O MONGE QUE CONQUISTOU ROMA
O Monge
Que
Conquistou
Roma
INTRODUÇÃO
Do Novo Testamento à Reforma
Quando os cristãos estudam o livro de Atos e as epístolas
de Paulo, percebem como era a igreja no primeiro século. Todavia, quando
começam a estudar a vida de Martinho Lutero e vêem como era a igreja daquela
época, ficam pasmos. Como aconteceu tamanho desastre? Por essa razão é
necessário considerar rapidamente a mudança que a igreja teve nos 1400 anos
entre as comunidades do Novo Testamento e Lutero.
Quando o último apóstolo faleceu (por volta do ano 100
d.C.) existiam congregações cristãs nas principais cidades ao longo de todo o
litoral do mediterrâneo. Pelo ano 200, o cristianismo se havia expandido também
a todas as cidades importantes do interior do império. Um século depois, a fé
cristã já estava presente em muitas áreas rurais. Por volta do ano 400 uma
parte considerável da população do mundo romano havia se tomado cristã.
Um dos fatores externos mais importantes neste
crescimento foi alegalização do cristianismo. Durante quase 300 anos o
governo imperial romano havia negado a condição legal à igreja. Às vezes a
igreja era perseguida duramente. Porém, no ano 312 o imperador Constantino
legalizou o cristianismo e ele mesmo confessou a sua fé em Jesus Cristo. Esta
nova paz teve bons resultados para a igreja: estava livre para difundir o
evangelho; a igreja podia possuir propriedades e construir seus prédios; e
também os cristãos podiam desempenhar um papel mais atuante no própriogoverno e na sociedade. Por outro lado, a igreja não
pôde instruiradequadamente a grande quantidade de gente que chegou
até ela. Como resultado disso, muitos, ao unirem-se à igreja introduziram
idéias e costumes pagãos. Outros uniram-se à igreja pensando que essa atitude
agradaria ao Imperador, promoveria suas carreiras e negócios, melhoraria sua
vida pessoal, ou por outros motivos errados. Além disso, os imperadores que davam
nessa época um tratamento preferencial ou grandes doações, o faziam esperando
poder intervir nos assuntos da igreja no que diz respeito à política e à
doutrina. Quando as congregações cresceram,viraram-se obrigadas a ser muito mais formais nos seus
cultos e na sua organização.
Por volta do século V o mapa europeu também começou a
mudar;exércitos alemães e godos invadiram a Europa e se
estenderam pela metade ocidental do Império Romano. Muitos deles já eram
cristãos, mesmo que a maioria seguisse o ensino herético ariano (de Ano, quenegava que Jesus fosse o Deus Eterno). As civilizações
grega e romana que haviam mantido unido o mundo mediterrâneo durante 800 anos
estavam destruídas. Já não existia um idioma comum, nem escolas, nem arte, nem
leis, nem governo, nem caminhos que unissem as cidades. Pelo contrário, as
comunidades e as áreas estavam isoladas umas das outras e desenvolveram
culturas e idiomas locais, No século VII o surgimento do Islã destruiu
muito do Império Romano Oriental (conhecido na época como Império Bizantino) e
exterminou em grande parte a presença cristã no norte da África, Egito,
Palestina e Ásia menor.
Muitas das primeiras congregações que Paulo e os
outros apóstolosfundaram foram exterminadas pelas invasões ou ficaram enfraquecidas
pelos problemas doutrinários. Todavia, a igreja da cidade de Roma permaneceu
forte. Quando o sistema político romano fracassou em Itália, o bispo romano
tomou a iniciativa e proporcionou estabilidade. No século VI o Bispo de Roma,
conhecido como "0 Papa" (o pai) se havia tornado no porta-voz e líder
de toda a igreja ocidental.
Durante o começo do período de perseguição, muitos
cristãos fiéisforam mortos devido à sua fé, outros cristãos então,
pensaram que eles eram pessoas especialmente santas. Quando a perseguição
acabou e a igreja teve reconhecimento legal e começou a enriquecer, alguns
foram para o deserto e levaram uma vida de oração e arrependimento, crendo que
isso os ajudaria para levar uma vida mais santa, longe das tentações do mundo.
Em breve esses ermitãos ou "monges" formaram comunidades ou
"mosteiros".
A partir do século IV esse movimento cresceu
rapidamente. Milhares de monges moravam nos desertos e nas montanhas pelo mundo
mediterrâneo.
Os mosteiros começaram como lugares de oração, mas
eventualmenteserviram à igreja de outras maneiras, proporcionavam
ajuda aos viajantes, aos doentes, aos pobres, e também se tornaram centros de
educação e estudo. Os mosteiros na Europa tinham a responsabilidade de
conservar as escrituras das antigas Grécia e Roma, e dos primeiros escritores
cristãos.
Com a queda do Império Romano também caiu o nível de
educação os "bárbaros" alemães e godos viviam sem
valorizar a antiga cultura greco-romana. Em breve a Europa viu-se mergulhada
num ambiente de pouca educação. A igreja continuou capacitando seus próprios
lideres o melhor que podia, mas o grau de educação entre eles também decaiu.
Esses líderes religiosos mal instruídos, por sua vez, só podiam oferecer aos
membros da igreja uma instrução deficiente. As idéias e as superstições pagãs
cresceram ainda mais na igreja - os membros não tinham conhecimento das
doutrinas bíblicas, pelo que depositaram a sua confiança nos
rituais que praticavam.
Na Europa, a grande maioria da população sobrevivia
graças à agricultura, assim, desenvolveu-se um novo sistema
econômico e social chamado "feudalismo". Os camponeses e suas
famílias (servos) estavam obrigados a sustentar os poderosos senhores locais,
os quais chegavam a controlar extensas áreas de terra (feudos). Os senhores
mantinham homens armados (cavaleiros) que os ajudavam a proteger suas
propriedades e, em tese, a seus servos. Grupos de senhores se uniam para servir
a um duque. Os duques, por sua vez, ajudavam ao rei regional.
As igrejas e mosteiros freqüentemente herdavam terras,
as quais eram alugadas para os servos, assim, o prelado de uma área (bispo) e
os superiores dos mosteiros (abades) tornavam-se senhores de servos e passavam
a maior parte do seu tempo protegendo as suas terras em lugar de cuidar das
almas. Esses postos de alta hierarquia tornaram-se muito solicitados; pelo que
eram vendidos pela igreja de Roma a quem se dispusesse a pagar a mais alta soma
por eles (prática conhecida como simonia).
Desde o final do século XI até o XIII, os cristãos da
Europa Ocidental realizaram uma série de expedições militares rumo à Palestina,
expedições que receberam o nome de "cruzadas". Não tiveram sucesso em
seu intento de recuperar a Terra Santa, a qual estava nas mãos dos muçulmanos, muito
menos conseguiram estabelecer nela um governo cristão. Todavia, muitos dos que
foram até essas terras orientais, trouxeram consigo idéias novas, livros e
objetos das épocas dos gregos e romanos. Uma prosperidade renovada também
estava se estendendo por toda Europa naquele tempo, as cidades começavam a crescer
e seu comércio aumentava. Esses dois
fatores levaram à reativação da cultura e do aprendizado conhecido como “O
Renascimento” Em parte, esse renascimento incluía a fundação de universidades
no continente europeu. Estudava-se e se imitava a arte, a arquitetura e a
literatura da Grécia e da Roma antigas, isso também deu origem ao aparecimento
de novos eruditos que deram uma importância renovada à Bíblia e à igreja.
Muitos desses eruditos perceberam que a igreja se
havia transformado em algo muito diferente do que havia sido no seu início.
Como temos visto; algumas das principais diferenças foram:
1. As superstições e idéias pagãs haviam-se misturado
às doutrinas cristãs. A adoração à Trindade estava combinada com
honras aos santos e às relíquias.
3. A Hierarquia eclesiástica havia tirado a liberdade
dos membros. Os ricos líderes da igreja estavam mais interessados em proteger
suas propriedades e posses do que em ensinar e servir ao povo. Empregaram a
tradição da igreja para defender o que faziam, pois as Escrituras não apoiava
sua maneira de agir.
4. Tanto os líderes da igreja como os leigos sabiam
muito pouco sobre a mensagem de Deus
transmitida na Bíblia. E, desde que não
eram instruídos nas Sagradas Escrituras, também não sabiam levar uma verdadeira
vida cristã.
Nos 1400 anos entre o Novo Testamento e a época de
Lutero, a igreja havia se transformado por completo. Já não se pregava mais a
Boa Nova de que Deus enviara seu Filho Jesus Cristo para pagar pelos pecados de
todo o mundo. Em vez disso; a igreja ensinava que se os membros levassem uma
vida em obediência à igreja e seus líderes e participassem dos rituais
estabelecidos por Roma, se poderia eventualmente ganhar a vida eterna. Com o
objetivo de restabelecer a doutrina verdadeira da Bíblia acerca de Deus e seu
plano de salvação, Deus enviou Martinho Lutero.
CAPíTULO 1
Os primeiros anos de Lutero
Quantas vezes temos ouvido o nome de Lutero ou
luterano? Desde universidades que têm prestígio nacional, passando
pelo falecido Dr. Martin Luther King, até companhias de seguros, o nome de Lutero
desfruta de muita aceitação. Todavia,
são muito poucos os que mantêm os ideais originais e os conceitos bíblicos de
Martinho Lutero. Nós, que levamos o seu nome nas nossas igrejas, temos a
responsabilidade de aprender mais sobre esse valente herói da fé - esse monge
que com a sua pena e sua voz lutou contra os erros de Roma e se tornou no pai
do luteranismo.
Eisleben
Devido à falta de documentos e informações exatas não
tem sidopossível encontrar na história os antepassados de
Lutero. De fato, Lutero nunca chegou a escrever a autobiografia que prometera,
assim, muito da informação da qual dispomos procede "de segunda mão".
Os documentos históricos mostram que os antepassados
de Lutero geralmente concentraram-se perto da cidade de
Eisenach. Seguindo o costume da época, o filho mais novo herdava as terras
dos pais. Com tal acerto, o pai da família, durante os seus anos mais produtivos
ajudaria os seus filhos mais velhos a se estabelecer; o que restasse após a sua
morte, era herdado pelo filho mais novo.
Hans, o pai de Martinho Lutero, foi o mais velho dos
quatro filhos de Heinee Margarete Luder. Em seu livro "Luther and his
times" ("Lutero,e sua época") E.G.Schwiebert aponta que as
diferentes formas de escrever o nome de Lutero vêm da história: Ludher, Lüder,
Luider, Luter, Lauther todas essas grafias derivando-se do Antigo Alemão
"Chlotar". Pouco depois de se casar com Margarete, Hans mudou-se a
Eisleben para trabalhar na mineração. Nesse tempo, sua esposa deu à luz um
filho no dia 10 de novembro de 1483, Segundo o costume, foi batizado no dia seguinte,
e como aquele dia era a dedicado ao santo Martinho, o recém nascido Luder
recebeu esse nome.
Mansfeld
Pouco antes de se completar um ano do nascimento do
pequenoMartinho seus pais se mudaram para Mansfeld, uma
aldeia mais próxima ao centro da região mineradora de cobre. Os primeiros anos
foram duros, todos tinham que carregar lenha nas costas, era um trabalho
pesado, mas naquela época, era costume que até as mulheres o fizessem.
Também era muito comum a disciplina extremamente
rígida. Lutero contou que em certa ocasião, por ter furtado uma noz,
sua mãe deu-lhe uma punição tão violenta que o fez sangrar. Em outra ocasião
seu pai bateu nele tanto, que Martinho fugiu de casa. Hans Luder teve que ir
após ele para convencê-lo a voltar ao lar.
Todavia, no lar dos Luder nem tudo era rigidez
severidade. Luteroafirmou também que adquirira o gosto pela música pela
influência da sua mãe que cantava regularmente com os seus filhos.
O jovem Martinho era o orgulho e prazer dos seus pais,
eles reconheceram alguns dos talentos que mais tarde
beneficiariam em muito à Igreja de Deus. Os pais de Lutero tinham a esperança
que Martinho chegasse a ser um advogado brilhante, casasse e tivesse filhos,
para assim eles cuidarem desses netos.
Ainda que a idade normal para que uma criança fosse
admitida naescola era os sete anos, há evidência de que Martinho
Lutero iniciou os seus estudos aos quatro anos e meio. De fato, às vezes o seu
pai ou um amigo tinham que levá-lo à escola (nos dias de tempo ruim ou quando os caminhos estavam especialmente
difíceis para os pequenos). A escola em Mansfeld ensinava as matérias
consideradas necessárias para aqueles que aspiravam seguir estudos superiores:
a leitura, escritura e gramática do latim. Igualmente os alunos deviam aprender
a recitar de cor (e em latim) diversas orações, a confissão dos pecados, o
credo, o Pai-nosso e os dezmandamentos, À medida em que os estudantes cresciam,
tinham também que memorizar Salmos inteiros em latim. O básico da teologia
católica ficava assim, gravado nas suas
mentes.
Na escola a disciplina era muito mais rígida do que
nos lares. O nome da criança era registrado no quadro seguido de uma indicação
da falha cometida: não memorizar corretamente os verbos latinos, a declinação
dos substantivos ou por falar em alemão na escola. Mais ou menos uma vez por
semana o professor contava as falhas acumuladas e aplicava a punição correspondente. Em certa ocasião Lutero recebeu
15 açoites pelas falhas cometidas durante uma semana! (e sabe-se que ele era um
bom aluno) Outro método disciplinar era submeter o aluno à vergonha diante dos
seuscolegas, o aluno que não recitasse bem e ficasse no
último lugar tinha que colocarem si um burrico de madeira no pescoço. Isto
também era registrado no quadro.
Magdeburgo
Aos 14 anos de idade Lutero deixou a casa paterna para
ir à escola em Magdeburgo, cidade com mais de 12.000 habitantes. Era de
consenso geral que a pessoa teria uma boa educação se tivesse freqüentado mais
de uma escola antes de ingressar à universidade. A escola em Magdeburgo gozava
de excelente reputação, e ainda mais, João Reinecke, amigo de Lutero, também
estudava lá.
Os biógrafos não dizem muito acerca desse período,
todavia, é preciso levar em consideração duas coisas: primeiro, ali Martinho
conhecera os “Irmãos da Vida Comum,” fato que não mereceria sequer ser
mencionado se não fosse porque essa ordem religiosa punha ênfase na leitura da
Bíblia e numa vida de devoção, "Eles, com seu exemplo e seus preceitos;
plantaram na sua vida a preciosa semente da piedade histórica na igreja ... sua
doutrina era de simplicidade e obediência; sua vida, tranqüila, disciplinada,
sincera; assim eram os irmãos". Segundo, é muito provávelque, graças a essa ordem religiosa, Lutero visse a
Bíblia pela primeira vez na sua vida, ainda que já estivesse instruído nos
ensinamentos romanos, resultado das repetições orais e leituras dos
instrutores, os jovens alunos poucas
vezes podiam usar materiais tão caros como eram os livros, pelo que resulta
compreensível por que a Bíblia estava presa por uma corrente àmesa de leitura: Um objeto de tanto valor não podia
ser "extraviado".
Após um ano em Magdeburg Lutero fez sua transferencia
para a escola de Eisenach, cidade onde permaneceu por três anos, estudando
perto do castelo de Wartburg. Melanchton conta que em Eisenach havia dois
mestres que eram excepcionalmente bons, Johannes Trebonius e Wiegand Güldennapf
Lutero respeitava a ambos pela habilidade que possuíam. Trebonius, com seu Dom
de ensino, inculcou em Lutero o desejo de aprender.
