Exortação ao Sacramento do Corpo e Sangue do Nosso Senhor
Exortação
ao Sacramento do Corpo e Sangue do Nosso Senhor
A prática de toda a cristandade no mundo inteiro
de batizar as criancinhas antes que cresçam ou alcancem o uso da razão,
parece-me ter surgido por especial designo e providência de Deus. Caso agora se
passasse a batizar os adultos e velhos, acredito realmente que nem a décima
parte se deixaria batizar. Sim, com certeza (se dependesse de nós) há muito,
muito mesmo, que nos teríamos transformado em puros turcos, puros mesmos. Pois
os que não fossem batizados não iriam à pregação dos cristãos, e haveriam de
desprezar toda sua doutrina e natureza, porque esta procura fazer apenas
pessoas santas e pias - como na realidade já o estão fazendo agora, mesmo sendo
batizados e pretendendo ser cristãos. E se agora esse bando não-batizado
tomasse conta, em que daria isso senão em puro turquismo e paganismo? E mesmo
que houvesse uns poucos dentre eles que se dirigissem à pregação cristã, eles
de qualquer maneira iriam adiar o batismo até chegar a hora derradeira, como
faz agora com a penitência e a melhoria de vida. E eu apostaria montes de
dinheiro que o objetivo do diabo com esses espíritos facciosos e anabatistas é
de eliminar o batismo de crianças, para batizar apenas velhos adultos; pois seu
pensamento com Certeza é o seguinte: Se conseguisse eliminar o batismo de
crianças, eu haveria de lidar com os velhos de forma tal, que se demorassem e
adiassem o batismo até o último pecado! ou até chegar a última hora. Além desse
adiamento eu os manteria longe da pregação, para que nada aprendes-sem sobre
Cristo ou o batismo nem dessem qualquer importância a estes. E eu já teria a
grande multidão do mundo como grandioso exemplo, como seja turco, persas,
tártaros, judeus e pagãos, de sorte que por fim haveriam de ficar indiferentes,
dizendo: Batismo? Cristãos? Onde estiver a multidão, ali também fico eu. Acaso
acha que Deus vai condenar o mundo inteiro só por causa de três ou quatro
cristãos? Para que vou eu viver com esta gente minguada e desprezada de
esmoleiros e miseráveis?
Santo Agostinho escreve de si mesmo que sua mãe
e outros bons amigos adiaram seu batismo e não quiseram batizá-lo na juventude
para que não caísse em pecado depois; quiseram esperar que ele passasse da
juventude e depois mantivesse o batismo com firmeza tanto maior. Esta boa
intenção acabou resultando em que, com o passar do tempo, Santo Agostinho se
afastasse cada vez mais tanto do batismo como do evangelho, até que sucumbiu à
heresia dos maniqueus e zombou tanto de Cristo como do seu batismo até os seus
trinta anos. Tanta dificuldade teve em abandonar a heresia e voltar a Cristo,
que sua mãe derramou lágrimas ardentes por causa disso, tendo que pagar dessa
forma sua boa intenção e atitude de ajudar a adiar o batismo do filho.
Pois o diabo percebe muito bem que de qualquer
forma as pessoas são tão primitivas e ímpias, que nem a décima parte se
preocupa com o que é o batismo. Tampouco aparentemente jamais se lembram ou
agradecem a Deus, ao que parece, por terem sido batizadas, menos ainda, de
aceitar o batismo e de viver uma vida digna do mesmo. Em que daria isto, caso
não fossem batizados de jeito nenhum nem ouvissem a pregação, se já agora têm
dificuldade em ser e permanecer cristãos apesar de diariamente se ensinar,
rogar e praticar o batismo? Ainda assim esse batismo e ensino é de grande
vantagem e constitui uma vigorosa exortação que, afinal, tem que levar alguns a
que pensem mais longe que um pagão não batizado.
Tudo isso qualquer um pode perceber e
compreender muito bem no descaso que as pessoas atualmente têm pelo sagrado
sacramento do corpo e sangue do nosso Senhor. Resistem a ele como se nada
houvesse sobre a terra de que menos precisassem do que justamente este
sacramento; e mesmo assim querem chamar-se de cristãos. E como agora se
livraram da coação do papa, tem a petulância de acreditar que não mais tem o
dever de utilizar este sacramento. Acham que podem muito bem renunciar a ele e livremente
desprezá-lo sem qualquer pecado. E se esse sacramento não fosse utilizado em
lugar algum ou até desaparecesse, isso os deixaria indiferentes. Assim
demonstram e professam ativamente com que reverência e amor anteriormente
haviam ido ao sacramento, quando eram forçados a isso pelo papa, e que ótimos
cristãos eles tinham sido. Disso também se aprende que excelente resultado se
consegue ao coagir as pessoas a serem cristãs e devotas, como se atreveu a
fazê-lo o papa com suas leis. Deram exclusivamente em verdadeiros hipócritas,
cristãos forçados e de má vontade. Um cristão obrigado, entretanto, é um
hóspede muito alegre e agradável no reino dos céus, no qual Deus tem um prazer
todo especial, sendo que naturalmente o porá bem em cima entre os anjos, na
parte mais profunda do inferno.
Temo, porém, e acredito que tudo isso é, em grande parte, culpa nossa,
dos que somos pregadores, pastores, bispos e curas d'alma, uma vez que deixamos
as pessoas sem que se emendem, não os exortamos, não incitamos, não
admoestamos, como o exige nosso ministério. E ficamos roncando e dormindo tão
seguros como eles, e não pensamos mais longe do que: quem vem, vem; quem não
vem, que fique de fora, e de ambos os lados procedemos de uma forma que bem
poderia ser melhor. Pois enquanto isso estamos sabendo que o satã infernal e
príncipe deste mundo não descansa. Ele anda em derredor dia e noite com seus
anjos, tentando tanto a nós mesmos como as pessoas. Detém-nos, impede-nos e nos
torna preguiçosos e negligentes para todo culto a Deus, procurando enfraquecer
ao máximo batismo, sacramento, evangelho e toda ordem de Deus, se não é que os
consegue suprimir por completo. Por isso deveríamos, por outro lado, procurar
ser os anjos e vigias do nosso Senhor Cristo. Deveríamos, todos os dias, vigiar
o povo contra esses anjos do diabo e com coragem persistir em incitar, ensinar,
exortar, estimular e atrair, como S. Paulo prescreve a seu caro Timóteo, para
que o diabo não pudesse agir a bel-prazer entre os cristãos, tranquilamente e
sem encontrar resistência.
Por essa razão quero deixar expresso aqui, tanto
a mim mesmo como a todos os pastores e pregadores, o meu pedido insistente,
fraternal e muito sério: Junto comigo, zelem com dedicação pelo povo a esse
respeito, povo que Deus adquiriu como propri-edade sua através do sangue de seu
Filho, tendo-o chamado e trazido para o batismo e o seu reino, e no-lo
encomendou, sendo que sobre ele teremos que prestar rigorosa conta, como o
sabemos muito bem. Pois se nós, que temos o ministério e a enco-menda, nisto
formos negligentes e preguiçosos, teremos que esperar muito até que o povo se
exorte e venha por si mesmo, já que ele dificilmente vem, mesmo que com ele
insistamos com a maior obstinação possível. Pois, como dissemos, o diabo está aí a impedi-lo
com seus anjos. Também assim as pessoas precisam atentar para nós e ouvir nossa
palavra, e não nós atentarmos para elas e ficarmos olhando o que fazem. E de
que serviria o ministério da pregação e o ministério pastoral, se o próprio
povo pudesse ensinar-se e exortar-se a si mesmo? Cristo bem que poderia ter
ficado para si mesmo, e não haveria de adquiri-lo a preço tão alto. E para que
ocupamos semelhante ministério, se não queremos promover o ensino e a
exortação? Deste modo em nada seríamos melhores, ou talvez, seríamos até piores
do que o foram até agora papas, bispos, pastores e monges. Esses também de
forma alguma se dedicaram ao povo, não ensinando nem exortando.
Mesmo sabendo que muitas pessoas são tão malvadas e endurecidas, que
pouco se importam com qualquer ensino ou exortação - como vamos enfrentá-lo?
Para nós não será mais fácil do que o foi para Cristo e seus apóstolos junto
com todos os profetas; Cristo diz em Mateus 11 que seus judeus não querem nem dançar
nem prantear (v. 17), tanto faz, que se toque flauta ou se entoem lamentações;
e S. Paulo fala em 2 Timóteo 4: "Virá o tempo em que não se suportará a
doutrina sadia" (v. 3) e ainda manda que não se desista por causa disso,
mas que continue confiadamente, agrade ou não. Pois nós sabemos, em
contrapartida, que o ensino e a exortação são palavra, ministério e ordem de
Deus, e, como o diz Isaías 55.11, não ficarão sem frutos, ainda que conquistem
apenas um Zaqueu, ou um publicano ou um ladrão na cruz; pois ainda haverá
vários que, ao ouvirem a exortação, vão se lembrar do seu batismo e não
quererão desprezar como não-cristãos o seu sacramento, o qual Cristo Ilhes
concedeu tão prodigamente e conquistou a preço tão alto. E estes, enfim, será o
exemplo a provocar os cristãos rudes, grosseiros e soltos, de sorte que talvez
se mudem como uma faca afia a outra.
Não que com isso eu queira aconselhar que se toquem
as pessoas ao sacramento com leis, em horas e dias determinados, como o
entendeu o papa; pois com isso o papa apenas providenciou para si mesmo e os
padres dias de ócio e tranquilidade, em que não precisassem trabalhar com
ensino e estímulo ao sacramento; na verdade ele prendeu e obrigou as
consciências, de sorte que para ali acorriam sem vontade e disposição, sem
proveito e salvação, disso fazendo não um sacramento da fé, mas uma obra
meritória. O diabo naturalmente não poderia ter inventado um jeito mais
adequado e eficiente para anular o sacramento, do que com esse tipo de leis; aí
ficou a aparência e a casca, mas ninguém notou que foi tirado o cerne e o vigor.
Ainda assim ele tem que ser chamado de sacramento de Cristo, mesmo que tenha
sido transformado em puro sacrifício e obra humana. E Deus não instituiu o
ministério da pregação para criar pregadores tranquilos
e preguiçosos, e cristãos indispostos, forçados. Quem não é cristão ou não vai
ao sacramento por livre e espontânea vontade, que fique bem longe e vá aonde
bem entenda. Deus não quer serviço forçado, como Paulo diz em 2 Coríntios 9: "Deus ama a
quem dá com alegria" (v. 7). Este sacramento foi instituído para fazer vir
as pessoas, atraí-las e movê-las a que venham dispostas e de bom grado, sim, que por
ele procurem, lutem e insistam vigorosamente, como o diz Cristo em Mateus 11:
"O reino de Deus sofre violência, e os que praticam violência, se apoderam
dele." (v. 12) Ele não quer as almas enfastiadas, enojadas, fartas, mas as
famintas e sedentas, que por ele urgem e lutam, como ele diz em Mateus 5:
"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão
satisfeitos." (v. 6)
Por isso quero, por este intermédio, fornecer aos pastores e
pregadores razões para exortarem sua gente e atraí-la para o sacramento, e indicar uma série de meios pelos quais
motivá-la a ir de bom grado e sem coação humana ao sacramento e recebê-lo por
vontade própria, como também já o fiz
anteriormente no Catecismo Maior. Agora, os pregadores que o sabem fazer melhor,
não precisam deste sermão, basta que sejam exortados a fazê-lo. Mas os outros,
que não o sabem fazer melhor, queiram anotar alguns pontos aqui
apresentados ou ler para o povo palavra por palavra as partes que lhes agradem, para que o sacramento não fique
tão abandonado e desprezado. Quero
apresentar as razões em duas partes. A primeira se refere ao próprio Cristo, a
outra a nós, que queremos ser cristãos.
