DA LIBERDADE CRISTÃ
Alô!
Aos amigos cristãos, um abraço!
Nestes tempos de tanta confusão a respeito da fé, é tanto barulho, que muitos preferem manter-se à distância do tema. Por esta razão, haverão de considerar bem vindas estas palavras extraídas de importante obra literária, do pequeno grande livro de Martinho Lutero “Da Liberdade Cristã” que encontrou eco no coração do mundo ocidental até então e também para muitos de nós será uma grande surpresa e que também vão apreciar.
Disto estou certo!
Atenciosamente
Ildo Borges Fernandes
Aos amigos cristãos, um abraço!
Nestes tempos de tanta confusão a respeito da fé, é tanto barulho, que muitos preferem manter-se à distância do tema. Por esta razão, haverão de considerar bem vindas estas palavras extraídas de importante obra literária, do pequeno grande livro de Martinho Lutero “Da Liberdade Cristã” que encontrou eco no coração do mundo ocidental até então e também para muitos de nós será uma grande surpresa e que também vão apreciar.
Disto estou certo!
Atenciosamente
Ildo Borges Fernandes
DA LIBERDADE CRISTÃ
1
Para conhecermos a fundo o que seja um cristão e sabermos em que consiste a liberdade que Cristo lhe adquiriu e ofertou, de que São Paulo tanto escreve, quero frisar estas duas frases:
Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém.
Um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos.
Estas duas frases se encontram claramente em São Paulo, 1 Coríntios 9, 19: "Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos..." e adiante em Romanos 13, 8: "A ninguém fiqueis devendo cousa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros". O amor é, pois, serviçal e submete aquele em que está posto. Em Gálatas se diz de Cristo o mesmo: "Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei" (Gálatas 4, 4).
Para conhecermos a fundo o que seja um cristão e sabermos em que consiste a liberdade que Cristo lhe adquiriu e ofertou, de que São Paulo tanto escreve, quero frisar estas duas frases:
Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém.
Um cristão é servidor de todas as coisas e sujeito a todos.
Estas duas frases se encontram claramente em São Paulo, 1 Coríntios 9, 19: "Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos..." e adiante em Romanos 13, 8: "A ninguém fiqueis devendo cousa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros". O amor é, pois, serviçal e submete aquele em que está posto. Em Gálatas se diz de Cristo o mesmo: "Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei" (Gálatas 4, 4).
2
Para se poder entender ambas as afirmações entre si diretamente contraditórias, sobre a liberdade e a servidão, deveremos ter em conta que todo cristão possui uma natureza espiritual e outra corporal. Segundo a alma, se chama ao homem espiritual, novo e interior; segundo a carne e o sangue é chamado pessoa corporal, velha e exterior. A respeito desta diferença, também a Sagrada Escritura contém afirmações diretamente contraditórias no concernente à liberdade e à servidão a que me referi há pouco.
3
Examinamos, o homem interior, espiritual, para ver o que necessita para ser e poder chamar-se cristão, justo e livre. Uma coisa evidencia-se logo: nenhuma coisa externa, seja qual for, o torna justo ou livre; pois nem sua piedade ou justiça, nem sua liberdade, nem sua maldade e servidão são corporais ou externas. Que aproveita a alma se o corpo é livre, sadio e vigoroso, se come, bebe e vive à sua vontade? Ou que dano pode causar à alma se o corpo anda sujeito, enfermo, fraco, padecendo fome, sede e sofrimentos, contra a sua vontade? Nada disso atinge a alma, tanto para libertá-la ou escravizá-la, torná-la justa ou perversa.
Para se poder entender ambas as afirmações entre si diretamente contraditórias, sobre a liberdade e a servidão, deveremos ter em conta que todo cristão possui uma natureza espiritual e outra corporal. Segundo a alma, se chama ao homem espiritual, novo e interior; segundo a carne e o sangue é chamado pessoa corporal, velha e exterior. A respeito desta diferença, também a Sagrada Escritura contém afirmações diretamente contraditórias no concernente à liberdade e à servidão a que me referi há pouco.
3
Examinamos, o homem interior, espiritual, para ver o que necessita para ser e poder chamar-se cristão, justo e livre. Uma coisa evidencia-se logo: nenhuma coisa externa, seja qual for, o torna justo ou livre; pois nem sua piedade ou justiça, nem sua liberdade, nem sua maldade e servidão são corporais ou externas. Que aproveita a alma se o corpo é livre, sadio e vigoroso, se come, bebe e vive à sua vontade? Ou que dano pode causar à alma se o corpo anda sujeito, enfermo, fraco, padecendo fome, sede e sofrimentos, contra a sua vontade? Nada disso atinge a alma, tanto para libertá-la ou escravizá-la, torná-la justa ou perversa.
4
Nada vale para a alma se o corpo se cobre de vestes sagradas, como fazem os sacerdotes e outros religiosos. Nem tampouco se permanece em igrejas e outros lugares santificados. Nem se ocupa somente de coisas sagradas, nem se faz orações de boca, jejua, faz peregrinações e pratica tantas boas ações quanto seja possível. Algo completamente diferente há de ser o que concede à alma justiça ou retidão e liberdade: porque tudo o que ficou dito acima, obras e atos piedosos, também o homem mau, fingido e hipócrita pode conhecer e praticar. Aliás, assim fazem muitos hipócritas. Por outro lado, nada prejudica a alma se o corpo se cobre com vestimentas profanas e mora, come e bebe em lugar não santificado, não peregrina, nem reza, nem faz as obras que os hipócritas acima mencionados fazem.
Nada vale para a alma se o corpo se cobre de vestes sagradas, como fazem os sacerdotes e outros religiosos. Nem tampouco se permanece em igrejas e outros lugares santificados. Nem se ocupa somente de coisas sagradas, nem se faz orações de boca, jejua, faz peregrinações e pratica tantas boas ações quanto seja possível. Algo completamente diferente há de ser o que concede à alma justiça ou retidão e liberdade: porque tudo o que ficou dito acima, obras e atos piedosos, também o homem mau, fingido e hipócrita pode conhecer e praticar. Aliás, assim fazem muitos hipócritas. Por outro lado, nada prejudica a alma se o corpo se cobre com vestimentas profanas e mora, come e bebe em lugar não santificado, não peregrina, nem reza, nem faz as obras que os hipócritas acima mencionados fazem.
5
Nem no céu nem na terra existe para a alma outra coisa em que viver e ser justa, livre e cristã, que o Santo Evangelho, a Palavra de Deus, pregada por Cristo como Ele mesmo diz (João 11, 25): "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá"; e adiante em João 14, 6: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida." E adiante em Mateus 4, 4: "Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus".
Sabemos, então, que a alma pode prescindir de tudo, menos da Palavra de Deus. Fora disso
nada existe com que auxiliar a alma. Uma vez, porém, que esta possua a Palavra de Deus, de nada mais necessitará, pois na Palavra de Deus encontrará suficiente alimento, alegria, paz, luz, conhecimento, justiça, verdade, sabedoria, liberdade e toda sorte de bens em abundância. Assim lemos nos Salmos, especialmente no 119, que o profeta não clama por mais nada que pela Palavra de Deus; e na Escritura (Amós 8, 11) se considera o maior castigo e sinal da ira divina, se Deus retira dos homens a sua Palavra.
nada existe com que auxiliar a alma. Uma vez, porém, que esta possua a Palavra de Deus, de nada mais necessitará, pois na Palavra de Deus encontrará suficiente alimento, alegria, paz, luz, conhecimento, justiça, verdade, sabedoria, liberdade e toda sorte de bens em abundância. Assim lemos nos Salmos, especialmente no 119, que o profeta não clama por mais nada que pela Palavra de Deus; e na Escritura (Amós 8, 11) se considera o maior castigo e sinal da ira divina, se Deus retira dos homens a sua Palavra. Mas ao contrário, a maior graça de Deus se manifesta quando Ele envia sua Palavra, segundo lemos no Salmo 107: "Enviou a sua palavra e os curou; e os livrou da sua destruição". E Cristo não veio ao mundo com outro objetivo que pregar a Palavra de Deus. E com este exclusivo fim foram chamados e impostos em seus cargos todos os apóstolos, bispos, sacerdotes e eclesiásticos em geral. Ainda que infelizmente hoje não pareça.
Nem no céu nem na terra existe para a alma outra coisa em que viver e ser justa, livre e cristã, que o Santo Evangelho, a Palavra de Deus, pregada por Cristo como Ele mesmo diz (João 11, 25): "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá"; e adiante em João 14, 6: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida." E adiante em Mateus 4, 4: "Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus".
Sabemos, então, que a alma pode prescindir de tudo, menos da Palavra de Deus. Fora disso
nada existe com que auxiliar a alma. Uma vez, porém, que esta possua a Palavra de Deus, de nada mais necessitará, pois na Palavra de Deus encontrará suficiente alimento, alegria, paz, luz, conhecimento, justiça, verdade, sabedoria, liberdade e toda sorte de bens em abundância. Assim lemos nos Salmos, especialmente no 119, que o profeta não clama por mais nada que pela Palavra de Deus; e na Escritura (Amós 8, 11) se considera o maior castigo e sinal da ira divina, se Deus retira dos homens a sua Palavra.
nada existe com que auxiliar a alma. Uma vez, porém, que esta possua a Palavra de Deus, de nada mais necessitará, pois na Palavra de Deus encontrará suficiente alimento, alegria, paz, luz, conhecimento, justiça, verdade, sabedoria, liberdade e toda sorte de bens em abundância. Assim lemos nos Salmos, especialmente no 119, que o profeta não clama por mais nada que pela Palavra de Deus; e na Escritura (Amós 8, 11) se considera o maior castigo e sinal da ira divina, se Deus retira dos homens a sua Palavra. Mas ao contrário, a maior graça de Deus se manifesta quando Ele envia sua Palavra, segundo lemos no Salmo 107: "Enviou a sua palavra e os curou; e os livrou da sua destruição". E Cristo não veio ao mundo com outro objetivo que pregar a Palavra de Deus. E com este exclusivo fim foram chamados e impostos em seus cargos todos os apóstolos, bispos, sacerdotes e eclesiásticos em geral. Ainda que infelizmente hoje não pareça.
6
Se acaso perguntas: Que Palavra é essa que tão grande graça concede e como deverei usar de tal palavra? Eis a resposta: A Palavra não é outra coisa que a pregação de Cristo, segundo está contida no Evangelho; dita pregação há de ser - e o é realmente - de tal maneira que, ao ouvi-la, ouves a Deus falar contigo, dizendo-te que para Ele tua vida inteira e a totalidade de tuas obras nada valem e que te perderás eternamente com tudo quanto há em ti. Se assim crês realmente em tua culpa, perderás a confiança em ti mesmo e reconhecerás quão certa é a sentença do profeta Oséias 13, 9: "O Israel, em ti só há perdição, mas somente em mim está tua salvação".
Mas para que te seja possível sair de ti mesmo, isto é, de tua perdição, Deus te apresenta a seu amadíssimo Filho Jesus Cristo e com sua Palavra viva e consoladora te diz: - Entrega-te a Ele com fé inquebrantável e confia nele plenamente. Por essa fé te serão perdoados todos os pecados, serás salvo de tua perdição, serás justo, sincero, cheio de paz, reto e cumpridor de todos os mandamentos. E sobre tudo serás livre, como São Paulo diz (Romanos 1, 17): "O justo viverá por fé", e em Romanos 10, 4: "Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê".
Se acaso perguntas: Que Palavra é essa que tão grande graça concede e como deverei usar de tal palavra? Eis a resposta: A Palavra não é outra coisa que a pregação de Cristo, segundo está contida no Evangelho; dita pregação há de ser - e o é realmente - de tal maneira que, ao ouvi-la, ouves a Deus falar contigo, dizendo-te que para Ele tua vida inteira e a totalidade de tuas obras nada valem e que te perderás eternamente com tudo quanto há em ti. Se assim crês realmente em tua culpa, perderás a confiança em ti mesmo e reconhecerás quão certa é a sentença do profeta Oséias 13, 9: "O Israel, em ti só há perdição, mas somente em mim está tua salvação".
