Obras de Lutero 2
PREFÁCIO AO NOVO
TESTAMENTO
O mais certo e razoável seria
que este livro saísse sem qualquer prefácio e nome estranho, e apresentasse
apenas seu próprio nome e dizeres. Entrementes, porém, há uma série de
interpretações e prefácios a desorientar a mente dos cristãos, de forma a quase
não mais se saber o que significa evangelho ou lei, Novo ou Antigo Testamento.
Por isso a necessidade exige uma orientação e prefácio, para que a pessoa
simples seja conduzida do seu engano anterior para o caminho correto e receba
instrução acerca do que ela deve levar em consideração neste livro. Assim não
procurará mandamento e lei ao estar procurando evangelho e promessa de Deus. Se canta, fala e se alegra. Por exemplo: Quando Davi
subjugou o gigante Golias, o povo judeu recebeu a boa notícia e novidade
consoladora de que seu inimigo terrível tinha sido morto e eles [agora] estavam salvos, levados à alegria e paz, motivo por que cantaram e dançaram e ficaram alegres.
Da mesma forma este evangelho de Deus e este Novo Testamento é boa nova e
notícia, que os apóstolos fizeram ressoar em todo o mundo: A boa notícia de um
bom Davi, que lutou com o pecado, a morte e o diabo e os subjugou; assim
salvou, justificou, vivificou e beatificou, sem que o merecessem, a todos
aqueles que estavam presos em pecados, atormentados pela morte, subjugados pelo
diabo; dessa forma os levou de volta para casa, para a paz e para Deus, motivo
pelo qual eles cantam, dão graças a Deus, louvam e estão alegres eternamente,
desde que o creiam firmemente e permaneçam na fé.
Semelhante proclamação e notícia consoladora, ou novidade
evangélica e divina, também é chamada de "novo testamento". E isso
pela seguinte razão: Um homem que está por morrer estabelece como sua propriedade
será distribuída entre os herdeiros por ele designados, após a sua morte. A
isso se chama testamento. Assim também Cristo ordenou e estabeleceu que
semelhante evangelho fosse proclamado após sua morte em todo o mundo, assim
entregando a todos que crêem todo o seu bem, isto é: sua vida, com a qual
tragou a morte; sua justiça, com a qual extermina o pecado; sua beatitude, com
a qual superou a condenação eterna. A pobre pessoa humana, enredada em pecados,
morte e a caminho do inferno, nada pode ouvir de mais consolador que essa preciosa,
querida mensagem de Cristo; seu coração tem que rir do mais profundo íntimo e
se alegrar, ao crer que isso seja verdade.
Para fortalecer essa fé, Deus prometeu, por diversas vezes, este seu
evangelho e testamento no Antigo Testamento através dos profetas, como Paulo
o diz em Romanos.11s: "Fui separado para o evangelho de Deus, o qual foi
por Deus outrora prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas
Escrituras, com respeito a seu Filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência
de Davi", etc. E, para mencionarmos várias passagens, ele o prometeu
primeiro ao dizer à serpente em Gênesis
3.15: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o
se descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar." Cristo é a descendência dessa mulher que esmagou a
cabeça do diabo, isto é, o pecado, a morte, o Inferno e toda a sua força.
Porque, sem essa descendência, pessoa alguma pode escapar do pecado, da morte,
do inferno. Da mesma forma ele o
prometeu em Gênesis 22.18 a Abraão: "Em
tua descendência serão benditas todas as nações da terra." Cristo é a
descendência de Abraão, diz Paulo em Gálatas 3.16. Ele abençoou a toda a terra através do evangelho. Pois
onde Cristo não
está, ali ainda existe a
maldição que caiu sobre Adão e seus filhos devido a seu pecado, de forma a
serem forçosamente culpados e pertencentes ao pecado, à morte e ao inferno. Opondo-se à maldição, o evangelho agora abençoa todo
o mundo através de seu chamado público: Quem crê nessa descendência de Abraão,
será abençoado, estará livre de pecado, morte e inferno, e está justificado, vivo e salvo eternamente, como o diz o próprio Cristo
em João 11.26: "Quem crê em mim, jamais morrerá."
-Da mesma forma ele o prometeu a Davi em 2
Samuel 7.12ss, ao dizer: "Hei de despertar tua descendência após ti, ela
me edificará uma casa, e eu firmarei seu reino eternamente. Quero ser seu pai,
e ele será meu filho", etc. Esse é o reino de Cristo, do qual fala o
evangelho: um reino eterno, da vida, da bem-aventurança e justiça, para dentro
do qual virão da cadeia do pecado e da morte todos os que crêem. Semelhantes
promessas do evangelho ainda há outras, como por exemplo Miquéias 5.2: "E tu Belém, és
pequena entre as cidades de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em
Israel", e ainda Oséias 13.14: "Eu os resgatarei das mãos da morte,
da morte os salvarei."
Assim vemos agora que não há mais do que um evangelho, bem como apenas um Cristo. Isso porque "evangelho" não é nem pode
ser outra coisa senão uma pregação de Cristo, filho de Deus e de Davi,
verdadeiro Deus e homem, que por nós, com sua morte e ressurreição, superou o pecado, a morte e o inferno de todos os que
nele crêem. De sorte que o evangelho pode constar de uma fala curta ou longa,
podendo um dizê-lo em palavras breves e outro, de forma longa. Em pormenores o
descreve aquele que descreve muitas obras e palavras de Cristo, como o fazem os
quatro evangelistas. De forma breve, porém, o descreve aquele que não fala das
obras de Cristo, mas indica com poucas palavras como ele, através do morrer e
ressurgir, superou pecado, morte e inferno para aqueles que nele crêem. Assim o fazem Pedro e Paulo.
