Da Autoridade Secular
Da
Autoridade Secular
A OBEDIÊNCIA QUE LHE
É DEVIDA (1523)
EDITORA SINODAL
Trad. Martin N. Dreher
Revisão: Ilson Kaysen
1979
EDITORA SINODAL
Rua Epifânio Fogaça, 467
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Impressão: Empresa Gráfica Metrópole S.A.
DEDICATORIA
Ao sereno, ilustre,
príncipe e senhor, senhor João, duque da Saxônia, landgrave da Turíngia e
marquês de Meissen, meu magnânimo senhor.
Graça e paz em
Cristo!
Novamente 1 constrange-me, sereno, ilustre príncipe,
magnânimo senhor, a necessidade e o pedido de muitas pessoas, a escrever, em
primeiro lugar a Vossa Magnificência Principesca, a respeito da autoridade
secular e de sua espada, de como se a deva usar cristãmente, e até que ponto se
lhe deva obediência. Pois elas são movidas pela palavra de Cristo, em Mateus
5,39s: "Não deves resistir ao mal, mas sê complacente com teu inimigo, e a
quem tirar tua túnica, deixa-lhe também a capa." E Rm 12,19: "A
vingança é minha, diz o Senhor, eu retribuirei." Com estas palavras o
príncipe Volusiano atacou, outrora, Santo Agostinho; acusou a doutrina cristã
de permitir aos maus de cometerem maldade, e, que de maneira alguma pudesse
coadunar-se com a espada secular.
1 – Nota de rodapé
Três anos antes
Lutero escrevera “À nobreza cristã de Nação Alemã, acerca do melhoramento da
cristandade (1520)
Também os sofistas 2 das universidades escandalizaram-se com
isso; pois não podiam
coadunar as duas
coisas. Muito preocupados em não acusar os príncipes de pagãos, ensinaram que
Cristo não "ordenara" tal coisa, mas que apenas
"aconselhara" aos
2- Nota de rodapé
Os sofistas são
originalmente, uma escola filosófica grega. Lutero usa a designação para
caracterizar os mestres da escolástica, por causa de sua teologia sofisticada.
perfeitos. 3 Assim Cristo teve que passar por mentiroso e
não ter razão, para preservar a honra dos príncipes; pois os cegos, míseros
sofistas, não podiam exaltar os
príncipes sem
rebaixarem a Cristo. Assim seu engano venenoso se alastrou pelo mundo todo, de
modo que todos consideram esta doutrina de Cristo apenas conselhos para os
perfeitos, e não mandamentos obrigatórios para todos os cristãos. Chegaram ao
ponto de não só permitirem ao "perfeito estado dos bispos", sim ao
"super perfeito estado do Papa" de assumirem este "estado
imperfeito" da espada e da autoridade secular, mas conferiram-no a mais
ninguém na terra tão plenamente como ao estamento dos bispos e do Papa. O diabo
se apossou de tal maneira dos sofistas e das universidades que eles próprios
não mais percebem o que falam ou ensinam.
3-Nota de rodapé
Na doutrina católica,
pode-se conquistar o estado da perfeição pela observância dos três
"conselhos evangélicos": pobreza (Mt 19,10-12) e obediência aos
superiores eclesiásticos (Mt 16,24). Tal obediência não se exigia de todos os
cristãos.
Espero, porém,
ensinar aos príncipes e à autoridade secular de tal maneira que continuem sendo
cristãos e Cristo um senhor, sem que precise, por sua causa, transformar os
mandamentos de Cristo em meros "conselhos". Isso quero fazer a Vossa
Magnificência Principesca , em muito humilde serviço, e a todo aquele que disso
precisar, com o auxílio, para louvor e glória de Cristo, nosso Senhor.
Recomendo Vossa Magnificência
Principesca e toda a sua linhagem à graça de Deus; este o aceite
misericordiosamente. Amém.
Wittenberg, no Ano
Novo de 1523
De Vossa
Magnificência Principesca submisso Martin Luther
PREFÃCIO
Escrevi antes um
livrinho à nobreza alemã e mostrei qual é seu ministério e função cristã. No entanto,
é suficientemente conhecido o quanto se importaram com o que escrevi. Por isso
tenho que concentrar meus esforços em outro sentido e escrever agora o que eles
devem deixar. Espero que eles o acatem assim como fizeram com aquele outro
escrito, para que continuem sendo príncipes e jamais se tornem cristãos. Pois
Deus, o onipotente, enlouqueceu os nossos príncipes, de sorte que pensem poderem
fazer e ordenar a seus súditos tudo o que quiserem; e também os súditos se
enganam, quando crêem estarem obrigados a cumprir tudo isso plenamente. Os
príncipes principiaram agora a ordenar às pessoas que entreguem livros, creiam
e cumpram o que eles ordenam. Com isso atrevem-se inclusive a sentar no trono
de Deus e a dominar sobre as consciências e a fé e, em seu cérebro louco, a
tratar o Espírito Santo como um aluno. Mesmo assim exigem que não se lhes diga
isso e que ainda se os denomine de magnânimos senhores.
Escrevem e promulgam
instruções impressas, dizendo que o Imperador o ordenou e que
pretendem ser
príncipes cristãos e obedientes, como se levassem a coisa a sério e como se não
pudéssemos notar a maganice atrás de suas orelhas. Se, porém, o Imperador lhes
tirasse um castelo ou uma cidade, ou lhes ordenasse alguma outra injustiça,
encontrariam belos motivos para resistir ao Imperador e não lhe obedecer.
Quando, todavia, se trata de explorar o homem pobre e de desafogar sua
petulância na Palavra de Deus, chama-se isso de obediência ao mandamento
imperial. Antigamente estas pessoas eram chamadas patifes; agora tem que se
chamá-los de príncipes cristãos obedientes, mas não admitem alguém para
interrogatório ou chamá-los à responsabilidade, por mais que se insista. Isso
lhes seria totalmente insuportável caso o Imperador ou alguém outro agisse com
eles dessa maneira! Esses são, em nossos dias, os príncipes que representam o
Imperador, em terras alemãs, na qualidade de soberano. É por isso que as coisas
vão desse jeito em todos os territórios, como podemos ver.
Como, pois, a sanha
desses palhaços contribui para o extermínio da fé cristã, para a
negação da Palavra de
Deus e a blasfêmia da majestade divina, não posso mais silenciar diante de meus
não-magnânimos senhores e encolerizados morgados. Tenho que resistir-lhes pelo menos
com palavras. Não temi seu ídolo, o Papa, que me ameaçava tornar a alma e o
céu. Por isso também tenho que demonstrar que não temo suas escamas e suas
bolhas d'água que me ameaçam tirar o corpo e a terra. Queira Deus que
permaneçam zangados para sempre e que nos ajude para que não morramos por causa
de suas ameaças. Amém.
PRIMEIRA PARTE
A respeito do direito
da autoridade secular
1. O dever de
castigar o mal e de suportá-lo *
Em primeiro lugar
ternos que fundamentar bem o direito e a espada secular para que ninguém duvide
de que ela existe no mundo por vontade e ordenação de Deus. As palavras que a
fundamentam são: Rm 13,1.2: "Toda a alma esteja submissa ao poder e à autoridade;
pois não há poder que não seja de Deus: Onde quer que haja poder ele foi
ordenado por Deus. Quem pois, resistir ao poder, resiste à ordenação de Deus.
Quem, porém, resiste à ordenação de Deus, este trará sobre si mesmo a
condenação." Além disso 1 Pe 2,13s: "Sede submissos a toda à ordem
humana, seja ao rei, corno ao mais nobre, ou aos seus procuradores que são por
ele enviados para castigar os maus e para recompensar os piedosos."
O direito desta
espada existe desde, o começo do mundo.Pois, quando Caim matou Abel, teve tanto
medo de que também o matassem que Deus inclusive proibiu isso expressamente e
tornou sem efeito a espada para que ninguém o viesse a matar (Gn 4,13s8.). Caim
não teria tido tal medo, caso não tivesse visto e ouvido desde Adão que se deve
matar os assassinos. Além disso, após o dilúvio, Deus reintroduziu esta lei
expressamente e a acentuou, ao afirmar em Gn . 9,6: "Se alguém derramar
sangue humano, o seu será derramado pelo homem." Isso não pode ser
compreendido como se se tratasse de um flagelo ou castigo que teria de cair, da
parte de Deus, sobre o assassino; pois muitos assassinos continuam vivos e
morrem sem a espada por pagarem fiança ou por serem favorecidos. Fala-se aí do
direito da espada: um assassino é culpado de morte e deve, de acordo com a lei,
ser morto pela espada. A justiça pode ser executada ou a espada pode tornar-se
morosa, de maneira que o assassino vem a falecer de morte natural. Por causa
disso, porém, a Escritura não estará errada, ao dizer: "Quem derramar
sangue humano, o seu será derramado pelo homem." Pois é culpa dos homens e
deve lhes ser imputada, caso esta lei estabelecida por Deus não for cumprida;
dessa maneira são também transgredidos outros mandamentos de Deus.
No mais também foi
confirmado pela lei de Moisés, Êx 21,14: "Quem matar alguém
propositalmente, a este tirá-lo-ás do meu altar, para que seja morto." E
ali se lê segunda vez "Êx 21,23ss): "Corpo por corpo, olho por olho,
dente por dente, pé por pé, mão por mão, ferida por ferida, galo por
galo." Além disso Cristo também o confirma, quando falou a Pedro no jardim
(Mt 26,52): "Quem tornar a espada, pela espada morrerá." Esta palavra
deve ser interpretada corno Gn 9,6 ("Quem derramar sangue humano etc.") Sem dúvida Cristo se refere àquela passagem,
citando-a para confirmá-la. Do mesmo modo ensinou João Batista; quando os
soldados o perguntaram pelo que deveriam fazer, respondeu (Lc 3,14): A ninguém
maltrateis, nem façais injustiça e contentai-vos com vosso soldo." Se a
espada não fosse um estamento divino, teria que
* Os títulos são
introduzidos pelo editor para facilitar a leitura.
ordenar-lhes que se
distanciassem dela; pois sua finalidade era a de levar o povo à perfeição e instruí-lo
cristãmente. Com isso está esclarecido o suficiente: é vontade de Deus que a
espada e o poder secular sejam usados para castigar os maus e proteger os
íntegros.
A tudo isso contradiz
vigorosamente a palavra que Cristo profere em Mt 5,38ss: "Ouvistes o que
foi dito aos antepassados: 'Olho por olho, dente por dente! Eu, porém, vos
digo, não se resista a nenhum mal; mas se alguém te bater na face direita,
oferece-lhe também a outra e se alguém quer demandar contigo, para tirar-te a
túnica, deixa-lhe também a capa, e se alguém te obrigar a andar uma milha, vai
com ele duas, etc." Além disso Paulo diz em Rm 12,19: "Amados, não
vos defendais a vós mesmos, mas dai lugar à ira de Deus. Pois está escrito: A
vingança é minha; eu retribuirei, diz o Senhor." Também Mt 5,44:
"Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam." E 1 Pe
3,9: "Ninguém pague mal com mal ou injúria com injúria, etc."
Certamente são duras estas e outras palavras, como se os cristãos, na nova
aliança, não devessem ter espada temporal. É por isso também que os sofistas
afirmam que Cristo teria eliminado, com isso, a lei de Moisés. Eles transformam
estes mandamentos em "conselhos" para os perfeitos e dividem a
doutrina cristã e o estado cristão em duas partes. A um denominam de estado
"perfeito" (a este conferem os mandamentos). E isso o fazem em
empreendimento e arbítrio próprio e injurioso, sem qualquer base da Sagrada
Escritura. Não vêem que Cristo, justamente nesta passagem (Mt 5), acentua sua
doutrina com rigor expresso como mandamento; não quer que o mínimo dela seja
eliminado (Mt 5,19) e condena ao inferno aqueles que não amam seus inimigos (Mt
5,22). Por isso temos que dizer: as palavras de Cristo permanecem válidas para
toda pessoa, seja ela "perfeita" ou "imperfeita". Pois
perfeição ou imperfeição não tem base naquilo que se faz; também não cria nenhum
estado externo especial entre os cristãos; mas tem sua base no coração, na fé e
no amor. Quem, pois, mais crê e ama, este é '!' perfeito", podendo
exteriormente ser homem ou mulher, príncipe ou camponês, monge ou leigo. Pois
amor e fé não provocam, exteriormente, separações ou diferenças.
