DA ETERNA PRESCIÊNCIA E ELEIÇÃO DE DEUS
DA
ETERNA PRESCIÊNCIA E ELEIÇÃO DE DEUS
Da
eleição eterna dos filhos de Deus ainda não ocorreu, entre os teólogos da
Confissão de Augsburgo, nenhuma dissensão pública, escandalosa e amplamente
difundida. Visto, porém, que esse artigo foi objeto de mui pesada controvérsia
em outros lugares e que também entre os nossos houve alguma agitação a
respeito, e considerando que, além disso, os teólogos nem sempre falaram nos
mesmos termos, por isso, a fim de prevenir, com a graça de Deus, desunião e
separação nesse ponto, futuramente, entre os nossos pósteros, quanto em nós
estiver, quisemos inserir também aqui a explanação desse artigo, para que todos
possam saber qual é nossa unânime doutrina, fé e confissão no que tange a esse
artigo. Quando a doutrina desse artigo é proposta da palavra de Deus e segundo
o padrão dessa, não se pode nem se deve havê-la por inútil ou desnecessária,
muito menos por ofensiva e prejudicial, porque a Santa Escritura não menciona o
artigo em apenas um lugar e de passagem, senão que dele trata e o incute
cabalmente em muitos lugares. E também não se deve passar por alto ou rejeitar
a doutrina da palavra de Deus por causa de abuso ou mal-entendido, senão que,
exatamente para evitar todo abuso e mal entendido, devemos e temos de expor,
fundamentados na Escritura, o sentido correto. E de acordo com isso, a suma e
conteúdo singelos da doutrina sobre esse artigo consiste nos pontos que seguem.
Em
primeiro lugar, deve notar-se cuidadosamente a diferença entre a eterna
presciência de Deus e a eterna eleição de seus filhos para a vida eterna. Pois
praescientia vel praevisio, isto é, que Deus vê e sabe tudo precedentemente,
antes de acontecer, o que se chama de presciência de Deus, estende-se a todas
as criaturas, boas e más. De antemão vê e sabe tudo o que é ou será, tudo quanto
acontece ou acontecerá, seja bom ou mau, já que todas as coisas, passadas ou
futuras, são manifestas e presentes para Deus, como está escrito Mt 10:29
"Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem
o consentimento de vosso Pai: E SI 139:16 "Os teus olhos me viram a substância
ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles
escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda! Também Is 37:28
"Mas eu conheço o teu assentar, e o teu sair, e o teu entrar, e o teu
furor contra mim:
Todavia, a eterna eleição de Deus vel praedestinatio,
isto é, a divina preordenação para a salvação, não se estende aos piedosos e
aos maus, senão apenas aos filhos de Deus, que foram eleitos e ordenados para a
vida eterna "antes da fundação do mundo", como diz Paulo Ef 1 :4-5
Ele nos escolheu em Cristo Jesus e "nos ordenou para a adoção de
filhos".
A presciência (praescientia) de Deus precedentemente vê e conhece também o mal,
não, porém, assim como se fosse da graciosa vontade de Deus que ele devesse
acontecer; mas: aquilo que a vontade perversa e ímpia do diabo e dos homens se
proporá fazer, e fará, e vai querer fazer, tudo isso Deus vê e sabe antecedentemente.
E suapraescientia, isto é,
presciência, também observa a ordem dela nos atos ou obras ímpias de sorte que
Deus determina ao mal, que ele não quer, limite e medida, até onde deve ir e
por quanto tempo deve durar, quando e como ele o quer obstaculizar e castigar.
Pois o Senhor Deus governa a tudo isso de tal maneira, que tem de redundar em
honra ao seu nome divino e salvação de seus eleitos, devendo os ímpios, por
isso, ficar reduzidos a confusão.
O
princípio e causa do mal, todavia, não é a presciência de Deus (pois Deus
não cria e não opera o mal, e não lhe ajuda nem o promove), mas a ímpia e
perversa vontade do diabo e dos homens, conforme está escrito: Os
13.9; Sl 5.4 "A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim a tua salvação:
Também: "Pois tu não és Deus que se agrade com a iniqüidade"
A
eterna eleição de Deus, porém, não só vê e sabe antecedentemente a salvação
dos eleitos, mas, por graciosa vontade e beneplácito de Deus em Cristo Jesus,
também é causa que cria, opera, ajuda e promove a nossa salvação e tudo o que a
ela pertence. E nossa salvação está fundamentada nisso de maneira tal, que
"as portas do inferno"?" nada podem contra ela, como está
escrito: "Ninguém me arrebatará da
mão as minhas ovelhas:' Jo 10.28 Também: "E creram todos os que haviam
sido destinados para a vida eterna”. At 13.48
Essa
eterna eleição ou ordenação de Deus para a vida eterna também não deve
ser considerada no conselho secreto e inescrutável de Deus tão nuamente como se
nada mais compreendesse, ou como se nada mais a ela pertencesse, e nada mais
houvesse de ser considerado nela, senão isso que Deus previu quem e quantos
deveriam ser salvos, quem e quantos deveriam ser condenados, ou que apenas
passou em revista assim: Este deve ser salvo; aquele, não; este há de
perseverar; aquele, não.
Pois
disso muitos derivam e concebem pensamentos esquisitos, perigosos e
perniciosos, que causam e fortalecem segurança e impenitência ou desalento e
desespero, fazendo com que caiam em pensamentos pesados e digam: Já que Deus
preordenou seus eleitos para a salvação "antes da fundação do mundo"
Ef 1.4 e visto que sua presciência não pode falhar, e ninguém a pode impedir ou
modificar Is 14.27, Rm 9.19, 11. segue-se que, se sou preordenado para a salvação,
nada me pode prejudicar nisso, ainda que sem arrependimento pratique toda sorte
de pecados e coisas vergonhosas, despreze palavra e sacramento, e não cogite de
arrependimento,
fé, oração ou piedade. Serei e tenho de ser salvo, pois a presciência de Deus
tem de realizar-se. Se, porém, não sou predestinado, nada me ajuda, posto me
atenha à palavra, me arrependa, creia, etc., pois não posso impedir ou
modificar a presciência de Deus.