Por isso cuide que não faça de Cristo um Moisés, nem do
evangelho uma lei ou um livro de doutrina, comoMas acontece que, no evangelho, Cristo, e além dele Pedro e Paulo fornecem muita lei e doutrina e interpretam a lei. Deve-se ter isso em tão alta conta como todas as outras obras e benefícios de Cristo. Conhecer suas obras e a história de sua vida ainda não significa conhecer o evangelho correto, pois com isso você ainda não sabe que ele superou pecado, morte e diabo. Assim também ainda não significa conhecer o evangelho, se você sabe essa doutrina e mandamento, mas apenas quando vem aquela voz que diz: Cristo é sua propriedade, com vida, obras, morte, ressurreição e tudo que ele é, tem, faz e consegue.
Portanto também enxergamos que ele não fica insistindo, mas convida amavelmente e fala: "Bem-aventurados são os pobres" etc. E os apóstolos utilizam a palavra: "eu exorto", "eu suplico", "eu peço". Assim se vê em toda parte que o evangelho não é um livro de leis, e sim apenas uma pregação dos benefícios de Cristo, a nós apresentados e concedidos, assim o cremos.
Moisés, porém, em seus livros instiga, insiste, ameaça, bate e castiga cruelmente; porque ele é um escritor e instigador da lei. Daí vem que ao crente não é dada lei alguma, como o diz Paulo em 1 Timóteo 1.9; isso porque ele é justo, vivificado e salvo através da fé. E ele não tem mais necessidade de comprovar semelhante fé.
Sim, onde estiver a fé, ela não consegue se refrear, ela se comprova, irrompe e confessa e ensina esse evangelho diante das pessoas e por ele arrisca sua vida. E tudo que ela vive e faz, destina-o ao proveito do próximo, para lhe ajudar, não só que ele alcance semelhante graça, mas também no que tange o corpo, propriedade e honra, [da mesma forma] como ela vê que Cristo lhe fez, seguindo, portanto, ao exemplo de Cristo. Isso também é o que Cristo quer dizer, uma vez que em última análise ele não deu nenhum outro mandamento senão o amor. Nele se deveria reconhecer quem seriam seus discípulos e crentes verdadeiros; pois onde não irrompem as obras e o amor, a fé não está bem, o evangelho ainda não pegou, e Cristo ainda não foi bem reconhecido. Volte-se, portanto, para os livros do Novo Testamento e veja que os consiga ler dessa maneira.
Quais os bons e mais nobres livros do Novo Testamento?
Partindo de tudo isso, você pode agora julgar e distinguir bem quais os melhores dentre todos os livros. Pois o evangelho segundo João e as epístolas de Paulo, particularmente aquela aos Romanos, e a primeira epístola de Pedro são o bom cerne e a medula dentre todos os livros. Esses deveriam perfeitamente ser os primeiros. E a cada cristão se deveria recomendar que os lesse por primeiro e com maior freqüência, familiarizando-se com eles pela leitura diária como se fosse o pão de cada dia. Pois nestes não encontrará muitas obras, feito milagroso. de Cristo. Achará, porém, maqistralmente enfatizado como a fé em Cristo supera pecado, morte e inferno e concede a vida, justiça e salvação, o que afinal representa o feitio propriamente dito do evangelho, como você ouviu acima.
Pois se eu precisasse renunciar a um dos dois, às obras ou às pregações de Cristo, eu renunciaria antes às obras que às pregações. Pois as obras de nada me adiantariam. Suas palavras, porém, estas dão a vida, como ele mesmo o diz. João descreve poucas obras de Cristo, mas muitas de suas pregações, ao passo que os outros três evangelistas, inversamente, descrevem muitas de suas obras e poucas palavras suas. Por isso o Evangelho segundo João é o único evangelho bonito e certo, o principal, sendo que se lhe deve dar considerável preferência e consideração. Também as epístolas de Paulo e Pedro superam em muito os três evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas.
Em suma: o evangelho segundo João e sua primeira epístola, as epístolas de Paulo, particularmente as dirigidas aos romanos, gálatas, efésios, e a primeira epístola de Pedro, estes são os livros que lhe apresentam Cristo e lhe ensinam tudo que é necessário e bom saber, ainda que jamais visse ou ouvisse qualquer outro livro ou doutrina. Por isso a epístola de Tiago é uma epístola bem insossa, em comparação, pois ela, de qualquer forma, não tem natureza evangélica. Mas disso ainda falaremos em outros prefácios.
aconteceu até agora e como dão
a entender diversos prefácios da versão VuIgata de São Jerônimo. Pois o
evangelho, no fundo, não exige
nossa obra, com a qual nos pudéssemos formar retos e salvos. Antes ele condena
semelhantes obras e exige apenas fé em Cristo, que venceu para nós o pecado, a
morte e o inferno, tornando-nos retos, vivificados e bem-aventurados. E não por
nossas
obras, mas por suas próprias obras: morte e sofrimento, para que aceitemos
sua morte e vitória como se nós mesmos o tivéssemos realizado.
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