DA ETERNA PRESCIÊNCIA E ELEIÇÃO DE DEUS




DA ETERNA PRESCIÊNCIA E ELEIÇÃO DE DEUS

Da eleição eterna dos filhos de Deus ainda não ocorreu, entre os teólogos da Confissão de Augsburgo, nenhuma dissensão pública, escandalosa e amplamente difundida. Visto, porém, que esse artigo foi objeto de mui pesada controvérsia em outros lugares e que também entre os nossos houve alguma agitação a respeito, e considerando que, além disso, os teólogos nem sempre falaram nos mesmos termos, por isso, a fim de prevenir, com a graça de Deus, desunião e separação nesse ponto, futuramente, entre os nossos pósteros, quanto em nós estiver, quisemos inserir também aqui a explanação desse artigo, para que todos possam saber qual é nossa unânime doutrina, fé e confissão no que tange a esse artigo. Quando a doutrina desse artigo é proposta da palavra de Deus e segundo o padrão dessa, não se pode nem se deve havê-la por inútil ou desnecessária, muito menos por ofensiva e prejudicial, porque a Santa Escritura não menciona o artigo em apenas um lugar e de passagem, senão que dele trata e o incute cabalmente em muitos lugares. E também não se deve passar por alto ou rejeitar a doutrina da palavra de Deus por causa de abuso ou mal-entendido, senão que, exatamente para evitar todo abuso e mal entendido, devemos e temos de expor, fundamentados na Escritura, o sentido correto. E de acordo com isso, a suma e conteúdo singelos da doutrina sobre esse artigo consiste nos pontos que seguem.

Em primeiro lugar, deve notar-se cuidadosamente a diferença entre a eterna presciência de Deus e a eterna eleição de seus filhos para a vida eterna. Pois praescientia vel praevisio, isto é, que Deus vê e sabe tudo precedentemente, antes de acontecer, o que se chama de presciência de Deus, estende-se a todas as criaturas, boas e más. De antemão vê e sabe tudo o que é ou será, tudo quanto acontece ou acontecerá, seja bom ou mau, já que todas as coisas, passadas ou futuras, são manifestas e presentes para Deus, como está escrito Mt 10:29 "Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai: E SI 139:16 "Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda! Também Is 37:28 "Mas eu conheço o teu assentar, e o teu sair, e o teu entrar, e o teu furor contra mim:

 Todavia, a eterna eleição de Deus vel  praedestinatio, isto é, a divina preordenação para a salvação, não se estende aos piedosos e aos maus, senão apenas aos filhos de Deus, que foram eleitos e ordenados para a vida eterna "antes da fundação do mundo", como diz Paulo Ef 1 :4-5 Ele nos escolheu em Cristo Jesus e "nos ordenou para a adoção de filhos".

 A presciência (praescientia) de Deus precedentemente vê e conhece também o mal, não, porém, assim como se fosse da graciosa vontade de Deus que ele devesse acontecer; mas: aquilo que a vontade perversa e ímpia do diabo e dos homens se proporá fazer, e fará, e vai querer fazer, tudo isso Deus vê e sabe antecedentemente. E suapraescientia, isto é, presciência, também observa a ordem dela nos atos ou obras ímpias de sorte que Deus determina ao mal, que ele não quer, limite e medida, até onde deve ir e por quanto tempo deve durar, quando e como ele o quer obstaculizar e castigar. Pois o Senhor Deus governa a tudo isso de tal maneira, que tem de redundar em honra ao seu nome divino e salvação de seus eleitos, devendo os ímpios, por isso, ficar reduzidos a confusão.

O princípio e causa do mal, todavia, não é a presciência de Deus (pois Deus não cria e não opera o mal, e não lhe ajuda nem o promove), mas a ímpia e perversa vontade do diabo e dos homens, conforme está escrito: Os 13.9; Sl 5.4 "A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim a tua salvação: Também: "Pois tu não és Deus que se agrade com a iniqüidade"

A eterna eleição de Deus, porém, não só vê e sabe antecedentemente a salvação dos eleitos, mas, por graciosa vontade e beneplácito de Deus em Cristo Jesus, também é causa que cria, opera, ajuda e promove a nossa salvação e tudo o que a ela pertence. E nossa salvação está fundamentada nisso de maneira tal, que "as portas do inferno"?" nada podem contra ela, como está escrito: "Ninguém me arrebatará da mão as minhas ovelhas:' Jo 10.28 Também: "E creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna”. At 13.48

Essa eterna eleição ou ordenação de Deus para a vida eterna também não deve ser considerada no conselho secreto e inescrutável de Deus tão nuamente como se nada mais compreendesse, ou como se nada mais a ela pertencesse, e nada mais houvesse de ser considerado nela, senão isso que Deus previu quem e quantos deveriam ser salvos, quem e quantos deveriam ser condenados, ou que apenas passou em revista assim: Este deve ser salvo; aquele, não; este há de perseverar; aquele, não.

Pois disso muitos derivam e concebem pensamentos esquisitos, perigosos e perniciosos, que causam e fortalecem segurança e impenitência ou desalento e desespero, fazendo com que caiam em pensamentos pesados e digam: Já que Deus preordenou seus eleitos para a salvação "antes da fundação do mundo" Ef 1.4 e visto que sua presciência não pode falhar, e ninguém a pode impedir ou modificar Is 14.27, Rm 9.19, 11. segue-se que, se sou preordenado para a salvação, nada me pode prejudicar nisso, ainda que sem arrependimento pratique toda sorte de pecados e coisas vergonhosas, despreze palavra e sacramento, e não cogite de arrependimento, fé, oração ou piedade. Serei e tenho de ser salvo, pois a presciência de Deus tem de realizar-se. Se, porém, não sou predestinado, nada me ajuda, posto me atenha à palavra, me arrependa, creia, etc., pois não posso impedir ou modificar a presciência de Deus.