2. No reino de Cristo
não se precisa espada e autoridade.
Aqui temos que
dividir os filhos de Adão, isto é, todos os homens, em dois grupos: uns
pertencendo ao Reino
de Deus, os outros, ao reino do mundo. Os que pertencem ao Reino de Deus são
todos os que, como verdadeiros crentes, estão em Cristo e sob Cristo. Pois
Cristo é o Rei e Senhor do Reino de Deus, como o afirma o Salmo 2,6 e toda a
Escritura; por este motivo, ele também veio para dar início ao Reino de Deus e erigi-lo no mundo.
Diante de Pilatos ele diz (Jo 18,36s): "Meu Reino não é do mundo, mas quem
é da verdade, este ouve minha voz;" conseqüentemente, se refere
continuamente, no Evangelho, ao Reino de Deus, dizendo (Mt 4,17):
"Melhorai- vos; o Reino de Deus chegou!"; ainda (Mt 6,33):
"Procurei em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça"; e, dando
ênfase ao mesmo, designa o Evangelho de Evangelho do Reino de Deus (Mt24,14);
por isso que ensina, rege e mantém o Reino de Deus.
Vê, pois, essas
pessoas não precisam de espada ou direito secular, e, se todo o mundo
fosse formado por
cristãos autênticos, isto é, por verdadeiros crentes, não haveria necessidade
de príncipe, rei ou senhor, nem espada, nem lei. Pois para que lhes
serviria? Eles têm .o Espírito Santo no
coração; este os ensina e efetua que não façam mal a ninguém, que amem a todos
e que sofram, de bom grado e alegremente, injustiças, sim, inclusive, a morte da
parte de qualquer pessoa. Onde há apenas sofrer injustiça e apenas fazer
justiça, aí não há necessidade de briga, discórdia, juízo, juiz, castigo, lei
ou espada. Por isso é impossível que a espada e a lei temporal encontrem algo a
fazer entre os cristãos; pois, por si mesmos, eles já fazem muito mais do que
toda a lei e ensinamentos possam exigir. Nesse sentido Paulo afirma (1 Tm 1,9):
“A lei não é promulgada para os justos, mas para os injustos." Por que
isso? Porque o justo, por si mesmo, faz tudo e mais ainda do que o exigido por
todas as leis. Os injustos em contraposição, nada fazem que seja justo; por
isso necessitam da lei que os ensina, obriga e pressiona para agirem bem. Urna
boa árvore não necessita nem de ensino, nem de lei para dar bons frutos; ela
traz consigo a natureza que faz com que sem lei e ensino produza fruto, assim
como corresponde à sua natureza. Para mim seria totalmente louco o homem que
escrevesse um livro para a macieira, cheio de leis e normas de como deveria
produzir maçãs e não espinhos. Pois a árvore faz isso por natureza, muito
melhor do que o homem o pode descrever e ordenar com todos os livros. Assim
também, através do Espírito e da fé, faz parte da natureza de todos os cristãos
que ajam bem e corretamente, melhor ainda do que se lhes possa ensinar com
todas as leis; eles não precisam para si de lei ou norma.
A isso objetas: Por
que, então, Deus deu a todos os homens tantas leis e, por que também Cristo
ensina tanto no Evangelho a respeito do fazer? A respeito disso já escrevi
muito no sermonário e em outros lugares. Aqui seja dito somente o seguinte:
"Se Paulo diz (1 Tm 1,9) que a lei foi dada por causa dos injustos",
isso significa que aqueles que não são cristãos são impedidos de fazer o mal
pela imposição da lei, como ainda veremos.
Agora, porém, nenhum ser humano é cristão e justo por natureza, mas todos sobretudo
pecadores e maus (Rm3,23 ; por isso Deus combate a todos eles com a lei para
que não ousem exteriorizar sua maldade maliciosamente com asas. Além disso S.
Paulo ainda confere à lei outro ministério (Rrn 7,7 e Gl 7,16ss): ensina a
reconhecer o pecado, fazendo, com isso, que o homem se torne humilde para a
graça e a fé em Cristo. Ê assim também que Cristo age aqui (Mt 5,39); quando
ensina que não se deva resistir ao
mal, interpreta a lei e ensina como um verdadeiro cristão possa e deva ser.
Ainda ouviremos mais a respeito disso.
3. No reino do mundo
precisa-se de autoridade e espada.
Ao reino do mundo ou
ao jugo da lei pertencem todos os não-cristãos. Pois são poucos os crentes e
somente a menor parte age como cristãos, não resistindo ao mal, ou até fazendo
ela mesma o mal. Por isso Deus criou para estes não cristãos, ao lado do
estamento cristão e do Reino de Deus, outro domínio, e submeteu-se à espada.
Eles não devem poder fazer o que corresponde a sua má índole, mesmo se o bem
quisessem, e, caso o fizerem mesmo assim, não o devem poder fazer sem temor e
em paz e felicidade. É como quando se ata à corrente um animal selvagem e mau
para não morder e rasgar, como é próprio de sua raça, mesmo que o quisesse; um
animal manso e dócil, ao contrário, não precisa disso. Ê inofensivo mesmo sem
correntes e peias.
Pois, se assim não
fosse, pois que todo o mundo é mau e entre mil é difícil encontrar um
verdadeiro cristão,
um devoraria o outro, de maneira que ninguém estaria em condições de constituir
família, trabalhar pelo sustento e servir a Deus; o mundo seria devastado. E
por isso Deus instituiu os dois domínios: o espiritual que cria cristãos e
pessoas justas através do Espírito Santo, e o temporal que combate os acristãos
e maus, para que mantenham paz externa e tenham que ser cordatos contra a sua
vontade. É nesse sentido que S. Paulo interpreta a espada secular, em Rm 13,3,
ao afirmar, que não se destina para temer pelas boas obras, mas pelas más; e
Pedro diz (1 Pe 2,14) que foi dada para
castigar os maus.
Talvez haja quem
quisesse governar o mundo segundo o Evangelho e eliminar toda a lei e a espada
secular; argumentaria que todos foram batizados e são cristãos, entre os quais
o Evangelho não quer que haja nem lei, nem espada, entre os quais também não há
tal necessidade. Adivinha, por favor: que se conseguiria? Soltaria as cadeias e
correntes dos animais selvagens e maus para rasgarem e morderem e argumentaria
que se trata de animaizinhos delicados, mansos e dóceis. Eu, porém, sentiria
muito bem a realidade em minhas feridas. Assim os maus abusariam da liberdade
cristã sob o
manto do nome
cristão, fariam as suas malandragens e afirmariam que são cristãos e que, por
isso, não estão sujeitos a nenhuma lei e espada. Alguns já são tão loucos e
doidos. 4
4) O autor refere-se
aos entusiastas e anabatistas que do Evangelho deduziam exigências políticas
(Nota de rodapé)
A uma tal pessoa se
teria que dizer: Sim, é certo que os cristãos, por própria causa, não estão
sujeitos a nenhuma lei ou espada, nem delas necessitam. Mas cuida e enche
primeiro o mundo de verdadeiros cristãos antes de governá-lo cristã e
evangelicamente! Isso jamais conseguirás. Pois o mundo e a massa são e
permanecerão acristãos, mesmo que todos tenham sido batizados e sejam chamados
cristãos. Os cristãos, porém, com se costuma dizer, moram distantes uns dos
outros. Por isso é insuportável para o mundo erigir um único regime cristão
sobre todo o mundo, sim até mesmo sobre um só país ou um grupo maior de
pessoas. Pois os maus sempre superam em número os justos. Se, pois, se quisesse
arriscar governar todo um país ou o mundo com o Evangelho, seria o mesmo que um
pastor juntar em um estábulo lobos, leões, gaviões e ovelhas e deixasse cada um
andar livremente entre os outros e dissesse: "Apascentaivos e sede justos
e pacíficos um em relação ao outro; o estábulo está aberto, tendes pasto em
abundância, não precisais temer cães e pancadas.” As ovelhas certamente seriam
pacíficas e se deixariam apascentar
e governar dessa maneira; mas não viveriam por muito tempo, e nenhum animal
estaria a salvo diante do outro.
Por isso tem que se
distinguir cuidadosamente estes dois domínios e deixá-los vigorar:
um que torna justo, o
outro que cria paz exterior e combate as obras más. Sozinho, nenhum dos dois
basta. Pois sem o domínio espiritual de Cristo, somente com o auxílio do
domínio temporal, ninguém pode ser justificado perante Deus. Por outro lado o
domínio de Cristo não se estende por sobre todos os homens, mas em todos os
tempos os cristãos são o grupo menor; eles se encontram dispersos entre os
acristãos. Onde, pois, dominar somente o domínio temporal ou a lei, ali tem que
haver mera hipocrisia, mesmo se fossem os
próprios mandamentos de Deus. Pois sem o Espírito Santo no coração, ninguém se
torna realmente justo, faça tantas belas obras quantas quiser. Onde, porém, o
domínio temporal dominar sozinho sobre terra e gente, aí será solto o buçal da
maldade e se dará vazão a toda a malandragem. Pois o público não o pode aceitar
e compreender.
Vês, pois, qual o
alvo das palavras de Cristo de Mt 5,39, que apresentamos acima, segundo as
quais os cristãos não devem defender seu direito, nem ter a espada temporal em
seu meio. Ele diz isso expressamente apenas a seus amados cristãos; eles são
também os únicos que o aceitaram e agem de acordo. Não as transformam, como os sofistas, em
"conselhos", mas são de tal natureza em seu coração, através do
Espírito, que não fazem mal a ninguém e de boa vontade sofre a maldade de todo
o mundo. Se, pois, o mundo fosse todo ele formado por cristãos, todas estas
palavras lhe diriam respeito e ele agiria de acordo; ele faz parte do outro
domínio, no qual se forçam a compelem os acristãos exteriormente à paz e ao
bem.
Por isso Cristo
também não usou espada e também não instituiu nenhuma em seu reino.
pois ele é um rei
sobre cristãos e governa sem lei, somente através de seu Espírito Santo. E
apesar de haver confirmado a espada, não fez uso dela. Pois é desnecessária
para o seu reino onde só há justos. Por isso, outrora Davi não pôde construir o
templo (2 Sm 7,5ss) porque havia derramado muito sangue e usado a espada. Não
que tivesse cometido uma injustiça mas ele não pôde ser um protótipo de Cristo,
pois este deveria ter um reino de paz, sem espada. Esta missão coube a Salomão
- o Pacífico (1 Rs 5,17ss) porque seu reino era: de paz e podia servir de
protótipo ao reino de Cristo, do verdadeiro "Frederico" 5 e
"Salomão". O texto ainda diz (Rs 6,7): "Em toda a construção do
templo nunca se ouviu instrumento de ferro." Tudo isso porque Cristo teria
um povo livre, sem pressões e atropelos, sem lei e espada.
5) Frederico, em
alemão Fried-rich, significa: rico em paz.
(Nota de Rodapé)
É isso o que expressam
os profetas no SI 110,3: “Teu povo serão
os voluntários". E Is11,9: "Não matarão, nem farão dano em todo o meu
santo monte." E 1s 2,4: "Converterão suas espadas em relhas de arado
e suas lanças em foices, e ninguém levantará uma espada contra o outro e se
dará ao trabalho de lutar, etc." Quem quisesse estender a
validade destes e outros ditos semelhantes a todos os lugares onde o nome de
Cristo fosse usado (N. d. T. onde há pessoas batizadas), este perverteria toda
a Escritura; eles se referem tão somente aos verdadeiros cristãos: estes, com
toda a certeza, vivem de acordo entre si.
5. Os crentes em
Cristo sujeitam-se espontaneamente à autoridade.
