O MONGE QUE CONQUISTOU ROMA





















O Monge

Que

Conquistou


Roma















INTRODUÇÃO

Do Novo Testamento à Reforma

Quando os cristãos estudam o livro de Atos e as epístolas de Paulo, percebem como era a igreja no primeiro século. Todavia, quando começam a estudar a vida de Martinho Lutero e vêem como era a igreja daquela época, ficam pasmos. Como aconteceu tamanho desastre? Por essa razão é necessário considerar rapidamente a mudança que a igreja teve nos 1400 anos entre as comunidades do Novo Testamento e Lutero.

Quando o último apóstolo faleceu (por volta do ano 100 d.C.) existiam congregações cristãs nas principais cidades ao longo de todo o litoral do mediterrâneo. Pelo ano 200, o cristianismo se havia expandido também a todas as cidades importantes do interior do império. Um século depois, a fé cristã já estava presente em muitas áreas rurais. Por volta do ano 400 uma parte considerável da população do mundo romano havia se tomado cristã.

Um dos fatores externos mais importantes neste crescimento foi alegalização do cristianismo. Durante quase 300 anos o governo imperial romano havia negado a condição legal à igreja. Às vezes a igreja era perseguida duramente. Porém, no ano 312 o imperador Constantino legalizou o cristianismo e ele mesmo confessou a sua fé em Jesus Cristo. Esta nova paz teve bons resultados para a igreja: estava livre para difundir o evangelho; a igreja podia possuir propriedades e construir seus prédios; e também os cristãos podiam desempenhar um papel mais atuante no própriogoverno e na sociedade. Por outro lado, a igreja não pôde instruiradequadamente a grande quantidade de gente que chegou até ela. Como resultado disso, muitos, ao unirem-se à igreja introduziram idéias e costumes pagãos. Outros uniram-se à igreja pensando que essa atitude agradaria ao Imperador, promoveria suas carreiras e negócios, melhoraria sua vida pessoal, ou por outros motivos errados. Além disso, os imperadores que davam nessa época um tratamento preferencial ou grandes doações, o faziam esperando poder intervir nos assuntos da igreja no que diz respeito à política e à doutrina. Quando as congregações cresceram,viraram-se obrigadas a ser muito mais formais nos seus cultos e na sua organização.

Por volta do século V o mapa europeu também começou a mudar;exércitos alemães e godos invadiram a Europa e se estenderam pela metade ocidental do Império Romano. Muitos deles já eram cristãos, mesmo que a maioria seguisse o ensino herético ariano (de Ano, quenegava que Jesus fosse o Deus Eterno). As civilizações grega e romana que haviam mantido unido o mundo mediterrâneo durante 800 anos estavam destruídas. Já não existia um idioma comum, nem escolas, nem arte, nem leis, nem governo, nem caminhos que unissem as cidades. Pelo contrário, as comunidades e as áreas estavam isoladas umas das outras e desenvolveram culturas e idiomas locais, No século VII o surgimento do Islã destruiu muito do Império Romano Oriental (conhecido na época como Império Bizantino) e exterminou em grande parte a presença cristã no norte da África, Egito, Palestina e Ásia menor.

Muitas das primeiras congregações que Paulo e os outros apóstolosfundaram foram exterminadas pelas invasões ou ficaram enfraquecidas pelos problemas doutrinários. Todavia, a igreja da cidade de Roma permaneceu forte. Quando o sistema político romano fracassou em Itália, o bispo romano tomou a iniciativa e proporcionou estabilidade. No século VI o Bispo de Roma, conhecido como "0 Papa" (o pai) se havia tornado no porta-voz e líder de toda a igreja ocidental.

Durante o começo do período de perseguição, muitos cristãos fiéisforam mortos devido à sua fé, outros cristãos então, pensaram que eles eram pessoas especialmente santas. Quando a perseguição acabou e a igreja teve reconhecimento legal e começou a enriquecer, alguns foram para o deserto e levaram uma vida de oração e arrependimento, crendo que isso os ajudaria para levar uma vida mais santa, longe das tentações do mundo. Em breve esses ermitãos ou "monges" formaram comunidades ou "mosteiros".

A partir do século IV esse movimento cresceu rapidamente. Milhares de monges moravam nos desertos e nas montanhas pelo mundo mediterrâneo.

Os mosteiros começaram como lugares de oração, mas eventualmenteserviram à igreja de outras maneiras, proporcionavam ajuda aos viajantes, aos doentes, aos pobres, e também se tornaram centros de educação e estudo. Os mosteiros na Europa tinham a responsabilidade de conservar as escrituras das antigas Grécia e Roma, e dos primeiros escritores cristãos.

Com a queda do Império Romano também caiu o nível de educação ­os "bárbaros" alemães e godos viviam sem valorizar a antiga cultura greco-romana. Em breve a Europa viu-se mergulhada num ambiente de pouca educação. A igreja continuou capacitando seus próprios lideres o melhor que podia, mas o grau de educação entre eles também decaiu. Esses líderes religiosos mal instruídos, por sua vez, só podiam oferecer aos membros da igreja uma instrução deficiente. As idéias e as superstições pagãs cresceram ainda mais na igreja - os membros não tinham conhecimento das doutrinas bíblicas, pelo que depositaram a sua confiança nos rituais que praticavam.

Na Europa, a grande maioria da população sobrevivia graças à agricultura, assim, desenvolveu-se um novo sistema econômico e social chamado "feudalismo". Os camponeses e suas famílias (servos) estavam obrigados a sustentar os poderosos senhores locais, os quais chegavam a controlar extensas áreas de terra (feudos). Os senhores mantinham homens armados (cavaleiros) que os ajudavam a proteger suas propriedades e, em tese, a seus servos. Grupos de senhores se uniam para servir a um duque. Os duques, por sua vez, ajudavam ao rei regional.

As igrejas e mosteiros freqüentemente herdavam terras, as quais eram alugadas para os servos, assim, o prelado de uma área (bispo) e os superiores dos mosteiros (abades) tornavam-se senhores de servos e passavam a maior parte do seu tempo protegendo as suas terras em lugar de cuidar das almas. Esses postos de alta hierarquia tornaram-se muito solicitados; pelo que eram vendidos pela igreja de Roma a quem se dispusesse a pagar a mais alta soma por eles (prática conhecida como simonia).

Desde o final do século XI até o XIII, os cristãos da Europa Ocidental realizaram uma série de expedições militares rumo à Palestina, expedições que receberam o nome de "cruzadas". Não tiveram sucesso em seu intento de recuperar a Terra Santa, a qual estava nas mãos dos muçulmanos, muito menos conseguiram estabelecer nela um governo cristão. Todavia, muitos dos que foram até essas terras orientais, trouxeram consigo idéias novas, livros e objetos das épocas dos gregos e romanos. Uma prosperidade renovada também estava se estendendo por toda Europa naquele tempo, as cidades começavam a crescer e seu comércio aumentava. Esses dois  fatores levaram à reativação da cultura e do aprendizado conhecido como “O Renascimento” Em parte, esse renascimento incluía a fundação de universidades no continente europeu. Estudava-se e se imitava a arte, a arquitetura e a literatura da Grécia e da Roma antigas, isso também deu origem ao aparecimento de novos eruditos que deram uma importância renovada à Bíblia e à igreja.

Muitos desses eruditos perceberam que a igreja se havia transformado em algo muito diferente do que havia sido no seu início. Como temos visto; algumas das principais diferenças foram:

1. As superstições e idéias pagãs haviam-se misturado às doutrinas cristãs. A adoração à Trindade estava combinada com honras aos santos e às relíquias.

 2. Havia-se perdido a ênfase na fé em Jesus Cristo. Em seu lugar, pensava-se que a vida eterna devia ser ganha através das boas obras, praticando os rituais cristãos e participando nos Sacramentos.

3. A Hierarquia eclesiástica havia tirado a liberdade dos membros. Os ricos líderes da igreja estavam mais interessados em proteger suas propriedades e posses do que em ensinar e servir ao povo. Empregaram a tradição da igreja para defender o que faziam, pois as Escrituras não apoiava sua maneira de agir.

4. Tanto os líderes da igreja como os leigos sabiam muito pouco sobre a mensagem de Deus  
        transmitida na Bíblia. E, desde que não eram instruídos nas Sagradas Escrituras, também não sabiam levar uma verdadeira vida cristã.

Nos 1400 anos entre o Novo Testamento e a época de Lutero, a igreja havia se transformado por completo. Já não se pregava mais a Boa Nova de que Deus enviara seu Filho Jesus Cristo para pagar pelos pecados de todo o mundo. Em vez disso; a igreja ensinava que se os membros levassem uma vida em obediência à igreja e seus líderes e participassem dos rituais estabelecidos por Roma, se poderia eventualmente ganhar a vida eterna. Com o objetivo de restabelecer a doutrina verdadeira da Bíblia acerca de Deus e seu plano de salvação, Deus enviou Martinho Lutero.

CAPíTULO 1

Os primeiros anos de Lutero

Quantas vezes temos ouvido o nome de Lutero ou luterano? Desde universidades que têm prestígio nacional, passando pelo falecido Dr. Martin Luther King, até companhias de seguros, o nome de Lutero  desfruta de muita aceitação. Todavia, são muito poucos os que mantêm os ideais originais e os conceitos bíblicos de Martinho Lutero. Nós, que levamos o seu nome nas nossas igrejas, temos a responsabilidade de aprender mais sobre esse valente herói da fé - esse monge que com a sua pena e sua voz lutou contra os erros de Roma e se tornou no pai do luteranismo.

Eisleben

Devido à falta de documentos e informações exatas não tem sidopossível encontrar na história os antepassados de Lutero. De fato, Lutero nunca chegou a escrever a autobiografia que prometera, assim, muito da informação da qual dispomos procede "de segunda mão".
  
Os documentos históricos mostram que os antepassados de Lutero geralmente concentraram-se perto da cidade de Eisenach. Seguindo o costume da época, o filho mais novo herdava as terras dos pais. Com tal acerto, o pai da família, durante os seus anos mais produtivos ajudaria os seus filhos mais velhos a se estabelecer; o que restasse após a sua morte, era herdado pelo filho mais novo.

Hans, o pai de Martinho Lutero, foi o mais velho dos quatro filhos de Heinee Margarete Luder. Em seu livro "Luther and his times" ("Lutero,e sua época") E.G.Schwiebert aponta que as diferentes formas de escrever o nome de Lutero vêm da história: Ludher, Lüder, Luider, Luter, Lauther ­ todas essas grafias derivando-se do Antigo Alemão "Chlotar". Pouco depois de se casar com Margarete, Hans mudou-se a Eisleben para trabalhar na mineração. Nesse tempo, sua esposa deu à luz um filho no dia 10 de novembro de 1483, Segundo o costume, foi batizado no dia seguinte, e como aquele dia era a dedicado ao santo Martinho, o recém nascido Luder recebeu esse nome.

Mansfeld

Pouco antes de se completar um ano do nascimento do pequenoMartinho seus pais se mudaram para Mansfeld, uma aldeia mais próxima ao centro da região mineradora de cobre. Os primeiros anos foram duros, todos tinham que carregar lenha nas costas, era um trabalho pesado, mas naquela época, era costume que até as mulheres o fizessem.

Também era muito comum a disciplina extremamente rígida. Lutero contou que em certa ocasião, por ter furtado uma noz, sua mãe deu-lhe uma punição tão violenta que o fez sangrar. Em outra ocasião seu pai bateu nele tanto, que Martinho fugiu de casa. Hans Luder teve que ir após ele para convencê-lo a voltar ao lar.

Todavia, no lar dos Luder nem tudo era rigidez severidade. Luteroafirmou também que adquirira o gosto pela música pela influência da sua mãe que cantava regularmente com os seus filhos.

O jovem Martinho era o orgulho e prazer dos seus pais, eles reconheceram alguns dos talentos que mais tarde beneficiariam em muito à Igreja de Deus. Os pais de Lutero tinham a esperança que Martinho chegasse a ser um advogado brilhante, casasse e tivesse filhos, para assim eles cuidarem desses netos.

Ainda que a idade normal para que uma criança fosse admitida naescola era os sete anos, há evidência de que Martinho Lutero iniciou os seus estudos aos quatro anos e meio. De fato, às vezes o seu pai ou um amigo tinham que levá-lo à escola (nos dias de tempo ruim ou quando os caminhos estavam especialmente difíceis para os pequenos). A escola em Mansfeld ensinava as matérias consideradas necessárias para aqueles que aspiravam seguir estudos superiores: a leitura, escritura e gramática do latim. Igualmente os alunos deviam aprender a recitar de cor (e em latim) diversas orações, a confissão dos pecados, o credo, o Pai-nosso e os dezmandamentos, À medida em que os estudantes cresciam, tinham também que memorizar Salmos inteiros em latim. O básico da teologia católica  ficava assim, gravado nas suas mentes.

Na escola a disciplina era muito mais rígida do que nos lares. O nome da criança era registrado no quadro seguido de uma indicação da falha cometida: não memorizar corretamente os verbos latinos, a declinação dos substantivos ou por falar em alemão na escola. Mais ou menos uma vez por semana o professor contava as falhas acumuladas e aplicava a punição  correspondente. Em certa ocasião Lutero recebeu 15 açoites pelas falhas cometidas durante uma semana! (e sabe-se que ele era um bom aluno) Outro método disciplinar era submeter o aluno à vergonha diante dos seuscolegas, o aluno que não recitasse bem e ficasse no último lugar tinha que colocarem si um burrico de madeira no pescoço. Isto também era registrado no quadro.

Magdeburgo

Aos 14 anos de idade Lutero deixou a casa paterna para ir à escola em Magdeburgo, cidade com mais de 12.000 habitantes. Era de consenso geral que a pessoa teria uma boa educação se tivesse freqüentado mais de uma escola antes de ingressar à universidade. A escola em Magdeburgo gozava de excelente reputação, e ainda mais, João Reinecke, amigo de Lutero, também estudava lá. 

Os biógrafos não dizem muito acerca desse período, todavia, é preciso levar em consideração duas coisas: primeiro, ali Martinho conhecera os “Irmãos da Vida Comum,” fato que não mereceria sequer ser mencionado se não fosse porque essa ordem religiosa punha ênfase na leitura da Bíblia e numa vida de devoção, "Eles, com seu exemplo e seus preceitos; plantaram na sua vida a preciosa semente da piedade histórica na igreja ... sua doutrina era de simplicidade e obediência; sua vida, tranqüila, disciplinada, sincera; assim eram os irmãos". Segundo, é muito provávelque, graças a essa ordem religiosa, Lutero visse a Bíblia pela primeira vez na sua vida, ainda que já estivesse instruído nos ensinamentos romanos, resultado das repetições orais e leituras dos instrutores, os jovens alunos  poucas vezes podiam usar materiais tão caros como eram os livros, pelo que resulta compreensível por que a Bíblia estava presa por uma corrente àmesa de leitura: Um objeto de tanto valor não podia ser "extraviado".

 Eísenaeh

Após um ano em Magdeburg Lutero fez sua transferencia para a escola de Eisenach, cidade onde permaneceu por três anos, estudando perto do castelo de Wartburg. Melanchton conta que em Eisenach havia dois mestres que eram excepcionalmente bons, Johannes Trebonius e Wiegand Güldennapf Lutero respeitava a ambos pela habilidade que possuíam. Trebonius, com seu Dom de ensino, inculcou em Lutero o desejo de aprender. 

As histórias tradicionais sobre a mendicância de Lutero parecem não ter fundamento. Naquela época era costume que os alunos pedissem pelas ruas, mesmo aqueles alunos cujos pais tinham boa posição econômica. O pai de Lutero não era rico, mas possuía o suficiente para que Martinho não tivesse que pedir como lida se não quisesse. É certo que Lutero se unia regularmente com outros estudantes que cantavam pelas ruas, pelo que recebiam esmolas.

E foi o seu canto o que primeiro chamou a atenção da senhora Ursula Cotta, esposa de um próspero comerciante. Ela o convidou a morar com eles, assim, enquanto dava aulas para Enrique Schalbe, convivia em família. Seu contato com estas duas famílias e com Johannes Braun, o vigário da Igreja de Santa Maria em Eisenach, foi de grande ajuda para desenvolver em Lutero o gosto pela cultura, a poesia e a música. As bases religiosas, que teve em seu lar quando criança, renovaram-se com a vida devota dos Irmãos de Magdeburg e se fortaleceram com essa gente piedosa em Eisenach. 