Primeira
Um cristão bem que deveria estar ciente de que esse sacramento não foi criado nem inventado
por pessoas humanas, mas sim instituído pelo próprio
Cristo, por vontade e ordem de Deus, seu Pai. Tampouco foi ele prescrito e instaurado para ser usado por
cachorros ou porcos, pau ou pedra, mas para nós pessoas humanas, e
particular-mente para nós cristãos, por grande,
sincero e profundo amor. Onde, porém, um coração cristão considerar isso, como
é possível que não fosse movido com devoção a procurar e desejar o mesmo
espontaneamente, com vontade e amor, sem qualquer coação ou lei? Caso não for
por ele movido, entretanto, não há sequer uma centelha nem gota de pensamentos
cristãos no mesmo coração. E sem dúvida um coração ímpio, turco, pagão, que com certeza não crê que
Cristo tenha instituído e determinado o uso desse sacramento. Menos ainda crê
ele que Cristo no-lo tenha ordenado por amor profundo e sincero; pois onde de
fato se crê uma dessas coisas, nenhum coração pode tomar uma atitude tão
negligente, preguiçosa e desdenhosa.
Cada um olhe, pois, para si mesmo e examine seu
próprio coração em primeiro lugar, se ele também crê que Cristo, Filho de Deus,
tenha instituído e legado esse sacra-mento; em segundo lugar: se também crê que
ele o tenha feito por amor tão sincero, fiel e profundo. Se não o crê, fique
sabendo que não é cristão, mas sim pagão e turco apóstata e condenado. Pois
nada lhe significam nem Cristo, nem sua ordem, nem seu amor ou fidelidade em
relação a você, mas você se coloca como se fosse tudo mentira e pura tolice.
Se, porém, o crê, esta mesma fé produzirá e proferirá em seu coração uma
pregação assim: "Você quer ser cristão e sabe que é ordem e determinação
de Cristo que se use esse sacramento; mas o deixa esperar meio ano, um ano
inteiro, três anos e até mais." Está ouvindo, meu distinto? Como é que
isto rima com um cristão? Então, vai envergonhar-se diante de si mesmo e ter
medo por causa de semelhante prédica? Se não acontecer esta pregação dentro de
seu coração, está faltando a fé de que esse sacramento foi instituído por
Cristo, e sua boca está é mentindo ao dizer que crê nisso. E você ê duplamente
pagão e pior que um turco. Pois, além de não crer, ainda mente ao dizer que o
crê.
Assim você vê e tem que confessar que toda
mentira, vida falsa, desprezo pela determinação divina, desmazelo, preguiça e
negligência frente ao sacramento, além de ingratidão e esquecimento desse amor
indizível de Cristo - tudo isso decorre e nos advém da falta de fé, de fato de
um coração não crer que esse sacramento seja ordem querida e sincera de Cristo.
Pois o que um coração não crê, ele também não o pode considerar, honrar, amar
ou louvar; e quando se despreza, negligencia ou esquece, isso é sinal certo de
que não se o leva em consideração, não se o crê, tampouco nada disso se aceita.
Em contrapartida, aquilo que se crê e tem como certo, não se pode desprezar,
seja bom ou mau. Se for bom, o coração o ama e almeja; se for mau, o coração o
teme e evita. Assim também fazemos a experiência de que isso acontece também na
fé errônea e na fantasia ilusória, onde a pessoa tem medo onde não há medo, e
se alegra onde não há alegria. Tão inquieto e agitado é esse negócio da fé.
Por esse motivo os pregadores devem retratar
muito bem esta primeira razão para o povo, para que veja e não deixe de crer
que esse sacramento é ordem misericordiosa e paternal de Deus, instituída em
favor de nós pessoas humanas. Assim não estamos coagindo ninguém à fé, mas
estamos mostrando o que é que faz parte da fé, e quem quiser ser cristão queira
saber o que e como deve crer, para que não se iluda a si mesmo sob nome e
aparência cristã e se julgue cristão, sendo, na verdade, ímpio e pagão, sim,
até pior do que pagão e ímpio. Caso alguém queira negar a Cristo por este
motivo, e prefira ser ímpio e permanecer descrente, que siga seu caminho sem
qualquer impedimento. Tampouco perguntamos por ele, exceto que lhe digamos:
Quem não crê, já está condenado. Ele já vai achar seu juiz e domador. Nós
estamos desculpados e fizemos o que estava em nosso alcance. Pois para Deus não
foi nenhuma brincadeira ou plano frustrado ter instituído e estabelecido esse
sacramento para nós pessoas humanas. Por isso também não quer vê-lo desprezado,
ocioso ou sem ser utilizado, menos ainda que se o considere algo supérfluo e
insignificante; e sim quer que seja usado e praticado.
E mesmo que fosse um sacramento tão
insignificante que não nos fosse proveitoso nem necessário, não nos desse graça
nem ajuda; mesmo que fosse pura e simples-mente um mandamento e lei de Deus que
exige que o usemos, por seu poder divino ao qual estamos sujeitos e devemos
obediência. Ainda assim, apenas por força desse mandamento, ele nos deveria
incitar e estimular o suficiente para que não o desprezássemos nem o
julgássemos desnecessário ou sem importância, mas sim, com toda a seriedade e fiel obediência, o praticássemos diligentemente e o
tivéssemos em alta consideração, uma vez que nada pode haver de maior e mais
grandioso do que aquilo que Deus ordena e determina por sua palavra. Entretanto
ele nem é um sacramento tão insignificante; não é apenas um mandamento que
teríamos de praticar sem proveito ou necessidade, como os judeus, que tinham de
observar seus sacrifícios e atos exteriores sem proveito e necessidade, apenas
como fardo e obrigação, com o que estavam forçados e presos, como os escravos e
aqueles sob trabalho forçado no regime secular. Na verdade se trata de um
sacramento cheio de graça, de grande proveito e ventura, além de inúmeros e
inefáveis bens. Por isso não se deve desprezá-lo nem esquecê-lo; ao contrário,
ele deve ser sumamente honrado e usado o mais assiduamente possível.
E para mencionar seus benefícios pelo menos em
parte, considere em primeiro lugar que ele instituiu esse sacramento em sua
memória, como diz: "Fazei isto em memória de mim." Guarde e considere
bem esta palavra: "memória". Ela lhe mostrará muita coisa e o estimulará
muito. Agora, entretanto, ainda não estou falando do proveito e necessidade que podemos procurar no sacramento, mas do proveito que dali emana
para o próprio Cristo e Deus, e de quão necessário é para sua glória divina e
serviço, que seja assiduamente usado e reverenciado. Pois aqui você está
ouvindo que ele coloca o culto e sua glória divina dentro desse sacramento, que
nele ele deve ser lembrado. Mas o que é sua lembrança, senão enaltecer, ouvir,
pregar, louvar, agradecer e glorificar sua graça e misericórdia que ele nos
mostrou em Cristo? A este Cristo é que ele dirigiu e relacionou toda sua glória
e culto. Fora de Cristo ele não quer saber de glória ou culto algum, nem o
reconhece, nem quer ser Deus de ninguém. Por isso condenou e anulou seu próprio
culto antigo, dado na lei de Moisés, e a todos os cultos no mundo inteiro, por mais
grandiosos, belos, antigos ou magníficos que sejam.
Como, agora, cada um quer mostrar devoção e
disposição em honrar o sofrimento de Cristo e prestar um serviço a Deus, um
empreende isto, outro aquilo: um caminha até Roma, outro se torna monge, o terceiro
jejua. E quem é que pode enumerar todos aqueles cultos a Deus que até agora
instituímos e observamos por inspiração do diabo e piedade própria; com que obscurecemos
e esquecemos este elevado e belo culto a Deus que é sua memória e a honra ao
sofrimento de Cristo, culto este que o próprio Deus instituiu, manifestando que
lhe agradaria de todo coração? E o instituiu de forma tal que jamais poderá
tornar-se obsoleto nem ser observado o bastante. Pois quem pode lembrar-se suficientemente
de Deus? Quem pode honrar em demasia o sofrimento de Cristo? Por que razão nós
santos adoidados nos deixamos levar pela fantasia de que nesse sacramento não
teríamos nenhum culto a Deus e que há muito o teríamos cumprido e até tornado
obsoleto? Ao lado e acima dele criamos tanto culto vergonhoso, terrível,
fétido, de piedade própria e de obras de própria escolha, e com ele enchemos o
mundo, negando, difamando e blasfemando contra este verdadeiro culto a Deus. Se
você quer então realizar um culto grande e maravilhoso a Deus e honrar condignamente
o sofrimento de Cristo, então reflita e vá ao sacramento em que se encontra
(conforme ouves) a sua memória! Isto é, seu louvor e glória. E pratique com
isso, ou ajude a praticar com assiduidade essa memória, e certamente esquecerá
estes cultos de escolha própria; pois (como dissemos) você não pode louvar a
Deus em demasia e agradecer pela graça que ele mostrou em Cristo.
Sem dúvida parece um culto insignificante, esta memória,
pois não se faz grande espetáculo exterior com vestimentas, gestos construções
e coisas semelhantes com que se encham olhos e ouvidos; mas apenas com a
palavra da boca é realizado aquilo que para os olhos é de aparência
insignificante sobre a terra. Mas quão elevado e maravilhoso ele é para Deus e
seus anjos! Isto nenhum olho pode enxergar, nenhum ouvido ouvir, nem coração algum pode compreender. De princípio as palavras e
obras de Deus de qualquer forma sempre são de aparência insignificante; por
isso querem ser consideradas com dedicação e seriedade. Quem o fizer, percebe
como elas são imensas. Ele mesmo fala no Salmo 50: "Sacrifício de ações de
graça me glorifica". (v. 23) Que significa isso senão: sacrifício de ações
de graça me dá minha glória divina. Faz-me Deus e mantém-me Deus. Da mesma
forma, sacrifícios de obras lhe tiram glória divina e o transformam em ídolo,
não o deixando ser Deus. Pois Quem não dá graças, mas quer merecer, este não
tem um Deus. Faz interiormente em seu coração e exteriormente em suas obras do
Deus verdadeiro um outro Deus, sob o nome do verdadeiro Deus, como lamenta
muitas vezes em Isaías e em outros profetas, até proibindo rigorosamente, no
primeiro mandamento, que se façam outros deuses, tampouco que se o faça diferente do que ele é. Se, agora, você quer tornar-se
um fazedor de Deus, então venha cá, ouça. Ele quer ensinar-lhe essa arte, para
que não falhe e tome um ídolo como Deus real, mas sim o Deus verdadeiro>.
