Obras de Lutero 6
Um Sermão Sobre Sofrimento e Cruz
Caros amigos, vocês sabem que nesta época se
costuma pregar a paixão. Por isso também não tenho dúvida alguma de que já
muitas vezes tenham ouvido de que paixão e sofrimento se trataram. Sabem também
para que fim Deus o Pai o tenha determinado: por este meio ele quis ajudar, não
à paixão de Cristo, pois Cristo nem tinha necessidade desse sofrimento, mas nós
e toda a humanidade é que precisávamos de semelhante sofrimento; ele quer ser
um presente, a nós oferecido e dado por pura graça e misericórdia. Sob esse
ponto de vista não queremos falar agora. Pois dele falei muitas vezes em outras
ocasiões. Acontece que volta e meia há muitos espíritos sectários desviados,
que só desonram o evangelho e nos culpam de nada mais saber ensinar e pregar
senão apenas sobre a fé. Como se deixássemos de lado a doutrina das boas obras
e da santa cruz e sofrimento! E ainda afirmam que são eles que têm o Espírito
certo, que os leva a ensinar estas coisas. Por isso falaremos agora, a partir
do exemplo desta paixão, apenas sobre a cruz que nós carregamos e sofremos, bem
como sobre a maneira como devemos carregar e sofrê-la.
Por isso é preciso observar, em
primeiro lugar, que Cristo, com seu sofrimento, não somente nos ajudou contra o
diabo, a morte e o pecado. Seu sofrimento é também um exemplo que devemos
seguir em nosso sofrimento. É claro que nosso sofrimento e cruz não devam ser
apresentados como se por eles quiséssemos ser salvos ou alcançar o menor mérito
que fosse. Mesmo assim devemos seguir a Cristo no sofrimento, para que nos
tornemos iguais a ele; porque Deus decidiu que não só creiamos no Cristo
crucificado, mas também sejamos crucificados e soframos com ele, conforme ele o
indica claramente em muitas passagens nos evangelhos: "Quem não toma sua
cruz sobre si", diz ele, "e não segue a mim, não é digno de mim"
(Mateus 10.38); igualmente: "Já que. chamam o dono da casa de Belzebu,
quanto mais não o farão com seus domésticos?" (Mateus 10.25) Por isso cada
um tem que carregar uma parte da santa cruz, e nem pode ser diferente. S. Paulo
também diz assim: "Em minha carne eu completo aquilo que ainda falta no
sofrimento de Cristo" (Colossenses 1.24), como se dissesse: Toda a sua
cristandade ainda não está pronta por inteiro; nós também temos que seguir esse
caminho, para que nada no sofrimento de Cristo falte nem se perca, mas que tudo
seja reunido. Assim cada cristão precisa se dispor, para que a cruz não seja
excluída de sua vida.
Entretanto deve e precisa ser uma
cruz e sofrimento tal que tenha um nome e realmente angustie e doa, como, por
exemplo, quando estão em grande perigo os bens e a honra, o corpo e a vida.
Este sofrimento se sente muito bem e ele angustia caso contrário não seria
sofrimento, se não doesse muito.
Além disso, deve ser um sofrimento
que não escolhemos para nós mesmos, como os espíritos sectários escolhem um
sofrimento próprio para si mesmos; deve ser um sofrimento que, se possível,
gostaríamos que fosse eliminado, o qual, no entanto, nos é imposto pelo diabo ou
pelo mundo. E então é necessário que se permaneça firme e se conforme com ele,
como eu disse acima, ou seja: Que se saiba que temos que sofrer, para que assim
assumamos forma igual a Cristo, nem podendo ser diferente; cada um tem que ter
sua cruz e sofrimento. Quando a gente sabe disso, ela fica tanto mais amena e
suportável, e a gente pode consolar-se, dizendo assim: Tudo bem, se quero ser
cristão, também tenho que vestir a camiseta, o caro Cristo não dá outro
uniforme em sua corte. Sofrer é preciso. Isto os espíritos sectários não
conseguem fazer, pois escolhem sua própria cruz; mas ficam de má vontade e
reagem com os punhos - isto é que é um sofrimento bonito e louvável! E ainda
assim eles acham que podem nos acusar de não ensinarmos certo acerca do
sofrimento, somente eles o poderiam. Nós, entretanto, ensinamos assim, que
ninguém pode impor-se ou escolher uma cruz ou sofrimento para si mesmo. Se,
porém, ela sobrevier, que a carreguemos e suportemos com paciência.