E tais pensamentos por certo que sobrevêm também a corações piedosos, conquanto pela graça de Deus têm arrependimento, fé e bom propósito. Chegam a pensar, especialmente quando reparam em sua fraqueza e no exemplo daqueles que não perseveraram, mas apostataram: Se não estás predestinado desde a eternidade para a salvação, tudo é inútil.

A essa fantasia e pensamento errôneo deve contrapor-se este fundamen- to claro, que é certo e não pode falhar: uma vez que "toda Escritura inspirada por Deus" se destina a servir não para segurança e impenitência, mas "para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça" 2 Tm 3,16 igualmente, visto que tudo na palavra de Deus nos foi prescrito não para que fôssemos com isso levados ao desespero, mas "a fim de que, pela paciência, e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança" Rm 15.4 por isso, sem sombra de dúvida, o entendimento são ou o uso correto da doutrina da eterna presciência de Deus de modo nenhum é que por ela se cause ou fortaleça impenitência ou desespero. Assim também a Escritura de outro modo não propõe essa doutrina senão de forma que por ela nos remete à palavra Ef 1,  1 Co 1, exorta-nos ao arrependimento 2 Tm 3, insta por vida piedosa Ef 1, Jo 15,  fortalece a fé e torna-nos certos de nossa salvação Ef.1.13; Co 1.21,30,31; Ef 1.15 ss; Jo 15.16,17,3,4, 10, 12; Ef 1.9,13,14; Jo 10.27-30; 2Ts 2.13-15.

Por conseguinte, se queremos pensar ou falar correta e proveitosamente da eterna eleição ou predestinação e ordenação dos filhos de Deus para a vida eterna, devemos acostumar-nos a não especular em torno da nua, secreta, oculta e inescrutável presciência de Deus, senão que devemos meditar o conselho, propósito e preordenação de Deus em Cristo Jesus (que é o genuíno e verdadeiro "livro da vida") Fp 4.3; Ap 3.5; 20.15 da forma como nos é revelado mediante a palavra, a saber, de modo que tomemos conjuntamente a doutrina inteira do propósito, conselho, vontade e ordenação de Deus concernente a nossa redenção, vocação, justificação e salvação, como Paulo trata e explica esse artigo Rm 8.28 ss; Ef 1.4, como também Cristo na parábola Mt 22.2-14, isto é, que Deus ordenou em seu propósito e conselho: 1. Que a raça humana verdadeiramente foi redimida e reconciliada com Deus por intermédio de Cristo, o qual por sua inocente obediência, paixão e morte mereceu para nós "a justiça que vale diante de Deus "Rm 1.17; 2Co 5.21 e a vida eterna. 2. Que esse mérito e benefícios de Cristo nos devem ser apresentados, oferecidos e distribuídos por intermédio de sua palavra e sacramentos. 3. Que quer ser eficaz e ativo em nós com seu Espírito Santo pela palavra, quando é pregada, ouvida e meditada, converter os corações a arre- pendimento verdadeiro e iluminá-los na fé verdadeira. 4. Que quer justificar e  receber, graciosamente, na adoção de filhos e na herança da vida eterna, todos os que em arrependimento genuíno recebem a Cristo mediante fé verdadeira. 5. Que também quer santificar no amor os assim justificados, como diz São Paulo  Ef1.4  6. Que, outrossim,  querprotegêlos, na grande fraqueza deles, contra o diabo, o mundo e a carne, governar e guiá-los nos caminhos dele, reerguê-los quando tropeçam, e confortar e preservá-los em cruz e tentação. 7. Que também quer fortalecer e multiplicar neles a boa obra que ele começou, e preservá-los até o fim, contanto que se atenham à palavra de Deus, orem diligentemente, permaneçam na bondade de Deus e usem com fidelidade os dons recebidos. 8. Que, finalmente, quer salvar e glorificar para sempre, na vida eterna, aos que elegeu, chamou e justificou.

Neste seu conselho, propósito e ordenação, Deus não só preparou a sal-
vação em geral, senão também graciosamente considerou e elegeu para a salvação as pessoas dos eleitos - cada qual e todas que devem ser salvas por Cristo, e também ordenou que da maneira que acabamos de mencionar ele quer, por sua graça, dons e operação, fazê-los chegar a isso, (à salvação eterna)  ajudar, promover, fortalecer e conservar.  

De acordo com a Escritura, tudo isso está compreendido na doutrina da eterna eleição de Deus para a adoção filial e a vida eterna, e deve ser entendido como abarcado por ela, jamais se devendo excluir ou omiti-lo quando se fala do propósito, presciência, eleição e ordenação de Deus para a salvação. E quando os pensamentos sobre esse artigo são formados assim segundo a Escritura, podemos, pela graça de Deus, nela orientar-nos com simplicidade.

Para mais ampla explicação e para uso salutar da doutrina da ordenação de Deus à salvação também é pertinente o que segue: desde que são salvos apenas os eleitos, "cujos nomes se encontram no livro da vida", Fp 4.3; Ap 20.15 como se pode saber, de onde e por meio de que se pode conhecer quais são os eleitos que podem e devem receber essa doutrina para consolo?

Disso não devemos julgar de acordo com nossa razão, nem segundo a lei ou por qualquer aparência exterior. Também não devemos atrever-nos a investigar o abismo secreto e oculto da predestinação divina, mas devemos atentar na vontade revelada de Deus. Pois ele nos revelou e "desvendou o mistério da sua vontade" e o manifestou por Cristo, para que fosse pregado Ef 1.9-10; 2 Tm 1.9-11.