Não que devesse fazer sua natureza divina, pois esta é e permanece não feita em
eternidade; mas sim que o possa fazê-lo seu Deus, que ele se torne um Deus verdadeiro
também para você, para você, assim como ele é um Deus verdadeiro perante
si mesmo. Esta, porém, é que é a arte, mostrada de forma breve e indubitável:
FAÇAM ISTO EM MEMORIA DE MIM; aprenda a rememorá-lo, isto é (como dissemos): pregar,
enaltecer, louvar, ouvir e agradecer pela graça demonstrada em Cristo. Se fizer
isso, veja bem, então você confessa de coração e boca, com os olhos e ouvidos,
de corpo e alma que nada deu a Deus, nem pode dar, mas que tudo, tudo mesmo,
tem e recebe dele, particularmente a vida eterna e a justiça infinita em
Cristo. Onde, porém, acontecer isso, você o fez o Deus verdadeiro para você e
conservou sua glória divina com esta confissão. Pois isto é que significa um
Deus verdadeiro: que dá, e não recebe; que ajuda e não se deixa ajudar; que
ensina e rege e não se deixa ensinar nem reger; em suma, que tudo faz e dá e de
ninguém precisa, fazendo tudo isso gratuitamente, por pura graça e sem mérito,
aos indignos e desmerecidos, sim, aos condenados e perdidos. Esta memória,
confissão e glória é a que ele quer. Veja, este culto a Deus é feito sem
qualquer pompa e não enche os olhos segundo a carne, mas enche o coração, o
qual no mais não consegue encher nem o céu nem a terra. Mas quando o coração
está cheio, então também olhos e ouvidos, boca e nariz, corpo e alma e todos os
membros têm que estar cheios; pois como se posiciona o coração, assim também se
posicionam e colocam todos os membros, e tudo, tudo mesmo, é pura língua, cheio
de louvor e agradecimento a Deus. Isto sim é que é adorno e enfeite diferente
que as casulas de ouro, sim, que as coroas de imperadores, reis e papas; todas
as igrejas e todo ornamento e pompa do mundo é uma baboseira contra essa
magnífica memória de Cristo. E um só pensamento desse culto a Deus ressoa mais alto
e melhor, se ouve mais longe que todos os tambores, trombetas, órgãos, sinos e
o que houver que produza som sobre a terra e ainda que estivessem todos juntos
e soassem todos ao mesmo tempo e com toda força. Veja, este é outro som e canto
contra todo canto e som sobre a terra, e ainda assim soa exteriormente tão
baixinho ao ouvido. Mas de dentro, do coração, soa com tanta força que lhe
parece que todas as criaturas estão entoando a mesma coisa, e todo o canto dos
homens simplesmente se cala e permanece inaudível.
Que louvar e agradecer a Deus é o mesmo que
enfeitar e ornar a Deus está clara-mente escrito no cântico de Moisés em Êxodo
15: "Este é o meu Deus, este quero ornar, Deus de meu pai, a este quero enaltecer"!
(v. 2) Olhe, aqui você ouve como pode fazer belo o seu Deus, orná-lo,
enfeitá-lo e pintá-lo da forma mais bela possível, pôr lhe grinalda e coroa,
atar-lhe broches e colares. E para isso você não precisa de dinheiro nem de
metal precioso, mas apenas de um coração a crer, e a boca a louvar, e os
ouvidos a ouvir seu louvor e graça, e o que mais foi dito acima. Quem não
quiser dar esse ornato e enfeite a seu Deus, que outra coisa lhe haveria de
acontecer, senão que em nome do diabo fique ofuscado e louco, vá enquanto isso
enfeitar imagens de pau e de pedra, pinte quadros e paredes, embeleze altares e
igrejas, vista de ouro e seda os padrecos fazedores de sacrifícios e aplique
todos os seus bens e seu poder em fundações, mosteiros, romarias e outros
cultos e o que há mais de outros cultos próprios, falsos e malditos? Não que eu
repudie por completo todo e qualquer ornato exterior; mas não signifique ele um
culto, menos ainda impeça ou obscureça este um culto direito; se alguém quer
servir de alguma coisa, que promova este culto de agradecimento e para ele
contribua; caso contrário, seja maldito, junto com todas as outras obras e
méritos com que se queira conquistar ou comprar a graça de Deus.
Se é assim que não tem qualquer outra motivação
ou proveito nesse sacramento, senão exclusivamente essa rememoração, não lhe deveria
bastar esse encorajamento e estímulo? Não lhe haveria de dizer seu coração:
Vamos lá, mesmo que no mais eu não tenha nenhum proveito disso, ainda assim
quero ir, para o louvor e glória do meu Deus; quero ajudar-lhe na manutenção de
sua glória divina e também contribuir com que ele seja feito um verdadeiro
Deus? Se não posso ou não tenho que pregar, quero ao menos ouvir. Pois quem
escuta, também ajuda a agradecer e dar glória a Deus; porque onde não houvesse
ouvinte, não poderia haver pregador. E se não posso escutar, ainda assim quero
estar entre os ouvintes, quero ao menos estar presente pelo ato, com o corpo e
com meus membros quero estar presente ali onde se louva e dá glória a Deus. E ainda que não possa fazer mais, quero bem por isso receber
o sacramento, para que com este receber eu possa confessar e testemunhar que eu
também sou um daqueles que querem louvar e dar graças a Deus. Quero, portanto,
receber o sacramento em honra a meu Deus, e este receber deverá ser minha
rememoração pela qual lembro sua graça a mim demonstrada em Cristo, e pela qual
agradeço.
Pois não é nenhum ato insignificante alguém
estar de bom grado no meio daqueles que louvam e dão graças a Deus, pelo que os
velhos patriarcas almejaram com profundo suspiro, como diz o Salmo 42:
"Bem que eu gostaria de passar com a multidão e ir com eles para a casa de
Deus, ao tom do glória e do agradecimento em meio à multidão em festa"
(Salmo 42.4); e no belo confitemini: "Há voz de júbilo e de salvação nas tendas dos justos," (Salmo 118.15) e muitos outros semelhantes.
Pois quem está no meio da multidão (se não for falso), é participante de toda
glória e agradecimento que ali é levado a Deus. Por isto você só pode mesmo ser
um tolo desesperado, porque tem condições de prestar a Deus esse serviço e
tamanha honra, que para você não implica nem em gastos nem em esforço; ao
contrário, ouvindo com boa disposição, ou recebendo corporalmente e com coração
grato o pode realizar tudo, e ainda assim não quer dar a Deus este prazer. Bem
que deveria ir de bom grado até o fim do mundo, se soubesse que lá encontraria
semelhante multidão a louvar e glorificar a Deus, assim fazendo se participante
da santa sociedade. Como assim você acorria anteriormente aos santos sepulcros,
vestes e ossos? Como assim se peregrinava até Roma, Jerusalém, São Tiago,
somente para se poder olhar pedras, ossos, paus e terra, sem nada de rememorar a Cristo? E aqui está em sua cidade
ou vilarejo, na frente de sua porta, o próprio Cristo presente com corpo e
sangue, vivo com sua memória, louvor e glória, e você não quer ir lá e também
contribuir com agradecimento e louvor? Com certeza você não é cristão, tampouco
um ser humano, e sim um diabo ou servo do diabo.
Seria injusto que esses desdenhosos e cristãos
perdidos tivessem outra sorte senão que, por castigo de sua vergonhosa
ingratidão, sejam possuídos, ludibriados e seduzidos pelo diabo, para que nunca
mais ouçam ou aprendam qualquer coisa acerca do sacramento. Que tenham papistas
ou fanáticos como mestres: Que os fanáticos dele façam simplesmente pão e
vinho, descasquem o cerne e lhes deem a casca; e os papistas dele façam um
sacrifício e negócio para perdoar os pecados e para tirar de dificuldades, para
depois colocá-lo nas píxides e nos cibórios, fazer procissão e encenar
espetáculo e pura charlatanice, até que fiquem com uma forma [do sacramento]
apenas, e ainda assim sem qualquer fruto, apenas com prejuízo. Para isso devem
dar dinheiro e bens, até que façam desses seus mestres imperadores, reis e príncipes.
Bem feito, em todos os sentidos: bem feito! "Com o pervertido tu te
pervertes", diz o Salmo 18.26. Por que desprezaram esse culto a Deus junto
com a memória de Cristo, que é tão magnífica, bela e grandiosa, e que poderiam
ter sem gastos e esforço? Pois não, eles que fiquem com as cascas, com todo o
prejuízo do corpo e da alma, dos bens e da honra. Como queiram, bem feito para
eles!
Quem, todavia, celebra a memória de Cristo e
honra o seu sofrimento com a atitude acima indicada, este está seguro e livre
de todo engano e de toda ludibriação pelo diabo, não precisa arriscar quaisquer
gastos ou esforços nisso e ainda ganha proveito inimaginável. Pois ele realiza
dois grandes cultos, duas grandes glórias: A primeira consiste em não desprezar
a instituição e ordem de Deus, e sim em utilizá-la de forma submissa e de bom
grado; desta glória sem dúvida Deus se compraz, uma vez que não instituiu à toa
esse sacramento, mas para ser usado. Ele não poderá gostar de que se o deixe sem
uso e vazio, pois com isso estaríamos agindo como se pratica- mente
considerássemos a Deus um tolo, que nos prescreve instituições desneces-sárias
e não soubesse o que instituir para nós. Ou como se ele fosse um vendedor
ambulante que nos oferecesse mercadoria ruim e imprestável. E quem pode
calcular a infâmia que se está fazendo a Deus e ao nosso Senhor Cristo só com o
fato de se desprezar, deixar inútil e sobrando o seu sacramento desta forma,
isto que nem queremos ser papistas, e sim evangélicos? Quem se atém a esse
querido sacramento e lhe faz honra, e usa essa instituição de Deus, anula essa
infâmia e ajuda a combatê-la. Por isso Deus lhe dará honra, como está escrito
em 1 Samuel: "Aos que me honram, eu também honrarei, os que me desprezam, serão
desprezados em retorno." (1 Samuel 2.30)
A outra glória consiste em observar e ajudar a
manter a memoria de Cristo. Isto é pregar, louvar e agradecer pela graça de
Cristo, demostrada a nós pobres pecadores por seu sofrimento. Principalmente por
causa desta memória é que Deus instituiu esse sacramento, nele também
procurando e exigindo semelhante glória, para que em Cristo seja reconhecido e
considerado como nosso Deus; Acima já dissemos quão magnífica glória e
maravilhoso culto é isso, que conserva a honra divina e faz de Deus o
verdadeiro Deus. Para tanto ele sem dúvida dará a honra divina à mesma pessoa e
dela também fará um Deus e filho de Deus. E também aqui: Quem pode calcular
quanto bem proporcionam esta glorificação e este culto? Pois com isso a pessoa
não só dá graças e louva a Deus em Cristo, o que afinal constitui propriamente
a prática desta instituição divina, mas também confessa publicamente perante o mundo a
seu Senhor Cristo, e que ela é e quer ser um cristão. E assim a pessoa exerce
ao mesmo tempo ambas as funções supremas de um verdadeiro sacerdote: Com o agradeci-
mento, louvor e a glória a Deus ela realiza
o mais belo sacrifício, o supremo culto a Deus e a mais grandiosa obra, ou seja
um sacrifício de ação de graças. Com a confissão perante os outros age como se
pregasse e ensinasse as pessoas a crer em Cristo. Com isso contribui para o
crescimento e a conservação da cristandade, ajuda a fortalecer o evangelho e sacramento, converter os pecadores e tomar de
assalto o reino do diabo. Em suma: A pessoa colabora e participa da obra
realizada no mundo pelo ensino da palavra. Quem, porém, pode avaliar quão
grande proveito resulta daí?