As histórias tradicionais sobre a mendicância de
Lutero parecem não ter fundamento. Naquela época era costume que os alunos
pedissem pelas ruas, mesmo aqueles alunos cujos pais tinham boa posição
econômica. O pai de Lutero não era rico, mas possuía o suficiente para que
Martinho não tivesse que pedir como lida se não quisesse. É certo que Lutero se
unia regularmente com outros estudantes que cantavam pelas ruas, pelo que
recebiam esmolas.
E foi o seu canto o que primeiro chamou a atenção da
senhora Ursula Cotta, esposa de um próspero comerciante. Ela o convidou a morar
com eles, assim, enquanto dava aulas para Enrique Schalbe, convivia em família.
Seu contato com estas duas famílias e com Johannes Braun, o vigário da Igreja
de Santa Maria em Eisenach, foi de grande ajuda para desenvolver em Lutero o
gosto pela cultura, a poesia e a música. As bases religiosas, que teve em seu
lar quando criança, renovaram-se com a vida devota dos Irmãos de Magdeburg e se
fortaleceram com essa gente piedosa em Eisenach.
Erfurt
Aos dezoito
anos Lutero matriculou-se na Universidade de Erfurt(1501) com o nome de Martinus Ludher ex Mansfeld. Naquela
épocahavia três profissões disponíveis: Direito, Teologia
ou Medicina. Os pais de Martinho decidiram que estudasse Direito. Assim Hans Luther
certificou-se de que seu primogênito freqüentaria a universidade que tinha uma
das melhores faculdades em Filosofia e Direito. Essa faculdade estava na
Universidade de Erfurt. Martinho terminou o curso de Filosofia nos dezoito meses previstos e obteve o 30º lugar
numa turma de 57 estudantes. Iniciou imediatamente seu programa de mestrado, o
qual completou emdois anos, ocupando o segundo lugar numa turma de
dezessete alunos.
Ainda que os arquivos oficiais da universidade onde
Lutero estudou se destruíram, as regras desses centros eram semelhantes: o
aluno devia se recolher às oito da noite e levantar-se às quatro horas da
manhã, assim aproveitava-se todas as horas de luz durante o dia. Os estudantes ainda deviam observar um rigoroso
código sobre o uso de vestimentas, tanto dentro como fora da
faculdade. Durante as refeições eram lidos trechos da Bíblia. Não era permitida
a entrada de moças aos aposentos do rapazes, e estes precisavam de uma
permissão especial para vê-Ias, e isso, só nas bodas ou ocasiões especiais.
Para obter o diploma em Erfurt o aluno devia estar sob
a estrita supervisão de um dos membros da Faculdade. Somente
graduavam-se os que contavam com a aprovação do seu supervisor.
"O diploma de Erfurt não significava somente sucesso acadêmico mas também
integridade moral". Lutero demonstrou sua diligência e aplicação nos
estudos graduando-se no menor tempo possível.
Todavia, enquanto tudo parecia estar bem
exteriormente, não era essa a realidade na alma de Martinho. Sua dedicação aos
estudos e seu desejo de superação estavam sendo eclipsados por uma crescente
inquietação.
Perguntas para pensar:
1. Que significa ser luterano?
2. Quais as diferenças entre luteranismo e as outras
denominações cristãs?
3. Quanto ao batismo de Lutero, - por que você acha
que era costume batizar os nenês
no
dia depois do nascimento?
4. O castigo corporal agrada a Deus?
5. Compare os métodos pedagógicos antigos e modernos.
6. É justo comparar a sociedade do século XVI com a
nossa?
A procura
CAPÍTULO 2
Externamente tudo parecia ir bem para Lutero, porém,
no seu íntimo
não era isso o que acontecia. Repentinamente, no dia
17 de julho de 1505, Lutero entrou ao convento negro dos Agostinianos de
Erfurt. A história da vida de Lutero relata a queda de um raio perto do jovem
estudante o que o levou a fazer o voto à santa da sua devoção: "Ajuda-me
Santa Ana e serei monge!". Na verdade esse foi somente o último de uma
longa lista de acontecimentos que levaram Martinho ao mosteiro. Outro que pode
ser citado é a sua ligação com o vigário João Braun em Eisenach e com os
Irmãos da Vida em Comum de Magdeburg. Algumas outras coisas também fizeram que
Lutero refletisse sobre quais eram as suas prioridades: a morte de um amigo
enquanto esteve na faculdade, o acidente no qual quase perdeu a vida (feriu-se
a perna com uma espada) e a lembrança dos seus dias de estudante em Magdeburg,
onde viu o príncipe renunciar às suas riquezas para dedicar-se a
ser um monge mendicante. Todos esses acontecimentos, segundo as
suas próprias
palavras, fizeram que Lutero se questionasse sobre
aquilo que era verdadeiramente importante na sua vida. Assim, o
famoso incidente do raio que quase o atingiu foi o que o levou ao mosteiro.
O dia 17 de julho era o
décimo quarto dia depois do seu voto. Já o havia comunicado aos seus amigos, havia vendido os
seus livros e estava preparado para o mosteiro. Só depois da sua entrada
escreveu para o seu pai pedindo a sua aprovação. Como era de se esperar, Hans
Luther ficou furioso. Por que não havia sido consultado pelo filho antes de
tomar essa decisão? Mesmo depois de visitar Martinho, Hans não conseguiu convencê-lo a
mudar de decisão e deixar o convento. Todavia, Hans tampouco mudou de opinião.
Esse desacordo entre pai e filho parecia insuperável, Hans precisava ser
convencido de que alguém o convencesse que a decisão de Martinho fora acertada.
Hans já havia perdido um dos seus filhos numa epidemia, depois disseram-lhe que
também Martinho havia sido vitimado pela mesma praga. Hans ficou certo de que
tudo o que acontecia era o juízo de Deus por causa da sua teimosia. Após saber
que a notícia sobre a morte de Martinho era falsa, a contragosto deu o seu
consentimento.
No início da sua vida monástica, Lutero experimentou
certa paz. Podia dedicar-se a suprimir seus desejos carnais sem as distrações
mundanas que havia fora.do mosteiro. Os oficiais do convento ajudavam os
noviços a se acostumarem à vida monástica durante o período de experiência. Com
a finalidade de dar embasamento à crença de que as posses materiais eram más,
os novos monges eram privados de praticamente tudo.
O quarto de Lutero era uma cela que media apenas dois
metros de largura por três de comprimento, uma só janela sem
aquecimento, a mobília era um colchão de palha, uma mesa e uma
cadeira. As regras da ordem proibiam
enfeites de qualquer natureza. O exercício consistia em andar aos pares pelo convento, mas com o
olhar fixado no chão, não era permitido conversar nem fazer barulho nos
corredores. Lutero vivia plenamente entregue a essa vida de noviciado. Jejuava
até ficar sem forças nem para sair da sua cela, os seus companheiros precisaram arrombar a porta para
socorrer o jovem monge. Certa ocasião, debilitando pelo jejum, caiu
inconsciente no piso de pedra diante do altar. Lutero fazia tudo isso porque procurava uma maneira de encontrar a
certeza de que seus pecados foram perdoados. Anos depois podia dizer: "É
certo, eu era um monge piedoso, se alguma vez um monge poderia ter ganho o céu
por merecimento, eu o teria ganho. Se tivesse ficado mais tempo, ter-me-ia
torturado até à morte com vigílias, orações, leitura e outras obras".
Ordenação ao sacerdócio
Em menos de dois anos,em abril de 1507, Martinho
estava pronto para ser ordenado ao sacerdócio. Foi marcada a data de 2 de maio
a fim de que pudesse convidar os seus parentes e amigos, celebrou a sua
primeira missa. A ocasião era festiva. Hans, ainda que não era rico, pagou toda
a celebração com 30 guldenes. Então, pela primeira vez desde julho de 1505
(ocasião da sua despedida sem haver-se reconciliado) pai e filho viram-se frente
a frente. Martinho esperava mostrar ao seu pai que o acidente com o raio havia
sido um chamado celestial. Porém Hans, sem convencer-se disso, respondeu:
"Deus queira que não tenha sido um engano do diabo". Martinho tentou
provar o valor do chamado ressaltando quão contente estava ali no mosteiro.
Hans disse então, como para que todos os presentes o ouvissem: "Não leste
acaso que deves honrar a teu pai e a tua mãe e que não deves fazer nada sem o
seu conhecimento e conselho?" Estas declaração atingiu o coração de
Lutero, e mais de uma vez, se perguntou se um engano satânico naquele temporal
não o havia induzido a fazer seu voto monástico.
Assim que seus parentes e amigos voltaram para as suas
casas, Lutero ficou só para continuar seus estudos da Bíblia. Talvez uma das
razões pelas quais escolheu a ordem de Santo Agostinho tenha sido que essa
ordem fazia questão de estudar a Bíblia Ao ingressar ao mosteiro deram-lhe uma
Bíblia encadernada com couro avermelhado, a estudava tanto que chegou a citar
extensos trechos de memória. Martinho usava a Bíblia como o centro de todos os
seus arrazoamentos e decisões. Nem todos concordavam com ele. Seus companheiros
no mosteiro lhe instavam: "A mendicância e não o estudo é o que enriquece
o mosteiro".
Um dos seus mestres, o Dr. Usingen, disse-lhe certa
ocasião: "O que é a Bíblia? É melhor ler os livros dos antigos filósofos
que têm extraído a verdade da Bíblia. A Bíblia é a causa de todas as
perturbações". Todavia, para Lutero, as interpretações que a Igreja Romana
fazia chegaram a ser a verdadeira causa de perturbação. Nelas Lutero somente achou as exigências
de Deus por um coração e alma puros, algo impossível de cumprir. Como poderia crer que Deus o havia perdoado? Em vez disso, Lutero
estava convicto de que Deus devia estar zangado com ele por
causa dos seus pecados. Numa certa feita, o padre que ouvia
a sua confissão teve que lhe dizer: ''Não é Deus quem está. zangado com você. É
você quem está zangado com Deus".
Uma alma perturbada
Havia outros que tinham achado consolo na graça de
Deus. Um deles, um frade idoso, consolou a Lutero quando esteve doente
por causa da sua angústia espiritual dizendo-lhe: "Não é suficiente que
acredites que Deus perdoa os pecados em geral, porque os demônios também assim
acreditam. Deves crer que teus pecados, sim, teus pecados, teus pecados estão
perdoados. Pois o homem é justificado pela graça por meio da fé". Mas foi
de João Staupitz que Lutero recebeu o conselho mais impactante. Staupitz era o
Vigário Geral dos Agostinianos e dirigia a Faculdade de Teologia na recém
fundada Universidade de Wittenberg. Já desde o início das suas visitas Staupitz havia percebido esse sensível Lutero
que com freqüência pedia-lhe seu conselho, também percebeu que o jovem Martinho estava profundamente voltado para a questão
dos seus problemas, seus pecados e defeitos. O Vigário tentou direcionar os
pensamentos de Lutero para a evidência histórica da misericórdia de Deus:
"Não olhes para os teus próprios pecados imaginários, mas olha a Cristo
crucificado, onde os teus verdadeiros pecados são perdoados e agarra-te em Deus
com todo o valor".
Professor em Wittenberg
No outono de 1508, Staupitz transferiu o jovem teólogo
a Wittenberg, onde ensinaria na Universidade. A filosofia escolástica era a sua
matéria, pois essa havia sido a sua especialidade nos programas de estudos
universitários e no seu programa de mestrado. Staupitz animou a Lutero a obter
o grau de Doutor em Teologia, para que pudesse ser membro da Faculdade de
Teologia em Wittenberg. Lutero teve que ensinar as Sentenças de Pedro Lombardo
durante três semestres para cumprir os requisitos, pelo que retomou à
Universidade de Erfurt para lecionar essa matéria Lutero agradou-se de lecionar as Sentenças de
Pedro Lombardo devido à ênfase que havia nelas: a fé sobre a razão. Lutero foi
ainda além, fez que o ensino estivesse, mais do que se esperava, centrado em Jesus.
Viagem a Roma
A carreira de ensino de Lutero interrompeu-se quando
foi escolhido
para acompanhar outro monge numa viagem a Roma. Sua
missão consistia em obter uma decisão sobre uma disputa. Assim, em novembro de 1510 Lutero e seu companheiro iniciaram
uma viagem a pé de 1360 quilômetros. Descansavam nos conventos que havia ao
longo do caminho. Chegaram no fim de dezembro ou começo de janeiro. Naquele
tempo a Itália renascentista fervia em atividade. Rafael, Leonardo da Vincí e
Miguelangelo viviam naquela época e deixaram as suas obras artísticas para as
gerações seguintes. Não se sabe se algum dos dois monges tenha notado as
grandes obras de arte que estavam se desenvolvendo; aqueles artistas naquele momento
não tinham fama internacional. Todavia, desde que o veredicto que eles
procuravam tardou mais de um mês, Lutero teve bastante tempo livre para
peregrinar.
Todavia, a Roma que Lutero viu não era a mesma com a
qual ele havia sonhado. O Papa Júlio II e todos os cardeais, com exceção de
dois deles, estavam fazendo guerra. Não havia cultos programados regularmente
exceto as duas estações penitenciais de Advento e Quaresma. Haviam-se
descuidado os sacramentos na sua administração. As missas eram celebradas mas
só após o pagamento correspondente feito pelos peregrinos que as solicitavam.
Anos mais tarde Lutero, lembrando a sua viagem a Roma, disse: "Em Roma eu
era um santo louco. Corria por todos os templos e as catacumbas, e acreditava
cada odiosa mentira que ali se inventava. Inclusive cheguei a ter lástima que
os meus pais ainda estivessem vivos, pois teria gostado tanto podê-los remir do
purgatório com as minhas missas e outras orações e obras preciosas". Ainda
que não pudesse ver as relíquias de mais valor em Roma, Lutero conseguiu ver
muitas delas de menor importância.
Doutor em Teologia
Já em abril Lutero havia retomado a Erfurt e havia
reiniciado suasaulas sobre as "Sentenças de Lombardo".
Outra vez foi chamado para Wittenberg. Chegou lá no verão de 1511 e em setembro
Staupitz sugeriu a Lutero que começasse seriamente a se preparar para ser
pregador e obter seu Doutorado em Teologia.
Mesmo que no início protestasse um pouco, Lutero
acabou acedendo. Frederico, Eleitor de Saxonia, pagou os honorários
costumeiros de 50 Gúldenes e, no dia 19 de outubro de 1512, Lutero recebeu o
barrete de lã e o anel de prata de doutor, o que também significava um novo
posto. Staupitz teve que se aposentar para que Lutero fosse o Diretor da
Faculdade de teologia de Wittenberg, e o fez com prazer pois, com a supervisão
de toda a província da Saxonia, tinha se visto obrigado a deixar as aulas de
teologia por causa da falta de tempo.
Lutero iniciou seus novos deveres imediatamente. Nos
seguintes 34 anos apresentaria 16 discursos sobre 13 livros da
Bíblia. Limitava-se a ensinar duas vezes por semana devido às suas outras
muitas obrigações. No começo de 1511 chegou a ser o pregador oficial dos monges
na pequena capela do mosteiro. No ano de 1514 sua fama de bom pregador cresceu
ao ponto de ser o pregador de toda Wittenberg. Num só ano apresentou 170
sermões - uma media de mais de três por semana!
O descobrimento na torre
A série de discursos sobre a Bíblia que Lutero
proferira provavelmente começou com Gênesis. Entre 1513 até 1515 ensinou sobre
os Salmos; de 1515 a 1516, sobre Romanos; de 1516 a 1517, Gálatas; e de 1517 a
1518, Hebreus. Durante essas séries de discursos teológicos aconteceu o que se
conhece como o "descobrimento na torre".