Isso, porém, nos é revelado da maneira seguinte, como diz Paulo Rm 8.29-30: Aos que Deus de antemão conheceu, elegeu e preordenou, a esses também chamou. Ora, Deus não chama de maneira imediata, mas pela palavra, como de fato ordenou se pregassem arrependimento e perdão de pecados. Lc 24.47 No mesmo sentido testifica São Paulo 2Co 5.20 ao escrever: "De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, e Deus exorta por nosso intermédio: Reconciliai-vos com Deus" 2 Co 5. E os convidados que o rei quer nas bodas de seu filho ele os manda chamar pelos servos que envia Mt 22.2-14 alguns pela primeira hora, outros pela segunda, terceira, sexta, nona, e mesmo pela hora undécima Mt 20.1-16.

Se, portanto, queremos considerar nossa eleição eterna para salvação proveitosamente, temos de ater-nos, de todas as maneiras, rija e firmemente, ao fato de que, assim como se dá com a pregação do arrependimento, da mesma forma também a promessa do evangelho é universalis isto é, estende-se a todos os homens" Lc 24.47; Jo 3.16; Jo 1.29; Jo 6.51; 1 Jo 1.7; 2.2; Mt 11.28; Rm 11.32; 2Pe 3.9; Rm 10.12; Rm 3.22; Jo 6.40; Mc 16.5.  Por isso Cristo ordenou que se pregasse "em seu nome arrependimento e remissão de pecados a todas as nações". Porque Deus "amou ao mundo" e a ele deu o seu Filho Jo 3. Cristo carregou o pecado do mundo; deu a sua carne "pela vida do mundo" Jo 6; seu sangue "é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro" 1 Jo 1. Diz Cristo: "Vinde a mim todos os que estais sobrecarregados. e eu vos aliviarei" Mt 11. "Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos" Rm 11. "O Senhor não quer que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento" 2 Pe 3. "O mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam" Rm 10. A justiça "vem mediante a fé em Cristo para todos e sobre todos os que crêem" Rm 3. "Esta é a vontade do Pai": que todo aquele que crer em Cristo, tenha a vida eterna Jo 6. É por conseguinte, ordem de Cristo que a todos em comum a quem é pregado arrependimento, seja, outrossim, proposta essa promessa do evangelho Lc 24; Mc 16.

E a essa vocação de Deus, que é feita mediante a pregação da palavra,não a devemos considerar burla, (não julguemos que é simulada e falsa) mas saber que por meio dela Deus revela a sua vontade, a saber, que naqueles que dessa maneira chama, ele quer operar pela palavra!" de forma que possam ser iluminados, convertidos e salvos.

Pois a palavra pela qual somos chamados é ministério do Espírito'; ou mediante o qual o Espírito é dado 2 Co 3.8, e "poder de Deus" para a salvação Rm 1.16. E como o Espírito Santo quer ser eficaz pela palavra, fortalecer, dar poder e capacidade, é da vontade de Deus que aceitemos, creiamos e sigamos a palavra.

Por essa razão os eleitos são descritos assim Jo 10.27-28 "As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna: E Ef 1.11-13. Aqueles que "segundo o propósito" são predestinados para a "herança; esses ouvem o evangelho, crêem a Cristo, oram e agradecem, são santificados no amor, têm esperança, paciência e consolo sob a cruz Rm 8.25. E ainda que tudo isso seja muito fraco neles, têm, contudo, fome e sede de justiça Mt 5.6

Assim o Espírito de Deus dá aos eleitos "testemunho de que são filhos de
Deus, e quando não sabem orar como convém'; intercede por eles "com gemidos inexprimíveis" Rm 8.16-26.

Testifica outrossim a Santa Escritura que Deus, o qual nos chamou, é tão fiel que, quando "começou boa obra em nós”; há de conservá-la também até ao fim e completá-la, se nós mesmos não nos desviarmos dele, mas guardarmos firme até o fim a obra principiada, para o que ele prometeu sua graça 1 Co 1.8; Fp 1.6 ss; 2 Pe 3.9; Hb 3.14,6
Com essa vontade revelada de Deus é que devemos ocupar-nos, para que a sigamos e nela sejamos diligentes, porque o Espírito Santo confere graça, poder e capacidade por intermédio da palavra pela qual nos chama. Não devemos perscrutar o abismo da oculta presciência de Deus, como está escritos" em Lc 13, onde alguém pergunta: "Senhor, são poucos os que são salvos?" e Cristo responde: "Esforçai-vos por entrar pela porta estreita:' Lutero diz assim: "Segue a ordem na Epístola aos Romanos, ocupa-te primeiro com Cristo e seu evangelho, a fim de reconheceres o teu pecado e a graça dele, e em seguida lutares com o pecado, conforme Paulo ensina do primeiro capítulo ao oitavo. Depois, quando no oitavo capítulo entrares em tentação sob cruz e aflições, os capítulos nono, décimo e undécimo hão de ensinar-te quão consoladora é a predestinação" .

A causa, porém, de "muitos serem chamados, mas poucos escolhidos "Mt 20.16; 22.14 não é a vocação divina, que é feita por intermédio da palavra,
como se Deus dissesse: Exteriormente, por meio da palavra, deveras chamo ao meu reino a todos vós a quem proponho a minha palavra; no coração, porém, não penso em todos, mas apenas em alguns poucos. Pois é minha vontade que a maior parte daqueles que chamo pela palavra não sejam iluminados nem convertidos, senão que sejam e permaneçam condenados, ainda que pela palavra, na vocação, eu me declaro a eles de outra maneira. Hoc enim esset Deo contradictorias vo/untates affingere=" (Pois isso seria falsamente atribuir vontades contraditória a Deus) isto é, dessa maneira se ensinaria que Deus, que é a verdade eterna, dissente de si mesmo, quando, ao revés, Deus castiga também nos homens essa improbidade de declarar uma coisa e no coração pensar e tencionar outra SI 5.10.11; 12.3,4. Isso também nos tornaria de todo incerto e nulo o necessário e confortador fundamento que diariamente nos lembra e admoesta que somente da palavra de Deus, pela qual trata conosco e nos chama, devemos aprender e concluir qual é sua vontade a nosso respeito, e que devemos crer com firmeza e não duvidar o que ela nos assevera e promete.

