OBRAS DE LUTERO 5

CARTA AOS CRISTÃOS DE ESTRASBURGO
CONTRA O ESPÍRIR
ITO ENTUSIÁSTICO
INTRODUÇÃO

          André Carlostadt (1480-1541), colega do reformador na Universidade de Witten-berg, encabeçou, em dezembro de 1521, na ausência de Lutero, que se encontrava no Wartburgo, uma tentativa de concretizar as exigências da Reforma. Nela aboliu-se a missa (Lutero nunca aboliu este termo) e declarou-se eliminado o celibato sacerdotal. No natal, Carlostadt celebrou a santa ceia com pão e cálice, realizou o casamento de um sacerdote com uma cozinheira e noivou-se ele próprio. No auge dessas reformas apareceram em Wittenberg "profetas", provenientes de Zwickau, que declararam haverem recebido revelação especial. Um deles afirmava ser desnecessário o estudo de teologia, pois o fim dos tempos estaria próximo e o Espírito Santo estaria inspirando justamente os pobres e ignorantes. Houve também palavras contra o batismo de infantes, sendo advogado o batismo de adultos. Diante da situação criada em Wittenberg, Lutero deixou o refúgio do Wartburgo e, regressando, conseguiu restabelecer a ordem (cf. pág. 153, Sermão de Invocavit). Sua intervenção, porém, levou a um rompimento com Carlostadt. Carlostadt renunciou ao título de doutor, passando a ser chamado de irmão ou vizinho André; deixou também de vestir seu traje de prelado, passando a usar veste de camponês e a trabalhar a terra, pois se envergonhava de haver até então comido "o pão dos pobres". Abandonou Wittenberg, estabelecendo-se como pastor em Orlamünde. Suas pregações encontraram acolhida entre o povo. Reformou o culto, passou a cantar hinos em língua alemã, eliminou as imagens e a prática do batismo de infantes. Deu participação ao povo na vida da congregação, estudando com ele a Escritura. Durante o período que esteve em Orlamünde, publicou escritos místicos duramente criticados por Lutero. O reformador conseguiu que Carlostadt, juntamente com a esposa e o seu filho, fosse expulso de Orlamünde, em setembro de 1524, apesar dos protestos da comunidade. Carlostadt encontrou breve acolhida em Estrasburgo, seguindo depois para Basiléia. Sua estada em Estrasburgo provocou muitos debates e levou os pregadores da cidade a escreverem a Lutero, em 23 de novembro de 1524, pedindo esclarecimentos acerca das divergências entre Lutero e Carlostadt no tocante à santa ceia. Os pregadores anexaram à carta cinco tratados da autoria de Carlostadt, impressos em Basiléia. A resposta de Lutero é a "Carta aos cristãos de Estrasburgo contra o espírito entusiasta".

          O estilo da carta, imitando as epístolas do Novo Testamento, está a evidenciar que sua preocupação é poimênica (aconselhanento pastoral).Daí também sua brevidade. Na carta evidencia-se também em que pontos se estriba a discussão entre Lutero e aqueles que considera "entusiastas". Tudo gira em torno da questão: O que nos estão ensinando torna-nos cristãos ou não? Nessa pergunta se evidencia se o que está sendo ensinado faz parte do evangelho ou é mera questão exterior. Lutero quer a verdadeira renovação da igreja, enquanto seus adversários atacam aspectos exteriores. Em discussão estão liberdade e lei. Isso quanto à missa e imagens. Como tocante às dúvidas que surgem em torno da santa ceia, Lutero formula palavras que querem despertar a confiança dos leitores: Ele confessa que também teve as mesmas dúvidas. No entanto, suas dúvidas foram vencidas pelo texto bíblico.

          Logo após o envio da carta, Lutero publicaria um escrito muito polêmico contra Carlostadt, intitulado: "Contra os profetas celestiais, a respeito das imagens e do sacramento", no qual descreveu o opositor como "entusiasta", "iconoclasta" e "revolucionário". Depois de muitas andanças, enfrentando dificuldades para manter-se, Carlostadt recebeu acolhida definitiva em Basiléia. Ali faleceu na noite do Natal de 1541, vitimado pela peste.
                                                                                              Martin N. Dreher

Martinho Lutero, indigno eclesiástico e evangelista em Wittenberg, aos caríssimos amigos de Deus, a todos os cristãos em Estrasburgo.