Em contrapartida deve-se considerar ainda quão
desgraçadas são aquelas pessoas que desprezam o sacramento e não o utilizam, de
tanta preguiça e frouxidão; pelo oposto do que registramos acima, elas podem
enumerar e calcular seus vícios. Em primeiro lugar desonram ao próprio Deus no
que instituiu, e o têm por tolo, por ter ordenado um culto tão desnecessário.
Sim, .como não creem que um culto seja sua ordem divina e instituição rica de graça, eles o difamam com esta descrença,
tratando-o como mentiroso e homem insignificante. Pois falta de fé nada é senão
blasfêmia contra Deus, com o que ele é considerado mentiroso. Ao mesmo tempo
também despreza a memória de Cristo, a qual foi por Deus instituída nesse
sacramento e nele é celebrada. E não fazem honra ao sofrimento de Cristo, nada
lhe agradecem por isso, e sim cometem o mais terrível dos vícios, o da
ingratidão. Além disso, o que é ainda pior, eles assumem a atitude de quem não
gostaria de ouvir o agradecimento e a glória do sofrimento de Cristo, ou
preferiria não estar presente quando se o glorifica e agradece por ele. Com
isso privam a Deus de sua glória divina, impedem-na de modo que Deus não possa
ser seu Deus nem reconhecido em Cristo como Deus, como foi dito acima. E se
fosse por eles, prefeririam que tanto o sofrimento de Cristo como toda glória divina
nada valessem em todo o mundo, e fossem completamente anulados, e apenas diabos
se tornassem nossos deuses. Porque não se importam de como o sofrimento de Cristo
haveria de ser honrado, sua memória celebrada, sua palavra pregada ou como Deus
poderia ser reconhecido. Isso é muito pior do que se alguém atirasse lama nas
imagens de Deus ou desonrasse ao próprio Cristo.
Como se isso não bastasse, com isso estão dando
um péssimo e escandaloso exemplo para os outros e são culpados por todos
aqueles que, seguindo seu exemplo, também abandonam e desprezam esse sacramento.
Assim, se for por eles, a memória de Cristo será esquecida, seu sofrimento até
passará a ser vão e inútil, e, enfim, a fé cristã desaparecerá, até. E sem
contar o que há de bom que deixam de fazer e impedem: Não prestam qualquer ação
de graças a Deus, não confessam a seu Senhor Cristo, não ensinam nem melhoram
seu próximo em ato e exemplo, mas privam a Deus da ação de graças, renegam a
Cristo e levam seu próximo para longe dele. Meu caro, é de se admirar, por acaso,
que Deus só fique largando diabos para cima de nós, com peste, guerra,
carestia, assassínio e aflição? Turcos, tártaros e todos os diabos não bastam
para castigar semelhante maldade, uma vez que não é somente essa grande e
terrível desonra e desprezo por Deus, mas também ingratidão vergonhosa e
maldita frente a Cristo que estão sobremaneira presentes no povo cristão.
Os judeus não conseguiam deixar de enaltecer,
louvar e agradecer magnificamente todos os anos a sua saída e seu resgate do
Egito através do Mar Vermelho, e os caros profetas não podiam exaltar e realçar
que chega esse mesmo prodígio de Deus. E nós pagãos, que antes fomos
propriedade do diabo, e que não tínhamos o direito de conhecer ou ter qualquer
coisa de Cristo, recebemos a graça e honra de participar da redenção de Cristo, o qual nos redimiu não do Egito e do Mar Vermelho, mas
do pecado, da morte, do inferno, dos diabos, da ira de Deus e de toda aflição;
e não para nos levar à terra de Canaã, mas para a eterna justiça, vida, céu,
graça, e para o próprio Deus. E tudo isso não através de Moisés, nem dos anjos,
mas por intermédio de si mesmo, passando profunda amargura, suando sangue,
deixando seu coração derreter feito cera, permitindo que o matassem na cruz,
chorando e suspirando por nós, deixando-se difamar da forma mais vergonhosa.
Que língua, que coração bastaria aqui para considerar ou falar de semelhante
amor, graça e misericórdia?
E por tudo isso ele não teria merecido mais por
parte daqueles (pelos quais ele fez isso), do que essa gratidão e honra de não
se querer celebrar sua memória, tampouco ouvir qualquer coisa a respeito, nem
estar entre aqueles que celebram sua memória e dão graças? Não querem fazer uso
de seu sacramento em sua honra, mas deixam-no na mão com seu sacramento, e a
nós debalde a exortar para que venham, enquanto vão encher a pança e
embebedar-se, ou coisa pior. E de surpreender que o sol de há muito não tenha
ficado preto como carvão. Nem folha nem capim deveriam crescer, nem um pingo de
água nem ar deveriam permanecer no mundo diante dessa ingratidão desumana. Os judeus
que o crucificaram foram malvados; mas nós pagãos somos muito piores, ao
desprezarmos tão vergonhosamente seu sofrimento e quando por ele somos tão ingratos, não sendo capazes de fazer uso desse
sacramento por amor a ele e em sua honra, nem de ajudar a manter sua memória. O
papa, ó bispos, Ó sofistas, Ó monges, ó padres, que fizeram para fazer desse
sacramento uma obra e missa de sacrifício, com o que obscureceram e roubaram
das pessoas esse uso, reverência e gratidão corretas? A culpa é de vocês. Pois
nele as pessoas não procuraram outra coisa senão sua própria obra, obediência e
mérito. Vocês é que lhes ensinam isto, obrigando-as por ordem a semelhante
obra, ainda assim privando-as daquela uma modalidade do sacramento.
Vocês, coadores de mosquitos e engolidores de
camelos (Mateus 23.24), atribuíram grandes honrarias ao sacramento, fazendo com
que se o colocasse em precioso cibório de ouro, lidasse com ele com cálices e
patena de ouro, untaram especialmente os dedos dos sacerdotes com pomadas,
usaram preciosos corporais estolas e panos de altar, bandejas, velas e pendões
e toda sorte de procissões e cantorias, como se isso fosse tão importante. E para que não se deixe de sentir a grande seriedade
a respeito, resolveram que se deve tomar do cálice por um canudinho, para que o
sangue de Cristo não seja derramado. .E chegaram de fato a insistir na fé, determinando
que sob todas as circunstâncias se creia que o Cristo inteiro [esteja presente]
sob cada uma das espécies [do sacramento]. Mas, em compensação, o caro sacramento
teve que se transformar em sacrifício e obra com Que vocês compraram os bens e
as honrarias de todo o mundo. Onde ficou nisso a doutrina da memória de Cristo? Quando é que ensinaram o povo a utilizar esse sacramento por amor, a
honrá-lo como instituição de Deus, a exaltar, louvar e agradecer nele a Cristo?
A receber o mesmo em honra a seu sofrimento e a reconhecer sua graça, a nós
concedida sem obra nem mérito nosso? Sim, contrariamente a essa memória, vocês
lhes ensinaram a obra própria e o livre arbítrio, fazendo do próprio sacramento
também uma obra, invertendo tudo. E não querem arrepender-se disso, mas ainda ficam a defendê-lo, ó
zombadores, falsários, hipócritas, difamadores. O meu Senhor Cristo, chega logo
com fogo e enxofre do céu e põe um fim a essa zombaria e difamação em que estão
se excedendo de forma tão intolerável e insuportável!
Mas para que eu deixe de uma vez de lado este
ponto - aqui você tem uma grande e excelente razão para o estimular a ir ao
sacramento, que seu coração o exorte da seguinte maneira: Vamos lá, eu quero ir
ao sacramento; não que com isso eu queira fazer uma boa obra ou obter mérito; também
não em obediência ou por causa da ordem do papa ou da igreja, mas em louvor e
honra a Deus. Ele o instituiu para que eu o recebesse e por amor e gratidão a
meu Senhor e Salvador. Deus o estabeleceu para mim, para a glória de seu
sofrimento, para que eu dele fizesse uso e por ele agradecesse; a fim de que eu
seja um daqueles que lhe agradecem por seu sofrimento e não seja encontrado
entre os desdenhosos e ingratos; tampouco sirva de mau exemplo e escândalo para
os outros, e assim participe de seu desdém e ingratidão. Antes, que eu dê um
bom exemplo e atraia a outros, que também eles o honrem e louvem, e assim eu
ajude a conservar observar e fortalecer a memória do sofrimento de Cristo e ao mesmo tempo, como cristão, professe a meu Senhor
perante o mundo. Esta ação de graças eu lha quero proporcionar, mesmo que não
tivesse disso qualquer outro proveito; pois este deve ser meu agradecimento ao
Senhor por seu amargo sofrimento por minha causa.
Espero, porém, que não seja necessário ficar
ensinando longamente aqui o que significa memória de Cristo; sobre isso já
ensinamos muitas vezes e demoradamente em outra parte: Não se trata de contemplação
do sofrimento, com que muitos pretendem ter servido a Deus e alcançado graça,
como que através de boa obra, e ficam chorando o amargo sofrimento de Cristo,
etc. A memória de Cristo é ensinar a força e o fruto do seu sofrimento e crer
neles: que nossa obra e mérito nada são, que o livre arbítrio está morto e perdido,
e que somente pelo sofrimento e pela morte de Cristo nos tornamos retos e
livres de pecados; que se trata do ensino ou da memória da graça de Deus em
Cristo, e não de uma obra que nós realizamos para Deus. Contra esta doutrina e
fé se empenha todo o papado com suas instituições, mosteiros e obras próprias,
fazendo, além disso, do sacramento a maior e mais vil obra, quando de forma
alguma se deve agir por nossas obras, mas tudo apenas por pura graça. Dessa
forma reprimiram a memória de Cristo em todas as coisas e perverteram essa
instituição de Deus, de graça abundante, transformando-a neste horror pavoroso.
Evite-o o quanto puder e aprenda a não fazer mais neste ponto do que agradecer
a seu Senhor Cristo por seu sofrimento, e a Deus por sua graça e misericórdia.
Em sinal e confissão de semelhante agradecimento e louvor tome e receba o
sacramento com alegria.
Caso os papistas quiseram ficar arrazoando sobre
as coisas que digo (como costumam fazer) e alegarem contra mim que eu mesmo faço
um sacrifício no sacramento - isto que até agora contestei firmemente que a
missa fosse sacrifício - você deve responder da seguinte forma: Eu não faço nem
da missa nem do sacramento um sacrifício, mas a memória de Cristo, que é o
ensino e a fé da graça contra nosso mérito e obra; esta sim é um sacrifício, um
sacrifício de ação de graças; pois com essa memória confessamos e agradecemos a Deus que somos redimidos por
pura graça, ficamos retos e bem-aventurados pelo sofrimento de Cristo. Mas os
papistas rejeitaram a essa memória, condenaram e difamaram-na, ainda a condenam
também hoje, pois querem defender sua obra e mérito, querem conservar mosteiros
e missas de sacrifício, o que contraria a memória de Cristo; pois sabemos que
vendem suas obras e missas e as transmitem a seus doadores e irmãos; sabemos que
ensinam que sua obra, como se tivessem demais e de sobra, também haveria de
proporcionar a graça a outras pessoas. Assim fazem o que na verdade apenas
Cristo faz com seu sofrimento: colocam-se no ministério e na obra de Cristo e
dizem: Eu sou Cristo (Mateus 24). Este é um ponto que eu combati.