Por essa razão Cristo faz que as promessas do evangelho não sejam propostas apenas de modo geral, porém pelos sacramentos. que anexou como selo à promessa, e com isso a confirma a cada crente individualmente.

Por isso também, como diz a Confissão de Augsburg no Artigo XI, retemos a confissão particular, e ensinamos ser mandamento divino que "creiamos nessa absolvição e tenhamos como certo que, quando cremos a palavra da absolvição, estamos reconciliados com Deus tão verdadeiramente como se tivéssemos ouvido uma voz do céu: conforme a Apologia" explica esse artigo. Inteiramente nos seria tirado esse consolo, senão devêssemos inferir da vocação que se realiza por intermédio da palavra e dos sacramentos qual a vontade de Deus para conosco.

Também nos seria subvertido e tirado o fundamento de que o Espírito Santo certamente quer estar presente com a palavra pregada, ouvida, meditada, e que mediante ela quer ser eficaz e operar. Por isso o sentido de modo nenhum é o que acima se referiu, a saber, que aqueles possam ser os eleitos, mesmo que desprezem a palavra de Deus, a repilam, blasfemem e persigam Mt 22.5,6; At 13.40,41.46 ou, quando a ouvem, endurecem o coração Hb 4, resistem ao Espírito Santo At 7, persistem em pecados sem arrependimento Lc 14, não crêem verdadeiramente em Cristo Mc 16, têm apenas aparência exterior de piedade Mt  7.2; 22”  ou buscam outros caminhos para a justiça e a salvação, fora de Cristo Hb 4.2,7; At 7.51; Lc 14.18,24; Mc 16.16; Mt 7.15; 22.12; Rm 9.31. Ao contrário, assim como Deus ordenou em seu conselho que o Espírito Santo chame, ilumine e converta pela palavra os eleitos, e que ele justificará e salvará a quantos aceitarem a Cristo mediante fé verdadeira, assim também decretou em seu conselho que vai endurecer, rejeitar e condenar aqueles que são chamados pela palavra, se repelem a palavra e resistem e perseveram em resistir ao Espírito Santo, o qual neles quer ser eficaz e quer operar pela palavra. E é dessa maneira que "muitos são chamados, mas poucos escolhidos Mt 20.16; 22.14"

Pois que poucos recebem a palavra e a seguem; a maioria rejeita a palavra e não quer vir para as bodas. Mt 22.5; Lc 14.18-20.


A causa de semelhante desprezo à palavra não é a presciência de Deus, mas a vontade perversa do homem, que repele ou perverte o meio e instrumento do Espírito Santo que Deus lhe oferece mediante o chamado e resiste ao Espírito Santo, que pela palavra quer ser eficaz e opera como diz Cristo: "Quantas vezes quis eu reunir-vos e vós não o quisestes!" Mt 23.37

Assim muitos "recebem a palavra com alegria”: mas depois "se desviam” Lc 8.13.  A causa, porém, não é que Deus não queira dar a graça da perseverança àqueles em quem "começou boa obra”: pois isso é contra São Paulo Fp 1.6. Mas a causa é: porque tornam a desviar-se voluntariosamente do santo preceito, entristecem e amarguram o Espírito Santo, reentrançam-se na imundície do mundo, voltam a ornamentar ao diabo a hospedaria do coração, e o último estado deles torna-se pior que o primeiro 2 Pe 2.10; Lc 11.24-26; Hb 10.26

Essa a extensão em que o mistério da predestinação nos é revelado na palavra de Deus. E se a isso nos restringirmos e atermos, deveras é doutrina útil, salutar e confortadora; pois que mui poderosamente confirma o artigo de que somos justificados e salvos sem qualquer obra e mérito nosso, exclusivamente de graça, tão-só por causa de Cristo. Antes do tempo do mundo, antes de existirmos, "antes da fundação do mundo; Ef 1.4 quando, naturalmente, nada de bom poderíamos ter feito, por graça, em Cristo, para a salvação, "segundo o propósito de Deus" Rm 9.11; 2 Tm 1.9. Isso também derruba todas as opiniones e doutrinas errôneas sobre os poderes de nossa vontade natural, porque em seu conselho Deus resolveu e decretou, antes do tempo do mundo, que pelo poder de seu Santo Espírito, mediante a palavra, ele mesmo quer criar e operar em nós
tudo o que pertence à nossa conversão.        

E dessarte essa doutrina também dá o belo e glorioso consolo de que Deus se interessou tão profundamente na conversão, justiça e salvação de cada cristão e tamanha foi a respeito sua fidelidade de propósito, que, "antes da fundação do mundo Ef 1.4" deliberou no tocante a isso e "em seu propósito" 2Tm 1.9 determinou de que modo me levaria até lá e como nisso me preservaria. Ainda, que ele quis acautelar minha salvação tão bem e seguramente, que, porquanto pela fraqueza e impiedade da nossa carne facilmente poderia escapar-nos das mãos, ou delas ser-nos arrancada e tomada pela astúcia e poder do diabo e do mundo, a ordenou em seu eterno propósito, que não-pode falhar ou ser subvertido, e a colocou, para resguardo, na mão onipotente de nosso Salvador Jesus Cristo, da qual ninguém nos pode arrebatar Jo 10.28. Daí também dizer Paulo Rm 8: Já que somos chamados segundo o propósito de Deus, "quem nos separará do amor de Deus em Cristo?"  Rm 8.28, 35