Mas eles estão errados não só no
ponto de terem uma cruz escolhida. Erram também na valorização exagerada de seu
sofrimento, atribuindo-lhe grande mérito. Assim blasfemam contra Deus, porque não
é um sofrimento certo, mas um sofrimento infeto e auto-escolhido. Ao passo que
nós dizemos que nada passamos a merecer através do nosso sofrimento, e não o ficamos
expondo em belos cibórios nos quais eles colocam o deles. Já basta que saibamos
que é do agrado de Deus que soframos, para que assim nos tornemos de forma
igual a Cristo, como já disse. Assim vemos que precisamente os mesmos que tanto
alarido fazem e ensinam acerca do sofrimento e da cruz, são os que menos sabem
seja da cruz ou de Cristo, porque transformam seu próprio sofrimento em mérito.
É preferível que não se faça tanto alarde em torno disso, tampouco se inste nem
obrigue ninguém a isto; se não quer, portanto, sofrer inutilmente sem mérito,
pode abster-se disso e assim negar a Cristo. O caminho passa por essa porta. Só
que tem que saber o seguinte: Se não está disposto a sofrer, também não será
servo na corte. Faça, então, o que dos dois preferir: sofrer ou negar a Cristo.
Se quer sofrer, tudo bem. Então é tão
grande o tesouro e consolo que lhe é prometido e dado, que bem deveria sofrer
de bom grado e com alegria. Cristo lhe é dado de presente e como posse sua
juntamente com seu sofrimento; se, então, pode crer nisto, também poderá dizer livremente,
inclusive em grande angústia e dificuldade: Ainda que eu sofra por muito tempo,
o que é isso diante de semelhante tesouro que Deus me deu, que eu viverei
eternamente com ele? Eis, portanto, que o sofrimento se tornaria doce e leve, e
deixaria de ser sofrimento eterno, para ser algo moderado, que dura pouco tempo
e logo passa novamente, como o dizem S. Paulo (2 Coríntios 4.17) e S. Pedro (1
Pedro 1.6ss), e também o próprio Cristo no evangelho (João 16.16ss). Pois eles
levam em consideração o enorme e abundante presente de Cristo que, com seu sofrimento
e mérito, tornou-se inteiramente nosso. Assim o sofrimento de Cristo é tão
poderoso e forte a ponto de preencher céu e terra, rompendo o império e poder
do diabo e do inferno, da morte e do pecado. Se agora você compara esse tesouro
com a sua provação e sofrimento, parecer-lhe-á um dano pequeno contra tamanho
bem, caso perder um pouco dos seus bens, sua honra, saúde, mulher, filho, seu
próprio corpo e sua vida; mas se não quer atentar para este tesouro tão grande,
nem sofrer nada por ele, tudo bem, vá e largue-o: para quem não crê, para nada servirão esses inefáveis bens e dons.
Além disso, cada cristão deve
conformar-se de maneira tal que esteja certo de que esse sofrimento é para o
seu bem, que também Cristo, tendo dado a sua palavra para isto, não só quer nos
ajudar a carregar esse sofrimento, mas também o mudará para o bem. Mais uma vez
essa cruz ficará mais agradável e suportável pelo fato de nosso querido Deus
nos dar tanto lenimento e bálsamo em nossos corações, a ponto de podermos
suportar toda a nossa tribulação e desgosto, como o diz São Paulo em 1
Coríntios 10.13: "Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentado além das
vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos provará
livramento, de sorte que a possai suportar." Isto, porém, é verdade:
Quando o sofrimento e a provação ficam mais pungentes, tanto afligem e
angustiam que a gente chega a pensar que não pode mais, que tem que soçobrar.
Mas se puder pensar em Cristo, o Deus fiel virá e lhe ajudará, assim como
ajudou aos seus desde os primórdios do mundo. Pois, afinal, ele é o mesmo Deus
que sempre existiu, sendo esta precisamente também a razão por que sofremos,
por que todos os santos sofreram desde o começo. Pois o mundo inteiro tem que
ser nossa testemunha de que não sofremos por causa de alguma vergonha ou vício
manifestados, como sejam adultério, prostituição, homicídio, etc. Mas a razão
por que sofremos é que permanecemos com a palavra de Deus, pregamos, ouvimos,
aprendemos e praticamos a mesma. Sendo esta a razão do nosso sofrimento, aceite-o
assim, pois temos a mesma promessa e razão no tocante ao sofrimento que todos
os santos sempre já tiveram. Consolemo-nos, por isso, com essa mesma promessa e
vamos nos ater à mesma em nosso sofrimento e tristeza, como de fato é sumamente
necessário.