A frase nos Salmos "livra-me pela tua justiça",
sempre perturbava a Lutero. Ele considerava a justiça de Deus repulsiva, pois
representava aquele atributo de Deus pelo qual o pecador era castigado. Então,
no contexto do Salmo 71, Lutero começou a ver a justiça de Deus como a maneira em que Deus perdoa misericordiosamente
ao homem por meio da fé. De repente, na mente de Lutero esta passagem já não
estava mais em conflito com "Mas o justo viverá da fé". Após esse
descobrimento no seu quarto na torre, seus discursos começaram a fluir com um
evangelho alegre que não se havia ouvido senão no início da era cristã.
Em pouco tempo Lutero converteu-se no professor mais
popular da universidade. Não se esperava que os alunos assistissem
a alguma classe em particular, pelo que eram livres para escolher as que
desejassem. As aulas de Lutero eram as que tinham maior número de
participantes. Não somente eram os alunos, mas também gente da cidade, ansiosos
por ouvir o evangelho puro.
Após alguns anos, toda a Faculdade havia se convertido
ao método evangélico de Lutero interpretar a Bíblia. Uma parte
desse método exigia um estudo completo das línguas dos originais (Hebraico e
Grego) Assim, Lutero pediu ao Eleitor Frederico que "não se esquecesse de
lhes enviar um mestre de grego e hebraico". Felipe Melanchton, menino
prodígio, sobrinho do erudito em hebreu Johannes Reuchlin e autor de uma
gramática grega, chegou a Wittenberg em agosto de 1518. O cenário estava
preparado.
Perguntas para pensar
1. Está alguém obrigado a cumprir um voto indevido?
2. Qual é o grau de obediência que devemos aos nossos
pais quando
estamos na
idade da adolescência? E quando estamos na faculdade?
Ou mesmo quando se está
casado?
3. Era a consciência de Lutero demasiado sensível
quando estava no mosteiro?
4. Há algum perigo em colocar tanta atenção na Bíblia
- em falar acerca da Bíblia e em mencioná-la seguidamente?
5. Qual é a diferença entre o conhecimento sobre Jesus
e a fé no seu perdão?
CAPÍTULO 3
Conflito com Roma
A prática das indulgências no início do XVI não surgiu
da noite para a manhã. Os historiadores têm encontrado a sua origem já na época das primeiras cruzadas. Os muçulmanos sempre têm
ensinado que a alma de uma pessoa que morre numa guerra santa vai imediatamente
ao céu. Com a finalidade de compensar essa vantagem psicológica, o Papa
anunciou uma absolvição automática para o soldado cristão que fosse morto em
combate. Assim, resulta fácil ver o crescimento e o desenvolvimento do sistema
das indulgências desde esse passo inicial. Logo foi-lhes concedida imunidade
contra os castigos que a igreja havia imposto a todos os que lutaram contra as
forças islâmicas. Depois chegou a ser uma remissão portodo o castigo que se haveria de suportar no
purgatório. Todavia, posto que nem todos podiam ir à guerra, estendeu-se a
gentileza para incluir àqueles que haviam pago a soma necessária para enviar um
soldado à cruzada.
Quando as cruzadas perderam popularidade, a entrada de
dinheiro nós cofres da igreja cessou. Então, nos anos finais do século XIII promulgaram-se "cartas confessionais", as
quais, por um preço fixo, davam ao seu portador o direito a receber o perdão
completo sob os cuidados de um sacerdote uma vez durante a sua vida e novamente
no seu leito de morte. Esta prática teve muito sucesso.
A cobiça só gera mais cobiça. Em 1300 havia se
restabelecido a prática do "Ano do jubileu" do Antigo testamento,
modificada radicalmente. Consequentemente, cada cristão devia visitar Roma
naquele ano e assistir à missa uma vez ao dia durante trinta dias enquanto
depositava um presente no túmulo de São Pedro. O recolhimento desses presentes
para serem depositados no tesouro papal
manteve dois homens constantemente ocupados nessa atividade. Porém nem todos
podiam ir a Roma, pelo que, emissários do Papa foram enviados para vender as
cartas de indulgência a todos os ausentes.
O passo final no desenvolvimento das indulgências - e
o que provocou-lhe ainda mais dúvidas acerca do sistema - foi dado pelo Papa
Sixto VI. Esse Papa estabeleceu uma indulgência para os mortos que se
encontravam, no purgatório. Daí havia um curto passo em direção às indulgências
plenárias (completas), isto é, indulgências que cobriam todo tipo de pecado,
indulgências essas disponíveis por um alto preço. Como naquela época Roma já se
encontrava secularizada, e os Papas se interessavam mais nos assuntos temporais
do que nos espirituais, tais indulgências plenárias nunca chegaram a ser
oficialmente parte da lei canônica. Na época de Lutero era uma questão aberta,
sujeita a debate.
Sem Lutero saber, houve traição nos altos círculos do
clero em 1517, o que desencadeou uma nova onda de vendas de
indulgências na cidade de Jueterbock, vizinha à de Lutero. Tudo parece
indicar que Lutero não sabia que o Eleitor Joaquim de Brandeburgo havia
subornado ao Papa Leão X com 10.000 ducados para ajudar a Alberto, seu irmão
mais novo, a que conseguisse por meios ilícitos um terceiro posto dentro da
igreja. Para agravar essa situação, Alberto, de 23 anos, não tinha oficialmente
a idade para ocupar nenhum posto. Se isso não bastasse, era o arcebispo eleitor
de Moguncia, um dos eleitores imperiais. Mas o preço
havia sido suficiente. Com a finalidade de garantir à casa bancária Fugger de
Augsburgo o pagamento do empréstimo dos fundos com os que Joaquim pagaria ao
Papa, Leão publicou uma indulgência que seria vendida em várias províncias
alemãs. Metade do que arrecadado seria para pagar o empréstimo e os juros
acumulados, enquanto a outra metade seria destinada para a construção da
Basílica de São Pedro em Roma e ajudar a manter o alto nível de vida que o Papa
Médici desfrutava. Se Lutero tivesse imaginado algo disso, é de se pensar que
haveria objetado antes e com maior energia. Por outro lado, Lutero pode não ter
prestado atenção ao que se dizia, pensando que eram só falatórios sem
fundamento. Seu interesse estava no campo teológico - algo que podia combater
com as Escrituras.
João Tetzel
Um monge dominicano chamado João Tetzel teve a má
incumbência de ser o principal vendedor de indulgências para
Alberto na Alemanha. Certamente não o considerou assim no início do seu
comércio. Vendeu indulgências desde 1504 e desfrutava de muito sucesso,
chegando ao ponto de jactar-se de ter salvo mais almas vendendo as indulgências
do que São Pedro com a sua pregação. Seu salário igualava-se ao seu egoísmo e
ia além do que costumava-se pagar aos funcionários oficiais na Alemanha. Havia
desenvolvido uma excelente tática para realizar as suas vendas.
Já em 1515 Lutero havia começado a ensinar a seus
alunos quanto ao uso apropriado das indulgências e ao abuso destas,
como as que Tetzel vendia. No dia 31 de outubro de 1516 pregou um sermão sobre
esse tema ao público em geral. O problema consistia em que seus membros
percorriam uns quantos quilômetros desde Wittenberg até Jueterbock, na Saxônia
Ducal, onde podiam comprar as indulgências e, na volta, mostravam a Lutero o
seu "direito adquirido" para continuar numa vida pecaminosa. Lutero ficou furioso com isso,
negou-se a aceitar as indulgências e
também não deu a Santa Ceia a todos os que confiavam nas indulgências
compradas.
No dia 24 de
fevereiro de 1517 pregou outro sermão denunciando o fato de que as indulgências cauterizavam as
consciências a respeito da gravidade do pecado. Em outubro, quando recebeu uma
cópia das instruções de Alberto para Tetzel de como poderia fazer para animar o
povo ainda mais a comprar as indulgências, Lutero decidiu que havia chegado a
hora de agir.
Se Lutero tivesse pensado que fazia algo indevido ou
algo que se opunha à política estabelecida pela igreja, é pouco
provável que tivesse usado o seu martelo na véspera da festa de Todos os Santos
em 1517. Afixou suas noventa e cinco teses na porta da capela do castelo, por
onde devia passar a procissão de peregrinos no dia seguinte para ver a coleção
de relíquias de Frederico. Assim desafiou à comunidade de eruditos para debater
acerca da prática das indulgências. Também enviou uma cópia ao arcebispo
Alberto. Lutero estava convicto de que Tetzel abusava em grande parte das
instruções de Alberto e tergiversava a posição de Roma. Só era preciso uma
palavra oficial ao respeito para por fim ao assunto. Era o que Lutero pensava.
Lutero procurava uma ocasião para um debate público no qual defenderia suas
teses. Ele não esperava uma divulgação tão ampla dos seus pensamentos. O debate
nunca se concretizou mas as suas teses espalharam-se por toda
parte, mesmo quando demoraram umas catorze semanas entre a sua impressão e
distribuição, as notícias desse acontecimento e a fama das teses de Lutero
inundaram a Alemanha em menos de um mês.
A convenção de Heidelberg
Entretanto, Tetzel, sem estar à par da resposta do
arcebispo Alberto, do Papa Leão e os agostinianos, tentou exercer pressão
contra Lutero através da Ordem de Santo Domingo. Enviou um abade para ameaçar o
convento agostiniano; nada aconteceu. Já como doutor em Teologia em janeiro de
1518, Tetzel apresentou 106 teses do doutor Conrado Kock contradizendo a
posição de Lutero. Ao chegarem as cópias publicadas destas teses a Wittenberg
para serem distribuídas os estudantes as queimaram.
Nesse tempo, Lutero deve ter percebido do temporal que
se aproximava. Prevendo futuras dificuldades, no dia 16
de maio de 1518, Lutero pregou um sermão sobre o uso apropriado da excomunhão.
A igreja da sua época abusava terrivelmente do poder das chaves. Não só
indivíduos, mas até cidades e países inteiros haviam sido postos por Roma sob
interdição por coisas como não pagar integralmente o imposto à "Santa
Sé".
A interdição significava que os sacramentos seriam
negados a todos os que estivessem sob ela, excetuando o batismo e a extrema
unção.Resumindo, tratava-se somente de uma outra maneira de
exercer aautoridade espiritual de uma forma nada espiritual. No
seu sermãoLutero destacou que o uso
bíblico da excomunhão não afetava a relação interna do homem com Deus. Essa
relação só podia romper-se com um pecado persistente e com a rejeição ao arrependimento
para que a excomunhão tivesse validade. O ato exterior de anunciar a excomunhão
só oficializava perante a sociedade algo que já havia acontecido no coração do
impenitente. O sermão impressionou a seus membros e também foi uma das
primeiras vezes em que Lutero apontou abertamente os erros da Igreja Romana.
No dia 7 de agosto Lutero foi chamado para
apresentar-se em Roma no prazo de sessenta dias a fim de responder às acusações
de heresia.
Essa convocação causou ansiedade no monge agostiniano.
Todaviaapelou ao Eleitor Frederico, o qual entrou em contato
com o imperador Maximiliano durante a sessão da Dieta de Augsburgo. Devido à
sua influente posição dentro do Sacro Império Romano, Roma concordou com o seu
pedido de que o encontro com Lutero se desse num terreno neutro. O Cardeal
Caetano, delegado papal na Dieta, general da Ordem de Santo Domingo e um dos
melhores teólogos de Roma, faria que Lutero se apresentasse perante ele em
Augsburgo.
Lutero havia solicitado um local neutro para a
audiência e um tribunal imparcial. Recebeu o primeiro mas não o segundo.
Augsburgo estava na Alemanha mas o cardeal era dominicano. Em termos gerais
agostinianos e dominicanos não se viam com bons olhos. Os dominicanos
controlavam a cúria papal. Caetano havia certamente prometido a Lutero uma
audiência "paternal", todavia, mesmo que estivesse convicto de não
poder condenar a Lutero como herege só por causa das teses, devia obedecer as
ordens de Roma: "Não debatas o assunto. Se Lutero se negar a retratar-se,
coloca-o
sob prisão".
Ao ir a Augsburgo Lutero temia que o queimassem,
apesar dossalvo-condutos que portava, um do seu Eleitor e o
outro do próprio Maximiliano (pelo qual, com o intuito de recebê-lo,
instado por Frederico, Lutero fez Caetano aguardá-lo por três dias).
Já perante o Cardeal, Lutero mostrou a devida
humildade; e tal como havia sido prometido, Caetano começou tratando-o de
maneira muito conciliatória. Lutero
ficou muito desgostoso quando soube que não debateria com o renomado teólogo
sobre os assuntos doutrinais que havia proposto. Por descuido. Caetano discutiu
alguns assuntos, mas sempre tinha como fundamento dos seus argumentos o dogma
da igreja. Lutero rejeitou isto, alegando que seus "erros" só
poderiam ser contraditados com base nas escrituras. E não havia ninguém na
igreja ou no império que se igualasse a Lutero no conhecimento da Bíblia.
Depois de três dias de duras exigências para que se
retratasse e recusando-se a fazê-lo, Lutero finalmente percebeu que
havia uma diferença irreconciliável entre suas posições e as dos
oficiais de Roma. Ouvindo-se então rumores de planos para seu aprisionamento, Lutero saiu de Augsburgo em segredo. Mas antes de
marchar-se, seu velho mentor, o doutor Staupitz, o liberou dos seus votos de
obediência à Ordem dos Agostinianos.
Caetano enviou um relatório a Roma. Estava preocupado
com asdeclarações de Lutero de que as pretensões de Tetzel
nunca teriam sido aprovadas por Roma de maneira oficial. Então, incluiu uma
opinião acerca das indulgências que foi depois adotada como o dogma oficial da
igreja. Preferiu-se a posição dos dominicanos que pregava Tetzel, legalizada
por Caetano.
Leão enviou a Carlos von Miltitz, um nobre da Saxônia,
à corte do Eleitor. Devia entregar a Frederico a "Rosa
Dourada", algo assim como se ele fosse eleito "o leigo do ano".
O sábio Frederico percebeu nisso a atitude bajuladora de Roma. Sabia muito bem
que Leão precisava do seu apoio para eleger um novo imperador assim que
Maximiliano, que estava muito doente, morresse.
Miltitz teve sucesso em tergiversar a posição dos dois
partidos na expectativa de poder ser reconhecido como árbitro do
século. Miltitz tinha suficiente senso de diplomacia para reconhecer que Lutero
contava com mais apoio popular do que o clero supunha. Inclusive confidenciou a
Lutero que ele duvidava que os.25.000 soldados suíços fossem capazes de tirá-lo
da Alemanha. A única concessão que Miltitz recebeu de Lutero foi a promessa de
guardar silêncio se o outro partido também o fizesse.
Afortunadamente para Miltitz, sua maquinação não foi
descoberta por Roma porque Maximiliano faleceu em janeiro de
1519. Foi necessário concentrar todo o poder político na eleição de um novo
imperador que fosse do agrado do Papa. No início, o próprio Leão queria ao
Eleitor Frederico, mas por carecer do apoio militar, este não aceitou. Depois,
a fim de evitar a eleição de Carlos I de Espanha por qualquer meio, Leão ofereceu
a Frederico a oportunidade de nomear um cardeal da sua própria preferência se
apoiasse a eleição do rei da França. Mesmo que pareça inacreditável, era óbvio para Lutero e Frederico que
Leão estava disposto a colocar a Lutero no Colégio de Cardeais se assim pudesse
evitar a eleição de Carlos. No fim de junho de 1519 estava claro que CarIos
seria eleito apesar da oposição de Roma. Então Leão apoiou a candidatura de
Carlos para dar a aparência de que Roma estava a favor da sua eleição.
O debate de Leipzig
O debate começou sobre a questão do livre arbítrio.
Aos juizes da Universidade de Leipzig resultou claro que Eck era
muito melhor orador, a apresentação de Carlstadt foi muito monótona. Leu para a
ata oficial longos passagens dos seus ensaios e livros. Isto preocupou a Eck
porque o julgamento final o daria a Universidade de Paris após terem sido
estudadas as atas do debate. Pelo que, Eck conseguiu que se alterassem as
regras para permitir somente o discurso improvisado. Isto causou dificuldades
para Carlstadt, enquanto Eck tirou proveito dessa situação. No aspecto
teológico, Lutero disse que Carlstadt havia ganho o debate, porém, havia perdido a audiência devido aos seus métodos.