Em segundo lugar, não só suprimiram a ação de
graças ou memória, mas inventaram em lugar da mesma outro sacrifício. Fizeram
do sacramento que receberam e deveriam receber e tomar de Deus, isto é, o corpo
e o sangue de Cristo, um sacrifício, e o dedicaram a Deus. E se não tivessem
inventado tal sacrifício, não se teriam transformado nos senhores que são. Além
disso, não consideram o corpo e sangue de Cristo uma ação de graças, mas um
sacrifício de obra com o qual não agradecem a Deus por sua graça, mas passam a
merecê-la para si mesmos e para os outros e primeiro conquistam a graça. De
sorte que não foi Cristo que conquistou a graça para nós. Nós é que haveríamos
de querer conquistar a graça, através de nossa obra, com o que sacrificamos a Deus
o corpo e sangue de seu Filho. Esse é o horror maior e a razão de toda a
blasfêmia no papismo. Contra este sacrifício infame é que lutei e ainda luto, porque não queremos permitir que o sacramento seja um sacrifício
nem seja chamado de sacrifício, mas sim um sacramento ou instituição de Deus
dedicada a nós.
Por meio dessa luta já conseguimos que agora
eles mesmos estão percebendo que não têm razão, que a missa não pode ser um
sacrifício. Mas não querem retratar nem se arrepender desse erro. Ficam procurando
subterfúgios, querem encontrar uma boa saída com a alegação de que a missa ou
sacramento seria um sacrificium misteriale ou memoriale, isto é, um
sacrifício simbólico e memorial, uma vez que assim se representa e se lembra o sacrifício de Cristo, por ele realizado na cruz. E
quem nos garante que tal alegação agrada a Deus? Quem tem selos [de legitimação]
e carta de garantia para tanto? Além disso essa alegação se revela como mentira
descarada e palpável. Basta que se verifiquem nos conventos e mosteiros os
selos e as cartas com que vendem aos conventuais as missas e vigílias tanto
para vivos como para os mortos, como sacrifício de obra ou sacrifício de
aquisição; a mesma coisa evidenciam também seus livros e escritos ainda disponíveis. Tem que se supor, com razão,
que com ditas alegações mentirosas pretendem confirmar os mesmos horrores
antigos, porque não os retratam nem se arrependem deles. Antes os ficam
defendendo, corno também S. Gregório escreve que teria mandado sacrificar a
missa durante trinta dias por um morto. Mas que adianta fortalecer os antigos
horrores com essas mentiras evidentes, contra a clara verdade? Só mesmo para
que uma coisa difame a outra mais ainda.
Além do mais, dita alegação de forma alguma
serve à causa em questão, porque, mesmo que com isto queiram chamar o sacramento
de sacrifício simbólico ou sacrifício memorial, ainda assim dele fazem uma obra
que realizamos para Deus em função do mérito. Assim é exaltada uma obra nossa
para com Deus, e não a graça de Deus para conosco. Da mesma forma até agora
houve muitos que mandaram pintar a paixão e leram em livrinhos, concedendo grande honra a semelhante obra;
Alberto Magno ensinou que simplesmente contemplar por alto o sofrimento de
Cristo seria melhor que jejuar um ano inteiro, orar um saltério todos os dias e
fustigar-se a si mesmo até sangrar. O sacramento também se transformou numa
obra dessas quando se quis que fosse chamado de sacrifício simbólico ou sacrifício
de rememoração, com que apenas se comemoraria a lembrança da história do
sofrimento de Cristo. Uma obra dessas também pode ser perfeitamente realizada por um ímpio ou pelo
diabo. Por essa razão não foi para isto que Cristo estabeleceu esse sacramento,
mas para sua memória, para que se ensine, creia, ame e exalte bem a sua graça,
obra essa que nenhum ímpio consegue realizar. Está, pois, visto que os papistas
não têm boas intenções com aquela alegação. Querem apenas conservar sua missa
de sacrifício com ardis e lances ilusórios. Não procuram nem tem em mente o
sacramen-to, mas a sua barriga e o dinheiro.
Nisso observe o seguinte: Como sacerdotes, eles
querem ter algo de especial, superior e melhor no sacramento, antes de todos os
outros cristãos. Pois ainda que toda a cristandade utilize, receba, creia e agradeça
pelo sacramento, ele não precisa ser chamado de sacrifício, e ninguém pode usar
ou realizar o sacramento pelo outro, mas apenas cada um para si mesmo. Mas
quando os padres o realizam, então é um sacrifício que eles fazem não somente
para si mesmos, tampouco por agradecimento, mas para todos os outros cristãos,
para assim lhes obter graça e auxílio. Não percebe aqui que as palavras de
Cristo não fazem do sacramento um sacrifício, e que tampouco nele mesmo se trata
de um sacrifício? Mas assim que a casula e a patena estão presentes, ele passa
a ser um sacrifício. Pois ainda que toda a santa cristandade realize o
sacramento com mãos e boca, em cálices e panos, com fé e amor, louvor e
gratidão, sim, ainda com todos os anjos no céu, mesmo assim não é um sacrifício; mas quando a patena com ele se move sobre o altar, então é um sacrifício. Tão poderosa é a consagração, tanto da pessoa como do
altar. E, meu caro, pergunte-os, então, por que não seria o sacramento também
um sacrifício quando os cristãos em geral, o recebem e dele fazem uso, ou se
eles, os padres, têm um sacramento diferente.
Assim as igrejas no papismo têm dois tipos de
sacramento do altar: O cristão comum não tem um sacramento de sacrifício, mas o
sacramento simples (que ainda assim é o único que lhes ajuda); os sacerdotes
têm um sacramento de sacrifício, e o têm por inteiro. Procedem de forma muito
fraternal, e o repartiram muito bem. Agora, acontece que Cristo deu e deixou a todos os seus cristãos ao mesmo tempo o mesmo
batismo, sacramento, evangelho, e não quis qualquer distinção entre as pessoas.
Donde provém, então, essa distinção, que nosso querido tesouro consolador passa
a ser um sacrifício nas mãos e na boca do sacerdote, e não pode ser um
sacrifício em nossas mãos e bocas, mas tem que ser um simples sacramento, se
ambos são o mesmo e igual sacramento? Naturalmente que vem daí: Sic vala,
sic iubeo, assim o quero, assim o ordeno - do pleno poder do papa, pelo
qual também pode fazer com que o evangelho se chame de heresia ou verdade; por exemplo:
Quando Lutero ensina o evangelho de que monges e freiras entrem no matrimônio,
isso é heresia; mas quando o papa permite a mesma coisa a monges e freiras,
então se trata de bom evangelho. E se alguém prejudica ou abusa dos bens da
igreja, dizem que é um atentado à herança de Cristo; mas se o tiram dos pobres
e gastam com prostituição e guerra, dizem que é santificar a herança de Cristo.
É um poderoso criador e deus, o papa.
Mas para que não fiquem achando que eu quero
brigar por causa de palavras (porque onde as coisas estão bem, as palavras não
importam tanto, se bem que seja perigoso no que tange a Escritura) - tudo bem.
Admitamos que se chame de sacrifício não o próprio sacramento, mas a recepção e
o uso do sacramento, com a seguinte distinção e compreensão:
Em primeiro lugar, que não se o chame de
sacrifício simbólico ou sacrifício de obra, mas sacrifício de ação de graças.
Ou seja: Quem recebe o sacramento, deve fazê-lo em sinal de agradecimento, com
o que demonstra ser grato a Cristo de coração por seu sofrimento e graça,
perante si mesmo.
Em segundo lugar: Que os sacerdotes não façam
disso outro sacrifício sobre o altar, mas que também eles recebam o mesmo não
de forma diferente nem com outro sentido senão como sinal com que demonstram
ser gratos a Cristo no coração, perante si mesmos, da mesma maneira que os
outros cristãos aos quais o dão do altar. Para que seja o mesmo e igual
sacramento, tanto dos sacerdotes como dos de qualquer cristão. E os sacerdotes
não tenham nada de melhor nem de diferente nem a mais do sacramento que os demais
cristãos, assim como não têm batismo nem evangelho melhor, senão aquele que
deles se recebe.
Terceiro: Que doravante não vendam a ninguém o
sacramento ou missa como sacrifício de obra nem sacrifiquem para outros para
obterem graça, nem para os mortos, nem para os vivos; que cada sacerdote (como
outro cristão qualquer) por esse intermédio simplesmente demonstre a Deus sua
gratidão, apenas por si mesmo.
Quarto (será que posso tocar também neste
ponto?): Caso agora o uso da missa ou do sacramento se transformar em sacrifício
de ação de graças, sendo que querem arrepender-se, teriam que devolver todos os
bens, selos e cartas, e ainda as pensões de todos os mosteiros e conventos, que
adquiriram e possuem por conta da missa, como por um sacrifício de obra. Pois
tais bens foram adquiridos com mentiras e fraudes, sim com blasfêmia contra
Deus e traição de Cristo. Pois se os reis e príncipes tivessem sabido que um
sacerdote não faz mais com o sacramento sobre o altar que qualquer outro que o
recebe, ou seja, que ele agradece a Deus por sua própria pessoa, acha você que
teriam sido loucos ao ponto de dar esses bens àquele que não sacrifica nem
concilia a Deus por eles, mas apenas agradece para si mesmo? Ui, ui, ui, sinto cócegas
nos dentes! Não acredito que eu consiga impor este ponto junto a eles. Isso eu
o sei muito bem.
Além disso quero admitir ainda que possam
realizar este sacrifício de ação de graças também por outros. Também eu posso
agradecer a Deus fora da missa por Cristo e todos os seus santos, sim, por todas
as criaturas. Admito que o sacerdote pense em seu coração: Olha Deus amado,
este sacramento. Estou fazendo uso dele em louvor e gratidão a ti, que fizeste tão magnífico a Cristo e todos os teus santos. Pois
quem não sabe que nós de qualquer maneira temos a obrigação de agradecer a Deus
por nós mesmos, por todas as pessoas, por todas as criaturas, como o ensina S.
Paulo? Por essa razão posso concordar perfeitamente com que os sacerdotes
agradeçam a Deus por nós todos na missa. Apenas que não o considerem como algo
de especial e distinto do sacramento dos demais, como se as pessoas não pudesse
e devesse tomar ou fazer uso do sacramento justamente também com essa gratidão.
Não vou tolerar o privilegiado no sacramento igual e comum a todos. Menos ainda
tolerarei que agradeçam em lugar dos outros, como se o sacerdote agradecesse
como se eu estivesse agradecendo, e eu lhe dê dinheiro para que agradeça por
mim e em meu lugar. Não, esse comércio eu não o aguento, nem esse tipo de
negócio e trato.
Se não quiserem aceitar estes pontos, também não
toleraremos sua alegação ardilosa e falsa do sacrifício simbólico ou sacrifício
de rememoração, nem permitiremos que o sacramento seja assim denominado; é abusus
et ketashresis. O mal entendido é grosseiro e perigoso demais. Pois aqui
Cristo separa claramente os dois pontos, sacramento e memória, ao dizer:
"Fazei isto em memória de mim." Uma coisa é o sacramento, outra coisa é a memória. Ele diz que devemos praticar e realizar o
sacramento, e ao lado disso, rememorá-lo, isto é: Ensinar, crer e agradecer. A
memória, esta sim, deve ser um sacrifício de ação de graças. O próprio
sacramento, porém, não deve ser um sacrifício, mas uma dádiva de Deus, a nós
concedida, a qual devemos aceitar por gratidão e receber com gratidão. E sou da
opinião de que esta é a razão por que os antigos chamaram a esse ofício de
eucaristia ou sacramento da eucaristia, ou seja agradecimento: Que nesse sacramento, segundo a ordem de
Cristo, devemos agradecer a Deus e dele fazer uso e tomá-lo com gratidão. Mais
tarde, por uma compreensão errônea, a designação se reduziu apenas a
sacramento; e nem ficaria mal se agora se dissesse, ao se dirigir à missa ou à
pregação: Estou indo à eucaristia; isto é: Vou à ação de graças, ou seja,
àquele ofício em que se agradece e louva a Deus em seu sacramento, da forma
como os antigos o parecem ter entendido.
