando palavras humanas, mas está absolvendo "em lugar de Deus e por ordem de Deus". Por isso, ao explicar a confis¬são, Lutero lembra que a absolvição ou o perdão que recebemos do ministro é como se fosse de Deus mesmo, "sem duvidar de maneira alguma, mas crendo firmemente que os pecados são perdoados diante de Deus no céu". E, ao explicar o ofício das chaves e lem¬brar as palavras de Cristo "se de alguns perdoardes os pecados, de fato lhes terão sido per¬doados; se lhes retirverdes terão sido retidos", Lutero lembra que cada cristão deveria confessar: "Creio que tudo o que os ministros de Cristo, devidamente chamados, fazem conosco por sua ordem divina, é tão válido e certo no céu, como se Cristo mesmo, nosso Senhor, tratasse pessoalmente conosco, especialmente quando excluem da congregação cristã os pecadores manifestos e impenitentes e quando absolvem aqueles que se arrepen¬dem de seus pecados e querem corrigir a sua vida".
"E da confissão se ensina assim: que ninguém deve ser constrangido a contar os pecados designadamente. Porque isso é impossível. Ensina a igreja romana que a confis¬são particular é obrigatória, que o pecador deve enumerar e citar, nome por nome, todos os pecados ao sacerdote. O padre assume a posição de juiz e diz perdoar apenas os peca¬dos que foram mencionados. E assim "martirizaram as consciências com longa enumera¬ção de pecados, com satisfações, indulgências, romarias e coisas semelhantes".
HÁ DIFERENÇA ENTRE A CONFISSÃO DIANTE DE DEUS E DO MINISTRO?
Não é este o ensino da igreja luterana. Nossa igreja faz clara diferença entre a confissão diante de Deus e a confissão diante do pastor, pois "diante de Deus devemos confessar-nos culpados de todos os pecados, mesmo daqueles que ignoramos, como o fazemos no Pai Nosso; diante do ministro, porém, devemos confessar somente os pecados que sabemos e que nos pesam no coração". Como o filho de Deus nunca sabe a gravidade e quantidade de seus pecados, também é impossível ele fazer uma relação completa, nome por nome, de suas faltas, transgressões e iniqüidades. Isso é impossível. Além disso, o cris¬tão continuaria com sua consciência aterrorizada, pois nunca sabe se não esqueceu de re¬lacionar algum pecado. Que é impossível enumerar todos os pecados ao confessor, mos¬tram as palavras: "Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas" (Salmo 19.12); "enganoso é o coração, mais do que todas as coisas e desespe¬radamente corrupto, quem o conhecerá?" (Jeremias 17. 9). Exigir, pois, que o cristão deva relacionar cada um de seus pecados, quando, como e porque os cometeu, é pedir o que é impossível ao pecador e é exigência contrária ao ensino da Escritura.
É IMPOSSÍVEL ENUMERAR TODOS OS PECADOS.
É impossível ao pecador relacionar cada um de seus pecados, pois "a misera natureza humana está engolfada tão profundamente em pecados, que é incapaz de ver ou conhecer a todos". Lutero lembra que "se nós somente recebêssemos a absolvição daque¬les pecados que podemos enumerar, pouco auxilio receberíamos". Muito apropriadas também são as palavras de Crisóstomo: "Obedece ao profeta, que diz: Revela ao Senhor os teus caminhos. Por isso, além de tua oração, confessa-te ao Senhor Deus, o verdadeiro juiz; não digas os teus pecados com a língua, mas em tua consciência". Num recente en¬contro de pastores de nossa igreja, em que era analisado o movimento carismático, e, espe¬cialmente, o testemunho dos assim chamados renovados que, em público, citavam peca¬dos que cometiam antes e que agora já não cometiam mais, um jovem pastor disse: "O testemunho deles está errado. Eles estão enganados. Enumerando alguns dos pecados, e confessando-os em público, pensam que já confessaram tudo, e que agora são melhores que seus irmãos. Tornam-se hipócritas e orgulhosos. A questão é bem outra: Não adianta confessar apenas alguns pecados, é preciso confessar o pecado a Deus. Eu sou pecador, eu sou pecado. Eu preciso confessar o meu pecado e não apenas alguns pecados. Cristo mor¬reu e ressuscitou para livrar-me do pecado e não apenas de alguns pecados que eu co¬nheço. Por isso, para que eu possa receber todo o perdão, eu preciso confessar todo o meu pecado, dizendo: "O Deus, tem misericórdia de mim, pobre pecador". Muito correta esta colocação.
CONSOLO E ALEGRIA.
Por isso, é preciso não esquecer que diante de Deus devemos confessar todo o pecado; diante do ministro apenas aqueles que conhecemos e que nos pesam no coração. Não existe absolvição sem verdadeira confissão. Querendo receber perdão de todos os pecados, transgressões e iniqüidades, e viver uma vida em paz, consolo e alegria, o filho de Deus confessa: "O Deus, tem misericórdia de mim, miserável pecador", e terá como resposta: "Vai-te em paz, perdoados estão os teus pecados". Amém.
REFLEXÕES
1 Existe alguma pessoa sem pecado?
2 É possível enumerar todos os pecados que cometemos contra Deus?
3 Por que o salmista ora: "Absolve-me das (faltas) que me são ocultas"?
4 Que diz Lutero sobre a absolvição que o pastor faz?
5 Qual foi a diferença entre o fariseu e o publicano? Com que diferenças voltaram para as suas casas?
Leopoldo Heimann (L)
26º Artigo - DA JUSTIFICAÇAO DE COMIDAS
Em tempos anteriores ensinou-se, pregou-se e escreveu-se que diferença de comidas e tradições semelhantes instituídas por homens servem para merecer graça e satisfazer pelos pecados. Por essa razão se excogitaram diariamente novos jejuns, novas cerimônias, novas ordens e coisas semelhantes, e nisso se insistiu com veemência e energia, como se tais coisas fossem culto divino necessário pelo qual se merecesse graça se a gente o observasse e como se sua inobservância constituísse grande pecado. Disso resultaram muitos erros perniciosos na igreja.
Em primeiro lugar, com isso se obscurecem a graça de Cristo e a doutrina da fé, que o evangelho põe diante de nós com grande seriedade, insistindo vigorosamente que se considere o mérito de Cristo como algo de grande e precioso e se saiba que a fé em Cristo deve ser posta muito acima de todas as obras. Por isso São Paulo batalhou com veemência contra a lei de Moisés e as tradições humanas, para aprendermos que diante de Deus não nos tornamos piedosos mediante as nossas obras, porém somente pela fé em Cristo, que alcançamos a graça por amor de Cristo. Essa doutrina extinguiu-se quase que por completo com isso de se haver ensinado a merecer graça por jejuns prescritos, distinção de manjares, vestimenta, etc.
Em segundo lugar, tais tradições também obscureceram os mandamentos de Deus, pois foram colocadas muito acima dos preceitos divinos. Só se considerava vida cristã isto: observar as festas dessa maneira, rezar dessa maneira, jejuar dessa maneira, vestir-se dessa maneira. A isso é que se chamava vida espiritual, cristã. Ao mesmo passo, outras obras necessárias e boas eram consideradas coisa mundana, não-espiritual, a saber, aquelas que cada qual deve fazer de acordo com sua vocação, como, por exemplo, que o chefe de família trabalhe para sustentar mulher e filhos e criá-los no temor de Deus, que a mãe de família dê à luz filhos e zele por eles, que um príncipe e magistrado governe o pais e o povo, etc. Tais obras, ordenadas por Deus, cumpria tê-las na conta de coisa secular e imperfeita. As tradições, porém, tinham de ter o esplêndido nome de serem as únicas obras santas e perfeitas. Razão por que não havia limite nem fim quanto à feitura de tais tradições.
Em terceiro lugar, essas tradições se tornaram grande peso para as consciências. Porque não era possível guardá-las todas, e o povo, todavia pensava que isso era culto divino necessário. Escreve Gérson que muitos caíram em desespero com isso e alguns até cometeram suicídio por não terem ouvido nenhum consolo da graça de Cristo. Vê-se nos sumístas e teólogos como as consciências eram confundidas. Meteram eles ombro à tarefas de coligir as tradições e procuraram atenuantes para auxiliar as consciências. Tanto se ocuparam com isso, que entrementes ficaram negligenciados todos os salutares ensinamentos cristãos a respeito de coisas mais necessárias, como, por exemplo, a fé, o consolo em tentações severas, e coisas semelhantes. Também grande número de pessoas piedosas e eruditas antes de nosso tempo queixaram-se muito de que tais tradições causavam muitas contenda na igreja e de que pessoas devotas eram impedidas com isso de chegarem ao verdadeiro conhecimento de Cristo. Gérson e alguns outros fizeram queixa veemente a esse respeito. Na verdade, também desagradou a Agostinho o fato de as consciências haverem sido oneradas com tantas tradições. Razão por que no assunto dá instrução no sentido de que não se devem considerá-las coisas necessárias.
Os nossos, por isso, não ensinaram acerca dessas coisas por petulância ou desprezo da autoridade espiritual; foi, isto sim, a grande necessidade que exigiu dessem instrução concernente aos erros supramencionados, que surgiram de inteligência errônea da tradição. Porque o evangelho obriga a urgir na igreja a doutrina da fé, a qual, todavia, não pode ser entendida quando se pensa merecer graça por obras de própria escolha.
Ensina-se a esse respeito que pela observância das mencionadas tradições humanas não se pode merecer graça, ou reconciliar a Deus, ou satisfazer pelo pecado. E por isso não se deve fazer delas culto divino necessário. Para tanto citamos razões da Escritura. Em Mt 15 Cristo escusa os apóstolos quando não observaram tradições costumeiras, e diz: "Em vão me adoram com preceitos humanos." Ora, se a isso chama de culto vão, não pode ser necessário. E logo em seguida: "Não é o que entra pela boca o que contamina o homem." Paulo também diz Rm 14: "O reino de Deus não é comida nem bebida. "C1 2:" Ninguém vos julgue por causa de comida, bebida, sábados, etc. "Diz Pedro em Atos 15 "Por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais puderam suportar, nem nós? Mas cremos que seremos salvos pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo, como também aqueles o foram."Aqui Pedro proíbe onerar as consciências com mais cerimônias externas, sejam de Moisés, sejam de outro. E em 1 Tm 4 interdições tais como proibir comidas, proibir o casamento, etc. são chamadas doutrinas de demônios. Pois é diametralmente oposto ao evangelho instituir ou fazer semelhantes obras com o fim de por elas merecer perdão dos pecados ou por se pensar que ninguém pode ser cristão sem tal culto.
Agora, quanto ao fato de aqui os nossos serem acusados de proibirem mortificação e disciplina, como fez Joviniano, colher-se-á coisa bem diversa dos escritos deles. Pois com respeito à santa cruz sempre ensinaram que os cristãos devem sofrer, e isto é mortificação verdadeira, séria, que não inventada.
Ensinam, além disso, que cada um deve haver-se de tal maneira com exercício corporal, como jejum e outros labores, que não dê ocasião ao pecado, não para merecer graça com tais obras. Esse exercício corporal não deve ser praticado apenas em alguns dias determinados, mas continuamente. Cristo fala disso em Lc 21: "Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que os vossos corações fiquem sobrecarregados com as conseqüências da orgia”. Também: "Essa casta de demônios não pode ser expulsa senão por meio de jejum e oração." E Paulo diz que esmurra o seu corpo e o deduz à obediência. Com isso indica que a mortificação não deve servir para a finalidade de com ela merecermos graça, mas para manter o corpo idôneo, a fim de que não impeça o que a cada qual é ordenado fazer segundo a sua vocação. De sorte que não se condena o jejum, mas isso de se haver feito dele um culto necessário, com dias e comidas determinados, confusão das consciências.
Também se guardam entre nós muitas cerimônias e tradições, como a ordem da missa e outros cânticos, festas, etc., que servem para manter ordem na igreja. Ao mesmo tempo, todavia, ensina-se ao povo que esse culto divino externo não torna justo diante de Deus e que se deve observá-la sem onerar a consciência, por forma que, se for omitido causar escândalo, não há nisso pecado. Essa liberdade em cerimônias exteriores também foi mantida pelos Pais antigos. Pois no Oriente a Páscoa era celebrada em época diversa da de Roma. E como alguns quisessem considerar essa diversidade como cisma na igreja - foram admoestados por outros de que não era necessário observar uniformidade em tais costumes. Ireneu diz o seguinte: "Diferença no jejum não rompe a unidade da fé." Também da Dist. 12 está escrito, no tocante a essa dessemelhança em ordenações humanas, que ela não contraria a unidade da cristandade. E a Tripartita Hist. lib. 9 colige muitos usos eclesiásticos desiguais e inclui uma proveitosa sentença cristã: "Não foi intenção dos apóstolos instituir dias santos, mas ensinar fé e amor”
ESTUDO
O HOMEM GOSTA DE FAZER LEIS PARA OS OUTROS
Sempre que o homem deixa de humilhar-se inteiramente diante do santo e justo Deus; de reconhecer que nele não há mérito algum; de crer que estar na presença graciosa de Deus é exclusivo mérito de Cristo, o Mediador - sempre que isto se dá, o homem fica vaidoso, acha que ser cristão é grande coisa que ele mesmo conseguiu. Então começa a contar vantagem, acha-se melhor do que os outros. Tira a Cristo do seu lugar, tornando-se um "deusinho" ou um "salvadorzinho".
Dentro deste espírito, imediatamente se julga no direito de fazer leis para os outros: "Se eu sou tão bom, os outros também têm que ser! Vou dizer-lhes o que devem fazer para serem como eu." É o legalismo, a religião que trazemos quando chegamos ao mundo e sempre nos tentará.
- Você não estava pensando em si, estava? Pois devia! Este é um perigo que assalta a todos nós. Vamos citar um exemplo:
Alguém aumenta a sua contribuição para a missão (movido pelo Espírito Santo ou por falsa motivação), Fica acima da média dos irmãos. Aí pensa: "Esta gente tem que contribuir mais! São mesmo maus cristãos! Temos que achar um jeito de fazê-los contribuir mais. Vamos exigir uma taxa mínima ou então uma percentagem sobre o salário de cada um."
Pronto: aí está a lei, a fórmula, o método, a ordenação. Porque faltou o evangelho!
CRISTO GOSTA DE OFERECER O EVANGELHO PARA OS OUTROS
Existe apenas uma maneira legítima para motivar o filho de Deus ao serviço con¬sagrado ao Senhor e ao próximo: a cruz de Cristo! De lá se ouve a sua voz: "Assim eu me dei por ti, assim eu vim servir-te. Comprei-te pelo alto preço da minha própria vida. Do inferno te arranquei. Assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Toma sobre ti a tua cruz e segue-me! Agora eu te convido cordialmente: Entrega a tua vida a mim e ao teu próximo!"
Cristo não nos conquistou fazendo leis e exigências. Salvou-nos obedecendo, ser¬vindo, morrendo. Isto é evangelho. Pelo evangelho nos chamou. Pelo evangelho nos move a servi-lo e a chamar o próximo e servi-lo. Apontando para esta cruz, para este Cristo, para este evangelho, a freqüência aos cultos vai melhorar, também, a vida familiar e congrega¬cional, as contribuições vão aumentar, o amor vai crescer.
O Mestre não deu leis sobre isto. Vamos nós dá-las?
O Servo deu-se no evangelho. Vamos distribuí-lo!
O REINO DE DEUS NÃO É QUESTÃO DE COMIDA OU DE BEBIDA
Os grandes erros da igreja católica romana podem ser colocados justamente sob este título do legalismo ou da religião das obras. Daí a sua identificação como "Anticristo", pois coloca méritos humanos no lugar da graça do Filho de Deus. Exclui a Cristo, é contra (anti) Cristo.
O assunto das ordenações eclesiásticas já foi abordado no artigo 15. Agora se des¬taca especialmente a distinção ou diferença de comidas (o que e quando se pode comer e não comer), jejuns, cerimônias e outras ordens. A obediência à estas regras humanas que não tinham base na Escritura era exigida pelos padres e bispos como merecedora de graça e para satisfação dos pecados. Insistiram com veemência no seu cumprimento como se fossem culto divino necessário. Não obedecer era declarado grave pecado.
Daí resultou graves erros:
1. Obscureceram as doutrinas fundamentais do evangelho. A fé era mencionada mas a ênfase estava nas boas obras.
2. Colocaram seus decretos humanos acima dos mandamentos do Senhor. Con¬verteram o cristianismo numa religião de ritos e cerimônias. Os manjes e monjas passaram a ser conhecidos como "religiosos". Os verdadeiros cumpridores de seus deveres cristãos, familiares e profissionais eram considerados mundanos, imperfeitos, inferiores. Isto trou¬xe grande prejuízo, pois se relaxavam os verdadeiros deveres cristãos e se cultivava uma grande admiração pela vida monástica.
2. O artigo diz que estes decretos punham a consciência em grande perigo, pois era impossível guardar tudo. Ocupavam todo o tempo dos ministros, restando pouco tempo para anunciar o evangelho e consolar as consciências perturbadas.
DOUTRINAS QUE SÃO PRECEITOS DE HOMENS
Aos fariseus, que condenavam os discípulos por não observarem o cerimonial do Antigo Testamento (ultrapassado com a vinda de Cristo), o Mestre deu uma resposta que não deixa dúvidas: "Hipócritas! bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram. ensinando doutrinas que são preceitos de homens. E, tendo convocados a multidão, lhes disse: Ouvi e entendei: Não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto sim, contamina o homem" (Mateus 15.7-11).
Aos judeus que queriam que os cristãos convertidos do paganismo fossem cir¬cuncidados, Pedro disse, no concilio de Jerusalém: "Ele não fez nenhuma diferença entre nós e eles, pois perdoou os pecados deles porque creram. Então, por que é que vocês estão querendo desafiar a Deus? Assim vocês querem por uma carga nas costas dos que agora estão crendo. E esta carga, nem nós nem nossos antepassados pudemos carregar. Não pode ser assim. Nós cremos e somos salvos pela graça do Senhor Jesus, do mesmo modo que eles" (Atos 15.9-11), NTLH).
São palavras muito claras, ditas pelo "primeiro papa" e que também estão regis¬tradas na Bíblia usada pela igreja romana.
JUSTIÇA, PAZ E ALEGRIA QUE O ESPIRITO SANTO DÁ .
O cristão se coloca diariamente sob a disciplina do Espírito Santo, que pela força da palavra e dos sacramentos livra do pecado. O jejum e outras práticas e abstinências vo¬luntárias podem ser úteis. Porém jamais devem ser impostos como leis ou praticados como sendo obra meritória. A cruz que o cristão suporta como seguidor do Redentor, com boa vontade e humildade, é o melhor exercício e sacrifício de gratidão e amor. O apóstolo Paulo podia falar de experiência e nos legou preciosa recomendação: "O reino de Deus não é questão de comida ou de bebida, mas de justiça, paz e alegria que o Espírito Santo dá. E quem serve a Cristo desta maneira agrada a Deus, e é aprovado pelos homens. Por isso busquemos sempre as coisas que trazem a paz e que nos ajudam a fortalecer uns aos outros na fé" (Romanos 14.17-19, NTLH).
REFLEXÕES
1. Você poderia identificar o legalismo em seitas de nossos dias? Cite alguns exemplos.
2. Que perigos corremos em nossa própria igreja? Não estamos às vezes mais preocupados em aparentar santidade e cobrar fidelidade dos outros do que viver e anunciar o evangelho em toda a sua consoladora dimensão?
3. Convide os seus irmãos a estudar a fundo a situação em sua congregação. Veja se está sendo usada a legítima maneira de levar os membros a viverem a verda¬deira vida cristã. Como você pode colaborar para que isto possa acontecer mais e mais?
Que cuidados devem tomar os pregadores e cristãos em geral para que o mun¬do não pense que a religião cristã é uma coleção de obrigações que têm que ser cumpridas para se poder entrar no céu, mas que é a Boa Notícia da graça em Cristo Jesus que transforma os corações e a vida dos pecadores e lhes ofe¬rece gratuitamente a salvação eterna?
Bruno F Rieth
27° Artigo - DOS VOTOS MONÁSTICOS
Para falar dos votos monásticos é preciso que lembremos em primeiro lugar como se procedeu a esse respeito até agora, que espécie de vida houve nos mosteiros, e que muitas coisas se fizeram neles todos os dias não só contrariamente à palavra de Deus, mas também ao direito papal. Nos tempos de Santo Agostinho as ordens monásticas eram livres. Depois, quando se corromperam a verdadeira disciplina e doutrina, inventaram-se votos monásticos, e por meio deles se tentou restaurar a disciplina, como que por cárcere planejado.
Além disso, adicionou-se aos votos monástico grande número de outras coisas, e com tais cadeias e gravames foram carregados muitos, também antes da idade apropriada.
Aconteceu outrossim que muitas pessoas chegaram à vida monacal por ignorância. Ainda que não eram demasiadamente jovens, todavia não mediram nem entenderam suficientemente sua capacidade. Todos esses, enredados e envolvidos dessa maneira, eram obrigados e compelidos a permanecer nessas cadeias, não obstante o próprio direito papal conceder liberdade a muitos deles. E isso foi mais duro em conventos de freiras do que nos de frades, quando teria sido conveniente poupar as mulheres, como o sexo frágil. Esse rigor e dureza também desagradaram em tempos anteriores a muitas pessoas piedosas, pois certamente viam que meninos e meninas eram metidos em mosteiros para fins de subsistência material. Por certo viram, outrossim, quão mau foi o resultado dessa empresa, que escândalos e opressão de consciências trouxe. E muitas pessoas se queixaram do fato de em tão perigoso assunto os cânones haverem sido de todo negligenciados. Houve, além disso, opinião tal sobre os votos monásticos, que, como é manifesto, desagradou também a muitos monges de algum entendimento.
Alegavam que votos monásticos eram iguais ao batismo e que pela vida monástica se mereciam remissão dos pecados e justificação diante de Deus. Na verdade, acrescentavam ainda que pela vida monástica se merecia não só justiça e santidade, mas também que por essa vida se cumpriam os preceitos e os conselhos incluídos no evangelho, de modo que se exaltavam os votos monásticos mais do que o batismo. Afirmava-se, igualmente, que se merece mais com a vida monástica do que com todos os outros estados de vida que Deus ordenou, como o de pastor e pregador, o de governante, príncipe, senhor e similares, os quais todos servem a sua vocação, de acordo com o mandamento, a palavra e a ordem de Deus, sem espiritualidade fictícia. Nenhum desses pontos pode ser negado, pois que se encontram em seus próprios livros.
Ademais, quem era assim enredado e acabava no mosteiro, pouco aprendia sobre, Cristo. Antigamente havia nos mosteiros escolas de Letras Sagradas e de outras disciplina úteis à igreja cristã, de sorte que dos mosteiros se tomavam pastores e bispos. Agora, porém, a coisa é muito diferente. Em tempos passados congregavam-se em vida monacal para estudar a Escritura; agora alegam que o monacato é de natureza tal, que por ele se merecem a graça de Deus e a justiça diante dele. Na verdade, consideram-no estado de perfeição e o põem muito acima dos outros estados, que foram instituídos por Deus. Tudo isso é mencionado, sem qualquer detração, para que se possa perceber e entender tanto melhor o que os nossos ensinam e pregam e como o fazem.