Mas para que te seja possível sair de ti mesmo, isto é, de tua perdição, Deus te apresenta a seu amadíssimo Filho Jesus Cristo e com sua Palavra viva e consoladora te diz: - Entrega-te a Ele com fé inquebrantável e confia nele plenamente. Por essa fé te serão perdoados todos os pecados, serás salvo de tua perdição, serás justo, sincero, cheio de paz, reto e cumpridor de todos os mandamentos. E sobre tudo serás livre, como São Paulo diz (Romanos 1, 17): "O justo viverá por fé", e em Romanos 10, 4: "Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê".
7
Logo, a única obra e única prática dos cristãos deveriam consistir no seguinte: gravar em seu ser a Palavra e Cristo, exercitar-se e fortalecer-se sem cessar nesta fé. Não existe outro caminho para o homem que aspire a ser cristão. Assim o indicou Cristo aos judeus quando estes o interrogaram acerca das obras cristãs que deveriam realizar, agradáveis a Deus. Cristo respondeu e disse-lhes: "A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que por ele foi enviado" (João 6, 28-29). Pois Deus enviou somente Cristo como objeto da fé.
Daí se conclui que a fé verdadeira em Cristo seja uma riqueza incalculável, pois traz consigo toda redenção e tira toda maldição, como está escrito em São Marcos 16, 16: "Quem crer e for batizado, será salvo; quem, porém, não crer, será condenado". Assim também reconheceu o profeta (lsaías 10, 22) a riqueza desta fé quando disse: - "Destruição será determinada, transbordante de justiça".
Ou seja, a fé, que encerra já em si o cumprimento de todos os mandamentos, justificará abundantemente a quem a possui, de maneira que nada mais será necessário para ser justo e justificado, como diz o apóstolo Paulo: "Porque com o coração se crê para justiça..." (Romanos 10, 10).
Logo, a única obra e única prática dos cristãos deveriam consistir no seguinte: gravar em seu ser a Palavra e Cristo, exercitar-se e fortalecer-se sem cessar nesta fé. Não existe outro caminho para o homem que aspire a ser cristão. Assim o indicou Cristo aos judeus quando estes o interrogaram acerca das obras cristãs que deveriam realizar, agradáveis a Deus. Cristo respondeu e disse-lhes: "A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que por ele foi enviado" (João 6, 28-29). Pois Deus enviou somente Cristo como objeto da fé.
Daí se conclui que a fé verdadeira em Cristo seja uma riqueza incalculável, pois traz consigo toda redenção e tira toda maldição, como está escrito em São Marcos 16, 16: "Quem crer e for batizado, será salvo; quem, porém, não crer, será condenado". Assim também reconheceu o profeta (lsaías 10, 22) a riqueza desta fé quando disse: - "Destruição será determinada, transbordante de justiça".
Ou seja, a fé, que encerra já em si o cumprimento de todos os mandamentos, justificará abundantemente a quem a possui, de maneira que nada mais será necessário para ser justo e justificado, como diz o apóstolo Paulo: "Porque com o coração se crê para justiça..." (Romanos 10, 10).
8
Mas como é que havendo a Sagrada Escritura prescrito tantas leis, mandamentos, obras e ritos, somente a fé pode justificar o homem sem necessidade de tudo aquilo, e mais ainda, pode conceder-lhe tais benefícios? A esse respeito dever-se-á ter bem em conta, sem esquecer nunca, que só a fé, sem obras, justifica, liberta e redime, como logo veremos. E por sua vez é preciso saber que em toda a Sagrada Escritura há duas classes de palavras: mandamentos ou lei de Deus e promessas. Os mandamentos nos indicam e ordenam toda classe de boas obras, mas com isso não estão já cumpridos: porque ensinam retamente, mas não auxiliam; instruem acerca do que é preciso fazer, mas não fornecem a força necessária para realizá-lo. Ou seja, os mandamentos foram promulgados unicamente para que o homem se convença por eles da impossibilidade de obrar bem, e aprenda a reconhecer-se e a desprezar-se a si mesmo. Por esta razão levam os mandamentos o nome de Antigo Testamento e pertencem todos ao Velho Testamento,como o mandamento que diz: "Não cobiçarás", demonstra que todos somos pecadores e que não há homem livre de concupiscência, nem capaz de desprender-se dela, por muito que se esforce. Aprende o homem, então, a desprezar a sua capacidade e buscar em outra parte o auxílio necessário para poder livrar-se da cobiça e cumprir assim o mandamento com ajuda alheia, porque com esforço próprio lhe é impossível. Bem assim se dá também com os outros mandamentos; não somos capazes de cumpri-los.
Mas como é que havendo a Sagrada Escritura prescrito tantas leis, mandamentos, obras e ritos, somente a fé pode justificar o homem sem necessidade de tudo aquilo, e mais ainda, pode conceder-lhe tais benefícios? A esse respeito dever-se-á ter bem em conta, sem esquecer nunca, que só a fé, sem obras, justifica, liberta e redime, como logo veremos. E por sua vez é preciso saber que em toda a Sagrada Escritura há duas classes de palavras: mandamentos ou lei de Deus e promessas. Os mandamentos nos indicam e ordenam toda classe de boas obras, mas com isso não estão já cumpridos: porque ensinam retamente, mas não auxiliam; instruem acerca do que é preciso fazer, mas não fornecem a força necessária para realizá-lo. Ou seja, os mandamentos foram promulgados unicamente para que o homem se convença por eles da impossibilidade de obrar bem, e aprenda a reconhecer-se e a desprezar-se a si mesmo. Por esta razão levam os mandamentos o nome de Antigo Testamento e pertencem todos ao Velho Testamento,como o mandamento que diz: "Não cobiçarás", demonstra que todos somos pecadores e que não há homem livre de concupiscência, nem capaz de desprender-se dela, por muito que se esforce. Aprende o homem, então, a desprezar a sua capacidade e buscar em outra parte o auxílio necessário para poder livrar-se da cobiça e cumprir assim o mandamento com ajuda alheia, porque com esforço próprio lhe é impossível. Bem assim se dá também com os outros mandamentos; não somos capazes de cumpri-los.
9
Uma vez que o homem tenha visto e reconhecido pelos mandamentos sua própria insuficiência, será acometido pelo temor, pensando como satisfazer as exigências da lei, já que é mister cumpri-la, sob pena de condenação; e sentir-se-á humilhado e aniquilado, sem encontrar em seu interior algo com que justificar-se. É então quando a outra palavra, a promessa divina, se chega e diz: Desejas cumprir os mandamentos e ver-te livre da cobiça má e do pecado, como os mandamentos exigem? Crê em Cristo, nEle te prometo graça, justificação, paz e liberdade plenas. Se crês, já possuis, mas se não crês, nada tens. Porque tudo aquilo que jamais conseguirias com as obras dos mandamentos, (que são muitas, sem que nenhuma valha) conseguirás facilmente por meio da fé. Pois na fé depositei diretamente todas as coisas, de maneira que quem tem fé, tudo tem e será salvo; mas quem não tem fé, nada possuirá. São, pois, as promessas de Deus que cumprem o que os mandamentos ordenam e dão o que eles exigem: Isso sucede assim, para que tudo seja de Deus, o mandamento e a promessa. Somente Deus ordena e somente Deus cumpre. Esta é a razão pela qual as promessas de Deus são a Palavra do Novo Testamento e estão contidas nele.
Uma vez que o homem tenha visto e reconhecido pelos mandamentos sua própria insuficiência, será acometido pelo temor, pensando como satisfazer as exigências da lei, já que é mister cumpri-la, sob pena de condenação; e sentir-se-á humilhado e aniquilado, sem encontrar em seu interior algo com que justificar-se. É então quando a outra palavra, a promessa divina, se chega e diz: Desejas cumprir os mandamentos e ver-te livre da cobiça má e do pecado, como os mandamentos exigem? Crê em Cristo, nEle te prometo graça, justificação, paz e liberdade plenas. Se crês, já possuis, mas se não crês, nada tens. Porque tudo aquilo que jamais conseguirias com as obras dos mandamentos, (que são muitas, sem que nenhuma valha) conseguirás facilmente por meio da fé. Pois na fé depositei diretamente todas as coisas, de maneira que quem tem fé, tudo tem e será salvo; mas quem não tem fé, nada possuirá. São, pois, as promessas de Deus que cumprem o que os mandamentos ordenam e dão o que eles exigem: Isso sucede assim, para que tudo seja de Deus, o mandamento e a promessa. Somente Deus ordena e somente Deus cumpre. Esta é a razão pela qual as promessas de Deus são a Palavra do Novo Testamento e estão contidas nele.
10
Essa palavra do Novo Testamento é, como as demais palavras divinas, santa, sincera, justa, pacífica, livre e plena de bondade. Portanto, a alma daquele que, com fé verdadeira, se atém à Palavra divina, unir-se-á à fé, de modo que também a alma se aposse de todas as virtudes da Palavra. Significa que pela fé a Palavra de Deus fará a alma santa, justa, sincera, pacífica, livre e plena de bondade, será, enfim, um verdadeiro filho de Deus, como diz João 1, 12: "Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome". Isto esclarece por que a fé é tão potente e por que não existem boas obras que possam igualar-se a ela. Nenhuma boa obra se atém à palavra divina como a fé, nem há boa obra alguma capaz de morar na alma, unicamente a palavra divina e a fé reinam na alma. Tal como é a palavra, assim se torna a alma à semelhança do ferro que unido ao fogo se torna vermelho incandescente, como o próprio fogo. Vemos assim que a fé é suficiente ao cristão, sem que precise obra alguma para ser justo. De onde se deduz que se não há necessidade de boa obra alguma, é porque também já está desligado de todo mandamento ou lei, e se está desligado disto, será por conseguinte livre.
Eis a liberdade cristã: na fé única que não nos converte em ociosos ou maldosos, antes, em homens que não necessitam obra alguma para obter a justificação e salvação. Adiante trataremos melhor este assunto.
Essa palavra do Novo Testamento é, como as demais palavras divinas, santa, sincera, justa, pacífica, livre e plena de bondade. Portanto, a alma daquele que, com fé verdadeira, se atém à Palavra divina, unir-se-á à fé, de modo que também a alma se aposse de todas as virtudes da Palavra. Significa que pela fé a Palavra de Deus fará a alma santa, justa, sincera, pacífica, livre e plena de bondade, será, enfim, um verdadeiro filho de Deus, como diz João 1, 12: "Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome". Isto esclarece por que a fé é tão potente e por que não existem boas obras que possam igualar-se a ela. Nenhuma boa obra se atém à palavra divina como a fé, nem há boa obra alguma capaz de morar na alma, unicamente a palavra divina e a fé reinam na alma. Tal como é a palavra, assim se torna a alma à semelhança do ferro que unido ao fogo se torna vermelho incandescente, como o próprio fogo. Vemos assim que a fé é suficiente ao cristão, sem que precise obra alguma para ser justo. De onde se deduz que se não há necessidade de boa obra alguma, é porque também já está desligado de todo mandamento ou lei, e se está desligado disto, será por conseguinte livre.
Eis a liberdade cristã: na fé única que não nos converte em ociosos ou maldosos, antes, em homens que não necessitam obra alguma para obter a justificação e salvação. Adiante trataremos melhor este assunto.