Portanto, nossa atitude diante do
sofrimento deve ser esta: Dirigirmos nossa atenção maior para as promessas de
que nossa cruz e provação deverão ser mudadas para o bem, como jamais teríamos
desejado ou sequer pensado. E é justamente este ponto que constitui uma diferença
entre as penas e provações dos cristãos e as das outras pessoas. Pois outra
gente também tem sua atribulação, cruz e infelicidade, ainda que passem um
tempo num mar de rosas e desfrutem de felicidade e de bens segundo a sua
vontade, a seu bel-prazer; mas, quando entram em provação e sofrimento, com
nada conseguem se consolar, pois não têm as grandiosas promessas e a confiança
em Deus, que os cristãos têm; por isso não podem ter o consolo que em Deus os
possa ajudar a suportar a provação, menos ainda conseguem eles perceber nele
que fará mudar para o bem essa provação e pena. Assim acontece então, como vemos
que também em pequenas tribulações eles não conseguem subsistir. E quando advêm
provações de grande vulto, eles até se desesperam, põem um fim à sua vida ou querem libertar-se de sua pele, como se o mundo
inteiro estivesse apertado demais para eles. Por isso não conseguem moderar-se
nem na felicidade nem na infelicidade: quando estão passando bem, então é que
se tornam as pessoas mais ultrajantes, petulantes e vaidosas que se pode
encontrar; quando passam mal, ficam abatidos e desanimados, mais do que uma
mulher. Assim se vê agora que aqueles que estão dando coices por aí, batendo
com os pés e teimando, estavam tão desesperados quando da revolta dos
camponeses, que nem sabiam onde se meter. Assim é que acontece quando não se
tem as promessas e a palavra de Deus. Mas os cristãos têm seu consolo também no
maior dos sofrimentos e na maior infelicidade.
Para que se compreenda isso melhor,
quero citar um exemplo pelo qual podem perceber muito bem como se ilustra e
esboça o sofrimento dos cristãos. Todos sabem muito bem como, às vezes, se representa
S. Cristóvão em pintura. Não devem pensar, entretanto, que jamais tivesse
existido um homem desse nome ou que tivesse feito fisicamente aquilo que se
afirma de S. Cristóvão. Na verdade,
aquele que criou essa lenda ou fábula, foi sem dúvida um homem de fina
percepção e inteligência. Ele quis pintar esse quadro para o povo simples, para
que este tivesse um exemplo e uma imagem de uma vida cristã, como essa deve ser
orientada e conduzida, sendo que o acertou e pintou de forma excelente. Pois um
cristão é como um gigante, que tem pernas e braços muito fortes, como se
costuma pintar o Cristóvão; pois ele também carrega tamanho fardo, que nem o
mundo inteiro, nenhum imperador, rei ou príncipe conseguem suportar. Por essa razão, todo cristão também se chama de
Cristóvão, isto é, um que carrega Cristo, por ter assumido a fé.
Mas como continua isso? Vejamos:
Quando a gente assume a fé, ninguém pensa que se trata de algo pesado. A gente
pensa que se trata de uma criancinha, bonita e bem configurada, leve para
carregar, como acontece com Cristóvão. Pois inicialmente o evangelho se apresenta
como um ensinamento bonito, agradável, afável e infantil - como vimos no
princípio, quando começou, que todo mundo entrou nessa e também queria ser
evangélico; havia tanta procura e sede por ele que, quando as pessoas vieram, o
calor era maior que num forno. Mas o que aconteceu? Aconteceu exatamente como a
Cristóvão que não notou quão pesada era a criança, até que chegou ao lugar em
que a água era mais funda.