Erfurt

   Aos dezoito anos Lutero matriculou-se na Universidade de Erfurt(1501) com o nome de Martinus Ludher ex Mansfeld. Naquela épocahavia três profissões disponíveis: Direito, Teologia ou Medicina. Os pais de Martinho decidiram que estudasse Direito. Assim Hans Luther certificou-se de que seu primogênito freqüentaria a universidade que tinha uma das melhores faculdades em Filosofia e Direito. Essa faculdade estava na Universidade de Erfurt. Martinho terminou o curso de Filosofia nos  dezoito meses previstos e obteve o 30º lugar numa turma de 57 estudantes. Iniciou imediatamente seu programa de mestrado, o qual completou emdois anos, ocupando o segundo lugar numa turma de dezessete alunos.

Ainda que os arquivos oficiais da universidade onde Lutero estudou se destruíram, as regras desses centros eram semelhantes: o aluno devia se recolher às oito da noite e levantar-se às quatro horas da manhã, assim aproveitava-se todas as horas de luz durante o dia. Os estudantes ainda deviam observar um rigoroso código sobre o uso de vestimentas, tanto dentro como fora da faculdade. Durante as refeições eram lidos trechos da Bíblia. Não era permitida a entrada de moças aos aposentos do rapazes, e estes precisavam de uma permissão especial para vê-Ias, e isso, só nas bodas ou ocasiões especiais.

Para obter o diploma em Erfurt o aluno devia estar sob a estrita supervisão de um dos membros da Faculdade. Somente graduavam-se os que contavam com a aprovação do seu supervisor. "O diploma de Erfurt não significava somente sucesso acadêmico mas também integridade moral". Lutero demonstrou sua diligência e aplicação nos estudos graduando-se no menor tempo possível.

Todavia, enquanto tudo parecia estar bem exteriormente, não era essa a realidade na alma de Martinho. Sua dedicação aos estudos e seu desejo de superação estavam sendo eclipsados por uma crescente inquietação.

Perguntas para pensar:

1. Que significa ser luterano?

2. Quais as diferenças entre luteranismo e as outras denominações cristãs?

3. Quanto ao batismo de Lutero, - por que você acha que era  costume batizar os nenês 
no dia depois do nascimento?

4. O castigo corporal agrada a Deus?

5. Compare os métodos pedagógicos antigos e modernos.

6. É justo comparar a sociedade do século XVI com a nossa?


A procura

CAPÍTULO 2

Externamente tudo parecia ir bem para Lutero, porém, no seu íntimo
não era isso o que acontecia. Repentinamente, no dia 17 de julho de 1505, Lutero entrou ao convento negro dos Agostinianos de Erfurt. A história da vida de Lutero relata a queda de um raio perto do jovem estudante o que o levou a fazer o voto à santa da sua devoção: "Ajuda-me Santa Ana e serei monge!". Na verdade esse foi somente o último de uma longa lista de acontecimentos que levaram Martinho ao mosteiro. Outro que pode ser citado é a sua ligação com o vigário João Braun em Eisenach e com os Irmãos da Vida em Comum de Magdeburg. Algumas outras coisas também fizeram que Lutero refletisse sobre quais eram as suas prioridades: a morte de um amigo enquanto esteve na faculdade, o acidente no qual quase perdeu a vida (feriu-se a perna com uma espada) e a lembrança dos seus dias de estudante em Magdeburg, onde viu o príncipe renunciar às suas riquezas para dedicar-se a ser um monge mendicante. Todos esses acontecimentos, segundo as suas próprias
palavras, fizeram que Lutero se questionasse sobre aquilo que era verdadeiramente importante na sua vida. Assim, o famoso incidente do raio que quase o atingiu foi o que o levou ao mosteiro.

O dia 17 de julho era o décimo quarto dia depois do seu voto. Já o havia comunicado aos seus amigos, havia vendido os seus livros e estava preparado para o mosteiro. Só depois da sua entrada escreveu para o seu pai pedindo a sua aprovação. Como era de se esperar, Hans Luther ficou furioso. Por que não havia sido consultado pelo filho antes de tomar essa decisão? Mesmo depois de visitar Martinho, Hans não conseguiu convencê-lo a mudar de decisão e deixar o convento. Todavia, Hans tampouco mudou de opinião. Esse desacordo entre pai e filho parecia insuperável, Hans precisava ser convencido de que alguém o convencesse que a decisão de Martinho fora acertada. 

Hans já havia perdido um dos seus filhos numa epidemia, depois disseram-lhe que também Martinho havia sido vitimado pela mesma praga. Hans ficou certo de que tudo o que acontecia era o juízo de Deus por causa da sua teimosia. Após saber que a notícia sobre a morte de Martinho era falsa, a contragosto deu o seu consentimento.

No início da sua vida monástica, Lutero experimentou certa paz. Podia dedicar-se a suprimir seus desejos carnais sem as distrações mundanas que havia fora.do mosteiro. Os oficiais do convento ajudavam os noviços a se acostumarem à vida monástica durante o período de experiência. Com a finalidade de dar embasamento à crença de que as posses materiais eram más, os novos monges eram privados de praticamente tudo.

O quarto de Lutero era uma cela que media apenas dois metros de largura por três de comprimento, uma só janela sem aquecimento, a mobília era um colchão de palha, uma mesa e uma cadeira. As regras da  ordem proibiam enfeites de qualquer natureza. O exercício consistia em  andar aos pares pelo convento, mas com o olhar fixado no chão, não era permitido conversar nem fazer barulho nos corredores. Lutero vivia plenamente entregue a essa vida de noviciado. Jejuava até ficar sem forças nem para sair da sua cela, os seus companheiros precisaram arrombar a porta para socorrer o jovem monge. Certa ocasião, debilitando pelo jejum, caiu inconsciente no piso de pedra diante do altar. Lutero fazia tudo isso porque procurava uma maneira de encontrar a certeza de que seus pecados foram perdoados. Anos depois podia dizer: "É certo, eu era um monge piedoso, se alguma vez um monge poderia ter ganho o céu por merecimento, eu o teria ganho. Se tivesse ficado mais tempo, ter-me-ia torturado até à morte com vigílias, orações, leitura e outras obras".

Ordenação ao sacerdócio

Em menos de dois anos,em abril de 1507, Martinho estava pronto para ser ordenado ao sacerdócio. Foi marcada a data de 2 de maio a fim de que pudesse convidar os seus parentes e amigos, celebrou a sua primeira missa. A ocasião era festiva. Hans, ainda que não era rico, pagou toda a celebração com 30 guldenes. Então, pela primeira vez desde julho de 1505 (ocasião da sua despedida sem haver-se reconciliado) pai e filho viram-se frente a frente. Martinho esperava mostrar ao seu pai que o acidente com o raio havia sido um chamado celestial. Porém Hans, sem convencer-se disso, respondeu: "Deus queira que não tenha sido um engano do diabo". Martinho tentou provar o valor do chamado ressaltando quão contente estava ali no mosteiro. Hans disse então, como para que todos os presentes o ouvissem: "Não leste acaso que deves honrar a teu pai e a tua mãe e que não deves fazer nada sem o seu conhecimento e conselho?" Estas declaração atingiu o coração de Lutero, e mais de uma vez, se perguntou se um engano satânico naquele temporal não o havia induzido a fazer seu voto monástico.

Assim que seus parentes e amigos voltaram para as suas casas, Lutero ficou só para continuar seus estudos da Bíblia. Talvez uma das razões pelas quais escolheu a ordem de Santo Agostinho tenha sido que essa ordem fazia questão de estudar a Bíblia Ao ingressar ao mosteiro deram-lhe uma Bíblia encadernada com couro avermelhado, a estudava tanto que chegou a citar extensos trechos de memória. Martinho usava a Bíblia como o centro de todos os seus arrazoamentos e decisões. Nem todos concordavam com ele. Seus companheiros no mosteiro lhe instavam: "A mendicância e não o estudo é o que enriquece o mosteiro".

Um dos seus mestres, o Dr. Usingen, disse-lhe certa ocasião: "O que é a Bíblia? É melhor ler os livros dos antigos filósofos que têm extraído a verdade da Bíblia. A Bíblia é a causa de todas as perturbações". Todavia, para Lutero, as interpretações que a Igreja Romana fazia chegaram a ser a verdadeira causa de perturbação. Nelas Lutero somente achou as exigências de Deus por um coração e alma puros, algo impossível de cumprir. Como poderia crer que Deus o havia perdoado? Em vez disso, Lutero estava convicto de que Deus devia estar zangado com ele por causa dos seus pecados. Numa certa feita, o padre que ouvia a sua confissão teve que lhe dizer: ''Não é Deus quem está. zangado com você. É você quem está zangado com Deus".

Uma alma perturbada

Havia outros que tinham achado consolo na graça de Deus. Um deles, um frade idoso, consolou a Lutero quando esteve doente por causa da sua angústia espiritual dizendo-lhe: "Não é suficiente que acredites que Deus perdoa os pecados em geral, porque os demônios também assim acreditam. Deves crer que teus pecados, sim, teus pecados, teus pecados estão perdoados. Pois o homem é justificado pela graça por meio da fé". Mas foi de João Staupitz que Lutero recebeu o conselho mais impactante. Staupitz era o Vigário Geral dos Agostinianos e dirigia a Faculdade de Teologia na recém fundada Universidade de Wittenberg. Já desde o início das suas visitas Staupitz havia percebido esse sensível Lutero que com freqüência pedia-lhe seu conselho, também percebeu que o jovem Martinho estava profundamente voltado para a questão dos seus problemas, seus pecados e defeitos. O Vigário tentou direcionar os pensamentos de Lutero para a evidência histórica da misericórdia de Deus: "Não olhes para os teus próprios pecados imaginários, mas olha a Cristo crucificado, onde os teus verdadeiros pecados são perdoados e agarra-te em Deus com todo o valor".

Professor em Wittenberg

No outono de 1508, Staupitz transferiu o jovem teólogo a Wittenberg, onde ensinaria na Universidade. A filosofia escolástica era a sua matéria, pois essa havia sido a sua especialidade nos programas de estudos universitários e no seu programa de mestrado. Staupitz animou a Lutero a obter o grau de Doutor em Teologia, para que pudesse ser membro da Faculdade de Teologia em Wittenberg. Lutero teve que ensinar as Sentenças de Pedro Lombardo durante três semestres para cumprir os requisitos, pelo que retomou à Universidade de Erfurt para lecionar essa matéria Lutero agradou-se de lecionar as Sentenças de Pedro Lombardo devido à ênfase que havia nelas: a fé sobre a razão. Lutero foi ainda além, fez que o ensino estivesse, mais do que se esperava, centrado em Jesus.

Viagem a Roma

A carreira de ensino de Lutero interrompeu-se quando foi escolhido
para acompanhar outro monge numa viagem a Roma. Sua missão consistia em obter uma decisão sobre uma disputa. Assim, em novembro de 1510 Lutero e seu companheiro iniciaram uma viagem a pé de 1360 quilômetros. Descansavam nos conventos que havia ao longo do caminho. Chegaram no fim de dezembro ou começo de janeiro. Naquele tempo a Itália renascentista fervia em atividade. Rafael, Leonardo da Vincí e Miguelangelo viviam naquela época e deixaram as suas obras artísticas para as gerações seguintes. Não se sabe se algum dos dois monges tenha notado as grandes obras de arte que estavam se desenvolvendo; aqueles artistas naquele momento não tinham fama internacional. Todavia, desde que o veredicto que eles procuravam tardou mais de um mês, Lutero teve bastante tempo livre para peregrinar.

Todavia, a Roma que Lutero viu não era a mesma com a qual ele havia sonhado. O Papa Júlio II e todos os cardeais, com exceção de dois deles, estavam fazendo guerra. Não havia cultos programados regularmente exceto as duas estações penitenciais de Advento e Quaresma. Haviam-se descuidado os sacramentos na sua administração. As missas eram celebradas mas só após o pagamento correspondente feito pelos peregrinos que as solicitavam. Anos mais tarde Lutero, lembrando a sua viagem a Roma, disse: "Em Roma eu era um santo louco. Corria por todos os templos e as catacumbas, e acreditava cada odiosa mentira que ali se inventava. Inclusive cheguei a ter lástima que os meus pais ainda estivessem vivos, pois teria gostado tanto podê-los remir do purgatório com as minhas missas e outras orações e obras preciosas". Ainda que não pudesse ver as relíquias de mais valor em Roma, Lutero conseguiu ver muitas delas de menor importância.

 "Viu o lugar onde haviam sido depositadas as relíquias dos corpos de São Pedro e São Paulo. Foi-lhe mostrado o muro detrás do qual jaziam os corpos dos 300 meninos assassinados em Belém, o crucifixo de Santa Brígida que em certa ocasião falou, a corrente de São Paulo, e até a coluna junto à qual certa feita o grande apostolo pregara.... Lutero viu ainda o sepulcro de São Sebastião, o da mulher samaritana, e o poço onde haviam permanecido os corpos de São Pedro e São Paulo durante 50 anos. Viu a pedra com a marca do pé de Jesus e uma parte da coluna onde prenderam São Sebastião para ser martirizado, Lutero viu ainda a corda com a qual prenderam e puxaram a Cristo durante sua paixão. Também viu onze dos espinhos da coroa de Cristo, a esponja que foi usada para dar-lhe de beber vinagre com fel, um cravo da cruz, a tabuleta com a inscrição de Pilatos, uma peça grande e uma pequena da cruz de Cristo; uma peça pequena da cruz de um dos malfeitores, uma safira com água e sangue que jorrara do lado de Jesus, e ainda leite e cabelos da virgem Maria" (Schwiebert p.189)

 Lutero ficou horrorizado com a decadência moral do clero. Considerou que os maus sacerdotes não eram os verdadeiros representantes da igreja. Posto que a maioria dos membros do alto clero não estava presente em Roma, Lutero não viu realmente até que ponto havia chegado a decadência. Foi a Roma como um verdadeiro católico-romano e voltou igual, porém menos ingênuo.

Doutor em Teologia

Já em abril Lutero havia retomado a Erfurt e havia reiniciado suasaulas sobre as "Sentenças de Lombardo". Outra vez foi chamado para Wittenberg. Chegou lá no verão de 1511 e em setembro Staupitz sugeriu a Lutero que começasse seriamente a se preparar para ser pregador e obter seu Doutorado em Teologia.

Mesmo que no início protestasse um pouco, Lutero acabou acedendo. Frederico, Eleitor de Saxonia, pagou os honorários costumeiros de 50 Gúldenes e, no dia 19 de outubro de 1512, Lutero recebeu o barrete de lã e o anel de prata de doutor, o que também significava um novo posto. Staupitz teve que se aposentar para que Lutero fosse o Diretor da Faculdade de teologia de Wittenberg, e o fez com prazer pois, com a supervisão de toda a província da Saxonia, tinha se visto obrigado a deixar as aulas de teologia por causa da falta de tempo.

Lutero iniciou seus novos deveres imediatamente. Nos seguintes 34 anos apresentaria 16 discursos sobre 13 livros da Bíblia. Limitava-se a ensinar duas vezes por semana devido às suas outras muitas obrigações. No começo de 1511 chegou a ser o pregador oficial dos monges na pequena capela do mosteiro. No ano de 1514 sua fama de bom pregador cresceu ao ponto de ser o pregador de toda Wittenberg. Num só ano apresentou 170 sermões - uma media de mais de três por semana!


O descobrimento na torre

A série de discursos sobre a Bíblia que Lutero proferira provavelmente começou com Gênesis. Entre 1513 até 1515 ensinou sobre os Salmos; de 1515 a 1516, sobre Romanos; de 1516 a 1517, Gálatas; e de 1517 a 1518, Hebreus. Durante essas séries de discursos teológicos aconteceu o que se conhece como o "descobrimento na torre".

A frase nos Salmos "livra-me pela tua justiça", sempre perturbava a Lutero. Ele considerava a justiça de Deus repulsiva, pois representava aquele atributo de Deus pelo qual o pecador era castigado. Então, no contexto do Salmo 71, Lutero começou a ver a justiça de Deus como a maneira em que Deus perdoa misericordiosamente ao homem por meio da fé. De repente, na mente de Lutero esta passagem já não estava mais em conflito com "Mas o justo viverá da fé". Após esse descobrimento no seu quarto na torre, seus discursos começaram a fluir com um evangelho alegre que não se havia ouvido senão no início da era cristã.

Em pouco tempo Lutero converteu-se no professor mais popular da universidade. Não se esperava que os alunos assistissem a alguma classe em particular, pelo que eram livres para escolher as que desejassem. As aulas de Lutero eram as que tinham maior número de participantes. Não somente eram os alunos, mas também gente da cidade, ansiosos por ouvir o evangelho puro.