No mesmo dia em que Lutero entrou no debate com Eck, a
poucos quarteirões do local onde se realizava o mesmo, morria
João Tetzel, desconsolado e abandonado pelos seus amigos. O debate passou a
tratar da supremacia do Papa. Lutero declarou que a igreja só precisa de um
cabeça: Jesus Cristo. Por vários dias Lutero deu ênfase a este ponto, usando as
Escrituras como base dos seus argumentos. No fim Eck conseguiu que Lutero
falasse de João Hus, o boêmio que fora condenado à fogueira como herege. Acusou
a Lutero de ter as mesmas idéias heréticas de Wyclif e
de Hus. Tudo isso foi o cúmulo para o duque Jorge que estava presente. Era uma
clara evidência de heresia por parte de Lutero. Havia dado apoio a um herege.
Pelos dez dias restantes do debate, essa foi a acusação que se teria sobre
Lutero.
O resultado final: o pensamento de Lutero solidificou-se
em vários assuntos. As Escrituras tinham que ser a única
autoridade da igreja, e igreja não era sinônimo de Igreja Romana, mas era
invisível; o Papa não era o cabeça da igreja mas unicamente Jesus Cristo.
Porém, para os espectadores em Leipzig, inclusive para o duque Jorge, Eck foi o
único vencedor e recebeu muitos galardões. Após dezoito meses - sincronizados
convenientemente para influenciar na Dieta de Worms - a Faculdade de Paris
entregou o seu veredicto: Lutero era culpável de heresia em 104 pontos.
Eck e Caetano foram a Roma com o seu relatório
coletivo sobre Lutero. Instaram a Leão a ameaçar a Lutero com a
excomunhão. A Bula Papal "Exurge, Domine" (lIlevanta-te, Senhor"
contra Lutero) foi publicada no dia 15 de junho de 1520. Ameaçando a Lutero com
a excomunhão transcorridos 60 dias a partir da data da
publicação. Todavia esta bula só chegou a Lutero após vários meses. A bula
também incluía a ordem de que todos os escritos de Lutero fossem queimados. Mas
esse documento não teve muito sucesso na Alemanha. Muitos bispos e oficiais
temiam publicá-la devido ao prestígio que Lutero tinha. Nos lugares onde essa
bula se publicava o povo a mutilava ou destruía.
Três importantes escritos
Durante os seis meses anteriores à Dieta de Wonns
Lutero compôs três dos seus mais importantes e influentes escritos. O primeiro,
"À nobreza cristã da nação alemã", foi uma tentativa de reunir os
lideres leigos alemães para insistirem na reforma da Igreja Romana, pois era
claro que o clero não o faria. Nesse escrito Lutero atacou a idéia de que
existia uma classe separada da gente chamada "clero", a qual seria
melhor que a dos "leigos". Explicou também o conceito do Novo
Testamento do "sacerdócio universal", onde mostrou que não era
necessária a pretensa "sucessão apostólica" do papa para administrar os
sacramentos e para a pregação da Palavra de Deus. O único que era necessário
era um preparo adequado. Lutero também jogou por terra a pretensão do papa de
ser o único intérprete infalível da Bíblia. Como poderia um papa imoral (e
naquele caso específico, um que nem tinha capacitação teológica) ser intérprete
da Palavra de Deus?. A opinião de Lutero era de que qualquer pessoa que
tivesse instrução nas Escrituras poderia interpretar a Bíblia. Lutero atacou finalmente a pretensão papal de que somente os papas
podiam convocar um concílio geral da igreja. Com exemplos históricos demonstrou
que grupos e mesmo imperadores leigos uma e outra vez haviam convocado os
concílios.
Seu segundo tratado, "O cativeiro babilônico da
igreja", foi dirigido ao clero. Nele Lutero atacou a escravidão espiritual
em que Roma mantinha à igreja por meio dos sete sacramentos. O Santo Batismo
foi o único dos sete sacramentos em conexão ao qual ele não atacou a Roma,
Demonstrou que a Santa Ceia havia deixado de ser um sacramento que concede o
perdão de Deus para ser convertido em um sacrifício, uma boa ação por parte do
homem. Provou com as Escrituras que nunca foi intenção de Jesus negar o cálice
aos leigos, também mostrou que nenhuma transformação sobrenatural acontecia com as substâncias do pão e do vinho. Lutero
afirmou que Cristo estava presente na Ceia mas só em conexão com a recepção por
parte do comungante. Respeito aos outros cinco sacramentos (confirmação,
casamento, penitência, santas ordenanças e extrema unção) Lutero demonstrou que
não havia fundamentação bíblica para considerá-las sacramentos da maneira em que Roma
os praticava. (Henrique VIIIl de Inglaterra escreveu um tratado em contra deste
escrito de Lutero no qual apoiava os sete sacramentos. Por isso recebeu de Leão
o título de "Defensor da Fé", o qual até ao presente é ostentado
pelos monarcas ingleses).
1º O cristão é senhor livre e não está sujeito a
ninguém
2º O cristão é servo obediente de todos e sujeito a
todos
No primeiro ponto Lutero mostrou que o cristão vive
pela fé e já não é mais escravo das suas paixões, nem está mais obrigado a
sistema inventado de regras externas. Por outro lado, no segundo ponto explica
que enquanto o cristão não está obrigado a obedecer a ninguém, por causa do seu
renascimento no Espírito, por amor, deseja servir a todos.
A Dieta de Worms
Carlos V estava numa situação difícil. Via-se obrigado
pela lei imperial a não condenar nenhum alemão sem um
procedimento legal.Todavia, agora que Lutero havia desafiado abertamente
a Roma
queimando a Bula "Exurge, Domine", Roma
pronunciou-se dizendo aCarlos que não lhe restava nenhuma opção. Lutero já
não mais era filho da Igreja - "Prende a Lutero!" - O
assunto chegou a oficializar-se com a Bula "Decet Romanum
Pontificem", publicada no dia 3 de janeiro de 1521, a qual concretizou a
excomunhão de Lutero. Apesar de tudo isso, o Eleitor Frederico advogou
pessoalmente no caso de Lutero e recebeu a promessa de que uma audiência seria
concedida a Lutero antes da Dieta.
Entretanto, cada vez mais pessoas na Alemanha estavam
do lado de Lutero. Haviam lido com aprovação os três tratados e
apoiavam o seu libertador. Quando o emissário papal Jerônimo Aleandro chegou a
Worms não recebeu uma recepção muito cordial. Supunha-se que os livros e os escritos de Lutem haviam sido queimados,
porém ali estavam, à vista de todos e à livre venda. Aleandro escreveu ao papa:
"Enquanto noventa por cento da população grita 'Viva Lutero', o outro dez por cento grita 'Abaixo
Roma...". Para não dizer mais, sua estadia ali não foi nem um pouco
confortável.
A Dieta iniciou suas sessões no dia 25 de janeiro de
1521 para discutir todos os assuntos do Santo Império Romano. Um dos temas da
agenda era o caso do frade Lutero contra a Igreja Romana. Roma afirmava que
Lutero era herege e que merecia ser condenado como tal, nem sequer merecia ser
ouvido. A estratégia era que fosse a Worms sob qualquer pretexto para ser ali
aprisionado. Ninguém estava sujeito a honrar a palavra dada a um herege.
Basicamente o que Aleandro colocava perante todos os líderes presentes era:
"Lutero deve morrer sem ser ouvido".
No dia 26 de março Lutero finalmente recebeu a
convocatória do imperador Carlos V para que se apresentasse em Worms
no prazo de 21 dias. Lutero não quis que Melanchton fosse com ele, mesmo que
este lhe suplicasse a permissão para acompanhá-lo. Lutero sabia que a sua vida
corria perigo, porém não se importava tanto com a sua vida como com a sua
causa: a defesa da pureza do evangelho. Se Lutero morresse, Melanchton poderia
seguir adiante com a obra.
Martinho Lutero saiu de Wittenberg no dia 2 de abril,
guiado pelo arauto imperial que lhe proporcionaria o
salvo-conduto. Durante o trajeto o pequeno grupo recebeu tratamento real por
parte da população. Lutero passou a noite do Sábado 6 de abril no velho
mosteiro agostiniano de Erfurt, na manhã seguinte pregou na catedral lotada. De
repente o local onde estava começou a ceder pelo peso da multidão. Lutero
acalmou os que estavam em pânico dizendo: "Calma, querido povo, só é uma
brincadeira do diabo, mantenham a calma, não há perigo".
Desgastado fisicamente por causa da viagem, Lutero
precisava atenção médica em Eisenach. Cada vez que ele detinha a
marcha no caminho, o povo pedia-lhe que não fosse a Worms. Sua resposta era
simples: "Eis que Cristo vive, e eu entrarei em Worms apersar das portas
do inferno e dos poderes das trevas". No dia 16 de abril o pequeno grupo,
ao entrar aWorms, teve uma calorosa recepção por parte de uns cem homens a
cavalo. Milhares de cidadãos se alinhavam ao longo das ruas para ver o
reformador de Wittenberg.
Às quatro da tarde do dia seguinte Lutero
devia apresentar-se perante a Dieta. As ruas estavam tão lotadas que foi
necessário que os oficiais o levassem por um jardim que conduzia à porta dos
fundos do local onde era a reunião. Teve que esperar longas horas enquanto outros assuntos eram concluídos. Quando
Lutero foi guiadoà câmara da Dieta, disseram-lhe que não poderia falar
exceto para responder perguntas diretas. Lutero ficou surpreso e desiludido. Na
convocatória original Carlos lhe havia dito que queria "obter informação
ao respeito de certas doutrinas que vêm de ti e de certos livros escritos por ti". Lutero não soube
do edito romano que lhe proibia falar, a não ser para fazer a sua retratação.
A sala da assembléia estava lotada, quente, e abafada.
Além do que, eram passadas as seis da tarde, e grandes lâmpadas fumacentas
deviam ser acessas. O porta-voz oficial, João von Eck (não o professor de
Ingolstadt) dirigiu-lhe uma dupla questão: "São estes os teus livros, e te
retratas das heresias escritas neles?" Essa pergunta surpreendeu a Lutero
e no início não a respondeu. Seu advogado interrompeu e pediu que todos os
títulos fossem lidos para ter a certeza que só os livros de Lutero estavam
nessa pilha. Lutero refez-se da surpresa e respondeu que
todos os livros eram seus. Todavia, à outra pergunta estava relacionada com
assuntos da salvação, a fé e a Palavra de Deus. E nisso precisava um pouco de
tempo para pensar. O imperador Carlos V deu-lhe exatamente 24 horas.
Naquela noite Lutero ficou mais tranqüilo, agora sabia
muito bem o que queriam dele, e também sabia a resposta que ele
tinha que dar. Mais uma vez esperou desde as quatro até as seis da tarde. O
local de reunião era numa sala maior, porém que estava mais lotada ainda que no
dia anterior. E mais uma vez Eck perguntou-lhe "Queres te retratar das heresias
escritas nos teus livros?"
Lutero respondeu calmamente que seus livros se
classificavam em diferentes categorias. Alguns falavam da singeleza da
moralidade cristã, à qual, nem os seus próprios inimigos podiam criticar.
Outros denunciavam os abusos do papado, acerca do qual não se atrevia a
retratar-se para não fomentar mais abusos. Um terceiro tipo foi escrito sobre
indivíduos que queriam defender a tirania
romana. Neste último grupo Lutero reconheceu que era
possível que tivesse falado com demasiada aspereza, mas não o tinha feito pelo
seu próprio interesse e sim pelo evangelho de Cristo. Logo pediu que lhe
mostrassem onde havia errado nos seus escritos sobre a base das Escrituras.
Assim terminou e sentou-se.
Havia falado no idioma oficial, latim. Houve vários
pedidos para que repetisse o seu discurso em alemão, e assim o fez. Após um
breve recesso, Eck disse-lhe: "Não deves questionar o que os concílios têm
decidido e condenado, pelo que, rogo-te, dês uma resposta simples, sem
complicações nem chifres ... retratas-te ou não?". Lutem soube que o
momento de dar uma resposta audaz e concisa havia chegado: "Se não me
convencem mediante o testemunho das Escrituras ou por um raciocínio evidente (posto
que não acredito no Papa nem nos Concílios somente, pois consta que têm errado
freqüentemente e contradito a si mesmos) fico sujeito às passagens das
escrituras por mim mencionados e a minha consciência está cativa pela Palavra
de Deus. Não posso e não quero me retratar de nada, pois não é prudente nem
reto agir contra a consciência. Não posso proceder de outra maneira, aqui estou
eu, que Deus me ajude! Amém!".
Isto provocou um grande reboliço. Os alemães
aplaudiram, os espanhóis vaiaram, Lutero foi rodeado pelos seus seguidores
e levado ao seu quarto por motivos de segurança. Nunca antes um alemão
defendera sua posição contra os poderes estrangeiros nem agiu segundo o que a
sua própria razão sob as Escrituras lhe ditava. Nos dias que se seguiram Lutero
reuniu-se com os representantes do Imperador na tentativa de chegar a um consenso, a resposta de Lutem sempre era a mesma cada
vez que tentavam convencê-lo a aceitar algo, ele dizia: "Convençam-me com
as Escrituras". Os representantes imperiais não compreendiam como esse
simples monge afirmava que a Igreja se havia desviado dos ensinamentos
bíblicos. Para eles era inconcebível que milhares de doutores e teólogos
estivessem errados enquanto unicamente este monge sustentava a verdade. As
reuniões foram infrutíferas, pelo que, Lutero, finalmente exasperado pediu permissão
para voltar a casa. Assim no dia 26 de abril saiu de Worms com um salvo-conduto
válido por mais 21 dias.
Quatro dias após a sua saída. O Imperador Carlos V da
Espanha disse que estava disposto a condenar Lutero sob proscrição. No dia 12
de maio Aleandro tinha duas cópias do edito: uma em latim e outra em alemão,
prontas para serem aprovadas pela Dieta e serem ratificadas pelo Imperador.
Porém o Imperador titubeou, os franceses estavam atacando e Carlos V precisava
da ajuda dos nobres alemães para enfrentá-los. Por isso decidiu clausurar a Dieta e publicar o edito mais tarde. O edito de Worms
que apontava a Lutero e seus seguidores como proscritos foi assinado no dia 26
de maio de 1521, um dia após do encerramento da Dieta.
Perguntas para pensar:
1. Comente sobre a atitude que no início Lutero tinha
em relação ao Arcebispo de Moguncia e ao Papa.
2. Comente sobre o uso devido e indevido da
excomunhão.
3. Enumere os sete sacramentos da Igreja Católica
Romana.
participante? A vida piedosa de quem os administra? Outra base?
5. Compare a doutrina do sacerdócio universal com as
"sagradas ordens"
6. Até onde vai a liberdade cristã?
CAPíTULO 4
Repouso e rebelião
Lutero saiu de Worms com um melhor ânimo do que quando
entrou nacidade. O perigo imediato havia passado, pôde fazer a
sua declaração diante do Imperador e podia voltar para casa. Todavia, fora de
Eisenach lhe aguardava uma surpresa. Jorge Espalatino, capelão do Eleitor
Frederico, havia feito planos para manter Lutero em segurança. Frederico
aprovava o plano todo mas não queria saber onde Lutero se encontraria, pelo que
desconhecia os detalhes.