Proporciona essa doutrina, outrossim, glorioso consolo em cruz e tenta-ções, a saber, que Deus determinou e decretou, em seu conselho, antes do tempo do mundo, que vai assistir-nos em todas as situações difíceis, conferir-nos paciência, dar-nos conforto, suscitar esperança e prover desfecho que nos seja para salvação. Também, conforme disso trata de maneira mui consoladora Paulo Rm 8, que Deus ordenou em seu propósito, antes do tempo do mundo, através de que cruzes e sofrimentos haveria de tornar cada qual de seus eleitos conforme "à imagem de seu Filho” e que a cruz de cada um deve e tem de "cooperar para o bem" dele, já que "são chamados segundo o propósito: de onde Paulo inferiu como certo e indubitável que "nem tribulação, nem angústia, nem morte, nem vida, etc. nos podem separar do amor de Deus em Cristo Jesus! Rm 8.28,29,35,39.

Esse artigo igualmente dá glorioso testemunho de que a igreja de Deus existirá e permanecerá contra todas "as portas do hades" Mt 16.18 Ensina, outrossim, qual é a verdadeira igreja de Deus, a fim de não nos ofendermos com o grande prestígio da igreja falsa Rm 9.8 ss; 30 ss

Desse artigo também se tiram poderosas exortações e advertências, como: "Desprezam o conselho de Deus contra si mesmos" Lc 7; "Porque vos declaro que nenhum daqueles homens provará a minha ceia" Lc 14; também: "Muitos são chamados, mas poucos escolhidos"; outrossim: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça"; e: "Vede, pois, como ouvis: Lc 7.30; Lc 14.24; Mt 20.16; 22.14; Lc 8.8; Lc 8.18. Assim se pode usar a doutrina sobre esse artigo de maneira proveitosa, consoladora e salutar.

É preciso distinguir, porém, com especial diligência, entre o que é expres-samente revelado a esse respeito na palavra de Deus e o que não é revelado. Para além daquilo de que até aqui falamos, e que no tocante a esse assunto foi revelado, em Cristo, Deus ainda manteve em silêncio e oculto muitas coisas concernentes a esse mistério, tendo-as reservado exclusivamente para a sua sabedoria e conhecimento. Não devemos investigar essas coisas, nem devemos seguir nisso os nossos pensamentos, nem tirar conclusões ou parafusar, senão que devemos ater-nos à palavra revelada. Essa advertência é muitíssimo necessária.

Nossa impertinente curiosidade sempre é muito mais desejosa de ocupar-se com isso - porque não podemos harmonizá-lo, o que, demais, não temos ordem de fazer - do que com aquilo que Deus nos revelou a respeito em sua palavra.

Destarte não há dúvida de que antes do tempo do mundo Deus previu, exatíssima e certissimamente, e ainda sabe, quem dentre os que são chamados crerá e quem não!" Da mesma forma, quem dentre os convertidos vai perseverar e quem não: quem, depois de cair, voltará, e quem vai endurecer-se. Assim Deus, sem sombra de dúvida, também está consciente e é sabedor do número - quantos desses haverá de cada lado. Como, porém, Deus reservou tal mistério para a sua sabedoria, nada nos havendo revelado a respeito na palavra, muito menos ordenado que o esquadrinhássemos com nossos pensamentos, havendo, ao revés, obviado seriamente a semelhante empresa Rm 11.33 não devemos, com pensamentos nossos, inferir, concluir, nem cismar nisso.!" mas devemos ater-nos a sua palavra, à qual nos remete.

Sem dúvida Deus também conhece e determinou para cada um tempo e hora de sua vocação e conversão. Visto, porém, que tal não foi revelado a nós, temos ordem de sempre instar com a palavra, encomendando, por outro lado, tempo e hora a Deus At 1.7.

Da mesma forma quando vemos que aqui Deus dá sua palavra, acolá não; tira-a desse lugar, deixa-a naquele. Também, que um é endurecido, obcecado, entregue a mente pervertida, outro, deveras na mesma culpa, volta a ser convertido, etc. Paulo Rm 9.14 ss 11,22 ss nos fixa um limite definido quanto ao até onde nos cabe ir nessas questões e em outras similares a elas. A saber: que devemos, relativamente a um dos grupos, reconhecer o juízo de Deus. Pois que se trata de bem merecidos castigos de pecados quando Deus em uma terra ou povo castiga o desprezo a sua palavra de tal maneira, que o castigo se estende também à posteridade, como se pode ver no caso dos judeus. Com o que sucede a algumas terras e pessoas, Deus mostra aos seus a sua severidade, o que todos nós bem teríamos merecido, de que teríamos sido dignos e o que validos, desde que nos portamos mal com relação à palavra de Deus e muitas vezes entristecemos gravemente o Espírito Santo. A fim de que vivamos no temor de Deus e reconheçamos e louvemos a bondade de Deus para conosco, sem mérito nosso e contrariamente ao que merecemos, nós, a quem ele dá e preserva a sua palavra e a quem não endurece e rejeita.

Pois, já que nossa natureza, corrompida pelo pecado, é digna da ira e condenação de Deus e delas ré, segue-se que Deus não nos deve nem palavra, nem Espírito, nem graça, e quando, por graça, os dá, muitas vezes os repelimos e nos tornamos indignos da vida eterna At 13.46. E este seu justo e bem merecido juízo mostra-o em algumas terras, povos e pessoas, a fim de que nós, quando comparados e nivelados com eles, aprendamos a tanto mais diligentemente reconhecer e louvar a pura e imerecida graça de Deus nos "vasos de misericórdia Rm 9.23; 11.5.