Daí provém, acredito eu, que haja tanto canto na
missa, feito de forma tão excelente e magnífica em torno do agradecimento e louvor,
e que ainda permanece até agora, como o Gloria in excelsis et in terra, o
Aleluia, o Patrem, o Prefácio, o Sanctus, o Benedictus, o Agnus
Dei. Nestas partes você nada encontra de sacrifício, mas puro louvor e agradecimento.
Por essa razão também as mantemos em nossa missa. E de modo particular o Agnus, dentre todos os cânticos, se presta de modo
excelente para o sacramento, porque canta e louva expressamente a Cristo por
ter carregado nosso pecado, e com palavras belas e sucintas promove a memória
de Cristo de forma vigorosa e muito linda. Em suma, o que há de ruim na missa,
de sacrifício e obra - assim Deus o fez, surpreendentemente - basicamente tudo
é lido em segredo pelo sacerdote. Chama-se de missa calada. Mas o que é cantado
em público pelo coro e entre o povo, isso é praticamente puro material bom e
exaltação, como se com esse fato Deus quisesse dizer que quer poupar seus
cristãos da missa calada, que seus ouvidos não precisem ouvir semelhante horror
e, portanto os clérigos se esfalfem com seu próprio horror.
É isso que queria dizer sobre o primeiro ponto
ou motivo que nos deve estimular e mover a que nos dirijamos ao sacramento com vontade
e amor, ou seja: Que o façamos em louvor e gratidão a Deus, por amor e
confissão de Cristo; para o bom exemplo e o melhoramento do nosso próximo; e
finalmente para a conservação do sacramento, do ensino, da fé e de toda a
cristandade, sem nada merecer; pois de qualquer forma temos a obrigação de
fazer tudo isso, uma vez que é mandamento geral de Deus quer o louvemos e lhe agradeçamos, amemos e honremos o
sofrimento de Cristo, melhoremos o próximo e ajudemos a conservar a doutrina,
fé e cristandade. Quanto mais não o devemos fazer aqui, já que ele instituiu o
sacramento especialmente para isso, e ainda para ele nos chama e atrai? E mesmo
que não o quiséssemos ou pudéssemos receber ao menos gostar de estar presentes,
ver os outros recebê-lo e ouvir o louvor a Deus e agradecimento a Cristo. Pois
isso não procede de intenção própria ou decisão humana, mas está fundamentado na palavra
de Cristo: "Fazei isto em memória de mim."
Segunda Parte
Até agora nada dissemos acerca do proveito
pessoal que podemos procurar e buscar no sacramento. Falamos apenas do proveito
que você pode proporcionar ao próprio Deus, a Cristo, ao próximo, ao evangelho
e sacramento, e ainda a toda a cristandade. Também, quem pode compreender que
grande proveito significa tudo isso, ao louvar a Deus, agradecer a Cristo,
honrar seu sofrimento, melhorar seu próximo, ajudar a promover e conservar o
sacramento, o evangelho e toda a cristandade, além de ajudar a controlar e
impedir o oposto de todos esses frutos? Mesmo assim, não devemos deixar de
enxergar quão rica, plena, repleta é essa instituição de Deus, a fim de que sem
falta passemos a amá-la de coração e a fazer uso dele. Por isso queremos ver
agora que proveito é oferecido e proporcionado também a nós mesmos em
particular, e como Cristo não se esqueceu de nós nesse sacramento. Quase tudo
isso porém, já o mencionei anteriormente, no Catecismo Menor, de sorte que um pastor
diligente ou que disso necessite, pode apelar para aquele; mesmo assim quero
tratar do assunto mais uma vez aqui.
Em primeiro lugar, como adverti acima, você deve
observar muito bem a palavra "em memória de mim". Pois é com ela que
Cristo o estimula e atrai a que, por amor e gratidão a ele e em louvor e honra de
seu sofrimento, você vá de bom grado ao sacramento, ou ao menos se faça
presente nele bem disposto. Da mesma forma também se deve observar aqui a palavra
"por vós", quando diz: "dado por vós, derramado por vós".
Pois essas duas palavras "DE MIM" e "VOS" não deixam de ser
palavras poderosas, que bem o deveriam impelir a acorrer de bom grado ao
sacramento, ainda que tivesse que andar cem ou mil léguas; porque se pensar bem
quem é que está dizendo "DE MIM", ao dizer: "fazei isto em
memória de mim", verificará que é seu querido Senhor Cristo Jesus, Filho de Deus, que por você
derramou seu sangue e morreu. Com essa palavra "DE MIM", nada mais
deseja do que isto: Que você reconheça e creia isso, que você o aceite e lhe
agradeça por ter passado por amargura tão profunda; que não o despreze de forma tão desonrosa e
não considere seu sacramento tão insignificante; e que o procure, uma vez que
nada lhe custa nem exige gasto qualquer.
Se, portanto, considerar quem são estes de quem
ele diz "por vós", haverá de achar que somos você e eu, junto com
todas as pessoas por quem ele morreu. Se, porém, somos aqueles por quem ele
morreu, conclui-se que estivemos em pecado, morte, inferno e debaixo do diabo,
como também o expressam claramente as palavras "derramado por vós para o perdão dos pecados". Se há pecado, com certeza
também está presente a morte; se há morte, com certeza também estão presentes o
inferno e o diabo. Dessa forma essa reflexão ajuda a que lhe agradeça com tanto
mais empenho e tanto mais aprecie ir ao sacramento em honra a seu sofrimento.
Pois qual é o coração que jamais poderá compreender devidamente o benefício e a
graça que representa o fato de ser redimido da morte e do diabo, de pecados e
todos os males, de se tornar justo, vivo e bem-aventurado, sem mérito e colaboração,
somente pelo sangue e pela morte do Filho de Deus? O qual nada deseja em troca,
senão louvor e agradecimento, que se o reconheça e creia e não se despreze tão
vergonhosamente ou o fique adiando.
Esse é, pois, o primeiro fruto e proveito que
lhe advém do uso do sacramento: Que você seja lembrado desse benefício e graça,
e sua fé e seu amor sejam estimulados, renovados e fortalecidos, para que não
acabe esquecendo ou desprezando seu caro Salvador e seu amargo sofrimento, bem
como a grande, múltipla, eterna aflição e morte, donde ele lhe ajudou a sair.
Meu caro, não desconsidere esse proveito. Ainda que no mais não houvesse outro proveito no uso do sacramento senão esta
lembrança da bênção de Cristo e da aflição de você, pela qual é estimulado à fé
e ao amor a seu querido Salvador, mesmo assim isso seria proveito e fruto mais
que suficiente. Pois semelhante fé nos é altamente necessária, para que
fiquemos em Cristo, não havendo maneira de permanecer nele sem essa fé. Em
contrapartida, a descrença é um diabo perigoso, diário, ininterrupto, que nos quer arrancar do nosso querido Salvador
e de seu sofrimento tanto à força como com astúcia. Se já custa esforço e
trabalho alimentar, estimular e praticar a fé diariamente, para que não
esqueçamos o sofrimento e benefício de Cristo, que há de ser se nos abstivermos
disso, se o fizermos apenas raramente e desprezarmos ou negligenciarmos sua memória
e sacramento?
O outro proveito é o seguinte: Onde quer que a
fé seja assim revigorada e renovada, também o coração sempre de novo é
adicionalmente revigorado para o amor ao próximo, fortalecido para todas as boas
obras e preparado. para resistir aos pecados e a todas as tentações do diabo;
porque a fé não pode ficar ociosa, ela tem que praticar fruto do amor, fazendo
o bem e evitando o mal. O Espírito Santo está presente, e não nos deixa
descansar. Ele nos dá disposição e inclinação para todo o bem, como ainda
seriedade e diligência para agir contra todo o mal. De sorte que, através desse
bom uso do sacramento, um cristão se renova e cresce em Cristo sempre mais e
mais, dia após dia, como também nos ensina Paulo, que devemos renovar-nos e
crescer sempre. Em contrapartida: Onde a gente se abstém do sacramento e não
faz uso dele, o prejuízo vem com certeza, e não se poderá impedir que a fé da gente se
enfraqueça e esfrie mais e mais a cada dia; daí resulta ainda inevitavelmente
que ela fica preguiçosa e fria no amor ao próximo, inerte e indisposta a boas
obras, despreparada e avessa a resistir ao mal. A vontade para receber o
sacramento é cada vez menor, até ficar enfastiada por completo de pensar em seu
querido Salvador, desprezando o e estragando-se em si mesma dia após dia,
ganhando propensão e disposição para todo mal. Porque o diabo está aí, ele
também não descansa até que precipite a pessoa em pecado e vergonha.
A título de exemplo para todos aqueles que se
querem deixar advertir, quero apresentar aqui minha própria experiência, para
que se fique sabendo que velhaco bem ladino é o diabo. Aconteceu-me diversas
vezes que me propus a ir ao sacramento em dia determinado; ao chegar o dia,
havia se desvanecido essa minha intenção, ou apareceu algum impedimento, ou me
senti despreparado, de sorte que falei: "Tudo bem, daqui a oito dias eu o
farei." Acontece, porém, que o oitavo dia me encontrou igualmente
despreparado e impedido como o outro: "Tudo bem, mais uma vez dentro de
oito dias eu o farei." Foram tantas vezes esses oito dias que eu
praticamente acabaria não indo nunca mais ao sacramento. Quando, porém, Deus me
concedeu a graça de perceber a artimanha do diabo, eu disse: "Quer ver,
Satanás? Vá tomar banho, com o seu e o meu preparo!" E arremeti e fui lá,
algumas vezes provavelmente também sem ter feito confissão (o que em geral não
é o meu estilo), desafiando o diabo, em particular porque não tinha consciência
de qual- quer pecado de vulto.
Portanto me dei conta do seguinte em mim mesmo:
Quando alguém não tem vontade nem disposição para o sacramento, mas ainda assim
se propõe seriamente a ir, esses pensamentos e essa atuação sobre si mesmo
também provocam disposição e vontade suficiente, e também servem muito bem para
expulsar essa atitude preguiçosa e indisposta que impedem e deixam a gente
despreparado. Pois trata-se de um sacramento vigoroso e rico de graça; basta pensar nele com alguma seriedade e
dirigir-se para ele, que já se incende, estimula e puxa para si mais um coração.
Experimente uma vez, e se não for assim com você, pode me chamar de mentiroso.
Também você verá como o diabo lhe passou a perna magistralmente e como o
afastou do sacramento com astúcia, para com o tempo levá-lo para longe da fé e
ao esquecimento de seu caro Salvador e de toda a sua aflição.