O mesmo acontece com o evangelho:
Quando ele irrompeu, levantaram-se as vagas; papa, bispos, príncipes e a
gentalha maluca se opuseram. Aí é que se sentiu quão pesada era a criança. Pois
o bom Cristóvão ficou em tamanho perigo, que quase submergiu. Da mesma forma
vocês veem como acontece também agora: do outro lado eles estão contra a
palavra, e o que há de práticas, invençõezinhas, fraudes e espertezas, está
tudo armado para nos afogarem n'água. Eles tanto ameaçam e assustam que iríamos
morrer de medo se, em compensação, não tivéssemos outro consolo.
É isto aí! Quem tomou sobre si a
Cristo, a querida criancinha, ou tem que carregá-lo até o outro lado da água,
ou tem que submergir. Outra alternativa não há. Afogar-se não é bom, por isso
vamos atravessar a água com o Cristo, ainda que mais uma vez parecesse que
teríamos de ficar lá dentro. Porque temos a promessa de que, quem tem a Cristo,
e nele se fia e nele crê, este pode dizer livremente com Davi: "Ainda que um
exército se acampe contra mim, não se atemorizará meu coração; e se estourar
contra mim a guerra, ainda assim terei confiança." (Salmo 27.3) Deixe-os
escoicinhar e bater com a mão na mesa, deixe-os ameaçar e meter medo quanto
quiserem. Por mais funda que for a água, ainda assim queremos atravessá-la com
Cristo.
Assim se dá com todos os outros
pontos, quando as coisas começam a ficar pesadas demais, seja o pecado, diabo,
morte ou inferno, ou mesmo nossa própria consciência. Como vamos enfrentá-los?
Para onde iremos a fim de nos proteger? Quanto a nós não parece ser diferente.
Parece que teria de cair por terra. Por outro lado, eles estão seguros e
orgulhosos, crentes de que já o têm. Também eu estou vendo muito bem que o caro
Cristóvão está afundando. Mesmo assim ele acaba saindo, porque ele tem uma
árvore na qual se segurar. Essa árvore é a promessa de que Cristo quer fazer
algo de especial com nosso sofrimento. "No mundo" diz ele,
"passais por aflições; mas em mim tereis paz" (João 16.33). Da mesma
forma diz S. Paulo: "Nós temos um Deus fiel, que nos ajuda a sair da
tribulação, para que possamos suportá-la" (1 Coríntios 10.13); essas
passagens são varas, sim, árvores em que a pessoa se segura, deixando a água
bramir e rugir quanto quiser.
Assim procuraram pintar para nós uma
imagem e exemplo com o Cristóvão, para nos fortalecer em nosso sofrimento e
para nos ensinar que o desespero e terror não são tão grandes como o consolo e
a promessa; para que saibamos, portanto, que não teremos sossego nesta vida, se
carregarmos a Cristo; mas que, em meio à provação, devemos voltar nossos olhos
deste sofrimento presente para o consolo e a promessa. Então experimentaremos
ser verdade o que Cristo disse: "Em mim tereis paz." (João 16.33)
Pois esta é a arte dos cristãos, da qual todos temos algo a aprender: Olhar
para a palavra e colocar longe dos olhos toda dificuldade e pena presente que
nos oprime. A carne, entretanto, não domina essa arte, ela não enxerga mais
longe que o sofrimento presente. Pois isso também é típico do diabo, afastar a
palavra para longe dos olhos, para que não se olhe senão para a aflição presente,
assim como ele também agora está fazendo conosco. Ele bem que gostaria que
negássemos e esquecêssemos a palavra, e somente olhássemos para o risco que
corre o nosso pescoço por causa do papa" e dos turcos". Se fosse bem
sucedido nesse jogo, ele nos afogaria na aflição, de modo que não enxergaríamos
mais nada a não ser esse rugir e estrugir.
Mas não é para ser assim, pois o que se dá é o seguinte: Se alguém quer
ser cristão e se orienta no sentimento, ele logo vai perder a Cristo. Tire da
cabeça e do coração o sofrimento e a cruz, o mais que puder. Caso contrário, se
a gente o fica ruminando muito tempo, o mal só fica pior. Se você se encontra
em atribulação e sofrimento, diga assim: Esta cruz não fui eu mesmo quem a
escolheu e preparou; é culpa da querida palavra de Deus que estou sofrendo isto
e que eu tenho e ensino a Cristo. Deixe estar, em nome de Deus. Eu deixo que
ele tome as rédeas e dê cabo disso, ele que já de há muito me falou desse
sofrimento e me prometeu sua ajuda divina e misericordiosa.