Pois não sucede injustiça aos que são castigados e recebem o "salário do pecado" deles. Nos outros, porém, quando Deus dá e conserva sua palavra e por meio dela os homens são iluminados, convertidos e preservados, Deus louva sua pura graça e misericórdia, sem o mérito deles.

Quando vamos até aqui nesse artigo, ficamos no caminho certo, confor- me está escrito Os 13.9: "A tua ruína, ó Israel, é culpa tua; porém que haja socorro para ti, isso é pura graça minha”

Com referência àquilo, entretanto, que nessa discussão remonta excessivamente o vôo, ameaçando transpor as balizas, é dedo na boca, a exemplo de Paulo, e lembrar e dizer com ele: "Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! " Rm 9.20.

Que nesse artigo não podemos nem devemos perscrutar e devassar tudo, no-lo mostra o grande apóstolo Paulo, que, depois de muito argumentar sobre esse artigo com base na palavra revelada de Deus, assim que chega ao ponto onde mostra o que desse mistério Deus reservou para a sua sabedoria oculta, refreia e corta o debate com estas palavras: "Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor?" Rm 11.33,34. Isto é, fora e além do que nos revelou em sua palavra.

Deve-se, de acordo com isso, considerar essa eterna eleição de Deus em Cristo, não fora de Cristo ou sem ele. Pois em Cristo, testifica o santo apóstolo Paulo, fomos eleitos, "antes da fundação do mundo”,Ef 1.4 como está escrito: "Ele nos amou no Amado”.Ef 1.6 Mas essa eleição é revelada do céu pela palavra pregada, quando o Pai diz: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo: a ele ouvi Mt 17.5. E Cristo diz: "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” Mt 11.28. E do Espírito Santo diz Cristo: "Ele me glorificará" e há de lembrar-vos tudo quanto eu vos disse. Jo 16.14. Assim a santa Trindade inteira, Deus Pai, Filho e Espírito Santo, dirige todos os homens a Cristo como o livro da vida no qual devem procurar a eleição eterna do PPois desde a eternidade o Pai decretou que salvaria por Cristo os que haveria de salvar, como ele mesmo diz: Jo 14.6 "Ninguém vem ao Pai senão por mim!' E de novo: "Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo! Jo 10.9 Cristo, porém, como "Filho unigênito de Deus, que está no seio do Pai”. Jo 1.18 nos anunciou a vontade do Pai, e, conseqüen-temente, também nossa eterna eleição para a vida eterna, ao dizer: "O reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no Evangelho.” Mc 1.15 Também diz: "De fato a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer, tenha a vida eterna”. Jo 6.40. E em outro lugar: "Deus amou ao mundo de tal maneira, etc”. Jo 3.16.

O Pai quer que todos os homens ouçam essa proclamação e venham a Cristo. E Cristo não os repele, conforme está escrito: "O que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”. Jo 6.37.

E a fim de que possamos vir a Cristo, o Espirito Santo, pela audição da palavra, opera a fé verdadeira, como testifica o Apóstolo ao dizer: E assim a fé vem do ouvir a palavra de Deus, Rm 10.17 quando é pregada em sua genuinidade e pureza.

Por isso o homem que quer ser salvo não deve fatigar ou atormentar a si mesmo com pensamentos sobre o arcano conselho de Deus, quanto a saber se ele também está eleito e ordenado para a vida eterna, pensamentos com que o abominável Satanás costuma tentar e vexar corações piedosos. Devem, pelo contrário, ouvir Cristo, que é o "livro da vida" e da eterna eleição divina de todos os filhos de Deus para a vida eterna Fp 4.3; Ap 3.5; 20.15 Testifica ele a todos os homens, sem distinção, querer Deus que venham a ele todos os homens oprimidos e carregados de pecados, a fim de serem aliviados e salvos. Mt 11.28.

Segundo esta sua doutrina, devem desistir de seus pecados, arrepender-se, crer em sua promessa e confiar inteiramente nele. E visto sermos incapazes de fazer isso com forças próprias, por nós mesmos, o Espírito Santo quer operar em nós arrependimento e fé mediante a palavra e os sacramentos. E para que possamos completá-lo, perseverar nisso e permanecer constantes, devemos invocar a graça de Deus, que ele nos garantiu no santo batismo, e não duvidar de que no-Ia dará, de acordo com sua promessa. Conforme assegurou, Lc 11.11-13.  "Qual dentre vós é o pai que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? ou se pedir um ovo lhe dará um escorpião? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celeste dará o Espírito àqueles que lho pedirem.”

 E porquanto nos eleitos que se tornaram crentes o Espírito Santo habita como em seu templo, e não é ocioso neles, mas impele os filhos de Deus a que obedeçam aos mandamentos divinos, da mesma forma os crentes não devem ser ociosos, muito menos opor-se aos impulsos do Espírito de Deus, senão que devem exercitar-se em todas as virtudes cristãs, em toda a piedade, modéstia, temperança, paciência e amor fraterno, e procurar, com toda a diligência, "confirmar a sua vocação e eleição”2Pe 1.10 a fim de duvidarem dela tanto menos, quanto mais experimentarem dentro em si a virtude e o poder do Espírito. Pois o Espírito de Deus testifica com o espírito dos eleitos que eles "são filhos de Deus" Rm 8.16. E posto acabem vez que outra em tentação tão grave, a ponto de lhes parecer que já não sentem força nenhuma do Espírito de Deus que neles habita, e digam com Davi: "Eu disse na minha pressa: Estou excluído da tua presença" SI 31.22, devem, contudo, a despeito do que em si mesmos experimentam, dizer com Davi, nas palavras que imediatamente se seguem ibidem: "Não obstante, ouviste a minha súplice voz, quando clamei por teu socorro”.