E
tais pensamentos por certo que sobrevêm também a corações piedosos, conquanto
pela graça de Deus têm arrependimento, fé e bom propósito. Chegam a pensar,
especialmente quando reparam em sua fraqueza e no exemplo daqueles que não
perseveraram, mas apostataram: Se não estás predestinado desde a eternidade
para a salvação, tudo é inútil.
A
essa fantasia e pensamento errôneo deve contrapor-se este fundamen- to claro,
que é certo e não pode falhar: uma vez que "toda Escritura inspirada por
Deus" se destina a servir não para segurança e impenitência, mas
"para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça" 2 Tm
3,16 igualmente, visto que tudo na palavra de Deus nos foi prescrito não para
que fôssemos com isso levados ao desespero, mas "a fim de que, pela
paciência, e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança" Rm 15.4
por isso, sem sombra de dúvida, o entendimento são ou o uso correto da doutrina
da eterna presciência de Deus de modo nenhum é que por ela se cause ou
fortaleça impenitência ou desespero. Assim também a Escritura de outro modo não
propõe essa doutrina senão de forma que por ela nos remete à palavra Ef 1, 1 Co 1, exorta-nos ao arrependimento 2 Tm 3,
insta por vida piedosa Ef 1, Jo 15, fortalece
a fé e torna-nos certos de nossa salvação Ef.1.13; Co 1.21,30,31; Ef 1.15 ss; Jo
15.16,17,3,4, 10, 12; Ef 1.9,13,14; Jo 10.27-30; 2Ts 2.13-15.
Por
conseguinte, se queremos pensar ou falar correta e proveitosamente da
eterna eleição ou predestinação e ordenação dos filhos de Deus para a vida eterna,
devemos acostumar-nos a não especular em torno da nua, secreta, oculta e
inescrutável presciência de Deus, senão que devemos meditar o conselho,
propósito e preordenação de Deus em Cristo Jesus (que é o genuíno e verdadeiro
"livro da vida") Fp 4.3; Ap 3.5; 20.15 da forma como nos é revelado
mediante a palavra, a saber, de modo que tomemos conjuntamente a doutrina
inteira do propósito, conselho, vontade e ordenação de Deus concernente a nossa
redenção, vocação, justificação e salvação, como Paulo trata e explica esse
artigo Rm 8.28 ss; Ef 1.4, como também Cristo na parábola Mt 22.2-14, isto é,
que Deus ordenou em seu propósito e conselho: 1. Que a raça humana
verdadeiramente foi redimida e reconciliada com Deus por intermédio de Cristo,
o qual por sua inocente obediência, paixão e morte mereceu para nós "a
justiça que vale diante de Deus "Rm 1.17; 2Co 5.21 e a vida eterna. 2. Que
esse mérito e benefícios de Cristo nos devem ser apresentados, oferecidos e
distribuídos por intermédio de sua palavra e sacramentos. 3. Que quer ser
eficaz e ativo em nós com seu Espírito Santo pela palavra, quando é pregada,
ouvida e meditada, converter os corações a arre- pendimento verdadeiro e iluminá-los
na fé verdadeira. 4. Que quer justificar e receber, graciosamente, na adoção de filhos e
na herança da vida eterna, todos os que em arrependimento genuíno recebem a Cristo
mediante fé verdadeira. 5. Que também quer santificar no amor os assim
justificados, como diz São Paulo Ef1.4 6. Que, outrossim, querprotegêlos, na grande fraqueza deles, contra
o diabo, o mundo e a carne, governar e guiá-los nos caminhos dele, reerguê-los
quando tropeçam, e confortar e preservá-los em cruz e tentação. 7. Que também
quer fortalecer e multiplicar neles a boa obra que ele começou, e preservá-los
até o fim, contanto que se atenham à palavra de Deus, orem diligentemente,
permaneçam na bondade de Deus e usem com fidelidade os dons recebidos. 8. Que,
finalmente, quer salvar e glorificar para sempre, na vida eterna, aos que
elegeu, chamou e justificou.
Neste
seu conselho, propósito e ordenação, Deus não só preparou a sal-
vação
em geral, senão também graciosamente considerou e elegeu para a salvação as
pessoas dos eleitos - cada qual e todas que devem ser salvas por Cristo, e
também ordenou que da maneira que acabamos de mencionar ele quer, por sua
graça, dons e operação, fazê-los chegar a isso, (à salvação eterna) ajudar, promover, fortalecer e conservar.
De
acordo com a Escritura, tudo isso está compreendido na doutrina da eterna
eleição de Deus para a adoção filial e a vida eterna, e deve ser entendido como
abarcado por ela, jamais se devendo excluir ou omiti-lo quando se fala do
propósito, presciência, eleição e ordenação de Deus para a salvação. E quando
os pensamentos sobre esse artigo são formados assim segundo a Escritura,
podemos, pela graça de Deus, nela orientar-nos com simplicidade.
Para
mais ampla explicação e para uso salutar da doutrina da ordenação de
Deus à salvação também é pertinente o que segue: desde que são salvos apenas os
eleitos, "cujos nomes se encontram no livro da vida", Fp 4.3; Ap
20.15 como se pode saber, de onde e por meio de que se pode conhecer quais são
os eleitos que podem e devem receber essa doutrina para consolo?
Disso
não devemos julgar de acordo com nossa razão, nem segundo a lei ou
por qualquer aparência exterior. Também não devemos atrever-nos a investigar o
abismo secreto e oculto da predestinação divina, mas devemos atentar na vontade
revelada de Deus. Pois ele nos revelou e "desvendou o mistério da sua
vontade" e o manifestou por Cristo, para que fosse pregado Ef 1.9-10; 2 Tm
1.9-11.