Em primeiro lugar, ensina-se entre nós, com respeito aos que casam, que todos aqueles que não são aptos para o celibato têm poder, razão e direito de contrair matrimônio. Porque os votos não podem anular a ordenação e o mandamento de Deus. Ora, o preceito divino reza assim 1 Co 7: "Por causa da impureza, cada um tenha a sua própria esposa e cada uma o seu próprio marido. "Ademais, não só o mandamento de Deus, mas também a criação e a ordenação de Deus impulsam, obrigam e compelem ao estado matrimonial a quantos não foram agraciados com o dom da castidade por especial obra de Deus, segundo estas palavras do próprio Deus Gn 2: "Não é bom que o homem esteja só: far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea. "
Que é que se pode objetar a isso? Enalteça-se o voto e a obrigação o quanto se queira; sobreexalte-se a coisa o quanto se possa; ainda assim não se pode conseguir que com isso seja ab-rogado o mandamento de Deus. Dizem os doutores que os votos também não são obrigatórios quando feitos contrariamente ao direito papal; quanto menos então devem vincular, ser válidos e ter força contra o mandamento de Deus!
Se nenhuma razão existisse pela qual a obrigação dos votos pudesse ser anulada, também os papas não teriam dispensado e desobrigado deles. Pois não é da competência de nenhum homem rescindir obrigação que se origina de direito divino. Razão por que os papas julgaram acertadamente que se deve exercer alguma eqüidade nessa obrigação, e muitas vezes concederam dispensa, como no caso de um rei de Aragão e em grande número de outros casos. Ora, se houve dispensa para conservar coisas temporais, com muito mais justiça deve haver dispensa por causa de necessidade das almas.
Depois, por que os oponentes insistem com tanta energia que se devem guardar os votos sem considerarem primeiro se é própria a espécie do voto? Pois o voto deve dizer respeito a coisa possível e deve ser voluntário, inconstrangido. Mas bem se sabe como a castidade perpétua está no poder e na capacidade do homem. E são poucos os homens e as mulheres que fizeram o voto monástico de moto próprio, voluntária e refletidamente. Antes de chegarem a correto entendimento, são persuadidos ao voto monástico. Vez que outra também são forçados e impelidos a isso. Razão por que não é justo que se discuta com tanta imponderação e rigidez sobre a obrigação do voto, à vista do fato de todos confessarem ser contrário à natureza e ao caráter do voto isso de não se prometer voluntariamente e a bom conselho e com reflexão.
Alguns cânones e leis papais anulam os votos feitos antes da idade de quinze anos, pois julgam que antes dessa idade não se tem entendimento suficiente para poder determinar a ordem de toda a vida, como se deve constituí-la. Outro cânone concede mais anos ainda à fragilidade humana, pois proíbe que se faça o voto monástico antes dos dezoito anos. Isso dá à maioria escusa e razão para abandonarem os mosteiros, porquanto a maior parte chegou aos mosteiros na infância, antes daquela idade.
Por último, ainda que se pudesse censurar a violação do voto monástico, não poderia, contudo, seguir-se daí que se deva dissolver o casamento de tais pessoas. Porque Santo Agostinho diz 27. quaest. I, cap. Nuptiarum que não se deve dissolver tal matrimônio. E não é diminuto o prestígio de Santo Agostinho na igreja cristã, ainda que outros, posteriormente, julgaram de maneira diversa.
Se bem que o mandamento de Deus concernente ao matrimônio liberta a muitos deles do voto monástico, os nossos, contudo, apresentam ainda mais razões para mostrar que votos monásticos são nulos e não-vinculativos. Porque todo o culto divino instituído e escolhido por homens, sem mandamento e ordem de Deus, para alcançar justiça e a graça de Deus, é oposto a Deus e contrário ao santo evangelho e à ordem de Deus, como diz o próprio Cristo em Mt 15: "Em vão me adoram com preceitos de homens." Também São Paulo ensina em toda a parte que não devemos procurar a justiça em nossos preceitos e cultos divinos, inventados por homens, porém que justiça e piedade diante de Deus vêm da fé e da confiança, de crermos que Deus nos recebe na graça por causa de Cristo, seu único Filho.
Ora, é mui notório haverem os monges ensinado e pregado que a espiritualidade excogitada satisfaz pelo pecado e alcança a graça e a justiça de Deus. Que é isto senão diminuir a glória e o louvor da graça de Cristo e negar a justiça da fé? Segue-se, portanto, daí que esses votos costumeiros foram cultos divinos impróprios, falsos. Razão por que também não vinculam. Pois voto ímpio e feito contrariamente ao preceito de Deus é não-vinculativo e nulo. Também os cânones ensinam que o juramento não deve. ser vin¬culo do pecado.
Diz São Paulo em Gálatas 5: "De Cristo vos desligastes vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes. "Por isso também estão desligados de Cristo e decaíram da graça aqueles que querem ser justificados por intermédio de votos, pois roubam a honra de Cristo, o único que justifica, e dão essa honra a seus votos e a sua vida monástica.
Não se pode negar, outrossim, haverem os monges ensinado e pregado que eram justificados e mereciam a remissão dos pecados por meio de seus votos e vida e observân¬cias monásticas. Na verdade, inventaram coisa ainda mais desastrada e absurda, dizendo que partilhavam suas boas obras aos outros. Agora, se alguém quisesse repisar e salientar tudo isso impiedosamente, quanta coisa poderia reunir de que os próprios monges agora se envergonham e que quiseram não ter feito! Além de tudo isso, também persuadiram as pessoas de que as ordens espirituais inventadas são estados de perfeição cristã. Isto, sem dúvida, é exaltar as obras como meio da justificação. Ora, não é pequeno escândalo na igreja cristã apresentar ao povo semelhante culto, inventado pelos homens sem preceito de Deus, e ensinar que tal culto torna os homens íntegros e justos diante de Deus. Porque a justiça da fé, em que se deve insistir mais do que em qualquer outra coisa na igreja cristã, é obscurecida quando os homens são deslumbrados com essa singular espiritualidade Angélica e a simulação de pobreza, humildade e castidade.
Ademais, também os mandamentos de Deus e o verdadeiro e genuíno culto são obscurecidos quando o povo ouve que apenas os monges estão no estado da perfeição. Porque a perfeição cristã é isto: temer a Deus de coração e seriamente, e, contudo, ter, outrossim, cordial certeza, fé e confiança de que por causa de Cristo temos um Deus gracioso e misericordioso, que podemos e devemos pedir-lhe e dele desejar aquilo de que carecemos, e confiantes esperar dele auxílio em todas as aflições, de acordo com a profissão e o estado de cada um; e que, entrementes, também devemos praticar, com diligência, boas obras na vida exterior e servir a nossa vocação. Nisso consiste a verdadeira perfeição e o verdadeiro culto a Deus, não em mendigar ou em vestir hábito preto ou cinza, etc. Mas o povo comum concebe muitas opiniões perniciosas a partir da falsa exal¬tação da vida monástica, quando ouve que se enaltece sem qualquer moderação o estado celibatário. O resultado é que o povo está no estado matrimonial de consciência pesada. Quando o homem comum ouve que apenas os mendicantes são perfeitos, não lhe é possível saber que pode possuir bens e negociar sem pecado. Quando o povo ouve que não vingar-se é apenas um conselho, segue-se que alguns pensam não ser pecado exercer vingança fora do oficio. Alguns entendem que vingança de forma nenhuma convém aos cristãos, nem mesmo à autoridade.
Também se encontram, em leituras, muitos exemplos de alguns que abandonaram mulher e filhos, também seu ofício governamental, retirando-se a mosteiros. Isto, disseram eles, é fugir do mundo e procurar vida que agrada mais a Deus do que o modo de vida dos outros. Nem podiam saber que se deve servir a Deus nos mandamentos dados por ele, não nos mandamentos inventados por homens. Ora, não há dúvida de que estado de vida bom e perfeito é aquele que tem a seu favor o mandamento de Deus; por outro lado, é perigoso o estado de vida que não tem a seu favor o mandamento de Deus. Foi necessário dar ao povo boa instrução a respeito de tais coisas.
Em tempos passados também Gérson censurou o erro dos monges concernente à perfeição, e indicou que em sua época era novidade isso de se dizer que a vida monástica é estado de perfeição.
Tantas opiniões e erros ímpios se prendem aos votos monásticos: que justificam e tornam integro diante de Deus, que são a perfeição cristã, que com eles se cumprem tanto os conselhos como os preceitos evangélicos, que têm obras supererogatórias, as quais não se devem a Deus. Porquanto tudo isso é falso, vão e inventado, segue-se que também tornam nulos e sem vinculo os votos monásticos.
ESTUDO
Este artigo foi fortemente contestado pelos católicos. Consideraram o artigo um sacrilégio por tocar na auréola das boas obras dos monges e das freiras, cuja abnegação, cujos sacrifícios e cujas boas obras resplandecem até hoje diante dos olhos do mundo.
O NOBRE TRABALHO DOS MONGES E DAS FREIRAS
No tempo de Lutero, a maioria dos trabalhos na igreja foi realizado pelos monges e pelas freiras, como ainda hoje em muitos lugares. Quem poderia ignorar suas vigílias e suas orações? Quem poderia ignorar seus feitos na educação por centenas de anos? Ainda hoje monges e freiras se destacam no campo do ensino do jardim de infância à universi¬dade. Quem poderia ignorar sua abnegação e paciência para com os doentes, crianças e velhinhos? Não é isto feitos de sacrifícios dignos de toda a consideração e louvor? Não sente o mundo hoje falta destas pessoas abnegadas em hospitais, orfanatos e asilos? Servi¬ços esses que em nossa era materialista ninguém quer abraçar. Por que, então, o presente artigo condena com tanta veemência a vida monástica?
O QUE CONDENA ESTE ARTIGO?
Convém notar que a condenação provém de monges. Lutero e seus colaboradores foram monges. A reforma começou no mosteiro dos agostinianos. Por isso perguntamos: O que eles condenaram? As boas obras? O espírito de abnegação e sacrifícios? Não! O ar¬tigo condena dois erros fundamentais: O primeiro grande erro é o ensino de que o voto monástico (no qual uma pessoa promete, sob juramento, não casar e permanecer pobre) torna uma pessoa justa diante de Deus, que uma pessoa por sua vida de abstenção se torna um ser perfeito.
Lutero, seus companheiros e muitos outros monges, como o atestam vários es¬critos, experimentaram uma terrível decepção. Muitos deles fizeram o voto monástico na esperança de alcançarem a perfeição, e constataram ser isso impossível por obras próprias.
O segundo grande erro é o ensino de que os monges realizam mais boas obras do que Deus requer deles, formando, assim, um superávit de boas obras que podem ser ven¬didas para outros.
Contra esses dois ensinos, que são uma afronta à obra de Cristo, a Confissão de Augsburgo levanta sua voz neste artigo, bem como contra outros abusos decorrentes des¬tes dois erros fundamentais.
O VOTO
Que vem a ser o voto? Voto é um juramento no qual uma pessoa promete al¬guma coisa a Deus, quer algo de seus bens, do seu tempo ou até dedicar pessoas a Deus. Jacó prometeu o dizimo a Deus (Gênesis 28.22). Jefté fez um voto contrário à palavra de Deus, jurando sobre algo desconhecido, ao prometer sacrificar a Deus a primeira coisa que lhe viesse ao encontro, quando retornasse para casa (Juízes 11.29-40). Saul fez um voto errado que perturbou o povo de Israel ao proibir-lhes comer alguma coisa antes do anoi¬tecer e quase mata o seu próprio filho Jônatas. O povo livrou Jônatas da morte (1 Samuel 14). Herodes igualmente jurou com leviandade (Mateus 14.1-12). Não temos na Bíblia ordem para fazer votos, nem estímulo para tanto. Mas a Bíblia nos mostra que é possível fazê-lo e, quando são feitos, devemos encará-los com seriedade (Salmo 56.12, Salmo 50,14); se for um juramento errado, não cumpri-lo, mas suplicar por perdão.
Não temos necessidade de votos. Nossa palavra seja sim, sim, ou não, não.
Existem votos que brotam da fé, que são oração a Deus. O voto mais importante em nossa vida, que é uma resposta natural, livre e espontânea de nossa fé, é o voto batis¬mal, do qual emanam muitos outros votos em nossa vida. No voto batismal renunciamos ao diabo e todas as suas tentações e nos entregamos ao Deus triúno, para lhe ser fiel na fé, nas palavras e nas obras até à nossa morte. Este voto renovamos cada dia, especialmente por ocasião de nossa confirmação. Deste voto brotam muitos outros votos, pelos quais dedicamos ao serviço de Deus nossos dons, nosso tempo e nossos bens. Estas resoluções, estas determinações brotam constantemente da fé. Não são frutos da lei. São ofertas es¬pontâneas e voluntárias, não para merecer ou conquistar algo de Deus, mas a expressão de nossa fé que não pode de outra maneira a não ser servir alegremente. Se então fizermos promessa ou votos, isto visa colocar alvos e desta forma frear nosso velho homem que constantemente nos quer dissuadir no servirmos com confiança ao nosso Deus. Ninguém tem direito de prescrever a outrem os votos que deve fazer. Se nossa carne nos enganar, e num momento de entusiasmo carnal tivermos feito votos errados, votos que são preju¬diciais a nós, à nossa fami1ia ou até ao reino de Deus, devemos voltar atrás e suplicar que Deus nos perdoe.
Mesmo nossos melhores alvos e o melhor cumprimento de nossos votos são im¬perfeitos e não agradam a Deus se não forem purificados pela graça de Cristo.
Quando, numa comunidade, a fé esmorece e aumenta no meio dos fiéis o nú¬mero dos infiéis e dos hipócritas, tenta-se freqüentemente remediar a situação pelo de¬cretar de leis, pela elaboração de métodos, pelo criar de momentos emocionais para então extrair promessas de toda a ordem. Tudo isso baseado no espírito da lei, que é contrário ao espírito do evangelho. Isto é condenável. Devemos ter especial cuidado com votos e promessas no campo da mordomia. Em nosso mundo materialista, há necessidade de cer¬tas promessas, para a orientação da comunidade e para por ordem em nossa contribuição. Não devemos ser levianos no cumprimento dos votos, mas também não exigir o cumpri¬mento logisticamente.
Em nossa era materialista, a igreja necessita de muitos dons, também daqueles que têm o dom do celibato, que podem renunciar ao casamento para se dedicarem quer à missão, quer a serviços em hospitais, lares para menores abandonados, escolas de excep¬cionais e o amparo aos velhinhos. Isto deve ser estimulado e por tais dons devemos orar. Mas jamais os queremos impor, nem sobreestimá-los a outras obras da fé cristã.
Por isso concluímos com as palavras do apóstolo Paulo: "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12.1-3).
REFLEXÕES
1. Por que o apóstolo Paulo não casou? Ele poderia ter casado? 1 Coríntios 5.5.
2. Se uma moça faz para si o voto de castidade, para servir como enfermeira num hospital, e mais tarde notar que não tem o dom para isso e pretender casar, pode?
3. Se alguém faz uma promessa de contribuir com uma quantia "x", porém é impedido por doenças ou outros imprevistos a cumprir o seu voto, pode que¬brar o seu voto? O que estava errado, o voto?
4. Analise o voto de Saul 1 Samuel 14.
Horst Kuchenbecker
28º Artigo - DO PODER DOS BISPOS
Muito se escreveu, em tempos passados, sobre o poder dos bispos, e alguns confundiram, desastrosamente, o poder dos bispos com a espada temporal. Desse baralhamento desordenado resultaram mui grandes guerras, tumultos e rebeliões pelo fato de os bispos, sob o pretexto do poder a eles dado por Cristo, não só haverem instituído novos cultos e onerado as consciências com a reserva de alguns casos e com violentas excomunhões, mas também se haverem atrevido a entronizar e depor, a seu talante, imperadores e reis, abuso que já muito antes de nosso tempo foi censurado por pessoas eruditas e piedosas na cristandade. Por isso os nossos, para consolo das consciências, se viram compelidos a mostrar a diferença entre o poder, espada e autoridade espiritual e secular, e ensinaram que por causa do mandamento de Deus ambos os regimes e poderes devem ser honrados e estimados, com toda a reverência, como os dois maiores dons de Deus na ter¬ra.
Os nossos ensinam que, de acordo com o evangelho, o poder das chaves ou dos bispos é o poder e ordem de Deus de pregar o evangelho, remitir e reter pecados e administrar e distribuir os sacramentos. Pois Cristo enviou os apóstolos com esta ordem João 20: "Assim como o Pai me enviou, em também vos envio. Recebei o Espírito Santo. Se de alguns perdoarem os pecados, são-lhes perdoados; se lhes retiverdes, são retidos."
Esse poder das chaves ou dos bispos é praticado e exercido apenas através do ensino e pregação da palavra de Deus e pela administração dos sacramentos a muitos ou a indivíduos, dependendo da vocação que se tiver. Pois com isso se conferem não bens corporais, senão coisas e bens eternos, a saber, justiça eterna, o Espírito Santo e a vida eterna. Não se podem obter esses bens senão pelo ministério da pregação e pela administração dos santos sacramentos. Porque São Paulo diz: "O evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. " Visto, pois, que o poder da igreja ou dos bispos confere bens eternos e é praticado e exercido apenas pelo ofício da pregação, de modo nenhum embaraça o governo e autoridade temporal. Porque o poder secular trata de coi¬sas muito diferentes das do evangelho. O poder temporal não protege a alma, porém defende, com a espada e penas físicas, corpo e bens contra poder externo.
Por isso não se devem baralhar e confundir o poder espiritual e o temporal. Pois o poder espiritual tem a ordem de pregar o evangelho e administrar os sacramentos. Também não deve invadir oficio alheio. Não deve entronizar e destronar reis, não deve ab-rogar ou minar as leis civis e a obediência ao governo, não deve fazer e prescrever ao poder temporal leis a respeito de matéria secular, conforme disse o próprio Cristo: "O meu reino não é deste mundo." Também: "Quem me constituiu juiz entre vós?" E São Paulo, em Filipenses 3:”A nossa pátria está nos céus”. E na Segunda Epistola aos Coríntios, capítulos décimo: “As armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas; anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus."
Dessa maneira os nossos distinguem os oficio s de ambas as autoridades e poderes e mandam que os dois sejam tidos em honra como os dons mais elevados de Deus na terra.
Onde, porém, os bispos possuem autoridade temporal e a espada, não as têm como bispos, de direito divino, mas de direito humano, imperial, dadas por imperadores e reis romanos, para administração temporal de seus bens. E nisso nada tem que ver com o oficio do evangelho.
Por isso, segundo o direito divino, o oficio episcopal é pregar o evangelho, perdoar pecados, julgar doutrina e rejeitar doutrina que é contrária ao evangelho e excluir da congregação cristã os ímpios cuja vida ímpia seja manifesta, sem o emprego de poder humano, mas apenas pela palavra de Deus. E nisso os paroquianos e as igrejas têm o dever de obedecer aos bispos, de acordo com esta palavra de Cristo Lucas 10: "Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim." Todavia, quando ensinam, introduzem ou estabelecem algo contrário ao evangelho, temos ordem de Deus de que em tal caso não devemos obedecer. Mateus 7: "Acautelai-vos dos falsos profetas. "E São Paulo em Colossenses 1:"Mas, ainda que nós, ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema." E na Segunda Epistola aos Coríntios, capitulo 13: "Porque nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade': Também: "Segundo a autoridade que o Senhor me conferiu para edificação, e não para destruir': O mesmo ordena o direito canônico em 2, q.7, nos capitulos "Sacerdotes" e "Oves". E Santo Agostinho escreve na Epístola contra Petiliano que também aos bispos regularmente eleitos não se deve obedecer caso errem ou ensinem ou ordenem algo contra a santa e divina Escritura.
Agora, que os bispos, quanto ao mais, tenham poder e jurisdição em algumas coisas, como, por exemplo, em questões matrimoniais ou no dizimo, têm-nos em virtude de direito humano. Quando, porém, os ordinários são negligentes em tal ministério, os príncipes têm a obrigação, quer o façam prazerosamente ou não, de pronunciar nisso direito aos seus súditos, por amor da paz, para evitar discórdia e grandes distúrbios nos territórios:
Discute-se, além disso, sobre se os bispos têm poder para instruir cerimônias na igreja e fazer leis respeito a alimentos, dias santos e diferentes ordens de ministros da igreja. Os que concedem esse poder aos bispos alegam essa palavra de Cristo João 16: "Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos ensinará toda a verdade." Referem também o exemplo de Atos 15, onde proibiram o sangue e o sufocado. Alega-se ainda que o sábado foi mudado para o domingo, contrariamente aos Dez Mandamentos, segundo pensam, e nenhum exemplo é enfatizado e alegado tanto que a mudança do sábado. Querem sustentar com isso que é grande o poder da igreja, porquanto dispensou nos Dez Mandamentos e modificou algo neles.
Mas a respeito dessa questão os nossos ensinam que os bispos não têm poder para instituir e estabelecer algo contra o evangelho, conforme se mostrou acima e como ensina o direito canônico em toda a Distinção nona. Ora, é evidentemente contrário à ordem e à palavra de Deus fazer ou decretar com o intuito de por isso satisfazer pelo pecado e alcançar a graça. Pois a glória do mérito de Cristo é blasfemada quando ousamos merecer graça com tais observâncias. Também é patente que por causa dessa opinião as ordenanças hu¬manas cresceram incalculavelmente na cristandade e que enquanto isso a doutrina da fé e da justiça da fé esteve completamente suprimida. Diariamente se ordenavam novos feriados, novos jejuns, e se estabeleciam novas cerimônias e novas venerações de santos, a fim de com tais obras merecer graça e todo o bem junto a Deus.
Da mesma forma os que instituem ordenanças humanas também agem contra o mandamento de Deus com isso de porem pecado em alimentos, dias e coisas semelhantes, e oneram dessa maneira a cristandade com a escravidão da lei, como se, para merecer a graça de Deus, fosse necessário que existisse entre os cristãos culto semelhante ao levítico, cuja instituição Deus teria ordenado aos apóstolos e bispos, como alguns escrevem a respeito. E é bem crível que alguns bispos foram enganados com o exemplo da lei de Moisés. Dai provieram tão inumeráveis ordenações: que é pecado mortal fazer trabalho manual em dias santos, ainda quando não haja ofensa a outros; que é pecado mortal omitir as horas canônicas; que alguns alimentos poluem a consciência; que jejum é obra com que se reconcilia a Deus; que em caso reservado o pecado não é perdoado a menos que se procure primeiro o reservante do caso, não obstante o direito canônico não falar da reserva da culpa, senão da reserva das penas eclesiásticas.
De onde têm os bispos o direito e poder de impor tais ordenações à cristandade, para ilaquear as consciências? Pois em Atos dos Apóstolos, capitulo 15, SãoPedro proibe que se ponha o jugo na cerviz dos discípulos. E São Paulo diz em Coríntios que o poder lhes foi dado para edificar, não para destruir. Por que então multiplicam os pecados com tais ordenações?
Existem, porém, claras passagens da divina Escritura que proíbem estabelecer semelhantes ordenações para merecer a graça de Deus, ou como se fossem necessárias para a salvação. Assim diz São Paulo em Colossenses 2: "Ninguém vos julgue, pois, por causa de comida, ou bebida, ou dias determinados, a saber, os dias de festa, ou as luas novas, ou os sábados, que é sombra das coisas que haviam de vir, porém o corpo é de Cristo." Também: "Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos deixais prender por ordenanças: não manuseies, não proves, não toques? Todas estas coisas, com o uso, se destroem e são preceitos e doutrinas dos ho¬mens e têm aparência de sabedoria. " E em Tito 1 São Paulo proíbe abertamente que demos ouvidos a fábulas judaicas e mandamentos de homens que se desviam da verdade.
Também o próprio Cristo diz, em Mateus 15, a respeito daqueles que insistem com as pessoas sobre preceitos humanos: "Deixai-os: são cegos, guias de cegos." E reprova tais cultos, dizendo: "Toda planta que meu Pai celeste não plantou, será arrancada."