Após alguns anos, toda a Faculdade havia se convertido ao método evangélico de Lutero interpretar a Bíblia. Uma parte desse método exigia um estudo completo das línguas dos originais (Hebraico e Grego) Assim, Lutero pediu ao Eleitor Frederico que "não se esquecesse de lhes enviar um mestre de grego e hebraico". Felipe Melanchton, menino prodígio, sobrinho do erudito em hebreu Johannes Reuchlin e autor de uma gramática grega, chegou a Wittenberg em agosto de 1518. O cenário estava preparado.

Perguntas para pensar

1. Está alguém obrigado a cumprir um voto indevido?

2. Qual é o grau de obediência que devemos aos nossos pais quando
   estamos na idade da adolescência? E quando estamos na faculdade? 
Ou mesmo quando se está casado?

3. Era a consciência de Lutero demasiado sensível quando estava no mosteiro?

4. Há algum perigo em colocar tanta atenção na Bíblia - em falar acerca da Bíblia e em mencioná-la seguidamente?

5. Qual é a diferença entre o conhecimento sobre Jesus e a fé no seu perdão?


CAPÍTULO 3

Conflito com Roma

A prática das indulgências no início do XVI não surgiu da noite para a manhã. Os historiadores têm encontrado a sua origem já na época das primeiras cruzadas. Os muçulmanos sempre têm ensinado que a alma de uma pessoa que morre numa guerra santa vai imediatamente ao céu. Com a finalidade de compensar essa vantagem psicológica, o Papa anunciou uma absolvição automática para o soldado cristão que fosse morto em combate. Assim, resulta fácil ver o crescimento e o desenvolvimento do sistema das indulgências desde esse passo inicial. Logo foi-lhes concedida imunidade contra os castigos que a igreja havia imposto a todos os que lutaram contra as forças islâmicas. Depois chegou a ser uma remissão portodo o castigo que se haveria de suportar no purgatório. Todavia, posto que nem todos podiam ir à guerra, estendeu-se a gentileza para incluir àqueles que haviam pago a soma necessária para enviar um soldado à cruzada.

Quando as cruzadas perderam popularidade, a entrada de dinheiro nós cofres da igreja cessou. Então, nos anos finais do século XIII promulgaram-se "cartas confessionais", as quais, por um preço fixo, davam ao seu portador o direito a receber o perdão completo sob os cuidados de um sacerdote uma vez durante a sua vida e novamente no seu leito de morte. Esta prática teve muito sucesso.

A cobiça só gera mais cobiça. Em 1300 havia se restabelecido a prática do "Ano do jubileu" do Antigo testamento, modificada radicalmente. Consequentemente, cada cristão devia visitar Roma naquele ano e assistir à missa uma vez ao dia durante trinta dias enquanto depositava um presente no túmulo de São Pedro. O recolhimento desses presentes para  serem depositados no tesouro papal manteve dois homens constantemente ocupados nessa atividade. Porém nem todos podiam ir a Roma, pelo que, emissários do Papa foram enviados para vender as cartas de indulgência a todos os ausentes.

O passo final no desenvolvimento das indulgências - e o que provocou-lhe ainda mais dúvidas acerca do sistema - foi dado pelo Papa Sixto VI. Esse Papa estabeleceu uma indulgência para os mortos que se encontravam, no purgatório. Daí havia um curto passo em direção às indulgências plenárias (completas), isto é, indulgências que cobriam todo tipo de pecado, indulgências essas disponíveis por um alto preço. Como naquela época Roma já se encontrava secularizada, e os Papas se interessavam mais nos assuntos temporais do que nos espirituais, tais indulgências plenárias nunca chegaram a ser oficialmente parte da lei canônica. Na época de Lutero era uma questão aberta, sujeita a debate.

Sem Lutero saber, houve traição nos altos círculos do clero em 1517, o que desencadeou uma nova onda de vendas de indulgências na cidade de Jueterbock, vizinha à de Lutero. Tudo parece indicar que Lutero não sabia que o Eleitor Joaquim de Brandeburgo havia subornado ao Papa Leão X com 10.000 ducados para ajudar a Alberto, seu irmão mais novo, a que conseguisse por meios ilícitos um terceiro posto dentro da igreja. Para agravar essa situação, Alberto, de 23 anos, não tinha oficialmente a idade para ocupar nenhum posto. Se isso não bastasse, era o arcebispo eleitor de Moguncia, um dos eleitores imperiais. Mas o preço havia sido suficiente. Com a finalidade de garantir à casa bancária Fugger de Augsburgo o pagamento do empréstimo dos fundos com os que Joaquim pagaria ao Papa, Leão publicou uma indulgência que seria vendida em várias províncias alemãs. Metade do que arrecadado seria para pagar o empréstimo e os juros acumulados, enquanto a outra metade seria destinada para a construção da Basílica de São Pedro em Roma e ajudar a manter o alto nível de vida que o Papa Médici desfrutava. Se Lutero tivesse imaginado algo disso, é de se pensar que haveria objetado antes e com maior energia. Por outro lado, Lutero pode não ter prestado atenção ao que se dizia, pensando que eram só falatórios sem fundamento. Seu interesse estava no campo teológico - algo que podia combater com as Escrituras.

João Tetzel

Um monge dominicano chamado João Tetzel teve a má incumbência de ser o principal vendedor de indulgências para Alberto na Alemanha. Certamente não o considerou assim no início do seu comércio. Vendeu indulgências desde 1504 e desfrutava de muito sucesso, chegando ao ponto de jactar-se de ter salvo mais almas vendendo as indulgências do que São Pedro com a sua pregação. Seu salário igualava-se ao seu egoísmo e ia além do que costumava-se pagar aos funcionários oficiais na Alemanha. Havia desenvolvido uma excelente tática para realizar as suas vendas.

 Tetzel começava com uma campanha publicitária na cidade que elegia como alvo várias semanas antes da sua chegada. No dia marcado para iniciar as vendas, começava com uma grande procissão, com muita pompa. Seguia-se uma série magistral de três sermões. O primeiro sermão que tratava do inferno usava uma linguagem muito gráfica para descrever os tormentos dos condenados. O segundo sermão era sobre o purgatório. Tetzel fazia os seus ouvintes lembrar que seus queridos defuntos, pais e amigos, estavam esperando que eles os resgatassem dos padecimentos. O terceiro sermão era sobre o céu, descrevia o pacífico repouso do qual desfrutavam os que haviam sido resgatados do purgatório. Neste ponto, todos estavam dispostos a assegurar-se de não ir para o inferno. Assim, as indulgências de Tetzel vendiam-se muito bem - porém não na Saxônia eleitoral. Frederico o Sábio estava à altura do seu nome e proibiu o comércio das indulgências em seu território, ainda que pó motivos práticos; Ele tinha seu próprio sistema de indulgências incorporado à sua grande coleção de relíquias, as quais expunha cada ano no Dia de Todos os Santos. Frederico estava convicto de que todo esse bom dinheiro poderia ser útil sem sair para Roma.

Já em 1515 Lutero havia começado a ensinar a seus alunos quanto ao uso apropriado das indulgências e ao abuso destas, como as que Tetzel vendia. No dia 31 de outubro de 1516 pregou um sermão sobre esse tema ao público em geral. O problema consistia em que seus membros percorriam uns quantos quilômetros desde Wittenberg até Jueterbock, na Saxônia Ducal, onde podiam comprar as indulgências e, na volta, mostravam a Lutero o seu "direito adquirido" para continuar numa vida  pecaminosa. Lutero ficou furioso com isso, negou-se a aceitar as  indulgências e também não deu a Santa Ceia a todos os que confiavam nas indulgências compradas.

 No dia 24 de fevereiro de 1517 pregou outro sermão denunciando o fato de que as indulgências cauterizavam as consciências a respeito da gravidade do pecado. Em outubro, quando recebeu uma cópia das instruções de Alberto para Tetzel de como poderia fazer para animar o povo ainda mais a comprar as indulgências, Lutero decidiu que havia chegado a hora de agir.

Se Lutero tivesse pensado que fazia algo indevido ou algo que se opunha à política estabelecida pela igreja, é pouco provável que tivesse usado o seu martelo na véspera da festa de Todos os Santos em 1517. Afixou suas noventa e cinco teses na porta da capela do castelo, por onde devia passar a procissão de peregrinos no dia seguinte para ver a coleção de relíquias de Frederico. Assim desafiou à comunidade de eruditos para debater acerca da prática das indulgências. Também enviou uma cópia ao arcebispo Alberto. Lutero estava convicto de que Tetzel abusava em grande parte das instruções de Alberto e tergiversava a posição de Roma. Só era preciso uma palavra oficial ao respeito para por fim ao assunto. Era o que Lutero pensava. Lutero procurava uma ocasião para um debate público no qual defenderia suas teses. Ele não esperava uma divulgação tão ampla dos seus pensamentos. O debate nunca se concretizou mas as suas teses espalharam-se por toda parte, mesmo quando demoraram umas catorze semanas entre a sua impressão e distribuição, as notícias desse acontecimento e a fama das teses de Lutero inundaram a Alemanha em menos de um mês.

A convenção de Heidelberg

 Depois que o arcebispo Alberto recebera as Noventa e cinco teses, este as enviou à Faculdade de Teologia da Universidade de Mogúncia solicitando um parecer a respeito. A Faculdade respondeu-lhe que entrasse em contato com Roma. O Papa Leão não deu, no início,muita importância às Teses de Lutero, pensando que tratava-se duma bravata de um monge alemão que havia tomado muita cerveja. Decidiu simplesmente que os agostinianos se encarregassem do assunto. Em maio de 1518 Lutero teve a oportunidade de explicar a sua posição na Convenção da sua própria Ordem de São Agostinho em Heidelberg. O doutor Staupitz, vigário geral da ordem na Alemanha estabeleceu a agenda. Organizou a reunião com muito cuidado e permitiu primeiro que Lutero abordasse ensinamentos sobre o pecado original, a graça e o livre arbítrio. Isso ocasionaria uma reação mais favorável em relação a Lutero do que se este primeiro apresentasse seus argumentos contra as indulgências e a maneira em que a igreja usava. Lutero granjeou-se muitos amigos nessa reunião. Não tem se descoberto nenhuma indicação de que nessa convenção Lutero tenha sido censurado.

Entretanto, Tetzel, sem estar à par da resposta do arcebispo Alberto, do Papa Leão e os agostinianos, tentou exercer pressão contra Lutero através da Ordem de Santo Domingo. Enviou um abade para ameaçar o convento agostiniano; nada aconteceu. Já como doutor em Teologia em janeiro de 1518, Tetzel apresentou 106 teses do doutor Conrado Kock contradizendo a posição de Lutero. Ao chegarem as cópias publicadas destas teses a Wittenberg para serem distribuídas os estudantes as queimaram.

Nesse tempo, Lutero deve ter percebido do temporal que se aproximava. Prevendo futuras dificuldades, no dia 16 de maio de 1518, Lutero pregou um sermão sobre o uso apropriado da excomunhão. A igreja da sua época abusava terrivelmente do poder das chaves. Não só indivíduos, mas até cidades e países inteiros haviam sido postos por Roma sob interdição por coisas como não pagar integralmente o imposto à "Santa Sé".

A interdição significava que os sacramentos seriam negados a todos os que estivessem sob ela, excetuando o batismo e a extrema unção.Resumindo, tratava-se somente de uma outra maneira de exercer aautoridade espiritual de uma forma nada espiritual. No seu sermãoLutero destacou que o uso bíblico da excomunhão não afetava a relação interna do homem com Deus. Essa relação só podia romper-se com um pecado persistente e com a rejeição ao arrependimento para que a excomunhão tivesse validade. O ato exterior de anunciar a excomunhão só oficializava perante a sociedade algo que já havia acontecido no coração do impenitente. O sermão impressionou a seus membros e também foi uma das primeiras vezes em que Lutero apontou abertamente os erros da Igreja Romana.

 O Cardeal Caetano

No dia 7 de agosto Lutero foi chamado para apresentar-se em Roma no prazo de sessenta dias a fim de responder às acusações de heresia.

Essa convocação causou ansiedade no monge agostiniano. Todaviaapelou ao Eleitor Frederico, o qual entrou em contato com o imperador Maximiliano durante a sessão da Dieta de Augsburgo. Devido à sua influente posição dentro do Sacro Império Romano, Roma concordou com o seu pedido de que o encontro com Lutero se desse num terreno neutro. O Cardeal Caetano, delegado papal na Dieta, general da Ordem de Santo Domingo e um dos melhores teólogos de Roma, faria que Lutero se apresentasse perante ele em Augsburgo.

Lutero havia solicitado um local neutro para a audiência e um tribunal imparcial. Recebeu o primeiro mas não o segundo. Augsburgo estava na Alemanha mas o cardeal era dominicano. Em termos gerais agostinianos e dominicanos não se viam com bons olhos. Os dominicanos controlavam a cúria papal. Caetano havia certamente prometido a Lutero uma audiência "paternal", todavia, mesmo que estivesse convicto de não poder condenar a Lutero como herege só por causa das teses, devia obedecer as ordens de Roma: "Não debatas o assunto. Se Lutero se negar a retratar-se, coloca-o
sob prisão".

Ao ir a Augsburgo Lutero temia que o queimassem, apesar dossalvo-condutos que portava, um do seu Eleitor e o outro do próprio Maximiliano (pelo qual, com o intuito de recebê-lo, instado por Frederico, Lutero fez Caetano aguardá-lo por três dias).

Já perante o Cardeal, Lutero mostrou a devida humildade; e tal como havia sido prometido, Caetano começou tratando-o de maneira muito  conciliatória. Lutero ficou muito desgostoso quando soube que não debateria com o renomado teólogo sobre os assuntos doutrinais que havia proposto. Por descuido. Caetano discutiu alguns assuntos, mas sempre tinha como fundamento dos seus argumentos o dogma da igreja. Lutero rejeitou isto, alegando que seus "erros" só poderiam ser contraditados com base nas escrituras. E não havia ninguém na igreja ou no império que se igualasse a Lutero no conhecimento da Bíblia.

Depois de três dias de duras exigências para que se retratasse e recusando-se a fazê-lo, Lutero finalmente percebeu que havia uma diferença irreconciliável entre suas posições e as dos oficiais de Roma. Ouvindo-se então rumores de planos para seu aprisionamento, Lutero saiu de Augsburgo em segredo. Mas antes de marchar-se, seu velho mentor, o doutor Staupitz, o liberou dos seus votos de obediência à Ordem dos Agostinianos.

Caetano enviou um relatório a Roma. Estava preocupado com asdeclarações de Lutero de que as pretensões de Tetzel nunca teriam sido aprovadas por Roma de maneira oficial. Então, incluiu uma opinião acerca das indulgências que foi depois adotada como o dogma oficial da igreja. Preferiu-se a posição dos dominicanos que pregava Tetzel, legalizada por Caetano.

 Carlos von Miltitz

Leão enviou a Carlos von Miltitz, um nobre da Saxônia, à corte do Eleitor. Devia entregar a Frederico a "Rosa Dourada", algo assim como se ele fosse eleito "o leigo do ano". O sábio Frederico percebeu nisso a atitude bajuladora de Roma. Sabia muito bem que Leão precisava do seu apoio para eleger um novo imperador assim que Maximiliano, que estava muito doente, morresse.

Miltitz teve sucesso em tergiversar a posição dos dois partidos na expectativa de poder ser reconhecido como árbitro do século. Miltitz tinha suficiente senso de diplomacia para reconhecer que Lutero contava com mais apoio popular do que o clero supunha. Inclusive confidenciou a Lutero que ele duvidava que os.25.000 soldados suíços fossem capazes de tirá-lo da Alemanha. A única concessão que Miltitz recebeu de Lutero foi a promessa de guardar silêncio se o outro partido também o fizesse.

Afortunadamente para Miltitz, sua maquinação não foi descoberta por Roma porque Maximiliano faleceu em janeiro de 1519. Foi necessário concentrar todo o poder político na eleição de um novo imperador que fosse do agrado do Papa. No início, o próprio Leão queria ao Eleitor Frederico, mas por carecer do apoio militar, este não aceitou. Depois, a fim de evitar a eleição de Carlos I de Espanha por qualquer meio, Leão ofereceu a Frederico a oportunidade de nomear um cardeal da sua própria preferência se apoiasse a eleição do rei da França. Mesmo que pareça inacreditável, era óbvio para Lutero e Frederico que Leão estava disposto a colocar a Lutero no Colégio de Cardeais se assim pudesse evitar a eleição de Carlos. No fim de junho de 1519 estava claro que CarIos seria eleito apesar da oposição de Roma. Então Leão apoiou a candidatura de Carlos para dar a aparência de que Roma estava a favor da sua eleição.