Isso,
porém, nos é revelado da maneira seguinte, como diz Paulo Rm 8.29-30: Aos que
Deus de antemão conheceu, elegeu e preordenou, a esses também chamou. Ora, Deus
não chama de maneira imediata, mas pela palavra, como de fato ordenou se
pregassem arrependimento e perdão de pecados. Lc 24.47 No mesmo sentido
testifica São Paulo 2Co 5.20 ao escrever: "De sorte que somos embaixadores
em nome de Cristo, e Deus exorta por nosso intermédio: Reconciliai-vos com
Deus" 2 Co 5. E os convidados que o rei quer nas bodas de seu filho ele os
manda chamar pelos servos que envia Mt 22.2-14 alguns pela primeira hora,
outros pela segunda, terceira, sexta, nona, e mesmo pela hora undécima Mt
20.1-16.
Se,
portanto, queremos considerar nossa eleição eterna para salvação proveitosamente,
temos de ater-nos, de todas as maneiras, rija e firmemente, ao fato de que,
assim como se dá com a pregação do arrependimento, da mesma forma também a promessa
do evangelho é universalis isto é,
estende-se a todos os homens" Lc 24.47; Jo 3.16; Jo 1.29; Jo 6.51; 1 Jo
1.7; 2.2; Mt 11.28; Rm 11.32; 2Pe 3.9; Rm 10.12; Rm 3.22; Jo 6.40; Mc 16.5. Por isso Cristo ordenou que se pregasse
"em seu nome arrependimento e remissão de pecados a todas as nações".
Porque Deus "amou ao mundo" e a ele deu o seu Filho Jo 3. Cristo
carregou o pecado do mundo; deu a sua carne "pela vida do mundo" Jo
6; seu sangue "é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro" 1 Jo 1.
Diz Cristo: "Vinde a mim todos os que estais sobrecarregados. e eu vos
aliviarei" Mt 11. "Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a
fim de usar de misericórdia para com todos" Rm 11. "O Senhor não quer
que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento" 2 Pe 3.
"O mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam"
Rm 10. A justiça "vem mediante a fé em Cristo para todos e sobre todos os
que crêem" Rm 3. "Esta é a vontade do Pai": que todo aquele que
crer em Cristo, tenha a vida eterna Jo 6. É por conseguinte, ordem de Cristo
que a todos em comum a quem é pregado arrependimento, seja, outrossim, proposta
essa promessa do evangelho Lc 24; Mc 16.
E
a essa vocação de Deus, que é feita mediante a pregação da palavra,não
a devemos considerar burla, (não julguemos que é simulada e falsa) mas saber que
por meio dela Deus revela a sua vontade, a saber, que naqueles que dessa maneira
chama, ele quer operar pela palavra!" de forma que possam ser iluminados,
convertidos e salvos.
Pois
a palavra pela qual somos chamados é ministério do Espírito'; ou mediante
o qual o Espírito é dado 2 Co 3.8, e "poder de Deus" para a salvação
Rm 1.16. E como o Espírito Santo quer ser eficaz pela palavra, fortalecer, dar
poder e capacidade, é da vontade de Deus que aceitemos, creiamos e sigamos a
palavra.
Por
essa razão os eleitos são descritos assim Jo 10.27-28 "As minhas ovelhas
ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna:
E Ef 1.11-13. Aqueles que "segundo o propósito" são predestinados
para a "herança; esses ouvem o evangelho, crêem a Cristo, oram e agradecem,
são santificados no amor, têm esperança, paciência e consolo sob a cruz Rm 8.25.
E ainda que tudo isso seja muito fraco neles, têm, contudo, fome e sede de
justiça Mt 5.6
Assim
o Espírito de Deus dá aos eleitos "testemunho de que são filhos de
Deus,
e quando não sabem orar como convém'; intercede por eles "com gemidos
inexprimíveis" Rm 8.16-26.
Testifica
outrossim a Santa Escritura que Deus, o qual nos chamou, é tão fiel que, quando
"começou boa obra em nós”; há de conservá-la também até ao fim e completá-la,
se nós mesmos não nos desviarmos dele, mas guardarmos firme até o fim a obra
principiada, para o que ele prometeu sua graça 1 Co 1.8; Fp 1.6 ss; 2 Pe 3.9;
Hb 3.14,6
Com
essa vontade revelada de Deus é que devemos ocupar-nos, para que a sigamos e
nela sejamos diligentes, porque o Espírito Santo confere graça, poder e
capacidade por intermédio da palavra pela qual nos chama. Não devemos
perscrutar o abismo da oculta presciência de Deus, como está escritos" em Lc
13, onde alguém pergunta: "Senhor, são poucos os que são salvos?" e
Cristo responde: "Esforçai-vos por entrar pela porta estreita:' Lutero diz
assim: "Segue a ordem na Epístola aos Romanos, ocupa-te primeiro com
Cristo e seu evangelho, a fim de reconheceres o teu pecado e a graça dele, e em
seguida lutares com o pecado, conforme Paulo ensina do primeiro capítulo ao
oitavo. Depois, quando no oitavo capítulo entrares em tentação sob cruz e
aflições, os capítulos nono, décimo e undécimo hão de ensinar-te quão
consoladora é a predestinação" .
A
causa, porém, de "muitos serem chamados, mas poucos escolhidos "Mt
20.16; 22.14 não é a vocação divina, que é feita por intermédio da palavra,
como
se Deus dissesse: Exteriormente, por meio da palavra, deveras chamo ao meu
reino a todos vós a quem proponho a minha palavra; no coração, porém, não penso
em todos, mas apenas em alguns poucos. Pois é minha vontade que a maior parte
daqueles que chamo pela palavra não sejam iluminados nem convertidos, senão que
sejam e permaneçam condenados, ainda que pela palavra, na vocação, eu me
declaro a eles de outra maneira. Hoc enim esset Deo contradictorias vo/untates
affingere=" (Pois isso seria falsamente atribuir vontades contraditória a
Deus) isto é, dessa maneira se ensinaria que Deus, que é a verdade eterna,
dissente de si mesmo, quando, ao revés, Deus castiga também nos homens essa
improbidade de declarar uma coisa e no coração pensar e tencionar outra SI 5.10.11;
12.3,4. Isso também nos tornaria de todo incerto e nulo o necessário e
confortador fundamento que diariamente nos lembra e admoesta que somente da
palavra de Deus, pela qual trata conosco e nos chama, devemos aprender e
concluir qual é sua vontade a nosso respeito, e que devemos crer com firmeza e
não duvidar o que ela nos assevera e promete.
