GUARDARÁS O SÁBADO!


                         SANTIFICARÁS O DIA DO DESCANSO

              Chamamos esse dia de Feiertag" pela palavra hebraica sabbath, que, propriamente, significa feireni' isto é, cessar de trabalhar. Daí costumarmos  dizer Feierabend machen ou heiligen Abend gebeni' Acontece que no Antigo Testamento Deus separou o sétimo dia" instituindo-o por dia de repouso e ordenando fosse santificado acima dos demais. E no respeitante a essa observância exterior o mandamento foi dado apenas para os judeus. Cumpria-lhes interromper trabalhos rudes e descansar, a fim de que homens e animais  pudessem refazer-se e não se debilitassem com labores ininterruptos. Verdade que posteriormente lhe deram uma interpretação demasiadamente estreita e abusaram do preceito grosseiramente, a ponto de que maldisseram e não puderam tolerar em Cristo obras que eles mesmos praticavam em dia de sábado, conforme se lê no evangelho!' Como se o mandamento estivesse cumprido com isso de nos abstermos de toda obra externa. Ora, tal não foi o escopo do preceito. Mirava, em derradeira análise, isto sim, a que santificassem o dia santo ou de descansos conforme ouviremos.

            Em vista disso, este mandamento, entendido grosso modo, em seu sentido de superfície; não concerne a nós cristãos. Pois que é coisa inteiramente externa, ligada, como outras ordenanças do Antigo Testamento, a costume, pessoas, tempos e lugares especiais. De todas nos desobrigou agora o Cristo.  Mas a fim de sacar para as pessoas singelas uma compreensão cristã do que  Deus de nós exige neste mandamento, nota o seguinte: guardamos dias santos não por causa de cristãos inteligentes e instruídos, que esses não o necessitam. Fazermo-lo, porém, primeiramente, também por motivos e precisões de ordem corporal. A natureza ensina e requer para as massas ordinárias, para a criadagem que ao longo da semana toda cuidou de seus afazeres e negócios, que se retirem também por um dia, para descanso e restauração. Em segundo lugar, e  acima de tudo, o fazemos para que em tal dia de descanso - já que de outro modo não se consegue a coisa - Se tome lugar e tempo a fim de participar do culto divino, isto é, reunam-se as pessoas com o objetivo de ouvir e tratar a palavra de Deus, e depois louvar a Deus, cantar e rezar.

             Isso, porém, digo, não está preso a um tempo, como entre os judeus, de  modo que tivesse de ser exatamente esse ou aquele dia, pois em si um não é melhor que outro. Mas deveria acontecer, na verdade, todos os dias. Todavia, “como isso é mais do que pode o grosso” da gente, é preciso reservar para essa finalidade pelo menos um dia da semana. Porquanto desde a Antigüidade se estabeleceu o domingo para esse propósito, cumpre que fiquemos com ele, para que haja ordem unânime e ninguém gere desordem através de inovação dispensável. Esse, portanto, o sentido singelo do mandamento: já que assim como assim se observam feriados, utilizemos a observância para aprender a palavra de Deus. Seja, por conseguinte, o ministério da palavra a função própria desse dia, por causa da juventude e das pobres massas. Não se conceba, entretanto, a observância de maneira tão acanhada, que em virtude dela se haja por interdito algum outro trabalho incidente que não se possa contornar.

            Por isso, quando se pergunta o que significam as palavras "Santificarás o dia do descanso; responde: “Santificar o dia do descanso quer dizer tanto como conservá-lo santo: E qual é o sentido de “conservar santo””? Outro não é senão falar, agir e viver de maneira santa. O dia em si não precisa de santificação, pois que já foi criado santo. Mas Deus quer que ele seja santo para a tua pessoa. De sorte que se torna santo ou profano por causa de ti, dependendo das atividades a que nele te entregares: se santas, ou se profanas. Mas como se dá este santificar? “Não à maneira de quem se abancasse atrás do fogão” e se abstivesse de trabalho material, ou guirlandasse a cabeça e trajasse a melhor vestimenta. Santificar, como ficou dito, é, isto sim, tratar a palavra de Deus e nela exercitar-se.

            E, na verdade, os cristãos devem observar tal dia santo continuamente, aplicar-nos apenas a coisas santas, isto é, diariamente ocupar-nos com a palavra de Deus e trazê-la no coração e nos lábios. Todavia, já que nem todos, conforme dito dispõem de tempo e lazer para tanto, cumpre dediquemos algumas horas, semanalmente, à mocidade, ou pelo menos um dia ao povo todo, utilizando esse tempo exclusivamente no trato da palavra de Deus, incutindo precisamente os Dez Mandamentos, o Credo e o Pai-Nosso, e regulando, assim, toda a nossa vida e atividade pela palavra de Deus. No tempo em que isso estiver em pleno funcionamento e exercitação, estará sendo celebrado um dia santo autêntico. Em caso contrário, não se lhe chamará dia santo cristão. Pois feriar e andar ociosos, na verdade também o podem os pseudocristãos como também o enxame todo dos nossos clérigos diariamente está na igreja, cantando e badalando, sem, contudo, santificarem um dia santo, pois não pregam nem praticam a palavra de Deus, porém doutrinam e vivem diretamente contra ela.