O debate de Leipzig

 O outro confronto que aguardava a Lutero era com o Doutor João Eck em Leipizig. Eck era o polemista mais hábil da Faculdade de Ingolstadt e homem muito ambicioso. Ele estava convicto de que poderia vencer a Lutero num debate, provar que era um herege e depois desfrutar das honrarias em Roma. Ainda que Eck na realidade desejava debater com Lutero, uma parte da sua guerra psicológica antes do debate foi a de desafiar a um colega de Lutero em Wittenberg, Bodenstein von Carlstadt, sem fazer caso de Lutero. O fingimento incluía dar oficialmente um salvo-conduto a Carlstadt mas não a Lutero. Lutero participou como espectador.

O debate começou sobre a questão do livre arbítrio. Aos juizes da Universidade de Leipzig resultou claro que Eck era muito melhor orador, a apresentação de Carlstadt foi muito monótona. Leu para a ata oficial longos passagens dos seus ensaios e livros. Isto preocupou a Eck porque o julgamento final o daria a Universidade de Paris após terem sido estudadas as atas do debate. Pelo que, Eck conseguiu que se alterassem as regras para permitir somente o discurso improvisado. Isto causou dificuldades para Carlstadt, enquanto Eck tirou proveito dessa situação. No aspecto teológico, Lutero disse que Carlstadt havia ganho o debate, porém, havia perdido a audiência devido aos seus métodos.

No mesmo dia em que Lutero entrou no debate com Eck, a poucos quarteirões do local onde se realizava o mesmo, morria João Tetzel, desconsolado e abandonado pelos seus amigos. O debate passou a tratar da supremacia do Papa. Lutero declarou que a igreja só precisa de um cabeça: Jesus Cristo. Por vários dias Lutero deu ênfase a este ponto, usando as Escrituras como base dos seus argumentos. No fim Eck conseguiu que Lutero falasse de João Hus, o boêmio que fora condenado à fogueira como herege. Acusou a Lutero de ter as mesmas idéias heréticas de Wyclif e de Hus. Tudo isso foi o cúmulo para o duque Jorge que estava presente. Era uma clara evidência de heresia por parte de Lutero. Havia dado apoio a um herege. Pelos dez dias restantes do debate, essa foi a acusação que se teria sobre Lutero.

O resultado final: o pensamento de Lutero solidificou-se em vários assuntos. As Escrituras tinham que ser a única autoridade da igreja, e igreja não era sinônimo de Igreja Romana, mas era invisível; o Papa não era o cabeça da igreja mas unicamente Jesus Cristo. Porém, para os espectadores em Leipzig, inclusive para o duque Jorge, Eck foi o único vencedor e recebeu muitos galardões. Após dezoito meses - sincronizados convenientemente para influenciar na Dieta de Worms - a Faculdade de Paris entregou o seu veredicto: Lutero era culpável de heresia em 104 pontos.

 Exurge, Domine

Eck e Caetano foram a Roma com o seu relatório coletivo sobre Lutero. Instaram a Leão a ameaçar a Lutero com a excomunhão. A Bula Papal "Exurge, Domine" (lIlevanta-te, Senhor" contra Lutero) foi publicada no dia 15 de junho de 1520. Ameaçando a Lutero com a excomunhão transcorridos 60 dias a partir da data da publicação. Todavia esta bula só chegou a Lutero após vários meses. A bula também incluía a ordem de que todos os escritos de Lutero fossem queimados. Mas esse documento não teve muito sucesso na Alemanha. Muitos bispos e oficiais temiam publicá-la devido ao prestígio que Lutero tinha. Nos lugares onde essa bula se publicava o povo a mutilava ou destruía.

Três importantes escritos

Durante os seis meses anteriores à Dieta de Wonns Lutero compôs três dos seus mais importantes e influentes escritos. O primeiro, "À nobreza cristã da nação alemã", foi uma tentativa de reunir os lideres leigos alemães para insistirem na reforma da Igreja Romana, pois era claro que o clero não o faria. Nesse escrito Lutero atacou a idéia de que existia uma classe separada da gente chamada "clero", a qual seria melhor que a dos "leigos". Explicou também o conceito do Novo Testamento do "sacerdócio universal", onde mostrou que não era necessária a pretensa "sucessão apostólica" do papa para administrar os sacramentos e para a pregação da Palavra de Deus. O único que era necessário era um preparo adequado. Lutero também jogou por terra a pretensão do papa de ser o único intérprete infalível da Bíblia. Como poderia um papa imoral (e naquele caso específico, um que nem tinha capacitação teológica) ser intérprete da Palavra de Deus?. A opinião de Lutero era de que qualquer pessoa que tivesse instrução nas Escrituras poderia interpretar a Bíblia. Lutero atacou finalmente a pretensão papal de que somente os papas podiam convocar um concílio geral da igreja. Com exemplos históricos demonstrou que grupos e mesmo imperadores leigos uma e outra vez haviam convocado os concílios.

Seu segundo tratado, "O cativeiro babilônico da igreja", foi dirigido ao clero. Nele Lutero atacou a escravidão espiritual em que Roma mantinha à igreja por meio dos sete sacramentos. O Santo Batismo foi o único dos sete sacramentos em conexão ao qual ele não atacou a Roma, Demonstrou que a Santa Ceia havia deixado de ser um sacramento que concede o perdão de Deus para ser convertido em um sacrifício, uma boa ação por parte do homem. Provou com as Escrituras que nunca foi intenção de Jesus negar o cálice aos leigos, também mostrou que nenhuma transformação sobrenatural acontecia com as substâncias do pão e do vinho. Lutero afirmou que Cristo estava presente na Ceia mas só em conexão com a recepção por parte do comungante. Respeito aos outros cinco sacramentos (confirmação, casamento, penitência, santas ordenanças e extrema unção) Lutero demonstrou que não havia fundamentação bíblica para considerá-las sacramentos da maneira em que Roma os praticava. (Henrique VIIIl de Inglaterra escreveu um tratado em contra deste escrito de Lutero no qual apoiava os sete sacramentos. Por isso recebeu de Leão o título de "Defensor da Fé", o qual até ao presente é ostentado pelos monarcas ingleses).

 O terceiro tratado, "Da liberdade cristã", punha ênfase em dois pontos importantes:

1º O cristão é senhor livre e não está sujeito a ninguém
2º O cristão é servo obediente de todos e sujeito a todos

No primeiro ponto Lutero mostrou que o cristão vive pela fé e já não é mais escravo das suas paixões, nem está mais obrigado a sistema inventado de regras externas. Por outro lado, no segundo ponto explica que enquanto o cristão não está obrigado a obedecer a ninguém, por causa do seu renascimento no Espírito, por amor, deseja servir a todos.

A Dieta de Worms

Carlos V estava numa situação difícil. Via-se obrigado pela lei imperial a não condenar nenhum alemão sem um procedimento legal.Todavia, agora que Lutero havia desafiado abertamente a Roma
queimando a Bula "Exurge, Domine", Roma pronunciou-se dizendo aCarlos que não lhe restava nenhuma opção. Lutero já não mais era filho da Igreja - "Prende a Lutero!" - O assunto chegou a oficializar-se com a Bula "Decet Romanum Pontificem", publicada no dia 3 de janeiro de 1521, a qual concretizou a excomunhão de Lutero. Apesar de tudo isso, o Eleitor Frederico advogou pessoalmente no caso de Lutero e recebeu a promessa de que uma audiência seria concedida a Lutero antes da Dieta.

Entretanto, cada vez mais pessoas na Alemanha estavam do lado de Lutero. Haviam lido com aprovação os três tratados e apoiavam o seu libertador. Quando o emissário papal Jerônimo Aleandro chegou a Worms não recebeu uma recepção muito cordial. Supunha-se que os livros e os escritos de Lutem haviam sido queimados, porém ali estavam, à vista de todos e à livre venda. Aleandro escreveu ao papa: "Enquanto noventa por cento da população grita 'Viva  Lutero', o outro dez por cento grita 'Abaixo Roma...". Para não dizer mais, sua estadia ali não foi nem um pouco confortável.

A Dieta iniciou suas sessões no dia 25 de janeiro de 1521 para discutir todos os assuntos do Santo Império Romano. Um dos temas da agenda era o caso do frade Lutero contra a Igreja Romana. Roma afirmava que Lutero era herege e que merecia ser condenado como tal, nem sequer merecia ser ouvido. A estratégia era que fosse a Worms sob qualquer pretexto para ser ali aprisionado. Ninguém estava sujeito a honrar a palavra dada a um herege. Basicamente o que Aleandro colocava perante todos os líderes presentes era: "Lutero deve morrer sem ser ouvido".

No dia 26 de março Lutero finalmente recebeu a convocatória do imperador Carlos V para que se apresentasse em Worms no prazo de 21 dias. Lutero não quis que Melanchton fosse com ele, mesmo que este lhe suplicasse a permissão para acompanhá-lo. Lutero sabia que a sua vida corria perigo, porém não se importava tanto com a sua vida como com a sua causa: a defesa da pureza do evangelho. Se Lutero morresse, Melanchton poderia seguir adiante com a obra.

Martinho Lutero saiu de Wittenberg no dia 2 de abril, guiado pelo arauto imperial que lhe proporcionaria o salvo-conduto. Durante o trajeto o pequeno grupo recebeu tratamento real por parte da população. Lutero passou a noite do Sábado 6 de abril no velho mosteiro agostiniano de Erfurt, na manhã seguinte pregou na catedral lotada. De repente o local onde estava começou a ceder pelo peso da multidão. Lutero acalmou os que estavam em pânico dizendo: "Calma, querido povo, só é uma brincadeira do diabo, mantenham a calma, não há perigo".

Desgastado fisicamente por causa da viagem, Lutero precisava atenção médica em Eisenach. Cada vez que ele detinha a marcha no caminho, o povo pedia-lhe que não fosse a Worms. Sua resposta era simples: "Eis que Cristo vive, e eu entrarei em Worms apersar das portas do inferno e dos poderes das trevas". No dia 16 de abril o pequeno grupo, ao entrar aWorms, teve uma calorosa recepção por parte de uns cem homens a cavalo. Milhares de cidadãos se alinhavam ao longo das ruas para ver o reformador de Wittenberg.

  Às quatro da tarde do dia seguinte Lutero devia apresentar-se perante a Dieta. As ruas estavam tão lotadas que foi necessário que os oficiais o levassem por um jardim que conduzia à porta dos fundos do local onde era a reunião. Teve que esperar longas horas enquanto outros assuntos eram concluídos. Quando Lutero foi guiadoà câmara da Dieta, disseram-lhe que não poderia falar exceto para responder perguntas diretas. Lutero ficou surpreso e desiludido. Na convocatória original Carlos lhe havia dito que queria "obter informação ao respeito de certas doutrinas que vêm de ti e de certos livros escritos por ti". Lutero não soube do edito romano que lhe proibia falar, a não ser para fazer a sua retratação.

A sala da assembléia estava lotada, quente, e abafada. Além do que, eram passadas as seis da tarde, e grandes lâmpadas fumacentas deviam ser acessas. O porta-voz oficial, João von Eck (não o professor de Ingolstadt) dirigiu-lhe uma dupla questão: "São estes os teus livros, e te retratas das heresias escritas neles?" Essa pergunta surpreendeu a Lutero e no início não a respondeu. Seu advogado interrompeu e pediu que todos os títulos fossem lidos para ter a certeza que só os livros de Lutero estavam nessa pilha. Lutero refez-se da surpresa e respondeu que todos os livros eram seus. Todavia, à outra pergunta estava relacionada com assuntos da salvação, a fé e a Palavra de Deus. E nisso precisava um pouco de tempo para pensar. O imperador Carlos V deu-lhe exatamente 24 horas.

Naquela noite Lutero ficou mais tranqüilo, agora sabia muito bem o que queriam dele, e também sabia a resposta que ele tinha que dar. Mais uma vez esperou desde as quatro até as seis da tarde. O local de reunião era numa sala maior, porém que estava mais lotada ainda que no dia anterior. E mais uma vez Eck perguntou-lhe "Queres te retratar das heresias escritas nos teus livros?"

Lutero respondeu calmamente que seus livros se classificavam em diferentes categorias. Alguns falavam da singeleza da moralidade cristã, à qual, nem os seus próprios inimigos podiam criticar. Outros denunciavam os abusos do papado, acerca do qual não se atrevia a retratar-se para não fomentar mais abusos. Um terceiro tipo foi escrito sobre indivíduos que queriam defender a tirania
romana. Neste último grupo Lutero reconheceu que era possível que tivesse falado com demasiada aspereza, mas não o tinha feito pelo seu próprio interesse e sim pelo evangelho de Cristo. Logo pediu que lhe mostrassem onde havia errado nos seus escritos sobre a base das Escrituras. Assim terminou e sentou-se.

Havia falado no idioma oficial, latim. Houve vários pedidos para que repetisse o seu discurso em alemão, e assim o fez. Após um breve recesso, Eck disse-lhe: "Não deves questionar o que os concílios têm decidido e condenado, pelo que, rogo-te, dês uma resposta simples, sem complicações nem chifres ... retratas-te ou não?". Lutem soube que o momento de dar uma resposta audaz e concisa havia chegado: "Se não me convencem mediante o testemunho das Escrituras ou por um raciocínio evidente (posto que não acredito no Papa nem nos Concílios somente, pois consta que têm errado freqüentemente e contradito a si mesmos) fico sujeito às passagens das escrituras por mim mencionados e a minha consciência está cativa pela Palavra de Deus. Não posso e não quero me retratar de nada, pois não é prudente nem reto agir contra a consciência. Não posso proceder de outra maneira, aqui estou eu, que Deus me ajude! Amém!".

Isto provocou um grande reboliço. Os alemães aplaudiram, os espanhóis vaiaram, Lutero foi rodeado pelos seus seguidores e levado ao seu quarto por motivos de segurança. Nunca antes um alemão defendera sua posição contra os poderes estrangeiros nem agiu segundo o que a sua própria razão sob as Escrituras lhe ditava. Nos dias que se seguiram Lutero reuniu-se com os representantes do Imperador na tentativa de chegar a um consenso, a resposta de Lutem sempre era a mesma cada vez que tentavam convencê-lo a aceitar algo, ele dizia: "Convençam-me com as Escrituras". Os representantes imperiais não compreendiam como esse simples monge afirmava que a Igreja se havia desviado dos ensinamentos bíblicos. Para eles era inconcebível que milhares de doutores e teólogos estivessem errados enquanto unicamente este monge sustentava a verdade. As reuniões foram infrutíferas, pelo que, Lutero, finalmente exasperado pediu permissão para voltar a casa. Assim no dia 26 de abril saiu de Worms com um salvo-conduto válido por mais 21 dias.

Quatro dias após a sua saída. O Imperador Carlos V da Espanha disse que estava disposto a condenar Lutero sob proscrição. No dia 12 de maio Aleandro tinha duas cópias do edito: uma em latim e outra em alemão, prontas para serem aprovadas pela Dieta e serem ratificadas pelo Imperador. Porém o Imperador titubeou, os franceses estavam atacando e Carlos V precisava da ajuda dos nobres alemães para enfrentá-los. Por isso decidiu clausurar a Dieta e publicar o edito mais tarde. O edito de Worms que apontava a Lutero e seus seguidores como proscritos foi assinado no dia 26 de maio de 1521, um dia após do encerramento da Dieta.

Perguntas para pensar:

1. Comente sobre a atitude que no início Lutero tinha em relação ao Arcebispo de Moguncia e ao Papa.

2. Comente sobre o uso devido e indevido da excomunhão.

3. Enumere os sete sacramentos da Igreja Católica Romana.

 4. Qual é a base para a validade dos sacramentos? É sobre a fé do
     participante? A vida piedosa de quem os administra? Outra base?

5. Compare a doutrina do sacerdócio universal com as "sagradas ordens"

6. Até onde vai a liberdade cristã?


CAPíTULO 4

Repouso e rebelião

Lutero saiu de Worms com um melhor ânimo do que quando entrou nacidade. O perigo imediato havia passado, pôde fazer a sua declaração diante do Imperador e podia voltar para casa. Todavia, fora de Eisenach lhe aguardava uma surpresa. Jorge Espalatino, capelão do Eleitor Frederico, havia feito planos para manter Lutero em segurança. Frederico aprovava o plano todo mas não queria saber onde Lutero se encontraria, pelo que desconhecia os detalhes.

No dia 2 de maio, Lutero, dois acompanhantes e seu cocheiro deixaram o grupo maior de viajantes e dirigiram-se ao sul de Eisenach, a Moehra, para visitar uns parentes. Lá Lutero pregou na manhã do dia 4 de maio. No mesmo dia, à tarde, saíram dessa cidade para retomar o seu caminho, porém, ao passar pelo bosque de Turíngia, uns cavaleiros armados rodearam ao pequeno grupo. Com calma Lutero assegurou aos seus companheiros: "Estamos entre amigos", mesmo quando, sem nenhuma deferência, apontando-lhe com a besta, levaram Lutero às pressas.