Se os bispos têm o poder de onerar as igrejas com inúmeras ordenanças e de ilaquear as consciências, por que então a divina Escritura proíbe tantas vezes fazer e observar ordenanças humanas? Por que lhes chama doutrinas de demônios? Teria o Espírito Santo prevenido contra tudo isso em vão?
Por isso, visto que tais ordenações, instituídas como necessárias, para reconciliar a Deus e merecer graça, são contrárias ao evangelho, de modo nenhum é próprio para bispos impor semelhantes cultos. Pois é necessário reter na cristandade a doutrina da liber¬dade cristã de que não é necessária a servidão da lei para justificação, conforme escreve São Paulo aos Gálatas, capitulo quinto: "Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão." É necessário conservar o artigo principal do evangelho: Que alcançamos a graça de Deus pela fé em Cristo, sem mérito nosso, e que não a merecemos mediante culto instituído por homens.
Que se deve pensar, então, do domingo e de similares ordenanças e cerimônias eclesiásticas? A isso respondem os nossos que os bispos ou pastores podem fazer ordenações para que as coisas sejam feitas com ordem na igreja, não a fim de com elas alcançar a graça de Deus, também não a fim de por elas satisfazer pelo pecado ou obrigar as consciências a que as tenham na conta de cultos necessários e a julgar que pecam quando dei¬xam de observá-las sem escândalo. Assim São Paulo ordenou em Coríntios que as mulheres velem a cabeça na congregação e que os pregadores não falem todos ao mesmo tempo na assembléia, mas ordenadamente, um após outro.
É conveniente que a assembléia cristã, por causa do amor e da paz, observe tais ordenações e obedeça aos bispos e pastores nestes casos, e as guarde até onde um não ofenda o outro, para que não haja desordem ou anarquia na igreja. Contudo, de maneira tal, que não onerem as consciências, de forma a pensarem que são coisas necessárias para a salvação e haverem que pecam quando as violam sem ofensa para outros. Assim como ninguém diz pecar a mulher que, sem ofensa para outros, se apresenta em público de cabeça descoberta.
Tal é a observância do domingo, da Páscoa, do Pentecostes e feriados e ritos semelhantes. Pois erram muito os que julgam que a observância do domingo em lugar do sábado foi estabelecida como necessária. A Sagrada Escritura ab-rogou o sábado e ensina que depois da revelação do evangelho podem omitir-se todas as cerimônias da lei antiga. Contudo, visto que era necessário estabelecer um dia determinado, a fim de que o povo soubesse quando devia reunir-se, a igreja cristã destinou o domingo para esse fim, e tanto mais agrado e disposição teve relativamente a tal mudança, para que o povo tivesse um exemplo da liberdade cristã e se soubesse que nem a guarda do sábado nem de qualquer outro dia é necessária.
Há muitas discussões falhas sobre a mudança da lei, sobre as cerimônias do Novo Testamento, sobre a mudança do sábado. Originaram-se todas da falsa e errônea opinião de que devia haver na cristandade um culto similar ao Levítico ou judaico, e de que Cristo haja ordenado aos apóstolos e bispos que excogitassem novas cerimônias necessárias para a salvação. Esses erros se introduziram na cristandade quando não se ensinava e pregava de maneira límpida e pura a justiça da fé. Alguns sustentam a respeito do domingo que se deve guardá-lo, posto não de direito divino, contudo quase que como de direito divino. E prescreveram a forma e a medida em que se pode trabalhar em dia santo. Mas que outra coisa são tais disputas senão laços para a consciência? Pois ainda que procuram mitigar e epiqueizar ordenações humanas, contudo não se pode alcançar nenhuma epiquéia ou mitigação enquanto está de pé e permanece a opinião de que são necessárias. Ora, essa opinião necessariamente permanece quando nada se sabe da justiça da fé e da liberdade cristã.
Os apóstolos ordenaram abstenção do sangue e do sufocado. Mas quem observa isso hoje em dia? E contudo não pecam os que não o observam, porque os próprios apóstolos não quiseram onerar as consciências com tal escravidão, mas apenas o proibiram por algum tempo, a fim de evitar escândalo. Pois nessa ordenação é preciso atentar no artigo principal da doutrina cristã, que não é ab-rogado por esse decreto.
Quase nenhum dos cânones antigos é observado tal qual reza. E diariamente muitas das ordenações se tornam obsoletas, mesmo entre aqueles que observam essas ordenações de maneira diligentíssima. Não se pode aconselhar nem auxiliar as consciências onde não se observa essa mitigação, para sabermos observar essas ordenações de maneira que não as tenhamos por necessárias, cientes também de que as consciências não são feridas, ainda que desapareçam tais ordenações.
Os bispos, entretanto, manteriam facilmente a obediência, se não insistissem na observância daquelas ordenações que não se podem guardar sem pecado. Mas o que fazem agora é proibir a administração das duas espécies no santo sacramento, proíbem o casamento dos clérigos e a ninguém recebem a menos que jure primeiro que não vai pregar es¬sa doutrina, não obstante acordar ela, fora de dúvida, com o santo evangelho. As nossas igrejas não pedem que os bispos voltem a estabelecer a paz e a unidade com prejuízo para a honra e a dignidade deles, conquanto em caso de necessidade os bispos devem fazer também isso. Pedem somente que os bispos relaxem algumas cargas injustas que em tempos passados não existiam na igreja e foram recebidas contrariamente ao costume da igreja cristã universal. Talvez de inicio hajam tido alguma razão, mas em nossos tempos já não são congruentes. Também é manifesto que algumas ordenanças foram recebidas por causa de falta de entendimento. Razão por que os bispos deveriam ter a bondade de mitigar essas ordenanças, visto que tal mudança não prejudica a conservação da unidade da igreja cristã. Porque muitas ordenações de origem humana com o passar do tempo caíram por si mesmas, não sendo necessário guardá-las, conforme testifica o próprio direito papal. Se isso, porém, é de todo impossível, e se não se pode conseguir que eles moderem e ab-roguem ordenações humanas que não se possam guardar sem pecado, então devemos se¬guir a norma apostólica que nos ordena obedecer antes a Deus que aos homens.
São Pedro proíbe aos bispos o domínio, como se tivessem o poder de coagir as igrejas ao que eles quisessem. Agora não se trata de como privar os bispos de seu poder; pede-se e deseja-se, isto sim, que não coajam as consciências a pecado. Se, porém, não fizerem isso, desprezando esse pedido, reflitam então sobre como responderão a Deus por isso, porquanto com essa pertinácia dão causa a divisão e cisma, coisa que em justiça devem ajudar a prevenir.
CONCLUSÃO
Estes são os artigos principais que são considerados como controvertidos. Embo¬ra se pudesse haver falado de número muito maior de abusos e erros, contudo, para evitar prolixidade e extensão citamos apenas os principais, a partir dos quais facilmente se pode ajuizar quanto aos outros. Pois em tempos passados houve muita queixa sobre as indul¬gências, sobre peregrinações, abusos em matéria de excomunhão. Os pastores tinham infinitas contendas com os monges quanto a ouvir confissões, a respeito de sepultamento, no tocante a prédicas em ocasiões extraordinárias e relativamente a inúmeras outras coisas. Com as melhoras intenções e por amor à cortesia passamos tudo isso por alto, a fim de que tanto melhor se pudessem notar os pontos principais nessa questão. Não se deve julgar que qualquer coisa haja sido dita ou mencionada por ódio ou para infamar. Relatamos apenas aquilo que julgamos necessário aduzir e mencionar, a fim de que daí se pudesse tanto melhor perceber que, em doutrina e cerimônias, entre nós nada se recebeu que seja contra a Sagrada Escritura ou a igreja cristã universal. Porque deveras é público e manifesto havermos evitado, diligentíssimamente e com a ajuda de Deus (para falar sem vangloria), que se introduzisse, alastrasse e prevalecesse em nossas igrejas qualquer doutri¬na nova e ímpia.
Seguindo o edito, quisemos apresentar os artigos supramencionados, como de¬claração de nossa confissão e da doutrina dos nossos. E caso alguém entenda que falta al¬go, estamos prontos a dar-lhe informações mais ampla, com base na divina Escritura Sa¬grada.
De Vossa Majestade Imperial mui submissos e obedientes:
João, Duque da Saxônia, Eleitor Jorge, Margrave de Brandenburgo Ernesto, Duque de Lüneburg Filipe, Lantgrave de Messe
João Frederico, Duque da Saxônia Francisco, Duque de Lünebuerg Wolfgang, Príncipe de Anhalt Burgomestre e Conselho de Nuremberga Burgomestre e Conselho de Reutlingen
ESTUDO
Freqüentemente ouve-se queixa por parte de membros: "O pastor quer man¬dar demais". Outros se queixam, dizendo: "O pastor não é suficientemente enérgico. Ele deveria usar mais da autoridade". Diante dessas objeções surge a pergunta: Qual é o poder do pastor? Até onde vai sua autoridade?
A Confissão de Augsburgo buscou respostas na Bíblia que ainda hoje fornecem orientação segura.
O presente artigo denuncia abusos cometidos pelos bispos na época de Lutero. Em segundo lugar, define qual a atribuição do poder civil e do poder eclesiástico. Em terceiro lugar, mostra qual o poder dos bispos.
ABUSOS
Desde o tempo dos apóstolos, até o tempo do imperador romano Constantino (312-337), a igreja cristã sofreu árduas perseguições. Com o imperador Constantino as perseguições cessaram, pois ele se tornou favorável ao cristianismo. A partir dali o cris¬tianismo ganhou influência e prestígio. O poder dos bispos começou a crescer. Em 754 AD o papa Estevão II coroou Pipino, rei dos francos, em recompensa por seu auxilio prestado ao papa no estabelecimento da autoridade papal na Itália. Dali por diante, a igreja conseguiu rapidamente o domínio sobre a autoridade civil. A fusão dos dois poderes, o civil e o eclesiástico, na pessoa do papa, trouxe grandes danos à igreja e ao mundo. Houve guerras, tumultos, excomunhões violentas. Reis foram usurpados de seus tronos. Os que levantavam sua voz contra tais abusos foram silenciados.
Ainda hoje se pergunta: até onde vai o poder dos bispos? Possui a igreja os dois poderes? Possui o estado os dois poderes? Ou são os dois poderes, civil e eclesiástico, separados? São antagônicos? O que a Bíblia tem a dizer sobre isso?
O GOVERNO CIVIL
A Bíblia faz nítida distinção entre o poder civil e o poder eclesiástico (poder do santo ministério). Ambos os poderes foram instituídos por Deus, com campos de ação distintos e armas diferentes.
O governo civil é autoridade criada e ordenada por Deus. Esta autoridade tem sua procedência da autoridade paternal e encontra amparo no quarto mandamento. O governo civil se ocupa com as coisas desta vida. Deve proteger a vida e a propriedade do próximo. Para tanto decreta leis que visam o bem comum. Para conseguir o cumprimen¬to da lei, Deus entregou ao governo a espada. Com ela o governo ameaça os transgressores da lei e castiga, até com pena de morte, os transgressores rebeldes (Romanos 13.1-7; 1 Pedro 2.11-17).
O cristão não só obedece à autoridade constituída, mas também desfruta da pro¬teção da mesma. (Romanos 13.4).
A alegação do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 6.1, de ser vergonhoso aos cris¬tãos recorrerem a um juiz do mundo, não desmerece a autoridade. Aqui Paulo censura os cristãos por seus conflitos e por não saberem resolver tais conflitos que o cristão pode valer-se da proteção do estado, ao citar sua cidadania romana (Atos 22.21) e ao apelar para César (Atos 26.32).
O PODER ECLESIÁSTICO
O poder eclesiástico, ou o poder do santo ministério, também foi instituído por ordem de promessa de Cristo (Marcos 16.19; João 20.21-24). O ministro ocupa-se, em pri¬meiro lugar, com a salvação das almas. Sua tarefa é anunciar a palavra de Deus e adminis¬trar os sacramentos. Seu poder é perdoar os pecados aos pecadores penitentes e retê-los aos impenitentes, enquanto não se arrependerem. Por isso Jesus diz: "O meu reino não é deste mundo, se o meu reino fosse deste mundo os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui" (João 18.36). Em relação à autoridade, eles são como que a consciência do governo, pois também à autoridade devem anunciar a palavra de Deus. Mas não cabe ao ministro ou à igreja lançar mão à espada.
A teologia da libertação, na qual se afirma que a igreja visa o homem todo, dan¬do primordial atenção à sua condição social e até instigando à rebelião, não é bíblica. A Bíblia diz: "Salvai-vos desta geração perversa" (Atos 2.40). Por seu amor ao próximo, a igreja pratica a caridade. Assim organiza hospitais, abrigos para menores abandonados e ampara os idosos, visando também neste trabalho, sobretudo a salvação das almas.
Assim, ambos os poderes são instituídos por Deus e devem ser respeitados como instituições divinas. Onde o governo e a igreja se orientam pela palavra de Deus, cumprindo suas diferentes funções, não haverá conflito entre eles, pois o governo civil respeitará a igreja e a igreja respeitará a autoridade civil. Infelizmente são bem poucos os momentos na história onde isto aconteceu. Freqüentemente a igreja se intrometeu em assuntos do estado e o estado se intrometeu em assuntos da igreja. Sempre foi difí¬cil o estado e a igreja compreenderem a orientação de Jesus: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mateus 22.21). Mas, não houve só problema entre as duas autoridades, há também o problema de os bispos, os pastores excederem seus limites de autoridade dentro da própria igreja. Por isso a Confissão de Augsburgo define o poder dos bispos.
O PODER DOS BISPOS
A autoridade dos bispos (pastores, conselheiros distritais, presidentes regionais, presidente da igreja) consiste na pregação da palavra de Deus a administração dos sacra¬mentos. Quando o fazem conforme a palavra de Deus, cumpre aos membros obedecer conforme as palavras de Jesus: "Quem vos der ouvidos a vós, ouve-me a mim; e, quem vos rejeitar, a mim me rejeita; quem, me rejeita, rejeita àquele que me enviou" (Lucas 10.16). Quando os bispos agem contra o evangelho, Cristo proíbe obedecê-los (Gálatas 1.8).
Qualquer outro direito que os bispos exercem, o fazem por direito humano. Por exemplo, o pastor cumprir seus direitos civis, filiar-se a um partido político, externar sua convicção política, ser vereador. Isto não significa que todos os membros precisam ter a mesma convicção política do pastor. Não acreditamos na infabilidade do papa, nem na infabilidade do bispo ou do pastor. Outra questão é, se é aconselhável o pastor externar sua convicção política e exercer todos os seus direitos civis. Normalmente, para o bem de seu ministério, isto não é aconselhável.
O ESPÍRITO DA LEI
Enquanto a igreja está aqui na terra, ela necessita de organização. De livre e es¬pontânea vontade e em amor a igreja se organiza em âmbito de congregação, em âmbito distrital, regional, nacional e internacional. Estas organizações podem mudar sua for¬ma, mas não em seu princípio de autoridade da Escritura e da soberania da comunidade e o princípio evangélico.
Quando, no entanto, a fé enfraquece e o número de infiéis cresce na comunidade e o evangelho parece não fazer mais efeito, muitos buscaram solução na lei, julgando que leis iriam remediar a situação. Assim surgiram leis e cerimônias na igreja, tidas até como obrigatórias para a salvação, obscurecendo o evangelho. Este poder, nem o pastor, nem a congregação, nem convenções possuem. A palavra de Deus é a única autoridade; no res¬to o amor une os cristãos e os levam à execução da obra dentro da liberdade cristã e da mú¬tua responsabilidade como membros do corpo de Cristo.
REFLEXÕES
1. Reveja no Catecismo Menor, na Tábua dos Deveres, as atribuições do pastor e dos
membros.
2. Reveja os estatutos de sua comunidade e os estatutos e o regimento da IELB, para
compreender bem as atribuições do pastor e dos membros.
3. Defina o que é o espírito do evangelho, especialmente quando se trata de re¬soluções
da comunidade, dos distritos, das convenções nacionais.
Horst Kuchenbecker
Os nossos são acusados falsamente de proibirem boas obras. Pois os seus escritos sobre os Dez Mandamentos bem como outros escritos provam que deram bom e útil ensino ¬e admoestação a respeito de estados e obras cristãos verdadeiros, de que pouco se ensinou ¬antes de nosso tempo. Insistia-se, ao contrário, em todos os sermões principalmente em obras pueris e desnecessárias, tais como rosários, culto de santos, vida monástica, rosários, jejuns e dias santos prescritos, confrarias, etc. Também o nosso oponente já não exalta essas obras desnecessárias tanto quanto antigamente. Além disso, também aprenderam ¬a falar agora da fé, sobre a qual nada pregaram em tempos anteriores. Agora, contu¬do ensinam que não nos tornamos justos diante de Deus unicamente por obras, mas acrescentaram a fé em Cristo, e dizem que a fé e as obras nos tornam justos diante de Deus. Essa doutrina pode trazer um pouco mais consolo do que quando apenas se ensina confiar em obras.
Visto, pois, que a doutrina da fé, que é o artigo principal no cristianismo, foi negligenciada por tempo tão longo, como é forçoso confessar, havendo-se pregado apenas doutrinas de obras por toda a parte, os nossos deram a seguinte instrução a respeito:
Em primeiro lugar, que nossas obras não nos podem reconciliar com Deus e obter graça; isso, ao contrário, sucede apenas pela fé, quando cremos que os pecados nos são perdoados por amor de Cristo, o qual, ele só, é o mediador que pode reconciliar o Pai. Agora, quem pensa realizar isso mediante obras e imagina merecer a graça, esse despreza a Cristo e procura seu próprio caminho a Deus, contrariamente ao evangelho.
Essa doutrina respeito à fé é tratada aberta e claramente por Paulo em muitas passagens, de modo especial em Efésios 2: "Pela graça fostes salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, porém é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie, etc".
E que aqui não se introduziu interpretação nova é coisa que se pode provar com Agostinho, que trata essa questão diligentemente e também ensina assim, a saber, que alcançamos ¬ a graça e nos tornamos justos diante de Deus por intermédio da fé em Cristo e não por obras, conforme mostra todo o seu livro De spiritu et litera.
Conquanto essa doutrina seja muito desprezada entre pessoas não experimenta¬das verifica-se, todavia, que é muito consoladora e salutar para as consciências tímidas e apavoradas. Porque a consciência não pode alcançar descanso e paz mediante obras, porém somente pela fé, quando chega à segura conclusão pessoal de que por amor de Cristo possui um Deus gracioso, conforme também diz Paulo Romanos 5: "Justificados mediante a fé, temos o descanso e paz com Deus."
Em sermões de outrora não se promoveu esse consolo, porém se impeliram as pobres consciências para as próprias obras, e se empreenderam diversas espécies de obras A alguns a consciência impeliu para os mosteiros, na esperança de que lá poderiam granjear graça mediante vida monástica. Alguns excogitaram outras obras com o propósito de, merecer graça e satisfazer por pecados. A experiência de muitos deles foi não haverem alcançado a paz mediante essas coisas. Razão por que foi necessário pregar essa doutrina da fé em Cristo e dela tratarem diligentemente, a fim de que se soubesse que é somente pela fé, sem mérito, que se apreende a graça de Deus.
Dá-se, outrossim, instrução para mostrar que aqui não se fala da fé possuída também pelos demônios e os ímpios, os quais também crêem os relatos que contam haver Cristo padecido e que ressuscitou de entre os mortos; fala-se, ao contrário, da fé verdadeira, que crê alcançarmos por Cristo a graça e a remissão dos pecados.
Aquele que sabe que por Cristo possui um Deus gracioso, esse conhece a Deus, o invoca, e não está sem Deus, como os gentios. Porque demônios e ímpios não crêem nesse artigo da remissão dos pecados. Por isso é que são inimigos de Deus, não o podem invocar, e nada de bom podem esperar dele. A Escritura fala sobre a fé no sentido que acabamos de indicar, e não entende por fé um conhecimento que demônios e homens ímpios têm. Pois em Hebreus 11 ensina-se, com respeito à fé, que crer não é apenas conhecer a história mas ter confiança em Deus e receber sua promessa. E Agostinho também nos lembra devemos entender a palavra “fé’: na Escritura, como significando confiança em Deus de que nos é clemente, não apenas conhecer tais noticia históricas que também os demônios conhecem”.
Ensina-se, ademais, que boas obras devem e têm de ser feitas, não para que nelas se confie a fim de merecer graça, mas por amor de Deus e em seu louvor. Sempre é a fé somente que apreende a graça e o perdão dos pecados. E visto que pela fé é dado o Espírito Santo, o coração também se torna apto para praticar boas obras. Porque antes, enquanto está sem o Espírito Santo, é demasiadamente fraco. Além disso, está no poder do diabo, que impele a pobre natureza humana a muitos pecados, como vemos nos filósofos que se lançaram à empresa de viver vida honesta e irrepreensível e, contudo não conseguiram realizá-lo, porém caíram em muitos pecados graves e manifestos. É o que acontece ao homem quando está sem a fé verdadeira e sem o Espírito Santo e se governa apenas pela própria força humana.
Por isso não se deve fazer essa doutrina concernente à fé a censura de que proíbe boas obras; antes deve ser louvada por ensinar que se façam boas obras e oferecer auxílio quanto a como se possa chegar a praticá-las. Pois que sem a fé e sem Cristo a natureza e capacidade humanas são por demais frágeis para praticar boas obras, invocar a Deus, ter paciência no sofrimento, amar o próximo, exercer com diligência ofícios ordenados, ser obediente, evitar maus desejos, etc. Tais obras elevadas e autênticas não podem ser feitas sem o auxílio de Cristo, conforme ele mesmo diz em João 15: "Sem mim nada podeis fazer."
ESTUDO
O que preciso fazer para merecer o céu? Se alguém fizesse essa pergunta a você, qual seria sua resposta?
Você já deve ter ouvido pessoas falarem sobre essa questão de tanta importância. Costumeiramente dizem que o homem deve deixar de fazer o mal e fazer o bem; deve cumprir os mandamentos; deve fazer boas obras! Em resumo, o homem deve fazer alguma coisa.
Está certo isso? Há relação entre as boas obras e a salvação? Essas questões nos introduzem ao estudo do artigo 20.
SÚMULA HISTÓRICA
Dizia-se que a doutrina da justificação do pecador somente pela fé, ensinada pelos luteranos, proibia a prática de boas obras. Reiteradas vezes, o Dr. Eck referia-se a Lutero ¬como a quem estava ensinando uma liberdade que conduzia à libertinagem. Essa teria sido a causa pela qual granjeara tantos adeptos entre o povo. Remover esses equívocos e proclamar a verdade da Escritura era o que se pretendia com a inclusão do presente artigo na Confissão de Augsburgo.
O PAPEL DAS BOAS OBRAS NA SALVAÇÃO
As boas obras não nos podem reconciliar com Deus. A reconciliação já teve lugar por ocasião do sofrimento de Jesus sobre a cruz. "Está consumado" exclamou ele antes de entregar o seu espírito. O perdão está agora à disposição de todos. Aquele que confia nos méritos de Cristo possui a fé salvadora, e com isso entra na posse do perdão, está reconciliado com Deus. “Não há mais possibilidade de que as boas obras consigam adquirir o que já foi conquistado.”
A Escritura fala a respeito disso com muita clareza. Paulo diz a Timóteo: "Deus nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos (1 Timóteo 1.9). Conferir também Gálatas 2.16; Efésios 2.8,9; Isaias 53.4,5; Tito 3. 4-5.
Aquele que de alguma forma crê poder alcançar a salvação, inteiramente ou parcialmente, por intermédio de boas obras, está com isso desprezando a obra da salvação efetuada por Jesus - ou por rejeitá-la totalmente ou por considerá-la insuficiente. Esse caminho não leva a Deus. Jesus falou a seus discípulos: "Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim" (João 14.6).