Aqui fazes a objeção:
"Se os cristãos não precisam da espada secular e da lei, por que
então Paulo diz em Rm
13,1 a
todos os cristãos: 'Todas as almas sejam submissas ao poder e à autoridade?' e
S. Pedro (1 Pe 2,13): 'Sede submissos a toda a instituição humana, etc', como
já foi dito acima?" Resposta: Há pouco expliquei que os cristãos entre si
e para si próprios não necessitam de lei e espada; pois para eles é desnecessária
e sem serventia. O verdadeiro cristão, porém, não vive na terra para si
próprio, mas para o próximo e lhe serve. Correspondendo à sua natureza, faz
também aquilo que ele próprio não necessita, mas que é proveitoso e necessário
para seu próximo. A espada é de grande e necessária serventia para todo o
mundo, para que seja mantida a paz, castigado o pecado e
combatidos os maus. Por isso o cristão se submete de bom grado ao domínio da
espada: paga impostos, honra a autoridade, auxilia e faz tudo o que pode e que
é útil para a autoridade, a fim de que sejam preservados o seu poder, honra e
temor. Isso o cristão o faz mesmo que não necessite disso para si próprio; pois
visa o que é útil e bom para outros, como Paulo o ensina em Ef 5,21.
É o que se dá com
todas as demais obras do amor: o cristão as faz mesmo que de maneira nenhuma
delas necessite: ele não visita os doentes porque pensa ficar são, agindo
assim; ele não dá alimentos a alguém, porque ele próprio necessita de alimento. Do mesmo
modo não serve à autoridade porque poderia vir a necessitar dela, mas porque
outros necessitam dela, para que sejam protegidos e os maus não se tornem ainda
mais malvados. Com isso ele não perde nada e tal serviço também não lhe faz
mal; e, mesmo assim, ele presta um grande serviço ao mundo. E, se não o
fizesse, não agiria como cristão, e, acima de tudo, estaria contrariando o
amor; além disso daria aos outros um
mau exemplo que também não quereriam suportar autoridade, se bem que são
acristãos. Isso seria uma vergonha para o Evangelho: como se ele ensinasse
revolta e tornasse as pessoas teimosas, para não servirem a ninguém, enquanto,
em realidade, torna o cristão um servo de todos. 6 Foi nesse sentido que Cristo deu o estáter
(Mt 17,27) para não lhes oferecer motivo de tropeço, mesmo que não tivesse tido
necessidade de o fazer.
6) Lutero expôs esse
pensamento detalhadamente no seu livro "Da
Liberdade
Cristã", editado no vernáculo pela Editora Sinodal.
(Nota de rodapé)
O mesmo podes
depreender daquelas palavras de Cristo, supra citadas de -Mt 5,39. É
certo que ele ensina
claramente que os cristãos não devam ter entre si espada secular ou lei. Não
proíbe, porém, que se sirva e seja submisso aos que possuem a espada temporal
ou a lei. Contudo, porque não a necessitas e não a deves ter, por isso deves
tanto mais servir aos que não chegaram ao ponto a que tu chegaste e que ainda a
necessitam. Mesmo que não necessites que se castigue teu inimigo, teu próximo
doente o neces sita; a este deves auxiliar para que tenha paz e para que se
combata seu inimigo. Isso, porém, não pode acontecer de outra maneira do que
concedendo-se ao poder e à autoridade honra e temor. Cristo não diz: "Não
deves servir nem ser submisso à autoridade; mas: "Não deves resistir ao
mal". É como se ele quisesse dizer: "Age de tal modo que tudo sofras;
pois não deves usar a autoridade para que ela te ajude e sirva, seja útil e
necessária, mas, pelo contrário, tu deves auxiliá-la, servir-lhe, ser útil e
necessário. Quero que sejas tão altaneiro e tão nobre que não venhas a
necessitar dela; muito antes ela deve necessitar de ti."
6. Os Crentes podem
assumir cargos públicos.
Agora perguntas se
também um cristão pode usar a espada secular e castigar os maus,
considerando-se que as palavras de Cristo são tão duras e claras: "Não
deves resistir ao mal." Estas palavras são tão claras que os sofistas
tiveram que transformá-las em um "conselho". Resposta: . Ouviste até
agora dois ensinamentos. Um dizia que entre os cristãos não pode haver espada;
por isso não a podes usar sobre e entre cristãos, pois dela não necessitam. Por
isso tens que formular tua pergunta em relação ao grupo dos não-cristãos e
perguntar se ali a poderias usar cristãmente. Em relação a isso vale o outro
ensinamento: estás obrigado a servir à espada e a deves promover com o que
puderes, seja com vida, bem, honra e alma. Pois trata-se de uma obra da qual tu
não necessitas, mas que é extremamente útil e necessária para todo o mundo e
para teu próximo. Se, pois, visses que falta um carrasco, beleguim, juiz,
senhor ou príncipe e, se te julgares apto para esse cargo, deverias oferecer e
candidatar-te para que a autoridade tão necessária não fosse menosprezada e
posta em xeque ou pereça. Pois o mundo não pode e não consegue prescindi-la.
Motivo: Nesse caso
assumirias um serviço, e uma função completamente alheia; pois não traria
proveito para ti ou para tua propriedade. Também não o farias com a intenção de
te vingares ou de pagares mal com mal, mas para o bem de teu próximo e para a
preservação de segurança e paz para os outros. Pois para ti mesmo ficas com o
Evangelho e ages de acordo com a palavra de Cristo, sofrendo de bom grado a segunda bofetada no
rosto e entregando ainda a capa com a veste, - desde que atinja a ti e a tua
própria causa. Assim as duas coisas acontecem muito bem: satisfazes ao Reino de
Deus e ao reino do mundo exteriormente e interiormente, sofres mal e injustiça
e mesmo assim castigas mal e injustiça, não resistes ao mal e mesmo assim
resistes. Pois com uma coisa visas a ti e o que é teu, com a outra, o teu
próximo e o que é seu. Onde se tratar de ti e do que é teu, aí agirás de acordo
com o Evangelho e sofrerás, como bom cristão,
injustiças no que toca a tua pessoa; onde se trata do outro e do que é seu, aí
agirás de acordo com o amor e não permitirás injustiça para teu próximo; e isso
o Evangelho não proíbe, muito antes ordena-o em outra passagem.
7. Comprovando pelas
Escrituras e relação correta com a autoridade.
Nesse sentido todos
os santos usaram a espada desde o início do mundo, Adão e seus
descendentes . Foi
assim que Abraão a usou quando salvou ao sobrinho Ló, vencendo os quatro reis
(Gn 14,15) e, mesmo assim, foi um homem completamente evangélico. Assim também
Samuel, o santo profeta, espedaçou o rei Agague (1 Sm 15,33) e Elias os
profetas de Baal (lRs 18,40). Da mesma maneira usaram a espada Moisés, Josué,
os filhos de Israel, Sansão, Davi e todos os reis e príncipes do Antigo
Testamento; além disso Daniel e seus companheiros Ananias, Azarias e
Misael na Babilônia; ainda José no Egito, etc.
Talvez alguém
argumentaria que o Antigo Testamento foi abolido e que não vale mais e que por
isso não se possa mais apresentar tais exemplos aos cristãos. A isso respondo não
é assim. Pois S. Paulo diz em 1 Co 10,3: "Comeram o mesmo manjar
espiritual e beberam a mesma bebida espiritual da rocha, e que é Cristo, como
nós." Isso significa que tiveram o mesmo Espírito e fé em Cristo que nósemos
e foram cristãos assim como nós. O que, pois, foi correto para eles, é correto
também para todos os cristãos desde o princípio até o fim do mundo. Pois a
época e o modo exterior de viver não provocam diferenças entre os cristãos.
Também não é verdade que o Antigo Testamento esteja superado no sentido de que
não mais se o deva ter ou que aja incorretamente o que ficar com todo ele. Foi
com essa opinião que S. Jerônimo e muitos outros incorreram em erro. Muito
antes, o Antigo Testamento foi superado no sentido de que somos livres para
cumpri-lo ou não e que não mais é necessário cumpri-lo sob pena de perder-se a
alma, como outrora o foi.
Pois Paulo afirma em
1 Co 7,19; G1 6,15 que nem o prepúcio nem a circuncisão é algo, mas tão-somente
uma nova criatura em Cristo. Isto é, não é pecado ter-se um prepúcio, como
pensavam os judeus; também não é pecado circuncidar-se, como pensavam os
pagãos, mas as duas coisas estão liberadas e são boas, caso alguém as fizer sem
pensar que com isso seja, justo e venha a salvar-se. Assim também acontece com
todas as demais partes do
Antigo Testamento: não é incorreto quando alguém o deixa de cumprir, e não é
quando alguém o cumpre. Tudo isso é permitido e bom, fazer e deixar.
Se fosse útil e
necessário para a salvação do próximo, deveriam cumprir-se todos estes
ensinamentos. Pois é
dever de cada um fazer o que é útil e necessário para o próximo, esteja escrito
no Antigo ou Novo Testamento, seja algo judeu ou algo gentio. É assim que Paulo
o ensina em 1 Co 12,13. Pois o amor tudo permeia e está acima de tudo e visa o
que é útil e necessário para os outros; ele não pergunta se é velho ou novo.
Assim também tens liberdade em relação àqueles exemplos do uso da espada: podes
imitá-los ou não. Apenas quando vires que teu próximo o necessita, o amor te
constrange a fazer o que normalmente te
estaria liberado e que te seria desnecessário. Não deverias, porém, pensar que
com isso poderias tornar-te justo e obter a salvação, como pensavam os judeus
com base em suas obras; isso deves deixar por conta da fé que te torna nova
criatura sem as obras.
E para que o possamos
provar a partir do Novo Testamento, João Batista é um firme ponto de referência
(Lc 3,14). Pois, sem dúvida alguma, ele tinha que testemunhar; apontar e
ensinar a Cristo, isto é, sua doutrina tinha que ser genuinamente
neotestamentária e evangélica, já que deveria levar a Cristo um povo justo e
perfeito; e ele confirma o
ofício dos soldados e diz que; eles devem contentar-se com seu soldo. Caso não
tivesse sido cristão usar a espada, ele os deveria ter censurado e admoestado a
abandonarem soldo e espada; caso contrário não os teria instruído devidamente
na fé cristã. Assim também a respeito de S. Pedro: Quando pregou Cristo a
Cornélio (At 10, 34ss), não lhe ordenou que abandonasse seu posto (de
Centurião): deveria tê-lo feito, caso fosse um empecilho para a vida cristã de
Cornélio. Além disso, Cornélio já recebe o Espírito Santo antes do Batismo (At
10,44); S. Lucas (At 10,2) também o louva como homem justo já antes da pregação
de S. Pedro, sem recriminá-lo por ser centurião de legionários e do imperador
pagão. O que o Espírito Santo tolerou em Cornélio, sem o admoestar, isso também
nós devemos tolerar.
O mesmo exemplo
também dá o oficial negro Eunuco (At 8,26ss); o evangelista Filipe
converteu e o batizou
e consentiu em que ele permanecesse em seu cargo e retornasse para casa, ainda
que sem a espada não pudesse desempenhar tão importante ministério no governo
da rainha no país dos pretos. O mesmo se deu com o procônsul de Chipre, Paulo
Sérgio (At 13, 7.12); Paulo converteu-o e mesmo assim consentiu em que ele
permanecesse no cargo de procônsul entre e sobre gentios. Além disso muitos santos
mártires agiram dessa maneira: obedecendo aos imperadores pagãos de Roma, foram
para a guerra sob seu comando e também estrangularam, sem dúvida, pessoas para
a manutenção da paz; assim se escreve a respeito de S. Mauricio, Acácio, Gereão
e muitos outros sob o imperador Juliano. 7
7) (Nota de rodapé)
Segundo a lenda, São
Maurício e Jeroão integravam uma companhia do exército do Imperador Diocleciano
(284 - 305). Essa companhia teria sido dizimada por se ter negado a participar
da caça aos cristãos. Acádio teria sofrido o martírio em 306, nacidade de Bizâncio
(Constantinopla - hoje Istambul).
Além disso tens
diante de ti a clara e comprobatória passagem de S. Paulo (Rm 13,1):
"Não é sem
motivo que a autoridade traz a espada. Nesse ponto ela é servidora de Deus,
uma vingadora para
aquele que pratica o mal." Por favor, não sejas tão atrevido a ponto de
dizeres que um cristão não pode desempenhar a obra, ordem e criação próprias de
Deus. Neste caso também terias que dizer que um cristão também não pode comer e
beber e se casar; pois estas também são obras e ordens de Deus. Se, porém, são
obra e criação de Deus, são boas, tão boas que cada pessoa as pode usar cristãmente
e para sua satisfação, como Paulo afirma em 1 Tm 4,4: 'Toda a criatura de Deus
é boa e nada é recusável para os que
crêem e reconhecem a verdade." 8 Sob "toda a criatura de Deus" não se
entende apenas comida e bebida, vestes e calçados, mas também o poder da
autoridade e a submissão, o exercício de proteção e castigo. Resumindo: se S.