E se no mais não tivesse qualquer motivação ou
necessidade de ir ao sacramento, meu caro, não seria um mal e necessidade
suficiente o fato de sentir-se frio e indisposto ao sacramento? Que é isso,
senão que está frio e indisposto a crer, agradecer e pensar em seu querido Salvador
e toda a bênção que ele lhe demonstrou por seu sofrimento amargo, para o livrar
de pecados, morte e diabo e fazê-lo justo, vivo e bem- aventurado? E com que
vai aquecer-se contra essa frieza e indisposição? Com que vai despertar sua fé? Com que quer estimular-se ao agradecimento? Vai
ficar esperando até que lhe sobrevenha por si, ou que o diabo lhe dê margem
para isso, ou que a mãe dele o leve a isso? Isso não vai levar a coisa alguma.
Aqui ao sacramento é que você precisa se apegar e ater. Ele é um fogo que
consegue acender os corações. Aí tem que considerar sua necessidade e carência
e ouvir a bênção de seu Salvador e crer nela. Então seu coração há de se
transformar e mudar de ideia.
Por essa razão Deus fez muito bem em nos deixar
nesta situação de termos que lutar e nos bater com o pecado, a morte, o diabo,
o mundo, carne e com toda sorte de provações, para que sejamos obrigados e
forçados a procurar e desejar sua graça, ajuda, palavra e sacramento. Caso
contrário, não fosse assim, ninguém haveria de mexer um fio de cabelo sequer
para perguntar por sua palavra ou por seu sacramento, nem procurar graça ou ajuda. Mas agora que esses cães de caça, sim, esses
diabos estão atrás de nós a nos acossar, temos que acordar e, como um cervo que
grita por água fresca, também nós temos que gritar por Deus, como diz o Salmo
42.1, para que nossa fé fique bem treinada, experimentada e forte, e nós,
portanto, permaneçamos em Cristo e sejamos firmes.
Se, porém, você diz que não sente nenhum pecado,
morte, mundo, diabo, etc., e que não tem nenhuma luta e contenda com, eles, razão
por que não há nenhuma necessidade que o obrigue ao sacramento, respondo:
Espero que não esteja falando sério, que você como único entre todos os santos
e homens sobre a terra não sentiria isso. E se soubesse que está falando sério,
eu realmente tomaria providências para que, em todas as ruas onde quer que você fosse, todos os sinos tivessem que
bater e anunciar à sua frente: Aqui vai um novo santo acima de todos os santos,
que não sente nem tem pecado. No entanto, fora de qualquer brincadeira, quero
lhe dizer: Se não sente pecado algum, com toda certeza está em pecado e até
morte, e o pecado rege poderosamente sobre você. E para não falar do pecado grosseiro
exterior, como o desejo de impudicícia, adultério, raiva, ódio, inveja,
vingança, vaidade, avareza, lascívia, etc., já é pecado demais e muito grande o fato de não ter necessidade
nem desejo do sacramento. Pois nisso se percebe que também não tem fé, não
considera a palavra de Deus, esqueceu o sofrimento de Cristo e está cheio de
ingratidão e de toda sorte de horrores espirituais.
Daí meu conselho: Já que se encontra tão insensível,
a ponto de não sentir pecado, morte, etc., apalpe sua boca, nariz, orelhas, mãos,
e sinta se é carne ou pedra. Se for carne, vamos lá, então acredite na Escritura,
e não no que sente. A Escritura, porém, diz: "A carne contende contra o
Espírito" (Gálatas 5.17), da mesma forma Romanos 7..18: "Nada há de
bom na carne", e assim por diante. “Em conformidade com esses ditos, fale
portanto: "É verdade, sinto que tenho carne em meu corpo, de sorte que com
toda certeza nada haverá de bom nele; por isso, enquanto eu tiver carne,
naturalmente é necessário que eu vá ao sacramento, fortaleça minha fé e espírito
contra a carne, que se opõe a meu espírito." A Escritura não mente, mas
seu sentir e não sentir é que o engana. Pois mesmo que o pecado esteja perdoado
e portanto superado por Cristo, de forma que ele não nos possa condenar nem
incriminar a consciência, ele ainda permaneceu no sentido de ainda poder nos tentar e assim
exercitar nossa fé.
Do mesmo modo, portanto, se não sente o mundo,
olhe a sua volta, ali onde se encontra, a ver se não mora em meio a uma gente
em que vê, ouve e percebe assassinato, adultério, roubo, engano, heresia, perseguição
e toda sorte de não virtudes. Se enxerga isso, então acredite na Escritura, que
diz: "Quem está de pé, veja que não caia." (1 Coríntios 10.12) Pois
em situações desse tipo também você pode cair a toda hora, não só com o coração, mas também com atos, pois pode perfeitamente
acontecer que odeie seu inimigo e o prejudique, o afaste do bem, etc. Ao mesmo
tempo tem que dizer: "É verdade, vejo que estou no mundo, em meio a toda
sorte de pecados e vícios em que posso cair perfeitamente. Por isso, enquanto
estiver no mundo, tenho de fato necessidade de ir ao sacramento, para me ater a
meu Salvador e fortalecer minha fé, de sorte que possa resistir a este mundo
ruim e seja protegido de pecados e vícios. Cristo superou o mundo para nós, e o mundo já não nos pode
forçar ao pecado. Ainda assim permaneceu aí, de sorte que nos pode levar à
provação, atormentar e perseguir e assim exercitar a nossa fé."
Da mesma forma, se não sente a morte, vá uma vez
ao ossuário e às sepulturas no cemitério, ou acredite na Escritura, que diz:
"A todas as pessoas humanas está determinado que morram." (Hebreus 9.27)
E verá que ainda não está corporalmente no céu, mas ainda tem a morte pela
frente, e sua sepultura também espera por você, entre os turcos. Disso não está a salvo em momento algum.
Se está vendo isso, então reflita: "De fato, ainda não estou no além,
também ainda tenho que lutar com a morte; enquanto vivo agora, preciso ir ao
sacramento, para fortalecer minha fé, para que a morte (ao chegar de surpresa)
não me assuste nem me leve ao desespero; porque ela é um inimigo cruel, que o
descrente não consegue suportar, sim, que assusta também o de pouca fé. E ainda
que Cristo a tenha superado, que não nos possa devorar nem ficar conosco para
si, ela mesmo assim permaneceu no sentido de nos poder assustar a atribular com
desespero e, por conseguinte, exercitar nossa fé."
Portanto, se não sente o diabo, como ele pode
levar a falsa fé, ao desespero, à blasfêmia contra Deus e ao ódio, então
acredite na Escritura que nos mostra como ele atormentou a Jó, Davi, S. Paulo e
outros mais com essas coisas, e ainda pode atormentar também a você. E ao mesmo
tempo diga: "É verdade, o diabo ainda é um príncipe dentro do mundo, ainda
não lhe escapei; e enquanto estiver dentro do seu principado, não estou a salvo
dele; por isso tenho que ir ao sacramento e ater-me a meu querido Auxiliador e Salvador, para que meu coração e minha fé
sejam diariamente fortalecidos, de sorte que o diabo não espete também a mim
com sua lança ou me estrangule com suas flechas incandescentes e envenenadas.
Pois mesmo que Cristo tenha subjugado o diabo para nós, esse nem por isso ainda
permaneceu um senhor do mundo no sentido de poder combater-nos com as elevadas
atribuições espirituais e, portanto, exercitar nossa fé."
Falei de forma rude e simples dos cristãos rudes
e preguiçosos que não sabem refletir a fundo sobre as coisas. Assim, sem se
darem conta, ficam desleixados e seguros de si, mesmo se não precisassem nem de
Deus nem de sua palavra; andam como se não estivessem em perigo nem
necessidade, perdendo então a fé e tornando-se inabilitados para boas obras.
Mas Deus fez com que nos restassem esses inimigos, para que tivéssemos o que
lutar e não ficássemos preguiçosos e seguros de nós mesmos, como está escrito em Juízes: Também deixou diversos reis e
príncipes à volta de seu povo Israel, para que aprendesse a fazer guerra e não
perdesse sua prática (Juízes 1.21 ss). Pois a palavra de Deus é todo-poderosa.
Da mesma forma a fé e o Espírito são ativos e inquietos, sempre precisam ter o
que fazer e estar em campanha militar. Assim
a palavra de Deus tem que ter não inimigos insignificantes, mas os mais poderosos,
pelos quais ela possa alcançar a glória, por seu grande po-der. Os inimigos são
estes quatro camaradas: carne, mundo, morte e diabo, razão por que Cristo é
chamado de Senhor aos Exércitos, isto é, um Deus da estratégia militar, sempre
a guerrear e em campanha militar dentro de nós.
Por essa razão bem que precisamos, e muito, de
um Deus misericordioso, que nos possa ajudar. E não só isso, mas também temos
que estar certos e seguros de que ele sem dúvida alguma quer ter misericórdia
de nós e nos quer ajudar. Como, entretanto, vamos ter certeza e estar seguros
disso, se ele não nos der um sinal certo e indubitável de sua graça e amor à
nós? Caso contrário, quem poderia adivinhar qual sua intenção conosco? Isso ele o fez aqui com o sacramento, dando-nos um
sinal certo de seu amor e de sua graça. Pois o sacramento não é sinal de sua ira,
e ele jamais no-lo teria dado, caso estivesse irado conosco; na realidade é um
sinal de seu amor supremo e de sua misericórdia insondável. E como poderá ele
demonstrar amor maior e misericórdia mais profunda, senão dando-nos por
alimento realmente seu próprio corpo e sangue? Isso não deve ser apenas um sinal misericordioso, mas
também um alimento com que nos saciemos e nos fortaleçamos, todos aqueles que
com ele estão de campanha em seu exército. O sacramento é propriamente o soldo
e as provisões com que paga e alimenta seu exército e seus soldados, até que
finalmente vençam e com ele se imponham no campo de batalha. Ah, que é uma
moeda boa, precioso ouro vermelho e pura prata branca, pão bonito e do bom, e
excelente vinho suave, e tudo isso em abundante fartura e abastança, que é até um
prazer participar dessa campanha.
Agora, se disser: "Mas S. Paulo mete
bastante medo na gente, ao dizer: Quem comer desse pão e tomar desse cálice, de
forma indigna come e bebe um juízo e é culpado no corpo e sangue do Senhor' (1 Coríntios
11.27,29) Assim nos desanima e faz perder a coragem de ir ao sacramento. Pois
quem é que pode considerar-se digno?" Resposta: Meu caro, não vê contra
quem Paulo está falando? Contra aqueles que se atiravam sobre o sacramento feito porcos e que faziam dele uma comilança
para o corpo; contra os que lidavam com o sacramento como se fosse seu pão e
vinho diário, além de se desprezarem mutuamente e cada um fazer sua refeição
para si. Nós, entretanto, estamos falando daqueles que acreditam não se tratar
de uma refeição de porcos, mas do autêntico corpo e sangue de Cristo; que sabem
que Cristo o instituiu para sua memória e nosso consolo; que também gostariam de ser cristãos, louvar
seu Senhor, agradecer-lhe e glorificá-lo; e ainda gostariam também de ter sua
graça e amor; que se atemorizam por causa da própria pessoa e indignidade; e
que por isso se mantêm distantes, impedidos e intimidados por falso temor.
Meu caro, não deve ficar considerando quão digno
ou indigno você é. Deve olhar para sua necessidade, que realmente precisa da
graça de Cristo. Se vê e sente a neces-sidade, então é suficientemente digno e habilitado.