No dia 2 de maio, Lutero, dois acompanhantes e seu
cocheiro deixaram o grupo maior de viajantes e dirigiram-se ao
sul de Eisenach, a Moehra, para visitar uns parentes. Lá Lutero pregou na manhã
do dia 4 de maio. No mesmo dia, à tarde, saíram dessa cidade para retomar o seu
caminho, porém, ao passar pelo bosque de Turíngia, uns cavaleiros armados
rodearam ao pequeno grupo. Com calma Lutero assegurou aos seus companheiros:
"Estamos entre amigos", mesmo quando, sem nenhuma deferência,
apontando-lhe com a besta, levaram Lutero às pressas.
A ação iludiu até ao cocheiro, pelo que rapidamente se
divulgou a notícia de que Lutero havia sido capturado e se
encontrava desaparecido. Muitos dos seus amigos já o consideravam morto. Seus
inimigos, entretanto, alegravam-se com essa possibilidade, certos de que
"o diabo o havia levado".
O cavaleiro Jorge
O grupo armado que detivera a Lutero e seus amigos
havia também providenciado um disfarce para ele. Lutero recebeu as
vestes de um cavaleiro, uma montaria e foi levado por muitos
desvios a Eisenach, até o velho castelo de Wartburg. Chegaram lá por volta da
meia-noite. Lutero estava exausto. Pela escada posterior do castelo subiu até
um cômodo isolado - seu novo lar - Disseram-lhe que devia deixar crescer o cabelo e a barba, adotasse
a identidade de um cavaleiro e se vestisse como tal.
Em pouco tempo Lutero já apresentava a aparência de um
cavaleiro e assim era tratado. O tratamento de Doutor Lutero ficou para trás
dando lugar ao de "cavaleiro Jorge", durante algum tempo Lutero
comportou-se como tal participando das atividades dos outros cavaleiros, porém
não lhe agradavam as caçadas. Não se importava muito com a caça às raposas ou
aos lobos mas desgostava-lhe perseguir coelhos ou codornas. Apreciava muito
mais ocupar o seu tempo livre caminhando tranqüilamente pela floresta próxima
ao castelo.
O retomo às atividades como escritor
As atividades físicas próprias dos cavaleiros cedo
entediaram a Lutero. Assim, em secreto optou pelos seus livros, pois queria
ocupar o seu tempo em algo útil. Ali, no seu esconderijo, longe da rotina
diária do ensino, da pregação e do trabalho da paróquia, podia dedicar-se aos
seus estudos e às Escrituras. Estabeleceu como sua primeira meta terminar uma
série de sermões sobre os evangelhos e lições sobre as epístolas.
Cada vez mais Lutero estava convicto de que a Igreja
Romana nãopoderia ser reformada por dentro, que teria que
acontecer uma ruptura e começar tudo de novo. Assim Lutero escreveu um tratado
atacando a prática inteira da confissão e da penitência. Enquanto Lutero estava
desaparecido, Alberto de Mogúncia pensou que estava livre para voltar a
apresentar as suas indulgências, mas Lutero lhe advertiu que se publicasse um
tratado intitulado "Contra o ídolo de Halle" faria de Alberto a
chacota do povo. Alberto desculpou-se com Lutero e o tratado não foi publicado.
Lutero viu-se obrigado a pensar sobre os votos
monásticos, o celibato e o casamento enquanto estava no Castelo de Wartburg. Em
junho de 1521 Carlstadt disse que não era bom que os monges
permanecessem solteiros, deviam renunciar aos seus
votos e casar-se com as mulheres com que já viviam (ele mesmo casou-se com uma
garota de quinze anos em dezembro daquele ano). Lutero ficou surpreso, ainda
não havia pensado seriamente a respeito. No mês de setembro Lutero terminou a
sua obra "Sobre os votos monásticos". Nessa obra Lutero rejeita a
idéia romana de que o celibato era a mais elevada forma de vida. Afirmou também
o direito da pessoa de renunciar aos votos se assim o quisesse. Todavia, não
desejava obrigar aos monges nem às freiras a abandonar a vida dos mosteiros,
esse era assunto da consciência de cada indivíduo, cada um devia responder
pelas suas ações. Escreveu também uma carta ao seu pai dizendo que fora necessidade fazer seus votos
aos 16 anos, como agravante de tê-los feito sem o consentimento dos seus pais. Lutero disse ao seu pai que agora estava convicto de
que tais votos eram de origem humana e não eram abençoados por Deus.
O Novo Testamento
No Castelo de Wartburg Lutero deu início àquilo que
talvez teria mais importância do que qualquer outra coisa por ele feita. Fez a
tradução do Novo Testamento, do grego para a língua do povo. Durante mais de
mil anos a Igreja Romana havia usado o latim nos seus cultos e nos seus
escritos. Isso estava bem para os que conheciam essa língua, mas entre a gente
comum, pouquíssimos entendiam o latim. As principais obras teológicas e a
Bíblia estavam escritos num idioma que só uma elite podia ler ou entender.
Anteriores à tradução de Lutero, outras traduções ao
alemão não tiveram muita popularidade, ora a linguagem era de má
qualidade, ora os exemplares eram caros demais. Lutero quis fazer uma boa
tradução "fazer São Paulo falar alemão", Num curto período de onze
semanas, enquanto permanecia em Wartburg, ele terminou a tradução de todo o
Novo Testamento ao alemão. Quando saiu de lá na sua volta a Wittenberg, na
primavera de 1522, levou junto o borrão da sua tradução. Em Wittenberg, ele e
Melanchton passaram longas horas examinando e verificando a tradução feita
antes da sua publicação em setembro de 1522. O livro vendeu-se muito bem, em só
dois meses esgotaram-se todos os cinco mil exemplares que haviam sido
impressos.
Lutero sai de Wartburg
Como acontece com a maioria das causas, apareceram os
elementos extremistas. A reforma da igreja promovida por Lutero
não estava isenta disso. André Carlstadt, velho amigo e colega de Lutero em
Wittenberg, achou que as coisas não andavam rápido suficientemente e começou a pregar que era indevido usar órgãos,
pinturas e imagens; e que celebrar a missa sem o cálice era algo mau e devia
cessar de imediato. Instigou os alunos de Wittenberg à ação, interromper a
celebração da missa e perseguir os participantes. A multidão respondeu com
entusiasmo. Destruíram imagens, altares e crucifixos, e assim, muitos simples
fiéis foram ofendidos.
Durante o mês de dezembro de 1521, Lutero visitou
Wittenberg em segredo para esclarecer alguns assuntos da publicação.
Todavia as coisas pioravam ainda mais. Então Lutero escreveu ao
Eleitor Frederico nos primeiros dias de março de 1522. Naquela carta ele dizia que não esperava que o Eleitor lhe desse mais
apoio para mantê-lo em segurança, sua causa era justa e Deus o protegeria melhor que o Eleitor. Então deixou silenciosamente seu
esconderijo no castelo de Wartburg e foi para Wittenberg. Ainda estava
disfarçado de cavaleiro pois tinha que passar pela Saxonia Ducal, território do
duque católico Jorge.
Na Sexta-feira 6 de março chegou a Wittenberg. No
Domingo seguinte começou a pregar, fez uma série de oito sermões em
dias consecutivos denunciando o uso da força para alcançar os propósitos de
Deus. Só a Palavra era suficiente. Primeiro era necessário ganhar o coração das
pessoas mediante o evangelho antes de esperar qualquer mudança nas suas atitudes.
Carlstadt foi embora e a tranqüilidade voltou a reinar em Wittenberg.
A revolta dos camponeses
A sorte dos camponeses durante a Idade Média não era
muito boa, a vida dos camponeses dependia do cultivo da terra, mas
nem tudo o que cultivavam lhes pertencia, tinham que pagar os impostos ao
príncipe local, até para caçar, pescar, recolher lenha, e pastar os seus
rebanhos também deviam pagar e obter a permissão para realizar tais atividades.
Muitos perdiam as suas terras por não pagar os impostos e mesmo após perder
tudo, ainda deviam trabalhar nessas mesmas terras mas para o príncipe. As
jornadas eram longas e penosas. Só para obter o sustento diário e ter um lugar
para si e para a família morar era uma luta constante. Muitos dos camponeses
não tinham nenhuma posse, deviam tudo ao seu príncipe, o qual os tratava como
escravos.
Para piorar essa situação, após o descobrimento da
América, a Europa viu-se inundada com ouro e prata, porém sem um aumento da
produção, a conseqüência foi a disparada dos preços. Como era de se esperar, o
aumento dos preços afetou exatamente àqueles que apenas tinham para sobreviver.
A vida dos camponeses piorava a cada dia, a única
saída que tiveram para mudar a situação foi a rebelião, algo que
intentaram várias vezes no início do século XVI.
Lutero então ensinou que, escravo ou livre, cada
cristão era um filho e sacerdote diante de Deus. Seu tratado de 1520, "A
liberdade do cristão", foi mal compreendido pelas massas. Não viram a
Lutero como seu campeão da liberdade espiritual e sim como seu campeão da
liberdade política do sistema feudal em que viviam.
iniciando a revolta. Em 1525 o movimento havia se
alastrado por todo o império, e embora mal organizados e desprevenidos, os
camponeses ganharam o primeiro confronto. A loucura tomou conta de tudo,
incendiaram, saquearam os castelos, ferindo e matando os nobres, não houve
restrição.
As coisas acalmaram-se um pouco durante o inverno de
1524-1525. De fato, alguns camponeses reuniram-se e redigiram uma
lista chamada "Os doze artigos". Em termos gerais, Lutero concordava
com o que estabeleciam. Não podia argumentar contra o primeiro artigo que
dizia, por exemplo, que os camponeses tinham o direito de escolher seus
próprios pastores, nem contra o último, que repudiava toda lei contrária às
Escrituras. Em abril de 1525, o tratado de Lutero "Exortação à paz",
baseado nos artigos dos camponeses, ia dirigido a ambos os lados, aos nobres e
aos camponeses: advertia aos nobres acerca do abuso na cobrança de impostos e
também dizia aos camponeses que não tinham o direito de usar a violência.
Mas com a
chegada da primavera aumentou a revolta e o confronto. Durante a visita a Eisleben e lugares próximos, Lutem
viu quão ruim era a situação, e sua pregação não produziu ali nenhum efeito. As
pessoas que se deixam levar pela emoção não ouvem a lógica. Enquanto Lutero
realizava essas visitas, o Eleitor Frederico, que já havia algum tempo
adoecera, acabou por falecer. Era evidente que estando doente, não exerceu
liderança, o que deve ter animado os ânimos dos camponeses.
Ao voltar a Wittenberg em maio de 1525, Lutero
escreveu seu tratado "Contra as hordas de ladrões e assassinos dos
camponeses". Lutero havia visto a sua pátria desgarrar-se pela revolta
contra a autoridade. Com uma linguagem muito simples denunciou os métodos dos
camponeses citando Romanos 13:1-4. Disse-lhes que mereciam a morte por três motivos:
1º Haviam quebrado o seu voto de servir aos seus
senhores.
2° Haviam roubado e matado.
3° Haviam alegado fazer tudo isso em nome do evangelho
e assim,
blasfemado o nome de Deus.
Infelizmente, para Lutero e para a Reforma, o tratado
não foi publicado senão em junho. No dia 15 de maio os
camponeses quase foram exterminados num confronto perto de Frankenhausen. O
líder camponês Tomas Müntzer, havia prometido que um milagre lhes daria a
vitória. Estava errado, morreram mais de cinco mil camponeses, trezentos foram
capturados e decapitados. Müntzen foi encontrado se escondendo debaixo de uma cama e o levaram para
Muelhausen, onde após ser submetido a torturas foi decapitado. O tratado de
Lutero, publicado depois desses acontecimentos, foi como aplicar sal numa
ferida aberta.
Como resultado da mal sucedida revolta dos camponeses,
houve gente simples que renegou a Lutero e sua pregação do evangelho.
Foi acusado de animar os camponeses para depois traí-los. Roma também culpou a
Lutero de tudo o aconteceu. Mas não foi Lutero o traidor dos camponeses nem
culpado dos acontecimentos. Pessoalmente sempre se considerou um camponês e
simpatizava com a causa destes. Porém quando chegou o momento de agir, o seu
constante conselho sempre foi "Deixem que o evangelho mude os corações. As
boas ações virão depois"
Lutero e os judeus
Durante a Idade Média e na época da reforma muitos
judeus viviam na Europa. Freqüentemente sofriam perseguições e não desfrutavam
dos mesmos direitos dos demais cidadãos. No sistema feudal daquele tempo, os
príncipes locais controlavam a religião dentro dos seus territórios, pelo que,
com freqüência brotavam sentimentos contrários aos judeus. Todavia, alguns
pensadores humanistas cristãos começaram a ensinar que os judeus deveriam
receber um melhor tratamento apesar de não seguirem a religião cristã.
Lutero recebeu a influência dos humanistas e da sua
época. No seu livro sobre "O Magnificat" (1521) disse que
os judeus deviam ser tratados com amor e tolerância, e os cristãos deviam usar
o evangelho para que obtenham fé no verdadeiro Messias, Jesus, o qual era
também judeu. Pouco depois, numa segunda obra, voltou a mostrar a sua
preocupação com a conversão dos judeus e para que fossem tratados como as demais pessoas.
Porém, nos seus últimos dias, Lutero inteirou-se que
os judeus falavam contra o Senhor Jesus e a fé cristã, pelo que escreveu um
tratado muito severo chamado "Acerca dos judeus e suas mentiras". Ao
sentir-se frustrado pelo fato dos judeus não se converterem à fé cristã, Lutero
usou as mesmas palavras duras de muitos escritores da sua época. E como os
governantes tinham a responsabilidade de velar pela religião que se professava
nas suas terras, Lutero chegou ao ponto de animar os príncipes a que sepermitisse só o cristianismo, até chegar ao ponto de
destruir as sinagogas.
A posição de Lutero seguia as leis dessa época em que
a Igreja e o Estado estavam unidos. Séculos mais tarde, depois de
que os direitos territoriais dos príncipes foram abandonados a favor dos princípios democráticos, as palavras de Lutero
usaram-se erradamente para justificar o ódio racial e a limpeza étnica.
Todavia, as duras palavras do reformador, igual que as severas palavras dos
profetas do Antigo Testamento. não tinham um significado racial e sim
religioso.
Lutero ensinou claramente que só a pregação do
Evangelho em palavra e sacramento pode converter uma pessoa ao cristianismo; e
a mesma mensagem do evangelho oferece vida eterna à pessoa de qualquer nação,
idioma e tribo. Inclusive agora, essas verdades superarão o moderno
anti-semitismo e a justificativa da limpeza étnica sob qualquer forma.
Perguntas para pensar
1. Qual foi o papel do castelo de Wartburg no plano de
Deus para
Lutero?
2. Por que razão a proposta de Carlstadt para realizar
a reforma estava errada?
3. Por que se afirma que os camponeses interpretaram
mal a liberdade do cristão?
4. Quando é que um cristão tem o direito de
desobedecer ao seu
govemante?
5. Por que os camponeses não estavam dispostos a
seguir o conselho de Lutero de "deixar o evangelho mudar os
corações"?
CAPÍTULO 5
Sua esposa e sua família
Um tanto comum mas certo é o ditado "detrás de
cada grande homem há uma grande mulher", No caso de Martinho Lutero
foi certamente verdade. Ainda que Catarina não chegara à sua vida
senão até que o nome de Lutero era muito conhecido na Alemanha, desde que se
encontraram teve uma profunda influência sobre ele.