11
A fé também se assemelha a um homem que confia no outro e confia justamente pela razão de o outro ser justo e sincero. Nisto consiste a maior honra que um homem pode render a outro. E ao contrário, o maior escárnio é que um homem considere a seu semelhante como incoerente, mentiroso e superficial. Do mesmo modo, quando a alma crê firmemente na palavra de Deus, considera a Ele como sincero, pio e justo, rendendo-lhe assim toda a honra de que é capaz Em tanto respeita o direito divino, glorifica o nome de Deus e se entrega à sua vontade, dado que não duvida da justiça e sinceridade de todas as suas palavras. E ao contrário, a maior desonra que a Deus se pode fazer, é não crer nEle, coisa que sucede se a alma O considera incapaz, falaz e superficial, negando-O com tal incredulidade. Assim faz de seu próprio sentir um ídolo levantado em seu coração contra Deus, como se sua própria sabedoria pudesse superar à divina. Ao ver Deus que a alma reconhece a veracidade e a sinceridade e que o honra assim com sua fé, Ele por sua vez honra a alma e a considera justa e sincera. Por conseguinte, pela fé, a alma é realmente justa e sincera. Pois que o homem concede a Deus a veracidade e a sinceridade, isto é, justiça e veracidade. Faz justo e verídico porque é verdadeiro e justo que se conceda a Deus a veracidade. Isto não fazem aqueles que, em vez de crer, se esforçam na prática de muitas boas obras.
A fé também se assemelha a um homem que confia no outro e confia justamente pela razão de o outro ser justo e sincero. Nisto consiste a maior honra que um homem pode render a outro. E ao contrário, o maior escárnio é que um homem considere a seu semelhante como incoerente, mentiroso e superficial. Do mesmo modo, quando a alma crê firmemente na palavra de Deus, considera a Ele como sincero, pio e justo, rendendo-lhe assim toda a honra de que é capaz Em tanto respeita o direito divino, glorifica o nome de Deus e se entrega à sua vontade, dado que não duvida da justiça e sinceridade de todas as suas palavras. E ao contrário, a maior desonra que a Deus se pode fazer, é não crer nEle, coisa que sucede se a alma O considera incapaz, falaz e superficial, negando-O com tal incredulidade. Assim faz de seu próprio sentir um ídolo levantado em seu coração contra Deus, como se sua própria sabedoria pudesse superar à divina. Ao ver Deus que a alma reconhece a veracidade e a sinceridade e que o honra assim com sua fé, Ele por sua vez honra a alma e a considera justa e sincera. Por conseguinte, pela fé, a alma é realmente justa e sincera. Pois que o homem concede a Deus a veracidade e a sinceridade, isto é, justiça e veracidade. Faz justo e verídico porque é verdadeiro e justo que se conceda a Deus a veracidade. Isto não fazem aqueles que, em vez de crer, se esforçam na prática de muitas boas obras.
12
A fé não somente faz tanto que torna a alma livre, cheia de graças e santificada (conforme a palavra divina), mas também a mesma fé une a alma com Cristo, como a esposa se une com seu esposo. Deste casamento resulta, como diz São Paulo (Efésio 5, 30): Cristo e a alma se tomam um só corpo, de maneira tal, que tudo quanto ambos possuem, bens, felicidade, infelicidade, tudo, enfim, possuem-no em comum. O que Cristo tem pertence à alma crente, e o que a alma tem, pertencerá a Cristo. Ora, se Cristo é senhor de todos os bens e de toda bem-aventurança, a alma também apossar-se-á disso. Por sua vez, não dispõe a alma mais que de maldade e pecado, o que passa a ser propriedade de Cristo. Aqui surge, pois, a feliz modificação e discórdia: Cristo é Deus e homem, mas jamais cometeu pecado. Sua justiça é invencível, eterna e onipotente. Ao apropriar-se Cristo do pecado da alma crente em virtude do anel de bodas, isto é, por sua fé, é como se Cristo mesmo houvesse cometido o pecado; resulta daí que os pecados são absorvidos por Cristo e permanecem nele, pois não há pecado capaz de resistir à invencível justiça de Cristo. Deste modo a alma se vê limpa de todos os pecados, em virtude da aliança de bodas, ou seja, a alma é libertada pela fé e dotada com a justiça eterna de seu esposo, Jesus Cristo. Não é acaso um lar feliz, que Jesus Cristo, o noivo rico, nobre e justo, se case com uma insignificante rameira, pobre, desprezada e má, tirando-a desta forma de todo o mal e adornando-a com toda espécie de bens? Já não é mais possível que a alma seja condenada por seus pecados, uma vez que estes também são de Cristo, em quem pereceram. Desta forma, a alma dispõe de uma justiça tão superabundante por seu esposo, que é capaz de resistir contra todos os pecados, ainda que já tenha estado sobrecarregada deles. A esse respeito, diz o apóstolo Paulo (1 Coríntios 15, 57): “Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo.”
A fé não somente faz tanto que torna a alma livre, cheia de graças e santificada (conforme a palavra divina), mas também a mesma fé une a alma com Cristo, como a esposa se une com seu esposo. Deste casamento resulta, como diz São Paulo (Efésio 5, 30): Cristo e a alma se tomam um só corpo, de maneira tal, que tudo quanto ambos possuem, bens, felicidade, infelicidade, tudo, enfim, possuem-no em comum. O que Cristo tem pertence à alma crente, e o que a alma tem, pertencerá a Cristo. Ora, se Cristo é senhor de todos os bens e de toda bem-aventurança, a alma também apossar-se-á disso. Por sua vez, não dispõe a alma mais que de maldade e pecado, o que passa a ser propriedade de Cristo. Aqui surge, pois, a feliz modificação e discórdia: Cristo é Deus e homem, mas jamais cometeu pecado. Sua justiça é invencível, eterna e onipotente. Ao apropriar-se Cristo do pecado da alma crente em virtude do anel de bodas, isto é, por sua fé, é como se Cristo mesmo houvesse cometido o pecado; resulta daí que os pecados são absorvidos por Cristo e permanecem nele, pois não há pecado capaz de resistir à invencível justiça de Cristo. Deste modo a alma se vê limpa de todos os pecados, em virtude da aliança de bodas, ou seja, a alma é libertada pela fé e dotada com a justiça eterna de seu esposo, Jesus Cristo. Não é acaso um lar feliz, que Jesus Cristo, o noivo rico, nobre e justo, se case com uma insignificante rameira, pobre, desprezada e má, tirando-a desta forma de todo o mal e adornando-a com toda espécie de bens? Já não é mais possível que a alma seja condenada por seus pecados, uma vez que estes também são de Cristo, em quem pereceram. Desta forma, a alma dispõe de uma justiça tão superabundante por seu esposo, que é capaz de resistir contra todos os pecados, ainda que já tenha estado sobrecarregada deles. A esse respeito, diz o apóstolo Paulo (1 Coríntios 15, 57): “Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo.”
13
Compreenderás, agora, leitor, por que motivo se concede tal valor à fé, afirmando que cumpre os mandamentos e justifica, sem necessidade, de boas obras. Já foi visto como só a fé cumpre o primeiro mandamento, o qual ordena: "Honrarás ao Senhor teu Deus" (Êxodo 20, 2-4).
Ainda que te transformes todo em boas obras até aos pés, não serias justo, nem darias a Deus honra alguma com isso, ou seja, estarias deixando de cumprir o primeiro de todos os mandamentos. Só se pode, pois, honrar a Deus, reconhecendo que ele é a verdade e a suma de todas as bondades, como realmente é. Mas isto nunca fazem as boas obras, mas unicamente a fé do coração. Por isso a fé é a justiça do homem e o cumprimento dos mandamentos todos. Pois, quem cumpre o primeiro mandamento, cumprirá, certa e facilmente, os demais. As boas obras são, ao contrário, coisa morta, não podem louvar nem honrar a Deus, ainda quando praticadas em sua honra e louvor. Nós, porém, buscamos aqui aquele que não será realizado como as obras, mas que realiza as obras e honra a Deus, isto é, o próprio realizador, o mestre de obras que se chama a fé do coração e é a cabeça e o conteúdo da verdade. Por conseguinte, a doutrina que ensina a cumprir os mandamentos com obras, é uma doutrina tão perigosa como malvada, já que os mandamentos devem ser cumpridos pela fé antes que pelas obras, pois estas seguem a tal cumprimento, como em seguida veremos.
Compreenderás, agora, leitor, por que motivo se concede tal valor à fé, afirmando que cumpre os mandamentos e justifica, sem necessidade, de boas obras. Já foi visto como só a fé cumpre o primeiro mandamento, o qual ordena: "Honrarás ao Senhor teu Deus" (Êxodo 20, 2-4).
Ainda que te transformes todo em boas obras até aos pés, não serias justo, nem darias a Deus honra alguma com isso, ou seja, estarias deixando de cumprir o primeiro de todos os mandamentos. Só se pode, pois, honrar a Deus, reconhecendo que ele é a verdade e a suma de todas as bondades, como realmente é. Mas isto nunca fazem as boas obras, mas unicamente a fé do coração. Por isso a fé é a justiça do homem e o cumprimento dos mandamentos todos. Pois, quem cumpre o primeiro mandamento, cumprirá, certa e facilmente, os demais. As boas obras são, ao contrário, coisa morta, não podem louvar nem honrar a Deus, ainda quando praticadas em sua honra e louvor. Nós, porém, buscamos aqui aquele que não será realizado como as obras, mas que realiza as obras e honra a Deus, isto é, o próprio realizador, o mestre de obras que se chama a fé do coração e é a cabeça e o conteúdo da verdade. Por conseguinte, a doutrina que ensina a cumprir os mandamentos com obras, é uma doutrina tão perigosa como malvada, já que os mandamentos devem ser cumpridos pela fé antes que pelas obras, pois estas seguem a tal cumprimento, como em seguida veremos.
14
Para conhecer mais a fundo o que em Cristo possuímos e o bem tão grande que é ter uma fé verdadeira, devemos saber que, anteriormente ao Antigo Testamento e neste mesmo, Deus escolheu e reteve para si o primogênito viril de homens e animais (Exodo 13, 2). E a primeira criatura nascida era de valor precioso e levava vantagem sobre os outros em duas coisas: a soberania e a clerezia, ou, com outras palavras, o reino e o sacerdócio. Isto é, o menino que nascesse primeiro neste mundo era senhor de todos os irmãos e ao mesmo tempo sacerdote ou papa diante de Deus. Este sinal refere-se a Jesus Cristo, o qual é realmente o primogênito de Deus, do Pai, nascido da Virgem Maria. Por isso é ele rei e sacerdote, ainda que em sentido espiritual, pois que seu reino não é deste mundo, nem consiste em bens terrenos, mas puramente espirituais, como são a verdade, a sabedoria, a paz, a alegria, a bem-aventurança, etc. Contudo, não ficam tampouco excluídos os bens temporais, pois todas as coisas estão sujeitas a Cristo, tanto as do céu como as da terra e do inferno. Ainda que não vemos a Cristo, porque reina espiritual e invisivelmente. Mesmo assim o seu sacerdócio não consiste em atos exteriores ou em vestimentas atraentes, como sucede entre os homens, mas em um sacerdócio em espírito, invisível. Deste modo está Cristo diante de Deus, rogando sem cessar pelos seus, sacrificando-se a si mesmo, enfim, tudo o que corresponde a um sacerdote piedoso e justo. Ele roga por nós, diz o apóstolo São Paulo (Romanos 8, 34). Ao mesmo tempo nos instrui interiormente no coração. Ambos os ministérios, o rogar intercessor e o ensinamento, são próprios do sacerdote; pois também os sacerdotes humanos mortais rogam e ensinam do mesmo modo de forma exterior.