A CONSCIÊNCIA E A DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ SEM AS OBRAS
Uma consciência atemorizada que crê alcançar perdão por intermédio de obras não consegue paz e descanso. O reformador Martinho Lutero não chegou à paz por semelhante caminho por mais que a procurasse através de obras consideradas meritórias: ingressando no mosteiro, vivendo como mendigo, fazendo trabalhos humildes, açoitando-se a si mesmo, jejuando, dormindo pouco, e por muitas outras.
Paz íntima, a consciência somente pode obter quando chega à conclusão segura de que pelos méritos de Cristo possui um Deus gracioso. Aos romanos, o apóstolo Paulo escreve: "Justificados, pois, mediante a fé, tenhamos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes" (Romanos 5.1,2).
A JUSTIFICAÇÃO É ENSINO DA IGREJA APOSTÓLICA
A Confissão de Augsburgo argumenta que a doutrina da justificação do pecador pela fé, sem as obras, além de ser bíblica, foi a doutrina ensinada na igreja, nos primeiros séculos do cristianismo.
Agostinho, um dos grandes líderes do passado (354-403), muito considerado, pelos católicos, escreveu que alcançamos a graça e nos tornamos justos diante de Deus por intermédio da fé em Cristo e não por obras.
A NECESSIDADE DAS BOAS OBRAS
A necessidade de fazer boas obras está muito ligada à essência das boas obras. Conforme a Escritura, boa obra é um fruto da fé justificadora. Pelo fato de recebermos a fé pelo Espírito Santo, o coração é habilitado para praticar boas obras. É Deus que opera boas obras no crente. Paulo escreve aos filipenses: "Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade" (Filipenses 2.13). Aos seus discípulos disse Jesus: "Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer" (João 15.5). Escrevendo também aos gálatas, Paulo atribui todas as boas obras dos crentes à atuação do Espírito Santo neles: "o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longaminidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio" (Gálatas 5.22,23). Conferir Filipenses 1.11.
Boas obras devem ser feitas, não para se confiar nelas, como se por seu intermédio pudéssemos obter a graça de Deus, mas, por amor a Deus e em seu louvor.
A gratidão pelo perdão dos pecados adquiridos por Jesus, atribuído em nosso favor gratuitamente, move nosso íntimo para a prática de boas obras. Foi o que o apóstolo Paulo disse aos Coríntios ao escrever: "Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos, logo todos morreram, e ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou ¬(2 Coríntios 5.14,15). Consultar também Gálatas 2.20 e Salmo 1 16.12.
REFLEXÕES
Estamos sendo gratos a Deus pela doutrina bíblica da justificação pela fé, sem as obras, doutrina que nos foi reconquistada através da Reforma?
Estamos convictos de que somos justos perante Deus pelos méritos de Cristo e que não conseguimos merecer o perdão dos pecados por qualquer obra que nós realizamos?
Estamos fazendo boas obras?
O que nos leva a fazer boas obras?
Escreva uma relação daquilo que você faz por gratidão a Deus pelo perdão dos seus pecados obtidos pelos sofrimentos de Jesus.
Christiano J. Steyer
21° Artigo - DO CULTO AOS SANTOS
ARTIGOS SOBRE OS QUAIS HÁ DIVERGÊNCIA E EM QUE SE RECENSEIAM OS ABUSOS QUE FORAM CORRIGIDOS
Visto, pois, que em nossas igrejas nada se ensina sobre os artigos da fé que seja contrário à Sagrada Escritura ou à igreja cristã universal, havendo-se apenas corrigido alguns abusos, que, em parte, se introduziram por si mesmos com o correr do tempo, e em parte foram estabelecidos à força, vemo-nos obrigados a recenseá-los e a indicar a razão por que nestes casos se admitiu modificação, a fim de que a Majestade Imperial possa ver que não se procedeu aqui de maneira não-cristã ou petulante, porém que fomos compelidos ¬a permitir tal modificação pelo mandamento de Deus, que com justiça se há de respeitar ¬mais do que qualquer costume.
Do culto aos santos os nossos ensinam que devemos lembrar-nos deles, para for¬talecer a nossa fé ao vermos como receberam graça e foram ajudados pela fé; e, além disso, a fim de que tomemos exemplo de suas boas obras, cada qual de acordo com sua vocação assim como Sua Majestade Imperial pode seguir, salutar e piedosamente, o exemplo de Davi, fazendo guerra ao turco; pois ambos estão investidos em ofício real, que exige protejam e defendam os seus súditos. Entretanto, não se pode provar pela Escritura que se devem invocar os santos ou procurar auxilio junto a eles. "Porquanto há um só reconciliador e mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo” 1 Timóteo 2, o qual é o único Salvador, o único Sumo Sacerdote, Propiciatório e Advogado diante de Deus, Romanos 8. E somente ele prometeu que quer atender a nossa prece. E buscar de coração a esse Jesus Cristo em todas as necessidades e preocupações também é o culto divino mais elevado ¬segundo a Escritura: "Se alguém pecar, temos Advogado junto do Pai, Jesus Cristo, o justo, etc."
Esta é, aproximadamente, a suma da doutrina que é pregada e ensinada em nossas igrejas, para correta instrução cristã e consolo das consciências, e para melhora dos crentes. Pois que de modo nenhum vamos querer pôr as nossas próprias almas e consciências¬ diante de Deus no mais sério, no maior dos perigos, mediante abuso do nome ou da palavra de Deus, nem deixar ou herdar aos nossos filhos e descendentes doutrina diversa da que concorda com a palavra pura, divina, e com a verdade cristã. Visto, pois, que essa doutrina se fundamenta claramente na Sagrada Escritura, e, além disso, não é contrária nem se opõe à igreja cristã universal, e, na verdade, tampouco à Igreja Romana, quanto se pode coligir dos escritos dos Pais, pensamos também que os nossos oponentes não podem estar em desacordo conosco nos artigos acima indicados. Age, por isso, de maneira totalmente inamistosa, precipitada e contrariamente a toda unidade e amor cristãos aqueles que por essa razão empreendem, sem qualquer fundamento sólido em preceito ou Escritura divina, separar, rejeitar e evitar os nossos como hereges. Porque o distúrbio e a dissensão dizem respeito precipuamente a algumas tradições e abusos. Portanto, já que nos artigos principais não há ausência de fundamento ou defeito perceptível, e sendo essa nossa confissão divina e cristã, deveriam os bispos, justiçosamente, mostrar-se mais brandos, ainda que falha houvesse entre nós com respeito à tradição, muito embora esperamos apresentar sólido fundamento e causa quanto à razão por que entre nós houve mudança relativamente a algumas tradições e abusos.
ESTUDO
Estamos sendo embalados atualmente por uma imensa onda ecumenista. Há uma de grande tendência para esquecer e minimizar as diferenças entre as denominações religiosas. Até ser cristão e pertencer a uma seita ou "filosofia" oriental ao mesmo tempo é já possível.
Infelizmente este não é o autêntico ecumenismo bíblico que quer todos os cristãos unidos em "espírito e em verdade". Mas nesta onda vão sendo levados muitos descuidados e mal orientados. Há, por exemplo, os que afirmam que a Igreja Católica Romana mudou muito e está ensinando muitas coisas que a Reforma Luterana pregou. O presente estudo da Confissão de Augsburgo, comparado com o que ensina e pratica aquela igreja ainda hoje, seguramente vai decepcionar os que assim pensam. Nosso artigo ilustra muito bem o que afumamos.
IDOLATRIA GROSSEIRA
Apesar do Cristo do Corcovado, nosso Senhor não é o Padroeiro do Brasil. É a Virgem Maria. Apesar de esta igreja se denominar de cristã, os seus maiores monumentos ¬não são dedicados a Cristo, mas à Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora Medianeir¬a o Sagrado Coração de Maria. As grandes procissões e romarias não são cristocêntricas como não o é a sua doutrina. As estátuas são de Maria, as promessas, as preces, as velas, os cânticos são para Maria.
Aqui em São Leopoldo, RS, onde está o nosso Centro Administrativo, existe o maior santuário católico da região. É dedicado ao Pe. Réus e fatura mais no fim de semana ¬do que as casas comerciais conseguiram durante dias úteis. Aqui se ora ao Pe. Réus, aqui os jornais estampam o seu retrato com "as graças alcançadas" e o seu quadro pode ser admirado até em casas de evangélicos.
Tudo isto ganha proporções inacreditáveis quando a televisão transmite para todo ¬o país a imagem de imensas massas humanas, exploradas na sua crendice natural, acompanhando famosas imagens ou estátuas, de uma pecadora como nós, liderados pelos bispos e cardeais e pelos nossos governantes, crentes ou oportunistas. É a mais grosseira das idolatrias. É o desprezo completo do primeiro mandamento e de todos os outros.
A BÍBLIA NÃO DEIXA DÚVIDAS
"Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem" (1 Timóteo 2.5).
"Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro" (1 João 2. 1 e 2).
"Eu, João, sou quem ouviu e viu estas coisas. E, quando as ouvi e vi, prostei-me ante os pés do anjo que me mostrou essas coisas, para adorá-lo. Então ele me disse: Vê, não faças isso; eu sou conservo teu, dos teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus" (Apocalipse 22.8 e 9).
"Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto" (Mateus 4.10).
Não há necessidade de comentários. A evidência dos fatos colocada diante destas expressas e claras palavras de Deus nos mostra que a prática de adorar a mãe de Jesus e outros santos é totalmente condenada por Deus.
Um dos nossos teólogos escreveu: "A negação de Cristo é exatamente a essência de todo o papismo. Isto fica demonstrado também na "invocação dos santos" ordenada pela igreja papal."
QUEM SÃO OS SANTOS
Chamamos de santos, de acordo com a Escritura, os que foram santificados, pelo Espírito Santo e lavados dos seus pecados pelo sangue do Filho de Deus. São pecadores como todos os homens e, portanto, não têm mérito nenhum diante do santo e justo Deus. Foram declarados justos e santos unicamente por amor do sacrifício redentor de Cristo. E tudo o que realizaram de bom e útil foi operado neles pela graça de Deus. Por isso dizemos com o escritor sagrado:
"E quanto a nós, temos esta grande multidão de testemunhas ao nosso redor. Deixamos de lado tudo o que nos atrapalha, e o pecado que se agarra firmemente em nós, e corramos com coragem a carreira que está à nossa frente. Continuemos com os nossos, olhos fixos em Jesus, pois é dele que depende a nossa fé, desde o começo até o fim" (Hebreus 12. 1 e 2, NTLH).
NÓS VENERAMOS OS SANTOS
Os cristãos luteranos cultivam a verdadeira veneração dos grandes homens de fé, patriarcas, profetas, apóstolos e pais da igreja. De acordo com este artigo nos lembramos deles para: .
1. fortalecer nossa fé ao vermos como receberam graça e foram abençoados pelo Senhor;
1. tomar exemplo de suas boas obras e imitá-los na sua fidelidade e dedicação.
TERMINA A PRIMEIRA PARTE DA AUGUSTA
Este é o último dos artigos propriamente doutrinários da Confissão. Os outros tratam de abusos praticados na igreja e sobre os quais há divergências. Até aqui não devia haver divergência, diz Melanchton, redator da Confissão, pois "essa doutrina se fundamenta claramente na Sagrada Escritura, e, além disso, não é contrária nem se opõe à igreja cristã universal, e, na verdade, tampouco à Igreja Romana, quanto se pode coligir dos escritos dos pais".
Os "protestantes" queixam-se do fato de terem sido rejeitados e evitados como hereges, "sem qualquer fundamento sólido". Por isso reclamam maior brandura dos bispos.
Esta maneira da falar atesta que Lutero e seus companheiros de fato não queriam separar-se da igreja e fundar uma nova. Queriam restaurar a verdadeira igreja católica ou universal. Os que dominavam sobre a igreja e a conduziam ao erro, eles é que deviam ter saído, pois eram os verdadeiros hereges.
LEMBRAI-VOS DOS VOSSOS GUIAS
Dizem os sociólogos que estamos vivendo uma época de rompimento com o passado, com a tradição, com a história. No campo ideológico, político e religioso. É evidente que nós luteranos que cremos e permanecemos fiéis à eterna palavra de Deus e celebramos jubileus de quatrocentos e cinqüenta anos de Confissões que continuamos a aceitar na sua íntegra, pela graça de Deus - é evidente que de nenhuma maneira queremos romper com o passado. Rompemos com o nosso passado de erros e pecados. Mas queremos nos integrar cada vez mais ao imenso tesouro que a graça do Senhor nos legou através da vida santificada de tantos heróis da fé que nos precederam.
Nestes dias em que nos lembramos dos anos de bênçãos das Confissões, da IELB, do Seminário Concórdia, vos convidamos a refletir sobre as edificantes lições que os santos do passado nos legaram e também sobre a importância de ouvirmos a voz da experiência cristã dos pais, mestres e líderes já embranquecidos que ainda estão entre nós.
REFLEXÕES
1. Você já perguntou aos fundadores de sua congregação por que escolheram o nome que ela tem? Para que tem servido este nome? Apenas para identificá-la entre as demais?
Que tal convidar seus irmãos e estudar a fundo a vida, obra e escritos de seu patrono: São Paulo, São João, São Lucas, São Mateus, Santo Estevão (se as novas congregaçõe¬s que estão nascendo forem mais criativas e escolherem novos nomes, com o tempo seremos especialistas na história e na imitação de todas as figuras de renome da bíblica e eclesiástica).
2. Num país de jovens, numa igreja com um ministério jovem, ao passarmos da condição de "filha" para "irmã", vemos uma grande necessidade de um reaprendizado do quarto mandamento (o primeiro da segunda Tábua) e uma urgente conscientização dos mais experientes e maduros para o difícil e indispensável papel que o Senhor lhes atribuiu no lar, na igreja, na escola e na sociedade.
"Lembrai-vos dos vossos guias" é um excelente e atual tema para uma série de reuniões de pais e filhos nas congregações.
Bruno F. Rieth
Artigo 22 - DAS DUAS ESPÉCIES DOS ACRAMENTO
Aos cristãos em geral, são dadas entre nós ambas as espécies do sacramento, porque é clara ordem e mandamento de Cristo Mt 5.26: "Bebei dele todos." Cristo aí ordena com palavras claras, a respeito do cálice, que todos bebam dele.
E para que ninguém pudesse questionar essas palavras e glosá-las como se pertencesse apenas aos sacerdotes, Paulo mostra, em 1 Co 11, que toda a assembléia da igreja corintiana usou de ambas as espécies. E esse uso continuou por longo tempo na igreja, conforme se pode provar com a história e os escritos dos Pais. Cipriano menciona em muitos lugares que naquele tempo se dava o cálice a todos. E São Jerônimo diz que os sacerdo¬tes que administram o sacramento distribuem ao povo o sangue de Cristo. O próprio Papa Gelásio ordena que não se divida o sacramento Distinct. 2. De consecratione cap. Compe¬rimus. Também não se encontra em parte nenhuma um cânone que ordene se receba apenas uma das espécies. E ninguém pode saber quando ou por quem foi introduzido esse costume de receber uma só espécie, ainda que o Cardeal Cusano menciona o tempo em que esse uso teria sido aprovado. Agora, é manifesto que tal costume, introduzido contrariamente ao preceito de Deus, bem como contrariamente aos cânones antigos, é incorreto. Razão por que foi impróprio onerar as consciências daqueles que desejaram fazer uso do santo sacramento de acordo com a instituição de Cristo, e coagi-los a procederem contrariamente à ordenação de Cristo Senhor nosso. E visto ser a divisão do sacramento contrária à instituição de Cristo, omite-se também entre nós a costumeira procissão com o sacra¬mento.
ESTUDO
Cristo afirma que a Sagrada Escritura não pode falhar (João 10.35). É que toda ela é inspirada por Deus, pois seus escritores falaram da parte de Deus movidos pelo Espí¬rito Santo (2 Timóteo 3.16; 1 Pe 1.21). Pedro lembra que, se alguém fala, prega ou ensi¬na, deve fazê-lo sempre de acordo com os oráculos de Deus (1 Pedro 4.11). João afirma que ninguém tem o direito de tirar, acrescentar ou modificar qualquer verdade da Escritura (Apocalipse 22.18.19). Cristo e os apóstolos, porém advertem que nos últimos tempos surgiriam falsos cristos e falsos profetas, homens que adulterariam a palavra de Deus, que transmitiriam ensinos opostos à sã doutrina, que pregariam mentiras humanas dizendo que são verdades de Deus (Mateus 24.5-24; 1 Timóteo 1.10; 2 Timóteo 4.3,4). Cabe ao povo de Deus permanecer naquilo que aprendeu na palavra de Deus e rejeitar doutrinas contrárias ao ensino da Sagrada Escritura.
A IGREJA ROMANA ENSINA DOUTRINAS ERRONEAS
A igreja romana, embora ser considerada uma das igrejas cristãs, ensina várias doutrinas contrárias à revelação de Deus, entre as quais está o sacramento do altar. Igno¬rando, rejeitando ou adulterando intencionalmente as verdades de Deus sobre a santa ceia, a igreja romana comete dois erros: primeiro, ensina a falsa doutrina da transubstanciação. isto é, pelas palavras do sacerdote, o pão e vinho da santa ceia deixam de ser pão e vinho e se transformam em corpo e sangue; segundo, o comungante comum não recebe o vinho na ceia do Senhor, o qual é tomado somente pelo sacerdote.
Que dizer sobre este ensino romano? Haverá alguma fundamentação bíblica ou será invenção humana? Seria prudente silenciar sobre esta doutrina para não criar choque ou é necessário mostrar e condenar a heresia? Ou será um mero detalhe secundário que não altera a essência e eficácia da santa ceia? Ora, por amor à verdade bíblica, a Confissão de Augsburgo inclui o presente artigo exatamente para mostrar que a santa ceia apenas es¬tará sendo administrada conforme as palavras da instituição quando o comungante recebe os dois elementos exteriores, isto é, o pão e o vinho, sabendo que, em, com e sob o pão recebe o verdadeiro corpo de Cristo, e que, em, com e sob o vinho recebe o verdadeiro sangue de Cristo.
O COMUNGANTE DEVE RECEBER PÃO E VINHO
"Aos não clérigos são dadas entre nós ambas as espécies do sacramento, porque é clara ordem e mandamento de Cristo". As ordens, mandamentos e promessas de Deus são fiéis e verdadeiras. Ninguém recebeu autorização para alterar a palavra do Senhor. Fazê-lo, é transgressão da lei de Deus. Cristo não usou meias palavras ao instituir o sacramento do altar. Não deixou dúvidas. Não deu opções. Os três evangelistas falam claramente nas duas espécies: "Tomou Jesus um pão... dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo; a seguir tomou o cálice... dizendo: Bebei dele todos" (Mateus 26.26-30; Marcos 14.22-24; Lucas 22.19-23). E para desfazer qualquer dúvida sobre a questão, Marcos acrescenta: "E todos, beberam dele".
"E para que ninguém pudesse questionar essas palavras - lembram os confessores luteranos - e glosá-las como se pertencesse apenas aos sacerdotes, Paulo mostra, em 1 Coríntios 11, que toda a assembléia da igreja corintiana usou de ambas as espécies. " Paulo diz expressamente que Cristo "tomou o pão" e que "tomou também o cálice", e mostra que a ceia do Senhor foi celebrada assim: "Porque todas as vezes que comerdes este pão e ¬beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha". Logo, nenhum sacerdote ou papa pode modificar a ordem e o mandamento de Cristo. Para que a santa ceia possa ser o sacramento instituído por Cristo, deve ser celebrada sob duas espécies, e todo o comungante, presente, deve receber pão e vinho.
A IGREJA CRISTÃ ADMINISTRA A SANTA CEIA SOB DUAS ESPÉCIES
"E esse uso continuou por longo tempo na igreja, conforme se pode provar com a história e os escritos dos Pais". Este argumento, embora secundário, é válido, pois mostra que a igreja cristã permanecia fiel ao ensino bíblico, também sobre a doutrina da santa ceia, dando ao comungante os dois elementos: pão e vinho. Cipriano, que foi bispo de Cartago, no norte da África, e que faleceu no ano 258, testemunha que todos os crentes recebiam pão e vinho ao participar da mesa do Senhor. Jerônimo, que traduziu a Bíblia para o latim, e que morreu em Belém no ano de 420, lembra que os sacerdotes de seu tempo administravam a santa ceia sob duas espécies. O papa Gelásio (492-496) condena a intenção de celebrar a ceia do Senhor sob uma forma apenas, mostrando que é uma heresia dos maniqueus. Apenas no Concilio de Constança, em 1415, a igreja romana aprova, definitivamente como lei eclesiástica a heresia sobre a santa ceia.
IMPORTA OBEDECER A DEUS E NÃO AOS HOMENS
Administrando o sacramento do altar apenas com o pão, negando o vinho aos demais (o qual o sacerdote toma), a igreja romana, além de transgredir a ordem e mandamento, de Cristo, introduz preceitos humanos, e faz uma grande diferença entre o sacerdote e outros cristãos, colocando estes numa segunda categoria religiosa. Isto não é permanecer na palavra de Deus.
"Agora, é manifesto que tal costume, introduzido contrariamente ao preceito de Deus, bem como contrariamente aos cânones antigos, é incorreto". A palavra de Deus é verdade, é infalível, é eterna. Nenhuma igreja, nenhuma assembléia, nenhum homem por maior que seja sua posição social, política ou religiosa, pode mercadejar ou adulterar a palavra de Deus. Cristo foi muito claro: "Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (João 8.31.32). O apóstolo também foi muito claro: ''Mas, ainda que nós, ou mesmo um anjo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema" (Gálatas 1-8). João foi muito claro: "Todo aquele que ultrapasse a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus" (2 João 9)_ Como nós também "não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos" (Atos 4.20), precisamos responder à igreja romana o que Pedro e os demais apóstolos afirmaram aos sacerdotes e todos os integrantes do sinédrio: "Antes importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5.29).
É PRECISO ENSINAR E REJEITAR
Nós precisamos repetir ainda hoje o "cremos, ensinamos e confessamos" de nos¬sos pais, e por amor à fidelidade doutrinária, também não omitir o "rejeitamos e conde¬namos" a todos os ensinos contrários à Escritura. Devemos agradecer, louvar e glorificar ao Senhor da igreja por ter preservado em nossa igreja a sã palavra da verdade. Sejamos cristãos agradecidos a Deus. Sejamos testemunhas de Cristo, testemunhas que proclamam a clara mensagem da salvação e combatem toda doutrina que está em desconformidade com a Sagrada Escritura. Deus nos concedeu a graça de conhecermos e administrarmos o santo sacramento do altar conforme instituído por Cristo. Querendo sempre a remissão dos pecados, querendo crescer em nossa fé, querendo "correr com perseverança a carreira que nos está proposta", procuremos participar sempre da santa ceia, sendo fiéis até a morte. Amém.
REFLEXÕES
1. A Sagrada Escritura pode falhar? Por que não?
2. Porque a igreja romana não dá o vinho a todos?
3. Quando a igreja romana aprovou sua falsa doutrina da santa ceia?
4. Quem é discípulo de Jesus e conhecerá a verdade?
5. Está certo quando a igreja diz "cremos, ensinamos e confessamos" e "rejeita¬mos e
condenamos" ?
Leopoldo Heimann (L)
23º Artigo - DO MATRIMÔNIO DOS SACERDOTES
Houve no mundo entre todos, quer de alto, quer de baixo estado, magna e poderosa queixa a respeito de grande incontinência e procedimento e vida dissolutos dos sacerdotes que não foram capazes de se manterem continentes, e, na verdade, se alcançara o auge com tais vícios terríveis.