            A palavra de Deus é a relíquia das relíquias, a única, na verdade, que nós cristãos reconhecemos e temos. Posto que tivéssemos, empilhados em um só montão, os restos dos corpos ou as vestes santas e consagradas de todos os santos, de nada nos valeriam, porque tudo isso é coisa morta, incapaz de santificar a quem quer que seja. A palavra de Deus, porém, é o tesouro que a tudo santifica. Eles mesmos, todos os santos, por ela foram santificados. Toda hora em que se trata, prega, ouve, lê ou medita a palavra de Deus, dá-se através disso a santificação da pessoa, do dia e da obra, não em virtude da ação externa, mas por causa da palavra, que a todos nos torna em santos. Razão por que digo sempre que todo o nosso viver e agir, para chamar-se agradável a Deus, ou santo, deve nortear-se pela palavra de Deus. Quando esse é o caso, o mandamento está em vigor e vai sendo cumprido. Inversamente, todo viver e agir  alienado da palavra de Deus é insanto aos olhos de Deus, por mais que brilhe e resplandeça, e ainda que seja exornado puramente de relíquias. São desse gênero, por exemplo, as fabricadas ordens espirituais, que não conhecem a palavra de Deus e buscam santidade nas próprias obras.

              Nota, por conseguinte: a força e o poder desse mandamento não consistem no feriar, porém no santificar. De feição que a esse dia cabe uma especial atividade santa. Outros trabalhos e negócios não se chamam propriamente exercícios santos se de antemão não for santo o homem. Aqui, porém, deve ocorrer obra tal, que por ela o próprio homem seja santificado. E isso, conforme ouvido sucede apenas mediante a palavra de Deus. É com esse propósito que se instituíram e determinaram lugares, tempos, pessoas e toda a ordem externa do culto, para que também esteja publicamente em operação.

             Visto, pois, que a importância da palavra de Deus é tão grande, que sem ela nenhum dia de descanso é santificado, saibamos que Deus insiste em cumprimento rigoroso desse preceito, e há de castigar a quantos lhe desprezem a palavra e não a queiram ouvir nem aprender, especialmente se tal acontecer no tempo designado. Pecam, por isso, contra esse preceito não apenas os que  mal-usam e dessagram o dia do descanso grosseiramente, como, por exemplo, os que em razão de sua ganância ou leviandade descuram de ouvir a palavra de Deus ou vivem nas bodegas, embriagados e encharcados que nem porcos. Transgride-o também aquela outra multidão que ouve a palavra de Deus como e escuta uma nonada qualquer. Vão ao sermão apenas por força do hábito, voltam a casa, e quando acaba o ano não sabem mais do que no ano precedente. Até agora se era de opinião que o dia estava apropriadamente santificado desde que no domingo se tivesse ouvido missa ou a leitura do evangelho! Mas ninguém perguntava pela palavra de Deus, como também ninguém a ensinava. Nem agora que temos a palavra de Deus acabamos com o abuso. Deixamos que nos preguem e admoestem, porém escutamos sem seriedade e descuidadamente. Sabe, portanto, que não se trata apenas de ouvir, mas é necessário, igualmente, aprender e reter. E não penses que é assunto afeto ao teu arbítrio ou que não é de grande importância. É mandamento de Deus, que te pedirá contas de como ouviste, aprendeste e honraste sua palavra.

            Cumpre censurar da mesma forma os espíritos convencidos que, ouvido um sermão ou dois, estão fartos e entediados, como se conhecessem a coisa bem e já não necessitasse de mestre.Trata-se precisamente daquele pecado que até agora se computou entre os pecados mortais e se chama acédia, isto é, inércia ou fastio, peste maligna, perniciosa, com que o diabo enfeitiça e ludibria o coração de muitos, a fim de apanhar-nos de improviso e subtrair-nos de novo, por baixo da mão, a palavra de Deus.

            Toma boa nota do que te vou dizer: posto conhecesses a palavra perfeitamente e fosses mestre em tudo, ainda assim estás diariamente sob o império do diabo, que nem de dia nem de noite cessa de acercar-se de ti à solapa, levando em mira acender-te no coração descrença e maus pensamentos contra os preceitos já discutidos e os demais. Razão por que é necessário tenhas a palavra de Deus continuamente no coração, nos lábios e nos ouvidos. Mas quando o coração anda ocioso e a palavra não soa, o diabo penetra e realiza o estrago antes que disso nos demos fé. Por outro lado, quando se medita; ouve e trata a palavra seriamente, ela tem o poder de nunca ficar sem fruto. Sempre desperta novo entendimento, prazer e devoção, e cria coração e pensamentos puros. Pois não são palavras inoperantes ou mortas, senão eficazes, vivas. E ainda  que nenhum outro interesse ou necessidade nos impelisse ao trato da palavra,
devera, contudo, estimular a todos o fato de que por intermédio disso se espanta e põe em fuga o diabo, e se cumpre, ademais, o mandamento, e Deus se agrada mais desse trato que de qualquer cintilante obra de hipocrisia.









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