Para conhecer mais a fundo o que em Cristo possuímos e o bem tão grande que é ter uma fé verdadeira, devemos saber que, anteriormente ao Antigo Testamento e neste mesmo, Deus escolheu e reteve para si o primogênito viril de homens e animais (Exodo 13, 2). E a primeira criatura nascida era de valor precioso e levava vantagem sobre os outros em duas coisas: a soberania e a clerezia, ou, com outras palavras, o reino e o sacerdócio. Isto é, o menino que nascesse primeiro neste mundo era senhor de todos os irmãos e ao mesmo tempo sacerdote ou papa diante de Deus. Este sinal refere-se a Jesus Cristo, o qual é realmente o primogênito de Deus, do Pai, nascido da Virgem Maria. Por isso é ele rei e sacerdote, ainda que em sentido espiritual, pois que seu reino não é deste mundo, nem consiste em bens terrenos, mas puramente espirituais, como são a verdade, a sabedoria, a paz, a alegria, a bem-aventurança, etc. Contudo, não ficam tampouco excluídos os bens temporais, pois todas as coisas estão sujeitas a Cristo, tanto as do céu como as da terra e do inferno. Ainda que não vemos a Cristo, porque reina espiritual e invisivelmente. Mesmo assim o seu sacerdócio não consiste em atos exteriores ou em vestimentas atraentes, como sucede entre os homens, mas em um sacerdócio em espírito, invisível. Deste modo está Cristo diante de Deus, rogando sem cessar pelos seus, sacrificando-se a si mesmo, enfim, tudo o que corresponde a um sacerdote piedoso e justo. Ele roga por nós, diz o apóstolo São Paulo (Romanos 8, 34). Ao mesmo tempo nos instrui interiormente no coração. Ambos os ministérios, o rogar intercessor e o ensinamento, são próprios do sacerdote; pois também os sacerdotes humanos mortais rogam e ensinam do mesmo modo de forma exterior.
15
Cristo, de posse da primogenitura e toda a glória e dignidade que à mesma pertencem, faz com que todos os cristãos também participem dela, a fim de que, pela fé, sejam reis e sacerdotes como Cristo, tal como diz o apóstolo Pedro (1 Pedro 2, 9): "Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa..."Isso sucede, porque a fé eleva o cristão acima de todas as coisas, de maneira que se converta no soberano espiritual das mesmas, sem que nenhuma possa malograr sua salvação. Antes ao contrário, tudo permanece sujeito à sua soberania e tudo haverá de servi-lo para sua salvação, como ensina o apóstolo Paulo, em Romanos 8, 28: "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus..." Seja a vida ou a morte, o pecado ou a justiça, o bom ou o mau, ou chame-se como se queira. E adiante em 1 Coríntios 3, 21: "... ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso." Está claro que isto não significa que dominamos corporal ou materialmente todas as coisas, possuindo-as e fazendo uso delas como homens que somos. Pois todos nós teremos que morrer corporalmente, sem exceção. Também existem coisas às quais estamos submetidos, como o vemos em Cristo mesmo e seus santos. Trata-se de uma soberania espiritual, exercida dentro dos limites da opressão corporal. Isto significa que minha alma pode aperfeiçoar-se em todas as coisas, de maneira que ainda morte e o padecimento servir-me-ão e auxiliar-me-ão para minha salvação. Quão elevada e estupenda honra! Que soberania tão real e onipotente! Este é um reinado espiritual, onde nada existe tão bom ou tão mau que não me venha beneficiar, se tenho a fé, sem que de nada necessite, porque minha fé me basta. Vede, pois, que preciosa liberdade e poder é este dos cristãos.
Cristo, de posse da primogenitura e toda a glória e dignidade que à mesma pertencem, faz com que todos os cristãos também participem dela, a fim de que, pela fé, sejam reis e sacerdotes como Cristo, tal como diz o apóstolo Pedro (1 Pedro 2, 9): "Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa..."Isso sucede, porque a fé eleva o cristão acima de todas as coisas, de maneira que se converta no soberano espiritual das mesmas, sem que nenhuma possa malograr sua salvação. Antes ao contrário, tudo permanece sujeito à sua soberania e tudo haverá de servi-lo para sua salvação, como ensina o apóstolo Paulo, em Romanos 8, 28: "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus..." Seja a vida ou a morte, o pecado ou a justiça, o bom ou o mau, ou chame-se como se queira. E adiante em 1 Coríntios 3, 21: "... ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso." Está claro que isto não significa que dominamos corporal ou materialmente todas as coisas, possuindo-as e fazendo uso delas como homens que somos. Pois todos nós teremos que morrer corporalmente, sem exceção. Também existem coisas às quais estamos submetidos, como o vemos em Cristo mesmo e seus santos. Trata-se de uma soberania espiritual, exercida dentro dos limites da opressão corporal. Isto significa que minha alma pode aperfeiçoar-se em todas as coisas, de maneira que ainda morte e o padecimento servir-me-ão e auxiliar-me-ão para minha salvação. Quão elevada e estupenda honra! Que soberania tão real e onipotente! Este é um reinado espiritual, onde nada existe tão bom ou tão mau que não me venha beneficiar, se tenho a fé, sem que de nada necessite, porque minha fé me basta. Vede, pois, que preciosa liberdade e poder é este dos cristãos.
16
Além de tudo, somos também sacerdotes. Isto é muito mais que ser rei, porque o sacerdócio nos capacita para nos podermos apresentar diante de Deus, rogando pelos demais homens; pois somente aos sacerdotes compete, por direito próprio, estar perante Deus e rogar. A Cristo devemos este dom de interceder e suplicar em espírito uns pelos outros, à maneira do sacerdote que corporalmente intercede e roga ante Deus pelo povo. Porém, quem não crê em Cristo, nenhuma coisa pode beneficiá-lo. Mas pelo contrário, estará antes sujeito a todos como um servo e todos lhe serão motivo de aborrecimento. Nem sua oração alcançará o agrado de Deus, nem sequer chegará até Deus. Quem seria capaz de imaginar a grandeza e a honra de um cristão? Por seu reinado ou soberania, dispõe ele de todas as coisas; por seu sacerdócio, dispõe de Deus, pois Deus obra conforme ao rogo e desejo do cristão, como lemos em Salmo 145, 19: "Deus cumprirá o desejo dos que o temem; ouvirá o seu clamor e os salvará." Esta honra o cristão receberá só pela fé, jamais pelas obras. Do que ficou dito, percebe-se claramente que o cristão é livre de todas as coisas e soberano delas, sem que necessite, portanto, de boa obra alguma para ser justo e salvo.É a fé que dá de tudo em abundância. E se o homem fosse tão insensato de pensar em se tornar justo, livre, salvo ou cristão em virtude das boas obras, perderia sua fé e com ela tudo o mais tal qual o cão, que trazendo um pedaço de carne na boca, vendo-se refletido na água quis apanhar a carne refletida também. Perdeu, assim, a sua carne e mais a imagem refletida na água...
Além de tudo, somos também sacerdotes. Isto é muito mais que ser rei, porque o sacerdócio nos capacita para nos podermos apresentar diante de Deus, rogando pelos demais homens; pois somente aos sacerdotes compete, por direito próprio, estar perante Deus e rogar. A Cristo devemos este dom de interceder e suplicar em espírito uns pelos outros, à maneira do sacerdote que corporalmente intercede e roga ante Deus pelo povo. Porém, quem não crê em Cristo, nenhuma coisa pode beneficiá-lo. Mas pelo contrário, estará antes sujeito a todos como um servo e todos lhe serão motivo de aborrecimento. Nem sua oração alcançará o agrado de Deus, nem sequer chegará até Deus. Quem seria capaz de imaginar a grandeza e a honra de um cristão? Por seu reinado ou soberania, dispõe ele de todas as coisas; por seu sacerdócio, dispõe de Deus, pois Deus obra conforme ao rogo e desejo do cristão, como lemos em Salmo 145, 19: "Deus cumprirá o desejo dos que o temem; ouvirá o seu clamor e os salvará." Esta honra o cristão receberá só pela fé, jamais pelas obras. Do que ficou dito, percebe-se claramente que o cristão é livre de todas as coisas e soberano delas, sem que necessite, portanto, de boa obra alguma para ser justo e salvo.É a fé que dá de tudo em abundância. E se o homem fosse tão insensato de pensar em se tornar justo, livre, salvo ou cristão em virtude das boas obras, perderia sua fé e com ela tudo o mais tal qual o cão, que trazendo um pedaço de carne na boca, vendo-se refletido na água quis apanhar a carne refletida também. Perdeu, assim, a sua carne e mais a imagem refletida na água...
17
Pergunta: qual seria a diferença entre os sacerdotes e os leigos, na Cristandade, se todos nós somos sacerdotes? A resposta é: As palavras "sacerdote", "cura", "eclesiástico" e outras semelhantes, foram despojadas de seu verdadeiro sentido pelo povo ao serem aplicadas unicamente a um reduzido grupo de homens que se apartaram do povo e formaram o que agora conhecemos com o nome de "clero". Na Sagrada Escritura só se distingue entre cristãos, à medida que os sábios e consagrados só ao serviço da Igreja, recebem o nome de ministri, servi, e oeconomi, que significa: servidores, servos e administradores, cuja missão consiste em pregar aos demais membros da Igreja o Cristo e sobre a fé e a liberdade cristãs. Ainda que todos sejamos igualmente sacerdotes, nem todos podemos servir, administrar e pregar. Já disse São Paulo (1 Coríntios 4, 1): "...que os homens nos consideram como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus. "Mas eis que aquela administração se transformou em um domínio e poder tão mundano, ostensivo, forte e temível, que o verdadeiro poder temporal já não pode mais comparar-se com ele, como se leigos e cristãos fossem duas coisas distintas. É claro que com ele se tem despojado totalmente de seu sentido a graça, liberdade e a fé cristã, assim como também tudo aquilo que de Cristo recebemos, e até Cristo mesmo. Em troca nos foram dadas muitas leis e obras humanas, fazendo, assim, de nós, verdadeiros escravos das pessoas mais incapazes do mundo.
Pergunta: qual seria a diferença entre os sacerdotes e os leigos, na Cristandade, se todos nós somos sacerdotes? A resposta é: As palavras "sacerdote", "cura", "eclesiástico" e outras semelhantes, foram despojadas de seu verdadeiro sentido pelo povo ao serem aplicadas unicamente a um reduzido grupo de homens que se apartaram do povo e formaram o que agora conhecemos com o nome de "clero". Na Sagrada Escritura só se distingue entre cristãos, à medida que os sábios e consagrados só ao serviço da Igreja, recebem o nome de ministri, servi, e oeconomi, que significa: servidores, servos e administradores, cuja missão consiste em pregar aos demais membros da Igreja o Cristo e sobre a fé e a liberdade cristãs. Ainda que todos sejamos igualmente sacerdotes, nem todos podemos servir, administrar e pregar. Já disse São Paulo (1 Coríntios 4, 1): "...que os homens nos consideram como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus. "Mas eis que aquela administração se transformou em um domínio e poder tão mundano, ostensivo, forte e temível, que o verdadeiro poder temporal já não pode mais comparar-se com ele, como se leigos e cristãos fossem duas coisas distintas. É claro que com ele se tem despojado totalmente de seu sentido a graça, liberdade e a fé cristã, assim como também tudo aquilo que de Cristo recebemos, e até Cristo mesmo. Em troca nos foram dadas muitas leis e obras humanas, fazendo, assim, de nós, verdadeiros escravos das pessoas mais incapazes do mundo.
18
Podemos deduzir de tudo o que ficou dito, que não basta pregar superficialmente sobre a vida e a obra de Cristo, como se se tratasse de um mero fato histórico, e o que é ainda pior, calar-se sobre Cristo, para em seu lugar pregar o direito eclesiástico ou outras leis e doutrinas humanas. Também muitos há, que, ao pregar ou escrever sobre Cristo, se mostram cheios de compaixão para com Ele, mas de ódio contra os judeus, ou se entretêm, enfim, com diversas puerilidades. É pois necessário pregar a Cristo de tal forma que da pregação brote em ti e em mim a fé e que permaneça - a fé que só nasce e permanece, quando se nos prega a razão por que Cristo veio ao mundo, de que maneira poderemos nos valer dele e de seus benefícios, o que é que ele nos trouxe e deu. Pregar-se-á, deste modo, quando se interpreta devidamente a liberdade cristã, que recebemos de Cristo; quando se nos diz de que modo somos reis, e sacerdotes, e donos, e senhores de todas as coisas; que Deus se compraz em tudo quanto fazemos e nos atende, como venho afirmando. O coração que ouve isto de Cristo, regozijar-se-á profundamente, sentir-se-á consolado, tornar-se-á brando para com Cristo e lhe responderá com amor, todas estas coisas, enfim, às quais o coração jamais poderia chegar mediante o cumprimento das leis e obras. Então, que poderá danificar ou atemorizar um coração que assim sente? Se o pecado e a morte se aproximam, sua fé lhe diz que a justiça de Cristo é sua e que seus pecados tão pouco são seus, mas de Cristo. Assim o pecado se desvanece diante da justiça de Cristo pela fé, como antes foi dito, e o homem aprende a desafiar a morte e o pecado, aprende a dizer com o Apóstolo (1 Coríntios 15, 55-57): "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus que nos dá a vitória por intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo."