E visto nossa eleição para a vida eterna fundar-se não em nossa piedade ou virtude, mas apenas no mérito de Cristo e na vontade graciosa de seu Pai, que não pode negar-se a si mesmo, por ser imutável em sua vontade e essência, por isso, quando seus filhos se apartam da obediência e tropeçam, faz que sejam revocados pela palavra ao arrependimento, e por ela o Espírito Santo quer ser eficaz neles para a conversão. E quando tornam a voltar-se para ele em genuíno arrependimento mediante fé verdadeira, ele sempre quer mostrar o velho coração paterno a quantos temem sua palavra e de coração tornam a voltar-se para ele, como está escrito: "Se um homem repudiar sua mulher, e ela o deixar e tomar outro marido, porventura aquele tornará a ela? Não se poluiria com isso de todo aquela terra? Ora, tu te prostituíste com muitos amantes; mas ainda assim, torna para mim, diz o Senhor" Jr 3.1.

Correta e verdadeira é a sentença Jo 6.44 de que ninguém vem a Cristo se o Pai não o trouxer. O Pai, entretanto, não quer fazer isso sem meios, senão que ordenou para esse fim sua palavra e sacramentos como meios ou instrumentos ordinários. E não é vontade do Pai nem do Filho que o homem não ouça a pregação de sua palavra ou a despreze e espere pela tração do Pai sem palavra e sacramento. Pois o Pai deveras atrai com a força de seu Espírito Santo; contudo, segundo a sua ordenação comum, pela audição de sua santa e divina palavra, como por uma rede, com a qual os eleitos são arrancados às fauces do diabo. A ela deve dirigir-se todo pobre pecador, ouvi-la com diligência e não duvidar da tração do Pai, pois o Espírito Santo com seu poder quer estar na palavra e por meio dela operar. E isso é o trazer do Pai.

A razão, entretanto, por que nem todos os que a ouviram crêem, sofren- do, por isso, condenação tanto maior, não é que Deus não lhes haja consentido a salvação. Eles mesmos são culpados nisso, eles que ouviram a palavra não de forma que aprendessem, mas unicamente para desprezar, blasfemar e profaná-la, e resistiram ao Espírito Santo, que neles quis operar mediante a palavra, como no tempo de Cristo sucedeu no caso dos fariseus e seus asseclas. Mt 23.26 ss; Lc 11.39 ss; Jo 7.48; 8.13; 9.16,41; 12.42.

Assim o Apóstolo distingue com especial diligência entre a obra de Deus, que, ele só faz vasos para honra, e a obra do diabo e do homem, o qual por instigação do diabo, que não de Deus, a si mesmo fez vaso para desonra. Pois assim está escrito Rm 9: Deus "suportou com muita longanimidade os vasos da ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas de sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão”. Rm 9.22-24

Aqui, portanto, O Apóstolo diz claramente que Deus "suportou com muita longanimidade os vasos de ira”. Não diz que os fez vasos de ira. Pois se tal houvera sido sua vontade, não teria necessidade de grande longanimidade. Quanto a serem preparados para a perdição, disso é culpado o diabo e os homens, não Deus.

Toda preparação para a condenação vem do diabo e do homem, pelo pecado, e de modo nenhum de Deus, que não quer que homem nenhum seja condenado. Como, pois, prepararia ele mesmo o homem para a condenação? Pois, como Deus não é causa do pecado, assim também não é causa do castigo, da condenação. A só causa da condenação é o pecado, pois "o salário do pecado é a morte" Rm 6.23. E assim como Deus não quer o pecado, e não tem prazer no pecado, assim também não quer a morte do pecador, e não tem prazer em sua condenação. Não quer "que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento" 2 Pe 3.9 Como está escrito Ez 18.23; 33.11 "Tão certo como eu vivo, diz o Senhor, Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho, e viva! E São Paulo testifica em palavras límpidas que o poder e a operação de Deus podem transformar os vasos
de desonra em vasos de honra, ao escrever da seguinte maneira: "Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra" 2 Tm 2.21. Aquele que tem de purificar-se, deve ter sido impuro anteriormente, e, portanto, vaso de desonra. Com respeito aos "vasos de misericórdia" diz claramente que o próprio Senhor os "preparou para glória”. Rm 9.23 o que não diz no tocante aos condenados, preparados não por Deus mas por si mesmos para vasos de condenação.             .

Também é mister considerar-se diligentemente o que segue: quando Deus castiga pecado com pecado, isto é, quando, por causa de sua subsequente segurança, impenitência e pecados deliberados, castiga, posteriormente, com endurecimento e obcecação, aos que haviam sido convertidos, isso não se deve interpretar como se jamais houvera sido vontade comprazente de Deus que tais pessoas chegassem ao conhecimento da verdade e fossem salvas. Ambas as coisas são vontade revelada de Deus: primeira, que Deus quer receber na graça quantos se arrependem e crêem em Cristo; segunda, que também quer castigar os que se desviam voluntariosamente do santo mandamento, reentrançam-se na imundícia do mundo 2 Pe 2.20, ornamentam o coração para o diabo Lc 11.24-26. e ultrajam o Espírito Santo Hb 10.29 e, se persistirem nisso, quer que sejam endurecidos, obcecados e eternamente condenados.