Se, portanto, você se entregar à
Escritura, sentirá consolo, e todo o seu problema melhorará. No mais não
consegue superá-lo com qualquer resolução, meio ou maneira. Um negociante chega
a deixar casa e quinta, mulher e filhos para ganhar dinheiro e bens. Arrisca o
corpo e a vida em função do lucro desprezível, sem qualquer promessa ou
garantia de voltar com saúde para casa, para junto da mulher e filhos. Ainda
assim tem a audácia e temeridade de se arriscar desprotegido em tal perigo, sem
qualquer promessa. Se um negociante pode fazer isso por causa de dinheiro e
bens, tome vergonha. Pois nós nem queremos carregar uma cruz insignificante, e
ainda assim queremos ser cristãos! Além disso ainda temos a árvore para nela
nos segurar com as mãos, em meio às ondas, ou seja, a palavra e as firmes e
excelentes promessas de que não seremos tragados pelos vagalhões.
Da mesma forma procede também o
cavaleiro: Ele vai para a guerra, onde há tantas lanças, alabardas e bacamartes
dirigidos contra ele, não tendo promessa alguma com a qual se possa consolar,
senão o seu arrojo louco. Ainda assim ele vai. Assim também a vida inteira não deixa
de ser outra coisa senão uma vida dura e sofrida. Da mesma maneira também
procedem os papistas, que não poupam nenhum esforço nem trabalho, só para
restaurar seu horror e idolatria. Quantos planos não fizeram eles desde a época
em que começou o evangelho e ainda hoje continuam sem parar, um depois do
outro, e todos eles retrocederam, e viraram cinzas, também agora. E eles ainda
nutrem a presunção e estão certos de que o podem silenciar com sua ladainha e
reprimir a palavra de Deus, procedendo com pura temeridade.
Se é que negociantes, cavaleiros,
papistas e gentalha dessa espécie podem animar-se a enfrentar e sofrer
semelhante perigo, esforço e trabalho, seria bom que tomássemos vergonha na
cara por rejeitarmos o sofrimento e a cruz. Isso que nós sabemos, em primeiro
lugar, que Deus assim o determinou que devessem sofrer e que não pode ser
diferente; em segundo lugar, sabemos, conforme a nossa promessa e confirmação,
que, mesmo que não sejamos cristãos tão bons como deveríamos ser, e somos
ignorantes e fracos tanto na vida como na fé, Deus ainda assim quer defender
sua palavra, pela simples razão de ser sua palavra. De modo que podemos muito
bem teimar e dizer: Ainda que houvesse quantos papas ou imperadores turcos se
possa imaginar, gostaria de ver se todos eles juntos iriam dar conta daquele
homem que se chama Cristo. O que podem fazer é começar um jogo que está além de
sua habilidade, mas na palavra eles não conseguirão tocar. E isto certa-
mente acontecerá, mesmo que sejamos fracos na fé.
mente acontecerá, mesmo que sejamos fracos na fé.
Esta é a verdadeira arte: atentar em
sofrimento e cruz para a palavra e a promessa consoladora e dar fé às mesmas, como
ele diz: "Em mim tereis paz, no mundo, porém, aflições" (João 16.33),
como se ele quisesse dizer: Não há dúvida de que vocês se defrontarão com
perigos e terrores quando assumirem minha palavra; mas venha o que vier isto
virá sobre vocês e lhes acontecerá por causa de mim.Portanto, fique tranquilos,
eu não os abandonarei. Estarei com vocês e lhes ajudarei. Por maior que seja a
atribulação, ela lhe parecerá insignificante e leve, se puder tirar estes
pensamentos da palavra de Deus. Por isso cada cristão também deve preparar-se,
para que na tribulação se proteja e guarde com as promessas excelentes e
consoladoras que Cristo, nosso Senhor amado, deixou para nós quando sofremos
por causa de sua palavra. Mas se a gente não o fizer, deixando de lado as
palavras consoladoras, quando a cruz chegar, suceder-nos-á como a Eva no
paraíso (Gênesis 3.1-7: Ela tinha o mandamento de Deus, com o qual devia ter rechaçado
o que o diabo lhe insuflava e com que a instigava. Mas o que fez ela? Ela não
se preocupou com a palavra e sim com a ideia de quão delicioso seria aquele
fruto, que essa coisinha insignificante não importaria tanto. E lá se foi ela.