Podemos deduzir de tudo o que ficou dito, que não basta pregar superficialmente sobre a vida e a obra de Cristo, como se se tratasse de um mero fato histórico, e o que é ainda pior, calar-se sobre Cristo, para em seu lugar pregar o direito eclesiástico ou outras leis e doutrinas humanas. Também muitos há, que, ao pregar ou escrever sobre Cristo, se mostram cheios de compaixão para com Ele, mas de ódio contra os judeus, ou se entretêm, enfim, com diversas puerilidades. É pois necessário pregar a Cristo de tal forma que da pregação brote em ti e em mim a fé e que permaneça - a fé que só nasce e permanece, quando se nos prega a razão por que Cristo veio ao mundo, de que maneira poderemos nos valer dele e de seus benefícios, o que é que ele nos trouxe e deu. Pregar-se-á, deste modo, quando se interpreta devidamente a liberdade cristã, que recebemos de Cristo; quando se nos diz de que modo somos reis, e sacerdotes, e donos, e senhores de todas as coisas; que Deus se compraz em tudo quanto fazemos e nos atende, como venho afirmando. O coração que ouve isto de Cristo, regozijar-se-á profundamente, sentir-se-á consolado, tornar-se-á brando para com Cristo e lhe responderá com amor, todas estas coisas, enfim, às quais o coração jamais poderia chegar mediante o cumprimento das leis e obras. Então, que poderá danificar ou atemorizar um coração que assim sente? Se o pecado e a morte se aproximam, sua fé lhe diz que a justiça de Cristo é sua e que seus pecados tão pouco são seus, mas de Cristo. Assim o pecado se desvanece diante da justiça de Cristo pela fé, como antes foi dito, e o homem aprende a desafiar a morte e o pecado, aprende a dizer com o Apóstolo (1 Coríntios 15, 55-57): "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus que nos dá a vitória por intermédio de Nosso Senhor Jesus Cristo."
19
É já bastante o que até aqui foi exposto acerca do homem interior ou espiritual, de sua liberdade e de sua justificação essencial, para o qual ele não precisa lei ou boa obra alguma, ainda mais, seria prejudicial à justificação se quisesse alcançá-la mediante leis e obras. Passemos agora a tratar da parte referente ao homem externo ou corporal. Aqui responderemos a todos aqueles que, escandalizados com nossas afirmações, exclamam: Ah, se a fé é tudo e por si só bastante para a justificação, por que é que foram ordenadas as boas obras? Pois então vivamos a boa vida sem fazer nada! Não, meu caro, assim não. Seria assim se fosses apenas um ser espiritual e interior, coisa que não poderás ser antes do dia do juízo final. Neste mundo tudo é começo e crescimento. O fim será concluído no outro. Por isso é que o apóstolo fala de "primitias spiritus", ou seja, os primeiros frutos do espírito (Romanos 8, 23). Cabe também aqui aplicar o que antes se disse: O cristão é servidor de todas as coisas e está sujeito a todos. Isto significa que, sendo livre, nada precisa fazer; sendo servo, deve fazer muitas e diversas coisas. Vejamos como isso acontece.
É já bastante o que até aqui foi exposto acerca do homem interior ou espiritual, de sua liberdade e de sua justificação essencial, para o qual ele não precisa lei ou boa obra alguma, ainda mais, seria prejudicial à justificação se quisesse alcançá-la mediante leis e obras. Passemos agora a tratar da parte referente ao homem externo ou corporal. Aqui responderemos a todos aqueles que, escandalizados com nossas afirmações, exclamam: Ah, se a fé é tudo e por si só bastante para a justificação, por que é que foram ordenadas as boas obras? Pois então vivamos a boa vida sem fazer nada! Não, meu caro, assim não. Seria assim se fosses apenas um ser espiritual e interior, coisa que não poderás ser antes do dia do juízo final. Neste mundo tudo é começo e crescimento. O fim será concluído no outro. Por isso é que o apóstolo fala de "primitias spiritus", ou seja, os primeiros frutos do espírito (Romanos 8, 23). Cabe também aqui aplicar o que antes se disse: O cristão é servidor de todas as coisas e está sujeito a todos. Isto significa que, sendo livre, nada precisa fazer; sendo servo, deve fazer muitas e diversas coisas. Vejamos como isso acontece.
20
Ainda que o homem já esteja interiormente, isto é, no que respeita à sua alma, bastante justificado e de posse de tudo quanto necessita (ainda que sua fé e suficiência tenham que seguir até a outra vida), continua, contudo, na vida corporal e há de governar seu próprio corpo e conviver com seus semelhantes. Aí é que começam as obras. O homem, deixando de lado a ociosidade, está obrigado a guiar e disciplinar moderadamente o seu corpo com jejuns, vigílias e trabalho. E exercitando-se a fim de sujeitar-se e igualar-se ao homem interior e à fé, de modo que não seja impedido, nem faça oposição como acontece quando não se está obrigado. O homem interior está unido a Deus, feliz e alegre por Cristo que tanto fez por ele, e seu maior e único prazer é, por sua vez, servir a Deus com um amor desinteressado e voluntário. Mas o homem encontra em sua carne uma vontade rebelde, uma vontade inclinada a servir ao mundo, a buscar o que mais deleita. A fé, porém, não o pode suportar e se arroja ao pescoço, amorosa, para subjugá-lo e protegê-lo, como diz o apóstolo Paulo, (Romanos 7,22.23): "Porque no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado, que está nos meus membros." E adiante 1 Coríntios 9, 27: "Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado." E adiante ainda (Gálatas 5, 24): "E os que são de Cristo Jesus, crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências."
Ainda que o homem já esteja interiormente, isto é, no que respeita à sua alma, bastante justificado e de posse de tudo quanto necessita (ainda que sua fé e suficiência tenham que seguir até a outra vida), continua, contudo, na vida corporal e há de governar seu próprio corpo e conviver com seus semelhantes. Aí é que começam as obras. O homem, deixando de lado a ociosidade, está obrigado a guiar e disciplinar moderadamente o seu corpo com jejuns, vigílias e trabalho. E exercitando-se a fim de sujeitar-se e igualar-se ao homem interior e à fé, de modo que não seja impedido, nem faça oposição como acontece quando não se está obrigado. O homem interior está unido a Deus, feliz e alegre por Cristo que tanto fez por ele, e seu maior e único prazer é, por sua vez, servir a Deus com um amor desinteressado e voluntário. Mas o homem encontra em sua carne uma vontade rebelde, uma vontade inclinada a servir ao mundo, a buscar o que mais deleita. A fé, porém, não o pode suportar e se arroja ao pescoço, amorosa, para subjugá-lo e protegê-lo, como diz o apóstolo Paulo, (Romanos 7,22.23): "Porque no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado, que está nos meus membros." E adiante 1 Coríntios 9, 27: "Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado." E adiante ainda (Gálatas 5, 24): "E os que são de Cristo Jesus, crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências."
21
Mas ditas obras não se realizarão, pensando que por elas o homem se justifica ante Deus, pois tal pensamento é insuportável para a fé, a qual é e sempre será a única intenção de dominar o corpo e limpá-lo de suas más inclinações deleitosas, pondo em mira a sua derrota. Pelo fato de ser a alma purificada pela fé e amando a Deus, deseja que também tudo o mais seja puro, principalmente o próprio corpo, e que cada um, juntamente com ela, ame e louve a Deus. Por conseguinte, o homem obriga seu próprio corpo a não andar ocioso, mas ao contrário, haverá de realizar muitas boas obras para submetê-la. Porém, não são as obras o meio apropriado para aparecer corno crente e justo diante de Deus, mas que executarão com puro e livre amor, desinteressadamente, só para agradar a Deus, buscando e olhando, única e exclusivamente, o que agrada a Deus, à medida que se deseja cumprir sua vontade, o melhor possível. Regule assim, pois, cada qual a medida e modo para mortificar seu corpo. Pois ele jejua, vigia e trabalha tanto quanto necessita para abafar a altivez do corpo. Ora, aqueles que procuram a justifícação por meio de obras, não cuidam da disciplina e põem em mira apenas as obras, pensando que quanto mais numerosas e maiores sejam, tanto melhor para alcançar a justificação. Às vezes, perdem a cabeça e estragam a saúde. É, pois, urna grande tolice e erro da vida e da fé cristã, pretender ser justificado e salvo sem a fé, apenas com as obras.
Mas ditas obras não se realizarão, pensando que por elas o homem se justifica ante Deus, pois tal pensamento é insuportável para a fé, a qual é e sempre será a única intenção de dominar o corpo e limpá-lo de suas más inclinações deleitosas, pondo em mira a sua derrota. Pelo fato de ser a alma purificada pela fé e amando a Deus, deseja que também tudo o mais seja puro, principalmente o próprio corpo, e que cada um, juntamente com ela, ame e louve a Deus. Por conseguinte, o homem obriga seu próprio corpo a não andar ocioso, mas ao contrário, haverá de realizar muitas boas obras para submetê-la. Porém, não são as obras o meio apropriado para aparecer corno crente e justo diante de Deus, mas que executarão com puro e livre amor, desinteressadamente, só para agradar a Deus, buscando e olhando, única e exclusivamente, o que agrada a Deus, à medida que se deseja cumprir sua vontade, o melhor possível. Regule assim, pois, cada qual a medida e modo para mortificar seu corpo. Pois ele jejua, vigia e trabalha tanto quanto necessita para abafar a altivez do corpo. Ora, aqueles que procuram a justifícação por meio de obras, não cuidam da disciplina e põem em mira apenas as obras, pensando que quanto mais numerosas e maiores sejam, tanto melhor para alcançar a justificação. Às vezes, perdem a cabeça e estragam a saúde. É, pois, urna grande tolice e erro da vida e da fé cristã, pretender ser justificado e salvo sem a fé, apenas com as obras.
22
Usando de algumas comparações, diríamos: as obras do cristão (o qual por sua fé e pura graça de Deus é justificado e salvo gratuitamente) poderiam comparar-se com as que Adão e Eva haviam feito no paraíso, segundo está escrito em Gênesis: “E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para lavrá-lo e o guardar." Ora bem, Adão foi criado justo, bom e sem pecado. Por conseguinte, não era preciso o trabalho de guardar o paraíso para ser crente e justificado. Mas para que não andasse ocioso, Deus recomendou-lhe que zelasse e vigiasse o Éden. Adão fazia tais obras voluntariamente, apenas para agradar a Deus, e de modo algum para alcançar uma justificação que ele já possuía e com a qual todos nós poderíamos ter nascido. Pois bem, este é o caso das obras do homem crente, o qual por sua fé é posto de novo no paraíso e de novo criado. As obras que execute não serão necessárias para sua justificação, mas que lhe foram ordenadas com o objetivo de evitar sua ociosidade, obrigando-o a esforçar o corpo e cuidar dele exclusivamente para agradar a Deus. Outra comparação referente ao mesmo: Um bispo consagrado, quando abençoa um templo, confirma ou pratica qualquer outra obra inerente ao seu cargo, tais obras não fazem dele um bispo. E mais, se não se tratasse de um bispo já consagrado, nenhum daqueles atos teria valor, todas as suas obras seriam uma doidice. À semelhança do bispo, o cristão consagrado pela fé, ao realizar boas obras, estas não o tornam melhor cristão ou mais consagrado (coisa que sucede unicamente pelo crescimento da fé). Antes, porém, se não se tratasse de um crente e cristão, de nada valeriam suas obras, mas seriam pecados tolos, puníveis e condenáveis.