A ação iludiu até ao cocheiro, pelo que rapidamente se divulgou a notícia de que Lutero havia sido capturado e se encontrava desaparecido. Muitos dos seus amigos já o consideravam morto. Seus inimigos, entretanto, alegravam-se com essa possibilidade, certos de que "o diabo o havia levado".

O cavaleiro Jorge

O grupo armado que detivera a Lutero e seus amigos havia também providenciado um disfarce para ele. Lutero recebeu as vestes de um cavaleiro, uma montaria e foi levado por muitos desvios a Eisenach, até o velho castelo de Wartburg. Chegaram lá por volta da meia-noite. Lutero estava exausto. Pela escada posterior do castelo subiu até um cômodo isolado - seu novo lar - Disseram-lhe que devia deixar crescer o cabelo e a barba, adotasse a identidade de um cavaleiro e se vestisse como tal.

Em pouco tempo Lutero já apresentava a aparência de um cavaleiro e assim era tratado. O tratamento de Doutor Lutero ficou para trás dando lugar ao de "cavaleiro Jorge", durante algum tempo Lutero comportou-se como tal participando das atividades dos outros cavaleiros, porém não lhe agradavam as caçadas. Não se importava muito com a caça às raposas ou aos lobos mas desgostava-lhe perseguir coelhos ou codornas. Apreciava muito mais ocupar o seu tempo livre caminhando tranqüilamente pela floresta próxima ao castelo.

O retomo às atividades como escritor

As atividades físicas próprias dos cavaleiros cedo entediaram a Lutero. Assim, em secreto optou pelos seus livros, pois queria ocupar o seu tempo em algo útil. Ali, no seu esconderijo, longe da rotina diária do ensino, da pregação e do trabalho da paróquia, podia dedicar-se aos seus estudos e às Escrituras. Estabeleceu como sua primeira meta terminar uma série de sermões sobre os evangelhos e lições sobre as epístolas.

Cada vez mais Lutero estava convicto de que a Igreja Romana nãopoderia ser reformada por dentro, que teria que acontecer uma ruptura e começar tudo de novo. Assim Lutero escreveu um tratado atacando a prática inteira da confissão e da penitência. Enquanto Lutero estava desaparecido, Alberto de Mogúncia pensou que estava livre para voltar a apresentar as suas indulgências, mas Lutero lhe advertiu que se publicasse um tratado intitulado "Contra o ídolo de Halle" faria de Alberto a chacota do povo. Alberto desculpou-se com Lutero e o tratado não foi publicado.

Lutero viu-se obrigado a pensar sobre os votos monásticos, o celibato e o casamento enquanto estava no Castelo de Wartburg. Em junho de 1521 Carlstadt disse que não era bom que os monges
permanecessem solteiros, deviam renunciar aos seus votos e casar-se com as mulheres com que já viviam (ele mesmo casou-se com uma garota de quinze anos em dezembro daquele ano). Lutero ficou surpreso, ainda não havia pensado seriamente a respeito. No mês de setembro Lutero terminou a sua obra "Sobre os votos monásticos". Nessa obra Lutero rejeita a idéia romana de que o celibato era a mais elevada forma de vida. Afirmou também o direito da pessoa de renunciar aos votos se assim o quisesse. Todavia, não desejava obrigar aos monges nem às freiras a abandonar a vida dos mosteiros, esse era assunto da consciência de cada indivíduo, cada um devia responder pelas suas ações. Escreveu também uma carta ao seu pai dizendo que fora necessidade fazer seus votos aos 16 anos, como agravante de tê-los feito sem o consentimento dos seus pais. Lutero disse ao seu pai que agora estava convicto de que tais votos eram de origem humana e não eram abençoados por Deus.

O Novo Testamento

No Castelo de Wartburg Lutero deu início àquilo que talvez teria mais importância do que qualquer outra coisa por ele feita. Fez a tradução do Novo Testamento, do grego para a língua do povo. Durante mais de mil anos a Igreja Romana havia usado o latim nos seus cultos e nos seus escritos. Isso estava bem para os que conheciam essa língua, mas entre a gente comum, pouquíssimos entendiam o latim. As principais obras teológicas e a Bíblia estavam escritos num idioma que só uma elite podia ler ou entender.

Anteriores à tradução de Lutero, outras traduções ao alemão não tiveram muita popularidade, ora a linguagem era de má qualidade, ora os exemplares eram caros demais. Lutero quis fazer uma boa tradução ­ "fazer São Paulo falar alemão", Num curto período de onze semanas, enquanto permanecia em Wartburg, ele terminou a tradução de todo o Novo Testamento ao alemão. Quando saiu de lá na sua volta a Wittenberg, na primavera de 1522, levou junto o borrão da sua tradução. Em Wittenberg, ele e Melanchton passaram longas horas examinando e verificando a tradução feita antes da sua publicação em setembro de 1522. O livro vendeu-se muito bem, em só dois meses esgotaram-se todos os cinco mil exemplares que haviam sido impressos.

Lutero sai de Wartburg

Como acontece com a maioria das causas, apareceram os elementos extremistas. A reforma da igreja promovida por Lutero não estava isenta disso. André Carlstadt, velho amigo e colega de Lutero em Wittenberg, achou que as coisas não andavam rápido suficientemente e começou a pregar que era indevido usar órgãos, pinturas e imagens; e que celebrar a missa sem o cálice era algo mau e devia cessar de imediato. Instigou os alunos de Wittenberg à ação, interromper a celebração da missa e perseguir os participantes. A multidão respondeu com entusiasmo. Destruíram imagens, altares e crucifixos, e assim, muitos simples fiéis foram ofendidos.

Durante o mês de dezembro de 1521, Lutero visitou Wittenberg em segredo para esclarecer alguns assuntos da publicação. Todavia as coisas pioravam ainda mais. Então Lutero escreveu ao Eleitor Frederico nos primeiros dias de março de 1522. Naquela carta ele dizia que não esperava que o Eleitor lhe desse mais apoio para mantê-lo em segurança, sua causa era justa e Deus o protegeria melhor que o Eleitor. Então deixou silenciosamente seu esconderijo no castelo de Wartburg e foi para Wittenberg. Ainda estava disfarçado de cavaleiro pois tinha que passar pela Saxonia Ducal, território do duque católico Jorge.

Na Sexta-feira 6 de março chegou a Wittenberg. No Domingo seguinte começou a pregar, fez uma série de oito sermões em dias consecutivos denunciando o uso da força para alcançar os propósitos de Deus. Só a Palavra era suficiente. Primeiro era necessário ganhar o coração das pessoas mediante o evangelho antes de esperar qualquer mudança nas suas atitudes. Carlstadt foi embora e a tranqüilidade voltou a reinar em Wittenberg.

A revolta dos camponeses

A sorte dos camponeses durante a Idade Média não era muito boa, a vida dos camponeses dependia do cultivo da terra, mas nem tudo o que cultivavam lhes pertencia, tinham que pagar os impostos ao príncipe local, até para caçar, pescar, recolher lenha, e pastar os seus rebanhos também deviam pagar e obter a permissão para realizar tais atividades. Muitos perdiam as suas terras por não pagar os impostos e mesmo após perder tudo, ainda deviam trabalhar nessas mesmas terras mas para o príncipe. As jornadas eram longas e penosas. Só para obter o sustento diário e ter um lugar para si e para a família morar era uma luta constante. Muitos dos camponeses não tinham nenhuma posse, deviam tudo ao seu príncipe, o qual os tratava como escravos.

Para piorar essa situação, após o descobrimento da América, a Europa viu-se inundada com ouro e prata, porém sem um aumento da produção, a conseqüência foi a disparada dos preços. Como era de se esperar, o aumento dos preços afetou exatamente àqueles que apenas tinham para sobreviver.

A vida dos camponeses piorava a cada dia, a única saída que tiveram para mudar a situação foi a rebelião, algo que intentaram várias vezes no início do século XVI.

Lutero então ensinou que, escravo ou livre, cada cristão era um filho e sacerdote diante de Deus. Seu tratado de 1520, "A liberdade do cristão", foi mal compreendido pelas massas. Não viram a Lutero como seu campeão da liberdade espiritual e sim como seu campeão da liberdade política do sistema feudal em que viviam.

 A faísca que ateou fogo na revolta dos nossos camponeses deu-se no sul da Alemanha durante o verão de 1524. A condessa de Lupfen ordenou aos seus camponeses que recolhessem morangos e caracóis no seu dia livre, pois iria dar uma festa. Os camponeses reagiram
iniciando a revolta. Em 1525 o movimento havia se alastrado por todo o império, e embora mal organizados e desprevenidos, os camponeses ganharam o primeiro confronto. A loucura tomou conta de tudo, incendiaram, saquearam os castelos, ferindo e matando os nobres, não houve restrição.

As coisas acalmaram-se um pouco durante o inverno de 1524-1525. De fato, alguns camponeses reuniram-se e redigiram uma lista chamada "Os doze artigos". Em termos gerais, Lutero concordava com o que estabeleciam. Não podia argumentar contra o primeiro artigo que dizia, por exemplo, que os camponeses tinham o direito de escolher seus próprios pastores, nem contra o último, que repudiava toda lei contrária às Escrituras. Em abril de 1525, o tratado de Lutero "Exortação à paz", baseado nos artigos dos camponeses, ia dirigido a ambos os lados, aos nobres e aos camponeses: advertia aos nobres acerca do abuso na cobrança de impostos e também dizia aos camponeses que não tinham o direito de usar a violência.

 Mas com a chegada da primavera aumentou a revolta e o confronto. Durante a visita a Eisleben e lugares próximos, Lutem viu quão ruim era a situação, e sua pregação não produziu ali nenhum efeito. As pessoas que se deixam levar pela emoção não ouvem a lógica. Enquanto Lutero realizava essas visitas, o Eleitor Frederico, que já havia algum tempo adoecera, acabou por falecer. Era evidente que estando doente, não exerceu liderança, o que deve ter animado os ânimos dos camponeses.

Ao voltar a Wittenberg em maio de 1525, Lutero escreveu seu tratado "Contra as hordas de ladrões e assassinos dos camponeses". Lutero havia visto a sua pátria desgarrar-se pela revolta contra a autoridade. Com uma linguagem muito simples denunciou os métodos dos camponeses citando Romanos 13:1-4. Disse-lhes que mereciam a morte por três motivos:

1º Haviam quebrado o seu voto de servir aos seus senhores.

2° Haviam roubado e matado.

3° Haviam alegado fazer tudo isso em nome do evangelho e assim,
      blasfemado o nome de Deus.

Infelizmente, para Lutero e para a Reforma, o tratado não foi publicado senão em junho. No dia 15 de maio os camponeses quase foram exterminados num confronto perto de Frankenhausen. O líder camponês Tomas Müntzer, havia prometido que um milagre lhes daria a vitória. Estava errado, morreram mais de cinco mil camponeses, trezentos foram capturados e decapitados. Müntzen foi encontrado se escondendo debaixo de uma cama e o levaram para Muelhausen, onde após ser submetido a torturas foi decapitado. O tratado de Lutero, publicado depois desses acontecimentos, foi como aplicar sal numa ferida aberta.

Como resultado da mal sucedida revolta dos camponeses, houve gente simples que renegou a Lutero e sua pregação do evangelho. Foi acusado de animar os camponeses para depois traí-los. Roma também culpou a Lutero de tudo o aconteceu. Mas não foi Lutero o traidor dos camponeses nem culpado dos acontecimentos. Pessoalmente sempre se considerou um camponês e simpatizava com a causa destes. Porém quando chegou o momento de agir, o seu constante conselho sempre foi "Deixem que o evangelho mude os corações. As boas ações virão depois"

Lutero e os judeus

Durante a Idade Média e na época da reforma muitos judeus viviam na Europa. Freqüentemente sofriam perseguições e não desfrutavam dos mesmos direitos dos demais cidadãos. No sistema feudal daquele tempo, os príncipes locais controlavam a religião dentro dos seus territórios, pelo que, com freqüência brotavam sentimentos contrários aos judeus. Todavia, alguns pensadores humanistas cristãos começaram a ensinar que os judeus deveriam receber um melhor tratamento apesar de não seguirem a religião cristã.

Lutero recebeu a influência dos humanistas e da sua época. No seu livro sobre "O Magnificat" (1521) disse que os judeus deviam ser tratados com amor e tolerância, e os cristãos deviam usar o evangelho para que obtenham fé no verdadeiro Messias, Jesus, o qual era também judeu. Pouco depois, numa segunda obra, voltou a mostrar a sua preocupação com a conversão dos judeus e para que fossem tratados como as demais pessoas.

Porém, nos seus últimos dias, Lutero inteirou-se que os judeus falavam contra o Senhor Jesus e a fé cristã, pelo que escreveu um tratado muito severo chamado "Acerca dos judeus e suas mentiras". Ao sentir-se frustrado pelo fato dos judeus não se converterem à fé cristã, Lutero usou as mesmas palavras duras de muitos escritores da sua época. E como os governantes tinham a responsabilidade de velar pela religião que se professava nas suas terras, Lutero chegou ao ponto de animar os príncipes a que sepermitisse só o cristianismo, até chegar ao ponto de destruir as sinagogas.

A posição de Lutero seguia as leis dessa época em que a Igreja e o Estado estavam unidos. Séculos mais tarde, depois de que os direitos territoriais dos príncipes foram abandonados a favor dos princípios democráticos, as palavras de Lutero usaram-se erradamente para justificar o ódio racial e a limpeza étnica. Todavia, as duras palavras do reformador, igual que as severas palavras dos profetas do Antigo Testamento. não tinham um significado racial e sim religioso.

Lutero ensinou claramente que só a pregação do Evangelho em palavra e sacramento pode converter uma pessoa ao cristianismo; e a mesma mensagem do evangelho oferece vida eterna à pessoa de qualquer nação, idioma e tribo. Inclusive agora, essas verdades superarão o moderno anti-semitismo e a justificativa da limpeza étnica sob qualquer forma.


                    Perguntas para pensar

1. Qual foi o papel do castelo de Wartburg no plano de Deus para
                                 Lutero?

2. Por que razão a proposta de Carlstadt para realizar a reforma estava errada?

3. Por que se afirma que os camponeses interpretaram mal a liberdade do cristão?

4. Quando é que um cristão tem o direito de desobedecer ao seu
                                                                      govemante?

5. Por que os camponeses não estavam dispostos a seguir o conselho de Lutero de "deixar o evangelho mudar os corações"?

CAPÍTULO 5

Sua esposa e sua família

Um tanto comum mas certo é o ditado "detrás de cada grande homem há uma grande mulher", No caso de Martinho Lutero foi certamente verdade. Ainda que Catarina não chegara à sua vida senão até que o nome de Lutero era muito conhecido na Alemanha, desde que se encontraram teve uma profunda influência sobre ele.

Catarina Von Bora

 Catarina Von Bora nasceu no dia 29 de janeiro de 1499 numa aldeia ao sul de Leipzig. Perdeu a sua mãe ainda muito menina e seu pai tornou a se casar. Tudo indica que graças à sua madrasta, Catarina ingressou ao convento cisterciense perto de Grimma quando tinha nove ou dez anos. A irmã da sua mãe, Margarida Von Haubitz, era a abadesa do convento. Catarina tinha também outra tia ali, a irmã do seu pai, Madalena Von Bora (a "tia Lena" que mais tarde faria parte do lar de Lutero) que havia feito os seus votos aos dezesseis anos prometendo viver segundo os ideais de Bernardo de Claravel.

A notícia de Lutero e de seus ensinamentos em Wittenberg chegaram também ao convento. Ao reconhecer a autoridade bíblica que respaldava a Lutero, várias freiras desejaram ver-se livres de Roma. Uma freira escreveu a Lutero pedindo a sua ajuda. Foi descoberta e castigada muito severamente. Isso não impediu que outras freiras entrassem em contato com Lutero. Os detalhes exatos da fuga das freiras era um segredo bem guardado e nunca foi revelado. O único que se sabe a respeito é que o convento havia contratado a um negociante de Torgau, chamado Leonardo Koppe, para transportar provisões. Na tarde do quatro de abril de 1523, na véspera da Páscoa, nove freiras escaparam na sua carroça, escondidas dentro dos toneis usados para o transporte de pescado. Era uma aventura perigosa pois o convento estava dentro da Saxonia Ducal onde havia pena de morte para quem ajudasse alguém a fugir de um convento. E o Duque Jorge não vacilava em aplicar toda a força da lei. No domingo da Páscoa chegaram a Torgau e na terça feira estavam em Wittenberg. Três das freiras voltaram para as casas dos seus pais. Após dois anos, todas, exceto uma, haviam se casado ou estavam empregadas como institutrizes.