Paulo afirma (Rm 13,4) que a autoridade é servidora de Deus, não devemos
reservá-la apenas para o uso dos gentios,
mas de todos os homens. 'Servidora de Deus nada mais significa que: a
autoridade é de tal natureza que se pode servir a Deus através dela. Seria
contrário à fé afirmar que há serviços para Deus que um cristão não pode ou
deve fazer; pois servir a Deus não
compete a ninguém mais do que ao cristão. E,
certamente, também seria bom e necessário que todos os príncipes fossem retos e
bons cristãos. Pois como serviço especial feito para Deus, a espada e a
autoridade estão reservadas aos cristãos mais do que a qualquer outro sobre a
terra. Por isso deves ter a espada ou a autoridade em tão alta conta quanto o
matrimônio, ou a agricultura, ou qualquer ofício que Deus também ordenou. Assim
como um homem pode servir a Deus no matrimônio, na agricultura ou num ofício
para proveito do outro, e assim como
deveria servir, quando seu próximo o necessita, - assim também pode servir a
Deus como detentor do ministério da autoridade e lhe deve servir desde que a
necessidade do próximo o exija. Pois os detentores de autoridade são servidores
e oficiais de Deus que castigam o mal e protegem o bem. Todavia também aí deve
haver liberdade de não se envolver com isso, caso não seja necessário, como são
livres o matrimônio e a agricultura, caso não sejam necessários.
Agora argumentas:
"Por que Cristo e os apóstolos não a exerceram?" Resposta: Dize-me,
por que ele não casou ou não se tornou sapateiro ou alfaiate? Se uma profissão
ou um ofício não for bom porque o próprio Cristo não os exerceu, onde ficariam
todas as profissões e ofícios com exceção do ministério da pregação, o único
que desempenhou? Cristo cumpriu seu ministério e ofício; com isso não repudiou
o ofício de uma outra pessoa. Não cabia a ele usar a espada, pois cumpria-lhe desincumbir-se tão somente
do ministério que rege seu reino e que serve expressamente à sua causa. Em seu
Reino, porém, não é necessário que alguém seja casado, sapateiro, alfaiate,
lavrador, príncipe, carrasco ou beleguim, também não que haja espada ou direito
secular, mas apenas a Palavra e o Espírito de Deus; esses governam os seus de
dentro. Este ministério ele o desempenhou no passado e o continua a
desempenhar: distribui continuamente o Espírito e a Palavra de Deus. E nesse
ministério os apóstolos e todos os regentes espirituais o tiveram que seguir.
Pois eles têm tanto a fazer com a espada espiritual, a Palavra de Deus (Ef
6,17), para desempenharem bem este seu ofício,que têm que se abster da espada
secular. Têm que deixá-la para outros que não têm que pregar, mesmo que, como
já foi dito, usá-la não seja contra sua posição. Pois toda a pessoa tem que se
ocupar com sua profissão e labor.
8) (Nota do tradutor)
Lutero cita de memória. Aqui associa 1 Tm 4,4 com Tt l)5s.
Cristo não usou a
espada nem ensinou a respeito. Não obstante é suficiente que não a tenha
proibido nem abolido, mas confirmado, como é suficiente que não tenha abolido o
estado matrimonial, mas confirmado, aind que não tenha tomado esposa ou
ensinado algo à respeito. Pois
em todas as coisas tinha que apresentar-se com posição e obra que serviam
expressamente apenas a seu Reino. Caso contrário, se encontraria em sua atitude
um motivo e um exemplo normativo, para ensinar e crer que o Reino de Deus não pode
subsistir sem matrimônio e espada e semelhantes coisas exteriores (porque os
exemplos de Cristo são necessariamente normativos), enquanto que, em realidade,
só subsiste através da Palavra de Deus e do Espírito. E este foi o verdadeiro
ministério e o teve que ser, pois
ele é o Rei supremo neste Reino. Agora,
porém, nem todos os cristãos têm o mesmo ministério (mesmo que o pudessem ter).
E assim é justo que tenham outro ofício exterior com o qual também se pode servir
a Deus.
De tudo isso
depreende-se qual seja a correta compreensão das palavras de Cristo, Mt
5,39: "Não deveis resistir ao mal,
etc.": um cristão deve ser de tal natureza que sofra todo o mal e
injustiça, não se vingando, também não procurando proteção para si perante o
tribunal: não deve fazer uso algum de poder e direito secular - para si mesmo.
Mas para outros ele pode e deve procurar desforra, justiça, proteção e auxílio,
e contribuir para isso com o que puder. Além disso a repartição detentora do
poder lhe deve conceder auxílio
e proteção, seja por iniciativa própria ou a pedido de outros, sem que ele
próprio acusasse, solicitasse ou apresentasse motivo. Se ela não o fizer, ele
se deixará esfolar e difamar e não resistirá ao mal, como dizem as palavras de
Cristo.
E podes ter a certeza
de que este ensinamento de Cristo não é apenas um conselho para os perfeitos,
como escarnecem é mentem nossos sofistas, mas um mandamento rigoroso e válido
para todos os cristãos. Deves saber que são pagãos sob nome cristão todos
aqueles que se vingam ou que discutem e brigam perante o tribunal por seus bens
e por sua honra. Isso é assim mesmo, é o que te digo e não sigas o que o
populacho diz e o que é costume. Pois há poucos cristãos sobre a terra. Disso
não tenhas dúvida. Além do mais a Palavra de Deus é algo diferente do que é
costumeiro.
Vês, pois, que Cristo
não anula a lei quando diz (Mt 5,38s): "Ouvistes o que foi dito aos
antepassados: olho
por olho. Eu, porém, vos digo: não resistais a nenhum mal, etc." Pelo
contrário, interpreta
o sentido da lei como deve ser compreendida. É como se dissesse: vós judeus
pensais que é justo e bom perante Deus recuperar o que é vosso com o auxílio do
direito; recorreis ao que disse Moisés: "Olho por olho", etc. Eu,
porém, vos digo que Moisés deu esta lei relativamente aos maus que não
pertencem ao Reino de Deus, para que não se vinguem a si mesmos ou façam algo
pior, mas para que por esse direito externo sejam forçados a deixar de coisas
más. Assim estão submetidos ao poder executivo por direito e regime externo.
Vós, porém, deveis conduzir-vos de tal maneira que não necessitais de tal
direito nem o procureis. Pois mesmo que a autoridade, secular necessite de tal
lei para julgar os incrédulos, e mesmo que vós mesmos a possais usar para
julgar a outros conforme a mesma, não deveis invocá-la nem valer-vos dela em
causa própria. Pois vós tendes o Reino dos céus; por isso deveis deixar o reino
da terra àquele que vo-lo tira.
Aqui vês como Cristo
não interpreta suas palavras como se quisesse abolir a lei de Moisés ou proibir
a espada secular. Pelo contrário ele exime os seus da lei. Eles não devem usar
o poder secular para si próprios, mas deixá-lo para os incrédulos, aos quais
podem servir inclusive com sua própria lei, enquanto houver acristãos e pelo
ato de que não se pode forçar ninguém a ser cristão. Fica claro que as palavras
apenas se referem aos seus pelo fato de dizer depois (Mt 5,44.48) que devem
amar os inimigos e ser perfeitos como seu Pai celestial. Quem ama a seus
inimigos e é perfeito, abandona a lei, não tendo necessidade dela para pedir
olho por olho. Mas também não se opõe aos não cristãos e que não amam a seus
inimigos e querem fazer valer a lei; ele ajuda, inclusive, para que tais leis
submetam os maus para que não façam coisas piores.
Creio que com isso a
palavra de Cristo está consentânea com as passagens que instituem a espada. O
significado é o seguinte: Nenhum cristão deve tomar e invocar a espada para si
e para sua causa. Em favor de outros, porém, pode e deve tomá-la e apelar a ela
para que se impeça a maldade e se proteja a honestidade. Nesse sentido o Senhor
diz na mesma passagem (Mt 5,34ss) que um cristão não deve jurar, mas que sua
palavra deve ser: sim, sim, não, não. Isto é, por sua própria vontade ou prazer
um cristão não deve jurar. Mas quando a necessidade, a conveniência,
bem-aventurança e honra de Deus o exige, tem que jurar. Assim, a serviço de
outro usa o juramento proibido, da mesma maneira como para o bem do outro faz
uso da espada proibida. Neste sentido Cristo e Paulo juram freqüentemente para
tornarem seu testemunho e ensino útil e fidedigno aos homens. Assim se pratica
e se pode praticar em acordos e contratos, etc. A esse respeito o Salmo 63,12
diz: "São louvados quando juram por seu nome."
Agora continuas
perguntando se também os beleguins, carrascos, juizes e advogados e os que
pertencem a este tipo de profissão, podem ser cristãos e estar em estado
agradável a Deus. Resposta: Se a autoridade e a espada são serviços de Deus,
como acima foi provado, deve ser também serviço de Deus tudo quanto é necessário
à autoridade para que possa usar a espada. Pois é necessário que haja alguém
que prenda os maus, os acuse, pegue e mate, e proteja os bons, os desculpe,
defenda e salve Portanto, se não o fazem para seus próprios fins, mas somente
ajudam a impor o direito e a autoridade, com os quais os maus são vendidos, não
correm perigo e podem exercer o cargo como qualquer outra pessoa exerce um
ofício para ganhar o pão. Pois, como foi dito, o amor ao próximo não olha para
o que é próprio, também não olha se a obra é grande ou pequena, mas apenas em
sua utilidade e necessidade para o próximo ou para a comunidade.
Perguntas: Como
assim? Não poderia eu usar a espada em meu favor e em favor de minha causa, no
sentido de que não procurasse o que é meu, mas para que se castigue o mal?
Resposta: tal milagre não é impossível, mas muito raro e perigoso. Onde há
grande abundância de Espírito, bem pode ocorrer. Lemos a respeito de Sansão, Jz
15,11, que disse: "Fiz a eles o que fizeram a mim", mesmo que em
Provérbios 24,29, em contraposição, se diga: "Não digas, como ele me fez a
mim, assim lhe farei a ele"; e Provérbios 20,22:
"Vingar-me-ei do mal". Porque Deus havia chamado a Sansão para lutar
contra os filisteus e livrar os filhos de Israel. Mesmo que tenha procurado,
entre os inimigos, um motivo para a briga, baseando-se em sua própria causa,
ainda assim não o fez para vingar-se a si mesmo ou buscar o seu, mas para
servir a outros e castigar os filisteus. Mas ninguém poderá seguir seu exemplo
a não ser um cristão verdadeiro cheio do Espírito.
Quando a razão quer fazer o mesmo, pretextará que não está buscando o seu, mas
será falso desde o princípio. Pois sem a graça nada é possível; portanto,
faze-te, primeiro, igual a Sansão e então poderás também proceder como
ele.
SEGUNDA PARTE
Sobre os limites da
autoridade secular
Chegamos à parte
principal deste sermão. Havendo aprendido que a autoridade secular deve existir
na terra e como ela deve ser usada de maneira cristã e para a felicidade, temos
que aprender agora quão longo é seu braço e até onde se estende sua mão, para
que não se estenda demais e se intrometa no reino e regime de Deus. É muito
necessário saber isso. Pois ocorre um dano intolerável e terrível quando se lhe
dá excessiva amplitude, sendo também prejudicial limitá-la em demasia. Neste
caso castigaria pouco, no outro, em excesso. De qualquer forma, é melhor se
pecar no primeiro caso, castigando muito pouco; pois é sempre melhor deixar um
ladrão com vida do que matar um homem bom, já que no mundo há e tem que haver
malvados, enquanto há pouca gente de bem.
9. Em princípio, a
alma está livre do poder da autoridade.