          Graça e paz de Deus, nosso Pai e Senhor Jesus Cristo. Caríssimos senhores e irmãos. Tenho estado muito contente até agora e agradeço a Deus, Pai de toda misericórdia, pela rica graça que dedicou a vocês. Convocou a vocês para sua luz maravilhosa e os trouxe para dentro da comunhão de toda a riqueza do seu Filho Jesus Cristo. E agora, através de sua benéfica palavra, podem reconhecer e chamar de coração alegre o Pai excelente que nos resgatou das terríveis trevas do anticristo e nos conduziu para fora do Egito, para fora do forno de ferro dos pecados e da morte, para a ampla, segura, livre e excelente terra prometida.

          Vejam, pois, agora, que vocês se lembrem do que foram, e não sejam encontrados ingratos por essa grande graça e misericórdia, como já é o caso de vários que estão provocando novamente a ira de Deus; e sim permaneçam, exercitem-se e cresçam diariamente no mesmo conhecimento e graça de Jesus Cristo. Pois este é o caminho correto para a salvação, o qual não falhará. E não deixem de ser concordes, e demonstrem na prática o amor fraternal, a fim de que com isto se evidencie a sua fé - que ela não é falsa, nem preguiçosa ou ociosa. Para não acontecer que o inimigo assim expulso retorne e encontre a casa em ócio, dela se agrade e a invada com sete espíritos ainda piores, e a situação por fim fique pior do que antes.

          Se, porém, por causa disso falarem mal de vocês ou os perseguirem, bem-aventurados são vocês. Se chamaram o dono da casa de Belzebu, quanto mais não chamarão a sua criadagem? O criado não terá melhor sorte que o seu senhor. E que mal faz se esta pobre gente que desaparece como fumaça, fala mal de vocês, podendo ter a certeza de que tantos milhares de milhares de anjos no céu, bem como o próprio
Deus, se alegram a seu re
speito e com todas as criaturas louvam e enaltecem a vocês? Assim o sentem e testemunham a fé e boa consciência de vocês no Espírito Santo, contanto que creiam convenientemente e de fato tenham Cristo vivendo e governando dentro de vocês mesmos. Pois esta espécie de sofrimento apenas melhora e promove nossa salvação.

          Perigoso, porém, é quando discórdia, facções e enganos surgem entre os cristãos. Isso confunde e põe em dúvida este reconhecimento consolador e as consciências, arrancando a pessoa da graça no Espírito para lançá-la em coisas e obras exteriores. Assim aconteceu com os falsos apóstolos e mais tarde com vários hereges e por último
com o p
apa. Aqui é sumamente necessário que se permaneça vigilante. Pois se o nosso evangelho é o evangelho certo - do que não tenho dúvida alguma, e sim plena certeza isto tem necessariamente por conseqüência que será atacado, discutido e posto à prova de ambas as partes: à esquerda, pela vergonha exterior e o ódio dos adversários; à direita, por nossa própria divisão e discórdia, como diz Paulo: "É preciso que haja heresias entre vós, para que fiquem manifestos entre vós aqueles que são comprovados." Cristo não precisa apenas de um Caifás entre seus inimigos, mas também de um Judas entre seus amigos.
          
          Sabendo isso, devemos estar munidos de couraça e armadura, como pessoas que com toda certeza precisam precaver-se a toda hora contra ambos os tipos de tropeço, e não nos surpreender nem assustar se surge uma discórdia entre nós; devemos ter o ânimo de aceitar isso como uma contingência, pedindo a Deus que esteja conosco e nos
mantenha no caminho certo. Pois (como diz Moisés) com isso Deus nos põe à prova, para ver se a ele nos atemos ou não de todo o coração. Digo isso porque consta que há novos profetas insurgindo-se em diversos lugares e, conforme me escreveram vários de vocês, que o Dr. Carlostadt está criando celeuma entre vocês com suas fanáticas idéias sobre o sacramento do altar, as imagens e o batismo, como ele também já o fez em
outra ocasião, e me acusa de tê-lo expulso da terra.
          
          Bem, caríssimos amigos, eu não sou pregador de vocês. Tampouco ninguém é obrigado a acreditar em mim, cada um cuide de si. Advertir eu posso a qualquer um, impedir a ninguém posso. Espero também que até agora vocês tenham reconhecido em meus escritos que tenho tratado de forma pura e certa o evangelho, a graça de Cristo, a lei, a fé, o amor, a cruz, leis humanas, o que se deve achar do papa, do estado dos monges e da missa", e todos os pontos essenciais que um cristão precisa conhecer. E que nisso fui achado irrepreensível, não se podendo negar também que fui um instrumento indigno de Deus, através do qual ele ajudou a muitas almas.
         