A própria Catarina primeiro morou com a família de um professor da Universidade, ou com a família de Lucas Cranach, o artista de Wittenberg. Com o passar do tempo conheceu e se apaixonou por Jerônimo Baumgartner, um graduado de Wittenberg, o qual por casualidade estava de visita na casa de Felipe Melanchton. O enlace parecia um fato até que o noivo tornou à sua casa e contou aos seus pais, eles não queriam como nora a uma freira que havia fugido do convento, tudo acabou por ali. Catarina não aceitou a notícia com facilidade.

Casamento

Até o próprio Lutero ajudou as ex-freiras a arranjarem casamento. Escreveu a Baumgartner e pediu-lhe que voltasse por Catarina. Nada aconteceu. Então ele a animou para que aceitasse como noivo a alguém de mais idade da faculdade, o doutor Glatz. Ela recusou-seterminantemente e disse ao amigo de Lutero, Nicolas Von Amsdorf, que aceitaria a ele ou ao próprio Lutero, mas nunca a Glatz. Lutero pensou muito quando soube que alguém estava disposta a se casar com ele. Durante a sua viagem de pregação em abril de 1525, visitou aos seus pais. Mais uma vez o seu pai o incentivou para que casasse. Lutero havia evitado o casamento simplesmente porque não desejava expor uma esposa e uma família à ameaça de morte que sempre pairava sobre ele. Mas ele incentivava aos outros monges e sacerdotes para que fossem honestos com os sentimentos que Deus lhes havia dado e casassem. Era capaz de pregar a respeito e ele mesmo parecia não ter a coragem de fazê-lo? Mas havia outras considerações práticas. Lutero era um homem muito ocupado, porém,casamento significava também ter uma ajudadora. Mais tarde lembraria que muitas vezes de tão exausto, jogava-se na sua cama sem mesmo tirar a roupa, sua cama tinha o cheiro do suor e faltava a limpeza necessária, Não se alimentava bem nem com regularidade. E também sentia-se responsável pela situação de Catarina. Ele a havia incentivado a casar, ela não tinha um lar e já estava com 26 anos - naquela época, quase que idade demais para aspirar a ser noiva.

Uma vez que Lutem tomou a sua decisão, agiu com rapidez. Na tarde do dia 13 de junho de 1525 casou-se com Catarina numa cerimônia particular com a presença de só cinco pessoas, incluindo o oficiante. Mais tarde, Lutero explicou que, se tivesse um noivado mais longo, teria atraído muitas críticas, tanto dos seus amigos como dos seus inimigos. Duas semanas depois, no dia 27 de junho, foi realizada uma celebração pública para anunciar seu enlace matrimonial. Entre os convidados, claro, estavam seus pais, orgulhosos de verem seu filho já casado. Entre os presentes que receberam pelo seu casamento havia uma jarra de prata trabalhada, uma tela pintada por Cranach e 20 gúldenes dados por Alberto de Mogúncia (que na época pensava na possibilidade de converter-se à causa da reforma, mas só por motivos políticos). Lutero quis devolver esse presente, mas Catarina, de espírito mais prático, conseguiu guardar o dinheiro.

A dificuldade que Lutero temia que um noivado longo lhe trouxesse não se comparou ao tumulto que seu casamento provocou. Por muito tempo, a opinião popular afirmava que o Anticristo nasceria da união de um sacerdote e uma freira. Roma, com muita alegria, incentivou essa opinião e declarou que a profecia havia-se cumprido. Erasmo de Rotterdam posicionou-se veementemente contra essa afirmação, ainda que ele e Lutero não comungavam nas idéias. Ele não podia tolerar tal tipo de calúnias. Erasmo disse que na maneira que sacerdotes e freiras haviam convivido tanto tempo, já era suficiente para que o Anticristo fizesse a sua aparição. Outros pensaram que Lutero teria feito melhor se não tivesse escolhido uma freira tão pobre com quem casar. Outros ainda,ofenderam-se porque pensavam que os dois haviam quebrado os seuvotos monásticos ao se casarem. Talvez alguns voltaram à Igreja Romana, porém muitos mais eram os que se regozijaram porque o seu líder afinal estava praticando aquilo que pregara durante vários anos.

De uma maneira interessante, especialmente para a nossa época em que o amor romântico é tão apregoado, é pouco provável que nenhum dos dois estivesse "apaixonados" quando se casaram. Catarina afirmara que estava disposta a se casar com Amsdorf ou com Lutero. Isso em nada se parece a uma história de amor. Lutero disse mais tarde que havia sentido atração por uma outra freira, Ave Von Schonfeld, mas a compaixão por Catarina superou essa atração. Todavia, com a bênção de Deus, cresceu entre os dois um intenso afeto e carinho e um profundo amor de marido e mulher. Isso é evidente até nos nomes carinhosos que Lutero dava a Catarina: "meine Kette" (corrente, em alemão), "minha costela", "minha senhora" ou "a estrela da manhã de Wittenberg".

Os filhos de Lutero

Lutero tinha 42 anos de idade quando casou - e na verdade não havia pensado seriamente no assunto senão até poucas semanas antes do seu enlace. O choque deve ter sido bastante forte, pois afirmou que resultava muito esquisito acordar pela manhã e ver ao seu lado, as tranças do cabelo feminino sobre o travesseiro.

Nos oito anos e meio que se seguiram tiveram seis filhos. Hans, o primogênito, nasceu no dia 7 de junho de 1526. Isso causou regozijo nacional e começaram a chegar os presentes de todas as partes da Alemanha.

Mas a praga conhecida como a peste negra chegou a Wittenberg no verão seguinte. A Universidade transferiu-se para Jena, mas não o pastor Lutero. Ele insistiu que os fiéis precisavam dele ali. Hans, com pouco mais de um ano, adoeceu gravemente e quase não comeu durante onze dias. Catarina passava muitas horas atendendo aos doentes da aldeia, mas ela mesma, grávida, esperando o seu segundo filho, também adoeceu. Apenas se havia recuperado um pouco quando deu à luz a Isabel, no dia 10 de dezembro de 1527. A pequena Isabel nunca teve boa saúde e acabou falecendo no dia 3 de agosto de 1528. Lutero escreveu a um amigo: "Minha filhinha Isabel morreu ... deixou-me desesperado, debilitado ...não consigo acreditar como o coração de um pai possa amolecer tanto por um filho"

 Madalena, ex-freira, tia de Catarina, morava com eles, e foi esse o nome que escolheram para a menina que nasceu-lhes no dia 4 de maio de 1529. O segundo varão nasceu no dia 9 de novembro de 1531, recebeu o nome de Martinho pois nascera um dia antes do aniversário de Lutero. Paulo nasceu no dia 29 de janeiro de 1533 e Margarida, no dia 17 de dezembro de 1534.

Mais uma vez a morte bateu à porta da família de Lutero: Madalena, já com treze anos adoeceu gravemente. Lutero imediatamente enviou por Hans, que estava na escola em Torgau. Madalena gostava muito do seu irmão mais velho. No seu leito de morte, Catarina não conseguia fitá-la e desviava o olhar para os lados. Lutero tentou consolá-la: "Querida Catarina, lembra-te de onde ela veio" - depois perguntou a Madalena: "Madalena, minha querida filhinha, desejas ficar aqui com o teu pai ou estás disposta a ir com o teu Pai Celestial?" - Madalena respondeu: "Querido pai, seja o que Deus quiser".

Lutero, vencido pela dor, disse: "Estou zangado comigo mesmo porque não consigo encontrar gozo no meu coração, nem posso estar tão grato quanto deveria". Madalena faleceu nos braços do seu pai no dia 20 de setembro de 1542. Lútero disse, colocando-a no túmulo: "Querida Lena, te levantarás e brilharás como uma estrela, como o soL...estou contente em espírito, mas a carne está muito triste e não tem consolo, a despedida me dá muita pena ... tenho enviado uma santa ao céu".

A vida familiar

Como na maioria dos lares cristãos, entre os tempos de penas e tristezas há muitos momentos felizes. O lar de Lutero não era diferente nesse aspecto. Seus filhos davam-lhe muitas alegrias. Quando estava em casa, Lutero sempre brincava ou cantava com eles. Alguns pensam que o compasso binário da canção "Do alto céu" de Lutero, com tom de ninar deve-se a ter sido composta enquanto Lutero fazia dormir um dos seus filhos no seu berço.

Lutero era produto da sua época e partidário de uma disciplina rigorosa. Em certa ocasião disse: "Prefiro ter um filho morto ater um desobediente". Noutra ocasião, apesar dos rogos de Catarina, recusou-se a ver a Hans por três dias para que este refletisse sobre a seriedade da sua desobediência. Quão bem sabia Lutero sobre a obediência que Deus requer de todos os seus filhos, Ao mesmo tempo, discordava plenamente em bater abusivamente num filho. Comentando Colossenses 3:21 afirmou: "Isto diz respeito aos que usam da violência ao criarem aos seus filhos. Essa disciplina que produz temor na mente da criança, mente ainda muito terna,provoca ódio para com os pais, pelo que, freqüentemente, a criançafoge de casa. .. todavia, o apóstolo Paulo não nos diz que não devemos castigar aos nossos filhos, mas que o façamos com amor, não com ira, esperando desfazer a nossa raiva sem torná-los melhores".

Quando Lutero esteve no castelo de Coburgo em 1530, pouco depois do quarto aniversário de Hans, escreveu esta carta:

Graça e paz, meu querido filho:

Alegra-me que aprendes e oras com diligência. Segue
fazendo-o, meu menino, e quando eu voltar para casa te
levarei um bom presente. Sei de um belo jardim onde os
meninos usam agasalhos dourados e colhem maçãs
brilhantes, pêras, cerejas e outras frutas que caem das
árvores. Dançam e saltam de alegria, e têm lindos
cavalinhos com freios de ouro e selas de prata. 
Perguntei ao dono do jardim de quem eram esses
meninos e ele me respondeu: "São os meninos que gostam
de orar, estudar e se comportar bem", então eu disse: "Bom
homem, eu também tenho um filho que se chama Hans
Lutero. Será que ele também poderia vir a este jardim
comer maçãs, pêras e montar nesses belos cavalinhos e
brincar com as demais crianças?". O homem me respondeu:
"Pode vir, sempre que goste de orar, estudar e comportar-se
bem. Seus amigos Filipe e Justy também podem vir e terão
apitos, tambores, cornetas, e também podem dançar e
brincar com arcos e flechas".
 Então o homem me mostrou um belo e amplo gramado
no jardim que estava preparado para as danças, e nas 
árvores havia pendurados apitos dourados, cornetas,
tambores, e também arcos e flechas de prata. Mas como era
muito cedo pela manhã as crianças ainda não haviam
tomado o seu café da manhã. Eu queria vê-los dançar, mas
não poderia ficar mais tempo, assim, eu disse ao homem:
"Bom homem, devo ir embora e escrever uma carta ao meu
 querido Hans contando-lhe tudo isto que eu vi e avisá-lo
para que ore bastante, estude muito e se comporte bem,
para que ele também possa vir a este jardim. Mas ele
também tem uma tia Lena que deverá acompanhá-lo"
 "Isso está muito bem", disse-me o homem, "Vá e diga a
 le tudo o que viu aqui". Por isso, querido e pequeno Hans,
trabalha muito, ora diligentemente e dize ao Phil e ao Justy
que também façam as suas orações e estudem, para juntos
possam entrar no jardim.

Que Deus te abençoe! Dá a tua tia Lena todo o meu
carinho e um beijo da minha parte. Teu pai que te ama,

Martinho Lutero


A generosidade de Martinho Lutero e a economia de Catarina

Talvez a razão tenha sido que passou muito tempo no mosteiro, onde não tinha que se preocupar com o dinheiro, talvez uma profunda fé em Deus, que proveria tudo o que precisasse em todas as circunstâncias, mas como fosse, Lutero nunca se preocupou pelo dinheiro. Costumava dizer: "Eu preocupar-me? ... Catarina é quem paga as despesas". E ela sempre conseguia isso, mesmo quando o seu marido dava a mínima importância para o orçamento familiar. Baseado nos valores atuais, em 1536 Lutero ganhava o equivalente a uns 90.000 dólares por ano. Pode parecer bastante dinheiro mas geralmente era tudo gasto por outubro ou novembro. A causa disso é óbvia: a casa de Lutero mais parecia um abrigo ou orfanato do que uma casa paroquial, Nos seus vinte anos de casamento o casal cuidou de onze sobrinhos órfãos. Ocasião houve em que até 25 pessoas abrigaram-se sob o seu teto. A esse número precisa ser acrescido ainda uma dúzia de alunos que costumavam tomar as suas refeições com eles (os quais com diligência anotavam as palavras que o seu grande mestre dizia).

Lutero nunca pediu nem um centavo pelos seus escritos, ainda que facilmente podia fazê-lo. Ao contrário, eram os publicadores que enriqueciam. Sua intenção era manter o custo dos seus livros o mais acessível possível e não aproveitar-se pessoalmente da pregação nem do ensino da Palavra de Deus. O que mais tornava difícil lidar com o orçamento da família era o fato de ser Lutero o alvo daqueles que pediam esmolas. Em certa ocasião, um aluno veio com olhos cheios de lágrimas e apresentou sua necessidade. Lutero, sem dinheiro na sua carteira, pegou uma taça de prata para dá-la ao jovem, Catarina então perguntou-lhe rapidamente: "Vais dar tudo de presente?". Sem dizer uma palavra, Lutero amassou a taça com as suas mãos e disse ao aluno: "Aqui tens, leva-a ao
joalheiro, já não a posso mais usar".

Numa outra vez quis enviar um jarro para flores a um amigo porocasião do seu casamento, mas não pôde achar o vaso pois a sua prudente esposa já o havia escondido. A coisa chegou ao ponto que Lucas Cranach, que também era o seu banqueiro, não pagava nenhum cheque feito por Lutero sem antes consultar a Catarina.

Como presente de casamento, o casal havia recebido o grande claustro negro do Eleitor João o Constante, o que não era um presente insignificante. Mais tarde, Lutero, a fim de pagar os seus impostos fez uma avaliação que resultou em 6.000 Gúldenes (o Gúlden na época correspondia a uns 300 ou 400 dólares). Lutero também comprou (principalmente com o dinheiro do Eleitor) a granja do seu cunhado, a propriedade Zulsdorf. Catarina também administrava um grande horto, bem como outros menores e até um açude para peixes. E fazia tudo isso com tão grande eficiência que assim, ela compensava a despreocupada generosidade de Martinho.

Ainda que Lutero morreu sendo um homem relativamente rico, com propriedades e bens avaliados em uns 10.000 Gúidenes, porem nem ele nem a sua família tiveram uma vida rodeadas pelos luxos, Praticavam com convicção o que está em Mateus 6:33.

"Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas".

Perguntas para pensar

1. No caso de Catarina ... o que ela aproveitou do tempo no convento? 

2. O que é o noivado ou o compromisso?

3. Qua1 é a importância que o amor romântico deve ter no casamento?

4. Como pôde Lutero despreocupar-se tanto do orçamento familiar?

5. Analise a decisão de Lutero de não tirar proveito econômico dos seus escritos.


CAPÍTULO 6

Instruções às igrejas

Depois do Edito de Worms em 1521, o qual declarou a Lutero umfora-da-lei, Carlos V deixou a Alemanha. Passou nove anos ausente, engajado como estava na sua luta contra Francisco I da França.
 Carlos V não pôde assegurar-se de que o edito fosse cumprido.Todavia, nem todos os assuntos no santo Império Romano podiam esperar a que o Imperador voltasse, de modo que, durante a sua ausência várias dietas foram convocadas. Em cada uma delas os representantes de Carlos V exortavam aos príncipes alemães a que cumprissem o Edito de Worms e anulassem a heresia de Lutero. Mas os príncipes não estavam convictos de que as idéias de Lutero para reformar a igreja fossem tão más. Inclusive o muito conservador e católico Duque Jorge não estava disposto a começar uma perseguição aberta, especialmente considerando a popularidade de que Lutero desfrutava entre as multidões.