Devemos anotar em
primeiro lugar: os dois grupos dos filhos de Adão dos quais um, como se disse
acima, está no Reino de Deus sob Cristo, enquanto o outro está no reino de
mundo sob a autoridade, têm dois tipos de lei. Pois todo reino deve ter suas
próprias leis e direitos, e, sem lei não pode existir reino nem regime algum
como o ensina suficientemente a experiência diária. O regime temporal tem leis
que apenas abrangem o corpo e os bens e as outras coisas exteriores na terra.
Pois sobre a alma
Deus não pode e não quer deixar ninguém governar a não ser somente ele. Por
conseguinte, se a autoridade secular se atreve a impor urna lei à alma, aí ela
interfere no regime divino, seduzindo e corrompendo as almas. Vamos esclarecer
isso de maneira palpável, para que os nossos aristocratas, os príncipes e os
bispos vejam quão insensatos são ao pretenderem, com suas leis e mandamentos,
forçar as pessoas a crerem desta ou daquela maneira.
Quando se impõe uma
lei humana à alma, exigindo que creia isto ou aquilo, conforme o
estipula o próprio
homem, é certo que não está ali a Palavra de Deus. Se não há Palavra de Deus, é
incerto se Deus assim o quer. Pois quando ele não o ordena, não podemos ter a
certeza de que lhe agrada. Pelo contrário: Tem-se a certeza de que Deus não se
agrada. Ele quer que nossa fé se fundamente apenas e exclusivamente em sua
palavra divina, como diz em Mt 16,18: "Sobre esta rocha quero edificar
minha Igreja", e Jo 10,4s: "Minhas ovelhas ouvem minha voz e me
conhecem, mas de modo nenhum ouvirão a voz do estranho, antes fugirão
dele". Disso se depreende que com um tal mandamento injurioso a autoridade
secular impele as almas à morte eterna. Pois obriga a crer como coisa certa e
seguramente agradável a Deus, o que é inseguro e certamente desagrada a Deus,
porque não há palavra clara de Deus que o abone. Pois quem crê ser certo o que
é injusto e incerto, nega a verdade que é o próprio Deus e crê na mentira e no
erro: tem por certo o que é incorreto.
Por isso é o cúmulo
da loucura quando ordenam que se creia na Igreja, nos pais da
igreja, nos
concílios, mesmo quando não há Palavra de Deus. São os apóstolos do diabo que
ordenam tais coisas e não a Igreja. Pois a Igreja não prescreve nada, se não
está segura de que é Palavra de Deus; assim diz S. Pedro (1 Pe 4,11): "Se
alguém fala, fale de acordo com a Palavra de Deus." Estão longe de
demonstrar que as decisões dos concílios são Palavra de Deus. Muito mais
insensato, porém, é quando se diz que os reis e príncipes e a grande massa
assim o crê. Por favor, não fomos batizados em nome de reis, príncipes ou da
multidão; somos chamados de cristãos. Ninguém pode ou deve dar ordens à alma,
se não sabe mostrar o caminho do céu. Isso, porém, nenhum homem pode fazer, mas
tão somente Deus. Nas questões que dizem respeito à bem-aventurança, portanto,
nada deve ser ensinado ou aceito a não ser a Palavra de Deus.
Por outro lado, mesmo
sendo insensatos grosseiros, devem admitir que não têm poder algum sobre a alma.
Pois nenhum homem pode matar uma alma nem ressuscitá-la, conduzi-la ao céu ou
ao inferno. E, se no-lo não quiserem acreditar, Cristo o demonstra
categoricamente, ao afirmar em Mt 10,28: "Não temei os que matam o corpo e
que depois nada mais têm o que fazer; temei, porém, àquele que depois de haver
matado o corpo tem o poder de condenar ao inferno." Eu, pelo menos, creio
que aqui se evidencia com suficiente clareza que a alma é colocada fora do
alcance dos homens e posta sob
o poder exclusivo de
Deus. Dize-me, agora: Qual a inteligência da cabeça que ordena algo para o que
não tem poder? Quem não teria por demente ao que ordena que a lua brilhe quando
a ele aprouver? Que aconteceria se os de Leipzig quisessem dar ordens aos de
Wittenberg e nós de Wittenberg déssemos ordens aos de Leipzig? Aos que
quisessem dar ordens desse tipo certamente se daria, em agradecimento, heléboro
para que limpem o cérebro e se livrem do resfriado. Não obstante, de momento,
nosso Imperador e príncipes agem dessa maneira e permitem
que o Papa, os bispos e os sofistas os
induzam (um cego conduzindo o outro) a ordenar a seus súditos que creiam sem
Palavra de Deus como bem lhes parece. 9 E, mesmo assim, querem ser chamados de
príncipes cristãos! Que Deus nos livre!
9) (Nota de Rodapé)
Na Holanda ocorreram
os primeiros martírios da Reforma Luterana. Os duques bávaros. o Príncipe
Eleitor de Brandenburgo. o duque da Saxônia - Meissen, e o regente da Áustria
exigiam de seus súditos a entrega da recém editada versão alemã do Novo
Testamento.
Além disso não se
pode conceber que qualquer autoridade deva ou possa agir a não ser
com respeito ao que
vê, reconhece, julga, opina, modifica e muda. Pois, que tipo de juiz seria o
que pretende julgar às cegas as coisas que não ouve nem vê? Dize-me, pois como pode um homem ver,
conhecer, julgar, sentenciar ou mudar os corações? Isto está reservado apenas a
Deus, como é dito no salmo 7,9: "Deus sonda a mente e o coração." E
Salmo 7,8: "O Senhor julga os povos", e At 1 24;15,8: "Deus
conhece os corações". E Jr 17,9s: "Mau e imperscrutável é o coração
humano; quem o conhecerá? Eu, o Senhor, que esquadrinho corações e
mentes." Para emitir um juízo, um tribunal deve e tem que estar completamente
seguro e ter clareza do que se trata. Mas os pensamentos e intenções a ninguém
são manifestos, a não ser a Deus.
Por isso, é vão e
impossível mandar a alguém ou forçá-lo a crer isso ou aquilo. Para isso é necessário outro
método; a violência nada alcança. E fico pasmado com os grandes loucos, pois
afirmam todos eles: "De occultis non iudicat ecclesia" (a igreja não
julga coisas ocultas). Se, pois, o regime espiritual da Igreja só governa as
coisas notórias, como se aventura o poder secular insensato a julgar e dominar
uma coisa tão oculta, espiritual e
secreta como a fé?
Além disso, cada um
corre o seu próprio risco quanto ao que crê, e deve procurar elemesmo uma fé
reta. Assim como alguém outro não pode ir por mim ao inferno ou ao céu,
tampouco pode crer ou deixar de crer por mim. Não me pode abrir ou fechar o céu
ou o inferno, nem é capaz de obrigar-me a crer ou descrer. Crer ou não crer é
assunto da consciência de cada um e isso não diminui em nada o poder da
autoridade secular. Por isso ela também deve contentar-se, e ocupar-se com seus
negócios e deixar que cada um creia isso ou
aquilo, como puder e quiser. Não se deve forçar ninguém. A fé é um ato livre ao
qual não se pode forçar ninguém; sim, é inclusive uma obra divina no Espírito.
Não se pode nem pensar que alguma autoridade externa possa impô-la ou criá-la.
Daí vem o conhecido provérbio citado também em Santo Agostinho: "Não se
pode e não se deve obrigar alguém a ter f'é "
As cegas e pobres
pessoas não vêem que se propõem algo vão e inútil. Por mais severamente que
ordenem e por mais que se enfureçam, nada mais conseguem que impelir as pessoas
a lhes obedecerem com a boca e com a mão. O coração, porém jamais conseguem
obrigar, ainda que se arrebentem. É verdadeiro o que diz o provérbio: "Os
pensamentos não pagam impostos." Por que, pois, insistem em obrigar as
pessoas a crer com o coração, vendo que é impossível? Forçam com a violência as débeis consciências a mentir,
negar e dizer outra coisa, do que sentem no coração. Assim eles próprios se
sobrecarregam com horríveis pecados alheios, pois todas as mentiras e falsos
testemunhos manifestados por tais consciências débeis recaem sobre o que as
obtém por coação. Sempre seria mais fácil deixar que os súditos simplesmente
errem do que forçá-los a mentir e a dizer outra coisa do que o que têm em seu
coração. Também não é justo combater
um mal com outro pior.
Queres saber por que
Deus dispõe que os príncipes temporais errem tão terrivelmente? Eu te direi:
Deus lhes perverteu os sentidos e quer exterminá-los como exterminou os
aristocratas eclesiásticos. Pois meus inclementes senhores, o Papa e os bispos,
deveriam ser bispos e pregar a Palavra de Deus. Nesse ponto, porém; se fazem
omisso converteram-se em senhores seculares e governam com leis que concernem
somente ao corpo e aos bens.
Inverteram as coisas maravilhosamente! Deveriam governar interiormente as almas
por intermédio da palavra divina. Mas governam exteriormente castelos, cidades,
países e pessoas, e torturam as almas com castigos indizíveis. Da mesma maneira
os senhores seculares deveriam governar exteriormente o país e o povo. Isso,
porém, não fazem. Nada mais sabem fazer que de esfolar e raspar, cobrando
imposto sobre imposto, uma taxa sobre taxa, soltar aqui um urso, ali um lobo.
10 Além disso não há neles nem fidelidade nem verdade, e portam-se de uma
maneira que até ladrões e bandidos considerariam excessiva. Seu regime secular
é tão decadente como o dos tiranos eclesiásticos. Por isso Deus também lhes
perverte os sentidos de modo que procedem absurdamente, arvorando-se a exercer
domínio espiritual sobre as almas, enquanto os outros querem governar
secularmente. Com isso cobrem-se tranqüilamente com pecados alheios, com o ódio
de Deus e de todos os homens, até perecerem junto com os bispos, padres e
monges, um malvado com o outro. Depois dão a culpa de tudo ao Evangelho, e, ao invés de fazerem
Ao invés de
protegerem o povo contra as feras, os príncipes protegiam os animais por causa
da caça.
penitência, blasfemam de Deus, dizendo que tudo isso é
resultado de nossa pregação quando, em verdade, é e será sempre merecimento de sua perversa maldade, como o
foi dos romanos ao serem destruídos. Vê, aí tens o decreto de Deus contra os grandes
palermas. Mas eles não o crerão para que este grave decreto divino não seja impedido por seu arrependimento.
Agora, porém,
objetas: "Paulo. disse em Rm 13,1 que toda a alma deva ser sujeita ao
poder e à autoridade: e Pedro diz (1 Pe 2,13) que devemos ser sujeitos a toda a
instituição. humana." Resposta: Tu me vens bem a propósito. Estes versículos
me favorecem. São. Paulo fala da autoridade e do poder superior. Acabas de
ouvir que ninguém pode
governar sobre a alma, a não ser Deus. Portanto. São Paulo não. pode falar de obediência a não ser
daquela que decorre do poder. Disso se depreende que ele não diz que o. poder
secular tenha a autoridade de governar a fé, mas sim que pode ordenar e
governar os bens externos na terra. Assim o demonstram com toda a clareza suas
palavras, quando limita o. poder e a obediência dizendo: (Rm 13,7): "Pagai
a cada um que lhe é devido: o. tributo ao que se deve tributo, honra ao que se
deve honra, respeito ao que se deve respeito." Vê, pois, que a obediência
e o poder temporais se referem somente a tributo, imposto, honra e respeito
externos, Além disso, quando. afirma
(Rm 13,3): "Os magistrados não existem para infundir temor às ordens boas,
mas às más", limita-lhes ainda mais a competência: ela está aí não para
dominar a fé, mas a maldade.
A isso se refere
também São Pedro quando fala de "instituição humana" (1 Pe 2,13).
Pois a instituição humana não se pode estender ao céu e à alma, mas somente à
terra, o convívio externo dos homens nos assuntos em que podem ver, reconhecer,
julgar, opinar, castigar e absolver.