Por
essa razão Cristo faz que as promessas do evangelho não sejam propostas apenas
de modo geral, porém pelos sacramentos. que anexou como selo à promessa, e com
isso a confirma a cada crente individualmente.
Por
isso também, como diz a Confissão de Augsburg no Artigo XI, retemos a confissão
particular, e ensinamos ser mandamento divino que "creiamos nessa
absolvição e tenhamos como certo que, quando cremos a palavra da absolvição,
estamos reconciliados com Deus tão verdadeiramente como se tivéssemos ouvido
uma voz do céu: conforme a Apologia" explica esse artigo. Inteiramente nos
seria tirado esse consolo, senão devêssemos inferir da vocação que se realiza
por intermédio da palavra e dos sacramentos qual a vontade de Deus para
conosco.
Também
nos seria subvertido e tirado o fundamento de que o Espírito Santo
certamente quer estar presente com a palavra pregada, ouvida, meditada, e que
mediante ela quer ser eficaz e operar. Por isso o sentido de modo nenhum é o
que acima se referiu, a saber, que aqueles possam ser os eleitos, mesmo que
desprezem a palavra de Deus, a repilam, blasfemem e persigam Mt 22.5,6; At
13.40,41.46 ou, quando a ouvem, endurecem o coração Hb 4, resistem ao Espírito Santo
At 7, persistem em pecados sem arrependimento Lc 14, não crêem verdadeiramente
em Cristo Mc 16, têm apenas aparência exterior de piedade Mt 7.2; 22” ou buscam
outros caminhos para a justiça e a salvação, fora de Cristo Hb 4.2,7; At 7.51;
Lc 14.18,24; Mc 16.16; Mt 7.15; 22.12; Rm 9.31. Ao contrário, assim como Deus
ordenou em seu conselho que o Espírito Santo chame, ilumine e converta pela
palavra os eleitos, e que ele justificará e salvará a quantos aceitarem a
Cristo mediante fé verdadeira, assim também decretou em seu conselho que vai
endurecer, rejeitar e condenar aqueles que são chamados pela palavra, se
repelem a palavra e resistem e perseveram em resistir ao Espírito Santo, o qual
neles quer ser eficaz e quer operar pela palavra. E é dessa maneira que
"muitos são chamados, mas poucos escolhidos Mt 20.16; 22.14"
Pois
que poucos recebem a palavra e a seguem; a maioria rejeita a palavra e não quer
vir para as bodas. Mt 22.5; Lc 14.18-20.
A
causa de semelhante desprezo à palavra não é a presciência de Deus, mas a
vontade perversa do homem, que repele ou perverte o meio e instrumento do
Espírito Santo que Deus lhe oferece mediante o chamado e resiste ao Espírito
Santo, que pela palavra quer ser eficaz e opera como diz Cristo: "Quantas
vezes quis eu reunir-vos e vós não o quisestes!" Mt 23.37
Assim
muitos "recebem a palavra com alegria”: mas depois "se desviam” Lc 8.13.
A causa, porém, não é que Deus não queira
dar a graça da perseverança
àqueles em quem "começou boa obra”: pois isso é contra São Paulo Fp 1.6.
Mas a causa é: porque tornam a desviar-se voluntariosamente do santo preceito,
entristecem e amarguram o Espírito Santo, reentrançam-se na imundície do mundo,
voltam a ornamentar ao diabo a hospedaria do coração, e o último estado deles
torna-se pior que o primeiro 2 Pe 2.10; Lc 11.24-26; Hb 10.26
Essa
a extensão em que o mistério da predestinação nos é revelado na palavra
de Deus. E se a isso nos restringirmos e atermos, deveras é doutrina útil,
salutar e confortadora; pois que mui poderosamente confirma o artigo de que
somos justificados e salvos sem qualquer obra e mérito nosso, exclusivamente de
graça, tão-só por causa de Cristo. Antes do tempo do mundo, antes de
existirmos, "antes da fundação do mundo”;
Ef 1.4 quando, naturalmente, nada de bom poderíamos ter feito, por graça, em
Cristo, para a salvação, "segundo o propósito de Deus" Rm 9.11; 2 Tm
1.9. Isso também derruba todas as opiniones
e doutrinas errôneas sobre os poderes de nossa vontade natural, porque em seu conselho
Deus resolveu e decretou, antes do tempo do mundo, que pelo poder de seu Santo
Espírito, mediante a palavra, ele mesmo quer criar e operar em nós
tudo
o que pertence à nossa conversão.
E
dessarte essa doutrina também dá o belo e glorioso consolo de que Deus se
interessou tão profundamente na conversão, justiça e salvação de cada cristão e
tamanha foi a respeito sua fidelidade de propósito, que, "antes da
fundação do mundo Ef 1.4" deliberou no tocante a isso e "em seu
propósito" 2Tm 1.9 determinou de que modo me levaria até lá e como nisso
me preservaria. Ainda, que ele quis acautelar minha salvação tão bem e
seguramente, que, porquanto pela fraqueza e impiedade da nossa carne facilmente
poderia escapar-nos das mãos, ou delas ser-nos arrancada e tomada pela astúcia
e poder do diabo e do mundo, a ordenou em seu eterno propósito, que não-pode
falhar ou ser subvertido, e a colocou, para resguardo, na mão onipotente de
nosso Salvador Jesus Cristo, da qual ninguém nos pode arrebatar Jo 10.28. Daí
também dizer Paulo Rm 8: Já que somos chamados segundo o propósito de Deus,
"quem nos separará do amor de Deus em Cristo?" Rm 8.28, 35
Proporciona
essa doutrina, outrossim, glorioso consolo em cruz e tenta-ções, a saber, que
Deus determinou e decretou, em seu conselho, antes do tempo do mundo, que vai
assistir-nos em todas as situações difíceis, conferir-nos paciência, dar-nos
conforto, suscitar esperança e prover desfecho que nos seja para salvação.