Catarina Von Bora
A notícia de Lutero e de seus ensinamentos em
Wittenberg chegaram também ao convento. Ao reconhecer a autoridade bíblica
que respaldava a Lutero, várias freiras desejaram ver-se livres de Roma. Uma
freira escreveu a Lutero pedindo a sua ajuda. Foi descoberta e castigada muito
severamente. Isso não impediu que outras freiras entrassem em contato com
Lutero. Os detalhes exatos da fuga das freiras era um segredo bem guardado e
nunca foi revelado. O único que se sabe a respeito é que o convento havia
contratado a um negociante de Torgau, chamado Leonardo Koppe, para transportar
provisões. Na tarde do quatro de abril de 1523, na véspera da Páscoa, nove freiras escaparam na sua
carroça, escondidas dentro dos toneis usados para o transporte de pescado. Era
uma aventura perigosa pois o convento estava dentro da Saxonia Ducal onde havia
pena de morte para quem ajudasse alguém a fugir de um convento. E o Duque Jorge
não vacilava em aplicar toda a força da lei. No domingo da Páscoa chegaram a
Torgau e na terça feira estavam em Wittenberg. Três das freiras voltaram para
as casas dos seus pais. Após dois anos, todas, exceto uma, haviam se casado ou
estavam empregadas como institutrizes.
A própria Catarina primeiro morou com a família de um
professor da Universidade, ou com a família de Lucas Cranach, o
artista de Wittenberg. Com o passar do tempo conheceu e se apaixonou por
Jerônimo Baumgartner, um graduado de Wittenberg, o qual por casualidade estava
de visita na casa de Felipe Melanchton. O enlace parecia um fato até que o
noivo tornou à sua casa e contou aos seus pais, eles não queriam como nora a uma freira
que havia fugido do convento, tudo acabou por ali. Catarina não aceitou a
notícia com facilidade.
Casamento
Até o próprio Lutero ajudou as ex-freiras a arranjarem
casamento. Escreveu a Baumgartner e pediu-lhe que voltasse por
Catarina. Nada aconteceu. Então ele a animou para que aceitasse como
noivo a alguém de mais idade da faculdade, o doutor Glatz. Ela recusou-seterminantemente e disse ao amigo de Lutero, Nicolas
Von Amsdorf, que aceitaria a ele ou ao próprio Lutero, mas nunca a
Glatz. Lutero pensou muito quando soube que alguém estava disposta a se casar
com ele. Durante a sua viagem de pregação em abril de 1525, visitou aos seus pais. Mais uma vez o seu pai o
incentivou para que casasse. Lutero havia evitado o casamento simplesmente
porque não desejava expor uma esposa e uma família à ameaça de morte que sempre
pairava sobre ele. Mas ele incentivava aos outros monges e sacerdotes para que
fossem honestos com os sentimentos que Deus lhes havia dado e casassem. Era
capaz de pregar a respeito e ele mesmo parecia não ter a coragem de fazê-lo? Mas havia outras considerações práticas. Lutero era um homem muito
ocupado, porém,casamento significava também ter uma ajudadora. Mais
tarde lembraria que muitas vezes de tão exausto, jogava-se na sua cama sem
mesmo tirar a roupa, sua cama tinha o cheiro do suor e faltava a limpeza
necessária, Não se alimentava bem nem com regularidade. E também sentia-se
responsável pela situação de Catarina. Ele a havia incentivado a casar, ela não
tinha um lar e já estava com 26 anos - naquela época, quase que idade demais para
aspirar a ser noiva.
Uma vez que Lutem tomou a sua decisão, agiu com
rapidez. Na tarde do dia 13 de junho de 1525 casou-se com Catarina numa
cerimônia particular com a presença de só cinco pessoas,
incluindo o oficiante. Mais tarde, Lutero explicou que, se tivesse um noivado
mais longo, teria atraído muitas críticas, tanto dos seus amigos como dos seus
inimigos. Duas semanas depois, no dia 27 de junho, foi realizada uma celebração
pública para anunciar seu enlace matrimonial. Entre os convidados, claro,
estavam seus pais, orgulhosos de verem seu filho já casado. Entre os presentes
que receberam pelo seu casamento havia uma jarra de prata
trabalhada, uma tela pintada por Cranach e 20 gúldenes dados por Alberto de
Mogúncia (que na época pensava na possibilidade de converter-se à causa da
reforma, mas só por motivos políticos). Lutero quis devolver esse presente, mas
Catarina, de espírito mais prático, conseguiu guardar o dinheiro.
A dificuldade que Lutero temia que um noivado longo
lhe trouxesse não se comparou ao tumulto que seu casamento provocou.
Por muito tempo, a opinião popular afirmava que o Anticristo
nasceria da união de um sacerdote e uma freira. Roma, com muita alegria,
incentivou essa opinião e declarou que a profecia havia-se cumprido. Erasmo de
Rotterdam posicionou-se veementemente contra essa afirmação, ainda que ele e
Lutero não comungavam nas idéias. Ele não podia tolerar tal tipo de calúnias.
Erasmo disse que na maneira que sacerdotes e freiras haviam convivido tanto
tempo, já era suficiente para que o Anticristo fizesse a sua aparição. Outros pensaram que Lutero teria feito melhor se não
tivesse escolhido uma freira tão pobre com quem casar. Outros
ainda,ofenderam-se porque pensavam que os dois haviam
quebrado os seuvotos monásticos ao se casarem. Talvez alguns voltaram
à Igreja Romana, porém muitos mais eram os que se regozijaram porque o seu
líder afinal estava praticando aquilo que pregara durante vários anos.
De uma maneira interessante, especialmente para a nossa
época em que o amor romântico é tão apregoado, é pouco provável
que nenhum dos dois estivesse "apaixonados" quando se casaram.
Catarina afirmara que estava disposta a se casar com Amsdorf ou com Lutero.
Isso em nada se parece a uma história de amor. Lutero disse mais tarde que
havia sentido atração por uma outra freira, Ave Von Schonfeld, mas a compaixão
por Catarina superou essa atração. Todavia, com a bênção de Deus, cresceu entre
os dois um intenso afeto e carinho e um profundo amor de marido e mulher. Isso
é evidente até nos nomes carinhosos que Lutero dava a Catarina: "meine
Kette" (corrente, em alemão), "minha costela", "minha senhora" ou "a estrela da manhã de
Wittenberg".
Os filhos de Lutero
Lutero tinha 42 anos de idade quando casou - e na verdade
não havia pensado seriamente no assunto senão até poucas semanas antes do seu
enlace. O choque deve ter sido bastante forte, pois afirmou que resultava muito
esquisito acordar pela manhã e ver ao seu lado, as tranças do cabelo feminino
sobre o travesseiro.
Nos oito anos e meio que se seguiram tiveram seis
filhos. Hans, o primogênito, nasceu no dia 7 de junho de 1526. Isso
causou regozijo nacional e começaram a chegar os presentes de todas as partes
da Alemanha.
Mas a praga conhecida como a peste negra chegou a
Wittenberg no verão seguinte. A Universidade transferiu-se para
Jena, mas não o pastor Lutero. Ele insistiu que os fiéis precisavam dele ali.
Hans, com pouco mais de um ano, adoeceu gravemente e quase não comeu durante
onze dias. Catarina passava muitas horas atendendo aos doentes da aldeia, mas ela mesma, grávida,
esperando o seu segundo filho, também adoeceu. Apenas se havia recuperado um
pouco quando deu à luz a Isabel, no dia 10 de dezembro de 1527. A pequena
Isabel nunca teve boa saúde e acabou falecendo no dia 3 de agosto de 1528.
Lutero escreveu a um amigo: "Minha filhinha Isabel morreu ... deixou-me
desesperado, debilitado ...não consigo acreditar como o coração de um pai possa
amolecer tanto por um filho"
Mais uma vez a morte bateu à porta da família de
Lutero: Madalena, já com treze anos adoeceu gravemente. Lutero imediatamente
enviou por Hans, que estava na escola em Torgau. Madalena gostava muito do seu
irmão mais velho. No seu leito de morte, Catarina não conseguia fitá-la e
desviava o olhar para os lados. Lutero tentou consolá-la: "Querida
Catarina, lembra-te de onde ela veio" - depois perguntou a Madalena:
"Madalena, minha querida filhinha, desejas ficar aqui com o teu pai ou
estás disposta a ir com o teu Pai Celestial?" - Madalena respondeu:
"Querido pai, seja o que Deus quiser".
Lutero, vencido pela dor, disse: "Estou zangado
comigo mesmo porque não consigo encontrar gozo no meu coração, nem
posso estar tão grato quanto deveria". Madalena faleceu nos braços do seu
pai no dia 20 de setembro de 1542. Lútero disse, colocando-a no túmulo:
"Querida Lena, te levantarás e brilharás como uma estrela, como o
soL...estou contente em espírito, mas a carne está muito triste e não tem
consolo, a despedida me dá muita pena ... tenho enviado uma santa ao céu".
A vida familiar
Como na maioria dos lares cristãos, entre os tempos de
penas e tristezas há muitos momentos felizes. O lar de Lutero
não era diferente nesse aspecto. Seus filhos davam-lhe muitas alegrias. Quando
estava em casa, Lutero sempre brincava ou cantava com eles. Alguns pensam que o
compasso binário da canção "Do alto céu" de Lutero, com tom de ninar
deve-se a ter sido composta enquanto Lutero fazia dormir um dos seus filhos no
seu berço.
Lutero era produto da sua época e partidário de uma
disciplina rigorosa. Em certa ocasião disse: "Prefiro ter um
filho morto ater um desobediente". Noutra ocasião, apesar dos
rogos de Catarina, recusou-se a ver a Hans por três dias para que este
refletisse sobre a seriedade da sua desobediência. Quão bem sabia Lutero sobre
a obediência que Deus requer de todos os seus filhos, Ao mesmo tempo, discordava
plenamente em bater abusivamente num filho. Comentando Colossenses 3:21
afirmou: "Isto diz respeito aos que usam da violência ao criarem aos seus
filhos. Essa disciplina que produz temor na mente da criança, mente ainda muito
terna,provoca ódio para com os pais, pelo que,
freqüentemente, a criançafoge de casa. .. todavia, o apóstolo Paulo não nos diz
que não devemos castigar aos nossos filhos, mas que o façamos com amor, não com
ira, esperando desfazer a nossa raiva sem torná-los melhores".
Quando Lutero esteve no castelo de Coburgo em 1530,
pouco depois do quarto aniversário de Hans, escreveu esta carta:
Graça e paz, meu querido filho:
Alegra-me que aprendes e oras com diligência. Segue
fazendo-o, meu menino, e quando eu voltar para casa te
levarei um bom presente. Sei de um belo jardim onde os
meninos usam agasalhos dourados e colhem maçãs
brilhantes, pêras, cerejas e outras frutas que caem
das
árvores. Dançam e saltam de alegria, e têm lindos
cavalinhos com freios de ouro e selas de prata.
Perguntei ao dono do jardim de quem eram esses
meninos e ele me respondeu: "São os meninos que
gostam
de orar, estudar e se comportar bem", então eu
disse: "Bom
homem, eu também tenho um filho que se chama Hans
Lutero. Será que ele também poderia vir a este jardim
comer maçãs, pêras e montar nesses belos cavalinhos e
brincar com as demais crianças?". O homem me
respondeu:
"Pode vir, sempre que goste de orar, estudar e
comportar-se
bem. Seus amigos Filipe e Justy também podem vir e
terão
apitos, tambores, cornetas, e também podem dançar e
brincar com arcos e flechas".
no jardim que estava preparado para as danças, e
nas
árvores havia pendurados apitos dourados, cornetas,
tambores, e também arcos e flechas de prata. Mas como
era
muito cedo pela manhã as crianças ainda não haviam
tomado o seu café da manhã. Eu queria vê-los dançar,
mas
não poderia ficar mais tempo, assim, eu disse ao
homem:
"Bom homem, devo ir embora e escrever uma carta
ao meu
para que ore bastante, estude muito e se comporte bem,
para que ele também possa vir a este jardim. Mas ele
também tem uma tia Lena que deverá acompanhá-lo"
trabalha muito, ora diligentemente e dize ao Phil e ao
Justy
que também façam as suas orações e estudem, para
juntos
possam entrar no jardim.
Que Deus te abençoe! Dá a tua tia Lena todo o meu
carinho e um beijo da minha parte. Teu pai que te ama,
Martinho Lutero
A generosidade de Martinho Lutero e a economia de
Catarina
Talvez a razão tenha sido que passou muito tempo no
mosteiro, onde não tinha que se preocupar com o dinheiro, talvez uma
profunda fé em Deus, que proveria tudo o que precisasse em todas as
circunstâncias, mas como fosse, Lutero nunca se preocupou pelo dinheiro.
Costumava dizer: "Eu preocupar-me? ... Catarina é quem paga as
despesas". E ela sempre conseguia isso, mesmo quando o seu marido dava a
mínima importância para o orçamento familiar. Baseado nos valores atuais, em
1536 Lutero ganhava o equivalente a uns 90.000 dólares por ano. Pode parecer
bastante dinheiro mas geralmente era tudo gasto por outubro ou novembro. A
causa disso é óbvia: a casa de Lutero mais parecia um abrigo ou orfanato do que
uma casa paroquial, Nos seus vinte anos de casamento o casal cuidou de onze
sobrinhos órfãos. Ocasião houve em que até 25 pessoas abrigaram-se sob o seu
teto. A esse número precisa ser acrescido ainda uma dúzia de alunos que
costumavam tomar as suas refeições com eles (os quais com diligência anotavam
as palavras que o seu grande mestre dizia).
Lutero nunca pediu nem um centavo pelos seus escritos,
ainda que facilmente podia fazê-lo. Ao contrário, eram os
publicadores que enriqueciam. Sua intenção era manter o custo dos seus
livros o mais acessível possível e não aproveitar-se pessoalmente da pregação
nem do ensino da Palavra de Deus. O que mais tornava difícil lidar com o
orçamento da família era o fato de ser Lutero o alvo daqueles que pediam
esmolas. Em certa ocasião, um aluno veio com olhos cheios de lágrimas e
apresentou sua necessidade. Lutero, sem dinheiro na sua carteira, pegou uma
taça de prata para dá-la ao jovem, Catarina então perguntou-lhe rapidamente:
"Vais dar tudo de presente?". Sem dizer uma palavra, Lutero amassou a taça com as suas mãos e disse ao aluno: "Aqui
tens, leva-a ao
joalheiro, já não a posso mais usar".
Numa outra vez quis enviar um jarro para flores a um
amigo porocasião do seu casamento, mas não pôde achar o vaso
pois a sua prudente esposa já o havia escondido. A coisa chegou ao ponto que
Lucas Cranach, que também era o seu banqueiro, não pagava nenhum cheque feito
por Lutero sem antes consultar a Catarina.
Como presente de casamento, o casal havia recebido o
grande claustro negro do Eleitor João o Constante, o que não era um presente
insignificante. Mais tarde, Lutero, a fim de pagar os seus impostos fez uma
avaliação que resultou em 6.000 Gúldenes (o Gúlden na época correspondia a uns
300 ou 400 dólares). Lutero também comprou (principalmente com o dinheiro do
Eleitor) a granja do seu cunhado, a propriedade Zulsdorf. Catarina também
administrava um grande horto, bem como outros menores e até um açude para
peixes. E fazia tudo isso com tão grande eficiência que assim, ela compensava a
despreocupada generosidade de Martinho.
Ainda que Lutero morreu sendo um homem relativamente
rico, com propriedades e bens avaliados em uns 10.000 Gúidenes,
porem nem ele nem a sua família tiveram uma vida rodeadas pelos luxos,
Praticavam com convicção o que está em Mateus 6:33.
"Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua
justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas".
Perguntas para pensar
1. No caso de Catarina ... o que ela aproveitou do
tempo no convento?
2. O que é o noivado ou o compromisso?
3. Qua1 é a importância que o amor romântico deve ter
no casamento?
4. Como pôde Lutero despreocupar-se tanto do orçamento
familiar?
5. Analise a decisão de Lutero de não tirar proveito
econômico dos seus escritos.
CAPÍTULO 6
Instruções às igrejas
Depois do Edito de Worms em 1521, o qual declarou a
Lutero umfora-da-lei, Carlos V deixou a Alemanha. Passou nove
anos ausente, engajado como estava na sua luta contra Francisco I da
França.