Quando a gente ignora a palavra, também não pode ser diferente. Mas se ficamos
com a palavra e nos atemos a ela, com certeza faremos a experiência de
escaparmos ilesos e sermos vencedores. Estes são os dois pontos que ensinamos
quando pregamos sobre o sofrimento e cruz. E quem nos acusa de nada ensinarmos
da cruz, está sendo injusto conosco. O que não fazemos, entretanto, é
transformar nosso sofrimento em mérito perante Deus. Nada disso, longe de nós tal
ideia! Isso apenas Cristo o fez, e mais ninguém, e por isso somente a ele cabe
a glória.
Em terceiro lugar, também queremos
ver por que nosso Senhor Deus nos manda esse sofrimento. A razão está em que
ele nos quer fazer iguais a Cristo, que nós fiquemos iguais a ele aqui em
sofrimento e lá, na vida além, na glória e magnificência, conforme ele diz:
"Cristo não teve que sofrer e assim entrar para a glória?" (Lucas
24.26) Isso Deus não o pode ocasionar em nós senão através de sofrimento e
tribulação a que ele nos submete através do diabo ou de outra gente perversa.
A outra razão é a seguinte: Mesmo que
Deus não nos quisesse acometer e atormentar, o diabo o quer fazer e não
consegue suportar a palavra; ele, por natureza, é tão maligno e venenoso que
não suporta nada de bom. Ele se incomoda com o fato de uma maçã estar crescendo
numa árvore, fica contrariado e desgostoso por você ter um dedo são. E se
pudesse, derrubaria tudo que há e faria uma grande confusão. Mas, para ele não
existe inimigo maior que a querida palavra, e isso pela seguinte razão: Ele
pode se ocultar em todas as criaturas, somente a palavra é que o desencobre, de
modo que não se possa esconder, mostrando a todo mundo quão negro ele é. Aí ele
reage e se aferra, junta os príncipes com os bispos e julga assim encobrir-se
de novo. Mas de nada adianta, a palavra nem por isso deixa de trazê-lo à luz.
Por isso não descansa. E como o evangelho não o tolera, ele, em contrapartida,
também não o tolera. O negócio é mútuo. E se nosso Deus amado não nos
protegesse por intermédio de seus anjos e nós pudéssemos ver a astúcia, os
ardis e fraudes do diabo, a gente morreria só de ver com quantos bacamartes e
mosquetes ele nos mantém sob sua mira. Mas Deus cuida que errem o alvo.
Desta forma se encontram os dois
poderosos, cada um faz o que está a seu alcance. O diabo trama um infortúnio
atrás do outro, porque ele é um espírito poderoso, maligno e inquieto. Por isso
também está na hora de o Deus amado receber a sua glória. Pois a palavra de que
dispomos é uma palavra fraca e miserável, e nós, os que a temos e promovemos,
também somos gente fraca e miserável e carregamos o tesouro em vaso de barro, o
qual, no dizer de Paulo, (2 Coríntios 4.7) pode quebrar-se e reduzir-se a cacos
com facilidade. Por isso o espírito maligno não poupa esforços e continua à
espreita, para ver se não consegue quebrar o potezinho. Pois se encontra tão perto
do seu nariz que ele não aguenta mais, então é que ele começa, com água e fogo,
para apagar e abafar a centelha pequenina. Aí o nosso Senhor Deus fica observando
um tempinho e nos mete entre a porta e a dobradiça, para que assim aprendamos,
por experiência, que a palavra pequenina, fraca e miserável é mais forte que o
diabo e os portões do inferno. Eles que ataquem a tranca, o diabo com sua tropa; deixe-os atacar, que vão encontrar algo que os fará suar, e ainda assim não o conquistarão, pois é uma rocha, como o chama Cristo (Mateus 16.18), que não pode ser conquistada. Soframos então o que cabe a nós, e poderemos fazer a experiência de que Deus quer estar ao nosso lado, para nos proteger e guardar contra este inimigo com toda a sua tropa.