Também, conforme disso trata de maneira mui consoladora Paulo Rm 8, que Deus
ordenou em seu propósito, antes do tempo do mundo, através de que cruzes e
sofrimentos haveria de tornar cada qual de seus eleitos conforme "à imagem
de seu Filho” e que a cruz de cada um deve e tem de "cooperar para o
bem" dele, já que "são chamados segundo o propósito: de onde Paulo
inferiu como certo e indubitável que "nem tribulação, nem angústia, nem
morte, nem vida, etc. nos podem separar do amor de Deus em Cristo Jesus! Rm
8.28,29,35,39.
Esse
artigo igualmente dá glorioso testemunho de que a igreja de Deus existirá
e permanecerá contra todas "as portas do hades" Mt 16.18 Ensina,
outrossim, qual é a verdadeira igreja de Deus, a fim de não nos ofendermos com
o grande prestígio da igreja falsa Rm 9.8 ss; 30 ss
Desse
artigo também se tiram poderosas exortações e advertências, como:
"Desprezam o conselho de Deus contra si mesmos" Lc 7; "Porque
vos declaro que nenhum daqueles homens provará a minha ceia" Lc 14;
também: "Muitos são chamados, mas poucos escolhidos"; outrossim:
"Quem tem ouvidos para ouvir, ouça"; e: "Vede, pois, como ouvis:
Lc 7.30; Lc 14.24; Mt 20.16; 22.14; Lc 8.8; Lc 8.18. Assim se pode usar a doutrina
sobre esse artigo de maneira proveitosa, consoladora e salutar.
É
preciso distinguir, porém, com especial diligência, entre o que é expres-samente
revelado a esse respeito na palavra de Deus e o que não é revelado. Para além
daquilo de que até aqui falamos, e que no tocante a esse assunto foi revelado,
em Cristo, Deus ainda manteve em silêncio e oculto muitas coisas concernentes a
esse mistério, tendo-as reservado exclusivamente para a sua sabedoria e
conhecimento. Não devemos investigar essas coisas, nem devemos seguir nisso os
nossos pensamentos, nem tirar conclusões ou parafusar, senão que devemos
ater-nos à palavra revelada. Essa advertência é muitíssimo necessária.
Nossa
impertinente curiosidade sempre é muito mais desejosa de ocupar-se
com isso - porque não podemos harmonizá-lo, o que, demais, não temos ordem de
fazer - do que com aquilo que Deus nos revelou a respeito em sua palavra.
Destarte
não há dúvida de que antes do tempo do mundo Deus previu, exatíssima e
certissimamente, e ainda sabe, quem dentre os que são chamados crerá e quem
não!" Da mesma forma, quem dentre os convertidos vai perseverar e quem
não: quem, depois de cair, voltará, e quem vai endurecer-se. Assim Deus, sem
sombra de dúvida, também está consciente e é sabedor do número - quantos desses
haverá de cada lado. Como, porém, Deus reservou tal mistério para a sua
sabedoria, nada nos havendo revelado a respeito na palavra, muito menos
ordenado que o esquadrinhássemos com nossos pensamentos, havendo, ao revés,
obviado seriamente a semelhante empresa Rm 11.33 não devemos, com pensamentos
nossos, inferir, concluir, nem cismar nisso.!" mas devemos ater-nos a sua
palavra, à qual nos remete.
Sem
dúvida Deus também conhece e determinou para cada um tempo e hora
de sua vocação e conversão. Visto, porém, que tal não foi revelado a nós, temos
ordem de sempre instar com a palavra, encomendando, por outro lado, tempo e
hora a Deus At 1.7.
Da
mesma forma quando vemos que aqui Deus dá sua palavra, acolá não; tira-a desse
lugar, deixa-a naquele. Também, que um é endurecido, obcecado,
entregue a mente pervertida, outro, deveras na mesma culpa, volta a ser
convertido, etc. Paulo Rm 9.14 ss 11,22 ss nos fixa um limite definido quanto
ao até onde nos cabe ir nessas questões e em outras similares a elas. A saber:
que devemos, relativamente a um dos grupos, reconhecer o juízo de Deus. Pois
que se trata de bem merecidos castigos de pecados quando Deus em uma terra ou
povo castiga o desprezo a sua palavra de tal maneira, que o castigo se estende
também à posteridade, como se pode ver no caso dos judeus. Com o que sucede a
algumas terras e pessoas, Deus mostra aos seus a sua severidade, o que todos
nós bem teríamos
merecido, de que teríamos sido dignos e o que validos, desde que nos portamos
mal com relação à palavra de Deus e muitas vezes entristecemos gravemente o
Espírito Santo. A fim de que vivamos no temor de Deus e reconheçamos e louvemos
a bondade de Deus para conosco, sem mérito nosso e contrariamente ao que
merecemos, nós, a quem ele dá e preserva a sua palavra e a quem não endurece e
rejeita.
Pois,
já que nossa natureza, corrompida pelo pecado, é digna da ira e condenação
de Deus e delas ré, segue-se que Deus não nos deve nem palavra, nem Espírito,
nem graça, e quando, por graça, os dá, muitas vezes os repelimos e nos tornamos
indignos da vida eterna At 13.46. E este seu justo e bem merecido juízo
mostra-o em algumas terras, povos e pessoas, a fim de que nós, quando comparados
e nivelados com eles, aprendamos a tanto mais diligentemente reconhecer e
louvar a pura e imerecida graça de Deus nos "vasos de misericórdia Rm
9.23; 11.5.
Pois
não sucede injustiça aos que são castigados e recebem o "salário do pecado"
deles. Nos outros, porém, quando Deus dá e conserva sua palavra e por meio dela
os homens são iluminados, convertidos e preservados, Deus louva sua pura graça
e misericórdia, sem o mérito deles.