Por conseguinte, também Faraó (a respeito do qual está escrito: Rm 9.17" Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra") não pereceu porque Deus haja repugnado à salvação dele, ou porque tenha sido sua comprazente vontade que ele fosse condenado e se perdesse. Pois Deus "não quer que nenhum pereça, 2Pe 3.9 nem "tem prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho, e viva: Ez 33.11
             
Agora, no que toca ao fato de Deus haver endurecido o coração de Faraó, de tal modo que Faraó continua a pecar, e quanto mais é admoestado, tanto mais empedernido se torna, isso foi em castigo de seu pecado precedente e da horrenda tirania que exerceu contra os filhos de Israel, de muitas e variadas maneiras, desumanissimamente e contrariando as acusações do coração. E visto que Deus fez que lhe fosse pregada a sua palavra e anunciada sua vontade e Faraó não obstante se insurgiu voluntariosa e diretamente contra todas as exortações e advertências, Deus retirou a mão dele, e assim o coração tornou-se endurecido e incorrigível, e Deus nele executou seu juízo, pois que era réu de nada menos do que do "inferno de fogo: Mt 5.22. E o Apóstolo aduz o exemplo de Faraó para nenhum outro propósito senão o de com ele mostrar a justiça de Deus, que ele manifesta nos impenitentes e nos desprezadores de sua palavra. De modo nenhum, porém, quer Paulo significar que Deus se haja recusado a conceder a salvação a Faraó, ou a qualquer outro ser humano, e em seu conselho secreto o tenha ordenado à condenação eterna de modo que lhe fosse cortada qualquer possibilidade de vir a ser salvo.

Essa doutrina e explanação da eterna e salvífica eleição dos filhos eleitos de Deus dá a Deus inteiramente a honra que lhe é devida, a saber, que ele nos salva por pura misericórdia em Cristo, sem qualquer mérito nosso ou boas obras, "segundo o propósito" de sua vontade, como está escrito Ef 1: "Predestinou-nos para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cris-to, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado”. Ef 1.5.6.11 (vide também) Rm.28

É falso e errado, por isso, ensinar que não somente a misericórdia de Deus e o mérito santíssimo de Cristo é a causa da eleição de Deus, mas que também há em nós uma causa da eleição de Deus em virtude da qual Deus nos elegeu para a vida eterna.

Pois não só nos elegeu ele em Cristo antes de havermos praticado qual- quer ato bom, senão mesmo antes de nascermos, Rm 9.11 na verdade, "antes da fundação do mundo”. Ef 1.4 E, "para que o propósito de Deus segundo a eleição prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama, foi-lhe dito: O mais velho será servo do mais moço”. Rm 9.11,12 Cf. Gn 25.23 Como está escrito: "Amei a Jacó, porém odie a Esaú" Rm 9.13; Gn 25.23; Ml 1.2,3

Além disso, essa doutrina não dá motivo nem para pusilanimidade, nem para uma vida impudente, dissoluta, quando se ensina aos homens que devem procurar a eleição em Cristo e seu santo evangelho como o "livro da vida. Fp 4.3; Ap 3.5; 20.15 que não exclui nenhum pecador penitente, mas incita e chama todos os pobres, sobrecarregados e perturbados pecadores ao arrependimento e reconhecimento de seus pecados e à fé em Cristo, e promete o Espírito Santo para mundificação e renovação. E assim essa doutrina dá o consolo mais firme aos homens perturbados e aflitos: saberem que sua salvação não está posta em suas mãos. Se estivesse, perdê-la-iam muito mais facilmente do que Adão e Eva no Paraíso; na verdade, a toda hora e momento. Mas a salvação deles repousa na graciosa eleição de Deus, que ele nos revelou em Cristo. Da mão desse "ninguém nos arrebatará”.Jo 10.28; 2 Tm 2.19

Por conseguinte, se alguém apresenta a doutrina da graciosa eleição de Deus de modo que cristãos perturbados não se possam consolar nela, sendo, ao contrário, levados por ela ao desespero, ou de feição que os impenitentes sejam fortalecidos em sua voluntariosidade, então é indubitavelmente certo e verdadeiro que aquela doutrina não está sendo ensinada segundo a palavra e vontade de Deus, porém consoante a razão e a instigação do abominável diabo.

Pois, como testifica o Apóstolo, "tudo quanto outrora foi escrito, para onosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência, e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança: Rm 15.4. Mas quando esse consolo e esperança nos são debilitados ou inteiramente arrebatados pela Escritura, segue-se com certeza que ela está sendo entendida e explanada contrariamente à vontade e ao sentido do Espírito Santo.

Ficamos nessa explicação simples, correta e útil, que tem firme e bom fundamento na vontade revelada de Deus, fugimos e evitamos todas as questões e disputationes altas e sutis, e rejeitamos e condenamos o que é contrário a essas explanações verdadeiras, simples e úteis.

Esse tanto concernente aos artigos controvertidos que já por muitos anos foram discutidos pelos teólogos da Confissão de Augsburgo, nos quais alguns erraram e pesadas controversiae, isto é, polêmicas religiosas, surgiram.

Todos, amigos e inimigos, claramente podem depreender de nossa explanação que não é propósito nosso ceder algo da eterna e imutável verdade de Deus (nem está em nosso poder fazê-lo) por amor da paz, da tranquili-dade e da unidade temporais. E tal paz e concórdia nem teriam estabili-dade, por quanto adversam a verdade e visam a suprimi-la. Muito menos ainda propendemos a enfeitar e encobrir falsificação da doutrina pura e erros manifestos e condenados. A unidade pela qual nutrimos cordial desejo e amor e que anelamos promover, estando, de nossa parte, sinceramente dispostos a empenhar tudo o que estiver em nós para fazê-la avançar, é, isto sim, aquela unidade que preserva incólume a honra de Deus, nada renuncia da divina verdade do santo evangelho, coisa nenhuma concede ao mínimo erro, conduz os pobres pecadores ao verdadeiro e genuíno arrependimento, erige-os pela fé, avigora-os na nova obediência, e destarte os justifica e lhes dá a eterna salvação pelo mérito de Cristo somente, etc.


                             
                     Do “Livro de concórdia” da Igreja Evangélica Luterana do 
                                                                                                                  Brasil

                                         





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