Para evitar tanto escândalo feio e grande, adultério e outra impudicícia, alguns sacerdotes entre nós entraram no estado matrimonial. Como razão indicam que a isso foram impelidos e movidos por grande aflição de suas consciências, à vista do fato de a Escritura testemunhar claramente que o estado matrimonial foi instituído pelo Senhor Deus para evitar impureza, como diz Paulo: "Por causa da impureza, cada um tenha a sua própria esposa." Também: "É melhor casar do que viver abrasado. " E Cristo, ao dizer, em Mateus 19: "Nem todos captam essa palavra", indica, ele que bem sabia qual a situação do homem, que poucas pessoas têm o dom da castidade. "Pois Deus criou o ser humano como homem e mulher" Gênesis 1. Se está ou não no poder ou capacidade do homem melhorar ou modificar, sem especial dom e graça de Deus, por resolução ou voto próprios, a criação de Deus, a excelsa Majestade, decidiu-o muito claramente a experiência. Qual o bem, que vida honrosa e casta, que conduta cristã, honesta ou integra dai resultou no caso de muitos, quão terrível e pavoroso desassossego e tormento de consciência muitos tiveram no fim da vida por causa disso, é coisa manifesta, e muitos dentre eles o confessaram ¬pessoalmente. Como, pois, a palavra e o mandamento de Deus não podem ser alterados por nenhum voto ou lei humanos, por essas e outras razões e causas os sacerdotes e outros clérigos casaram.
Também se pode provar com a história e os escritos dos Pais que na igreja cristã antiga houve o costume de os sacerdotes e diáconos casarem. Diz Paulo, em vista disso:1 Timóteo 3: ''É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher." E faz apenas quatrocentos anos que na Alemanha os sacerdotes foram compelidos à força a deixarem o matrimônio e fazerem voto de castidade. Todos se opuseram a isso com tamanha seriedade e rijeza, que um arcebispo de Mogúncia, o qual publicara o novo edito papal a respeito, quase foi morto no tumulto de uma revolta de todo o copo sacerdotal. E aquela proibição logo no começo foi efetivada com tanta rapidez e impropriedade, que o papa, ao tempo, não só proibiu o matrimônio de sacerdotes para o futuro, mas ainda rompeu o casamento daqueles que havia muito já estavam nesse estado, o que não é apenas contrário a todo direito, divino, natural e civil, mas também inteiramente oposto e contrário aos cânones estabelecidos pelos próprios papas, bem como aos mais renomados concílios.
Também se tem ouvido freqüentes vezes muitas pessoas eminentes, devotas e sensatas expressarem opiniões e receios similares: que tal celibato obrigatório e privação do matrimônio, que o próprio Deus instituiu e deixou livre ao homem, nunca produziu qualquer bem, mas introduziu muitos vícios grandes e malignos e muitas maldades. Até um dos papas, Pio II, conforme mostra sua biografia, muitas vezes disse - e permitiu que fossem atribuídas - essas palavras: que pode haver algumas razões por que seja o matrimônio proibido aos clérigos; mas que havia razões muito mais elevadas, muito maiores e muito mais importantes por que novamente se lhes devia deixar livre o matrimônio. Sem dúvida nenhuma, o Papa Pio, como homem ajuizado e sábio, falou essa palavra por causa de grave receio.
Queremos, por isso, em submissão à Majestade Imperial, confiar que Sua Majestade, como imperador cristão, digno de alto louvor, graciosamente levará em conta que ao presente, nesses últimos tempos e dias, de que faz menção a Escritura, o mundo se tornará cada vez pior e os homens sempre mais infirmes e frágeis.
Por isso é muito necessário, útil e cristão fazer esse exame cuidadoso, a de não suceder que, proibido o casamento, se alastrem piores e mais vergonhosas impudicícias e vícios nas terras germânicas. Pois que sem dúvida ninguém será capaz de alterar ou fazer essas coisas mais sabiamente, ou melhor, que o próprio Deus, que instituiu o matrimônio, para socorrer a fragilidade humana e prevenir a impureza.
Assim também os antigos cânones dizem que de vez em quando se deve abrandar e relaxar a severidade e o rigor, por causa da fragilidade humana e a fim de acautelar e atalhar coisas piores.
Ora, tal sem dúvida seria cristão e mui necessário também no caso presente. E que prejuízo poderia trazer para a igreja cristã universal o matrimônio dos sacerdotes e do clero, especialmente o dos pastores e de outros que devem servir a igreja? A continuar por mais tempo essa dura proibição do matrimônio, provavelmente haverá falta de sacerdotes e pastores no futuro.
Estando, pois, fundamentado na palavra e no mandamento de Deus isso de os sacerdotes e clérigos poderem casar, e provando a história, além disso, que os sacerdotes casavam, e havendo o voto de castidade produzido número tão elevado de feios e incristãos escândalos, tanto adultério, tão horrível e inaudita imoralidade e vicios hediondos que até alguns honestos de entre os cônegos, bem como alguns cortesãos de Roma, muitas vezes reconheceram o fato e lastimosamente alegaram que tais vícios in clero, por horrendos e desmedidos, haveriam de suscitar a ira de Deus, é deplorável que o matrimonio cristão não só tenha sido proibido, mas que em alguns lugares se haja tido o atrevimento de castiga-lo sem demora, como se fosse grande maldade, não obstante haver Deus ordenado na Sagrada Escritura que se tenha em toda a honra o estado matrimonial. Da mesma forma é o matrimônio grandemente exaltado no direito imperial e em todas as monarquias em que houve leis e direito. Só em nosso tempo é que se começa a martirizar as pessoas, apesar de inocentes, apenas por causa de casamento, e acresce que se faz isso com sacerdotes, que deveriam ser poupados acima de outros. E isto sucede não só contrariamente ao direito divino, mas ainda em oposição aos cânones. Paulo apóstolo 1 Timóteo 4 chama às doutrinas que proíbem o casamento ensino de demônios. Assim o mesmo Cristo diz João 8 que o diabo é homicida desde o princípio. Bem concordam as duas sentenças, por forma que realmente devem ser ensinos de demônios proibir o casamento e atrever-se a manter semelhante doutrina com derramamento de sangue.
Todavia, assim como nenhuma lei humana pode abolir ou modificar o mandamento de Deus, da mesma forma também nenhum voto pode alterar o preceito divino. Essa também a razão de São Cipriano aconselhar deverem casar as mulheres que não guardam castidade jurada, e diz epist. 11 assim: "Se, porém, não querem ou não podem guardar a castidade, é melhor que casem do que caírem, no fogo por sua volúpia. E devem acautelar-se bem para não causarem nenhum escândalo aos irmãos e irmãs."
Ademais, todos os cânones mostram grande clemência e eqüidade para com aqueles que fizeram voto quando jovens. E foi na mocidade que a maioria dos sacerdotes monges acabou nesse estado, por ignorância.
ESTUDO
Durante o papado, o matrimônio foi considerado um estado menos digno, ao passo que o celibato foi louvado como algo especialmente sagrado e merecedor da salva¬ção. A descoberta do evangelho levou os reformadores também à correta compreensão do matrimônio, reconhecendo-o como um estado santo e agradável a Deus, e, portanto, o abriu também de novo ao clero.
FONTE DE PROBLEMAS
Pela queda dos homens em pecado, o sexo se tornou uma fonte de muitos peca¬dos e problemas.
Muitas coisas agem com forte pressão perturbadora sobre o comportamento se¬xual e o matrimônio, como por exemplo: a vida aglomerada em sociedade, os meios de comunicação, a perda do pudor, os problemas econômicos que barram aos jovens o acess¬o ao matrimônio em tempo propício. Toda a pessoa, também o cristão, enfrenta a partir da adolescência muitos problemas, angústias, pecados e desespero. Mesmo na vida matrimo¬nial mais harmoniosa, há problemas a enfrentar e a carregar com paciência na força que Cristo supre.
Não é de estranhar que, já de muito cedo, houve aqueles que consideraram o se¬xo algo repugnante, por ser fonte de inúmeros pecados. Assim houve em toda a história direções opostas: aqueles que degradavam a mulher, a serva, a um ser sem alma e outros que fizeram do adultério um ato de culto; aqueles que atribuíam ao celibato um grau su¬perior de santidade e aqueles que exaltavam o homem que consegue sustentar o maior nú¬mero de mulheres. Esta corrupção em ambas as direções continua até nossos dias.
O CELIBATO
Por influência judaica (essênios) e pagã, o espírito que considerava o celibato um estado mais perfeito, se manifestou cedo na igreja cristã. Na medida em que penetrava nas comunidades a idéia da justificação pelas obras, também crescia a idéia do celibato. No concílio de Nicéia (325) foi solicitado a proibição do matrimônio para os pastores, pois já havia muitas comunidades que preferiam pastores celibatários. O pedido retornou em quase todos os sínodos. O papa Sirius (396) proibiu o casamento aos pastores, e houve fortes pressões contra pastores casados. A questão, no entanto, permaneceu em discussão até o ano de 1074, quando o papa Gregório VII proibiu o matrimônio aos sacerdotes. O celibato foi introduzido à força e encontrou forte resistência, causou terríveis aflições mulheres e filhos de padres foram postos na rua. Todos que se negavam a aceitar a ordem foram encarcerados ou depostos do ministério.
Com razão o apóstolo Paulo chama tal doutrina de "ensino de demônios" (1 Timóteo 4.1). Os argumentos bíblicos buscados para defender o celibato são forjados. Argumenta-se que os sacerdotes no Antigo Testamento realizavam seus serviços no templo afastados de seus lares (Lucas 1.23). Um turno, normalmente compreendia uma semana (1 Crônicas 5.22-25). Concluem, dizendo: como os sacerdotes do Novo Testamento servem com tempo integral, por isso não devem casar. Citam também a passagem de 1Coríntios 7.5, onde Paulo fala da oração e concluem: como o sacerdote deve orar sempre, não deve casar. Estes argumentos distorcem a palavra de Deus.
O SANTO ESTADO MATRIMONIAL
O santo estado matrimonial foi instituído por Deus no jardim do Éden e abençoado por Deus. A queda dos homens em pecados trouxe ao matrimônio muita dor e aflição, mesmo assim não deixa de ser um estado ordenado e abençoado por Deus. Deus deseja que o homem deixe o seu pai e sua mãe e se una à sua mulher. Deus tem agrado e prazer no matrimônio de seus filhos, por isso o matrimônio é exaltado nos salmos (128). Jesus fez seu primeiro milagre numa festa de casamento, para honrar este estado. Ao mesmo tempo o matrimônio serve para evitar tentações e quedas em pecado (1 Coríntios 7.9).
Na verdade traz também a cruz. Não é fácil dois seres pecadores viverem em comunhão. Diariamente precisam aprender a renunciar aos seus interesses e crescer no amor. Precisam aprender a viver mutuamente do perdão. Além disto, a cruz pesa sobre o lar, como a doença, a preocupação com o sustento, etc. Em tudo isso são educados a confiarem em Deus.
Tudo isso é altamente proveitoso para o ministro, que saberá aconselhar muito melhor, conhecendo a vida familiar.
Toda a má compreensão do matrimônio provém da má compreensão do evan¬gelho. Onde compreendemos que somos salvos pela graça de Cristo e de que por esta gra¬ça somos filhos de Deus, compreenderemos a não exaltar uma obra sobre a outra obra, mas compreenderemos que a vida santa e agradável a Deus é cada um ser encontrado fiel ali onde Deus o colocou. Assim o evangelho não somente coloca o matrimônio no seu devido lugar de estado santo, mas também concede forças, consolo e perdão.
REFLEXÕES
1. Releia a definição do Catecismo Menor sobre o matrimônio, no sexto manda¬mento.
2. A igreja tem certos trabalhos, como por exemplo, em pontos avançados na missão, ou em hospitais, lares para menores abandonados ou idosos, onde necessita de pessoas com o dom da castidade. Deve a igreja orar por estes dons e estimular pessoas a buscarem estes dons?
24° Artigo - DA MISSA
Injustamente são os nossos acusados de haverem abolido a missa. Pois é manifesto, sem jactância, que a missa entre nós é celebrada com maior devoção e seriedade que entre os adversários. E as pessoas também são instruídas muitas vezes e com o máximo zelo sobre o santo sacramento, para que foi instituído e como deve ser usado, a saber, a fim de com ele consolar as consciências atemorizadas, através do que o povo é atraído para a comunhão e missa. Ao mesmo tempo também se dá instrução contra outras, errôneas doutrinas concernentes ao sacramento. Não houve, igualmente, modificação notável nas cerimônias públicas da missa, à exceção do fato de em alguns lugares se cantarem hinos alemães além dos latinos, para instruir e exercitar o povo, já que a finalidade principal de todas as cerimônias é que o povo delas aprenda o que lhe é necessário saber de Cristo.
Antes de nosso tempo, entretanto, a missa foi mal-usada de diversas maneiras, como é notório, de tal sorte, que foi transformada em feira, havendo sido comprada e vendida, e, na maior parte, celebrada em todas as igrejas por causa de dinheiro. Homens eruditos e piedosos censuraram esse abuso, repetidas vezes, mesmo antes de nosso tempo. Depois que os pregadores entre nós pronunciaram sermões a esse respeito e os sacerdotes foram advertidos da terrível ameaça que deve com justiça mover a todo cristão, a saber, que é réu do corpo e do sangue de Cristo quem usar do sacramento indignamente, depois disso essas missas comerciais e missas particulares que até aqui haviam sido celebradas compulsoriamente por causa do dinheiro e das prebendas, foram abolidas em nossas igrejas.
Ao mesmo tempo foi censurado o terrível erro de se haver ensinado que Cristo, Senhor nosso, mediante a sua morte satisfez apenas pelo pecado original e que instituiu a missa como sacrifício pelos outros pecados, tendo-se, assim, transformado a missa em sacrifício pelos vivos e pelos mortos, sacrifício pelo qual se tirem pecados e se reconcilie a Deus. Disso, ademais, resultou haver-se discutido se uma missa rezada por muitos merecia tanto como dizer missas especiais para indivíduos. Dai é que veio a grande, inumerável multiplicidade de missas, de forma tal, que se quis com essa obra alcançar junto a Deus tudo quanto se precisava. Entrementes, a fé em Cristo e o culto verdadeiro ficaram esquecidos.
Houve, por isso, instrução a respeito, como sem dúvida o exigia a necessidade, para que se soubesse qual a maneira acertada de usar o sacramento. Em primeiro lugar, a Escritura mostra, em muitos lugares, que pelo pecado original e por outros pecados nenhum sacrifício há senão a só morte de Cristo. Pois está escrito ad Hebraeos que Cristo se ofereceu uma única vez, satisfazendo com esse sacrifício por todos os pecados. É novidade de todo inaudita na doutrina eclesiástica isso de que a morte de Cristo haja satisfeito somente pelo pecado hereditário e não também por outros pecados. É de se esperar, isso, compreendam todos que esse erro não foi censurado injustamente.
Em segundo lugar, São Paulo ensina que alcançamos graça diante de Deus pela fé, não por obras. Manifestamente contrário a isso é o abuso da missa de pensar que se obtém graça mediante essa obra. E é sabido que se usa a missa a fim de por ela remover pecados, bem como para conseguir de Deus graça e toda sorte de bens, não apenas o sacerdote para si mesmo, porém ainda pelo mundo inteiro e por outros, vivos e mortos.
Em terceiro lugar, o santo sacramento foi instituto não para com ele estabelecer, um sacrifício pelo pecado - pois o sacrifício já sucedeu anteriormente, - mas a fim de que por ele se nos desperte a fé e se consolem as consciências, as quais pelo sacramento percebem que Cristo lhes promete a graça e a remissão dos pecados. Razão por que sacramento requer fé, sendo em vão seu uso sem fé.
Visto, pois, que a missa não é sacrifício para tirar os pecados de outros, vivos ou mortos, devendo, ao contrário, ser comunhão em que o sacerdote e outros recebem o sacramento para si mesmos, observa-se entre nós o costume de celebrar missa em dias santos, e, havendo comungantes, em outros dias; e aqueles que o desejam são comungados. De sorte que entre nós a missa é preservada em seu uso correto, tal como foi observada na igreja em outros tempos, conforme se pode provar com São Paulo 1 Co 11, e além disso pelos escritos de muitos Pais. Crisóstomo informa como o sacerdote, diariamente, fica em pé e convida uns à comunhão e a outros proíbe que se aproximem. Também indicam os cânones antigos que um oficiava e comungava os outros sacerdotes e diáconos. Pois assim rezam as palavras no cânone niceno: Os diáconos, de acordo com sua ordem, devem receber o sacramento depois dos sacerdotes, das mãos do bispo ou do sacerdote.
Já que nisso não se introduziu, por conseguinte, nenhuma coisa nova, que não haja existido na igreja desde tempos antigos, e visto que também não houve modificação notável nas cerimônias públicas da missa, excetuado o fato de as outras missas, desnecessárias, rezadas, talvez por abuso, ademais, da missa paroquial, foram eliminadas, não se deve, por justiça, condenar como herética e não-cristã essa maneira de celebrar missa. Pois em tempos passados, também nas igrejas grandes, onde havia muita gente, não se rezava missa diariamente, nem mesmo nos dias em que o povo se reunia. Conforme indica a Tripartita Historia lib. 9, em Alexandria, às quartas e sextas-feiras, a Escritura era lida e interpretada e realizavam-se os demais atos de culto sem a celebração da missa.
ESTUDO
O sacramento do altar recebe diversos nomes: mesa do Senhor, partir do pão, santa ceia, ceia do Senhor, comunhão, eucaristia e missa. A igreja cristã dos primeiros sé¬culos usava as duas últimas designações - eucaristia e missa - como sinônimos de santa ceia. Hoje, estes dois nomes são empregados especialmente na igreja romana. Nada, po¬rém, impede que a igreja luterana também use os mesmos nomes, uma vez que não seja alterada a correta doutrina bíblica da santa ceia. Logo, quando o artigo da Confissão de Augsburgo trata "da missa", ele não está falando das missas católicas, dos ofícios reli¬giosos ou cultos, dos rosários ou novenas, mas do correto uso da santa ceia. Para desfa¬zer qualquer dúvida, repetimos que a Confissão de Augsburgo está empregando o termo missa como sinônimo de ceia do Senhor.
LÍNGUA QUE O POVO NÃO ENTENDE
A igreja romana afirma que a missa apenas podia ser celebrada em língua latina, acusando a igreja da reforma de haver abolido este costume. Argumentando em favor do emprego da língua latina, os romanos diziam: "Sendo que o sacerdote é pessoa que per¬tence à toda igreja e não somente a seu ambiente particular, não se deve estranhar que ele administre a missa no idioma latino dentro da igreja latina ...Tudo que se exige ao inculto (que não entende o latim) é que diga amém ao fato; os cânones mesmos exigem isso ... Os católicos devem familiarizar-se com os modos e costumes da igreja". Embora o Concí¬lio Vaticano II tenha efetuado algumas alterações nos costumes e tradições, a língua latina ainda continua sendo a língua oficial da igreja romana.
Ora, não foi assim que pensou e ensinou o apóstolo Paulo, pois ele afirma: "As¬sim vós, se, com a língua, não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? porque estareis como se falásseis ao ar" (1 Coríntios 14.9).
PREGAR NA LÍNGUA DO POVO
A mensagem da salvação em Cristo Jesus deve ser anunciada na língua que o povo entende. Diz um princípio da comunicação que "a mensagem deve ser levada ao homem, lá onde ele está e como ele é, para que a compreenda". Foi o que Lutero fez ao traduzir a Bíblia na língua do povo, ao escrever livros para o povo, ao pregar Cristo ao povo. A re¬forma não foi iconoclasta. Conservou tudo que era possível conservar da doutrina e das tradições, mas alterou tudo que era necessário alterar dentro da igreja. Por isso diz o artigo 24: "Não houve modificação notável nas cerimônias públicas da missa, à exceção do fato de em alguns lugares se cantarem hinos alemães além dos latinos", e esta alteração é feita "para instruir e exercitar o povo, já que a finalidade principal de todas as cerimônias é que o povo delas aprenda o que lhe é necessário saber de Cristo". Esta continua sendo a mesma razão porque a igreja luterana procura pregar o evangelho e administrar os santos sacramentos na língua que o povo compreende.
OS LUTERANOS CELEBRAVAM O SACRAMENTO COM MAIOR DEVOÇÃO E SERIEDADE
"Injustamente são os nossos acusados de haverem abolido a missa". Esta era a falsa acusação da igreja romana. O sacramento do altar continuava sendo administrado. Mas sem os erros doutrinários, sem os abusos do clero. Por isso os luteranos refutam esta acusação e até mostram que "a missa entre nós é celebrada com maior devoção e serie¬dade", pois "as pessoas são instruídas muitas vezes e com o máximo zelo sobre o santo sacramento, para que foi instituído e como deve ser usado, a saber, a fim de com ele consolar as consciências atemorizadas, através do que o povo é atraído para a comunhão e missa". Além desta orientação sobre a importância e consolo que a ceia do Senhor oferece, o povo recebia instrução sobre as doutrinas errôneas que eram ensinadas pela igreja romana, tais como a falsa doutrina da transubstanciação, a negação do vinho ao comungante não clérigo, a adoração da hóstia, e o sacrifício da missa. Os luteranos tratavam com tamanha devoção e seriedade a celebração da santa ceia que a mesma só era concedida aos comungantes que "foram previamente examinados e absolvidos". É o que ainda acontece hoje na igreja luterana quando é feita a inscrição da santa ceia, o exame de consciência, alocução confessional, a confissão e a absolvição nos cultos públicos.
OS LUTERANOS ABOLIRAM AS MISSAS COMERCIAIS E PARTICULARES
"Essas missas comerciais e missas particulares... foram abolidas em nossas igrejas". Não, a missa nos cultos públicos, isto é, a celebração da santa ceia, não foi abolida, mas era cada vez mais incentivada e "celebrada com maior devoção e seriedade". O que as igrejas luteranas, porém, aboliram foi o abuso, a superstição e a comercialização que existiam na igreja romana. Em sua infidelidade doutrinária, influenciada por homens com interesses sociais e econômicos, vencida pela ganância do dinheiro, os sacerdotes romanos administraram a santa ceia a pessoas particulares, sem permissão das congregações, visando lucros financeiros. Eram missas mercantis. Assim, a ceia do Senhor foi "transformada em feira, havendo sido comprada e vendida, e, na maior parte, celebrada em todas as igrejas por causa do dinheiro". É contra estes abusos e erros que os pregadores luteranos pronunciaram sermões, advertindo a todos "que é réu do corpo e do sangue de Cristo quem usar do sacramento indignamente". Pois essas missas comerciais e missas particulares, celebradas por causa do dinheiro, foram abolidas nas igrejas luteranas.
O POVO RECEBIA INSTRUÇÃO BÍBLICA
"Houve, por isso, instrução a respeito, como sem dúvida o exigia a necessidade, para que se soubesse qual a maneira certa de usar o sacramento". Além dos abusos com missas comerciais e missas particulares, os sacerdotes romanos ampliavam os erros doutrinários sobre a ceia do Senhor. Ensinavam, erroneamente que "Cristo, Senhor nosso, mediante a sua morte satisfez apenas pelo pecado original e que instituiu a missa como sacrifício pelos¬ outros pecados, tendo, assim, transformado a missa em sacrifício pelos vivos e pelos mortos". E é assim que a "fé em Cristo e o culto verdadeiro ficaram esquecidos" na igreja romana.