Quando
vamos até aqui nesse artigo, ficamos no caminho certo, confor- me está escrito
Os 13.9: "A tua ruína, ó Israel, é culpa tua; porém que haja socorro para
ti, isso é pura graça minha”
Com
referência àquilo, entretanto, que nessa discussão remonta excessivamente
o vôo, ameaçando transpor as balizas, é dedo na boca, a exemplo de Paulo, e
lembrar e dizer com ele: "Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?!
" Rm 9.20.
Que
nesse artigo não podemos nem devemos perscrutar e devassar tudo, no-lo
mostra o grande apóstolo Paulo, que, depois de muito argumentar sobre esse
artigo com base na palavra revelada de Deus, assim que chega ao ponto onde
mostra o que desse mistério Deus reservou para a sua sabedoria oculta, refreia
e corta o debate com estas palavras: "Ó profundidade da riqueza, tanto da
sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e
quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do
Senhor?" Rm 11.33,34. Isto é, fora e além do que nos revelou em sua
palavra.
Deve-se,
de acordo com isso, considerar essa eterna eleição de Deus em Cristo,
não fora de Cristo ou sem ele. Pois em Cristo, testifica o santo apóstolo
Paulo, fomos eleitos, "antes da fundação do mundo”,Ef 1.4 como está
escrito: "Ele nos amou no Amado”.Ef 1.6 Mas essa eleição é revelada do céu
pela palavra pregada, quando o Pai diz: "Este é o meu Filho amado, em quem
me comprazo: a ele ouvi Mt 17.5. E Cristo diz: "Vinde a mim todos os que
estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” Mt 11.28. E do Espírito
Santo diz Cristo: "Ele me glorificará" e há de lembrar-vos tudo
quanto eu vos disse. Jo 16.14. Assim a santa Trindade inteira, Deus Pai, Filho
e Espírito Santo, dirige todos os homens a Cristo como o livro da vida no qual
devem procurar a eleição eterna do PPois
desde a eternidade o Pai decretou que salvaria por Cristo os que haveria de
salvar, como ele mesmo diz: Jo 14.6 "Ninguém vem ao Pai senão por mim!' E
de novo: "Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo! Jo 10.9
Cristo, porém, como "Filho unigênito de Deus, que está no seio do Pai”. Jo
1.18 nos anunciou a vontade do Pai, e, conseqüen-temente, também nossa eterna
eleição para a vida eterna, ao dizer: "O reino de Deus está próximo;
arrependei-vos e crede no Evangelho.” Mc 1.15 Também diz: "De fato a vontade
de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer, tenha a vida eterna”.
Jo 6.40. E em outro lugar: "Deus amou ao mundo de tal maneira, etc”. Jo
3.16.
O
Pai quer que todos os homens ouçam essa proclamação e venham a Cristo.
E Cristo não os repele, conforme está escrito: "O que vem a mim, de modo nenhum
o lançarei fora”. Jo 6.37.
E
a fim de que possamos vir a Cristo, o Espirito Santo, pela audição da palavra,
opera a fé verdadeira, como testifica o Apóstolo ao dizer: E assim a fé vem do
ouvir a palavra de Deus, Rm 10.17 quando é pregada em sua genuinidade e pureza.
Por
isso o homem que quer ser salvo não deve fatigar ou atormentar a si mesmo
com pensamentos sobre o arcano conselho de Deus, quanto a saber se ele também
está eleito e ordenado para a vida eterna, pensamentos com que o abominável
Satanás costuma tentar e vexar corações piedosos. Devem, pelo contrário, ouvir
Cristo, que é o "livro da vida" e da eterna eleição divina de todos
os filhos de Deus para a vida eterna Fp 4.3; Ap 3.5; 20.15 Testifica ele a
todos os homens, sem distinção, querer Deus que venham a ele todos os homens
oprimidos e carregados de pecados, a fim de serem aliviados e salvos. Mt 11.28.
Segundo
esta sua doutrina, devem desistir de seus pecados, arrepender-se, crer em sua
promessa e confiar inteiramente nele. E visto sermos incapazes de fazer isso
com forças próprias, por nós mesmos, o Espírito Santo quer operar em nós
arrependimento e fé mediante a palavra e os sacramentos. E para que possamos
completá-lo, perseverar nisso e permanecer constantes, devemos invocar a graça
de Deus, que ele nos garantiu no santo batismo, e não duvidar de que no-Ia
dará, de acordo com sua promessa. Conforme assegurou, Lc 11.11-13. "Qual dentre vós é o pai que, se o filho
lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? ou se pedir um ovo lhe dará um escorpião?
Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto
mais o Pai celeste dará o Espírito àqueles que lho pedirem.”
E porquanto nos eleitos que se tornaram
crentes o Espírito Santo habita como
em seu templo, e não é ocioso neles, mas impele os filhos de Deus a que obedeçam
aos mandamentos divinos, da mesma forma os crentes não devem ser ociosos, muito
menos opor-se aos impulsos do Espírito de Deus, senão que devem exercitar-se em
todas as virtudes cristãs, em toda a piedade, modéstia, temperança, paciência e
amor fraterno, e procurar, com toda a diligência, "confirmar a sua vocação
e eleição”2Pe 1.10 a fim de duvidarem dela tanto menos, quanto mais
experimentarem dentro em si a virtude e o poder do Espírito. Pois o Espírito de
Deus testifica com o espírito dos eleitos que eles "são filhos de
Deus" Rm 8.16. E posto acabem vez que outra em tentação tão grave, a ponto
de lhes parecer que já não sentem força nenhuma do Espírito de Deus que neles
habita, e digam com Davi: "Eu disse na minha pressa: Estou excluído da tua
presença" SI 31.22, devem, contudo, a despeito do que em si mesmos experimentam,
dizer com Davi, nas palavras que imediatamente se seguem ibidem: "Não
obstante, ouviste a minha súplice voz, quando clamei por teu socorro”.