Por causa da revolta dos camponeses, no ano de 1525
nenhuma dietase realizou na Alemanha. Pelo contrário, nesse ano
Carlos V havia derrotado a Francisco I da França e já podia dirigir a
sua atenção a outras partes do seu império. Ordenou então que os príncipes
alemães se preparassem para cumprir o Edito de 1521. Porém, por causa do seu
casamento, Carlos V partiu para uma longa lua-de-mel. Assim, esteve ausente à
Dieta de Speyer de 1526, o que desagradou muitíssimo à maior parte da nobreza
alemã. Os resultados gerais dessa dieta só fortaleceram a causa da reforma na
Alemanha. Os príncipes pediram ao imperador poderem interpretar o Edito de
Worms seguindo o ditame das suas consciências, conseguiram isso, e como
conseqüência, os que eram a favor da Reforma, podiam consenti-la e até
promovê-la nos seus territórios sem temer represálias. Carlos V não gostou nada
disso, mas achava-se sem saída, havia confiado insensatamente na promessa de
Francisco I de não lutar mais contra Espanha se ele o libertasse do cativeiro.
Carlos V tomou como reféns a dois dos filhos de Francisco e o colocou em
liberdade, mas o rei francês, uma vez em liberdade, quebrou a sua promessa
alegando tê-la feito sob coação e, imediatamente, declarou a guerra contra
Espanha e contra Carlos V. Assim a Reforma na Alemanha pôde prosseguir, pois o
Imperador não podia dedicar-se a combatê-la.
Visitas oficiais às igrejas
Frederico o Sábio morreu no dia 5 de maio de 1525.
Ainda que oficialmente nunca se converteu ao luteranismo, tudo
indica que acreditava na justificação pela graça mediante a fé.
Seu capelão era o fiel Espalatino. No seu leito, pouco antes de falecer,
recebeu a Santa Ceia com os dois elementos. Seu irmão e sucessor, João 'o Constante,
era sem dúvida luterano: ele propagou ativamente a causa luterana, Depois da
primeira Dieta de Speyer em 1526, concordou com os repetidos pedidos de Lutero
de que se fizesse uma visita oficial a cada uma das igrejas na Saxonia
Antes de tudo, se verificaria se os pastores estavam
capacitados para realizar seu ministério. Muitos haviam repudiado recentemente
o catolicismo romano - e nem todos o fizeram por bons motivos - alguns dentre o
clero trocaram a sua filiação eclesiástica mas não seu ensino nem a sua
prática. Por isso, os visitadores precisavam questionar se os pastores sabiam a
diferença entre as doutrinas romanas e as da reforma. Era imprescindível que
acreditassem e ensinassem as doutrinas defendidas pelos luteranos: sola
scriptura, sola fide, sola gratia (somente pela Escritura, somente pela fé,
somente pela graça). A insistência nesses pontos básicos eliminaria os
ensinamentos falsos da Igreja Católica Romana:
lº que o papa e o concílio são iguais ou superiores às
Escrituras
2º que as obras são necessárias para a salvação
3º que o homem deve cooperar com Deus para merecer a
sua Aprovação
Além disso, os visitadores deviam animar esses
pastores a insistir com o povo a que vivessem segundo a fé que professavam. Os
membros das igrejas não deviam comportar-se muito bem só no Domingo e passar o
resto da semana em pecado aberto.
Lutero sabia que a situação na Alemanha era ruim, mas
ficou horrorizado ao saber a verdade: muitos clérigos nem
sequer sabiam o Pai-nosso, nem o Credo Apostólico nem os Dez Mandamentos.
Muitos
eram dependentes de jogos por dinheiro, outros eram
bêbados empedernidos. Conta-se que um dos pastores passava
todo o seu tempo elaborando cerveja, e no domingo, a falta de tema para o
sermão, "pregava" sobre a arte de fazer cerveja! Em certos lugares,
mais de Uma terceira parte do clero, supostamente celibatários, viviam em
fornicação aberta (ajuntados, sem casar), e como os pastores viviam
escandalosamente, os membros das suas paróquias não mais ouviam as exortações a
viver fielmente, como resultado, as igrejas e as escolas haviam caído na ruína.
Era como se o cristianismo não existisse nesse lugares.
Suprindo o que era necessário
Posto que havia tantos clérigos incompetentes, não os
podiam retirar todos ao mesmo tempo, pois simplesmente não
haveria quem os substituísse. Então, somente os piores foram
retirados. Durante algum tempo as condições foram as de improvisar, algumas
congregações uniram-se a outras, e para realizar os ofícios pastorais, foram
enviados pastores de emergência. Lutero reduplicou seus esforços escrevendo
sermões para ajudar a esses pastores que eram fiéis mas que tinham pouca
instrução. Já anteriormente, quando esteve no seu confinamento em Wartburg,
havia escrito muitos sermões para proporcionar exemplos a outros pastores. Esses esforços de Lutero foram muito
significativos. Muitos pastores que não estavam acostumados a escreverem
sermões bíblicos, dependiam muito dos sermões escritos por Lutero. Esses
sermões passaram a ser usados na maior parte da Alemanha e noutras regiões da
Europa.
Os ofícios da igreja mudaram pouco a pouco no tempo de
Lutero. A centralização do culto já não era mais o sacrifício
incruento de Cristo na missa católica. A leitura e a explicação das Escrituras
chegou a ser a característica mais marcante do culto luterano, sem diminuir a
importância dos sacramentos.
Os catecismos
Porém o trabalho na congregação consistia em algo mais
do que a pregação. Precisa haver ensino também. Por isso Lutero
escreveu seu Catecismo Menor e o publicou no dia 23 de abril de
1529. Ainda que começou esse catecismo com a idéia de dirigi-lo
aos jovens, continuou escrevendo-o e assim aumentando seu conteúdo ate ao ponto
em que não era mais apropriado para a juventude. O Catecismo Maior foi escrito
em prosa e teve o propósito de ajudar os pastores e mestres. De fato, em algumas
igrejas era lido regularmente à congregação como uma revisão constante da
educação cristã básica.
O mais provável é que o Catecismo Menor tenha sido
preparado simultaneamente com o Catecismo Maior, seguia um
formato diferente, com perguntas e respostas e era muito breve em comparação
com o Maior.
O Catecismo Menor estava dirigido ao leigo comum, em
especial aos
pais de família, para que pudessem ensinar as verdades
básicas da Bíblia aos seus filhos.
Lutero deu exemplo aos lares cristãos ao utilizar seu
próprio Catecismo Menor, cada dia ajudava aos seus filhos na
cuidadosa memorização, palavra por palavra. Cada semana passava
um breve teste sobre o assunto. Recomendou aos pais que se os seus filhos não
desejassem aprendê-lo, que também não se lhes desse de comer. E se os serviçais
não quisessem memorizá-lo, afirmou que outros deviam ser contratados em seu
lugar. Ele mesmo continuou estudando esse livro durante toda a sua vida.
o hinário
Além da tradução da Bíblia ao alemão e dos seus
catecismos.Lutero também comoveu a alma das pessoas com os seus hinos.
Antes da música que Lutero forneceu à congregação, a música eclesiástica era em
latim, cantavam-na os coristas que conheciam essa língua e poucos leigos a
entendiam. Lutero estava convicto de que a música era o melhor para comover os
sentimentos.
Seus hinos
foram o exemplo para o luteranismo, seus inimigos queixavam-se: "O povo canta na Sua igreja
herética: os hinos de Lutero têm atraído a mais pessoas que todos os seus
escritos e sermões juntos"
O exemplo de
Lutero animou a muitos outros. Antes da sua morte se haviam publicado algo como
47 hinários. Atualmente só no idioma alemão há mais de cem mil hinos que foram
publicados e mil desses hinos converteram-se em clássicos, Isto, segundo um
historiador, representa mais hinos do que os que podem ser encontrados em
qualquer outro idioma. Verdadeiramente a igreja luterana é chamada, com todo
mérito, "a igreja que canta".
Perguntas para pensar
1. Comente como
a mão de Deus na história da Europa ajudou à Reforma.
2. Como pode Frederico o Sábio defender a Lutero com
tanta energia
sem jamais
ter sido oficialmente luterano?
3. Por que razão havia pastores tão pouco capacitados
no início da igreja luterana?
4. O que pode fazer um membro da congregação para que
a sua atenção aumente durante o sermão?
5. O que pode fazer os pastores para que os seus
sermões sejam mais interessantes?
6. Qual é o perigo real que os jovens enfrentam após a
sua confirmação? De que maneira os jovens podem evitar isto?
7. Ainda é possível dizer que a igreja luterana é
"a igreja que canta"?
CAPÍTULO 7
Esclarecimento acerca da posição luterana
A Dieta de Speyer de 1529
A primeira Dieta de Speyer em 1526 havia dado
oficialmente aosluteranos "carta branca" ao lidar com seus
próprios assuntos. Carlos V ficou muito
desgostoso com isso mas naquela época estava com as mãos atadas. Porém em 1529
o cenário político havia mudado; de maneira que o imperador ordenou à Dieta,
mais uma vez reunida em Speyer, que revogasse a decisão anterior. A maioria dos
príncipes eram católicos e fizeram o que o imperador ordenara. Revogaram a permissão da dieta anterior, ordenaram aos
príncipes católicos de cumprissem o Edito de Worms e ordenaram aos príncipes
luteranos que permitissem o uso da missa católica em seus territórios.
Os príncipes luteranos reagiram como era de se
esperar; Num documento que enviaram ao Imperador declararam que o
que havia Sido acordado em 1526 não podia ser anulado por uma simples maioria;
nem se deviam forçar aos luteranos a agir contra as suas consciências.
Ambos os lados haviam celebrado o acordo; pelo que, só esses dois partidos poderiam mudá-lo. Os luteranos que assinaram
o protesto fóram: o Eleitor João da Saxonia, o Margrave Jorge de Brandenburg,
os Duques Ernesto e Francisco de Anhalt e representantes de 14 cidades
imperiais. Devido a esta carta formal de protesto, esses luteranos receberam o
nome formal de "protestadores", que logo mudou para "protestantes".
Depois disso, qualquer pessoa que
deixava as fileiras da Igreja Católica era denominado de
"protestante".
Maquinações políticas
Felipe de Hesse interessou-se muito para fortalecer a
posição política dos luteranos. E havia dois motivos para isso:
1º A Segunda Dieta de Speyer ameaçava à liberdade de
culto;
2º Informou-se a todos que os católicos haviam
iniciado um esforço
unido para eliminar a todos os luteranos e outros
protestadores da
Alemanha.
Felipe de Hesse organizou uma liga secreta de defesa
imediatamente após a Dieta, que incluia a Saxonia Eleitoral, Hesse,
Strasburg, Nüremberg, e Ulm. Uma vez que se chegou a certa
unidade política procurou-se chegar à unidade teológica. Convidou a
diferentes teólogos alemães e suíços ao Castelo de Marburg, em Hesse para
discutir e talvez resolver as diferenças. Ele estava convicto de que os
problemas deviam-se a uma falta de comunicação, e que as diferenças seriam
resolvidas numa reunião em que falariam "cara a cara". Os grupos
estavam divididos em luteranos e zwinglianos.
Ulríee Zwinglio
Quase que paralelamente à reforma luterana na
Alemanha, um sacerdote chamado Ulrico Zwinglio havia dado início a
reformada igreja também na Suíça. Como pastor em Zurique
conseguira convencer o concílio dessa cidade a aeeitar as mudanças.Tais
mudanças incluíam entre outras coisas: mudar a ordem da missa católica por uma
que ele mesmo tinha escrito, abolir as procissões eclesiásticas, tirar as imagens,
crucifixos e altares, proibir a venda de indulgências, e ordenar aos pregadores
a que só ensinassem a doutrina bíblica. Nenhum desses pontos era motivo de
controvérsia para os reformadores alemães, porém
Zwinglio levava a cabo a sua reforma sobre outro fundamento. Seu método
teológico de interpretação apelava à razão humana como última
resposta a cada questão doutrinária. Afinal, arrazoava. "O Senhor é um
Deus de ordem e razão, não pediria ao homem crer em nada que não fosse
razoável.As Escrituras precisam estar em harmonia com a razão. O conflito com
Lutero era inevitável porque para ele as Escrituras tinham a última palavra e
acudia a elas como a autoridade definitiva sobre a razão humana quando as duas
estavam em desacordo. O campo de confrontação inicial foi a doutrina da Santa Ceia, e a questão era se o corpo e o sangue de
Cristo estão presentes realmente ou não no sacramento.
o Coléquio de Marburg
Ulrico Zwinglio e João Ecolampio da Suíça e Martim
Bucero de Strassburgo, entre outros, representavam a posição dos
reformadores suíços em Marburg. Lutero, Melanchton, Justus Jonas e companhia,
representavam Wittenberg. Reuniram-se durante os primeiros três dias de outubro
de 1529. No início Zwinglio discutiu alguns assuntos em particular com Melanchton,
como Lutero fez com Ecolampio. Dessa maneira Melanchton tentava evitar qualquer
conflito imediato entre Zwinglio e Lutero. Depois dessas conversas, todos
assentaram-se juntos para o debate. Uma testemunha mais tarde disse que Lutero
e Zwinglio mostravam-se mais como irmãos do que corno oponentes. Aparentemente
chegavam a um consenso sobre muitos assuntos: a trindade, a Pessoa de Cristo, a fé e o batismo. Porém, quanto à
Santa Ceia entraram num beco sem saída.
Quando o debate sobre a Santa Ceia iniciou-se, Lutero
tirou um giz do seu bolso e escreveu na mesa: "Hoc est corpus meum" -
isto é o meu corpo. Baseado nessas simples palavras de Cristo procedeu a
defender a doutrina da presença real de Cristo no sacramento. Zwinglio
respondeu com as palavras de João 6:63 " ... a carne para nada
aproveita", e disse que desde a sua ascensão Jesus já estava à destra de
Deus. Isso não foi um problema para
Lutero, que via a "destra de Deus" presente em todo lugar. Cristo,
como verdadeiro homem e verdadeiro Deus, está presente tanto nos céus como na terra. A citação de João 6:63 havia sido
tirada do seu contexto, nada tinha a ver com o sacramento.
Cedo era evidente para Lutero que o "é" da
declaração de Jesus significava para Zwinglio "representa".
Lutero agarrou-se às simples palavras do
Mestre, apesar dos muitos e sofisticados argumentos que Zwinglio apresentou.
No terceiro dia os dois grupos perceberam que seria
inútil continuar. Lutero escreveu quatorze pontos sobre os que não havia
discordância. O décimo quinto ponto
referia-se à Santa Ceia e concluía assim: "Ainda que neste momento não
estamos em concordância sobre se o verdadeiro corpo e sangue de Cristo estão
corporalmente presentes no pão e no vinho, todavia, ambos grupos devem mostrar
amor cristão uns pelos outros ..."
Com isso todos estavam de acordo. Ainda que a despedida foi cordial, Lutero
recusou-se a dar a mão a Zwinglio quando este lhe ofereceu a destra em sinal de companheirismo. Para Lutero podiam
ficar como conhecidos mas não existiria nenhum companheirismo
pois não havia união na fé. Desde esse momento ambos os grupos
perceberam que
percorreriam rumos diferentes.
A Dieta de Augsburgo de 1530
Por fim o Imperador Carlos V pôde dedicar todas as
suas atenções para resolver o impasse religioso, de maneira definitiva. Com
essa finalidade convocou outra dieta, dessa feita em Augsburgo, enviou um
convite muito amigável, pedindo a todos os protestantes que expusessem as suas
posições num julgamento aberto onde poderiam ser ventiladas tais questões.