Usando de algumas comparações, diríamos: as obras do cristão (o qual por sua fé e pura graça de Deus é justificado e salvo gratuitamente) poderiam comparar-se com as que Adão e Eva haviam feito no paraíso, segundo está escrito em Gênesis: “E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para lavrá-lo e o guardar." Ora bem, Adão foi criado justo, bom e sem pecado. Por conseguinte, não era preciso o trabalho de guardar o paraíso para ser crente e justificado. Mas para que não andasse ocioso, Deus recomendou-lhe que zelasse e vigiasse o Éden. Adão fazia tais obras voluntariamente, apenas para agradar a Deus, e de modo algum para alcançar uma justificação que ele já possuía e com a qual todos nós poderíamos ter nascido. Pois bem, este é o caso das obras do homem crente, o qual por sua fé é posto de novo no paraíso e de novo criado. As obras que execute não serão necessárias para sua justificação, mas que lhe foram ordenadas com o objetivo de evitar sua ociosidade, obrigando-o a esforçar o corpo e cuidar dele exclusivamente para agradar a Deus. Outra comparação referente ao mesmo: Um bispo consagrado, quando abençoa um templo, confirma ou pratica qualquer outra obra inerente ao seu cargo, tais obras não fazem dele um bispo. E mais, se não se tratasse de um bispo já consagrado, nenhum daqueles atos teria valor, todas as suas obras seriam uma doidice. À semelhança do bispo, o cristão consagrado pela fé, ao realizar boas obras, estas não o tornam melhor cristão ou mais consagrado (coisa que sucede unicamente pelo crescimento da fé). Antes, porém, se não se tratasse de um crente e cristão, de nada valeriam suas obras, mas seriam pecados tolos, puníveis e condenáveis.
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Estas duas sentenças são, por conseguinte, certas: "As obras boas e piedosas jamais tornam o homem bom e justo, mas o homem bom e justo realiza obras boas e piedosas." "As más obras nunca tornam o homem mau, mas o homem mau executa más obras." Conclui-se disto que a pessoa deverá ser boa e justa já antes de realizar boas obras, ou seja, que ditas obras emanam da pessoa justa e boa, como diz Cristo (Mateus 7, 18): "Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons." Está claro, pois, que nem os frutos sustêm as árvores, nem as árvores crescem nos frutos, mas tudo ao contrário; as árvores sustêm os frutos e os frutos crescem nas árvores. Assim as árvores devem existir antes dos frutos. Estes não tornam a árvore boa ou má, porém a árvore faz o fruto bom ou mau. Assim também a pessoa será justa ou má antes de executar as obras boas ou más, de modo que suas obras não tornam bom ou mau o homem, mas sim, que ele mesmo é quem faz boas ou más obras. Algo semelhante podemos ver em todos os ofícios manuais; uma casa bem ou mal construída não faz o construtor bom ou mau, mas que este levantará uma casa boa ou má segundo ele mesmo seja apto ou inapto. Isto é, não há obra que faça seu mestre de obras tal como ela é,antes, ao contrário, tal qual seja o executor, assim será também sua obra. Idêntico é o caso das obras humanas, as quais serão boas ou más, segundo a fé ou a incredulidade do homem. Mas nunca ao contrário, pois da qualidade das obras nunca se poderá determinar se o homem é justo ou crente. As obras não fazem o homem crente, nem, tão pouco, o justificarão. A fé, que faz o homem justo, realizará boas obras. Ora, pois, se as obras a ninguém justificam, e que o homem há de ser já justo antes de realizá-las, fica claramente demonstrado que só a fé, por pura graça divina, em virtude de Cristo e sua palavra, justifica suficientemente o homem e o salva, sem que o cristão necessite de obra ou mandamento algum para alcançar sua salvação. Porque o cristão está desligado de todos os mandamentos e em uso de sua liberdade, tudo quanto faça, o fará voluntária e desinteressadamente, sem buscar nunca seu próprio proveito e sua própria salvação, mas unicamente para agradar a Deus. Pois já estará farto e santificado pela sua fé e graça divina.
Estas duas sentenças são, por conseguinte, certas: "As obras boas e piedosas jamais tornam o homem bom e justo, mas o homem bom e justo realiza obras boas e piedosas." "As más obras nunca tornam o homem mau, mas o homem mau executa más obras." Conclui-se disto que a pessoa deverá ser boa e justa já antes de realizar boas obras, ou seja, que ditas obras emanam da pessoa justa e boa, como diz Cristo (Mateus 7, 18): "Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons." Está claro, pois, que nem os frutos sustêm as árvores, nem as árvores crescem nos frutos, mas tudo ao contrário; as árvores sustêm os frutos e os frutos crescem nas árvores. Assim as árvores devem existir antes dos frutos. Estes não tornam a árvore boa ou má, porém a árvore faz o fruto bom ou mau. Assim também a pessoa será justa ou má antes de executar as obras boas ou más, de modo que suas obras não tornam bom ou mau o homem, mas sim, que ele mesmo é quem faz boas ou más obras. Algo semelhante podemos ver em todos os ofícios manuais; uma casa bem ou mal construída não faz o construtor bom ou mau, mas que este levantará uma casa boa ou má segundo ele mesmo seja apto ou inapto. Isto é, não há obra que faça seu mestre de obras tal como ela é,antes, ao contrário, tal qual seja o executor, assim será também sua obra. Idêntico é o caso das obras humanas, as quais serão boas ou más, segundo a fé ou a incredulidade do homem. Mas nunca ao contrário, pois da qualidade das obras nunca se poderá determinar se o homem é justo ou crente. As obras não fazem o homem crente, nem, tão pouco, o justificarão. A fé, que faz o homem justo, realizará boas obras. Ora, pois, se as obras a ninguém justificam, e que o homem há de ser já justo antes de realizá-las, fica claramente demonstrado que só a fé, por pura graça divina, em virtude de Cristo e sua palavra, justifica suficientemente o homem e o salva, sem que o cristão necessite de obra ou mandamento algum para alcançar sua salvação. Porque o cristão está desligado de todos os mandamentos e em uso de sua liberdade, tudo quanto faça, o fará voluntária e desinteressadamente, sem buscar nunca seu próprio proveito e sua própria salvação, mas unicamente para agradar a Deus. Pois já estará farto e santificado pela sua fé e graça divina.
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Ao inverso, quem não possui fé, nenhuma obra o ajudará para sua justificação e salvação. Além disso, não são más obras que possam fazer o homem mau e condená-lo, porém a incredulidade que perverte a pessoa e a árvore e executa as obras más e condenáveis. Pois o ser justo ou mau não procede das obras, mas, sim, da fé, como disse o sábio (Siraque 10, 14 apócrifo): "O princípio de todo o pecado é: afastar-se de Deus e não confiar nele." Também Cristo ensina que não devemos começar pelas obras, quando diz: "Ou fazei a árvore boa e seu fruto bom, ou fazei a árvore má e o seu fruto mau, porque pelo fruto se conhece a árvore", como querendo dizer: Quem quiser bons frutos, comece, pois, pela árvore, plantando-a devidamente. Por conseguinte, quem pretende realizar boas obras, não há de começar por elas, mas pela pessoa que há de executá-las. Mas para a pessoa, ninguém a tornará boa, senão a fé, e ninguém a tornará má, senão a incredulidade.Não é menos certo que as obras revelam o homem como mau ou justo perante seus semelhantes, isto é, pelas obras se conhece exteriormente se o homem é justo ou mau, como diz Cristo (Mateus 7, 20): "Portanto, pelos seus frutos os conhecereis." Mas isto tudo é apenas aparente e exterior, ainda que muitos se tenham deixado guiar por ele, e erram escrevendo e ensinando como se deve fazer as boas obras e como será possível ganhar a justificação. E assim esquecem completamente a fé. E vão pelo mundo, cegos guias de cegos, assim se torturam com muitas obras sem atingir jamais a justificação. Àqueles se refere São Paulo (2 Timóteo 3, 5): "Tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes... aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. "Quem, pois, não quiser vagar em companhia desses cegos, que olhe para além das obras, dos mandamentos e das doutrinas sobre as boas obras, para fixar toda a atenção na pessoa e no modo em que pode ser justificada. Certamente a pessoa não se justificará e salvará por meio de mandamentos e obras, mas pela palavra de Deus, isto é, pela promessa de sua graça e pela fé. Isto se dá assim, a fim de que a glória divina permaneça em todo seu esplendor. Mas Deus não nos redime por causa de nossas obras, mas sim por sua palavra misericordiosa, gratuitamente e por pura clemência.
Ao inverso, quem não possui fé, nenhuma obra o ajudará para sua justificação e salvação. Além disso, não são más obras que possam fazer o homem mau e condená-lo, porém a incredulidade que perverte a pessoa e a árvore e executa as obras más e condenáveis. Pois o ser justo ou mau não procede das obras, mas, sim, da fé, como disse o sábio (Siraque 10, 14 apócrifo): "O princípio de todo o pecado é: afastar-se de Deus e não confiar nele." Também Cristo ensina que não devemos começar pelas obras, quando diz: "Ou fazei a árvore boa e seu fruto bom, ou fazei a árvore má e o seu fruto mau, porque pelo fruto se conhece a árvore", como querendo dizer: Quem quiser bons frutos, comece, pois, pela árvore, plantando-a devidamente. Por conseguinte, quem pretende realizar boas obras, não há de começar por elas, mas pela pessoa que há de executá-las. Mas para a pessoa, ninguém a tornará boa, senão a fé, e ninguém a tornará má, senão a incredulidade.Não é menos certo que as obras revelam o homem como mau ou justo perante seus semelhantes, isto é, pelas obras se conhece exteriormente se o homem é justo ou mau, como diz Cristo (Mateus 7, 20): "Portanto, pelos seus frutos os conhecereis." Mas isto tudo é apenas aparente e exterior, ainda que muitos se tenham deixado guiar por ele, e erram escrevendo e ensinando como se deve fazer as boas obras e como será possível ganhar a justificação. E assim esquecem completamente a fé. E vão pelo mundo, cegos guias de cegos, assim se torturam com muitas obras sem atingir jamais a justificação. Àqueles se refere São Paulo (2 Timóteo 3, 5): "Tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes... aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. "Quem, pois, não quiser vagar em companhia desses cegos, que olhe para além das obras, dos mandamentos e das doutrinas sobre as boas obras, para fixar toda a atenção na pessoa e no modo em que pode ser justificada. Certamente a pessoa não se justificará e salvará por meio de mandamentos e obras, mas pela palavra de Deus, isto é, pela promessa de sua graça e pela fé. Isto se dá assim, a fim de que a glória divina permaneça em todo seu esplendor. Mas Deus não nos redime por causa de nossas obras, mas sim por sua palavra misericordiosa, gratuitamente e por pura clemência.
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Depois do que foi dito, não será difícil compreender em que sentido se deve desprezar ou aceitar as boas obras e de que modo dever-se-á entender toda doutrina acerca das mesmas. Aquelas doutrinas fundadas na opinião falsa e distorcida de que mediante boas obras seremos justificados e salvos, já são em si más e dignas de condenação; e o são porque desconhecem a liberdade e escarnecem da graça de Deus, a qual só justifica e salva pela fé, coisa impossível para as obras; e pretendendo-o, estas doutrinas, atacam a obra e a honra da graça. Não desprezamos as boas obras por serem tais, e sim por causa das más conseqüências e a errônea opinião que as acompanha, apresentando-as como boas quando em realidade não o são. Daí se conclui que tais doutrinas são enganosas em si e enganam ao homem, são como lobos rapaces, com pele de ovelha. Sem a fé não é possível destruir aquelas conseqüências e aquela falsa crença.