O próprio Cristo fez
essa distinção com grande subtilidade e o resumiu brevemente,
quando diz em Mt
22,21: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus." Se o
poder imperial se estendesse ao reino e poder de Deus e não fosse algo a parte,
ele não os teria distinguido dessa maneira. Pois, como já disse: a alma não
está sob o poder do Imperador.Ele não a pode ensinar nem conduzir, nem matar,
nem ressuscitar, nem ligar, nem desligar, nem julgar, nem condenar, nem deter
nem soltar. Tudo isso deveria poder fazer, se tivesse autoridade sobre ela,
para dar-lhe ordens e impor-lhe leis. Sobre corpo, bens e honra, porém, ele tem
poder de o fazer. Pois isso está em sua competência
Já muito antes Davi
resumiu essa verdade breve e bela frase, ao dizer no Salmo 115,16: "O céu
confiou-o ao Senhor do céu, mas a terra deua ele aos filhos dos homens. "Isto
é, sobre o que está na terra e pertence ao reino terrenal e temporal, o homem
recebeu poder de Deus. O que, porém, se relaciona com o céu e o reino eterno,
está só sob a exclusiva autoridade do Senhor do céu. Moisés também não o
esqueceu quando diz em Gn 1,26:
"Disse Deus: Façamos homens que dominam sobre os animais na terra, sobre
os peixes na água, sobre os pássaros no ar." Aí se deu ao homem apenas o
regime externo. Em resumo, é o que afirma São Pedro em At 5,29: "Deve-se obedecer mais a Deus do que aos
homens." Com isso limita claramente o poder secular. Pois caso tivéssemos
que cumprir tudo o que quer a autoridade secular, teria dito em vão: "Deve-se
obedecer mais a Deus do que aos homens."
10. Conseqüências
práticas para o comportamento do cristão em relação à autoridade
secular.
Se, pois, teu
príncipe ou Senhor temporal te ordena sujeitar-se ao Papa, ou crer isso ou
aquilo, ou se te
ordena entregar livros, deves dizer-lhe: "Lúcifer não tem o direito de
assentar se ao lado de Deus. Amado senhor, é meu dever obedecer-vos com o corpo
e os bens. Dai-me ordens na medida de vosso poder na terra e eu obedecerei.
Contudo, se me ordenais crer e entregar livros, não obedecerei. Pois nesse caso
sois tirano e vos excedeis. Dais ordens onde não tendes nem direito nem poder,
etc." Se, em conseqüência, te tira
os bens e castiga tua desobediência, bem-aventurado serás! Dá graças a Deus por
seres digno de sofrer pela palavra e vontade divinas. Deixa que o louco se
enfureça: ele certamente encontrará seu juiz. Pois eu te digo: caso não lhe
contradisseres e permitires que te torne a fé e os livros, certamente terás
negado a Deus.
Para citar um
exemplo: Em Meissen, Baviera, Brandenburgo e outros lugares os tiranos
publicaram um edito, segundo o qual se deveria entregar os Novos Testamentos
nas repartições (públicas). Nesse caso seus súditos devem agir da seguinte maneira:
não devem entregar nem urna folhinha, nenhuma letra sequer, sob pena de
perderem a salvação eterna. Pois quem o fizer entrega a Cristo nas mãos de
Herodes, pois os príncipes procedem como os assassinos de Cristo, como Herodes.
(Mt 2,13.16).
Por outro lado os
súditos devem tolerá-lo, quando for dada a ordem de revistar-lhes as casas e levar, pela
força, livros ou bens. Não se deve resistir ao mal, mas tolerá-lo: não se deve,
porém, aprová-lo, nem colaborar com ele ou seguir e obedecer-lhe, nem com um
passo ou dedo sequer. Pois tais tiranos procedem como devem proceder os
príncipes deste mundo; são príncipes "mundanos". O "mundo",
porém, é inimigo de Deus. Por isso eles também têm que fazer o que é contra
Deus e agradável ao mundo, para que não percam seu bom nome, mas continuam
sendo príncipes "mundanos". Por isso não te espantes, quando se
enfurecerem e enlouquecerem contra o Evangelho; eles têm que
honrar seu título e
nome.
E, deves saber que
desde o início do mundo um príncipe sábio é ave rara, e um príncipe
honesto mais raro
ainda. Em geral são os maiores e os piores patifes da terra; por isso sempre
tem que se esperar o pior deles e pouco de bom, especialmente em relação às
coisas divinas que dizem respeito à salvação da alma. Pois são alcaides e
carrascos de Deus e sua ira divina usa os para castigar os maus e manter a paz
externa. E um grande senhor o nosso Deus. Por isso necessita de tais carrascos
e algozes nobres, ilustríssimos e
ricos, e quer que tenham em grande abundância riqueza, honra e temor da parte
de todos. E sua vontade que chamemos a seus carrascos de clementíssimos
senhores, caiamos a seus pés e lhes sejamos submissos enquanto não excederem em
seu cargo, querendo "transformar-se de carrascos em pastores. Se alguma
vez acontece que um príncipe é sábio, honesto e cristão, estamos diante de urna
grande maravilha e do sinal mais precioso da graça divina sobre esse país.
Pois, em geral, vale a sentença de Isaías 3,4: "Dar-lhes-ei meninos por
príncipes e bocas-abertas serão seus senhores. " E, Oséias
13,11: "Dar-te-ei um rei na minha ira e to tirarei no meu furor." O
mundo é demasiado mau e não merece ter muitos príncipes sábios e honestos. As
rãs necessitam de cegonhas. 11
11 (Nota de Rodapé)
Lutero refere-se a
uma fábula de Isopo. Conta que as rãs tiveram por primeiro rei um tronco de
árvore, e o ridicularizavam. Então Q deus deu-lhes por rei uma cegonha que
devorava as rãs.
Objetas outra vez: "O poder temporal não obriga a
crer. Apenas impede exteriormente que as pessoas sejam seduzidas com doutrina
falsa. De que outra maneira se poderia resistir aos hereges? " Resposta:
Isso é função dos bispos, é a eles que foi conferida esta tarefa (Tt 1,9ss) e
não aos príncipes. Pois a heresia nunca pode ser combatida com a violência. Aí
tem que se aplicar outros meios. Essa briga e esse negócio não se fazem com a
espada. Aqui a arma é a Palavra de Deus. Se esta não tiver êxito, certamente o
poder " secular também não o terá, mesmo que inunde o mundo com sangue. A
heresia é assunto espiritual. Não pode ser destruída com ferro, queimada com
fogo, nem afogada em água. Para isso existe apenas a Palavra de Deus; esta o
faz como diz São Paulo em 2 Cor 10,4s: "Nossas armas não são carnais, mas
poderosas em Deus para destruir todo plano e tudo o que é altaneiro que se
volta contra o conhecimento de DeuNós subordinamos todo
o pensamento ao serviço de Cristo." .
Aliás, nada melhor
para fortalecer a fé e a heresia do que combatê-las com pura
violência, sem a
Palavra de Deus. Pois se está convicto que tal poder não se apóia em causa
justa e que age contra o direito, pois procede sem a Palavra de Deus e sabe
apenas recorrer à força bruta como o fazem os animais irracionais. Também nas
coisas terrenas não se pode agir com a violência, a não ser que a injustiça tenha
sido denunciada primeiro por um processo judicial. Quanto menos é possível agir
com violência nestas coisas espirituais, sem direito nem Palavra de Deus! Vê
que belos e inteligentes senhores são estes! Querem exterminar a heresia. Com
seu procedimento, porém, usam somente meios que robustecem o adversário,
tornando-se eles mesmo suspeitos e justificando aqueles. Amigo, se queres
exterminar a heresia, tens que usar do artifício correto: tens que, antes de
mais nada, arrancá-la do coração e afastá-la radicalmente com o consentimento
(das pessoas). Com violência não o conseguirás, pelo contrário, somente a
fortalecerás. De que te valerá se fortaleceres a heresia nos corações e a
enfraqueceres apenas exteriormente na língua, forçando a mentir? A Palavra de
Deus, porém, ilumina os corações, e com isso toda a heresia e erro saem, por si
mesmo, do coração.
O profeta Isaías
anunciou esta destruição da heresia (11,4): "Ele ferirá a terra com a vara
de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará o perverso." Aí vê que o
extermínio ou conversão do ímpio se realizará com a boca. Resumindo: Tais
príncipes e tiranos não sabem que combater a heresia significa lutar contra o
diabo que tornou posse dos corações com seu engano. Nesse sentido Paulo diz em
Ef 6,12: "Nossa luta não é contra o sangue e a
carne, e, sim, contra o poder maligno de natureza espiritual, contra os príncipes
que governam esta treva, etc." Portanto, enquanto não se expulsar o diabo
e o afugentar dos corações, é o mesmo que querer destruir seus instrumentos com
o fogo, ou lutar contra um raio com uma palhinha. Jó (41,18) deu amplo
testemunho a este respeito, dizendo que o diabo tem o ferro por palha e não
teme nenhum poder na terra. Também a experiência o ensina. Mesmo que se queime
todos os judeus e hereges à força, nenhum deles é nem será convencido nem convertido.
Contudo este mundo
precisa de tais príncipes. Nenhuma parte cumpre a função que lhe
cabe. Os bispos hão
de abandonar a Palavra de Deus e não governarão as almas com ela. Confiam este dever
aos príncipes seculares para que eles o executem pela espada. Por outro lado os
príncipes temporais admitirão (e cometerão eles mesmos!) usura, roubo,
adultério e outras obras más, para depois mandar os bispos castigar estas
coisas com bulas de excomunhão. Dessa maneira invertem o sapato: as almas
governam nas com ferro, e o corpo, com cartas, de modo que os príncipes
temporais governam espiritual, e os príncipes
espirituais, temporalmente. Que outra coisa tem o diabo a fazer na terra, senão
fazer: gato e sapato de seu povo? Esses são nossos príncipes cristãos que
defendem a fé e querem devorar o turco. De fato, bons companheiros, nos quais
certamente se pode confiar! Uma coisa conseguirão com tal inteligência e
sutileza: quebrarão o pescoço e lançarão o país e o povo em desgraça e miséria.
Quisera aconselhar
com toda a lealdade a esta gente desvairada para que se cuidem de um pequeno
versículo do Salmo 107,40: "Deus derramou seu furor sobre os
príncipes". Eu vos juro, por Deus, se esquecerdes que este pequeno
versículo se cumprirá em vós, estais perdidos, mesmo que cada um de vós fosse
poderoso como o turco. Vosso bufar e esbravejar de nada valerá. Isso já começou
em grande parte. Pois há bem pouco príncipes que não sejam considerados loucos
ou patifes. Isso porque se apresentaram como tais e o homem simples começa a
compreender as coisas. O flagelo dos príncipes (que Deus denomina de
contemptum - desprezo) se difunde amplamente entre o povo e o homem simples, e
eu temo que não pode ser reprimido se os príncipes não se conduzirem como
príncipes e reiniciarem a governar com juízo e prudência. Não se tolerará, não
se pode nem se quer tolerar indefinidamente vossa tirania e caprichos! Queridos
príncipes e senhores, atendei a isso. Deus não o tolerará por mais tempo. O
mundo já não é mais aquele como quando caçáveis e perseguíeis as pessoas como animais de caça. Por
isso deixai vossos crimes e violências e pensai em proceder com justiça. E dai
à Palavra de Deus curso livre, o curso livre que ela quer e deve ter, e vós não
o impedireis. Se há heresia, que seja superada como convém com a Palavra de
Deus. Se, porém, desembainhais por demais a espada, cuidai para que não venha
alguém e vos mande embainhá-la e isso não em nome de Deus!
Talvez pudesses
objetar: "Não devendo haver espada temporal entre os cristãos, como
governá-los
exteriormente? Deve, pois, haver uma autoridade também entre os cristãos!"
Resposta: Entre cristãos não deve nem pode haver autoridade alguma, contudo
cada um é submisso ao outro, como diz Paulo em Rm 12,10. 12 "Cada
um considere o outro como seu superior", e Pedro (1 Pe 5,5): "Sede
todos submissos uns aos outros." Isto é o que também Cristo quer (Lc
14,10): "Quando fores convidado às bodas, toma o
último lugar." Entre os cristãos não há superior a não ser o próprio
Cristo. E que autoridade pode haver quando todos são iguais e têm o mesmo
direito, poder, bem e honra, e quando ninguém deseja ser superior, mas o
subordinado do outro? Entre pessoas assim não se pode instituir autoridade
alguma, ainda que se quisesse, porque sua natureza não suporta ter superiores
pelo fato de ninguém querer e poder ser superior. Onde,
porém, não houver gente desse tipo, ali também não há verdadeiros cristãos.