Já antes do Colóquio de Marburg, os teólogos de
Wittenberg haviam elaborado uma série de artigos explicando a posição
evangélica, esses artigos são conhecidos como "Os artigos de Schwabach"
porque foram apresentados naquele local em outubro de 1529. Essas declarações
foram muito positivas, pois mostravam de maneira clara qual era a posição
evangélica sem apontar para os abusos e erros dentro da Igreja Romana. Depois
do convite do Imperador, o Eleitor pediu a Lutero que escrevesse outra série de
declarações para complementar a primeira e que detalhasse os erros romanos.
Lutero, Melanchton e Jonas trabalharam nesse projeto.
No final de março de 1530 os artigos foram terminados e foram entregues
ao Eleitor João em Torgau, por isso, o dócumento apresentado é conhecido como
"Os artigos de Torgau".
Nos primeiros dias de abril, a delegação de Wittenberg
iniciou sua viagem rumo a Augsburgo. Em Torgau, o Eleitor João
uniu-se ao grupo. Na Sexta feira santa 15 de abril de 1530,
chegaram a Coburg, onde celebraram a Páscoa, ali o Eleitor insistiu com Lutero
para que este ficasse nessa cidade, pois era parte da Saxonia Eleitoral, onde a
vida do criminoso Lutero podia estar a salvo. O restante do grupo havia
recebido um salvo conduto para a dieta, mas não Lutero. Teria que permanecerem
Coburg durante a dieta (a qual teve uma duração de cinco meses).
A companhia do Eleitor João chegou a Augsburg no dia 2
de maio de 1530,surpreendendo-se com um documento que lhe aguardava, documento
pronto para ser apresentado perante a dieta. Havia sido escrito por João Eck de
Ingolstadt, sob o título "404 artigos para a Dieta de Augsburg",
supostamente era uma lista completa dos erros de Lutero. Por desgraça não se
fazia nenhuma diferença entre Lutero, Zwinglio e outros protestantes. Lutero
não estava ali presente para escrever uma resposta, de maneira que a tarefa
recaiu sobre Melanchton.
Ao utilizar os Artigos de Schwabach e de Torgau como
fundamento, Melanchton elaborou uma Confissão mais completa para
responder ao documento apresentado por Eck. O primeiro rascunho foi
enviado a Lutero no dia 11 de maio. Lutero devolveu-o quatro dias depois sem
nenhum a alteração e com os elogios devidos para Melanchton: "Eu mesmo não
poderia andar com tanta suavidade nem tranqüilidade". Melanehton escreveu
mais dois rascunhos antes do documento confessional estivesse pronto para ser
apresentado ao Imperador Carlos V no dia 24 de junho de 1530.
Carlos V chegara a Augsburgo no dia 15 de junho, após
as costunieiras festividades, houve um culto no qual o Eleitor João e o
Landgrave Felipe recusaram-se a tirar os seus chapéus durante a bênção; Mais
tarde nesse mesmo dia foi ordenado aos luteranos que não pregassem o evangelho
enquanto estivessem em Augsburgo. O Margrave Jorge de Brandenburg respondeu que
o Imperador não podia mandar nas suas consciências. Quando a ira de Carlos V
começou a aumentar, Jorge postou-se perante ele e disse: "Antes de que eu
negue ao meu Deus e seu evangelho, eu me ajoelharia diante da sua majestade e
permitiria que me cortassem a cabeça".
Então o
imperador pediu aos luteranos que se unissem a procissão do Corpus Christi e à
sua missa. Quando os luteranos recusaram-se, Carlos V irou-se tanto que quase
ordenou-lhes que voltassem para casa. Todavia, isso poderia ter
provocado ama guerra civil, de maneira que suportou a humilhação de assistir a
uma missa quase vazia.
A Confissão de Augsburgo
Finalmente foi informado aos luteranos que deveriam
estar prontos para apresentarem o seu documento no dia 24 de junho.
A Confissão de Augsburgo, como se tomou conhecido o documento preparado por Melanchton, ainda estava sendo editada no dia 23 de
junho, mas foi terminada a tempo. Foi assinada pelo Eleitor João de
Saxonia, Margrave Jorge de Brandenburg-Ansbach, o Duque Emesto de Lüneburg, o
Landgrave Felipe de Hesse, o príncipe Wolfgang de Anhalt e as cidades de
Nürenberg e Reutlingen. Melanchton advertiu ao Eleitor João acerca das
conseqüências. João, também conhecido como "O Constante", respondeu:
"Farei o que é certo, não me preocupa a minha dignidade eleitoral.
Confessarei ao meu Senhor cuja cruz estimo mais do que todo o poder nesta
terra".
Houve várias demoras antes de que os luteranos fossem
chamados a se apresentarem perante a Dieta. De fato, no dia marcado já era tão
tarde que não havia mais tempo disponível para fazer a leitura do documento
inteiro (umas duas horas). Carlos V quis uma cópia para estudá-la em
particular. Georg Brueck, um dos chancelers da Saxonia e porta-voz dos
luteranos fez lembrar ao Imperador a sua promessa de que o documento seria
apresentado publicamente, Carlos V acedeu e a contra gosto permitiu que se
fizesse a leitura em alemão, pois estavam em território alemão.
No dia 25 de junho de 1530, um dia de grande
significação para os luteranos, iniciando às três da tarde, o doutor
Christian Beyer, Reitor de Saxonia, com muito destemor leu-em voz alta a
Confissão de Augsburgo perante a Corte Imperial. Alguns disseram que Carlos V
dormiu, outros afirmaram que o Imperador escutou atentamente. Ao término da leitura,
o Bispo de Augsburgo reconheceu: "Tudo o que foi lido é a pura
verdade".
o Príncipe Guilherme de Bavária disse:
"Disseram-me algo muito diferente daquilo que vocês, luteranos, ensinam".
E a João Eck comentou-lhe: "Disseste-me que se poderia provar
a falsidade da sua doutrina". Eck respondeu: "Assim seria, se eu
usasse os pais da igreja, mas não usando somente as Escrituras".
Estupefato, Guilherme perguntou: "Queres dizer que os luteranos estão
baseados nas Escrituras e nós católicos romanos fora delas?". Ainda mais
impressionados estavam os representantes de cinco cidades: Heilbronn, Kempten,
Windeheim, Weissenburg e Frankfurt am Main. Eles acrescentaram as suas
assinaturas à Confissão apresentada, mais tarde outros fariam igual.
O imperador pediu a Eck que escrevesse uma resposta ao
documento luterano. No dia 8 de julho havia escrito um documento
de 351 páginas. Carlos V não quis aceitá-lo pois era muito longo e mostrava
ódio em relação aos luteranos. No dia 3 de agosto, a resposta romana havia
descido de tom e reduzida a menos do que uma décima parte do seu tamanho
original, e foi entregue sob o título de "A refutação". Mesmo que
intentaram utilizar passagens das Escrituras para provar a sua posição, a maior
parte das citações bíblicas nem sequer correspondiam ao assunto tratado. As
discussões que se seguiram centravam-se na insistência romana na doutrina da infalibilidade papal, o sacrifício
incruento na missa e o sacerdócio. Roma nunca permitiria que os sacerdotes
casassem nem que a comunhão fosse distribuída sob as duas espécies. Porém os
luteranos permaneceram firmes. Carlos V ainda ameaçava a João: "Ou
concordas conosco ou perdes a tua posição como Eleitor".
João o Constante respondeu ao imperador: "Preciso
escolher entre Deus e o mundo. Não tenho nenhuma dúvida quanto à
minha escolha, Deus me fez Eleitor, ainda que não o merecesse.
Entrego-me às suas mãos e que Ele faça comigo segundo a Sua Vontade".
Enquanto isso, Melanchton preparava uma resposta à
refutação romana, documento esse que chegou a ser conhecido como
"A Apologia da Confissão de Augsburgo". O documento foi
apresentado à Dieta no dia 22 de setembro. Carlos V o rejeitou e assim foi
encerrada a dieta.
Aos luteranos foi dado um prazo que terminava no dia
15 de abril do seguinte ano para retomar às fileiras da Igreja Católica Romana.
O Imperador achou-se quase só quando tentou reforçar o
seu mandato. Só dois príncipes estavam dispostos a ajudá-lo. Até os Arcebispos
de Moguncia e de Colônia e o Bispo de Augsburgo tornaram-se simpatizantes da
causa luterana.
Em março de 1531 os luteranos formaram a Liga de
Esmalcalde prevendo o cumprimento das ameaças de Carlos V. Os
membros dessa liga incluíam a Saxonia Eleitoral, Hesse, Lüneburg, Anhalt,
Mansfeld e outras onze cidades. Carlos V duvidou ao ver a determinação e a
força que apresentavam. Quando finalmente decidiu-se à ação, os turcos atacaram
a Europa oriental. Carlos precisava de toda a ajuda que pudesse obter. Assim,
retratou-se da sua posição com os luteranos e estabeleceu a paz com eles. Com "paz de Nürenburg" o Imperador Carlos V
granjeou o apoio dos luteranos contra os turcos.
Perguntas para pensar:
1. Explique por que razão João 6;63 não se refere à
Santa Ceia como Zwinglio queria utilizar o versículo?
2. Deve-se fomentar a união entre os cristãos? Sobre
qual base?
3. Lutero é acusado de ser intolerante por não ter
chegado a um
compromisso
com Zwinglio ou por não reconhecer umcompanheirismo eclesiástico
com o reformador suíço. Por que razão esta
avaliação não é nem justa nem bíblica?
4. Na sua opinião, por que se negaram os luteranos a
participar na missa festiva
do Corpus Christi em Augsburgo?
5. Ao assinarem a Confissão de Augsburgo todos os confessores
expunham-se à
perseguição. De que maneira nós hoje sofremos
perseguição?
EPíLOGO
Lutero viveu por quase mais dezesseis anos após a
assinatura da Confissão de Augsburgo.Foram anos cheios de alegria
para uma crescente família cristã, de tristezas pelas mortes da sua mãe e da
sua filha Madalena, e de lutas com as doenças que o atacavam. Não desfrutava de
boa saúde, Lutero sofria de várias doenças crônicas, duas das quais
destacavam-Se: uma infeção no ouvido e cálculos renais (mas ele afirmava que a
cerveja de Catarina ajudava a dissolver as pedras na urina).
No dia 23 de janeiro de 1546 Lutero e seus filhos
Martinho e Paulo viajaram a Eisleben. Lutero havia concordado em ser o
árbitro numadisputa familiar entre os príncipes de Mansfeld. A
viagem durante o inverno foi dificil e Lutero chegou exausto. As três semanas
que se seguiram, entre argumentos dos príncipes e seus advogados, esgotaram-no
ainda mais; mas afinal tudo foi solucionado.
Na tarde do 17 de fevereiro Lutero foi acometido por
uma dor aguda no peito, após um breve descanso, mais duas vezes,
cedo pela manhã as dores o acometeram. Ao perceber que se aproximava o seu fim)
Justus Jonas perguntou-lhe: "Reverendo padre, estás disposto a morrer pelo
nome de Cristo e pela doutrina que tens pregado?". Lutero respondeu que
sim, com o tom de voz suficiente para ser ouvido pelos presentes. Pouco depois
morreu no seu Senhor.
Lutero foi sepultado diante do púlpito da igreja onde
tantas vezes pregara, à espera da ressurreição dos mortos.
No sermão pregado no funeral de Lutero, o pastor
Bugenhagen fez referência às palavras de Apocalipse 14:6-7,
descrevendo a Lutero como o mestre mais destacado da igreja cristã desde os
tempos do apóstolo Paulo, e viu nas suas conquistas a tarefa do
"anjo...que tinha o evangelho eterno", que clamou com grande voz,
"temei a Deus e rendei-lhe glória".
CRONOLOGIA
1483 - 10 de novembro: Nascimento de Martinho Lutero
em Eisleben.
- 11 de
novembro: Batismo na paróquia de São Pedro.
1496 - Estudos em Magdeburg.
1497-1501 - Estudos na Escola São Jorge em Eisenach
1501 - Abril: ingresso na Universidade de Erfurt
1502 - Setembro: obtém o seu título como Bacharel.
1505 - Fevereiro: Obtém o seu Mestrado em Arte.
- 20 de
maio: Inicia os seus estudos de direito em Erfurt
- 02 de
julho: O temporal e o voto de Lutero
- 17 de
julho: Ingresso no mosteiro agostiniano
1507 - 04 de abril: ordenação ao sacerdócio.
1508 - Outubro: inicia os seus discursos em
Wittenberg.
1509 - Retorno a Erfurt
1510-1511 - Viagem a Roma
1511- Fins do verão europeu: retomo a Wittenberg e
permanência
nessa
cidade.
1512 - Outubro: obtenção do seu Doutorado em Teologia.
- Dá início
às suas palestras sobre Gênesis.
1
513 - Agosto: inicia as suas palestras sobre os
salmos.
1515 - Abril: inicia as suas palestras sobre Romanos
1516 - Outubro: inicia as suas palestras sobre Gálatas
1517 - Outubro: Prega na porta da Igreja do Castelo de
Wittenberg
as suas
95 teses
1518 - Janeiro: Tetzel recebe dos dominicanos o seu
Doutorado
em
Teologia- 12 a 14 de outubro: Lutem apresenta-se perante Caetano em Augsburgo.
- 12 de
janeiro: morre o Imperador Maximiliano
- 28 de
junho: Carlos V é eleito Imperador.
- 04 a 14
de julho: Lutero debate com João Eck em Leipzig.
1520 - 15 de junho: O Papa Leão emite a Bula
"Exurge Domini"
na
qual condena Lutero com a excomunhão.
- Agosto:
Lutero apresenta o seu "Discurso à Nobreza da Nação Alemã"
- 6 de
outubro: "0 cativeiro Babilônico da igreja"
- Início
de novembro: "Da liberdade do cristão"
- 10 de
dezembro: Lutero queima a Lei Canônica Romana e a
Bula
Papal
1521 - 07 a 08 de abril: Lutero apresenta-se perante a
Dieta de Worms.
- 26 de
abril: Lutero deixa Worms
- 4 de
maio: Lutero é "capturado" e levado em segredo ao Castelo de Wartburg
- 3 a 4 de
dezembro: surgem os primeiros distúrbios provocados pelos iconoclastas em
Wittenberg.
- Após os
distúrbios: Lutero visita Wittenberg secretamente
- 25 de
dezembro: Carlstadt celebra a Ceia com ambos os elementos
- 27 de
dezembro: chegam a Wittenberg os profetas de Zwickau.
1522 - Fevereiro: lutero termina de traduzir o Novo
Testamento ao Alemão
- 01 a 06
de março: Lutero retorna de Wartburg
1523 - Publica-se o primeiro hino de Lutero
"Cantai cristãos onde for"
1525 - Revolta dos Camponeses
- 13 de
junho: casamento com Catarina Von Bora
1526 - Junho a agosto: realiza-se a Primeira Dieta de
Speyer
1527-1528 - Hino triunfal "Castelo Forte"
1528 - Outubro: Lutero e as visitas oficiais às
igrejas .
1529 - Janeiro: Publicação do Catecismo Menor em
grandes cartazes
- Abril:
Publicação do Catecismo Maior
- Maio:
Publicação do Catecismo Menor em formato de manual
1530 - 25 de junho: A Confissão de Augsburgo é lida
perante a Dieta
- 19 de
novembro: Encerra-se a Dieta e se renova o Edito de Augsburgo.
1531 - Janeiro e fevereiro: Forma-se a Liga de
Esmalca1de
- 15 de
abril: Publica-se a Confissão de Augsburgo e sua Apologia
1534 - Publica-se a tradução feita por Lutero da
Bíblia inteira.
1537 - Fevereiro: Os artigos de Esmalcalde são
aprovados em
particular. Os quais deveriam ser apresentados aos católicos caso o papa convocasse um
concílio livre para
debater a questão luterana.
1546 - 18 de fevereiro: falecimento de Lutero em
Eisleben.
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