         Estas coisas o Dr. Carlostadt jamais quis nem mesmo consegue entender convenientemente, como vejo agora em seu escrito. Na verdade não esperava isso, de sorte que logo fiquei apreensivo de que esse homem ainda esteja preso a enganos tão escabrosos. Lendo o que ele escreve, vê-se que ele cai por cima das coisas exteriores com tamanho ímpeto como se todo o poder de uma natureza cristã residisse na iconoclastia, em derrubar o sacramento e impedir o batismo; como se com essa fumaceira e cerração ele quisesse obscurecer a todo o sol e luz do evangelho e os pontos essenciais do cristianismo, de sorte que o mundo esquecesse tudo que nos foi ensinado até agora. E ainda assim ele não se esmera em mostrar o que afinal seja cristianismo certo. Porque destruir imagens, negar o sacramento e criticar o batismo é um desserviço que também um moleque consegue realizar, mas de forma alguma um cristão. Por isso ele não passa de um diabo ordinário, que pouco me preocupa.
         
         Meu conselho fiel e advertência é, portanto, que tomem cuidado e continuem perguntando o que é o que faz da pessoa um cristão. E de forma alguma deixem que outra questão ou conhecimento venham a ter o mesmo valor que essa. Se alguém apresenta alguma coisa nova, considerem-na e digam: "Meu caro, isso faz de alguém um cristão, ou não?" Se a resposta for negativa, de forma alguma permitam que se faça
disso um ponto essencial, que deva ser encarado com toda seriedade. Mas se alguém for demasiadamente fraco para fazê-lo, espere ainda algum tempo até que veja o que nós ou outros disserem a respeito. Eu até agora agi corretamente nos pontos essenciais, e quem afirmar outra coisa, não deve ser bom caráter. Espero que não venha a julgar mal também nos pontos de natureza exterior, nos quais esses profetas ficam teimando exclusivamente.
         
          Isto eu confesso: Se cinco anos atrás o Dr. Carlostadt ou alguém outro me tivesse dito que no sacramento nada há senão apenas pão e vinho, ele me teria prestado um grande serviço. Neste ponto eu passei por tantas provações e me contorci lutando comigo mesmo, que teria apreciado poder sair disso. Porque eu via muito bem que com isso eu teria dado o maior dos golpes no papismo. Na realidade, duas pessoas me escreveram com mais habilidade a respeito que o Dr. Carlostadt, e que não violentaram de tal forma as palavras, conforme o próprio capricho. Mas estou preso, não consigo escapar. O texto se apresenta com demasiado vigor e não permite que se lhe elimine o sentido."
          Sim, se hoje ainda acontecesse que alguém demonstrasse, com prova consistente, que ali há simples pão e vinho, nada haveria que me fizesse reagir com fúria maior. Infelizmente tenho uma tendência muito grande para isso, conforme sinto meu velho homem. Mas do jeito que o Dr. Carlostadt sonha sobre o assunto, pouco me preocupa. Com isso minha opinião apenas ainda se firma mais. E mesmo que essa não fora
minha opinião anteriormente, esta farsa sem cabimento e de pernas curtas, composta sem qualquer base na Escritura, fruto exclusivo da razão e do capricho, me faria crer, em primeiro lugar, que suas opiniões nada são. Espero que todo mundo chegue à mesma conclusão quando eu responder em seguida." Também dificilmente posso crer que isso seja sério da parte dele, a não ser que Deus lhe tenha endurecido e ofuscado o coração. Pois se fosse coisa séria, ele não incluiria uns trechinhos tão ridículos, contando lorotas em grego e hebraico, pois bem se sabe que não esqueceu estas línguas tanto assim.
         
          Portanto, não me preocupo muito com sua fúria iconoclasta, uma vez que também eu quebrei mais imagens com meus escritos do que ele jamais fará com suas investidas e seu fanatismo. Mas ficar agitando e incitando os cristãos a semelhantes atos, como se fosse necessário fazê-lo, a fim de provar o seu sentimento cristão, e manietar a liberdade
cristã com lei e consciência, isto de forma alguma se pode aturar. Pois sabemos que pelas obras não sairá nenhum cristão, e que essas coisas exteriores, como imagens e o sábado, são livres no Novo Testamento, assim como todas as outras cerimônias da lei. Paulo diz: "Sabemos que um ídolo nada é no mundo." Se nada é, por que se haveria de prender e torturar a consciência dos cristãos por causa de nada? Se nada é, que também nada seja, quer caia, quer permaneça de pé, como ele também fala da circuncisão. Mais acerca disso, entretanto, na resposta.
        