Por isso, a necessidade de uma instrução bíblica sobre a maneira acertada de usar o sacramento do altar. A Sagrada Escritura mostra que o único sacrifício pelo pecado original e qualquer outro pecado é a morte de Cristo. Hebreus confirma esta verdade ao mostrar que ¬Cristo, como "sumo sacerdote, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pe¬cadores e feito mais alto que os céus", pagou todos os pecados, fazendo "isto uma vez por todas, quando a si mesmo se ofereceu ... tendo obtido eterna redenção" (Hebreus 7. 26,27; 9.12). João também lembra que "o sangue de Jesus, seu Filho, nos purificou de todo o pecado" (1 João 1.7).
CONSOLO ÀS CONSCIENCIAS ATERRORIZADAS
Logo, Jesus expiou todos os pecados. Por outro, ensina o apóstolo Paulo, contrariame¬nte ao que afirma Roma, que "alcançamos graça diante de Deus pela fé, não por obras”, quando diz claramente: "Porque pela graça sais salvos, mediante a fé: e isto não vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie" (Efésios 2.8,9; Romanos 3.20; 6.22,23). A santa ceia também não foi instituída "para estabelecer um sacrifício ¬pelo pecado", pois isto Cristo já fez "quando a si mesmo se ofereceu, uma vez por todas, tendo obtido eterna salvação" (Hebreus 7.27; 9.12), mas para "que por ele se nos desperte a fé e se consolem as consciências". Por isso, o sacramento do altar, além de criar a fé, fortalece a fé na obra redentora de Cristo.
A igreja luterana, pois, não aboliu a missa. Aboliu, isto sim, os abusos, as supers¬tições e as outras doutrinas falsas que a igreja romana praticava. A nossa igreja procura instruir o povo na língua do povo sobre o correto uso da santa ceia, administrando-a nos cultos públicos conforme as palavras da instituição, com decência e ordem, com devoção e seriedade, para que o comungante possa receber o que Deus promete: perdão, vida e salvação. Amém.
REFLEXÕES
1. Que outros nomes recebe a santa ceia?
2. A santa ceia ou os cultos públicos devem ser celebrados em língua latina?
3. Que são as missas comerciais e missas particulares? Qual o seu erro?
4. Cristo morreu só pelo pecado original ou por todos os pecados?
5. Ler e analisar Efésios 2.8,9 e Romanos 3.20; 6.22,23.
Leopoldo Heimann (L)
25º Artigo - DA CONFISSÃO
Os nossos pregadores não aboliram a confissão. Pois se conserva entre nós o costume de não dar o sacramento àqueles que não foram previamente examinados e absolvidos. Ao mesmo tempo se instrui diligentemente o povo sobre o quanto é consoladora a palavra da absolvição e em quão elevada estima se deve ter a absolvição. Pois que não é voz ou palavra do homem que a pronuncia, senão palavra de Deus, o qual perdoa os pecadores. Porque é pronunciada em lugar de Deus e por ordem de Deus. No tocante a essa ordem e poder das chaves ensina-se, com grande diligência, quanto é consoladora e necessá¬ria para as consciências aterrorizadas. Ensina-se, além disso, como Deus exige que creiamos nessa absolvição, não menos do que se a voz de Deus soasse do céu, e que alegremente nos devemos consolar da absolvição e saber que por essa fé alcançamos a remissão dos pecados. Em tempos passados os pregadores, que ensinavam muito a respeito da confissão, não mencionaram sequer uma palavrinha concernente a esses pontos necessários, porém apenas martirizaram as consciências com longa enumeração de pecados, com satisfações, indulgências, romarias e coisas semelhantes. E muitos de nossos oponentes confessam eles mesmos que escrevemos e tratamos do verdadeiro arrependimento cristão mais apropriadamente do que se fez anteriormente, por longo tempo.
E da confissão se ensina: que ninguém deve ser constrangido a contar os pecados designadamente. Porque isso é impossível, conforme diz o Salmo: "Quem conhece os delitos?" E Jeremias diz: "Tão maligno é o coração do homem, que não há como penetrar-lhe os segredos. A misera natureza humana está engolfada tão profundamente em pecados, que é incapaz de ver ou conhecer a todos, e se fôssemos absolvidos apenas daqueles que podemos enumerar, pouco nos ajudaria isso. Razão por que é desnecessário constranger as pessoas a contarem os pecados nomeando-os expressamente. Assim também pensaram os Pais, como se vê em Dist. I de poenitentia, onde são citadas estas palavras de Crisóstomo: "Não digo que te exponhas publicamente, nem que a ti mesmo denuncies ou declares culpado junto a outrem, mas obedece ao profeta, que diz: "Revela ao Senhor os teus caminhos." Por isso, além de tua oração, confessa-te ao Senhor Deus, o verdadeiro juiz; não digas os teus pecados com a língua, mas em tua consciência. "Aqui se vê claramente que Crisóstomo não obriga a uma enumeração especificada dos pecados. Também a Glossa in Decretis, de poenitentia, Dist. 5 ensina que a confissão não é ordenada pela Escritura, porém que foi instituída pela igreja. Os nossos pregadores, todavia, ensinam diligentemente que a confissão deve ser conservada por causa da absolvição - que é sua parte principal e mais importante, - para consolo das consciências aterrorizadas, e ainda por algumas outras razões.
ESTUDO
A Sagrada Escritura afirma que não há homem justo sobre a terra que faça o bem e nunca peque. Todas as pessoas pecaram e pecam. Também o cristão. Mesmo regenerado e filho de Deus, o cristão ainda peca constantemente por palavras, pensamentos e ações. Mas o cristão não quer pecar e não quer viver em pecado, porque sabe que o pecado o separa de Deus e tranca a porta da vida eterna. O cristão quer viver em comunhão com o seu Deus nesta vida e na presença de seu Deus na glória dos céus.
O CRISTÃO FAZ CONFISSÃO E DESEJA A ABSOLVIÇÃO
Sabendo-se pecador, o verdadeiro filho de Deus faz constante confissão de seus pecados, transgressões e iniqüidades e deseja receber a absolvição de seus pecados, trans¬gressões e iniqüidades. O cristão sabe que o perdão é uma necessidade absoluta para viver uma vida abençoada aqui e uma vida gloriosa no além. O cristão também sabe que não existe perdão dos pecados se não há confissão dos pecados.
Por isso o cristão medita em verdades bíblicas como estas: "Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniqüidade do meu pecado" (Salmo 32.5). "O que encobre as suas transgressões, jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia" (Provérbios 28.13). "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça" (1 João 1.9). "Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocul¬tas" (Salmo 19.12). Fica, pois, claro que o cristão faz confissão de seus pecados com a finalidade de receber a absolvição de seus pecados.
Os sete últimos artigos (de 22 a 28) da Confissão de Augsburgo repetem, em par¬te, algumas doutrinas já expostas em artigos anteriores. Por que esta repetição? Para des¬fazer divergências e abusos que surgiram na igreja romana. A doutrina da confissão, já ana¬lisado no artigo 11, é retomada neste artigo 25 exatamente para, numa exposição mais detalhada e extensa, desfazer divergências e abusos, e mostrar o claro posicionamento da igreja luterana sobre a confissão e absolvição.
A VERDADEIRA CONFISSÃO NÃO É ABOLIDA
"Os nossos pregadores não aboliram a confissão". É uma resposta à acusação da igreja romana, a qual dizia que os luteranos haviam desprezado a doutrina da confissão e absolvição. Não era verdade, pois "conserva-se entre nós o costume de não dar o sacra¬mento àqueles que não foram previamente examinados e absolvidos". É o que ainda acon¬tece hoje na igreja luterana: além de existir a confissão e absolvição em todos os cultos públicos, todos os comungantes são levados à confissão de seus pecados e recebem a ab¬solvição de uma maneira bem especial nos cultos em que é celebrada a ceia do Senhor. O povo de Deus é instruído sobre a importância, as bênçãos e o consolo que encontra na ab¬solvição. O pastor sempre está atuando como servo do Senhor, como embaixador de Cristo, como sacerdote de Deus. Os pecados que o cristão confessa ao pastor, na realida¬de, são confessados a Deus. A absolvição que o filho de Deus recebe do pastor, na reali¬dade, está recebendo de Deus. O pastor não está pronunciando palavras humanas, mas está absolvendo "em lugar de Deus e por ordem de Deus". Por isso, ao explicar a confis¬são, Lutero lembra que a absolvição ou o perdão que recebemos do ministro é como se fosse de Deus mesmo, "sem duvidar de maneira alguma, mas crendo firmemente que os pecados são perdoados diante de Deus no céu". E, ao explicar o ofício das chaves e lem¬brar as palavras de Cristo "se de alguns perdoardes os pecados, de fato lhes terão sido per¬doados; se lhes retirverdes terão sido retidos", Lutero lembra que cada cristão deveria confessar: "Creio que tudo o que os ministros de Cristo, devidamente chamados, fazem conosco por sua ordem divina, é tão válido e certo no céu, como se Cristo mesmo, nosso Senhor, tratasse pessoalmente conosco, especialmente quando excluem da congregação cristã os pecadores manifestos e impenitentes e quando absolvem aqueles que se arrepen¬dem de seus pecados e querem corrigir a sua vida".
"E da confissão se ensina assim: que ninguém deve ser constrangido a contar os pecados designadamente. Porque isso é impossível. Ensina a igreja romana que a confis¬são particular é obrigatória, que o pecador deve enumerar e citar, nome por nome, todos os pecados ao sacerdote. O padre assume a posição de juiz e diz perdoar apenas os peca¬dos que foram mencionados. E assim "martirizaram as consciências com longa enumera¬ção de pecados, com satisfações, indulgências, romarias e coisas semelhantes".
HÁ DIFERENÇA ENTRE A CONFISSÃO DIANTE DE DEUS E DO MINISTRO?
Não é este o ensino da igreja luterana. Nossa igreja faz clara diferença entre a confissão diante de Deus e a confissão diante do pastor, pois "diante de Deus devemos confessar-nos culpados de todos os pecados, mesmo daqueles que ignoramos, como o fazemos no Pai Nosso; diante do ministro, porém, devemos confessar somente os pecados que sabemos e que nos pesam no coração". Como o filho de Deus nunca sabe a gravidade e quantidade de seus pecados, também é impossível ele fazer uma relação completa, nome por nome, de suas faltas, transgressões e iniqüidades. Isso é impossível. Além disso, o cris¬tão continuaria com sua consciência aterrorizada, pois nunca sabe se não esqueceu de re¬lacionar algum pecado. Que é impossível enumerar todos os pecados ao confessor, mos¬tram as palavras: "Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas" (Salmo 19.12); "enganoso é o coração, mais do que todas as coisas e desespe¬radamente corrupto, quem o conhecerá?" (Jeremias 17. 9). Exigir, pois, que o cristão deva relacionar cada um de seus pecados, quando, como e porque os cometeu, é pedir o que é impossível ao pecador e é exigência contrária ao ensino da Escritura.
É IMPOSSÍVEL ENUMERAR TODOS OS PECADOS.
É impossível ao pecador relacionar cada um de seus pecados, pois "a misera natureza humana está engolfada tão profundamente em pecados, que é incapaz de ver ou conhecer a todos". Lutero lembra que "se nós somente recebêssemos a absolvição daque¬les pecados que podemos enumerar, pouco auxilio receberíamos". Muito apropriadas também são as palavras de Crisóstomo: "Obedece ao profeta, que diz: Revela ao Senhor os teus caminhos. Por isso, além de tua oração, confessa-te ao Senhor Deus, o verdadeiro juiz; não digas os teus pecados com a língua, mas em tua consciência". Num recente en¬contro de pastores de nossa igreja, em que era analisado o movimento carismático, e, espe¬cialmente, o testemunho dos assim chamados renovados que, em público, citavam peca¬dos que cometiam antes e que agora já não cometiam mais, um jovem pastor disse: "O testemunho deles está errado. Eles estão enganados. Enumerando alguns dos pecados, e confessando-os em público, pensam que já confessaram tudo, e que agora são melhores que seus irmãos. Tornam-se hipócritas e orgulhosos. A questão é bem outra: Não adianta confessar apenas alguns pecados, é preciso confessar o pecado a Deus. Eu sou pecador, eu sou pecado. Eu preciso confessar o meu pecado e não apenas alguns pecados. Cristo mor¬reu e ressuscitou para livrar-me do pecado e não apenas de alguns pecados que eu co¬nheço. Por isso, para que eu possa receber todo o perdão, eu preciso confessar todo o meu pecado, dizendo: "O Deus, tem misericórdia de mim, pobre pecador". Muito correta esta colocação.
CONSOLO E ALEGRIA.
Por isso, é preciso não esquecer que diante de Deus devemos confessar todo o pecado; diante do ministro apenas aqueles que conhecemos e que nos pesam no coração. Não existe absolvição sem verdadeira confissão. Querendo receber perdão de todos os pecados, transgressões e iniqüidades, e viver uma vida em paz, consolo e alegria, o filho de Deus confessa: "O Deus, tem misericórdia de mim, miserável pecador", e terá como resposta: "Vai-te em paz, perdoados estão os teus pecados". Amém.
REFLEXÕES
1 Existe alguma pessoa sem pecado?
2 É possível enumerar todos os pecados que cometemos contra Deus?
3 Por que o salmista ora: "Absolve-me das (faltas) que me são ocultas"?
4 Que diz Lutero sobre a absolvição que o pastor faz?
5 Qual foi a diferença entre o fariseu e o publicano? Com que diferenças voltaram para as suas casas?
Leopoldo Heimann (L)
26º Artigo - DA JUSTIFICAÇAO DE COMIDAS
Em tempos anteriores ensinou-se, pregou-se e escreveu-se que diferença de comidas e tradições semelhantes instituídas por homens servem para merecer graça e satisfazer pelos pecados. Por essa razão se excogitaram diariamente novos jejuns, novas cerimônias, novas ordens e coisas semelhantes, e nisso se insistiu com veemência e energia, como se tais coisas fossem culto divino necessário pelo qual se merecesse graça se a gente o observasse e como se sua inobservância constituísse grande pecado. Disso resultaram muitos erros perniciosos na igreja.
Em primeiro lugar, com isso se obscurecem a graça de Cristo e a doutrina da fé, que o evangelho põe diante de nós com grande seriedade, insistindo vigorosamente que se considere o mérito de Cristo como algo de grande e precioso e se saiba que a fé em Cristo deve ser posta muito acima de todas as obras. Por isso São Paulo batalhou com veemência contra a lei de Moisés e as tradições humanas, para aprendermos que diante de Deus não nos tornamos piedosos mediante as nossas obras, porém somente pela fé em Cristo, que alcançamos a graça por amor de Cristo. Essa doutrina extinguiu-se quase que por completo com isso de se haver ensinado a merecer graça por jejuns prescritos, distinção de manjares, vestimenta, etc.
Em segundo lugar, tais tradições também obscureceram os mandamentos de Deus, pois foram colocadas muito acima dos preceitos divinos. Só se considerava vida cristã isto: observar as festas dessa maneira, rezar dessa maneira, jejuar dessa maneira, vestir-se dessa maneira. A isso é que se chamava vida espiritual, cristã. Ao mesmo passo, outras obras necessárias e boas eram consideradas coisa mundana, não-espiritual, a saber, aquelas que cada qual deve fazer de acordo com sua vocação, como, por exemplo, que o chefe de família trabalhe para sustentar mulher e filhos e criá-los no temor de Deus, que a mãe de família dê à luz filhos e zele por eles, que um príncipe e magistrado governe o pais e o povo, etc. Tais obras, ordenadas por Deus, cumpria tê-las na conta de coisa secular e imperfeita. As tradições, porém, tinham de ter o esplêndido nome de serem as únicas obras santas e perfeitas. Razão por que não havia limite nem fim quanto à feitura de tais tradições.
Em terceiro lugar, essas tradições se tornaram grande peso para as consciências. Porque não era possível guardá-las todas, e o povo, todavia pensava que isso era culto divino necessário. Escreve Gérson que muitos caíram em desespero com isso e alguns até cometeram suicídio por não terem ouvido nenhum consolo da graça de Cristo. Vê-se nos sumístas e teólogos como as consciências eram confundidas. Meteram eles ombro à tarefas de coligir as tradições e procuraram atenuantes para auxiliar as consciências. Tanto se ocuparam com isso, que entrementes ficaram negligenciados todos os salutares ensinamentos cristãos a respeito de coisas mais necessárias, como, por exemplo, a fé, o consolo em tentações severas, e coisas semelhantes. Também grande número de pessoas piedosas e eruditas antes de nosso tempo queixaram-se muito de que tais tradições causavam muitas contenda na igreja e de que pessoas devotas eram impedidas com isso de chegarem ao verdadeiro conhecimento de Cristo. Gérson e alguns outros fizeram queixa veemente a esse respeito. Na verdade, também desagradou a Agostinho o fato de as consciências haverem sido oneradas com tantas tradições. Razão por que no assunto dá instrução no sentido de que não se devem considerá-las coisas necessárias.
Os nossos, por isso, não ensinaram acerca dessas coisas por petulância ou desprezo da autoridade espiritual; foi, isto sim, a grande necessidade que exigiu dessem instrução concernente aos erros supramencionados, que surgiram de inteligência errônea da tradição. Porque o evangelho obriga a urgir na igreja a doutrina da fé, a qual, todavia, não pode ser entendida quando se pensa merecer graça por obras de própria escolha.
Ensina-se a esse respeito que pela observância das mencionadas tradições humanas não se pode merecer graça, ou reconciliar a Deus, ou satisfazer pelo pecado. E por isso não se deve fazer delas culto divino necessário. Para tanto citamos razões da Escritura. Em Mt 15 Cristo escusa os apóstolos quando não observaram tradições costumeiras, e diz: "Em vão me adoram com preceitos humanos." Ora, se a isso chama de culto vão, não pode ser necessário. E logo em seguida: "Não é o que entra pela boca o que contamina o homem." Paulo também diz Rm 14: "O reino de Deus não é comida nem bebida. "C1 2:" Ninguém vos julgue por causa de comida, bebida, sábados, etc. "Diz Pedro em Atos 15 "Por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais puderam suportar, nem nós? Mas cremos que seremos salvos pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo, como também aqueles o foram."Aqui Pedro proíbe onerar as consciências com mais cerimônias externas, sejam de Moisés, sejam de outro. E em 1 Tm 4 interdições tais como proibir comidas, proibir o casamento, etc. são chamadas doutrinas de demônios. Pois é diametralmente oposto ao evangelho instituir ou fazer semelhantes obras com o fim de por elas merecer perdão dos pecados ou por se pensar que ninguém pode ser cristão sem tal culto.
Agora, quanto ao fato de aqui os nossos serem acusados de proibirem mortificação e disciplina, como fez Joviniano, colher-se-á coisa bem diversa dos escritos deles. Pois com respeito à santa cruz sempre ensinaram que os cristãos devem sofrer, e isto é mortificação verdadeira, séria, que não inventada.
Ensinam, além disso, que cada um deve haver-se de tal maneira com exercício corporal, como jejum e outros labores, que não dê ocasião ao pecado, não para merecer graça com tais obras. Esse exercício corporal não deve ser praticado apenas em alguns dias determinados, mas continuamente. Cristo fala disso em Lc 21: "Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que os vossos corações fiquem sobrecarregados com as conseqüências da orgia”. Também: "Essa casta de demônios não pode ser expulsa senão por meio de jejum e oração." E Paulo diz que esmurra o seu corpo e o deduz à obediência. Com isso indica que a mortificação não deve servir para a finalidade de com ela merecermos graça, mas para manter o corpo idôneo, a fim de que não impeça o que a cada qual é ordenado fazer segundo a sua vocação. De sorte que não se condena o jejum, mas isso de se haver feito dele um culto necessário, com dias e comidas determinados, confusão das consciências.
Também se guardam entre nós muitas cerimônias e tradições, como a ordem da missa e outros cânticos, festas, etc., que servem para manter ordem na igreja. Ao mesmo tempo, todavia, ensina-se ao povo que esse culto divino externo não torna justo diante de Deus e que se deve observá-la sem onerar a consciência, por forma que, se for omitido causar escândalo, não há nisso pecado. Essa liberdade em cerimônias exteriores também foi mantida pelos Pais antigos. Pois no Oriente a Páscoa era celebrada em época diversa da de Roma. E como alguns quisessem considerar essa diversidade como cisma na igreja - foram admoestados por outros de que não era necessário observar uniformidade em tais costumes. Ireneu diz o seguinte: "Diferença no jejum não rompe a unidade da fé." Também da Dist. 12 está escrito, no tocante a essa dessemelhança em ordenações humanas, que ela não contraria a unidade da cristandade. E a Tripartita Hist. lib. 9 colige muitos usos eclesiásticos desiguais e inclui uma proveitosa sentença cristã: "Não foi intenção dos apóstolos instituir dias santos, mas ensinar fé e amor”
ESTUDO
O HOMEM GOSTA DE FAZER LEIS PARA OS OUTROS
Sempre que o homem deixa de humilhar-se inteiramente diante do santo e justo Deus; de reconhecer que nele não há mérito algum; de crer que estar na presença graciosa de Deus é exclusivo mérito de Cristo, o Mediador - sempre que isto se dá, o homem fica vaidoso, acha que ser cristão é grande coisa que ele mesmo conseguiu. Então começa a contar vantagem, acha-se melhor do que os outros. Tira a Cristo do seu lugar, tornando-se um "deusinho" ou um "salvadorzinho".
Dentro deste espírito, imediatamente se julga no direito de fazer leis para os outros: "Se eu sou tão bom, os outros também têm que ser! Vou dizer-lhes o que devem fazer para serem como eu." É o legalismo, a religião que trazemos quando chegamos ao mundo e sempre nos tentará.
- Você não estava pensando em si, estava? Pois devia! Este é um perigo que assalta a todos nós. Vamos citar um exemplo:
Alguém aumenta a sua contribuição para a missão (movido pelo Espírito Santo ou por falsa motivação), Fica acima da média dos irmãos. Aí pensa: "Esta gente tem que contribuir mais! São mesmo maus cristãos! Temos que achar um jeito de fazê-los contribuir mais. Vamos exigir uma taxa mínima ou então uma percentagem sobre o salário de cada um."
Pronto: aí está a lei, a fórmula, o método, a ordenação. Porque faltou o evangelho!
CRISTO GOSTA DE OFERECER O EVANGELHO PARA OS OUTROS
Existe apenas uma maneira legítima para motivar o filho de Deus ao serviço con¬sagrado ao Senhor e ao próximo: a cruz de Cristo! De lá se ouve a sua voz: "Assim eu me dei por ti, assim eu vim servir-te. Comprei-te pelo alto preço da minha própria vida. Do inferno te arranquei. Assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Toma sobre ti a tua cruz e segue-me! Agora eu te convido cordialmente: Entrega a tua vida a mim e ao teu próximo!"
Cristo não nos conquistou fazendo leis e exigências. Salvou-nos obedecendo, ser¬vindo, morrendo. Isto é evangelho. Pelo evangelho nos chamou. Pelo evangelho nos move a servi-lo e a chamar o próximo e servi-lo. Apontando para esta cruz, para este Cristo, para este evangelho, a freqüência aos cultos vai melhorar, também, a vida familiar e congrega¬cional, as contribuições vão aumentar, o amor vai crescer.
O Mestre não deu leis sobre isto. Vamos nós dá-las?
O Servo deu-se no evangelho. Vamos distribuí-lo!
O REINO DE DEUS NÃO É QUESTÃO DE COMIDA OU DE BEBIDA
Os grandes erros da igreja católica romana podem ser colocados justamente sob este título do legalismo ou da religião das obras. Daí a sua identificação como "Anticristo", pois coloca méritos humanos no lugar da graça do Filho de Deus. Exclui a Cristo, é contra (anti) Cristo.
O assunto das ordenações eclesiásticas já foi abordado no artigo 15. Agora se des¬taca especialmente a distinção ou diferença de comidas (o que e quando se pode comer e não comer), jejuns, cerimônias e outras ordens. A obediência à estas regras humanas que não tinham base na Escritura era exigida pelos padres e bispos como merecedora de graça e para satisfação dos pecados. Insistiram com veemência no seu cumprimento como se fossem culto divino necessário. Não obedecer era declarado grave pecado.