Onde não há fé, não é possível vencer essa conclusão errônea e interpretação perversa em relação às obras. Esta idéia persistirá no justo por obras até que venha a fé e a destrua. Porque a natureza humana não é capaz de expulsá-la, nem sequer reconhecê-la, antes ao contrário, para ela as boas obras são um tesouro, a salvação. E é isto o que já tem seduzido a tantos. Portanto, pode ser útil escrever e pregar sobre o arrependimento, a confissão e a satisfação. No entanto, se não se partir para a fé, serão doutrinas diabólicas e sedutoras. De nada vale pregar só uma parte, mas sim a palavra de Deus em suas duas partes. Preguem-se os mandamentos para intimidar os pecadores a manifestar-lhes os pecados, de modo que se arrependam e se convertam. Mas isto não basta. É preciso anunciar também a outra palavra, a promessa da graça, ensinando o que é a fé, sem a qual mandamentos, arrependimento e tudo o mais será em vão.
Existem, contudo, alguns pregadores que anunciam o arrependimento dos pecados e a graça divina, mas não acentuam os mandamentos e as promessas de Deus, como para poder aprender de onde e como vem o arrependimento e a graça. Porque o arrependimento emana dos mandamentos, e a fé, das promessas de Deus, e deste modo o homem que, atemorizado diante dos mandamentos divinos, se tem humilhado e reconhecido seu verdadeiro estado, é justificado e elevado por sua fé nas palavras divinas.
Depois do que foi dito, não será difícil compreender em que sentido se deve desprezar ou aceitar as boas obras e de que modo dever-se-á entender toda doutrina acerca das mesmas. Aquelas doutrinas fundadas na opinião falsa e distorcida de que mediante boas obras seremos justificados e salvos, já são em si más e dignas de condenação; e o são porque desconhecem a liberdade e escarnecem da graça de Deus, a qual só justifica e salva pela fé, coisa impossível para as obras; e pretendendo-o, estas doutrinas, atacam a obra e a honra da graça. Não desprezamos as boas obras por serem tais, e sim por causa das más conseqüências e a errônea opinião que as acompanha, apresentando-as como boas quando em realidade não o são. Daí se conclui que tais doutrinas são enganosas em si e enganam ao homem, são como lobos rapaces, com pele de ovelha. Sem a fé não é possível destruir aquelas conseqüências e aquela falsa crença.
Onde não há fé, não é possível vencer essa conclusão errônea e interpretação perversa em relação às obras. Esta idéia persistirá no justo por obras até que venha a fé e a destrua. Porque a natureza humana não é capaz de expulsá-la, nem sequer reconhecê-la, antes ao contrário, para ela as boas obras são um tesouro, a salvação. E é isto o que já tem seduzido a tantos. Portanto, pode ser útil escrever e pregar sobre o arrependimento, a confissão e a satisfação. No entanto, se não se partir para a fé, serão doutrinas diabólicas e sedutoras. De nada vale pregar só uma parte, mas sim a palavra de Deus em suas duas partes. Preguem-se os mandamentos para intimidar os pecadores a manifestar-lhes os pecados, de modo que se arrependam e se convertam. Mas isto não basta. É preciso anunciar também a outra palavra, a promessa da graça, ensinando o que é a fé, sem a qual mandamentos, arrependimento e tudo o mais será em vão.
Existem, contudo, alguns pregadores que anunciam o arrependimento dos pecados e a graça divina, mas não acentuam os mandamentos e as promessas de Deus, como para poder aprender de onde e como vem o arrependimento e a graça. Porque o arrependimento emana dos mandamentos, e a fé, das promessas de Deus, e deste modo o homem que, atemorizado diante dos mandamentos divinos, se tem humilhado e reconhecido seu verdadeiro estado, é justificado e elevado por sua fé nas palavras divinas.
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Já é suficiente, com o que ficou dito a respeito das obras em geral e daquelas que o cristão realizará para dominar seu próprio corpo. Trataremos agora das obras que o homem haverá de praticar entre os seus semelhantes: porque o homem não vive somente com e para seu próprio corpo, mas sim também com os demais homens. Esta é a razão pela qual o homem não pode prescindir das obras no trato com seus semelhantes; antes bem, há de falar e tratar com eles, ainda que ditas obras em nada contribuam para sua própria justificação e salvação. Logo, ao realizar tais obras, terá sua mira posta só em servir e ser útil aos demais, sem pensar em outra coisa que nas necessidades daqueles a cujo serviço deseja colocar-se. Este modo de obrar para com os demais é a verdadeira vida do cristão, e a fé atuará com amor e satisfação, como ensina São Paulo aos Gálatas 5, 6. E também aos Filipenses (2, 1 em diante) aos quais ensinara que com a fé em Cristo já possuíam a graça e suficiência e acrescentara: "Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há entranhados afetos e misericórdias, completai a minha alegria de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento. Nada façais por partidarismo, ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo."
Com estas palavras, descreve o Apóstolo simples e claramente a vida cristã, uma vida na qual todas as obras atendam ao bem do próximo, já que cada qual possui, com sua fé, tudo quanto para si mesmo precisa e ainda lhe sobram obras e vida suficientes para servir ao próximo com amor desinteressado. O Apóstolo apresentaa Cristo como exemplo, dizendo (Filipenses 2, 5em diante): "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus. Antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana."
Já é suficiente, com o que ficou dito a respeito das obras em geral e daquelas que o cristão realizará para dominar seu próprio corpo. Trataremos agora das obras que o homem haverá de praticar entre os seus semelhantes: porque o homem não vive somente com e para seu próprio corpo, mas sim também com os demais homens. Esta é a razão pela qual o homem não pode prescindir das obras no trato com seus semelhantes; antes bem, há de falar e tratar com eles, ainda que ditas obras em nada contribuam para sua própria justificação e salvação. Logo, ao realizar tais obras, terá sua mira posta só em servir e ser útil aos demais, sem pensar em outra coisa que nas necessidades daqueles a cujo serviço deseja colocar-se. Este modo de obrar para com os demais é a verdadeira vida do cristão, e a fé atuará com amor e satisfação, como ensina São Paulo aos Gálatas 5, 6. E também aos Filipenses (2, 1 em diante) aos quais ensinara que com a fé em Cristo já possuíam a graça e suficiência e acrescentara: "Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há entranhados afetos e misericórdias, completai a minha alegria de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento. Nada façais por partidarismo, ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo."
Com estas palavras, descreve o Apóstolo simples e claramente a vida cristã, uma vida na qual todas as obras atendam ao bem do próximo, já que cada qual possui, com sua fé, tudo quanto para si mesmo precisa e ainda lhe sobram obras e vida suficientes para servir ao próximo com amor desinteressado. O Apóstolo apresentaa Cristo como exemplo, dizendo (Filipenses 2, 5em diante): "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus. Antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana."
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Assim também o cristão deve, como Cristo, sua cabeça, sentir-se farto com sua fé, tratando de aumentá-la, porque ela lhe significa vida, justiça, salvação, e lhe dá tudo quanto é de Cristo e Deus, como antes se disse, e em São Paulo aos Gálatas 2, 20 diz: "Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim". O cristão é livre, sim, mas deverá tomar-se de bom grado servo, a fim de ajudar a seu próximo, tratando-o e obrando com ele como Deus tem feito com ele mesmo por meio de Cristo. E o cristão fará tudo sem esperar recompensa, mas unicamente para agradar a Deus, e dizendo: Ainda que seja homem indigno, condenável e sem mérito algum, meu Deus me háoutorgado gratuitamente, por sua pura graça em virtude de Cristo e em Cristo, riquíssima justiça e salvação, de maneira que de agora em diante só necessito crer. Assim seja. Mas, por minha parte, farei também por tal Pai, que me cumulou de benefícios tão valiosos, tudo quanto possa agradá-lo. Fá-lo-ei livre, alegre e gratuitamente. Serei para com meu próximo um cristão, à maneira como Cristo foi comigo, não empreendendo mais que aquilo que meu próximo necessite, lhe seja proveitoso, salvador; que já possuo todas as coisas em Cristo, pela minha fé. Vede como da fé fluem o amor e o gozo em Deus, e do amor emana, por sua vez, uma vida livre, disposta, alegre, para servir ao próximo sem olhar para a recompensa. Porque assim como o próximo padece necessidade e há falta daquilo que para nós sobra, assim também nós mesmos padecíamos grande necessidade e fomos socorridos pela graça divina em Jesus Cristo. Por conseguinte, socorreu-nos gratuitamente por Cristo. Auxiliemos nós também ao próximo com todas as obras de nosso corpo. Claramente se vê quão nobre e elevada é a vida cristã, ainda que hoje desgraçadamente em todo o mundo é desdenhada e, mais, esquecida e não se prega sobre ela.
Assim também o cristão deve, como Cristo, sua cabeça, sentir-se farto com sua fé, tratando de aumentá-la, porque ela lhe significa vida, justiça, salvação, e lhe dá tudo quanto é de Cristo e Deus, como antes se disse, e em São Paulo aos Gálatas 2, 20 diz: "Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim". O cristão é livre, sim, mas deverá tomar-se de bom grado servo, a fim de ajudar a seu próximo, tratando-o e obrando com ele como Deus tem feito com ele mesmo por meio de Cristo. E o cristão fará tudo sem esperar recompensa, mas unicamente para agradar a Deus, e dizendo: Ainda que seja homem indigno, condenável e sem mérito algum, meu Deus me háoutorgado gratuitamente, por sua pura graça em virtude de Cristo e em Cristo, riquíssima justiça e salvação, de maneira que de agora em diante só necessito crer. Assim seja. Mas, por minha parte, farei também por tal Pai, que me cumulou de benefícios tão valiosos, tudo quanto possa agradá-lo. Fá-lo-ei livre, alegre e gratuitamente. Serei para com meu próximo um cristão, à maneira como Cristo foi comigo, não empreendendo mais que aquilo que meu próximo necessite, lhe seja proveitoso, salvador; que já possuo todas as coisas em Cristo, pela minha fé. Vede como da fé fluem o amor e o gozo em Deus, e do amor emana, por sua vez, uma vida livre, disposta, alegre, para servir ao próximo sem olhar para a recompensa. Porque assim como o próximo padece necessidade e há falta daquilo que para nós sobra, assim também nós mesmos padecíamos grande necessidade e fomos socorridos pela graça divina em Jesus Cristo. Por conseguinte, socorreu-nos gratuitamente por Cristo. Auxiliemos nós também ao próximo com todas as obras de nosso corpo. Claramente se vê quão nobre e elevada é a vida cristã, ainda que hoje desgraçadamente em todo o mundo é desdenhada e, mais, esquecida e não se prega sobre ela.