Por causa da revolta dos camponeses, no ano de 1525 nenhuma dietase realizou na Alemanha. Pelo contrário, nesse ano Carlos V havia derrotado a Francisco I da França e já podia dirigir a sua atenção a outras partes do seu império. Ordenou então que os príncipes alemães se preparassem para cumprir o Edito de 1521. Porém, por causa do seu casamento, Carlos V partiu para uma longa lua-de-mel. Assim, esteve ausente à Dieta de Speyer de 1526, o que desagradou muitíssimo à maior parte da nobreza alemã. Os resultados gerais dessa dieta só fortaleceram a causa da reforma na Alemanha. Os príncipes pediram ao imperador poderem interpretar o Edito de Worms seguindo o ditame das suas consciências, conseguiram isso, e como conseqüência, os que eram a favor da Reforma, podiam consenti-la e até promovê-la nos seus territórios sem temer represálias. Carlos V não gostou nada disso, mas achava-se sem saída, havia confiado insensatamente na promessa de Francisco I de não lutar mais contra Espanha se ele o libertasse do cativeiro. Carlos V tomou como reféns a dois dos filhos de Francisco e o colocou em liberdade, mas o rei francês, uma vez em liberdade, quebrou a sua promessa alegando tê-la feito sob coação e, imediatamente, declarou a guerra contra Espanha e contra Carlos V. Assim a Reforma na Alemanha pôde prosseguir, pois o Imperador não podia dedicar-se a combatê-la.

Visitas oficiais às igrejas

Frederico o Sábio morreu no dia 5 de maio de 1525. Ainda que oficialmente nunca se converteu ao luteranismo, tudo indica que acreditava na justificação pela graça mediante a fé. Seu capelão era o fiel Espalatino. No seu leito, pouco antes de falecer, recebeu a Santa Ceia com os dois elementos. Seu irmão e sucessor, João 'o Constante, era sem dúvida luterano: ele propagou ativamente a causa luterana, Depois da primeira Dieta de Speyer em 1526, concordou com os repetidos pedidos de Lutero de que se fizesse uma visita oficial a cada uma das igrejas na Saxonia
  Eleitoral. Lutero e Melanchton colaboraram por escrito com uma série de instruções para os visitadores. As instruções se terminaram no fim de 1527 e as visitas oficiais começaram no ano de 1528.

Antes de tudo, se verificaria se os pastores estavam capacitados para realizar seu ministério. Muitos haviam repudiado recentemente o catolicismo romano - e nem todos o fizeram por bons motivos - alguns dentre o clero trocaram a sua filiação eclesiástica mas não seu ensino nem a sua prática. Por isso, os visitadores precisavam questionar se os pastores sabiam a diferença entre as doutrinas romanas e as da reforma. Era imprescindível que acreditassem e ensinassem as doutrinas defendidas pelos luteranos: sola scriptura, sola fide, sola gratia (somente pela Escritura, somente pela fé, somente pela graça). A insistência nesses pontos básicos eliminaria os ensinamentos falsos da Igreja Católica Romana:

lº que o papa e o concílio são iguais ou superiores às Escrituras

2º que as obras são necessárias para a salvação

3º que o homem deve cooperar com Deus para merecer a sua Aprovação

Além disso, os visitadores deviam animar esses pastores a insistir com o povo a que vivessem segundo a fé que professavam. Os membros das igrejas não deviam comportar-se muito bem só no Domingo e passar o resto da semana em pecado aberto.

Lutero sabia que a situação na Alemanha era ruim, mas ficou horrorizado ao saber a verdade: muitos clérigos nem sequer sabiam o Pai-nosso, nem o Credo Apostólico nem os Dez Mandamentos. Muitos
eram dependentes de jogos por dinheiro, outros eram bêbados empedernidos. Conta-se que um dos pastores passava todo o seu tempo elaborando cerveja, e no domingo, a falta de tema para o sermão, "pregava" sobre a arte de fazer cerveja! Em certos lugares, mais de Uma terceira parte do clero, supostamente celibatários, viviam em fornicação aberta (ajuntados, sem casar), e como os pastores viviam escandalosamente, os membros das suas paróquias não mais ouviam as exortações a viver fielmente, como resultado, as igrejas e as escolas haviam caído na ruína. Era como se o cristianismo não existisse nesse lugares.

Suprindo o que era necessário

Posto que havia tantos clérigos incompetentes, não os podiam retirar todos ao mesmo tempo, pois simplesmente não haveria quem os substituísse. Então, somente os piores foram retirados. Durante algum tempo as condições foram as de improvisar, algumas congregações uniram-se a outras, e para realizar os ofícios pastorais, foram enviados pastores de emergência. Lutero reduplicou seus esforços escrevendo sermões para ajudar a esses pastores que eram fiéis mas que tinham pouca instrução. Já anteriormente, quando esteve no seu confinamento em Wartburg, havia escrito muitos sermões para proporcionar exemplos a outros pastores. Esses esforços de Lutero foram muito significativos. Muitos pastores que não estavam acostumados a escreverem sermões bíblicos, dependiam muito dos sermões escritos por Lutero. Esses sermões passaram a ser usados na maior parte da Alemanha e noutras regiões da Europa.

 Ainda que no início Lutero era oposto à sugestão de Staupitz em 1509 para que se tornasse um pregador, chegou a ser um dos melhores, se não o melhor de todos, desde a época dos apóstolos. Ninguém da sua geração estava melhor capacitado para pregar a Palavra de Deus. Lutero tinha uma memória prodigiosa e estava à altura da sua sólida formação nas Escrituras. Estudava e meditava em casa e depois proferia seu sermão sem notas ou esboços. Seus sermões combinavam aplicações textuais e aplicações práticas. Não eram teóricos nem áridos, nunca maçantes, pelo contrário, eram sermões cheios de vida e práticos, comoviam às pessoas porque falavam das coisas da vida delas. Nunca dirigiu seus sermões à gente culta que estava entre os ouvintes, mas àqueles que tinham pouca ou nenhuma educação formal - mulheres, crianças e serviçais. Seu método geralmente era parar exatamente quando seus ouvintes estavam no ponto mais alto da sua atenção, deixando-os ansiosos para voltar a ouvi-lo mais uma vez. As três regras homiléticas que Lutero aplicava bem podiam ser utilizadas hoje: "Inicia com vigor, fala, termina em breve". Não gostava de sermões longos. Acima de tudo nos seus sermões pregava sobre Cristo crucificado. Se o sermão não se centralizasse em Cristo, não valia a pena pregá-lo.

Os ofícios da igreja mudaram pouco a pouco no tempo de Lutero. A centralização do culto já não era mais o sacrifício incruento de Cristo na missa católica. A leitura e a explicação das Escrituras chegou a ser a característica mais marcante do culto luterano, sem diminuir a importância dos sacramentos.

Os catecismos

Porém o trabalho na congregação consistia em algo mais do que a pregação. Precisa haver ensino também. Por isso Lutero escreveu seu Catecismo Menor e o publicou no dia 23 de abril de 1529. Ainda que começou esse catecismo com a idéia de dirigi-lo aos jovens, continuou escrevendo-o e assim aumentando seu conteúdo ate ao ponto em que não era mais apropriado para a juventude. O Catecismo Maior foi escrito em prosa e teve o propósito de ajudar os pastores e mestres. De fato, em algumas igrejas era lido regularmente à congregação como uma revisão constante da educação cristã básica.

O mais provável é que o Catecismo Menor tenha sido preparado simultaneamente com o Catecismo Maior, seguia um formato diferente, com perguntas e respostas e era muito breve em comparação com o Maior.

O Catecismo Menor estava dirigido ao leigo comum, em especial aos
pais de família, para que pudessem ensinar as verdades básicas da Bíblia aos seus filhos.

Lutero deu exemplo aos lares cristãos ao utilizar seu próprio Catecismo Menor, cada dia ajudava aos seus filhos na cuidadosa memorização, palavra por palavra. Cada semana passava um breve teste sobre o assunto. Recomendou aos pais que se os seus filhos não desejassem aprendê-lo, que também não se lhes desse de comer. E se os serviçais não quisessem memorizá-lo, afirmou que outros deviam ser contratados em seu lugar. Ele mesmo continuou estudando esse livro durante toda a sua vida.

o hinário

Além da tradução da Bíblia ao alemão e dos seus catecismos.Lutero também comoveu a alma das pessoas com os seus hinos. Antes da música que Lutero forneceu à congregação, a música eclesiástica era em latim, cantavam-na os coristas que conheciam essa língua e poucos leigos a entendiam. Lutero estava convicto de que a música era o melhor para comover os sentimentos.

 A música era o melhor meio para incutir os pensamentos das Escrituras nos corações do povo. De maneira que, em 1524 Lutero publicou um hinário com 24 dos seus próprios hinos. Durante a sua vida Lutero chegou a compor 37 hinos. Na atualidade alguns desses hinos encontram-se entre os mais apreciados da nossa igreja: "Eu venho desde os altos céus", "Rogamos ao Bom Consolador", "Nós cremos todos num só Deus", "Vós crentes todos exultai", "Das profundezas clamo ó Deus", e claro, seu hino triunfal na luta espiritual: "Castelo Forte é Nosso Deus".

   Seus hinos foram o exemplo para o luteranismo, seus inimigos queixavam-se: "O povo canta na Sua igreja herética: os hinos de Lutero têm atraído a mais pessoas que todos os seus escritos e sermões juntos"

  O exemplo de Lutero animou a muitos outros. Antes da sua morte se haviam publicado algo como 47 hinários. Atualmente só no idioma alemão há mais de cem mil hinos que foram publicados e mil desses hinos converteram-se em clássicos, Isto, segundo um historiador, representa mais hinos do que os que podem ser encontrados em qualquer outro idioma. Verdadeiramente a igreja luterana é chamada, com todo mérito, "a igreja que canta".

Perguntas para pensar

 1. Comente como a mão de Deus na história da Europa ajudou à Reforma.

2. Como pode Frederico o Sábio defender a Lutero com tanta energia
   sem jamais ter sido oficialmente luterano?

3. Por que razão havia pastores tão pouco capacitados no início da igreja luterana?

4. O que pode fazer um membro da congregação para que a sua atenção aumente durante o sermão?

5. O que pode fazer os pastores para que os seus sermões sejam mais interessantes?

6. Qual é o perigo real que os jovens enfrentam após a sua confirmação? De que maneira os jovens podem evitar isto?

7. Ainda é possível dizer que a igreja luterana é "a igreja que canta"?

CAPÍTULO 7 

Esclarecimento acerca da posição luterana

A Dieta de Speyer de 1529

A primeira Dieta de Speyer em 1526 havia dado oficialmente aosluteranos "carta branca" ao lidar com seus próprios assuntos. Carlos V  ficou muito desgostoso com isso mas naquela época estava com as mãos atadas. Porém em 1529 o cenário político havia mudado; de maneira que o imperador ordenou à Dieta, mais uma vez reunida em Speyer, que revogasse a decisão anterior. A maioria dos príncipes eram católicos e fizeram o que o imperador ordenara. Revogaram a permissão da dieta anterior, ordenaram aos príncipes católicos de cumprissem o Edito de Worms e ordenaram aos príncipes luteranos que permitissem o uso da missa católica em seus territórios.

Os príncipes luteranos reagiram como era de se esperar; Num documento que enviaram ao Imperador declararam que o que havia Sido acordado em 1526 não podia ser anulado por uma simples maioria; nem se deviam forçar aos luteranos a agir contra as suas consciências.

Ambos os lados haviam celebrado o acordo; pelo que, só esses dois partidos poderiam mudá-lo. Os luteranos que assinaram o protesto fóram: o Eleitor João da Saxonia, o Margrave Jorge de Brandenburg, os Duques Ernesto e Francisco de Anhalt e representantes de 14 cidades imperiais. Devido a esta carta formal de protesto, esses luteranos receberam o nome formal de "protestadores", que logo mudou para "protestantes". Depois  disso, qualquer pessoa que deixava as fileiras da Igreja Católica era denominado de "protestante".

Maquinações políticas

Felipe de Hesse interessou-se muito para fortalecer a posição política dos luteranos. E havia dois motivos para isso:

1º A Segunda Dieta de Speyer ameaçava à liberdade de culto;

2º Informou-se a todos que os católicos haviam iniciado um esforço
unido para eliminar a todos os luteranos e outros protestadores da
Alemanha.

Felipe de Hesse organizou uma liga secreta de defesa imediatamente após a Dieta, que incluia a Saxonia Eleitoral, Hesse, Strasburg, Nüremberg, e Ulm. Uma vez que se chegou a certa unidade política procurou-se chegar à unidade teológica. Convidou a diferentes teólogos alemães e suíços ao Castelo de Marburg, em Hesse para discutir e talvez resolver as diferenças. Ele estava convicto de que os problemas deviam-se a uma falta de comunicação, e que as diferenças seriam resolvidas numa reunião em que falariam "cara a cara". Os grupos estavam divididos em luteranos e zwinglianos.


Ulríee Zwinglio

Quase que paralelamente à reforma luterana na Alemanha, um sacerdote chamado Ulrico Zwinglio havia dado início a reformada igreja também na Suíça. Como pastor em Zurique conseguira convencer o concílio dessa cidade a aeeitar as mudanças.Tais mudanças incluíam entre outras coisas: mudar a ordem da missa católica por uma que ele mesmo tinha escrito, abolir as procissões eclesiásticas, tirar as imagens, crucifixos e altares, proibir a venda de indulgências, e ordenar aos pregadores a que só ensinassem a doutrina bíblica. Nenhum desses pontos era motivo de
controvérsia para os reformadores alemães, porém Zwinglio levava a cabo a sua reforma sobre outro fundamento. Seu método teológico de interpretação apelava à razão humana como última resposta a cada questão doutrinária. Afinal, arrazoava. "O Senhor é um Deus de ordem e razão, não pediria ao homem crer em nada que não fosse razoável.As Escrituras precisam estar em harmonia com a razão. O conflito com Lutero era inevitável porque para ele as Escrituras tinham a última palavra e acudia a elas como a autoridade definitiva sobre a razão humana quando as duas estavam em desacordo. O campo de confrontação inicial foi a doutrina da Santa Ceia, e a questão era se o corpo e o sangue de Cristo estão presentes realmente ou não no sacramento.

o Coléquio de Marburg 

Ulrico Zwinglio e João Ecolampio da Suíça e Martim Bucero de  Strassburgo, entre outros, representavam a posição dos reformadores suíços em Marburg. Lutero, Melanchton, Justus Jonas e companhia, representavam Wittenberg. Reuniram-se durante os primeiros três dias de outubro de 1529. No início Zwinglio discutiu alguns assuntos em particular com Melanchton, como Lutero fez com Ecolampio. Dessa maneira Melanchton tentava evitar qualquer conflito imediato entre Zwinglio e Lutero. Depois dessas conversas, todos assentaram-se juntos para o debate. Uma testemunha mais tarde disse que Lutero e Zwinglio mostravam-se mais como irmãos do que corno oponentes. Aparentemente chegavam a um consenso sobre muitos assuntos: a trindade, a Pessoa de  Cristo, a fé e o batismo. Porém, quanto à Santa Ceia entraram num beco sem saída.

Quando o debate sobre a Santa Ceia iniciou-se, Lutero tirou um giz do seu bolso e escreveu na mesa: "Hoc est corpus meum" - isto é o meu corpo. Baseado nessas simples palavras de Cristo procedeu a defender a doutrina da presença real de Cristo no sacramento. Zwinglio respondeu com as palavras de João 6:63 " ... a carne para nada aproveita", e disse que desde a sua ascensão Jesus já estava à destra de Deus. Isso não foi um  problema para Lutero, que via a "destra de Deus" presente em todo lugar. Cristo, como verdadeiro homem e verdadeiro Deus, está presente tanto nos céus como na terra. A citação de João 6:63 havia sido tirada do seu contexto, nada tinha a ver com o sacramento.

Cedo era evidente para Lutero que o "é" da declaração de Jesus significava para Zwinglio "representa". Lutero agarrou-se às simples  palavras do Mestre, apesar dos muitos e sofisticados argumentos que Zwinglio apresentou.

No terceiro dia os dois grupos perceberam que seria inútil continuar. Lutero escreveu quatorze pontos sobre os que não havia discordância. O  décimo quinto ponto referia-se à Santa Ceia e concluía assim: "Ainda que neste momento não estamos em concordância sobre se o verdadeiro corpo e sangue de Cristo estão corporalmente presentes no pão e no vinho, todavia, ambos grupos devem mostrar amor cristão uns pelos outros ..."  Com isso todos estavam de acordo. Ainda que a despedida foi cordial, Lutero recusou-se a dar a mão a Zwinglio quando este lhe ofereceu a destra em sinal de companheirismo. Para Lutero podiam ficar como conhecidos mas não existiria nenhum companheirismo pois não havia união na fé. Desde esse momento ambos os grupos perceberam que
percorreriam rumos diferentes.

A Dieta de Augsburgo de 1530

Por fim o Imperador Carlos V pôde dedicar todas as suas atenções para resolver o impasse religioso, de maneira definitiva. Com essa finalidade convocou outra dieta, dessa feita em Augsburgo, enviou um convite muito amigável, pedindo a todos os protestantes que expusessem as suas posições num julgamento aberto onde poderiam ser ventiladas tais questões.