E
visto nossa eleição para a vida eterna fundar-se não em nossa piedade ou
virtude, mas apenas no mérito de Cristo e na vontade graciosa de seu Pai, que
não pode negar-se a si mesmo, por ser imutável em sua vontade e essência, por
isso, quando seus filhos se apartam da obediência e tropeçam, faz que sejam
revocados pela palavra ao arrependimento, e por ela o Espírito Santo quer ser
eficaz neles para a conversão. E quando tornam a voltar-se para ele em genuíno
arrependimento mediante fé verdadeira, ele sempre quer mostrar o velho coração
paterno a quantos temem sua palavra e de coração tornam a voltar-se para ele,
como está escrito: "Se um homem repudiar sua mulher, e ela o deixar e
tomar outro marido, porventura aquele tornará a ela? Não se poluiria com isso
de todo aquela terra? Ora, tu te prostituíste com muitos amantes; mas ainda
assim, torna para mim, diz o Senhor" Jr 3.1.
Correta
e verdadeira é a sentença Jo 6.44 de que ninguém vem a Cristo se o Pai não o
trouxer. O Pai, entretanto, não quer fazer isso sem meios, senão que ordenou
para esse fim sua palavra e sacramentos como meios ou instrumentos ordinários.
E não é vontade do Pai nem do Filho que o homem não ouça a pregação de sua
palavra ou a despreze e espere pela tração do Pai sem palavra e sacramento.
Pois o Pai deveras atrai com a força de seu Espírito Santo; contudo, segundo a
sua ordenação comum, pela audição de sua santa e divina palavra, como por uma
rede, com a qual os eleitos são arrancados às fauces do diabo. A ela deve
dirigir-se todo pobre pecador, ouvi-la com diligência e não duvidar da tração
do Pai, pois o Espírito Santo com seu poder quer estar na palavra e por meio
dela operar. E isso é o trazer do Pai.
A
razão, entretanto, por que nem todos os que a ouviram crêem, sofren- do, por
isso, condenação tanto maior, não é que Deus não lhes haja consentido a
salvação. Eles mesmos são culpados nisso, eles que ouviram a palavra não de
forma que aprendessem, mas unicamente para desprezar, blasfemar e profaná-la, e
resistiram ao Espírito Santo, que neles quis operar mediante a palavra, como no
tempo de Cristo sucedeu no caso dos fariseus e seus asseclas. Mt 23.26 ss; Lc
11.39 ss; Jo 7.48; 8.13; 9.16,41; 12.42.
Assim
o Apóstolo distingue com especial diligência entre a obra de Deus, que,
ele só faz vasos para honra, e a obra do diabo e do homem, o qual por instigação
do diabo, que não de Deus, a si mesmo fez vaso para desonra. Pois assim está
escrito Rm 9: Deus "suportou com muita longanimidade os vasos da ira,
preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas de
sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão”. Rm
9.22-24
Aqui,
portanto, O Apóstolo diz claramente que Deus "suportou com muita
longanimidade os vasos de ira”. Não diz que os fez vasos de ira. Pois se tal
houvera sido sua vontade, não teria necessidade de grande longanimidade. Quanto
a serem preparados para a perdição, disso é culpado o diabo e os homens, não
Deus.
Toda
preparação para a condenação vem do diabo e do homem, pelo pecado,
e de modo nenhum de Deus, que não quer que homem nenhum seja condenado. Como,
pois, prepararia ele mesmo o homem para a condenação? Pois, como Deus não é
causa do pecado, assim também não é causa do castigo, da condenação. A só causa
da condenação é o pecado, pois "o salário do pecado é a morte" Rm
6.23. E assim como Deus não quer o pecado, e não tem prazer no pecado, assim
também não quer a morte do pecador, e não tem prazer em sua condenação. Não
quer "que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento" 2
Pe 3.9 Como está escrito Ez 18.23; 33.11 "Tão certo como eu vivo, diz o
Senhor, Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta
do seu caminho, e viva! E São Paulo testifica em palavras límpidas que o poder
e a operação de Deus podem transformar os vasos
de
desonra em vasos de honra, ao escrever da seguinte maneira: "Assim, pois, se
alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado
e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra" 2 Tm 2.21.
Aquele que tem de purificar-se, deve ter sido impuro anteriormente, e, portanto,
vaso de desonra. Com respeito aos "vasos de misericórdia" diz claramente
que o próprio Senhor os "preparou para glória”. Rm 9.23 o que não diz no tocante
aos condenados, preparados não por Deus mas por si mesmos para vasos de
condenação. .
Também
é mister considerar-se diligentemente o que segue: quando Deus castiga pecado
com pecado, isto é, quando, por causa de sua subsequente segurança,
impenitência e pecados deliberados, castiga, posteriormente, com
endurecimento e obcecação, aos que haviam sido convertidos, isso não se deve
interpretar como se jamais houvera sido vontade comprazente de Deus que tais
pessoas chegassem ao conhecimento da verdade e fossem salvas. Ambas as coisas
são vontade revelada de Deus: primeira, que Deus quer receber na graça quantos
se arrependem e crêem em Cristo; segunda, que também quer castigar os que se
desviam voluntariosamente do santo mandamento, reentrançam-se na imundícia do
mundo 2 Pe 2.20, ornamentam o coração para o diabo Lc 11.24-26. e ultrajam o
Espírito Santo Hb 10.29 e, se persistirem nisso, quer que sejam endurecidos,
obcecados e eternamente condenados.