Pois ele não o instituiu para nós como veneno ou desgraça, mas para consolo e
salvação. Antes de mais nada, porém, precisa considerar que, por mais indigno
que seja, nem por isso seu Senhor Cristo é digno demais que não o pudesse louvar, honrar e lhe agradecer; que não pudesse
ajudar a desempenhar sua ordem e instituição (como foi dito acima). Isso lhe é
devido de sua parte, como lhe prometeu no batismo. Seu coração deve pensar da
seguinte maneira: "Tudo bem, se é que sou indigno de receber sacramento,
tanto mais digno é meu Senhor Cristo, de que com isso eu lhe agradeça, o louve
e faça honra a sua instituição, conforme lhe devo e prometi em meu
batismo." E por outro lado: "Se sou indigno, então tenho necessidade. Quem precisa mendigar, não deve ter
vergonha disso. Na casa do pobre mendigo, a vergonha é um criado inútil. Assim
Cristo também elogia até um importuno que não se acanha" (Lucas 11.8).
Eis, portanto, que tem duas boas formas e razões
pelas quais receber o sacramento: A primeira, de com ele agradecer e louvar a
Cristo; a segunda, de buscar também para você consolo e graça. Estas duas maneiras
não podem ser más, nem abuso, mas necessariamente são corretas e agradáveis a
Deus. Pois em relação a Deus não podemos agir senão de duas formas, ou seja,
agradecendo e pedindo. Com o agradecimento nós lhe damos honra por causa dos
bens e das graças que já recebemos. Ao pedirmos, damos-lhe honra em virtude dos bens e das graças que
doravante gostaríamos de receber. Pois quem se dirige com esta atitude ao
sacramento, que outra coisa está fazendo senão falar através do ato:
"Senhor, eu te agradeço por toda a tua graça a mim concedida, e peço ainda
que continues a me ajudar na necessidade"? Isso é um sacrifiium laudis
et sacrificium orationis - sacrifício de louvor e sacrifício de oração.
Mais você não pode fazer para com Deus, nem glorifi- cá-Io de forma mais
elevada.
Veja, pois, que belo sacramento é este, em que
agradece pela graça anterior e logo pede pelas graças vindouras. Mas quem
jamais pode agradecer e pedir o bastante? Por isso não há razão alguma aqui
para ficar mole e preguiçoso, senão puro estímulo caloroso e intenso a que se receba
o sacramento de bom grado,. com vontade e alegria. O que os queridos profetas e
velhos patriarcas apenas tivessem visto e ouvido de semelhante sacramento!
Quanto não se alegrariam e ficariam ansiosos por ele; quanto não haveriam de se
admirar que sejamos gente tão venturosa em comparação com eles. Mas quanto, por
outro lado, também não lhes doeria caso vissem que o desprezamos de forma tão
vergonhosa? Muito mais, porém, lhes teria doído se tivessem visto o maldito e terrível
comércio que os papistas e sofistas dele fizeram, com missas particulares e
coisas dessa espécie.
Por isso cuide bem que não use o sacramento de
outra forma que não estas duas: agradecimento e prece, opinione laudis et
precis - em intenção de louvor e de prece. E tome cuidado com os horrores dos
papistas; estes fazem dele um sacrifício, com que não agradecem pela graça
anterior, mas sim querem merecer e obter a graça futura como que através de uma obra, além do que não para si mesmos, mas também para
outros, aos quais vendem essa missa de sacrifício, conforme ouvimos acima.
Você, porém, deve agradecer a ajudar a louvar a Deus no sacramento pela graça
anterior, particularmente aquela que lhe foi mostrada em Cristo, bem como deve
nele procurar e pedir pela graça futura para sua necessidade. Assim não poderá
fazer dele nem comércio nem mérito que pudesse transmitir ou vender aos outros.
Aqui cada um tem que agradecer e rogar a Deus para si, junto com todos os outros.
Isso é o quanto eu queria mostrar desta feita
aos pregadores menos bem informados, além de lhes pedir que procurassem levar
essas coisas para dentro do povo e lhas expor; porque ainda que muita gente
endurecida, impenitente e rude não vai ligar para isso, em muitos haverá de
trazer frutos. Como se diz: "Uma boa palavra encontra um bom lugar",
e o próprio Deus diz: "Minha palavra não deverá voltar vazia, mas realizará
aquilo por que a envio." (Isaías 55.11) Onde, porém, se acharem alguns
desses desdenhosos que não ligam para semelhante exortação, além de não fazerem
uso do sacramento quando de corpo sadio e vivo, que se os deixe deitados também
em sua morte e hora derradeira e não se lhes dê o sacramento. Se viverem como
cachorros e porcos, que também morram como cachorros e porcos, A não ser que
deem sinais muito fortes de um coração arrependido e crente. Pois não devemos
dar o que é sagrado aos cachorros, nem atirar as pérolas aos porcos, diz Cristo
(Mateus 7.6). E o próprio Deus mesmo também haveria de dar nesses desdenhosos,
por não precisarem dignar-se da ceia de Cristo, nem de tomá-la. Quanto a isso
quero narrar aqui um exemplo que aconteceu, não faz muito tempo, na cidade de
Torgau, para o que ainda se pode ter como testemunhas tanto o pároco como o
capelão.
Tratava-se também de um homem desses, cujo nome
não quero mencionar, que no curso de seis ou sete anos não foi ao sacramento, sob
o vergonhoso pretexto da liberdade cristã. Adiou e guardou o sacramento até
adoecer, e mesmo durante a doença ainda se demorou até chegar a hora
derradeira. Quando começou a sentir que sua vida estava no fim, exigiu o capelão
e pediu o sacramento. O capelão lho trouxe e, ao lho pôr na boca, a alma saiu, deixando o sacramento sobre a língua na boca
aberta, dê sorte que o capelão teve de tirá-lo. Enojando-se, porém, de tomá-lo
ele mesmo, perguntou-me o que fazer com ele. Disse - lhe que o queimasse no
fogo. - Meu caro, tome isso como exemplo e sinal, para que não fique aí a viver
tão insensível mesmo que agora não seja
forçado ao sacramento. Você pode desprezar a Deus em seu sacramento, mas ele
pode também desprezar a você, em suas dificuldades, como diz em Provérbios:
"Todos desprezastes meu bom conselho; em contrapartida eu farei troça de
vós em vossa perdição, etc." (Provérbios 1.25ss) E também é bem feito que
aquele que quer ser cristão e leva este nome de forma vergonhosa, não querendo
fazer uso do sacramento, mesmo podendo, que ele também não o use quando
quisesse recebê-lo.
Não que por isso eu quisesse coagir ou forçar
alguém ao sacramento, nem dar ordem ou determinar a hora, como o fez o papa.
Deus não quer um servo obrigado, menos ainda ele quer dar algo a alguém contra
a sua vontade. Com isto apenas gostaria de recomendar que cada um se obrigue a
si mesmo e se force por desígnio próprio a buscar esse caro e nobre tesouro da
alma, além de mostrar com quanta razão Deus - se desagrada do vergonhoso desprezo pela graça e bondade oferecidas. Talvez
isso ajude a que as pessoas aprendam a procurar e receber a graça de Deus sem
coação e leis. Pois a rigor tamanho desprezo e ingratidão merece castigo maior
do que ser privado do sacramento ao chegar o fim, e com certeza um bem bastante
maior também haverá de seguir.
Pois pense bem você mesmo que desprezo e
ingratidão bem insensata e desesperada não é isto: Anteriormente, sob o papado,
quando éramos forçados e empurrados para o sacramento, acorríamos aos montes,
tínhamos que pagá-lo em dinheiro e comprar tudo muito caro, e ainda assim não
nos davam mais do que metade do sacramento, de uma só modalidade. E o que era pior: Não tínhamos que buscá-lo para proveito
nosso nem para a glória de Deus, mas simplesmente para se obedecer ao papa,
como que num trabalho forçado. Pois esse não se preocupava com o proveito que
nós teríamos, ou que glória Deus receberia com isso. Os seus tampouco o
pregavam nem ensinavam. Ele se preocupava apenas com nossa obediente submissão
a ele, sim, sob prejuízo nosso é que o tínhamos que buscar, tanto no corpo como
na alma. Pois ali nada se ensinava sobre a fé, mas sim tinha que ser uma obra com
a qual se praticava um bem em relação a Deus. O sacramento ficava oculto sob
essa obra e nos foi roubado o bom uso, proveito e fruto do sacramento.
Agora, entretanto, que não apenas o temos de graça,
mas ainda se ensina o uso correto - em suma, pode-se fazer uso dele para nosso
proveito e para a glória de Deus - posicionamo-nos de forma tão escabrosa e
vergonhosa como se não fôssemos pessoas humanas (isso para não falar de
cristãos), mas como se fôssemos paus e pedras, como se de forma alguma dele
precisássemos nem tivéssemos alguma coisa a ver com isso. Por que haveria de
causar surpresa que Deus também nos atormen-tasse e castigasse em retorno,
assim, por querermos nos chamar de cristãos e nos colocarmos de forma tão
desdenhosa e difamante contra o nosso Salvador? Assim não é de se admirar-que
Deus nos atormentasse sem cessar com carestia, pestilência, guerra e toda sorte
de catástrofe. Pois o que há de significar isto: Fomos livrados misericordiosamente
de tão terrível prisão da alma e dos liamos do diabo; agora nos são oferecidas tão ricas graças. Nós, no entanto, não só não agradecemos por
essa libertação, mas ainda fazemos troça da graça oferecida, como se fosse
coisa desnecessária e inútil?
Por isso digo, e com razão, da perspectiva de
Deus: Já que não quer meu alimento, eu o farei passar fome, que não terá nem
seu alimento. “Se não quer o pão da vida que tão abundantemente lhe ofereço que
não achará nem janta nem café da manhã.” Se está satisfeito, que não quer meu
alimento, eu o farei passar fome, que não terá nem seu alimento. Se não quer o pão
da vida que tão abundantemente lhe ofereço, tome lá pestilência, febre e toda
sorte de doença, e vá morrer sempre para o diabo. Se não quer o sacramento do
amor, da graça e da paz, que nele lhe concedo, tome lá guerra, discórdia ,conflitos
e toda sorte de desordem. Pois que outra coisa haverá Deus de fazer conosco?
Como pode ele tolerar que sua graça seja sempre e constantemente e cada vez mais
desprezada, e a ingratidão fique sempre maior? E isso que ele o conseguiu por um preço tão caro, deixando por isso crucificar o seu próprio
Filho. Ele só pode mesmo dar-lhe uma bofetada e mandar toda sorte de praga
sobre nós, o que, aliás, já está começando e rondando por aí. Nós o forçamos e
impelimos a ficar indignado, que ele tenha que retirar sua graça e fazer valer
a desgraça; nenhuma outra coisa ele pode fazer diante do nosso incessante
desprezo e ingratidão. Vamos lá, então! Com isso quero ter contribuído com a
minha parte e pedir lealmente aos pregadores que diligentemente me ajudem a
recomendar que não desafiemos com tanto excesso a ira de Deus. Sem dúvida,
muitos corações devotos haverão de aceitar o que dissemos e vão melhorar. Quanto
aos outros, quero estar isento de culpa; seu sangue caia sobre a sua cabeça; a
eles foi dito o bastante. O mesmo Deus de toda a graça e misericórdia nos
conceda o seu Santo Espírito, que nos desperte e exorte a procurar com seriedade a sua glória e a agradecer com toda devoção
cordial por todos os seus inúmeros e inefáveis benefícios e dons, por Jesus
Cristo, nosso Senhor e Salvador, ao qual seja louvor e gratidão, glória e
exaltação em eternidade. Amém, amém.
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