           Sua acusação de que eu o teria escorraçado, eu bem que a toleraria como verdadeira, e até me responsabilizaria por isto, se Deus o quisesse; mas estou contente por ele ter saído do nosso país, e também desejaria que ele não estivesse entre vocês. E para ele próprio teria sido prudente abster-se de semelhante acusação. Pois temo que minha justificativa o incrimine severamente. Afaste-se do falso espírito quem puder, isto aconselho; o que há por detrás dele não é nada de bom. Em Jena, por causa de um escrito, ele quase me teria persuadido a não confundir o seu espírito com o espírito rebelde e assassino de Allstett. Mas, quando eu, por ordem do Príncipe, tive contato com seus cristãos em Orlamünde, percebi muito bem que tipo de semente ele tinha se-
meado ali; tanto é que pude estar contente em não sair de lá apedrejado e coberto de lama, uma vez que vários deles me deram uma despedida da seguinte categoria: "Vá-se embora por mil demônios, que lhe quebre o pescoço antes de sair da cidade", se bem que se fizeram de muito bonitinhos no opúsculo que saiu sobre isso. Se o burro tivesse chifres, se eu fosse príncipe da Saxônia, o Dr. Carlostadt não teria sido expulso, a não ser que se me pedisse. Ele que não despreze a generosidade dos príncipes.
        
           Mas, prezados amigos, peço que vocês sejam mais sábios do que nós que nos fizemos de bobos e escrevemos sobre nossa atividade. Pois percebo muito bem que o diabo apenas procura um motivo para que se escreva e leia sobre nós seres humanos, sobre nossa piedade ou maldade. Assim se deixa de falar da causa principal, que é Cristo, e as pessoas ficam boquiabertas diante das novidades. Cada qual olhe apenas
para o caminho reto, para o que seja lei, evangelho, fé, reino de Cristo, liberdade cristã, amor, paciência cristã, e para o que seja lei humana e similares; sobre estas coisas temos o bastante que aprender eternamente. Se neste ínterim você não está a quebrar imagens, não incorre em pecado por causa disso; sim, mesmo que não fosse ao sacramento, você
pode ser salvo pela palavra e pela fé. O que o diabo quer, apenas, é tirar nossos olhares desta nossa lâmpada e nos tirar do caminho com suas luzes e fogos de artifício.
        
          E peço a seus evangelistas, meus caros senhores e irmãos, que desviem a sua atenção de Lutero e de Carlostadt para dirigi-la sempre a Cristo; não como Carlostadt, apontando somente para as obras de Cristo, Cristo como exemplo. Isso é o menos importante nele; nisso ele é igual aos demais santos. Mais importante é mostrá-lo como presente de Deus, ou, como diz Paulo, a força, sabedoria, justiça, redenção, santifi-
cação de Deus, dadas a nós. Esta compreensão esses profetas jamais a perceberam, jamais sentiram seu gosto nem a conheceram; e ficam contando lorotas com sua viva voz do céu, falando de desjustificação, borrifamento, mortificação e outras palavras bombásticas que eles mesmos nunca entenderam. Tais coisas só servem para produzir consciências confundidas, inquietas e pesadas, para que seja admirada sua grande capacidade, e Cristo, enquanto isso, esquecido.
       

           Roguem, prezados irmãos, que Deus o Pai não nos deixe cair em tentação, mas nos fortaleça segundo sua misericórdia insondável, mantenha e leve a cabo sua obra em nós iniciada, conforme, para nosso consolo, somos exortados a rogar por nosso Salvador Jesus Cristo, vantagem esta que temos frente a esses profetas. Pois sei e tenho certeza de que eles jamais procuraram ou rogaram a Deus o Pai ao empreenderem sua causa, nem é suficientemente boa sua consciência a ponto de poderem pedir-lhe por um êxito bem-aventurado. Mas, assim como começaram por insolência própria, continuam se agitando sedentos à procura de glória vã, até que acabem encontrando a vergonha. A graça de Deus esteja com todos vocês. Amém.

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