Por
conseguinte, também Faraó (a respeito do qual está escrito: Rm 9.17" Para isto
mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder, e para que o meu nome seja
anunciado por toda a terra") não pereceu porque Deus haja repugnado à salvação
dele, ou porque tenha sido sua comprazente vontade que ele fosse condenado e se
perdesse. Pois Deus "não quer que nenhum pereça, 2Pe 3.9 nem "tem prazer
na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho, e viva:
Ez 33.11
Agora,
no que toca ao fato de Deus haver endurecido o coração de Faraó, de tal modo
que Faraó continua a pecar, e quanto mais é admoestado, tanto
mais empedernido se torna, isso foi em castigo de seu pecado precedente e da
horrenda tirania que exerceu contra os filhos de Israel, de muitas e variadas maneiras,
desumanissimamente e contrariando as acusações do coração. E visto que Deus fez
que lhe fosse pregada a sua palavra e anunciada sua vontade e Faraó não
obstante se insurgiu voluntariosa e diretamente contra todas as exortações e
advertências, Deus retirou a mão dele, e assim o coração tornou-se endurecido e
incorrigível, e Deus nele executou seu juízo, pois que era réu de nada menos do
que do "inferno de fogo: Mt 5.22. E o Apóstolo aduz o exemplo de Faraó
para nenhum outro propósito senão o de com ele mostrar a justiça de Deus, que
ele manifesta nos impenitentes e nos desprezadores de sua palavra. De modo
nenhum, porém, quer Paulo significar que Deus se haja recusado a conceder a
salvação a Faraó, ou a qualquer outro ser humano, e em seu conselho secreto o
tenha ordenado à condenação eterna de modo que lhe fosse cortada qualquer
possibilidade de vir a ser salvo.
Essa
doutrina e explanação da eterna e salvífica eleição dos filhos eleitos de
Deus dá a Deus inteiramente a honra que lhe é devida, a saber, que ele nos salva
por pura misericórdia em Cristo, sem qualquer mérito nosso ou boas obras,
"segundo o propósito" de sua vontade, como está escrito Ef 1: "Predestinou-nos
para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cris-to, segundo o
beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu
gratuitamente no Amado”. Ef 1.5.6.11 (vide também) Rm.28
É
falso e errado, por isso, ensinar que não somente a misericórdia de Deus e o
mérito santíssimo de Cristo é a causa da eleição de Deus, mas que também há em
nós uma causa da eleição de Deus em virtude da qual Deus nos elegeu para a vida
eterna.
Pois
não só nos elegeu ele em Cristo antes de havermos praticado qual- quer ato bom,
senão mesmo antes de nascermos, Rm 9.11 na verdade, "antes da fundação do
mundo”. Ef 1.4 E, "para que o propósito de Deus segundo a eleição prevalecesse,
não por obras, mas por aquele que chama, foi-lhe dito: O mais velho será servo
do mais moço”. Rm 9.11,12 Cf. Gn 25.23 Como está escrito: "Amei a Jacó,
porém odie a Esaú" Rm 9.13; Gn 25.23; Ml 1.2,3
Além
disso, essa doutrina não dá motivo nem para pusilanimidade, nem para
uma vida impudente, dissoluta, quando se ensina aos homens que devem procurar a
eleição em Cristo e seu santo evangelho como o "livro da vida. Fp 4.3; Ap
3.5; 20.15 que não exclui nenhum pecador penitente, mas incita e chama todos os
pobres, sobrecarregados e perturbados pecadores ao arrependimento e
reconhecimento de seus pecados e à fé em Cristo, e promete o Espírito Santo
para mundificação e renovação. E assim essa doutrina dá o consolo mais firme
aos homens perturbados e aflitos: saberem que sua salvação não está posta em
suas mãos. Se estivesse, perdê-la-iam muito mais facilmente do que Adão e Eva
no Paraíso; na verdade, a toda hora e momento. Mas a salvação deles repousa na
graciosa eleição de Deus, que ele nos revelou em Cristo. Da mão desse
"ninguém nos arrebatará”.Jo 10.28; 2 Tm 2.19
Por
conseguinte, se alguém apresenta a doutrina da graciosa eleição de Deus
de modo que cristãos perturbados não se possam consolar nela, sendo, ao
contrário, levados por ela ao desespero, ou de feição que os impenitentes sejam
fortalecidos em sua voluntariosidade, então é indubitavelmente certo e verdadeiro
que aquela doutrina não está sendo ensinada segundo a palavra e vontade de
Deus, porém consoante a razão e a instigação do abominável diabo.
Pois,
como testifica o Apóstolo, "tudo quanto outrora foi escrito, para onosso
ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência, e pela consolação das Escrituras,
tenhamos esperança: Rm 15.4. Mas quando esse consolo e esperança nos são
debilitados ou inteiramente arrebatados pela Escritura, segue-se com certeza
que ela está sendo entendida e explanada contrariamente à vontade e ao sentido
do Espírito Santo.
Ficamos
nessa explicação simples, correta e útil, que tem firme e bom fundamento
na vontade revelada de Deus, fugimos e evitamos todas as questões e disputationes altas e sutis, e
rejeitamos e condenamos o que é contrário a essas explanações verdadeiras,
simples e úteis.
Esse
tanto concernente aos artigos controvertidos que já por muitos anos foram
discutidos pelos teólogos da Confissão de Augsburgo, nos quais alguns erraram e
pesadas controversiae, isto é,
polêmicas religiosas, surgiram.
Todos,
amigos e inimigos, claramente podem depreender de nossa explanação
que não é propósito nosso ceder algo da eterna e imutável verdade de Deus (nem
está em nosso poder fazê-lo) por amor da paz, da tranquili-dade e da unidade
temporais. E tal paz e concórdia nem teriam estabili-dade, por quanto adversam
a verdade e visam a suprimi-la. Muito menos ainda propendemos a enfeitar e
encobrir falsificação da doutrina pura e erros manifestos e condenados. A
unidade pela qual nutrimos cordial desejo e amor e que anelamos promover,
estando, de nossa parte, sinceramente dispostos a empenhar tudo o que estiver
em nós para fazê-la avançar, é, isto sim, aquela unidade que preserva incólume
a honra de Deus, nada renuncia da divina verdade do santo evangelho, coisa
nenhuma concede ao mínimo erro, conduz os pobres pecadores ao verdadeiro e
genuíno arrependimento, erige-os pela fé, avigora-os na nova obediência, e
destarte os justifica e lhes dá a eterna salvação pelo mérito de Cristo
somente, etc.
Do “Livro de concórdia” da
Igreja Evangélica Luterana do
Brasil

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