12 (Nota de Rodapé)
Na verdade, Lutero
cita Fp 2,3 e não Rm 12,10.
Que, pois, são os
sacerdotes e bispos? Resposta: Seu cargo não é de autoridade ou poder, mas
serviço e função. Não são mais eminentes nem melhores que outros cristãos. Por
isso não devem impor lei ou mandamento a outros sem a vontade e o consentimento
deles. Seu governo não é outra coisa que pregar a Palavra de Deus e com ela
conduzir os cristãos e vencer a heresia. Como, .disse, os cristãos não podem
ser governados com outra coisa, a não ser com a Palavra de Deus. É assim que
diz Paulo Rm 10,17: “A fé vem pela
pregação, a pregação pela palavra de Deus." Aqueles, pois, que não crêem,
não são cristãos, nem pertencem ao reino de Cristo, mas ao reino secular para
que sejam forçados com a espada e o regime externo. Os cristãos fazem todo o bem
de per si, sem pressão, e se contentam com a Palavra de Deus. Todavia, a respeito
deste tema escrevi muito 13 e freqüentemente.
13 (Nota de rodapé)
Especialmente em "Da Liberdade Cristã", disponível no vernáculo
na Editora Sinodal.
TERCEIRA PARTE
A respeito do desempenho cristão do encargo da autoridade secular
11. Exigências
básicas para um governante cristão.
Agora que sabemos até
onde se estende a autoridade secular, é tempo de dizer como a deve usar um
príncipe. Fazemos isso por amor aos que querem ser príncipes e senhores
cristãos e que também desejam chegar à outra vida. Estes, em verdade, são muito
poucos. O próprio Cristo descreve a índole dos príncipes temporais em Lc 22,25
com as palavras: "Os príncipes seculares dominam e os que têm autoridade
procedem com violência." Pois, tendo nascido nobres ou sido eleitos,
crêem ter o direito de serem servidos e de governar com violência. O que quiser
ser príncipe cristão tem que, realmente, desistir da idéia de governar e
proceder com violência. Pois, maldita e condenada é toda a vida que se vive em
benefício do próprio. Malditos todas as obras não inspiradas pelo
amor. Elas se inspiram no amor quando não se deixam guiar pelo prazer,
proveito, honra, comodidade e salvação da própria pessoa, mas quando procuram,
de todo o coração, o proveito, honra e salvação de outros.
Por isso nada quero
dizer aqui a respeito dos assuntos seculares e leis da autoridade. E um tema
muito .amplo e, além disso, já há livros jurídicos em demasia. E claro que
quando o príncipe não é mais entendido que seus juristas e quando sua sabedoria
não passa do que se encontra nos livros jurídicos, certamente governará segundo
o provérbio (Pv 28,16): "O príncipe falto de inteligência multiplica a
opressão." Pois por boas e
apropriadas que sejam as leis, todas elas têm uma reserva: não podem ser
aplicadas em situações imprevistas. Por isso um príncipe deve aplicar o direito
com a mesma firmeza com que conduz a espada, e deve resolver com critérios
próprios onde e quando o direito deve ser aplicado com rigor e onde abrandado.
A sensatez deve, pois, sempre governar o direito e permanecer a lei máxima: e o
mestre de todo o direito. E o caso do pai de família: mesmo que determine tempo
e medida de trabalho e alimentação para seus servos e filhos, deve manter essas
disposições sob seu domínio: tem que poder modificar ou relaxá-las, caso seu servo
adoeça, seja preso, se atrase, seja enganado ou impedido de outra maneira, e
não pode tratar os enfermos com o mesmo rigor com que trata os sãos. Digo isso
para que não se pense que é suficiente e digno de louvor, seguir o direito
escrito e os jurisconsultos. E necessário algo mais.
Como deve proceder um
príncipe se não é tão inteligente e tem que aceitar a orientação de juristas e
livros jurídicos? Resposta: Por isso eu disse que a condição de príncipe é
perigosa. E se ele próprio não tem capacidade para dirigir seu direito e seus conselheiros, aí as
coisas andam de acordo com a sentença de Salomão (Ec 10,16): “Ai da terra cujo rei
é criança!" Salomão também o
reconheceu. Por isso desesperou ante todo o direito que Moisés havia prescrito
também para ele com o auxílio de Deus, e também ante todos os seus príncipes e
conselheiros e dirigiu-se ao próprio Deus, pedindo por um coração sábio para governar
o povo (1 Rs 3,12). Um príncipe deve imitar este exemplo; deve agir com temor e
não confiar nos livros mortos, nem em cabeças vivas, mas ater-se somente a
Deus, orar com insistência e pedir-lhe entendimento reto - o que é melhor que
os livros e mestres - para governar seus súditos com sabedoria. Por isso, eu
não saberia prescrever ao príncipe nenhuma lei. Quero, porém, instruir-lhe
apenas o coração para que saiba como agir desta maneira, certamente Deus lhe
dará a inteligência de executar correta e piedosamente toda a lei, decisões e
negócios.
12. Regras de
comportamento para um príncipe cristão.
Em primeiro lugar
deve considerar seus súditos e conseguir a correta disposição de seu
coração. Isso ele o
fará quando concentrar todos seus pensamentos no intuito de ser-lhes útil e
servir-lhes. Não deve pensar: "A terra e as pessoas são minhas; farei o
que me agrada", mas sim: "Pertenço ao país e às pessoas. Farei o que
é bom e proveitoso para eles. Não serei altaneiro e dominador, mas procurarei
protegê-los e defendê-los com uma paz boa." Fixará seus olhos em Cristo e
dirá: "Vê, Cristo, o príncipe supremo, veio e me serviu; não
procurou poder, bem e honra em mim, mas viu minha necessidade e fez tudo para
que eu tenha poder, bem e honra por seu intermédio. Por isso farei o mesmo. Não
procurarei meu interesse em meus súditos, mas o deles. Também eu lhes servirei
assim em meu cargo. Protegê-los-ei, ouvi-los-ei e os defenderei. Governarei
apenas para que eles tenham bens e proveito, e não eu"! É assim, pois, que um príncipe se desprenderá
de seu poder e autoridade, e cuidará das necessidades de seus súditos e agirá como se
tratasse de suas próprias necessidades. Pois foi desse modo que Cristo procedeu
conosco, e estas são as verdadeiras obras de amor cristão.
Agora, porém,
retrucas: "Quem, então, quererá ser príncipe? Com isso a posição de um
príncipe seria a mais
miserável sobre a terra. A função lhe acarretaria muito trabalho, fadiga e
desgosto. Onde ficariam os prazeres principescos, com bailes, caças, torneios,
jogos e os outros prazeres mundanos? A
isso respondo: No momento não ensinamos, como deve viver um príncipe secular,
mas como um príncipe secular pode conduzir-se cristãmente para poder chegar ao
céu. Quem é que não sabe que um príncipe é caça rara no céu? Também não falo
porque tivesse a esperança de que os príncipes seculares me levassem a sério, mas apenas para o caso de que
houvesse algum que também quisesse ser cristão e desejasse saber como se
conduzir. Pois estou plenamente convicto de que a Palavra de Deus não se
orientará pelos príncipes; os príncipes é que devem orientar-se por ela.
Basta-me mostrar que não é impossível um príncipe ser cristão, mesmo que isso
seja raro e difícil.Pois se cuidassem que seus bailes e caças e torneios não prejudicassem
a seus súditos e, se além disso, exercessem seu ministério em amor ou a eles,
Deus não seria tão rigoroso ao ponto de não lhes permitir bailes, caças e
torneios. Se, porém, de acordo com seu ministério, dedicassem cuidados a seus
súditos, certamente descobririam
por si mesmos que muito bom baile, caça, torneio e jogos deveriam ser deixados
de lado.
Em segundo lugar, um
príncipe deve precaver-se dos grandes senhores, de seus conse
lheiros, e
conduzir-se em relação a eles de tal maneira que não desconsidere nenhum, mas
também que não confie em nenhum a ponto de por em suas mãos todas as decisões.
Pois Deus não tolera nenhuma das duas coisas. Certa vez falou por meio de uma
mula (Nm 22,28). Por conseguinte não se deve desprezar ninguém, por
insignificante que seja. Por outro lado, expulsou do céu o anjo supremo (Is
14,12; Lc 10,18). Por isso não se pode confiar em pessoa alguma, por mais
inteligente, santa e grande que seja. Deve-se, porém, ouvir a todos e esperar
para ver por meio de quem Deus quer falar e agir. A maior inconveniência que há
nas cortes é quando um príncipe suborna sua razão aos grandes senhores e
bajuladores, deixando ele próprio de governar. Pois, quando um príncipe comete
um erro ou faz uma loucura, isso não prejudica apenas a um homem; o país e o
povo inteiro têm que sofrer por causa dessa loucura. Por isso um príncipe deve
confiar em seus poderosos e deixá-los agir até o ponto em que ainda possa ter
as rédeas em suas mãos; não pode
embalar-se em segurança nem dormir, mas inspecionar e viajar pelo país, como o
fez Josafá (2 Cr 19,4ss), assegurando-se de como se governa e julga. Assim ele
próprio descobrirá que não se deve confiar plenamente
em nenhuma pessoa.
Pois não penses que um outro se preocupe tanto por ti e teu país como tu próprio,
a não ser que esteja cheio de Espírito e seja um bom cristão. Um homem natural
não o faz. Já que não sabes se é cristão ou quanto tempo o será, não podes
fiar-te completamente nele.
E cuida-te, acima de
tudo, dos que dizem: "Senhor, Vossa Mercê não confia em mim mais do que
isso? Quem quererá servir a Vossa Magnanimidade (a não ser eu)?" Este,
certamente, não é sincero. Quer ser o dono do país e transformar-te em
papa-moscas inativo. Se fosse um cristão correto e honesto ficaria contente por
não confiares nele e te elogiaria e amaria pelo fato de o controlares tão bem.
Pois já que age de acordo com a vontade de Deus, quer e pode desejar que sua
ação seja conhecida por ti e por todos, como diz Cristo (]o 3,21): "Quem
pratica a verdade aproxima-se da luz a fim de que suas obras sejam manifestas,
porque feitas em Deus." Esse, porém, quer cegar-te e agir na escuridão,
como diz Cristo na mesma passagem (Jo 3,20): "Todo aquele que pratica o
mal, aborrece a luz, a fim de que suas obras não sejam castigadas." Por
isso, cuidado com ele. E se ele murmurar por causa disso, dize lhe: "Meu
caro, não te faço injustiça. Deus não quer que eu confie em mim ou em qualquer
outro homem. Briga com ele por causa disso, por ele te haver criado apenas como
homem: Mesmo que fosses um anjo, também não confiaria plenamente em ti, pois
também em Lúcifer não se pôde confiar. Só se deve confiar em Deus."
Que nenhum príncipe
pense que terá melhor sorte que Davi, exemplo de todos os príncipes. Ele tinha
um conselheiro de nome Aitofel; este era tão sábio que o texto diz (2 Sm 16,23)
que tudo o que Aitofel dizia tinha o mesmo valor que perguntar ao próprio Deus.
Não obstante, caiu e chegou ao extremo de querer trair, estrangular e
exterminar a Davi, seu próprio senhor. Naquela ocasião Davi teve que aprender
que não se deve confiar em ninguém. Por que teria Deus deixado acontecer e
transcrever exemplo tão terrível? Ele o fez para prevenir os príncipes e
senhores da mais perigosa desgraça que lhes pode suceder, a fim de que não
ponham sua confiança em ninguém. Ê muito lamentável quando nas cortes governam
os aduladores, ou o príncipe se fia em outros, sendo dominado por eles,
deixando que cada um faça o que quer.
Dizes agora: "Se
não devemos confiar em ninguém, como se governará um país e seus habitantes?"
Resposta: Deves dar ordens e arriscar, mas não deves confiar e fiar-te em
outros, a não ser em Deus somente. Naturalmente tens que confiar os cargos a
alguém e fazer urna tentativa com ele, mas não deves ter mais confiança nele do
que em urna pessoa que pode falhar. Por isso tens que continuar vigiando e não
podes dormir. Ê o caso do
carroceiro: ele confia nos cavalos e na carroça que ele dirige: Contudo não os
deixa andar sozinhos. Segura rédeas e relho na mão e não dorme. Recorda os antigos
provérbios que, sem dúvida, são fruto da experiência e merecem confiança.