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No segundo capítulo do Evangelho, segundo S. Lucas 2, 22, lemos que a virgem Maria se apresentara no templo depois das seis semanas prescritas, para ser declarada limpa, como ordenava a lei a todas as mulheres; se bem que ela, Maria, não era impura como as outras, nem necessitava da referida limpeza. Mas a virgem Maria agiu assim por puro amor, não querendo desprezar as demais mulheres, nem pretendendo apartar-se dentre elas. De maneira semelhante agiu S. Paulo, fazendo com que S. Timóteo fosse circuncidado (Atos 16, 3), não porque fosse necessário, mas para evitar que os judeus, de débil fé cristã, pensassem mal, e contudo não permitiu que Tito fosse circuncidado, precisamente porque o obrigavam a isto, alegando que a circuncisão era necessária para a salvação (Gálatas 2, 3). E Cristo discute com São Pedro (Mateus 17, 24-27) acerca do tributo que se exigia também dos discípulos, se os filhos de reis devem ou não, pagar tributos, S. Pedro respondeu que sim. Então Cristo ordenou-lhe que saísse ao mar e disse. (Mateus 17, 27): ... "Mas para que não os escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, e o primeiro peixe que subir, tira-o; e,abrindo-lhe a boca, acharás um estáter. Toma-o, e entrega-lhes por mim e por ti". Que exemplo tão maravilhoso é este e bem aplicável ao que vimos dizendo: Cristo dá a si mesmo o título de príncipe, chama a seus discípulos também filhos de rei, contudo submete-se voluntariamente, serve e paga o tributo. Tanto como a obra de Cristo possa ser-lhe necessária e beneficiar sua própria justiça e salvação, assim também são todas as suas demais obras e as que realizam os cristãos, necessárias para a salvação; porque, em realidade, trata-se de serviços voluntários em favor e para melhoramento dos demais homens. Assim, deveriam as obras dos sacerdotes, conventos, seminários ou pensionatos ser feitas de maneira que cada qual obrasse segundo sua posição e sua ordem religiosa, mas com o objetivo posto unicamente em auxiliar a outros e dominar o próprio corpo, dando assim bom exemplo àqueles que também necessitam governar sua carne. Contudo, estejam prevenidos e não se proponham alcançar justiça e salvação com tais obras, porque justiça e salvação somente são possíveis pela força da fé. Neste sentido admoesta S. Paulo (Romanos 13, 1 ss e Tito 3, 1) aos cristãos a submeter-se ao poder secular, dispostos sempre a lhes prestar serviço, mas não com o objetivo de alcançar justiça, mas por servir aos demais e à liberdade secular, obedecendo com amor e liberdade. Quem entender isto, poderá viver cristãmente no meio dos inúmeros preceitos e leis do Papa, dos bispos, dos conventos, dos fundadores, dos príncipes e senhores. (Alguns prelados sem consciência insistem tanto nelas como se fossem necessários para a salvação, denominando-os injustamente de mandamentos da Igreja). Injustamente, porque o cristão livre diz assim: jejuarei, orarei, farei isto e aquilo, tal como foi ordenado, mas não tenho necessidade disto, nem busco minha justiça e salvação com isto, mas faço-o tudo pelo Papa, pelo bispo, pela Igreja ou também por meu irmão na fé ou por meu senhor, a fim de dar exemplo, servir e sofrer. Coisas muito maiores fez e padeceu Cristo por mim, apesar de que ele necessitasse muito menos que eu. E ainda que os tiranos exijam o que não lhes compete, em nada se prejudicará, enquanto não vá contra Deus.
No segundo capítulo do Evangelho, segundo S. Lucas 2, 22, lemos que a virgem Maria se apresentara no templo depois das seis semanas prescritas, para ser declarada limpa, como ordenava a lei a todas as mulheres; se bem que ela, Maria, não era impura como as outras, nem necessitava da referida limpeza. Mas a virgem Maria agiu assim por puro amor, não querendo desprezar as demais mulheres, nem pretendendo apartar-se dentre elas. De maneira semelhante agiu S. Paulo, fazendo com que S. Timóteo fosse circuncidado (Atos 16, 3), não porque fosse necessário, mas para evitar que os judeus, de débil fé cristã, pensassem mal, e contudo não permitiu que Tito fosse circuncidado, precisamente porque o obrigavam a isto, alegando que a circuncisão era necessária para a salvação (Gálatas 2, 3). E Cristo discute com São Pedro (Mateus 17, 24-27) acerca do tributo que se exigia também dos discípulos, se os filhos de reis devem ou não, pagar tributos, S. Pedro respondeu que sim. Então Cristo ordenou-lhe que saísse ao mar e disse. (Mateus 17, 27): ... "Mas para que não os escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, e o primeiro peixe que subir, tira-o; e,abrindo-lhe a boca, acharás um estáter. Toma-o, e entrega-lhes por mim e por ti". Que exemplo tão maravilhoso é este e bem aplicável ao que vimos dizendo: Cristo dá a si mesmo o título de príncipe, chama a seus discípulos também filhos de rei, contudo submete-se voluntariamente, serve e paga o tributo. Tanto como a obra de Cristo possa ser-lhe necessária e beneficiar sua própria justiça e salvação, assim também são todas as suas demais obras e as que realizam os cristãos, necessárias para a salvação; porque, em realidade, trata-se de serviços voluntários em favor e para melhoramento dos demais homens. Assim, deveriam as obras dos sacerdotes, conventos, seminários ou pensionatos ser feitas de maneira que cada qual obrasse segundo sua posição e sua ordem religiosa, mas com o objetivo posto unicamente em auxiliar a outros e dominar o próprio corpo, dando assim bom exemplo àqueles que também necessitam governar sua carne. Contudo, estejam prevenidos e não se proponham alcançar justiça e salvação com tais obras, porque justiça e salvação somente são possíveis pela força da fé. Neste sentido admoesta S. Paulo (Romanos 13, 1 ss e Tito 3, 1) aos cristãos a submeter-se ao poder secular, dispostos sempre a lhes prestar serviço, mas não com o objetivo de alcançar justiça, mas por servir aos demais e à liberdade secular, obedecendo com amor e liberdade. Quem entender isto, poderá viver cristãmente no meio dos inúmeros preceitos e leis do Papa, dos bispos, dos conventos, dos fundadores, dos príncipes e senhores. (Alguns prelados sem consciência insistem tanto nelas como se fossem necessários para a salvação, denominando-os injustamente de mandamentos da Igreja). Injustamente, porque o cristão livre diz assim: jejuarei, orarei, farei isto e aquilo, tal como foi ordenado, mas não tenho necessidade disto, nem busco minha justiça e salvação com isto, mas faço-o tudo pelo Papa, pelo bispo, pela Igreja ou também por meu irmão na fé ou por meu senhor, a fim de dar exemplo, servir e sofrer. Coisas muito maiores fez e padeceu Cristo por mim, apesar de que ele necessitasse muito menos que eu. E ainda que os tiranos exijam o que não lhes compete, em nada se prejudicará, enquanto não vá contra Deus.
29
Do que ficou até aqui exposto, pode qualquer um fazer um juízo exato e distinguir entre as obras e mandamentos, assim, como também, entre prelados, cegos, loucos e aqueles que são justos e razoáveis. Porque toda obra que não tenha por fim servir aos demais e sofrer sua vontade (sempre que não se obrigue a ir contra Deus), não será uma boa obra cristã. Por isto suspeito que são poucos os conventos, altares, seminários, igrejas, missas, legados, verdadeiramente cristãos, bem como os jejuns e orações especiais, dirigidas a alguns santos. Temo que com isto cada qual procure só para si, pensando expiar seus pecados e conseguir a salvação
Isto tudo provém da ignorância sobre a fé e da liberdade cristã. Mas também existem prelados cegos que induzem as pessoas a obrar de tal modo, exaltando e coroando tudo com indulgências, mas esquecendo-se de instruir na fé. Eu te aconselho que, se desejas fazer um legado em benefício da Igreja, ou se queres orar e jejuar, não o faças pensando em teu próprio proveito, antes, ao contrário, faze-o desinteressadamente, para que os demais o desfrutem e se beneficiem com ele; se assim fizeres, serás um verdadeiro cristão. Para que queres reter teus bens e boas obras, que te sobram para cuidar e dominar teu próprio corpo, se já tens bastante com tua fé, na qual Deus te outorgou já todas as coisas? Saberás que os bens de Deus haverão de passar de uns para outros, pertencer a todos, ou seja, cada qual cuidará de seu próximo como de si mesmo. Os bens divinos emanam de Cristo e entram em nós: de Cristo, daquele cuja vida foi dedicada a nós, como se fora a sua própria. Da mesma maneira, devem emanar dentre nós os bens divinos, que recebemos de Cristo, e tem que derramar sobre aqueles homens, que de nós necessitam; mas isto será feito de tal maneira, que poremos também nossa fé e justiça diante de Deus e a serviço e favor do próximo, a fim de cobrir, assim, seus pecados e tomá-las sobre nós, como se fossem nossos, tal como fez Cristo mesmo conosco. Eis aí a natureza do amor, quando é verdadeiro. E o amor é verdadeiro, quando a fé também é verdadeira. Por isso escreve o santo Apóstolo (1 Coríntios 13, 5) que é próprio do amor que não busca o seu, mas o bem do próximo.
Do que ficou até aqui exposto, pode qualquer um fazer um juízo exato e distinguir entre as obras e mandamentos, assim, como também, entre prelados, cegos, loucos e aqueles que são justos e razoáveis. Porque toda obra que não tenha por fim servir aos demais e sofrer sua vontade (sempre que não se obrigue a ir contra Deus), não será uma boa obra cristã. Por isto suspeito que são poucos os conventos, altares, seminários, igrejas, missas, legados, verdadeiramente cristãos, bem como os jejuns e orações especiais, dirigidas a alguns santos. Temo que com isto cada qual procure só para si, pensando expiar seus pecados e conseguir a salvação
Isto tudo provém da ignorância sobre a fé e da liberdade cristã. Mas também existem prelados cegos que induzem as pessoas a obrar de tal modo, exaltando e coroando tudo com indulgências, mas esquecendo-se de instruir na fé. Eu te aconselho que, se desejas fazer um legado em benefício da Igreja, ou se queres orar e jejuar, não o faças pensando em teu próprio proveito, antes, ao contrário, faze-o desinteressadamente, para que os demais o desfrutem e se beneficiem com ele; se assim fizeres, serás um verdadeiro cristão. Para que queres reter teus bens e boas obras, que te sobram para cuidar e dominar teu próprio corpo, se já tens bastante com tua fé, na qual Deus te outorgou já todas as coisas? Saberás que os bens de Deus haverão de passar de uns para outros, pertencer a todos, ou seja, cada qual cuidará de seu próximo como de si mesmo. Os bens divinos emanam de Cristo e entram em nós: de Cristo, daquele cuja vida foi dedicada a nós, como se fora a sua própria. Da mesma maneira, devem emanar dentre nós os bens divinos, que recebemos de Cristo, e tem que derramar sobre aqueles homens, que de nós necessitam; mas isto será feito de tal maneira, que poremos também nossa fé e justiça diante de Deus e a serviço e favor do próximo, a fim de cobrir, assim, seus pecados e tomá-las sobre nós, como se fossem nossos, tal como fez Cristo mesmo conosco. Eis aí a natureza do amor, quando é verdadeiro. E o amor é verdadeiro, quando a fé também é verdadeira. Por isso escreve o santo Apóstolo (1 Coríntios 13, 5) que é próprio do amor que não busca o seu, mas o bem do próximo.
30
Deduz-se, de tudo isso, que o cristão não vive em si mesmo, mas em Cristo e no próximo. Em Cristo, pela fé, e no próximo, pelo amor. Pela fé o cristão se eleva até Deus e de Deus se curva pelo amor; mas sempre permanece em Deus e no amor divino, como diz Cristo (João 1, 51): ..."daqui em diante vereis o céu aberto e os anjos de Deus subirem e descerem sobre o Filho do homem".
Eis aí a liberdade verdadeira, espiritual e cristã, que livra o coração de todo o pecado, mandamento e lei. É a liberdade que supera a toda outra liberdade, tal como os céus superam a terra.
Queira Deus fazer-nos compreender corretamente essa liberdade e que a conservemos.
Amém.
Deduz-se, de tudo isso, que o cristão não vive em si mesmo, mas em Cristo e no próximo. Em Cristo, pela fé, e no próximo, pelo amor. Pela fé o cristão se eleva até Deus e de Deus se curva pelo amor; mas sempre permanece em Deus e no amor divino, como diz Cristo (João 1, 51): ..."daqui em diante vereis o céu aberto e os anjos de Deus subirem e descerem sobre o Filho do homem".
Eis aí a liberdade verdadeira, espiritual e cristã, que livra o coração de todo o pecado, mandamento e lei. É a liberdade que supera a toda outra liberdade, tal como os céus superam a terra.
Queira Deus fazer-nos compreender corretamente essa liberdade e que a conservemos.
Amém.
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