Daí resultou graves erros:
1. Obscureceram as doutrinas fundamentais do evangelho. A fé era mencionada mas a ênfase estava nas boas obras.
2. Colocaram seus decretos humanos acima dos mandamentos do Senhor. Con¬verteram o cristianismo numa religião de ritos e cerimônias. Os manjes e monjas passaram a ser conhecidos como "religiosos". Os verdadeiros cumpridores de seus deveres cristãos, familiares e profissionais eram considerados mundanos, imperfeitos, inferiores. Isto trou¬xe grande prejuízo, pois se relaxavam os verdadeiros deveres cristãos e se cultivava uma grande admiração pela vida monástica.
2. O artigo diz que estes decretos punham a consciência em grande perigo, pois era impossível guardar tudo. Ocupavam todo o tempo dos ministros, restando pouco tempo para anunciar o evangelho e consolar as consciências perturbadas.
DOUTRINAS QUE SÃO PRECEITOS DE HOMENS
Aos fariseus, que condenavam os discípulos por não observarem o cerimonial do Antigo Testamento (ultrapassado com a vinda de Cristo), o Mestre deu uma resposta que não deixa dúvidas: "Hipócritas! bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram. ensinando doutrinas que são preceitos de homens. E, tendo convocados a multidão, lhes disse: Ouvi e entendei: Não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto sim, contamina o homem" (Mateus 15.7-11).
Aos judeus que queriam que os cristãos convertidos do paganismo fossem cir¬cuncidados, Pedro disse, no concilio de Jerusalém: "Ele não fez nenhuma diferença entre nós e eles, pois perdoou os pecados deles porque creram. Então, por que é que vocês estão querendo desafiar a Deus? Assim vocês querem por uma carga nas costas dos que agora estão crendo. E esta carga, nem nós nem nossos antepassados pudemos carregar. Não pode ser assim. Nós cremos e somos salvos pela graça do Senhor Jesus, do mesmo modo que eles" (Atos 15.9-11), NTLH).
São palavras muito claras, ditas pelo "primeiro papa" e que também estão regis¬tradas na Bíblia usada pela igreja romana.
JUSTIÇA, PAZ E ALEGRIA QUE O ESPIRITO SANTO DÁ .
O cristão se coloca diariamente sob a disciplina do Espírito Santo, que pela força da palavra e dos sacramentos livra do pecado. O jejum e outras práticas e abstinências vo¬luntárias podem ser úteis. Porém jamais devem ser impostos como leis ou praticados como sendo obra meritória. A cruz que o cristão suporta como seguidor do Redentor, com boa vontade e humildade, é o melhor exercício e sacrifício de gratidão e amor. O apóstolo Paulo podia falar de experiência e nos legou preciosa recomendação: "O reino de Deus não é questão de comida ou de bebida, mas de justiça, paz e alegria que o Espírito Santo dá. E quem serve a Cristo desta maneira agrada a Deus, e é aprovado pelos homens. Por isso busquemos sempre as coisas que trazem a paz e que nos ajudam a fortalecer uns aos outros na fé" (Romanos 14.17-19, NTLH).
REFLEXÕES
1. Você poderia identificar o legalismo em seitas de nossos dias? Cite alguns exemplos.
2. Que perigos corremos em nossa própria igreja? Não estamos às vezes mais preocupados em aparentar santidade e cobrar fidelidade dos outros do que viver e anunciar o evangelho em toda a sua consoladora dimensão?
3. Convide os seus irmãos a estudar a fundo a situação em sua congregação. Veja se está sendo usada a legítima maneira de levar os membros a viverem a verda¬deira vida cristã. Como você pode colaborar para que isto possa acontecer mais e mais?
Que cuidados devem tomar os pregadores e cristãos em geral para que o mun¬do não pense que a religião cristã é uma coleção de obrigações que têm que ser cumpridas para se poder entrar no céu, mas que é a Boa Notícia da graça em Cristo Jesus que transforma os corações e a vida dos pecadores e lhes ofe¬rece gratuitamente a salvação eterna?
Bruno F Rieth
27° Artigo - DOS VOTOS MONÁSTICOS
Para falar dos votos monásticos é preciso que lembremos em primeiro lugar como se procedeu a esse respeito até agora, que espécie de vida houve nos mosteiros, e que muitas coisas se fizeram neles todos os dias não só contrariamente à palavra de Deus, mas também ao direito papal. Nos tempos de Santo Agostinho as ordens monásticas eram livres. Depois, quando se corromperam a verdadeira disciplina e doutrina, inventaram-se votos monásticos, e por meio deles se tentou restaurar a disciplina, como que por cárcere planejado.
Além disso, adicionou-se aos votos monástico grande número de outras coisas, e com tais cadeias e gravames foram carregados muitos, também antes da idade apropriada.
Aconteceu outrossim que muitas pessoas chegaram à vida monacal por ignorância. Ainda que não eram demasiadamente jovens, todavia não mediram nem entenderam suficientemente sua capacidade. Todos esses, enredados e envolvidos dessa maneira, eram obrigados e compelidos a permanecer nessas cadeias, não obstante o próprio direito papal conceder liberdade a muitos deles. E isso foi mais duro em conventos de freiras do que nos de frades, quando teria sido conveniente poupar as mulheres, como o sexo frágil. Esse rigor e dureza também desagradaram em tempos anteriores a muitas pessoas piedosas, pois certamente viam que meninos e meninas eram metidos em mosteiros para fins de subsistência material. Por certo viram, outrossim, quão mau foi o resultado dessa empresa, que escândalos e opressão de consciências trouxe. E muitas pessoas se queixaram do fato de em tão perigoso assunto os cânones haverem sido de todo negligenciados. Houve, além disso, opinião tal sobre os votos monásticos, que, como é manifesto, desagradou também a muitos monges de algum entendimento.
Alegavam que votos monásticos eram iguais ao batismo e que pela vida monástica se mereciam remissão dos pecados e justificação diante de Deus. Na verdade, acrescentavam ainda que pela vida monástica se merecia não só justiça e santidade, mas também que por essa vida se cumpriam os preceitos e os conselhos incluídos no evangelho, de modo que se exaltavam os votos monásticos mais do que o batismo. Afirmava-se, igualmente, que se merece mais com a vida monástica do que com todos os outros estados de vida que Deus ordenou, como o de pastor e pregador, o de governante, príncipe, senhor e similares, os quais todos servem a sua vocação, de acordo com o mandamento, a palavra e a ordem de Deus, sem espiritualidade fictícia. Nenhum desses pontos pode ser negado, pois que se encontram em seus próprios livros.
Ademais, quem era assim enredado e acabava no mosteiro, pouco aprendia sobre, Cristo. Antigamente havia nos mosteiros escolas de Letras Sagradas e de outras disciplina úteis à igreja cristã, de sorte que dos mosteiros se tomavam pastores e bispos. Agora, porém, a coisa é muito diferente. Em tempos passados congregavam-se em vida monacal para estudar a Escritura; agora alegam que o monacato é de natureza tal, que por ele se merecem a graça de Deus e a justiça diante dele. Na verdade, consideram-no estado de perfeição e o põem muito acima dos outros estados, que foram instituídos por Deus. Tudo isso é mencionado, sem qualquer detração, para que se possa perceber e entender tanto melhor o que os nossos ensinam e pregam e como o fazem.
Em primeiro lugar, ensina-se entre nós, com respeito aos que casam, que todos aqueles que não são aptos para o celibato têm poder, razão e direito de contrair matrimônio. Porque os votos não podem anular a ordenação e o mandamento de Deus. Ora, o preceito divino reza assim 1 Co 7: "Por causa da impureza, cada um tenha a sua própria esposa e cada uma o seu próprio marido. "Ademais, não só o mandamento de Deus, mas também a criação e a ordenação de Deus impulsam, obrigam e compelem ao estado matrimonial a quantos não foram agraciados com o dom da castidade por especial obra de Deus, segundo estas palavras do próprio Deus Gn 2: "Não é bom que o homem esteja só: far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea. "
Que é que se pode objetar a isso? Enalteça-se o voto e a obrigação o quanto se queira; sobreexalte-se a coisa o quanto se possa; ainda assim não se pode conseguir que com isso seja ab-rogado o mandamento de Deus. Dizem os doutores que os votos também não são obrigatórios quando feitos contrariamente ao direito papal; quanto menos então devem vincular, ser válidos e ter força contra o mandamento de Deus!
Se nenhuma razão existisse pela qual a obrigação dos votos pudesse ser anulada, também os papas não teriam dispensado e desobrigado deles. Pois não é da competência de nenhum homem rescindir obrigação que se origina de direito divino. Razão por que os papas julgaram acertadamente que se deve exercer alguma eqüidade nessa obrigação, e muitas vezes concederam dispensa, como no caso de um rei de Aragão e em grande número de outros casos. Ora, se houve dispensa para conservar coisas temporais, com muito mais justiça deve haver dispensa por causa de necessidade das almas.
Depois, por que os oponentes insistem com tanta energia que se devem guardar os votos sem considerarem primeiro se é própria a espécie do voto? Pois o voto deve dizer respeito a coisa possível e deve ser voluntário, inconstrangido. Mas bem se sabe como a castidade perpétua está no poder e na capacidade do homem. E são poucos os homens e as mulheres que fizeram o voto monástico de moto próprio, voluntária e refletidamente. Antes de chegarem a correto entendimento, são persuadidos ao voto monástico. Vez que outra também são forçados e impelidos a isso. Razão por que não é justo que se discuta com tanta imponderação e rigidez sobre a obrigação do voto, à vista do fato de todos confessarem ser contrário à natureza e ao caráter do voto isso de não se prometer voluntariamente e a bom conselho e com reflexão.
Alguns cânones e leis papais anulam os votos feitos antes da idade de quinze anos, pois julgam que antes dessa idade não se tem entendimento suficiente para poder determinar a ordem de toda a vida, como se deve constituí-la. Outro cânone concede mais anos ainda à fragilidade humana, pois proíbe que se faça o voto monástico antes dos dezoito anos. Isso dá à maioria escusa e razão para abandonarem os mosteiros, porquanto a maior parte chegou aos mosteiros na infância, antes daquela idade.
Por último, ainda que se pudesse censurar a violação do voto monástico, não poderia, contudo, seguir-se daí que se deva dissolver o casamento de tais pessoas. Porque Santo Agostinho diz 27. quaest. I, cap. Nuptiarum que não se deve dissolver tal matrimônio. E não é diminuto o prestígio de Santo Agostinho na igreja cristã, ainda que outros, posteriormente, julgaram de maneira diversa.
Se bem que o mandamento de Deus concernente ao matrimônio liberta a muitos deles do voto monástico, os nossos, contudo, apresentam ainda mais razões para mostrar que votos monásticos são nulos e não-vinculativos. Porque todo o culto divino instituído e escolhido por homens, sem mandamento e ordem de Deus, para alcançar justiça e a graça de Deus, é oposto a Deus e contrário ao santo evangelho e à ordem de Deus, como diz o próprio Cristo em Mt 15: "Em vão me adoram com preceitos de homens." Também São Paulo ensina em toda a parte que não devemos procurar a justiça em nossos preceitos e cultos divinos, inventados por homens, porém que justiça e piedade diante de Deus vêm da fé e da confiança, de crermos que Deus nos recebe na graça por causa de Cristo, seu único Filho.
Ora, é mui notório haverem os monges ensinado e pregado que a espiritualidade excogitada satisfaz pelo pecado e alcança a graça e a justiça de Deus. Que é isto senão diminuir a glória e o louvor da graça de Cristo e negar a justiça da fé? Segue-se, portanto, daí que esses votos costumeiros foram cultos divinos impróprios, falsos. Razão por que também não vinculam. Pois voto ímpio e feito contrariamente ao preceito de Deus é não-vinculativo e nulo. Também os cânones ensinam que o juramento não deve. ser vin¬culo do pecado.
Diz São Paulo em Gálatas 5: "De Cristo vos desligastes vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes. "Por isso também estão desligados de Cristo e decaíram da graça aqueles que querem ser justificados por intermédio de votos, pois roubam a honra de Cristo, o único que justifica, e dão essa honra a seus votos e a sua vida monástica.
Não se pode negar, outrossim, haverem os monges ensinado e pregado que eram justificados e mereciam a remissão dos pecados por meio de seus votos e vida e observân¬cias monásticas. Na verdade, inventaram coisa ainda mais desastrada e absurda, dizendo que partilhavam suas boas obras aos outros. Agora, se alguém quisesse repisar e salientar tudo isso impiedosamente, quanta coisa poderia reunir de que os próprios monges agora se envergonham e que quiseram não ter feito! Além de tudo isso, também persuadiram as pessoas de que as ordens espirituais inventadas são estados de perfeição cristã. Isto, sem dúvida, é exaltar as obras como meio da justificação. Ora, não é pequeno escândalo na igreja cristã apresentar ao povo semelhante culto, inventado pelos homens sem preceito de Deus, e ensinar que tal culto torna os homens íntegros e justos diante de Deus. Porque a justiça da fé, em que se deve insistir mais do que em qualquer outra coisa na igreja cristã, é obscurecida quando os homens são deslumbrados com essa singular espiritualidade Angélica e a simulação de pobreza, humildade e castidade.
Ademais, também os mandamentos de Deus e o verdadeiro e genuíno culto são obscurecidos quando o povo ouve que apenas os monges estão no estado da perfeição. Porque a perfeição cristã é isto: temer a Deus de coração e seriamente, e, contudo, ter, outrossim, cordial certeza, fé e confiança de que por causa de Cristo temos um Deus gracioso e misericordioso, que podemos e devemos pedir-lhe e dele desejar aquilo de que carecemos, e confiantes esperar dele auxílio em todas as aflições, de acordo com a profissão e o estado de cada um; e que, entrementes, também devemos praticar, com diligência, boas obras na vida exterior e servir a nossa vocação. Nisso consiste a verdadeira perfeição e o verdadeiro culto a Deus, não em mendigar ou em vestir hábito preto ou cinza, etc. Mas o povo comum concebe muitas opiniões perniciosas a partir da falsa exal¬tação da vida monástica, quando ouve que se enaltece sem qualquer moderação o estado celibatário. O resultado é que o povo está no estado matrimonial de consciência pesada. Quando o homem comum ouve que apenas os mendicantes são perfeitos, não lhe é possível saber que pode possuir bens e negociar sem pecado. Quando o povo ouve que não vingar-se é apenas um conselho, segue-se que alguns pensam não ser pecado exercer vingança fora do oficio. Alguns entendem que vingança de forma nenhuma convém aos cristãos, nem mesmo à autoridade.
Também se encontram, em leituras, muitos exemplos de alguns que abandonaram mulher e filhos, também seu ofício governamental, retirando-se a mosteiros. Isto, disseram eles, é fugir do mundo e procurar vida que agrada mais a Deus do que o modo de vida dos outros. Nem podiam saber que se deve servir a Deus nos mandamentos dados por ele, não nos mandamentos inventados por homens. Ora, não há dúvida de que estado de vida bom e perfeito é aquele que tem a seu favor o mandamento de Deus; por outro lado, é perigoso o estado de vida que não tem a seu favor o mandamento de Deus. Foi necessário dar ao povo boa instrução a respeito de tais coisas.
Em tempos passados também Gérson censurou o erro dos monges concernente à perfeição, e indicou que em sua época era novidade isso de se dizer que a vida monástica é estado de perfeição.
Tantas opiniões e erros ímpios se prendem aos votos monásticos: que justificam e tornam integro diante de Deus, que são a perfeição cristã, que com eles se cumprem tanto os conselhos como os preceitos evangélicos, que têm obras supererogatórias, as quais não se devem a Deus. Porquanto tudo isso é falso, vão e inventado, segue-se que também tornam nulos e sem vinculo os votos monásticos.
ESTUDO
Este artigo foi fortemente contestado pelos católicos. Consideraram o artigo um sacrilégio por tocar na auréola das boas obras dos monges e das freiras, cuja abnegação, cujos sacrifícios e cujas boas obras resplandecem até hoje diante dos olhos do mundo.
O NOBRE TRABALHO DOS MONGES E DAS FREIRAS
No tempo de Lutero, a maioria dos trabalhos na igreja foi realizado pelos monges e pelas freiras, como ainda hoje em muitos lugares. Quem poderia ignorar suas vigílias e suas orações? Quem poderia ignorar seus feitos na educação por centenas de anos? Ainda hoje monges e freiras se destacam no campo do ensino do jardim de infância à universi¬dade. Quem poderia ignorar sua abnegação e paciência para com os doentes, crianças e velhinhos? Não é isto feitos de sacrifícios dignos de toda a consideração e louvor? Não sente o mundo hoje falta destas pessoas abnegadas em hospitais, orfanatos e asilos? Servi¬ços esses que em nossa era materialista ninguém quer abraçar. Por que, então, o presente artigo condena com tanta veemência a vida monástica?
O QUE CONDENA ESTE ARTIGO?
Convém notar que a condenação provém de monges. Lutero e seus colaboradores foram monges. A reforma começou no mosteiro dos agostinianos. Por isso perguntamos: O que eles condenaram? As boas obras? O espírito de abnegação e sacrifícios? Não! O ar¬tigo condena dois erros fundamentais: O primeiro grande erro é o ensino de que o voto monástico (no qual uma pessoa promete, sob juramento, não casar e permanecer pobre) torna uma pessoa justa diante de Deus, que uma pessoa por sua vida de abstenção se torna um ser perfeito.
Lutero, seus companheiros e muitos outros monges, como o atestam vários es¬critos, experimentaram uma terrível decepção. Muitos deles fizeram o voto monástico na esperança de alcançarem a perfeição, e constataram ser isso impossível por obras próprias.
O segundo grande erro é o ensino de que os monges realizam mais boas obras do que Deus requer deles, formando, assim, um superávit de boas obras que podem ser ven¬didas para outros.
Contra esses dois ensinos, que são uma afronta à obra de Cristo, a Confissão de Augsburgo levanta sua voz neste artigo, bem como contra outros abusos decorrentes des¬tes dois erros fundamentais.
O VOTO
Que vem a ser o voto? Voto é um juramento no qual uma pessoa promete al¬guma coisa a Deus, quer algo de seus bens, do seu tempo ou até dedicar pessoas a Deus. Jacó prometeu o dizimo a Deus (Gênesis 28.22). Jefté fez um voto contrário à palavra de Deus, jurando sobre algo desconhecido, ao prometer sacrificar a Deus a primeira coisa que lhe viesse ao encontro, quando retornasse para casa (Juízes 11.29-40). Saul fez um voto errado que perturbou o povo de Israel ao proibir-lhes comer alguma coisa antes do anoi¬tecer e quase mata o seu próprio filho Jônatas. O povo livrou Jônatas da morte (1 Samuel 14). Herodes igualmente jurou com leviandade (Mateus 14.1-12). Não temos na Bíblia ordem para fazer votos, nem estímulo para tanto. Mas a Bíblia nos mostra que é possível fazê-lo e, quando são feitos, devemos encará-los com seriedade (Salmo 56.12, Salmo 50,14); se for um juramento errado, não cumpri-lo, mas suplicar por perdão.
Não temos necessidade de votos. Nossa palavra seja sim, sim, ou não, não.
Existem votos que brotam da fé, que são oração a Deus. O voto mais importante em nossa vida, que é uma resposta natural, livre e espontânea de nossa fé, é o voto batis¬mal, do qual emanam muitos outros votos em nossa vida. No voto batismal renunciamos ao diabo e todas as suas tentações e nos entregamos ao Deus triúno, para lhe ser fiel na fé, nas palavras e nas obras até à nossa morte. Este voto renovamos cada dia, especialmente por ocasião de nossa confirmação. Deste voto brotam muitos outros votos, pelos quais dedicamos ao serviço de Deus nossos dons, nosso tempo e nossos bens. Estas resoluções, estas determinações brotam constantemente da fé. Não são frutos da lei. São ofertas es¬pontâneas e voluntárias, não para merecer ou conquistar algo de Deus, mas a expressão de nossa fé que não pode de outra maneira a não ser servir alegremente. Se então fizermos promessa ou votos, isto visa colocar alvos e desta forma frear nosso velho homem que constantemente nos quer dissuadir no servirmos com confiança ao nosso Deus. Ninguém tem direito de prescrever a outrem os votos que deve fazer. Se nossa carne nos enganar, e num momento de entusiasmo carnal tivermos feito votos errados, votos que são preju¬diciais a nós, à nossa fami1ia ou até ao reino de Deus, devemos voltar atrás e suplicar que Deus nos perdoe.
Mesmo nossos melhores alvos e o melhor cumprimento de nossos votos são im¬perfeitos e não agradam a Deus se não forem purificados pela graça de Cristo.
Quando, numa comunidade, a fé esmorece e aumenta no meio dos fiéis o nú¬mero dos infiéis e dos hipócritas, tenta-se freqüentemente remediar a situação pelo de¬cretar de leis, pela elaboração de métodos, pelo criar de momentos emocionais para então extrair promessas de toda a ordem. Tudo isso baseado no espírito da lei, que é contrário ao espírito do evangelho. Isto é condenável. Devemos ter especial cuidado com votos e promessas no campo da mordomia. Em nosso mundo materialista, há necessidade de cer¬tas promessas, para a orientação da comunidade e para por ordem em nossa contribuição. Não devemos ser levianos no cumprimento dos votos, mas também não exigir o cumpri¬mento logisticamente.
Em nossa era materialista, a igreja necessita de muitos dons, também daqueles que têm o dom do celibato, que podem renunciar ao casamento para se dedicarem quer à missão, quer a serviços em hospitais, lares para menores abandonados, escolas de excep¬cionais e o amparo aos velhinhos. Isto deve ser estimulado e por tais dons devemos orar. Mas jamais os queremos impor, nem sobreestimá-los a outras obras da fé cristã.
Por isso concluímos com as palavras do apóstolo Paulo: "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12.1-3).
REFLEXÕES
1. Por que o apóstolo Paulo não casou? Ele poderia ter casado? 1 Coríntios 5.5.
2. Se uma moça faz para si o voto de castidade, para servir como enfermeira num hospital, e mais tarde notar que não tem o dom para isso e pretender casar, pode?
3. Se alguém faz uma promessa de contribuir com uma quantia "x", porém é impedido por doenças ou outros imprevistos a cumprir o seu voto, pode que¬brar o seu voto? O que estava errado, o voto?
4. Analise o voto de Saul 1 Samuel 14.
Horst Kuchenbecker
28º Artigo - DO PODER DOS BISPOS
Muito se escreveu, em tempos passados, sobre o poder dos bispos, e alguns confundiram, desastrosamente, o poder dos bispos com a espada temporal. Desse baralhamento desordenado resultaram mui grandes guerras, tumultos e rebeliões pelo fato de os bispos, sob o pretexto do poder a eles dado por Cristo, não só haverem instituído novos cultos e onerado as consciências com a reserva de alguns casos e com violentas excomunhões, mas também se haverem atrevido a entronizar e depor, a seu talante, imperadores e reis, abuso que já muito antes de nosso tempo foi censurado por pessoas eruditas e piedosas na cristandade. Por isso os nossos, para consolo das consciências, se viram compelidos a mostrar a diferença entre o poder, espada e autoridade espiritual e secular, e ensinaram que por causa do mandamento de Deus ambos os regimes e poderes devem ser honrados e estimados, com toda a reverência, como os dois maiores dons de Deus na ter¬ra.