Já antes do Colóquio de Marburg, os teólogos de Wittenberg haviam elaborado uma série de artigos explicando a posição evangélica, esses artigos são conhecidos como "Os artigos de Schwabach" porque foram apresentados naquele local em outubro de 1529. Essas declarações foram muito positivas, pois mostravam de maneira clara qual era a posição evangélica sem apontar para os abusos e erros dentro da Igreja Romana. Depois do convite do Imperador, o Eleitor pediu a Lutero que escrevesse outra série de declarações para complementar a primeira e que detalhasse os erros romanos.

Lutero, Melanchton e Jonas trabalharam nesse projeto. No final de março de 1530 os artigos foram terminados e foram entregues ao Eleitor João em Torgau, por isso, o dócumento apresentado é conhecido como "Os artigos de Torgau".

Nos primeiros dias de abril, a delegação de Wittenberg iniciou sua viagem rumo a Augsburgo. Em Torgau, o Eleitor João uniu-se ao grupo. Na Sexta feira santa 15 de abril de 1530, chegaram a Coburg, onde celebraram a Páscoa, ali o Eleitor insistiu com Lutero para que este ficasse nessa cidade, pois era parte da Saxonia Eleitoral, onde a vida do criminoso Lutero podia estar a salvo. O restante do grupo havia recebido um salvo conduto para a dieta, mas não Lutero. Teria que permanecerem Coburg durante a dieta (a qual teve uma duração de cinco meses).

A companhia do Eleitor João chegou a Augsburg no dia 2 de maio de 1530,surpreendendo-se com um documento que lhe aguardava, documento pronto para ser apresentado perante a dieta. Havia sido escrito por João Eck de Ingolstadt, sob o título "404 artigos para a Dieta de Augsburg", supostamente era uma lista completa dos erros de Lutero. Por desgraça não se fazia nenhuma diferença entre Lutero, Zwinglio e outros protestantes. Lutero não estava ali presente para escrever uma resposta, de maneira que a tarefa recaiu sobre Melanchton.

Ao utilizar os Artigos de Schwabach e de Torgau como fundamento,  Melanchton elaborou uma Confissão mais completa para responder ao documento apresentado por Eck. O primeiro rascunho foi enviado a Lutero no dia 11 de maio. Lutero devolveu-o quatro dias depois sem nenhum a alteração e com os elogios devidos para Melanchton: "Eu mesmo não poderia andar com tanta suavidade nem tranqüilidade". Melanehton escreveu mais dois rascunhos antes do documento confessional estivesse pronto para ser apresentado ao Imperador Carlos V no dia 24 de junho de 1530.

Carlos V chegara a Augsburgo no dia 15 de junho, após as costunieiras festividades, houve um culto no qual o Eleitor João e o Landgrave Felipe recusaram-se a tirar os seus chapéus durante a bênção; Mais tarde nesse mesmo dia foi ordenado aos luteranos que não pregassem o evangelho enquanto estivessem em Augsburgo. O Margrave Jorge de Brandenburg respondeu que o Imperador não podia mandar nas suas consciências. Quando a ira de Carlos V começou a aumentar, Jorge postou-se perante ele e disse: "Antes de que eu negue ao meu Deus e seu evangelho, eu me ajoelharia diante da sua majestade e permitiria que me cortassem a cabeça".

 Essa atitude confundiu ao Imperador Carlos V, que respondeu em um alemão mascado: "Querido príncipe, não cortar cabeça, não cortar cabeça!".

   Então o imperador pediu aos luteranos que se unissem a procissão do Corpus Christi e à sua missa. Quando os luteranos recusaram-se, Carlos V irou-se tanto que quase ordenou-lhes que voltassem para casa. Todavia, isso poderia ter provocado ama guerra civil, de maneira que suportou a humilhação de assistir a uma missa quase vazia.

A Confissão de Augsburgo

Finalmente foi informado aos luteranos que deveriam estar prontos para apresentarem o seu documento no dia 24 de junho. A Confissão de Augsburgo, como se tomou conhecido o documento preparado por Melanchton, ainda estava sendo editada no dia 23 de junho, mas foi terminada a tempo. Foi assinada pelo Eleitor João de Saxonia, Margrave Jorge de Brandenburg-Ansbach, o Duque Emesto de Lüneburg, o Landgrave Felipe de Hesse, o príncipe Wolfgang de Anhalt e as cidades de Nürenberg e Reutlingen. Melanchton advertiu ao Eleitor João acerca das conseqüências. João, também conhecido como "O Constante", respondeu: "Farei o que é certo, não me preocupa a minha dignidade eleitoral. Confessarei ao meu Senhor cuja cruz estimo mais do que todo o poder nesta terra".

Houve várias demoras antes de que os luteranos fossem chamados a se apresentarem perante a Dieta. De fato, no dia marcado já era tão tarde que não havia mais tempo disponível para fazer a leitura do documento inteiro (umas duas horas). Carlos V quis uma cópia para estudá-la em particular. Georg Brueck, um dos chancelers da Saxonia e porta-voz dos luteranos fez lembrar ao Imperador a sua promessa de que o documento seria apresentado publicamente, Carlos V acedeu e a contra gosto permitiu que se fizesse a leitura em alemão, pois estavam em território alemão.

No dia 25 de junho de 1530, um dia de grande significação para os luteranos, iniciando às três da tarde, o doutor Christian Beyer, Reitor de Saxonia, com muito destemor leu-em voz alta a Confissão de Augsburgo perante a Corte Imperial. Alguns disseram que Carlos V dormiu, outros afirmaram que o Imperador escutou atentamente. Ao término da leitura, o Bispo de Augsburgo reconheceu: "Tudo o que foi lido é a pura verdade".

o Príncipe Guilherme de Bavária disse: "Disseram-me algo muito diferente daquilo que vocês, luteranos, ensinam". E a João Eck comentou-lhe: "Disseste-me que se poderia provar a falsidade da sua doutrina". Eck respondeu: "Assim seria, se eu usasse os pais da igreja, mas não usando somente as Escrituras". Estupefato, Guilherme perguntou: "Queres dizer que os luteranos estão baseados nas Escrituras e nós católicos romanos fora delas?". Ainda mais impressionados estavam os representantes de cinco cidades: Heilbronn, Kempten, Windeheim, Weissenburg e Frankfurt am Main. Eles acrescentaram as suas assinaturas à Confissão apresentada, mais tarde outros fariam igual.

 Reação à Confissão de Augsburgo.

O imperador pediu a Eck que escrevesse uma resposta ao documento luterano. No dia 8 de julho havia escrito um documento de 351 páginas. Carlos V não quis aceitá-lo pois era muito longo e mostrava ódio em relação aos luteranos. No dia 3 de agosto, a resposta romana havia descido de tom e reduzida a menos do que uma décima parte do seu tamanho original, e foi entregue sob o título de "A refutação". Mesmo que intentaram utilizar passagens das Escrituras para provar a sua posição, a maior parte das citações bíblicas nem sequer correspondiam ao assunto tratado. As discussões que se seguiram centravam-se na insistência romana na doutrina da infalibilidade papal, o sacrifício incruento na missa e o sacerdócio. Roma nunca permitiria que os sacerdotes casassem nem que a comunhão fosse distribuída sob as duas espécies. Porém os luteranos permaneceram firmes. Carlos V ainda ameaçava a João: "Ou concordas conosco ou perdes a tua posição como Eleitor".

João o Constante respondeu ao imperador: "Preciso escolher entre Deus e o mundo. Não tenho nenhuma dúvida quanto à minha escolha, Deus me fez Eleitor, ainda que não o merecesse. Entrego-me às suas mãos e que Ele faça comigo segundo a Sua Vontade".

Enquanto isso, Melanchton preparava uma resposta à refutação romana, documento esse que chegou a ser conhecido como "A Apologia da Confissão de Augsburgo". O documento foi apresentado à Dieta no dia 22 de setembro. Carlos V o rejeitou e assim foi encerrada a dieta.

Aos luteranos foi dado um prazo que terminava no dia 15 de abril do seguinte ano para retomar às fileiras da Igreja Católica Romana.

O Imperador achou-se quase só quando tentou reforçar o seu mandato. Só dois príncipes estavam dispostos a ajudá-lo. Até os Arcebispos de Moguncia e de Colônia e o Bispo de Augsburgo tornaram-se simpatizantes da causa luterana.

Em março de 1531 os luteranos formaram a Liga de Esmalcalde prevendo o cumprimento das ameaças de Carlos V. Os membros dessa liga incluíam a Saxonia Eleitoral, Hesse, Lüneburg, Anhalt, Mansfeld e outras onze cidades. Carlos V duvidou ao ver a determinação e a força que apresentavam. Quando finalmente decidiu-se à ação, os turcos atacaram a Europa oriental. Carlos precisava de toda a ajuda que pudesse obter. Assim, retratou-se da sua posição com os luteranos e estabeleceu a paz com eles. Com "paz de Nürenburg" o Imperador Carlos V granjeou o apoio dos luteranos contra os turcos.

Perguntas para pensar:

1. Explique por que razão João 6;63 não se refere à Santa Ceia como Zwinglio queria utilizar o versículo?

2. Deve-se fomentar a união entre os cristãos? Sobre qual base?

3. Lutero é acusado de ser intolerante por não ter chegado a um
   compromisso com Zwinglio ou por não reconhecer umcompanheirismo eclesiástico 
com o reformador suíço. Por que razão esta avaliação não é nem justa nem bíblica?

4. Na sua opinião, por que se negaram os luteranos a participar na missa festiva 
do Corpus Christi em Augsburgo?

5. Ao assinarem a Confissão de Augsburgo todos os confessores
   expunham-se à perseguição. De que maneira nós hoje sofremos
   perseguição?

EPíLOGO

Lutero viveu por quase mais dezesseis anos após a assinatura da Confissão de Augsburgo.Foram anos cheios de alegria para uma crescente família cristã, de tristezas pelas mortes da sua mãe e da sua filha Madalena, e de lutas com as doenças que o atacavam. Não desfrutava de boa saúde, Lutero sofria de várias doenças crônicas, duas das quais destacavam-Se: uma infeção no ouvido e cálculos renais (mas ele afirmava que a cerveja de Catarina ajudava a dissolver as pedras na urina).

No dia 23 de janeiro de 1546 Lutero e seus filhos Martinho e Paulo viajaram a Eisleben. Lutero havia concordado em ser o árbitro numadisputa familiar entre os príncipes de Mansfeld. A viagem durante o inverno foi dificil e Lutero chegou exausto. As três semanas que se seguiram, entre argumentos dos príncipes e seus advogados, esgotaram-no ainda mais; mas afinal tudo foi solucionado.

Na tarde do 17 de fevereiro Lutero foi acometido por uma dor aguda no peito, após um breve descanso, mais duas vezes, cedo pela manhã as dores o acometeram. Ao perceber que se aproximava o seu fim) Justus Jonas perguntou-lhe: "Reverendo padre, estás disposto a morrer pelo nome de Cristo e pela doutrina que tens pregado?". Lutero respondeu que sim, com o tom de voz suficiente para ser ouvido pelos presentes. Pouco depois morreu no seu Senhor.

 O funeral realizou-se no dia seguinte, na igreja de Santo André em Eisleben, não muito longe da casa onde Lutero nascera 62 anos antes. No dia 20 de fevereiro, recebeu ordens do Eleitor João Frederico, filho de João o Constante, e sobrinho de Frederico o Sábio, para levar o corpo de Lutero a Wittenberg. O funeral com honras de estado foi realizado na Igreja do Castelo de Wíttenberg no dia 22 de fevereiro. João Bugenhagen e Felipe Melanchton pregaram lembrando aos ouvintes que Lutero havia sido um dos grandes lideres da história. Depois da cerimônia o corpo de
Lutero foi sepultado diante do púlpito da igreja onde tantas vezes pregara, à espera da ressurreição dos mortos.

No sermão pregado no funeral de Lutero, o pastor Bugenhagen fez referência às palavras de Apocalipse 14:6-7, descrevendo a Lutero como o mestre mais destacado da igreja cristã desde os tempos do apóstolo Paulo, e viu nas suas conquistas a tarefa do "anjo...que tinha o evangelho eterno", que clamou com grande voz, "temei a Deus e rendei-lhe glória".


CRONOLOGIA

1483 - 10 de novembro: Nascimento de Martinho Lutero em Eisleben.
     - 11 de novembro: Batismo na paróquia de São Pedro.
1496 - Estudos em Magdeburg.

1497-1501 - Estudos na Escola São Jorge em Eisenach

1501 - Abril: ingresso na Universidade de Erfurt

1502 - Setembro: obtém o seu título como Bacharel.

1505 - Fevereiro: Obtém o seu Mestrado em Arte.
     - 20 de maio: Inicia os seus estudos de direito em Erfurt
     - 02 de julho: O temporal e o voto de Lutero
     - 17 de julho: Ingresso no mosteiro agostiniano

1507 - 04 de abril: ordenação ao sacerdócio.

1508 - Outubro: inicia os seus discursos em Wittenberg.

1509 - Retorno a Erfurt

1510-1511 - Viagem a Roma
1511- Fins do verão europeu: retomo a Wittenberg e permanência
      nessa cidade.

1512 - Outubro: obtenção do seu Doutorado em Teologia.
     - Dá início às suas palestras sobre Gênesis.
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513 - Agosto: inicia as suas palestras sobre os salmos.

1515 - Abril: inicia as suas palestras sobre Romanos

1516 - Outubro: inicia as suas palestras sobre Gálatas

1517 - Outubro: Prega na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg
       as suas 95 teses
1518 - Janeiro: Tetzel recebe dos dominicanos o seu Doutorado
       em Teologia- 12 a 14 de outubro: Lutem apresenta-se perante Caetano em Augsburgo.

 1519 - 4 a 10 de janeiro: Lutero se reúne com Militz em Altenburg
      - 12 de janeiro: morre o Imperador Maximiliano
      - 28 de junho: Carlos V é eleito Imperador.
      - 04 a 14 de julho: Lutero debate com João Eck em Leipzig.

1520 - 15 de junho: O Papa Leão emite a Bula "Exurge Domini"
           na qual condena Lutero com a excomunhão.
      - Agosto: Lutero apresenta o seu "Discurso à Nobreza da Nação Alemã"
      - 6 de outubro: "0 cativeiro Babilônico da igreja"
      - Início de novembro: "Da liberdade do cristão"
      - 10 de dezembro: Lutero queima a Lei Canônica Romana e a
        Bula Papal

1521 - 07 a 08 de abril: Lutero apresenta-se perante a Dieta de Worms.
      - 26 de abril: Lutero deixa Worms
      - 4 de maio: Lutero é "capturado" e levado em segredo ao Castelo de Wartburg
      - 3 a 4 de dezembro: surgem os primeiros distúrbios provocados pelos iconoclastas em Wittenberg.
      - Após os distúrbios: Lutero visita Wittenberg secretamente
      - 25 de dezembro: Carlstadt celebra a Ceia com ambos os elementos
      - 27 de dezembro: chegam a Wittenberg os profetas de Zwickau.

1522 - Fevereiro: lutero termina de traduzir o Novo Testamento ao Alemão
      - 01 a 06 de março: Lutero retorna de Wartburg

1523 - Publica-se o primeiro hino de Lutero "Cantai cristãos onde for"

1525 - Revolta dos Camponeses
      - 13 de junho: casamento com Catarina Von Bora

1526 - Junho a agosto: realiza-se a Primeira Dieta de Speyer

1527-1528 - Hino triunfal "Castelo Forte"

1528 - Outubro: Lutero e as visitas oficiais às igrejas .

1529 - Janeiro: Publicação do Catecismo Menor em grandes cartazes
     - Abril: Publicação do Catecismo Maior
     - Maio: Publicação do Catecismo Menor em formato de manual
    
 - 01-04 de outubro: Colóquio e Artigos de Margburg

1530 - 25 de junho: A Confissão de Augsburgo é lida perante a Dieta
     - 19 de novembro: Encerra-se a Dieta e se renova o Edito de Augsburgo.

1531 - Janeiro e fevereiro: Forma-se a Liga de Esmalca1de
     - 15 de abril: Publica-se a Confissão de Augsburgo e sua Apologia

1534 - Publica-se a tradução feita por Lutero da Bíblia inteira.

1537 - Fevereiro: Os artigos de Esmalcalde são aprovados em
       particular. Os quais deveriam ser apresentados aos     católicos caso o papa convocasse um concílio                  livre para debater a questão luterana. 

1546 - 18 de fevereiro: falecimento de Lutero em Eisleben.

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