"O olho do amo engorda o cavalo." E: "As pegadas do amo adubam
bem a terra." Isso é, quando o próprio senhor não se ocupa com as coisas e
se fia em conselheiros e empregados, aí as coisas não andam
bem. Deus quer que assim seja e o deixa acontecer, para que os senhores se
vejam obrigados, por necessidade, a se ocuparem eles mesmos com seu ministério,
assim como também cada pessoa tem que se ocupar com sua profissão e toda criatura
se ocupa com sua tarefa. Caso contrário, os senhores se transformam em porcos
gordos e pessoas inúteis que não servem a ninguém, a não ser a si próprios.
Em terceiro lugar, um
príncipe deve ter o cuidado de agir corretamente com os malfeitores. Aqui ele
tem que ser muito prudente e sábio para castigar sem lançar os demais na
perdição. E, novamente, não conheço melhor exemplo que Davi. Este tinha um
capitão de nome Joabe que cometeu dois crimes graves, matando traiçoeiramente a
dois capitães (2 Sm 3,27; 20,10). Por isso merecia a morte duas vezes. Mesmo
assim Davi não matou a
Joabe durante a sua vida, mas recomendou isso a seu filho Salomão (1 Rs 2,5s). Sem
dúvida, agiu dessa maneira porque não o podia executar sem dano e escândalo
maiores. Assim também o príncipe deve castigar os maus; caso contrário quebra
um prato na tentativa de ajuntar uma colher por causa de uma cabeça expõe o
país e o povo ao perigo e enche o país de viúvas e órfãos. Por isso não deve
dar ouvidos aos conselheiros e generais que o instigam e provocam a fazer
guerra, dizendo: "Ah. por acaso vamos agüentar
tais insultos e injustiça?" Aquele que arrisca o país por causa de um
castelo, é um muito mau: cristão. Para ser breve, aqui é preciso ater-se ao
provérbio: "Quem não pode fazer vistas grossas não pode governar." Portanto seja esta a regra de um príncipe: Quando
não puder castigar uma injustiça sem provocar outra maior, deixe de lado seu
direito, mesmo que esteja muito bem fundamentado. Não deve olhar para o seu
prejuízo, mas para a injustiça que os outros têm que sofrer, caso ele impusesse
o castigo. Pois, o que fizeram tantas mulheres e crianças para ser
transformadas em viúvas e órfãos somente para que "tu te possas vingar de
uma boca inútil ou de uma mão malvada que te ofendeu?
Agora retrucas:
"Será que um príncipe não deve fazer guerras ou será que seus súditos não
o devem seguir. na batalha?" Resposta: Trata-se de uma questão muito
complexa. Mas, para dizê-lo em poucas palavras: Para proceder cristãmente neste
caso, nenhum príncipe deve iniciar guerra contra seu superior, o rei ou o
imperador, ou quem quer que seja seu senhor feudal. Se alguém quer tirar algo,
que o leve! Pois não se deve resistir à autoridade com a violência, mas apenas
com o testemunho da verdade. Se ela o levar em conta, está bem; caso contrário,
não tens culpa e sofres injustiça por amor a Deus.
Quando o adversário é
igualou inferior a ti ou está submisso a uma autoridade estranha, deves oferecer-lhe
primeiro justiça ou paz, como o ensinou Moisés aos filhos de Israel. Se ele não
o quiser, cuida do teu interesse e defende-te com violência contra violência,
como Moisés o indica magnificamente (Dt 20,10ss). Neste caso não deves olhar
para o que é teu e como hás de permanecer senhor, mas para teus súditos, aos
quais deves proteção e auxílio, para que esta obra seja feita em amor. Pois
enquanto todo teu país estiver em perigo, tens que correr o risco, e, quem
sabe, Deus te ajuda, para que não seja destruído tudo. E, se não puderes evitar
que surjam algumas viúvas e órfãos, tens que procurar evitar que não se perca
tudo e que só permaneçam viúvas e órfãos.
Neste caso os súditos
estão obrigados a obedecer e a arriscar corpo e bens, pois cada um
tem que arriscar seus
bens e sua vida por amor aos outros. Em semelhante guerra é cristão e uma obra
de amor exterminar, matar e incendiar, entre os inimigos, e fazer tudo o que
causa dano até que sejam vencidos, - como acontece na guerra. Somente devemos
precaver-nos dos pecados, não violentando mulheres e moças. Obtida a vitória,
devemos conceder graça e paz aos que se rendem e se humilham. Neste caso deve
se aplicar o provérbio: Deus ajuda ao mais forte. Foi assim que agiu Abraão ao
vencer os quatro reis (Gn 14,14ss). Naquela ocasião matou a muitos e não
demonstrou muita misericórdia até que os venceu. Tal caso deve ser visto como
missão de Deus; com ela ele pretende varrer o país e expulsar os patifes.
Mas como? Se um
príncipe não tivesse razão, seu povo ainda assim estaria obrigado a segui-lo? Resposta:
Não. Pois não convém a ninguém fazer algo contra o direito, antes devemos
obedecer a Deus, que quer o direito, mais do que aos homens (At 5,29). E se os
súditos não souberem se o príncipe tem razão ou não? Resposta: Enquanto não o
souberem e não o conseguirem descobrir, mesmo que com a concentração de todos
os esforços, podem segui-lo sem perigo para suas almas. Pois em tal caso tem
que se aplicar a lei de Moisés (Êx 21,13), onde ele escreve que um homicida que
matou a alguém ignorante e involuntariamente, deve ser absolvido pelo tribunal,
quando houver fugido para uma cidade de refúgio (Nm 35,10ss). Pois, a parte que
for derrotada, tenha razão ou não tenha, terá que aceitá-lo como um castigo da
parte de Deus. Mas a parte que combater, (a outra) na mesma ignorância, e
vencer, deve considerar o fato de vencer (a outra) como se alguém houvesse
caído do telhado e nessa ocasião matasse um outro. Deve deixar o assunto nas
mãos de Deus. Pois para Deus é o mesmo se ele te tira teus bens e tua vida por
meio de um senhor justo ou injusto. Tu és sua criatura e ele pode fazer contigo
o que quer, desde que tua consciência esteja sem culpa. Assim o próprio Deus desculpa o rei
Abimeleque (Gn 20,6) quando este toma a mulher de Abraão; não por ter razão,
mas por não saber que era a mulher de Abraão.
Em quanto lugar - em
si, esse deveria ser o primeiro ponto. Também já falamos a seu respeito mais
acima - um príncipe também deveria portar-se cristãmente em relação a Deus,
isso é, ele deve submeter-se a ele em total confiança e pedir-lhe sabedoria para
bem governar, como o fez Salomão (1 Rs 3,9). Contudo, já escrevi tanto a
respeito da fé e confiança em Deus que aqui não é necessário entrar mais a
fundo na questão. Por este motivo não insistiremos mais.
Queremos concluir com
a observação final de que um príncipe deve dividir suas atenções em quatro
sentidos: 1. em relação a Deus deve ter verdadeira confiança e sincera oração;
2. em relação a seus súditos, deve dirigir-se com amor e serviço cristão. 3. em
relação a seus conselheiros e plenipotenciários, deve manter um critério livre
e um discernimento independente; 4. em relação aos malfeitores, deve mostrar
seriedade modesta e rigor. Desse modo confirmará seu ministério exterior e
interiormente; agradando a Deus e às
pessoas. Também deve estar preparado para sofrer muita inveja e sofrimento.
Muito em breve a cruz pesará sobre um tal propósito.
13. Como julgar
processos de restituição.
Por fim, como
apêndice, devo dar informações aos que discutem a respeito da restituição isso
é, a respeito da devolução de bens indevidamente apropriados. Pois esta é uma
função da espada secular. Muito se escreve a este respeito e se procura muito
rigor exagerado. Pretendo expor tudo resumidamente e eliminarei de vez todas as
leis e prescrições rigorosas que já foram feitas a este respeito. Não se pode
encontrar nesta questão lei mais segura que a do amor. Primeiro: quando se te
apresenta uma tal ques tão, onde um deve
devolver algo ao outro a coisa se resolverá imediatamente caso os dois forem
cristãos. Pois nenhum reterá o que é do outro e também nenhum pedirá sua
devolução. Se, porém, apenas um for cristão, a saber, aquele ao qual deve ser
feita a restituição, a questão se resolverá novamente com facilidade. Pois ele
não reclamará, caso não lhe for restituída. O mesmo ocorrerá se for cristão o
que deve restituir: - ele restituirá. Contudo, seja cristão ou não-cristão,
deves julgar a respeito da restituição da seguinte maneira:
se o devedor é pobre e não pode devolver, e o outro não é indigente, deves
aplicar a lei do amor e libertar o devedor. Pois, segundo esta, o outro também
está obrigado a perdoar e ainda restituir mais, se for necessário. Mas se o
devedor não é pobre, faze-o devolver o quanto puder, seja o total, a metade, a
terceira ou a quarta parte.
Não obstante, hás de deixar lhe o suficiente em moradia, alimentação e
vestuário, para ele próprio, sua mulher e filhos. Pois terias a obrigação de
dar-lhe isso se o pudesses. Muito menos lhe hás de tirar, já que não o
necessitas e ele não pode prescindir!
Se, porém, ambos não
forem cristãos ou se um deles não se quiser deixar julgar conforme a lei do
amor, podes mandá-los procurar outro juiz e dirás àquele (que não se sujeita à
lei do amor) que age contra Deus e o direito natural, mesmo que de acordo com a
lei humana obtenham o máximo rigor. Pois a natureza e o amor ensinam que devo
fazer o que quero que me façam. (Mt 7,12). Por isso não posso explorar ninguém
dessa maneira, ainda que
tenha todo direito, pois eu não gostaria de ser explorado dessa maneira. Pelo
contrário, se eu quisesse que o outro, em tal situação, desistisse do seu
direito em relação a mim, nesse caso deveria também eu desistir de meu direito.
Assim se deve
proceder com todo o bem injusto, seja secreta ou publicamente; sempre deve prevalecer o
amor e o direito natural. Pois se julgas conforme o amor, arbitrarás e
arranjarás facilmente todas as coisas sem obras jurídicas. Se, porém, não
observares a lei do amor e da natureza jamais agirás de maneira que agrades a
Deus, mesmo que tenhas devorado todas as obras jurídicas e juristas; estes te
confundirão tanto mais, quanto mais refletires a seu respeito. Uma sentença,
verdadeiramente boa não pode ser tirada de livros; deve provir de uma livre
reflexão, como se não existisse livro algum. Tais sentenças livres
emanam do amor e do direito natural, do qual toda a razão está cheia. Dos
livros somente provêm sentenças inescrupulosas e incertas.
Um exemplo: Conta-se
a seguinte história a respeito do duque Carlos de Borgonha. Um
nobre prendeu seu
inimigo. Veio então a mulher do prisioneiro para libertá-lo. O nobre prometeu
libertar o marido, caso ela se deitasse com ele. A mulher era honesta, mas
mesmo assim queria libertar o marido. Foi ter com ele e lhe perguntou, se o
deveria fazer para conseguir sua libertação. O homem queria a liberdade e
salvar sua vida, e deu permissão à mulher. Depois de haver mantido relações com
a mulher, o nobre mandoudecepar a cabeça do
marido e entregou-o morto à mulher. Ela denunciou tudo isso ao duque Carlos.
Este citou o nobre e ordenou-lhe casar com a mulher. Quando terminaram as
bodas, mandou decapitar o homem e pôs a mulher sobre seus bens, devolvendo-lhe
a honra. Assim castigou a maldade de maneira verdadeiramente principesca.
Vê, semelhante
sentença nenhum Papa, nenhum jurista e nenhum livro lhe poderia ter dado; pelo
contrário, ela surgiu da livre razão, superior a todos os livros. A sentença é
tão boa que todas as pessoas a têm que aprovar e encontram a confirmação disso
em si mesmos, no coração. Santo Agostinho escreve algo semelhante em seu passado
sobre o Sermão do Monte.
Por isso o direito
escrito deveria ficar sujeito à razão, pois surgiu dela, que é a fonte de
todo o direito. Não
se deveria fazer a fonte depender dos arroiozinhos e aprisionar a razão com
letras.
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