Os nossos ensinam que, de acordo com o evangelho, o poder das chaves ou dos bispos é o poder e ordem de Deus de pregar o evangelho, remitir e reter pecados e administrar e distribuir os sacramentos. Pois Cristo enviou os apóstolos com esta ordem João 20: "Assim como o Pai me enviou, em também vos envio. Recebei o Espírito Santo. Se de alguns perdoarem os pecados, são-lhes perdoados; se lhes retiverdes, são retidos."
Esse poder das chaves ou dos bispos é praticado e exercido apenas através do ensino e pregação da palavra de Deus e pela administração dos sacramentos a muitos ou a indivíduos, dependendo da vocação que se tiver. Pois com isso se conferem não bens corporais, senão coisas e bens eternos, a saber, justiça eterna, o Espírito Santo e a vida eterna. Não se podem obter esses bens senão pelo ministério da pregação e pela administração dos santos sacramentos. Porque São Paulo diz: "O evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. " Visto, pois, que o poder da igreja ou dos bispos confere bens eternos e é praticado e exercido apenas pelo ofício da pregação, de modo nenhum embaraça o governo e autoridade temporal. Porque o poder secular trata de coi¬sas muito diferentes das do evangelho. O poder temporal não protege a alma, porém defende, com a espada e penas físicas, corpo e bens contra poder externo.
Por isso não se devem baralhar e confundir o poder espiritual e o temporal. Pois o poder espiritual tem a ordem de pregar o evangelho e administrar os sacramentos. Também não deve invadir oficio alheio. Não deve entronizar e destronar reis, não deve ab-rogar ou minar as leis civis e a obediência ao governo, não deve fazer e prescrever ao poder temporal leis a respeito de matéria secular, conforme disse o próprio Cristo: "O meu reino não é deste mundo." Também: "Quem me constituiu juiz entre vós?" E São Paulo, em Filipenses 3:”A nossa pátria está nos céus”. E na Segunda Epistola aos Coríntios, capítulos décimo: “As armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas; anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus."
Dessa maneira os nossos distinguem os oficio s de ambas as autoridades e poderes e mandam que os dois sejam tidos em honra como os dons mais elevados de Deus na terra.
Onde, porém, os bispos possuem autoridade temporal e a espada, não as têm como bispos, de direito divino, mas de direito humano, imperial, dadas por imperadores e reis romanos, para administração temporal de seus bens. E nisso nada tem que ver com o oficio do evangelho.
Por isso, segundo o direito divino, o oficio episcopal é pregar o evangelho, perdoar pecados, julgar doutrina e rejeitar doutrina que é contrária ao evangelho e excluir da congregação cristã os ímpios cuja vida ímpia seja manifesta, sem o emprego de poder humano, mas apenas pela palavra de Deus. E nisso os paroquianos e as igrejas têm o dever de obedecer aos bispos, de acordo com esta palavra de Cristo Lucas 10: "Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim." Todavia, quando ensinam, introduzem ou estabelecem algo contrário ao evangelho, temos ordem de Deus de que em tal caso não devemos obedecer. Mateus 7: "Acautelai-vos dos falsos profetas. "E São Paulo em Colossenses 1:"Mas, ainda que nós, ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema." E na Segunda Epistola aos Coríntios, capitulo 13: "Porque nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade': Também: "Segundo a autoridade que o Senhor me conferiu para edificação, e não para destruir': O mesmo ordena o direito canônico em 2, q.7, nos capitulos "Sacerdotes" e "Oves". E Santo Agostinho escreve na Epístola contra Petiliano que também aos bispos regularmente eleitos não se deve obedecer caso errem ou ensinem ou ordenem algo contra a santa e divina Escritura.
Agora, que os bispos, quanto ao mais, tenham poder e jurisdição em algumas coisas, como, por exemplo, em questões matrimoniais ou no dizimo, têm-nos em virtude de direito humano. Quando, porém, os ordinários são negligentes em tal ministério, os príncipes têm a obrigação, quer o façam prazerosamente ou não, de pronunciar nisso direito aos seus súditos, por amor da paz, para evitar discórdia e grandes distúrbios nos territórios:
Discute-se, além disso, sobre se os bispos têm poder para instruir cerimônias na igreja e fazer leis respeito a alimentos, dias santos e diferentes ordens de ministros da igreja. Os que concedem esse poder aos bispos alegam essa palavra de Cristo João 16: "Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos ensinará toda a verdade." Referem também o exemplo de Atos 15, onde proibiram o sangue e o sufocado. Alega-se ainda que o sábado foi mudado para o domingo, contrariamente aos Dez Mandamentos, segundo pensam, e nenhum exemplo é enfatizado e alegado tanto que a mudança do sábado. Querem sustentar com isso que é grande o poder da igreja, porquanto dispensou nos Dez Mandamentos e modificou algo neles.
Mas a respeito dessa questão os nossos ensinam que os bispos não têm poder para instituir e estabelecer algo contra o evangelho, conforme se mostrou acima e como ensina o direito canônico em toda a Distinção nona. Ora, é evidentemente contrário à ordem e à palavra de Deus fazer ou decretar com o intuito de por isso satisfazer pelo pecado e alcançar a graça. Pois a glória do mérito de Cristo é blasfemada quando ousamos merecer graça com tais observâncias. Também é patente que por causa dessa opinião as ordenanças hu¬manas cresceram incalculavelmente na cristandade e que enquanto isso a doutrina da fé e da justiça da fé esteve completamente suprimida. Diariamente se ordenavam novos feriados, novos jejuns, e se estabeleciam novas cerimônias e novas venerações de santos, a fim de com tais obras merecer graça e todo o bem junto a Deus.
Da mesma forma os que instituem ordenanças humanas também agem contra o mandamento de Deus com isso de porem pecado em alimentos, dias e coisas semelhantes, e oneram dessa maneira a cristandade com a escravidão da lei, como se, para merecer a graça de Deus, fosse necessário que existisse entre os cristãos culto semelhante ao levítico, cuja instituição Deus teria ordenado aos apóstolos e bispos, como alguns escrevem a respeito. E é bem crível que alguns bispos foram enganados com o exemplo da lei de Moisés. Dai provieram tão inumeráveis ordenações: que é pecado mortal fazer trabalho manual em dias santos, ainda quando não haja ofensa a outros; que é pecado mortal omitir as horas canônicas; que alguns alimentos poluem a consciência; que jejum é obra com que se reconcilia a Deus; que em caso reservado o pecado não é perdoado a menos que se procure primeiro o reservante do caso, não obstante o direito canônico não falar da reserva da culpa, senão da reserva das penas eclesiásticas.
De onde têm os bispos o direito e poder de impor tais ordenações à cristandade, para ilaquear as consciências? Pois em Atos dos Apóstolos, capitulo 15, SãoPedro proibe que se ponha o jugo na cerviz dos discípulos. E São Paulo diz em Coríntios que o poder lhes foi dado para edificar, não para destruir. Por que então multiplicam os pecados com tais ordenações?
Existem, porém, claras passagens da divina Escritura que proíbem estabelecer semelhantes ordenações para merecer a graça de Deus, ou como se fossem necessárias para a salvação. Assim diz São Paulo em Colossenses 2: "Ninguém vos julgue, pois, por causa de comida, ou bebida, ou dias determinados, a saber, os dias de festa, ou as luas novas, ou os sábados, que é sombra das coisas que haviam de vir, porém o corpo é de Cristo." Também: "Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos deixais prender por ordenanças: não manuseies, não proves, não toques? Todas estas coisas, com o uso, se destroem e são preceitos e doutrinas dos ho¬mens e têm aparência de sabedoria. " E em Tito 1 São Paulo proíbe abertamente que demos ouvidos a fábulas judaicas e mandamentos de homens que se desviam da verdade.
Também o próprio Cristo diz, em Mateus 15, a respeito daqueles que insistem com as pessoas sobre preceitos humanos: "Deixai-os: são cegos, guias de cegos." E reprova tais cultos, dizendo: "Toda planta que meu Pai celeste não plantou, será arrancada."
Se os bispos têm o poder de onerar as igrejas com inúmeras ordenanças e de ilaquear as consciências, por que então a divina Escritura proíbe tantas vezes fazer e observar ordenanças humanas? Por que lhes chama doutrinas de demônios? Teria o Espírito Santo prevenido contra tudo isso em vão?
Por isso, visto que tais ordenações, instituídas como necessárias, para reconciliar a Deus e merecer graça, são contrárias ao evangelho, de modo nenhum é próprio para bispos impor semelhantes cultos. Pois é necessário reter na cristandade a doutrina da liber¬dade cristã de que não é necessária a servidão da lei para justificação, conforme escreve São Paulo aos Gálatas, capitulo quinto: "Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão." É necessário conservar o artigo principal do evangelho: Que alcançamos a graça de Deus pela fé em Cristo, sem mérito nosso, e que não a merecemos mediante culto instituído por homens.
Que se deve pensar, então, do domingo e de similares ordenanças e cerimônias eclesiásticas? A isso respondem os nossos que os bispos ou pastores podem fazer ordenações para que as coisas sejam feitas com ordem na igreja, não a fim de com elas alcançar a graça de Deus, também não a fim de por elas satisfazer pelo pecado ou obrigar as consciências a que as tenham na conta de cultos necessários e a julgar que pecam quando dei¬xam de observá-las sem escândalo. Assim São Paulo ordenou em Coríntios que as mulheres velem a cabeça na congregação e que os pregadores não falem todos ao mesmo tempo na assembléia, mas ordenadamente, um após outro.
É conveniente que a assembléia cristã, por causa do amor e da paz, observe tais ordenações e obedeça aos bispos e pastores nestes casos, e as guarde até onde um não ofenda o outro, para que não haja desordem ou anarquia na igreja. Contudo, de maneira tal, que não onerem as consciências, de forma a pensarem que são coisas necessárias para a salvação e haverem que pecam quando as violam sem ofensa para outros. Assim como ninguém diz pecar a mulher que, sem ofensa para outros, se apresenta em público de cabeça descoberta.
Tal é a observância do domingo, da Páscoa, do Pentecostes e feriados e ritos semelhantes. Pois erram muito os que julgam que a observância do domingo em lugar do sábado foi estabelecida como necessária. A Sagrada Escritura ab-rogou o sábado e ensina que depois da revelação do evangelho podem omitir-se todas as cerimônias da lei antiga. Contudo, visto que era necessário estabelecer um dia determinado, a fim de que o povo soubesse quando devia reunir-se, a igreja cristã destinou o domingo para esse fim, e tanto mais agrado e disposição teve relativamente a tal mudança, para que o povo tivesse um exemplo da liberdade cristã e se soubesse que nem a guarda do sábado nem de qualquer outro dia é necessária.
Há muitas discussões falhas sobre a mudança da lei, sobre as cerimônias do Novo Testamento, sobre a mudança do sábado. Originaram-se todas da falsa e errônea opinião de que devia haver na cristandade um culto similar ao Levítico ou judaico, e de que Cristo haja ordenado aos apóstolos e bispos que excogitassem novas cerimônias necessárias para a salvação. Esses erros se introduziram na cristandade quando não se ensinava e pregava de maneira límpida e pura a justiça da fé. Alguns sustentam a respeito do domingo que se deve guardá-lo, posto não de direito divino, contudo quase que como de direito divino. E prescreveram a forma e a medida em que se pode trabalhar em dia santo. Mas que outra coisa são tais disputas senão laços para a consciência? Pois ainda que procuram mitigar e epiqueizar ordenações humanas, contudo não se pode alcançar nenhuma epiquéia ou mitigação enquanto está de pé e permanece a opinião de que são necessárias. Ora, essa opinião necessariamente permanece quando nada se sabe da justiça da fé e da liberdade cristã.
Os apóstolos ordenaram abstenção do sangue e do sufocado. Mas quem observa isso hoje em dia? E contudo não pecam os que não o observam, porque os próprios apóstolos não quiseram onerar as consciências com tal escravidão, mas apenas o proibiram por algum tempo, a fim de evitar escândalo. Pois nessa ordenação é preciso atentar no artigo principal da doutrina cristã, que não é ab-rogado por esse decreto.
Quase nenhum dos cânones antigos é observado tal qual reza. E diariamente muitas das ordenações se tornam obsoletas, mesmo entre aqueles que observam essas ordenações de maneira diligentíssima. Não se pode aconselhar nem auxiliar as consciências onde não se observa essa mitigação, para sabermos observar essas ordenações de maneira que não as tenhamos por necessárias, cientes também de que as consciências não são feridas, ainda que desapareçam tais ordenações.
Os bispos, entretanto, manteriam facilmente a obediência, se não insistissem na observância daquelas ordenações que não se podem guardar sem pecado. Mas o que fazem agora é proibir a administração das duas espécies no santo sacramento, proíbem o casamento dos clérigos e a ninguém recebem a menos que jure primeiro que não vai pregar es¬sa doutrina, não obstante acordar ela, fora de dúvida, com o santo evangelho. As nossas igrejas não pedem que os bispos voltem a estabelecer a paz e a unidade com prejuízo para a honra e a dignidade deles, conquanto em caso de necessidade os bispos devem fazer também isso. Pedem somente que os bispos relaxem algumas cargas injustas que em tempos passados não existiam na igreja e foram recebidas contrariamente ao costume da igreja cristã universal. Talvez de inicio hajam tido alguma razão, mas em nossos tempos já não são congruentes. Também é manifesto que algumas ordenanças foram recebidas por causa de falta de entendimento. Razão por que os bispos deveriam ter a bondade de mitigar essas ordenanças, visto que tal mudança não prejudica a conservação da unidade da igreja cristã. Porque muitas ordenações de origem humana com o passar do tempo caíram por si mesmas, não sendo necessário guardá-las, conforme testifica o próprio direito papal. Se isso, porém, é de todo impossível, e se não se pode conseguir que eles moderem e ab-roguem ordenações humanas que não se possam guardar sem pecado, então devemos se¬guir a norma apostólica que nos ordena obedecer antes a Deus que aos homens.
São Pedro proíbe aos bispos o domínio, como se tivessem o poder de coagir as igrejas ao que eles quisessem. Agora não se trata de como privar os bispos de seu poder; pede-se e deseja-se, isto sim, que não coajam as consciências a pecado. Se, porém, não fizerem isso, desprezando esse pedido, reflitam então sobre como responderão a Deus por isso, porquanto com essa pertinácia dão causa a divisão e cisma, coisa que em justiça devem ajudar a prevenir.
CONCLUSÃO
Estes são os artigos principais que são considerados como controvertidos. Embo¬ra se pudesse haver falado de número muito maior de abusos e erros, contudo, para evitar prolixidade e extensão citamos apenas os principais, a partir dos quais facilmente se pode ajuizar quanto aos outros. Pois em tempos passados houve muita queixa sobre as indul¬gências, sobre peregrinações, abusos em matéria de excomunhão. Os pastores tinham infinitas contendas com os monges quanto a ouvir confissões, a respeito de sepultamento, no tocante a prédicas em ocasiões extraordinárias e relativamente a inúmeras outras coisas. Com as melhoras intenções e por amor à cortesia passamos tudo isso por alto, a fim de que tanto melhor se pudessem notar os pontos principais nessa questão. Não se deve julgar que qualquer coisa haja sido dita ou mencionada por ódio ou para infamar. Relatamos apenas aquilo que julgamos necessário aduzir e mencionar, a fim de que daí se pudesse tanto melhor perceber que, em doutrina e cerimônias, entre nós nada se recebeu que seja contra a Sagrada Escritura ou a igreja cristã universal. Porque deveras é público e manifesto havermos evitado, diligentíssimamente e com a ajuda de Deus (para falar sem vangloria), que se introduzisse, alastrasse e prevalecesse em nossas igrejas qualquer doutri¬na nova e ímpia.
Seguindo o edito, quisemos apresentar os artigos supramencionados, como de¬claração de nossa confissão e da doutrina dos nossos. E caso alguém entenda que falta al¬go, estamos prontos a dar-lhe informações mais ampla, com base na divina Escritura Sa¬grada.
De Vossa Majestade Imperial mui submissos e obedientes:
João, Duque da Saxônia, Eleitor Jorge, Margrave de Brandenburgo Ernesto, Duque de Lüneburg Filipe, Lantgrave de Messe
João Frederico, Duque da Saxônia Francisco, Duque de Lünebuerg Wolfgang, Príncipe de Anhalt Burgomestre e Conselho de Nuremberga Burgomestre e Conselho de Reutlingen
ESTUDO
Freqüentemente ouve-se queixa por parte de membros: "O pastor quer man¬dar demais". Outros se queixam, dizendo: "O pastor não é suficientemente enérgico. Ele deveria usar mais da autoridade". Diante dessas objeções surge a pergunta: Qual é o poder do pastor? Até onde vai sua autoridade?
A Confissão de Augsburgo buscou respostas na Bíblia que ainda hoje fornecem orientação segura.
O presente artigo denuncia abusos cometidos pelos bispos na época de Lutero. Em segundo lugar, define qual a atribuição do poder civil e do poder eclesiástico. Em terceiro lugar, mostra qual o poder dos bispos.
ABUSOS
Desde o tempo dos apóstolos, até o tempo do imperador romano Constantino (312-337), a igreja cristã sofreu árduas perseguições. Com o imperador Constantino as perseguições cessaram, pois ele se tornou favorável ao cristianismo. A partir dali o cris¬tianismo ganhou influência e prestígio. O poder dos bispos começou a crescer. Em 754 AD o papa Estevão II coroou Pipino, rei dos francos, em recompensa por seu auxilio prestado ao papa no estabelecimento da autoridade papal na Itália. Dali por diante, a igreja conseguiu rapidamente o domínio sobre a autoridade civil. A fusão dos dois poderes, o civil e o eclesiástico, na pessoa do papa, trouxe grandes danos à igreja e ao mundo. Houve guerras, tumultos, excomunhões violentas. Reis foram usurpados de seus tronos. Os que levantavam sua voz contra tais abusos foram silenciados.
Ainda hoje se pergunta: até onde vai o poder dos bispos? Possui a igreja os dois poderes? Possui o estado os dois poderes? Ou são os dois poderes, civil e eclesiástico, separados? São antagônicos? O que a Bíblia tem a dizer sobre isso?
O GOVERNO CIVIL
A Bíblia faz nítida distinção entre o poder civil e o poder eclesiástico (poder do santo ministério). Ambos os poderes foram instituídos por Deus, com campos de ação distintos e armas diferentes.
O governo civil é autoridade criada e ordenada por Deus. Esta autoridade tem sua procedência da autoridade paternal e encontra amparo no quarto mandamento. O governo civil se ocupa com as coisas desta vida. Deve proteger a vida e a propriedade do próximo. Para tanto decreta leis que visam o bem comum. Para conseguir o cumprimen¬to da lei, Deus entregou ao governo a espada. Com ela o governo ameaça os transgressores da lei e castiga, até com pena de morte, os transgressores rebeldes (Romanos 13.1-7; 1 Pedro 2.11-17).
O cristão não só obedece à autoridade constituída, mas também desfruta da pro¬teção da mesma. (Romanos 13.4).
A alegação do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 6.1, de ser vergonhoso aos cris¬tãos recorrerem a um juiz do mundo, não desmerece a autoridade. Aqui Paulo censura os cristãos por seus conflitos e por não saberem resolver tais conflitos que o cristão pode valer-se da proteção do estado, ao citar sua cidadania romana (Atos 22.21) e ao apelar para César (Atos 26.32).
O PODER ECLESIÁSTICO
O poder eclesiástico, ou o poder do santo ministério, também foi instituído por ordem de promessa de Cristo (Marcos 16.19; João 20.21-24). O ministro ocupa-se, em pri¬meiro lugar, com a salvação das almas. Sua tarefa é anunciar a palavra de Deus e adminis¬trar os sacramentos. Seu poder é perdoar os pecados aos pecadores penitentes e retê-los aos impenitentes, enquanto não se arrependerem. Por isso Jesus diz: "O meu reino não é deste mundo, se o meu reino fosse deste mundo os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui" (João 18.36). Em relação à autoridade, eles são como que a consciência do governo, pois também à autoridade devem anunciar a palavra de Deus. Mas não cabe ao ministro ou à igreja lançar mão à espada.
A teologia da libertação, na qual se afirma que a igreja visa o homem todo, dan¬do primordial atenção à sua condição social e até instigando à rebelião, não é bíblica. A Bíblia diz: "Salvai-vos desta geração perversa" (Atos 2.40). Por seu amor ao próximo, a igreja pratica a caridade. Assim organiza hospitais, abrigos para menores abandonados e ampara os idosos, visando também neste trabalho, sobretudo a salvação das almas.
Assim, ambos os poderes são instituídos por Deus e devem ser respeitados como instituições divinas. Onde o governo e a igreja se orientam pela palavra de Deus, cumprindo suas diferentes funções, não haverá conflito entre eles, pois o governo civil respeitará a igreja e a igreja respeitará a autoridade civil. Infelizmente são bem poucos os momentos na história onde isto aconteceu. Freqüentemente a igreja se intrometeu em assuntos do estado e o estado se intrometeu em assuntos da igreja. Sempre foi difí¬cil o estado e a igreja compreenderem a orientação de Jesus: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mateus 22.21). Mas, não houve só problema entre as duas autoridades, há também o problema de os bispos, os pastores excederem seus limites de autoridade dentro da própria igreja. Por isso a Confissão de Augsburgo define o poder dos bispos.
O PODER DOS BISPOS
A autoridade dos bispos (pastores, conselheiros distritais, presidentes regionais, presidente da igreja) consiste na pregação da palavra de Deus a administração dos sacra¬mentos. Quando o fazem conforme a palavra de Deus, cumpre aos membros obedecer conforme as palavras de Jesus: "Quem vos der ouvidos a vós, ouve-me a mim; e, quem vos rejeitar, a mim me rejeita; quem, me rejeita, rejeita àquele que me enviou" (Lucas 10.16). Quando os bispos agem contra o evangelho, Cristo proíbe obedecê-los (Gálatas 1.8).
Qualquer outro direito que os bispos exercem, o fazem por direito humano. Por exemplo, o pastor cumprir seus direitos civis, filiar-se a um partido político, externar sua convicção política, ser vereador. Isto não significa que todos os membros precisam ter a mesma convicção política do pastor. Não acreditamos na infabilidade do papa, nem na infabilidade do bispo ou do pastor. Outra questão é, se é aconselhável o pastor externar sua convicção política e exercer todos os seus direitos civis. Normalmente, para o bem de seu ministério, isto não é aconselhável.
O ESPÍRITO DA LEI
Enquanto a igreja está aqui na terra, ela necessita de organização. De livre e es¬pontânea vontade e em amor a igreja se organiza em âmbito de congregação, em âmbito distrital, regional, nacional e internacional. Estas organizações podem mudar sua for¬ma, mas não em seu princípio de autoridade da Escritura e da soberania da comunidade e o princípio evangélico.
Quando, no entanto, a fé enfraquece e o número de infiéis cresce na comunidade e o evangelho parece não fazer mais efeito, muitos buscaram solução na lei, julgando que leis iriam remediar a situação. Assim surgiram leis e cerimônias na igreja, tidas até como obrigatórias para a salvação, obscurecendo o evangelho. Este poder, nem o pastor, nem a congregação, nem convenções possuem. A palavra de Deus é a única autoridade; no res¬to o amor une os cristãos e os levam à execução da obra dentro da liberdade cristã e da mú¬tua responsabilidade como membros do corpo de Cristo.
REFLEXÕES
1. Reveja no Catecismo Menor, na Tábua dos Deveres, as atribuições do pastor e dos
membros.
2. Reveja os estatutos de sua comunidade e os estatutos e o regimento da IELB, para
compreender bem as atribuições do pastor e dos membros.
3. Defina o que é o espírito do evangelho, especialmente quando se trata de re¬soluções
da comunidade, dos distritos, das convenções nacionais.
Horst Kuchenbecker
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