Em terceiro lugar, também é sumamente
necessário que soframos não só para que Deus comprove sua glória, força e poder
contra o diabo. Também é preciso sofrer pela razão de que o excelente tesouro
que possuímos, quando não está passando necessidade e sofrimento, só nos põe a
roncar e nos torna seguros, como estamos vendo e infelizmente é o caso em
geral. Agora muitos abusam do santo evangelho de uma forma que é uma vergonha e
pecado, como se estivessem libertos de todas as coisas pelo evangelho e nada
mais precisassem fazer, dar e sofrer. Essa maldade nosso Deus não a pode
controlar senão através da cruz. Ele, portanto, tem que nos exercitar e impelir
para que ele cresça e se fortaleça, e nós assim coloquemos mais fundo para
dentro de nós o Salvador. Pois assim como ficar comendo e bebendo não será o melhor
para nós, tampouco tribulação e sofrimento podem sair-se bem". Por isso é
necessário que sejamos atormentados pelo diabo através de perse-guição ou senão
por algum espinho secreto que nos fere o coração, como também se queixa S.
Paulo (2 Coríntios 17.7). Sendo, portanto, melhor que se tenha uma cruz do que
estar sem cruz, ninguém precisa se assustar ou se apavorar com ela. Você tem
uma promessa boa e forte com que se consolar. Senão o evangelho também não pode
se manifestar, senão através e dentro do sofrimento e cruz.
E por último, o sofrimento dos
cristãos é mais nobre e de valor maior que o de todas as outras pessoas, porque
Cristo, tendo-os colocado nesse sofrimento, também santificou o sofrimento de
todos os seus cristãos. Não somos nós uns pobres cretinos? Peregrinamos até
Roma, Tréveris e outros lugares para visitar o santuário; por que não vamos apreciar
também a cruz e o sofrimento que foram muito mais próximos a Cristo e o tocaram
muito mais de perto que qualquer vestimenta em seu corpo?" E o tocaram não
só no corpo, mas no coração. Dessa forma, através do sofrimento de Cristo também
o sofrimento de todos os seus santos se tornou puro santuário, pois está ungido
com o sofrimento de Cristo. Por isso não devemos aceitar todo sofrimento senão
como santuário, pois também é de fato uma coisa sagrada.
Sabendo agora que é do agrado de Deus
que soframos e que a glória de Deus se revela e se torna visível em nosso
sofrimento, mais do que em qualquer outro ponto; e visto que somos do tipo de
gente que sem sofrimento não consegue persistir na palavra e na fé; e ainda
assim tendo, ao lado, a nobre e preciosa promessa de que nossa cruz, a nós enviada por Deus, não é algo
ruim, mas exclusivamente uma coisa sagrada, excelente e nobre, por que nos
haveríamos de negar a sofrer? Quem não quiser sofrer, vá lá e viva como um
latifundiário". Nós pregamos isso apenas aos devotos que querem ser
cristãos. Os outros, de qualquer forma, não o farão; nós, entretanto, temos consolo
e promessa segura de que ele não nos deixará presos no sofrimento, mas que nos ajudará
a nos livrarmos, ainda que todas as pessoas se desesperassem disso. Por isso,
ainda que doa, vamos lá, você tem que sofrer com alguma coisa de qualquer
jeito, pois nem sempre pode estar tudo em ordem. Tanto faz, sim, até é mil
vezes melhor sofrer por causa de Cristo, que nos prometeu consolo e ajuda no
sofrimento, do que sofrer por causa do diabo e cair no desespero e perdição,
sem consolo e ajuda.
Veja, isso é o que ensinamos a
respeito da cruz, e vocês também devem se
acostumar a distinguir zelosamente o sofrimento de Cristo de todos os outros
sofrimentos: aquele é um sofrimento celestial, o nosso é mundano; o sofrimento
dele faz tudo, o nosso nada faz, a não ser que nos dá forma igual a Cristo; o
sofrimento de Cristo é um sofrimento de senhor; o nosso, um sofrimento de
servo. E os que ensinam outra coisa, não sabem o que é o sofrimento de Cristo
nem o que é o nosso sofrer. Motivo: a razão não sabe outra coisa, ela bem que
gostaria de cortejar com seu sofrimento assim como com todas as outras obras, como
se fosse mérito seu. Por isso temos que aprender a distinguir muito bem. Por
esta vez falamos o bastante acerca do exemplo da paixão e do nosso sofrimento.
Deus conceda que o compre-endamos bem e o aprendamos. Amém.
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